Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Yud-Alef (HaZorek)
גּוּד אַחֵית מְחִיצָתָא

A baraita sobre o barco continua com Rabi Yehuda distinguindo profundidade e altura, de onde se aprende que o poder de alguém num carmelit não foi proibido; Rav Huna sobre as pequenas embarcações de Meishã; o desafio de Rav Nachman com “estende para baixo a partição”, a objeção de Rav Yosef e a contraprova de Abaye, resolvidas pela distinção entre partições que cabras atravessam e as que peixes atravessam

Shabbat 101a abre continuando exatamente a baraita interrompida ao final de 100b, com o ensinamento de Rabi Yehuda sobre o barco; a Guemará analisa essa baraita e aprende dela que o poder de alguém, agindo indiretamente, num carmelit não foi proibido pelos Sábios; Rav Huna ensina sobre as pequenas embarcações estreitas de Meishã; Rav Nachman desafia com o princípio de “estende para baixo a partição” a partir do caso da cana com um cesto na ponta; Rav Yosef objeta a partir de uma tradição em que os Sábios isentam, e Abaye responde com uma contraprova da coluna no domínio público; e a folha termina com a resolução de Abaye, distinguindo entre partições que cabras atravessam por baixo e as que não, a pergunta de Rav Acha sobre peixes que atravessam por baixo do barco, respondida por Rav Ashi, e a prova trazida da pergunta de Rabi Tavla a Rav sobre a partição suspensa numa ruína.

101a abre continuando exatamente a baraita interrompida ao final de 100b: quanto a um barco, não se carrega nem de dentro dele para o mar, nem do mar para dentro dele. Rabi Yehuda acrescenta uma distinção: se o barco é profundo dez palmos e não alto dez palmos acima da água, carrega-se de dentro dele para o mar, mas não do mar para dentro dele. A Guemará questiona a diferença entre as duas direções — já que ambas pareceriam envolver carregar entre um carmelit e um domínio privado — e resolve que a permissão de Rabi Yehuda se refere a despejar água sobre a borda do barco, de onde ela desce sozinha até o mar; daí se aprende que o poder de alguém, agindo indiretamente, num carmelit não foi decretado como proibido pelos Sábios. Rav Huna ensina, a seguir, sobre as pequenas embarcações estreitas de Meishã, que se afinam como uma lâmina em sua base: não se carrega nelas senão dentro de quatro côvados, a menos que a largura de quatro palmos já se atinja antes dos três palmos de altura a partir do fundo, ou que estejam cheias de canas e ramos de salgueiro até o ponto de sua largura. Rav Nachman objeta que deveria bastar o princípio de “estende para baixo a partição” (gud achit mechitzata), citando a baraita da cana fincada no domínio público com um cesto em sua ponta, onde esse princípio de fato se aplica. Rav Yosef contesta, citando a tradição de Rav Yehuda em nome de Rav, transmitida em nome de Rabi Chiya, segundo a qual os Sábios isentam nesse mesmo caso do cesto sobre a cana — sugerindo que não se diz “estende para baixo a partição”. Abaye responde com outra baraita, sobre uma coluna no domínio público cuja base não tem quatro palmos de largura, onde o princípio claramente se aplica. A folha termina com a resolução de Abaye: no caso do cesto sobre a cana, as cabras atravessam por baixo da partição estendida, invalidando-a como partição suspensa; no caso da coluna — e do barco — nada atravessa por baixo, e a partição é válida. Rav Acha, filho de Rav Acha, pergunta a Rav Ashi se os peixes que atravessam sob o barco não deveriam invalidar sua partição da mesma forma; Rav Ashi responde que a passagem de peixes não tem o nome de passagem, pois não são vistos — e traz como prova a pergunta de Rabi Tavla a Rav sobre se uma partição suspensa permitiria carregar numa ruína, ao que Rav respondeu que uma partição suspensa não permite. A folha termina aqui; 101b, quando publicada, deverá continuar a partir dessa prova.

