O daf continua a citação com que terminou Eruvin 60b: Rava mostra que as duas regras de Rabi Yehoshua ben Levi estão na mishná dos homens de uma cidade grande, que percorrem toda uma cidade pequena, enquanto os de uma cidade pequena não percorrem toda uma cidade grande, porque para uns a medida termina no fim da cidade e para os outros no meio. Rabi Idi, porém, lê “os homens… os homens” nas duas cláusulas e entende a mishná como fala de quem pôs o eruv na outra cidade; a guemará lhe objeta com a cláusula da caverna e conclui que só o caso do fim da cidade não estava na mishná. Rav Nachman aceita as duas leituras. Segue-se a regra de Rav Huna sobre a cidade à beira de um vale, que só mede a partir da beira se tiver uma daká de quatro amot, e a baraita de Gader e Chamatan, explicada pela daká, pela violência dos de Gader, pela cidade em forma de arco ou pela cidade grande e a pequena. O daf termina com a nova mishná (Mishná Eruvin 5:8–5:9): os homens de uma cidade grande e da pequena, a divergência de Rabi Akiva, a caverna habitada e quem mede a partir de fora.
E a mishná continua: “…e os homens de uma cidade pequena não percorrem toda uma cidade grande”, como se fosse quatro amot.
“E os homens de uma cidade pequena não percorrem a grande” — isto é, toda ela como quatro amot, porque a cidade lhes entra na medida dos techumin (limites de Shabat).
O bloco continua a citação com que terminou Eruvin 60b (bloco 2125): Rava mostra que as duas regras de Rabi Yehoshua ben Levi se aprendem na Mishná Eruvin 5:8 (conferida), e aqui traz a sua segunda cláusula, “וְאֵין אַנְשֵׁי עִיר קְטַנָּה”, “e os homens de uma cidade pequena não”, que é também a redação da edição avulsa da Mishná. Segundo o Rashi, não percorrem a cidade grande toda ela como quatro amot, porque a cidade lhes entra na medida do techum. O lema do Rashi diz “את הגדולה”, “a grande”, onde a guemará diz “אֶת כׇּל עִיר גְּדוֹלָה”, “toda uma cidade grande”. A mishná que o Talmud traz no fim deste daf (bloco 2145) diz “וְאַנְשֵׁי עִיר קְטַנָּה מְהַלְּכִין”, sem “não”: é a leitura atribuída a Rabi Idi no bloco 2128. A tradução de referência entende do mesmo modo.
Qual é a razão? Não é porque estes, os homens da cidade pequena, a sua medida terminou no meio da cidade grande, e estes, os homens da cidade grande, a sua medida terminou no fim da cidade pequena?
Rava conclui a sua prova: a mishná distingue entre os homens da cidade grande e os da cidade pequena só porque, para uns, as duas mil amot terminam no meio da outra cidade e, para os outros, no fim dela; é exatamente a regra de Rabi Yehoshua ben Levi (Eruvin 60b, bloco 2123), e por isso não há nela profecia. O Rashi explicou o raciocínio no comentário a “Disse Rava” (Eruvin 60b, bloco 2125). “Estes… e estes” traduz “הָנֵי… וְהָנֵי”; quem é quem não está dito, e o completamos segundo o sentido. A tradução de referência entende do mesmo modo.
E Rabi Idi ensina “anshei… anshei” (os homens… os homens), sem “não”, e a estabelece em quem põe o seu eruv na outra cidade; mas sobre quem mede não aprendemos nada.
“E Rabi Idi” — que disse que são palavras de profecia: “os homens… os homens”, como se ensina na mishná; nas duas cláusulas ele ensina “percorrem”, e a estabelece em quem põe o seu eruv na cidade, como se explica na mishná: “Como? Quem estava numa cidade grande e pôs o seu eruv numa cidade pequena”, vizinha a ela, dentro de duas mil amot, “percorre toda ela”, pois o eruv lhe adquire a cidade inteira como quatro amot, como se ele tivesse repousado ali. E Rava ensina “ein anshei” (os homens não), como se diz adiante: “Quem ensina ‘ein anshei’ não erra.”