A baraita sobre o barco continua: Rabi Yehuda distingue profundidade e altura; aprende-se que o poder num carmelit não foi proibido · עֲמוקָּה עֲשָׂרָה וְאֵין גְבוהָ עֲשָׂרָה

326A baraita continua: Rabi Yehuda distingue profundidade e altura do barco; a Guemará pergunta a diferença e resolve que se trata da borda; aprende-se daí que o poder num carmelit não foi proibido
Rabi Yehuda; a Guemará
רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: עֲמוּקָּה עֲשָׂרָה, וְאֵין גְּבוֹהָה עֲשָׂרָה — מִטַּלְטְלִין מִתּוֹכָהּ לַיָּם, אֲבָל לֹא מִן הַיָּם לְתוֹכָהּ. מַאי שְׁנָא מִן הַיָּם לְתוֹכָהּ דְּלָא — דְּקָא מְטַלְטְלִין מִכַּרְמְלִית לִרְשׁוּת הַיָּחִיד, מִתּוֹכָהּ לַיָּם — נָמֵי קָמְטַלְטֵל מֵרְשׁוּת הַיָּחִיד לְכַרְמְלִית! אֶלָּא לָאו אַחוּדָּהּ. וּשְׁמַע מִינַּהּ כֹּחוֹ בְּכַרְמְלִית לָא גְּזַרוּ. שְׁמַע מִינַּהּ.

Rabi Yehuda diz: sendo o barco profundo dez palmos, e não alto dez palmos, carrega-se de dentro dele para o mar, mas não do mar para dentro dele. Qual é a diferença, que do mar para dentro dele não se carrega — porque isso seria carregar de um carmelit para um domínio privado; de dentro dele para o mar — também seria carregar de um domínio privado para um carmelit! Mas, não é apenas sobre sua borda que isso se refere? E aprende-se daí que o poder de alguém, agindo indiretamente, num carmelit não decretaram proibir. Aprende-se daí.

Nota — a baraita continua

A baraita interrompida ao final de 100b continua exatamente aqui, com o acréscimo de Rabi Yehuda: quanto a um barco profundo dez palmos e não alto dez palmos acima da água — de modo que seu interior tem status de domínio privado, mas sua borda não se ergue tanto acima da água — carrega-se de dentro dele para o mar, mas não do mar para dentro dele. A Guemará pergunta: qual é a diferença entre as duas direções? Em ambos os casos, parece que se estaria carregando entre um carmelit (o mar) e um domínio privado (o interior do barco), o que deveria ser igualmente proibido nos dois sentidos. A Guemará resolve: a permissão de Rabi Yehuda não se refere a carregar diretamente de dentro do barco para o mar, mas a despejar água de despejo sobre a própria borda do barco, de onde ela desce sozinha, por gravidade, através das paredes, até o mar — sem que a pessoa a lance diretamente no mar. Disso se aprende um princípio importante, que será usado adiante: o poder de alguém — isto é, o resultado indireto de sua ação, quando o objeto não é lançado diretamente ao destino final, mas chega lá por conta própria — num carmelit, os Sábios não decretaram proibição contra isso, mesmo quando, tecnicamente, o efeito final é equivalente a transferir de um domínio a outro.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "amuka", "eino gvoha", "metaltelin mitocha layam", "aval lo min hayam letocha" e "ela lav achuda"
עמוקה - הספינה: עשרה - לתוכה דהוה רשות היחיד: ואין גבוה - שפתה י' מן המים כגון שמשוקעת במים מכובד משאה: מטלטלים מתוכה לים - דרך דופנותיה כגון שופכין כדמפרש ואזיל דכחו בכרמלית לא גזרו: אבל לא מן הים לתוכה - דאין תשמיש מן הים לתוכה דרך דפנות שאם ימלא וישליך על הדפנות ירדו לקרקעית הספינה ולהכי נקט עמוקה י' דאי אינה עמוקה י' היא גופה כרמלית ומטלטל להדיא אף מן הים לתוכה ואין גבוהה נמי י' דוקא נקט דאי גבוהה י' מותר לטלטל מן הים לתוכה דמכרמלית לרה"י דרך מקום פטור קא מטלטל דצריך להגביה את ידו למעלה מי' ואע"ג דברשות דאורייתא מרה"ר לרה"י מיחייב בכה"ג (לעיל שבת דף ח.) כרמלית מיהא דרבנן היא ולא גזור: אלא לאו אחודה - שופך שופכים על חודה והן יורדין דרך דפנותיה לים:

"'Profunda'" — refere-se ao barco. "'Dez'" — isto é, dentro dele, que assim é domínio privado. "'E não alto'" — isto é, sua borda não se ergue dez palmos acima da água, como quando o barco está afundado na água pelo peso de sua carga. "'Carrega-se de dentro dele para o mar'" — através de suas paredes, como no caso da água de despejo, como a Guemará explicará adiante, pois o poder de alguém num carmelit não decretaram proibi-lo. "'Mas não do mar para dentro dele'" — porque não há uso do mar para dentro dele através das paredes, pois, se a pessoa enchesse um recipiente e o lançasse sobre as paredes, a água desceria até o fundo do barco; e por isso a baraita menciona especificamente "profunda dez palmos" — pois, se o barco não fosse profundo dez palmos, ele mesmo seria carmelit, e a pessoa carregaria abertamente até mesmo do mar para dentro dele; e menciona também especificamente "e não alta dez palmos" — pois, se o barco fosse alto dez palmos, seria permitido carregar do mar para dentro dele, porque a pessoa estaria carregando de um carmelit para um domínio privado através de um lugar isento, já que precisaria erguer a mão acima de dez palmos; e, ainda que, por lei da Torá, carregar de domínio público para domínio privado dessa maneira torne a pessoa responsável (acima, Shabat 8a), o carmelit, de qualquer forma, é proibição rabínica, e não decretaram proibi-lo neste caso. "'Mas não é sobre sua borda'" — isto é, a pessoa despeja a água de despejo sobre sua borda, e ela desce através de suas paredes para o mar.

Rav Huna: as pequenas embarcações de Meishã · בִּיצִּיָוֹתָא דְמֵישָן

327Rav Huna: nas pequenas embarcações estreitas de Meishã, só se carrega dentro de quatro côvados, salvo se a largura de quatro chega antes dos três palmos de altura, ou se estão cheias de canas e salgueiros
Rav Huna
אָמַר רַב הוּנָא: הָנֵי בִּיצִיָּאתָא דְמֵישָׁן אֵין מְטַלְטְלִין בָּהֶן אֶלָּא בְּאַרְבַּע [אַמּוֹת]. וְלָא אֲמַרַן אֶלָּא שֶׁאֵין בְּפָחוֹת מִשְּׁלֹשָׁה אַרְבָּעָה, אֲבָל יֵשׁ בְּפָחוֹת מִשְּׁלֹשָׁה אַרְבָּעָה — לֵית לַן בַּהּ. וְאִי מְלָנְהוּ קְנֵי וְאוּרְבָּנֵי — לֵית לַן בַּהּ.

Rav Huna disse: essas pequenas embarcações de Meishã, não se carrega nelas senão dentro de quatro côvados. E não dissemos isso senão quando não há, em uma altura de menos de três palmos, quatro palmos de largura; mas se há, em menos de três palmos de altura, quatro palmos de largura — não temos problema com isso. E se as embarcações estão cheias de canas e ramos de salgueiro até o ponto de sua largura — não temos problema com isso.