“Mas sobre quem mede” — de fora da cidade, e vem à cidade, não aprendemos coisa alguma na mishná: nenhuma distinção entre a medida que terminou no meio dela e a que terminou no fim dela.
A guemará explica como Rabi Idi pôde chamar a regra de “palavras de profecia” (Eruvin 60b, bloco 2124): na sua versão, a mishná diz “os homens” nas duas cláusulas, isto é, também os homens da cidade pequena percorrem toda a cidade grande, e trata de quem pôs o seu eruv na outra cidade, como explica a própria mishná (“Como? Quem estava numa cidade grande…”, bloco 2145); sobre quem mede a partir de fora, não há mishná, e a distinção entre o meio e o fim da cidade fica sem fonte. Segundo o Rashi, o eruv adquire para ele a cidade inteira como quatro amot, como se tivesse repousado ali; e Rava ensina “ein anshei”, como dirá Rav Nachman (bloco 2131). O Rashi escreve “דברי נבואה”, onde a guemará de Eruvin 60b diz “דִּבְרֵי נְבִיאוּת”, e “ומוקי”, onde a guemará diz “וּמוֹקֵים”. A tradução de referência entende do mesmo modo.
A guemará pergunta: E não aprendemos sobre quem mede?! Mas não aprendemos: “E ao que mede, de quem disseram que se lhe dão duas mil amot: que, mesmo se o fim da sua medida termina numa caverna, não passa dali”!
“E ao que mede” — a partir do lugar da sua shevitá (lugar de repouso de Shabat) ou a partir do lugar do seu eruv, de quem disseram que se lhe dão duas mil amot: mesmo se o fim da medida das duas mil termina numa caverna, não entre nela das duas mil em diante. Vê-se que o caso em que a sua medida terminou no meio da cidade, nós o aprendemos: que a medida da cidade lhe entra no cálculo; e que profecia há nisso?
A guemará objeta com a última cláusula da mesma mishná (Mishná Eruvin 5:9; conferida), que o Talmud traz no bloco 2148: quem mede as suas duas mil amot e as vê terminar dentro de uma caverna não entra nela além da medida. Segundo o Rashi, é o mesmo caso da medida que termina no meio da cidade: a mishná ensina que a medida da cidade entra no cálculo, e então não há aqui profecia. A citação diz “נוֹתְנִין לוֹ אַלְפַּיִם אַמָּה”; a mishná do bloco 2148 diz “נוֹתְנִין אַלְפַּיִם אַמָּה”, sem “לוֹ”, e a edição avulsa “נוֹתְנִין לוֹ אַלְפַּיִם”, sem “אַמָּה”. A tradução de referência entende do mesmo modo.
A guemará responde: O fim da cidade lhe foi necessário, a Rabi Yehoshua ben Levi, ensinar, pois esse não o aprendemos.
“O fim da cidade lhe foi necessário” — a Rabi Yehoshua ben Levi, para nos fazer ouvir que, onde a sua medida terminou no fim da cidade, a cidade inteira é como quatro amot; pois isso não o aprendemos na mishná.
A guemará responde: o caso da medida que termina no meio da cidade está na mishná da caverna, mas Rabi Yehoshua ben Levi precisou ensinar o caso da medida que termina no fim da cidade, quando a cidade inteira conta como quatro amot e o resto se completa fora dela; esse não está na mishná. Segundo o Rashi, “lhe” é Rabi Yehoshua ben Levi. A tradução de referência entende do mesmo modo.
Disse Rav Nachman: Quem ensina “anshei” na mishná não erra, e quem ensina “ein anshei” também não erra.
Rav Nachman aceita as duas versões da segunda cláusula da Mishná Eruvin 5:8: “os homens de uma cidade pequena percorrem” e “os homens de uma cidade pequena não percorrem”. “Não erra” traduz “לָא מִשְׁתַּבַּשׁ”. A tradução de referência entende do mesmo modo.
Rav Nachman explica: Quem ensina “anshei” não erra, pois a estabelece em quem põe o seu eruv na outra cidade; e quem ensina “ein anshei” não erra, pois a estabelece em quem mede a partir de fora.
“A estabelece em quem põe” — isto é, como se ensina explicitamente na mishná.
“E quem ensina ‘ein anshei ir ketaná’ etc. não erra: a estabelece em quem mede” — os homens de uma cidade grande que saem da sua cidade para uma cidade pequena que fica absorvida toda ela dentro das suas duas mil amot, por exemplo, que dista mil amot da cidade deles, e ela mesma tem mil, percorrem toda ela como quatro amot e completam mil fora dela; e os homens de uma cidade pequena não percorrem toda uma cidade grande que dista mil da cidade deles, e ela mesma tem duas mil: já que ela não fica toda absorvida nas duas mil deles, ela lhes entra na medida do techum, e não entram nela senão mil amot. E a mishná, que segue explicando o caso de quem põe o seu eruv: “falta algo nela” etc.
Quem lê “anshei” nas duas cláusulas entende a mishná como fala do eruv posto na outra cidade, conforme a sua continuação explícita; quem lê “ein anshei” a entende como fala de quem mede a partir de fora, e então a mishná distingue: a cidade pequena, toda absorvida nas duas mil amot, conta como quatro amot; a grande, não. O Rashi dá números: uma cidade pequena de mil amot, a mil amot da cidade grande, fica toda dentro das duas mil, e os homens da cidade grande a percorrem inteira e completam mil fora dela; uma cidade grande de duas mil amot, a mil da cidade pequena, não fica toda absorvida, e os homens da cidade pequena só entram nela mil amot. A redação “ein anshei” é também a da Tosefta Eruvin 5:3 (Lieberman; conferida), que diz “ואין בני עיר קטנה” e acrescenta: “quando estavam dentro das suas duas mil amot”. A tradução de referência entende do mesmo modo.
Segundo quem ensina “ein anshei”, a mishná está faltando algo, e assim ela ensina: Os homens de uma cidade grande percorrem toda uma cidade pequena, e os homens de uma cidade pequena não percorrem toda uma cidade grande. Em que caso foram ditas estas palavras da mishná? Em quem mede as suas duas mil amot desde fora. Mas no caso de quem estava numa cidade grande e pôs o seu eruv numa cidade pequena, ou quem estava numa cidade pequena e pôs o seu eruv numa cidade grande, percorre toda ela, a cidade onde está o eruv, e fora dela mais duas mil amot.
Para quem lê “ein anshei”, a mishná fica incompleta: a primeira parte trata de quem mede a partir de fora, e a cláusula “Como? Quem estava numa cidade grande…” trata de outro caso, o de quem pôs o seu eruv na outra cidade, que percorre a cidade inteira, grande ou pequena, e mais duas mil amot fora dela. A restituição diz “וְהִנִּיחַ אֶת עֵירוּבוֹ”, “e pôs” (literalmente “deixou”), onde a mishná do bloco 2145 diz “וְנָתַן אֶת עֵירוּבוֹ”. “A mishná está faltando algo” traduz “חַסּוֹרֵי מְחַסְּרָא”. A tradução de referência entende do mesmo modo.
Disse Rav Yossef, disse Rami bar Abba, disse Rav Huna: Uma cidade que está assentada à beira do nachal (vale de torrente): se há diante dela uma daká (divisória) de quatro amot, mede-se-lhe o techum a partir da beira do nachal; e, se não, não se lhe mede senão a partir da entrada da casa de cada um.
“A beira do nachal” — um nachal fundo.