Nota

Rav Huna volta-se para outro tipo de embarcação: as pequenas barcas estreitas da região de Meishã, que se afinam na base como o fio de uma faca, sem largura de quatro palmos junto ao fundo. Como suas paredes inferiores não têm a largura mínima exigida para constituir uma partição válida, essas embarcações não têm status pleno de domínio privado; por isso, não se carrega dentro delas senão dentro do limite de quatro côvados, como em qualquer carmelit. Rav Huna esclarece o alcance dessa regra: ela vale apenas quando, na altura de até três palmos a partir do fundo, a embarcação ainda não atingiu quatro palmos de largura — pois então, mesmo aplicando o princípio de somar (lavud) as partes próximas, as paredes inferiores não se qualificam como partição. Mas se, antes de completar três palmos de altura a partir do fundo, o casco já se alargou para quatro palmos, então — por lavud — é como se o fundo da embarcação já começasse ali, e as paredes acima desse ponto são partições válidas, tornando toda a embarcação domínio privado pleno. E, da mesma forma, se as embarcações estão cheias de canas e ramos finos de salgueiro até o ponto onde alcançam quatro palmos de largura, esse enchimento cria efetivamente um novo fundo naquele nível, tornando as paredes acima dele partições válidas.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "bitziata", "ein metaltelin betochan", "vela amran ela", "aval yesh bifachot" e "orvanei"
ביצאתא - ספינות קטנות וקצרות מלמטה עד כחודו של סכין שקורין קוייט"י: אין מטלטלין בתוכן - דלאו רה"י נינהו שאין ברחבן ארבע מלמטה לפיכך אין מחיצותיהן מחיצות: ולא אמרן אלא - בשקצה שלהן גבוה שלש שאין רחב ד' למטה בעוד שלא הגביה ג' מקרקעיתו ואפי' יש ברחבו י' גובה לא משתרי דכיון דתחתונות לאו מחיצה נינהו הוה ליה תלויה: אבל יש בפחות מג' גובה רוחב ד' - שעד שלא הגביהו ג' הרחיבו ד' הרי הן כמי שקרקעיתן עולה עד כאן ומחיצותיהן מחיצות: אורבני - ערבה דקה: ואי מלינהו - עד מקום רחבן הרי הן כשרות לטלטל אם יש משפת רוחבן ולמעלה י':

"'Bitziata'" — pequenas embarcações, curtas e estreitas na parte de baixo, até a espessura do fio de uma faca, que chamam de "quveiti". "'Não se carrega dentro delas'" — pois não são domínio privado, já que não têm quatro palmos de largura na parte inferior; por isso suas paredes não são partições válidas. "'E não dissemos isso senão'" — quando a parte estreita delas é alta três palmos, isto é, não tem largura de quatro palmos na parte de baixo, enquanto a embarcação ainda não se ergueu três palmos do fundo; e mesmo que haja dez palmos de altura em sua largura total, não se permite, pois, já que as partes inferiores não são partição válida, ela é considerada suspensa. "'Mas se há, em menos de três, largura de quatro'" — isto é, se, antes de se erguer três palmos, a embarcação já se alargou para quatro palmos, então é como se seu fundo se erguesse até ali, e suas paredes acima desse ponto são partições válidas. "'Urvanei'" — salgueiro fino. "'E se as encheram'" — até o ponto de sua largura, as embarcações ficam aptas para carregar dentro delas, se, a partir da borda de sua largura para cima, há dez palmos.

O desafio de Rav Nachman: "estende para baixo a partição", a objeção de Rav Yosef, e a distinção entre cabras e peixes que atravessam por baixo · גּוּד אַחֵית מְחִיצָתָא

328Rav Nachman objeta: por que não dizer "estende para baixo a partição"? A baraita sobre a cana com um cesto na ponta, no domínio público, mostra que se aplica esse princípio
Rav Nachman
מַתְקֵיף לַהּ רַב נַחְמָן, וְלֵימָא גּוּד אַחֵית מְחִיצָתָא! מִי לָא תַּנְיָא, רַבִּי יוֹסֵי בְּרַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: נָעַץ קָנֶה בִּרְשׁוּת הָרַבִּים וּבְרֹאשׁוֹ טְרַסְקָל, וְזָרַק וְנָח עַל גַּבָּיו — חַיָּיב. אַלְמָא אָמְרִינַן גּוּד אַחֵית מְחִיצָתָא. הָכָא נָמֵי נֵימָא גּוּד אַחֵית מְחִיצָתָא!