“Se há diante dela uma daká” — isto é, uma divisória de quatro amot de altura ao longo de toda a cidade, a partir da beira do nachal: mede-se a partir da beira do nachal, pois ela, a cidade, termina ali, como as demais cidades.
“E, se não” — já que o seu uso é assustador, não é povoação fixa, e eles são como os moradores de tzrifin (cabanas), e não se conta para cada um senão a partir da entrada da sua casa.
Uma nova regra, transmitida por Rav Yossef em nome de Rami bar Abba em nome de Rav Huna: a cidade à beira de um vale fundo só mede o seu techum a partir da beira do vale se tiver diante dele uma divisória; sem ela, cada um mede a partir da sua casa. Segundo o Rashi, o nachal é fundo, e a daká é aqui uma divisória de quatro amot de altura ao longo de toda a cidade; sem ela, o lugar dá medo de usar, a povoação não é fixa, e os moradores são como os das cabanas, a quem Rav Huna manda medir a partir da entrada das suas casas (Eruvin 55b, bloco 1972; conferido). Em Eruvin 60a (bloco 2094), onde a daká estava ao pé da escada da sacada, o Rashi a explicou como uma entrada pequena de quatro palmos de altura; aqui, a definição do próprio Rashi é “מחיצה”, “divisória”. O hebraico diz só “אַרְבָּעָה”, “quatro”; completamos “amot” segundo as palavras de Abaye no bloco seguinte e o Rashi. “De cada um” completa “מִפֶּתַח בֵּיתוֹ”, “da entrada da sua casa”, no singular. A tradução de referência entende do mesmo modo.
Disse-lhe Abaye a Rav Yossef: Uma daká de quatro amot nos disseste a respeito dela. Em que difere de todas as outras dakot do mundo, que são de quatro palmos?
“Uma daká de quatro amot nos disseste” — dito em tom de afirmação; e agora pedimos de ti a razão: em que difere de todas as outras dakot do mundo, às quais basta a altura de quatro palmos, como dissemos acima a respeito da mirpeset (sacada), diante da qual há uma daká de quatro etc.?
Abaye lembra a Rav Yossef que ele lhes ensinara a regra com uma daká de quatro amot, e pergunta por que aqui se exige mais que nas outras dakot, às quais bastam quatro palmos. Segundo o Rashi, a primeira frase é uma afirmação, e só a segunda é pergunta; a outra daká é a da sacada, em Eruvin 60a (bloco 2094). A tradução de referência entende do mesmo modo.
Disse-lhe Rav Yossef: Ali, o uso não é assustador; aqui, o uso do lugar, à beira do nachal, é assustador.
Rav Yossef responde: nas outras dakot, o uso do lugar não dá medo, e basta um sinal de quatro palmos; à beira de um vale fundo, o uso dá medo, e só uma divisória de quatro amot torna o lugar habitável. O Rashi já o disse no comentário a “E, se não” (bloco 2134): “já que o seu uso é assustador, não é povoação fixa”. “Assustador” traduz “בְּעִיתָא”. A tradução de referência entende do mesmo modo.
Disse Rav Yossef: De onde digo isto? Pois foi ensinado numa baraita: Rabi permitiu que os moradores de Gader descessem a Chamatan no Shabat, e os moradores de Chamatan não sobem a Gader. Qual é a razão? Não é porque estes, os de Gader, fizeram uma daká, e estes, os de Chamatan, não fizeram daká?!
“Não é porque fizeram uma daká” etc. — Gader e Chamatan estão assentadas num monte, em declive: Gader em cima e Chamatan embaixo; já que ambas estão assentadas em declive, ambas precisam de uma daká na sua parte de baixo. E subia-te à mente que estavam ambas absorvidas, uma toda dentro das duas mil amot da sua companheira; e ensina-se: “Os moradores de Gader descem a Chamatan” etc. Não é porque os moradores de Gader fizeram uma daká? Por isso, todos os seus habitantes, quando querem ir a Chamatan, começam a contar e a medir a partir da sua muralha para o lado de Chamatan, como as demais cidades, e eis que Chamatan toda está absorvida no techum deles. E estes, os moradores de Chamatan, não fizeram daká na sua parte de baixo; por isso, não é cidade, e mede-se para cada um a partir da entrada da sua casa; e aqueles de Chamatan que estão na parte alta, os que estão perto, dentro de duas mil amot, de Gader, e ela, Gader, toda está absorvida nos seus techumin, entram nela toda; mas, se moravam na parte de baixo, não sobem a ela.
Rav Yossef apoia a regra numa baraita: Rabi permitiu aos de Gader descer a Chamatan, mas não aos de Chamatan subir a Gader. Segundo o Rashi, as duas cidades estão no mesmo monte, Gader em cima e Chamatan embaixo, e cada uma precisa de uma daká do lado de baixo, voltado para o declive; Gader a fez e mede a partir da sua muralha, e Chamatan cabe toda no seu techum; Chamatan não a fez, não conta como cidade, e cada morador mede a partir da sua casa, de modo que só os da parte alta, perto de Gader, a alcançam inteira. Seguimos o Rashi, que põe a daká que faltava em Chamatan “לשיפולה”, na sua parte de baixo; a tradução de referência a põe na borda de cima de Chamatan. O Sefaria traz no meio do comentário um desenho das duas cidades no declive, que reproduzimos junto ao hebraico. A baraita está na Tosefta Eruvin 4:16 (Lieberman; conferida), com a grafia “חמתה” e um caso anterior, o de um velho pastor que se lembrava de que os de Migdal Gader desciam a Chamatá até o pátio exterior junto à ponte; ali se lê também “ועולין לגדר”, “e sobem a Gader”. A tradução de referência entende a razão do mesmo modo.
Quando veio Rav Dimi da Terra de Israel, disse: Os moradores de Gader tatrogei metatregei (agrediam deveras) os moradores de Chamatan; e que significa “permitiu”? “Instituiu”.
“Os moradores de Gader agrediam os de Chamatan” — isto é, os moradores de Gader batiam e matavam os moradores de Chamatan.
Rav Dimi traz da Terra de Israel outra explicação da baraita: não se trata de techum, mas de uma instituição de Rabi para evitar violência, porque os de Gader agrediam os de Chamatan; se estes subissem a Gader, seriam atacados. Segundo o Rashi, “metatregei” quer dizer que batiam e matavam. A repetição “טַטְרוֹגֵי מְטַטְרְגִי” intensifica o verbo, e por isso glosamos “agrediam deveras”. O lema do Rashi diz “לחמתן”, onde a guemará diz “לִבְנֵי חַמָּתָן”. A tradução de referência entende do mesmo modo.
E em que difere o Shabat, para que a instituição fosse só nele? A guemará responde: Que nele é comum a embriaguez.
A guemará pergunta por que a instituição de Rabi vale só no Shabat, e responde que no Shabat, dia de banquete, a embriaguez é comum, e com ela as brigas. A tradução de referência entende do mesmo modo.
A guemará objeta: Quando vão para lá, também os agridem! A guemará responde: Um cão fora da sua cidade não ladra por sete anos.
“Quando iam” — isto é, os moradores de Gader a Chamatan, também os moradores de Gader agrediriam os moradores de Chamatan.
Se os de Gader descem a Chamatan, também lá poderiam agredir os moradores; a guemará responde com o provérbio: o cão fora do seu lugar não ladra, e os de Gader, longe da sua cidade, não se atrevem. Segundo o Rashi, a pergunta fala dos de Gader que vão a Chamatan. “Fora da sua cidade” traduz “בְּלָא מָתֵיהּ”. O lema do Rashi diz “כי הוו אזלי”, onde a guemará diz “כִּי אָזְלִי”. A tradução de referência entende do mesmo modo.