Rav Nachman objetou: e diga-se o princípio de "estende para baixo a partição"! Não foi ensinado numa baraita: Rabi Yossei, filho de Rabi Yehuda, diz: se alguém fincou uma cana no domínio público, e em sua ponta havia um cesto, e alguém lançou um objeto e ele pousou sobre ele — é responsável? Isso mostra que dizemos o princípio de "estende para baixo a partição". Aqui também, digamos o princípio de "estende para baixo a partição"!

Nota

Rav Nachman objeta contra a regra de Rav Huna: por que exigir que a largura de quatro palmos já esteja presente dentro dos três primeiros palmos de altura? Não deveríamos simplesmente aplicar o princípio de "estende para baixo a partição" (gud achit mechitzata) — segundo o qual se imagina que as paredes superiores, mais largas, se estendem verticalmente para baixo até o fundo, criando ali uma partição válida mesmo onde o casco real é mais estreito? Como prova de que esse princípio é aplicado, Rav Nachman cita uma baraita: se alguém fincou uma cana — que não tem quatro palmos de largura — no domínio público, e em sua ponta havia um cesto (recipiente de bordas largas, com pelo menos quatro palmos), e alguém lançou um objeto do domínio público que pousou sobre o cesto, essa pessoa é responsável, como se tivesse lançado para dentro de um domínio privado pleno. Isso só é possível aplicando "estende para baixo a partição": as paredes largas do cesto são imaginadas descendo verticalmente até o chão, cercando a cana fina e criando, assim, um domínio privado que se ergue do chão até a altura do cesto. Se esse princípio se aplica ali, pergunta Rav Nachman, por que não aplicá-lo também às pequenas embarcações de Meishã, considerando suas paredes superiores (mais largas) como se descessem até o fundo, validando toda a embarcação como domínio privado, independentemente de onde a largura de quatro palmos é efetivamente atingida?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "velema gud achit" e "tarsekal"
ולימא גוד אחית - מכנגד מדת רחבן העליון ולמטה כאילו הן יורדות עד הקרקע מבחוץ: טרסקל - אין עמוק י' ואנו מודדים לו גובה י' שמדת הקנה עולה לו בגובהו והקנה אין רחב ארבעה אלא שאנו אומרים במחיצות הטרסקל גוד אחית ונמצאו מקיפות את הקנה והוו להו היקף המחיצות מן הקרקע ולמעלה לשוייה ראשו רה"י ואם זרק מרה"ר ונח על גביו חייב:

"'E diga-se, estende para baixo'" — a partir da medida de sua largura superior, e para baixo, como se as paredes descessem até o chão, por fora. "'Um cesto'" — não é fundo dez palmos, mas medimos para ele altura de dez, pois a medida da cana se soma à sua altura; e a cana não tem quatro palmos de largura, mas dizemos, quanto às paredes do cesto, "estende para baixo a partição", e elas passam a circundar a cana; e assim o cercado das paredes, do chão para cima, faz de seu topo domínio privado; e se alguém lançou do domínio público e o objeto pousou sobre ele, é responsável.

329Rav Yosef objeta a partir da tradição de que os Sábios isentam nesse mesmo caso; Abaye responde com a baraita da coluna no domínio público, onde também se aplica "estende para baixo a partição"
Rav Yosef; Abaye
מַתְקֵיף לַהּ רַב יוֹסֵף: וְלָא שְׁמִיעָא לְהוּ לְהָא דְּאָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר רַב, וּמָטוּ בָּהּ מִשּׁוּם רַבִּי חִיָּיא, וְתָנֵי עֲלַהּ: וַחֲכָמִים פּוֹטְרִין. אֲמַר לֵיהּ אַבָּיֵי: וְאַתְּ לָא תִּסְבְּרָא? וְהָתַנְיָא: עַמּוּד בִּרְשׁוּת הָרַבִּים גָּבוֹהַּ עֲשָׂרָה וְרָחָב אַרְבָּעָה, וְאֵין בְּעִיקָּרוֹ אַרְבָּעָה, וְיֵשׁ בַּקָּצָר שֶׁלּוֹ שְׁלֹשָׁה, וְזָרַק וְנָח עַל גַּבָּיו — חַיָּיב. אַלְמָא אָמְרִינַן: גּוּד אַחֵית מְחִיצָתָא. הָכָא נָמֵי: גּוּד אַחֵית מְחִיצָתָא.