A guemará objeta: Agora também os moradores de Chamatan agredirão os moradores de Gader! A guemará responde: A tanto não se lhes submetem.
“A tanto certamente não se lhes submetem” — os moradores de Gader, a ponto de que, mesmo fora da sua cidade, os moradores de Chamatan os agridam.
A guemará objeta que, então, os de Chamatan, na sua própria cidade, agrediriam os de Gader; e responde que os de Gader não se deixam dominar a esse ponto. Segundo o Rashi, os de Gader não se submetem tanto que os de Chamatan ousem atacá-los, mesmo fora da sua cidade. O lema do Rashi diz “כולי האי ודאי לא כייפו להו”, com “ודאי”, “certamente”, onde a guemará diz “כּוּלֵּי הַאי לָא כָּיְיפִי לְהוּ”. A tradução de referência entende do mesmo modo.
Rav Safra disse: Chamatan era uma cidade feita como um arco.
“Era uma cidade feita como um arco” — Chamatan; e entre as suas duas pontas havia mais de quatro mil amot, do que dissemos no início do nosso perek que se lhe mede a partir do arco, cada um a partir da entrada da sua casa, e o seu yeter (a corda do arco) ficava para o lado de Gader. Por isso, os moradores de Gader descem a Chamatan, pois se mede para Gader a partir da sua muralha, e Chamatan toda está absorvida no seu techum; e os moradores de Chamatan, que moram no arco, e para quem se mede a partir do arco, os techumin deles terminam nas extremidades de Gader, e não podem entrar nela. Gader era uma cidade grande, e, quando os moradores de Chamatan sobem a Gader, a sua medida termina no meio da cidade; e Chamatan era uma cidade pequena, e, quando os moradores de Gader descem a ela, a sua medida termina no fim da cidade; e assim diz Rabi: que os moradores de Gader desçam a Chamatan, para que ela toda lhes seja como quatro amot, e se lhes complete o resto; mas Gader entra, para os moradores de Chamatan, na medida do techum.
Rav Safra explica a baraita pela forma da cidade. Seguimos o Rashi: a cidade em forma de arco é Chamatan, com mais de quatro mil amot entre as pontas, e por isso, segundo a regra de Rav Huna no início do perek (Eruvin 55a, bloco 1955; conferido), mede-se a partir do arco, e não da corda que fecharia as pontas; a corda fica do lado de Gader, e os de Chamatan, medindo a partir do arco, não chegam a Gader, enquanto os de Gader, medindo a partir da sua muralha, alcançam Chamatan inteira. A tradução de referência entende o contrário: Gader seria a cidade em arco, com menos de quatro mil amot entre as pontas, e mediria a partir da corda. A expressão do Rashi “כל אחד מפתח ביתו”, “cada um a partir da entrada da sua casa”, é concisa; entendemos que, sem a corda, a medida parte das próprias casas do arco, e a leitura é incerta. A segunda parte do comentário, a partir de “גדר עיר גדולה”, explica a palavra de Rav Dimi bar Chinena (bloco 2143), mas no Sefaria vem no mesmo comentário, depois de dois-pontos e sem lema próprio, e por isso a mantemos na mesma caixa.
Rav Dimi bar Chinena disse: Eram homens de uma cidade grande, Gader, e homens de uma cidade pequena, Chamatan.
Rav Dimi bar Chinena explica a baraita pela regra da mishná dos homens de uma cidade grande, conforme a leitura “ein anshei”: Gader é a cidade grande, e os seus homens percorrem toda Chamatan; Chamatan é a pequena, e os seus homens não percorrem toda Gader. O Rashi o explica na segunda parte do comentário do bloco 2142: para os de Chamatan, a medida termina no meio de Gader; para os de Gader, no fim de Chamatan. A tradução de referência entende do mesmo modo.
Rav Kahana ensina assim, atribuindo cada explicação ao seu autor. Rav Tavyomei ensina assim: Rav Safra e Rav Dimi bar Chinena divergem: um deles disse: Era uma cidade feita como um arco; e um deles disse: Eram homens de uma cidade pequena e homens de uma cidade grande.