Rav Yosef objetou: e não ouviram a respeito daquilo que disse Rav Yehuda em nome de Rav — e transmitiram-no em nome de Rabi Chiya —, e foi ensinado a respeito disso: e os Sábios isentam? Abaye lhe disse: e tu não sustentas isso? Não foi ensinado numa baraita: se havia uma coluna no domínio público, alta dez palmos e larga quatro palmos, mas não há em sua base largura de quatro palmos, e há em sua parte estreita três palmos de altura, e alguém lançou um objeto e ele pousou sobre ela — é responsável? Isso mostra que dizemos: o princípio de "estende para baixo a partição". Aqui também: o princípio de "estende para baixo a partição".

Nota

Rav Yosef contesta a objeção de Rav Nachman: será que ele não ouviu o ensinamento transmitido por Rav Yehuda em nome de Rav — em nome de Rabi Chiya —, segundo o qual, a respeito desse mesmo caso da cana com o cesto na ponta, foi ensinado que os Sábios isentam quem lança e pousa sobre ele? Se os Sábios isentam nesse caso, é sinal de que não se aplica ali o princípio de "estende para baixo a partição" — contrariando a leitura que Rav Nachman fez da baraita de Rabi Yossei, filho de Rabi Yehuda, e enfraquecendo sua objeção contra Rav Huna. Abaye responde a Rav Yosef com uma contraprova: existe outra baraita, que ensina sobre uma coluna erguida no domínio público, alta dez palmos e larga quatro palmos no topo, mas cuja base não tem quatro palmos de largura — apenas na parte mais estreita, próxima ao chão, há uma seção de três palmos de altura sem essa largura. Mesmo assim, quem lança um objeto do domínio público e ele pousa no topo da coluna é responsável, como se tivesse lançado para dentro de um domínio privado pleno. Isso prova que se aplica ali "estende para baixo a partição" — as paredes largas do topo são consideradas como se descessem verticalmente até o chão, validando a coluna inteira como domínio privado, apesar do estreitamento em sua base. Abaye conclui: se esse princípio se aplica à coluna, deveria aplicar-se igualmente ao caso do cesto sobre a cana — reabrindo a contradição entre as duas baraitot, que será resolvida a seguir.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "umatu bah", "vachachamim potrin", "ve'at lo tisbera" e "ve'ein be'ikaro"
ומטו בה - יש שמטין בדבר להכריע ולומר שר' חייא אמר: וחכמים פוטרין - אלמא לא אמרי' גוד אחית להתיר מחיצה תלויה: ואת לא תיסברא - דאמרי' כה"ג: ואין בעיקרו - רחב ד': ויש בקצר שלו ג' - אותו קצר של עיקרו שאינו רחב ד' יש בו גובה ג' והיינו רבותא דליכא למימר לבוד ממקום שכלה רחבו לקרקע אפ"ה הוי רה"י: דאמרי' גוד אחית מחיצה - סביב מחיצותיה מכנגד רחבה ולמטה כאילו הוא כולו שוה: ה"נ - בביציתא דמישן נמי נימא גוד אחית:

"'E transmitiram-no'" — há quem transmita a coisa para decidir a autoria da tradição e dizer que foi Rabi Chiya quem disse. "'E os Sábios isentam'" — o que mostra que não dizemos "estende para baixo a partição" para permitir uma partição suspensa. "'E tu não sustentas isso'" — que dizemos o princípio nesse tipo de caso. "'E não há em sua base'" — largura de quatro palmos. "'E há em sua parte estreita três'" — aquela seção estreita de sua base, que não tem quatro palmos de largura, tem três palmos de altura; e essa é a novidade do caso, pois não há como dizer que se aplica o princípio de lavud a partir do ponto onde a coluna deixa de ter quatro palmos de largura até o chão, mas mesmo assim ela é domínio privado. "'Que dizemos, estende para baixo a partição'" — em torno de suas paredes, a partir da medida de sua largura, para baixo, como se a coluna fosse toda igual em largura, do topo ao chão. "'Aqui também'" — nas pequenas embarcações de Meishã também, digamos o princípio de "estende para baixo".

330Abaye resolve a contradição: no caso do cesto sobre a cana, as cabras atravessam por baixo da partição estendida; no caso da coluna, nada atravessa por baixo
Abaye
מִידֵּי אִירְיָא?! הָתָם הָוְיָא לַהּ מְחִיצָה שֶׁהַגְּדָיִים בּוֹקְעִין בָּהּ. הָכָא הָוְיָא לַהּ מְחִיצָה שֶׁאֵין הַגְּדָיִים בּוֹקְעִין בָּהּ.

Mas é isso comparável?! Ali no caso do cesto sobre a cana, trata-se de uma partição que as cabras atravessam por baixo dela. Aqui no caso da coluna, trata-se de uma partição que as cabras não atravessam por baixo dela.

Nota

Abaye resolve a contradição que ele próprio havia levantado: os dois casos não são comparáveis. No caso do cesto sobre a cana, a partição "estendida para baixo" existe apenas no ar, ao redor da cana fina; embaixo dela, junto ao chão, não há nada que impeça a passagem — e, de fato, cabras conseguem atravessar por baixo daquela partição imaginária, entrando e saindo livremente do espaço que ela deveria delimitar. Uma partição que animais atravessam por baixo dela não é considerada uma partição válida quando é meramente "suspensa" (isto é, quando ela não corresponde a uma barreira física contínua até o chão) — e por isso, nesse caso, os Sábios isentam: não se aplica "estende para baixo a partição". No caso da coluna, por outro lado, embora sua base também seja mais estreita que seu topo, não há espaço para que cabras — ou qualquer outra coisa — atravessem por baixo da partição imaginada, pois a coluna, mesmo estreita, ocupa fisicamente aquele espaço junto ao chão, apenas sem a largura plena de quatro palmos. Por isso, ali, "estende para baixo a partição" se aplica normalmente, e a coluna inteira tem status de domínio privado. A mesma distinção, prossegue a Guemará, esclarece o caso do barco e das pequenas embarcações de Meishã.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "midi irya hatam" e "mishum dehavya mechitza shehagediyim boke'in bah"
מידי איריא התם כו' - כולה אביי אמר לה לרב יוסף דהא דמייתי ראיה וחכמים פוטרים כלום ראי' היא לכאן הא דטרסקל דקפטרי רבנן: משום דהויא מחיצה שהגדיים בוקעין בה - מלמטה בארץ תחת מחיצות הטרסקל שהם פשוטות להלן מן הקנה לכל צד ובקיעת גדיים מעכבת מלמימר גוד אחית מחיצתא שהרי עוברין תחתיה אבל בספינה ליכא בקיעת גדיים שאין לך עובר תחתיהן וכן בעמוד אין דרך להתחכך בו ולעבור תחת שיפועו שאינו אלא מעט:

"'Mas é isso comparável? Ali'" etc. — tudo isto Abaye disse a Rav Yosef: que a prova que ele trouxe, de que os Sábios isentam, não é de forma alguma prova relevante para o caso daqui; aquele caso do cesto, onde os Sábios isentam, é diferente. "'Porque trata-se de uma partição que as cabras atravessam por baixo dela'" — por baixo, no chão, sob as paredes do cesto, que se estendem para além da cana, para todos os lados; e a passagem das cabras por baixo impede que se diga "estende para baixo a partição", pois elas passam por baixo dela. Mas no caso do barco não há passagem de cabras por baixo, pois não há quem passe por baixo de suas paredes; e da mesma forma, na coluna, não é costume roçar nela e passar por baixo de seu declive, que é apenas pequeno.

331Rav Acha pergunta a Rav Ashi: e os peixes que atravessam por baixo do barco? Resposta: a passagem de peixes não tem o nome de passagem, provado pela pergunta de Rabi Tavla a Rav sobre a partição suspensa numa ruína
Rav Acha; Rav Ashi; Rabi Tavla; Rav
אֲמַר לֵיהּ רַב אַחָא בְּרֵיהּ דְּרַב אַחָא לְרַב אָשֵׁי: גַּבֵּי סְפִינָה נָמֵי, הָא אִיכָּא בְּקִיעַת דָּגִים! אֲמַר לֵיהּ: בְּקִיעַת דָּגִים לֹא שְׁמָהּ בְּקִיעָה. וּמְנָא תֵּימְרָא? — דִּבְעָא מִינֵּיהּ רַבִּי טַבְלָא מֵרַב: מְחִיצָה תְּלוּיָה מַהוּ שֶׁתַּתִּיר בְּחוּרְבָּה? וַאֲמַר לֵיהּ: אֵין מְחִיצָה תְּלוּיָה מַתֶּרֶת.

Rav Acha, filho de Rav Acha, disse a Rav Ashi: quanto ao barco também, não há o mesmo problema, pois há passagem de peixes por baixo dele! Ele lhe disse: a passagem de peixes não tem o nome de passagem. E de onde dizes isso? — pois Rabi Tavla perguntou a Rav: uma partição suspensa, permite ela carregar numa ruína? E ele lhe disse: uma partição suspensa não permite.

Nota — a folha termina aqui

Rav Acha, filho de Rav Acha, levanta uma última dificuldade: se a distinção de Abaye depende de haver ou não passagem por baixo da partição, então o próprio barco deveria ter problema — pois peixes atravessam livremente por baixo do casco, no espaço entre o fundo do barco e o leito do mar! Isso não deveria, pela mesma lógica do cesto sobre a cana, invalidar a partição das paredes do barco como suspensa? Rav Ashi responde: a passagem de peixes não tem o nome de passagem, porque os peixes não são vistos atravessando — ao contrário das cabras, cuja passagem visível sob a partição a desqualifica. Como prova de que uma passagem invisível não invalida a partição, a Guemará traz a pergunta que Rabi Tavla certa vez fez a Rav: uma partição suspensa — isto é, uma parede cuja base caiu, mas que permanece de pé, presa no alto, como costuma acontecer numa ruína — permite carregar dentro do espaço que ela demarca? Rav respondeu que uma partição suspensa, em geral, não permite; ela é inválida justamente porque, faltando a base, há um espaço visivelmente aberto por onde qualquer um poderia entrar. Essa resposta de Rav, em contraste com o caso das paredes do barco, confirma o princípio: o que invalida uma partição suspensa é a existência de uma abertura visível e transitável por baixo dela — como a passagem de cabras, ou como o vão aberto numa ruína. Mas onde não há passagem visível — como no caso dos peixes, que se movem sem serem vistos — a partição continua válida, mesmo que, tecnicamente, não alcance o fundo do mar. A folha termina aqui, em pleno desenvolvimento desta prova trazida da pergunta de Rabi Tavla a Rav; sua continuação segue em Shabbat 101b.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "bekiat dagim lo shema bekia", "bechurva" e "mahu shetatir"
בקיעת דגים לא שמה בקיעה - לפי שאינן נראין: בחורבה - שדרך להיות בה מחיצות שנפלו תחתיהן וקיימות מלמעלה ותלויות: מהו שתתיר - לטלטל בחורבה שלא תהא כפרוצה לרה"ר:

"'A passagem de peixes não tem o nome de passagem'" — porque os peixes não são vistos atravessando. "'Numa ruína'" — lugar onde é costume haver partições cuja parte de baixo caiu, mas permanecem de pé na parte de cima, suspensas. "'Permite ela'" — isto é, carregar na ruína, para que esta não seja considerada como aberta ao domínio público.