“Rav Kahana ensina assim” — explica explicitamente: um mestre disse isto, e o outro mestre disse aquilo.
As duas explicações chegaram em duas versões: Rav Kahana atribui explicitamente cada uma ao seu autor, como no texto acima; Rav Tavyomei só diz que Rav Safra e Rav Dimi bar Chinena divergem, sem dizer quem disse o quê. Segundo o Rashi, “assim” refere-se à forma explícita. Na versão de Rav Tavyomei, a ordem é “homens de uma cidade pequena e homens de uma cidade grande”. Mantemos a grafia “Rav Tavyomei” de Eruvin 26b. A tradução de referência entende do mesmo modo.
MISHNÁ. Os homens de uma cidade grande percorrem toda uma cidade pequena, e os homens de uma cidade pequena também percorrem toda uma cidade grande. Como assim? Quem estava numa cidade grande e pôs o seu eruv numa cidade pequena, ou quem estava numa cidade pequena e pôs o seu eruv numa cidade grande, percorre toda ela, a cidade do eruv, e fora dela mais duas mil amot.
MISHNÁ. “Toda uma cidade pequena” — à parte a medida dos techumin, que se lhes completa fora dela.
Encerrada a guemará sobre a Mishná Eruvin 5:7, de quem põe o seu eruv no oriente ou no ocidente, que começou em Eruvin 60a (bloco 2111), inicia-se aqui uma nova mishná do Perek Heh (Keitzad Meabrin), que corresponde à Mishná Eruvin 5:8 na numeração das edições avulsas da Mishná (conferido); o bloco 2146 completa a Mishná Eruvin 5:8 com a palavra de Rabi Akiva e começa a Mishná Eruvin 5:9, e os blocos 2147–2148 a completam. A primeira cláusula já foi citada por Rava em Eruvin 60b (bloco 2125), e mantemos a mesma redação. O Talmud imprime aqui “וְאַנְשֵׁי עִיר קְטַנָּה מְהַלְּכִין”, “e os homens de uma cidade pequena percorrem”, a leitura de Rabi Idi (bloco 2128); a edição avulsa diz “וְאֵין אַנְשֵׁי עִיר קְטַנָּה”, a leitura de Rava (bloco 2126), e a mesma redação é a da Tosefta Eruvin 5:3 (Lieberman; conferida). Rav Nachman aceita as duas (blocos 2131–2133). A edição avulsa traz ainda grafias diferentes, como “כָּל”, “עֵרוּבוֹ” e “כֻּלָּהּ”. Segundo o Rashi, “toda uma cidade pequena” se entende à parte a medida do techum, que se completa fora dela. A guemará desta mishná vem em Eruvin 61b. A tradução de referência entende do mesmo modo.
Rabi Akiva diz: Quem pôs o eruv na outra cidade não tem senão duas mil amot a partir do lugar do seu eruv, e a cidade lhe entra na medida. Disse-lhes Rabi Akiva, aos sábios: Não concordais comigo, quanto a quem põe o seu eruv numa caverna, que não tem senão duas mil amot a partir do lugar do seu eruv, e não a caverna inteira?
Rabi Akiva diverge dos sábios: quem pôs o eruv na outra cidade conta as suas duas mil amot a partir do próprio eruv, e a cidade entra no cálculo; e prova-o com a caverna, onde, segundo ele, os sábios concordam que se contam duas mil amot a partir do eruv, sem tratar a caverna inteira como quatro amot. A frase “Rabi Akiva diz” fecha a Mishná Eruvin 5:8, e “Disse-lhes Rabi Akiva” abre a Mishná Eruvin 5:9 (conferido). A edição avulsa diz “וְרַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר” e, na pergunta, “שֶׁאֵין לוֹ מִמְּקוֹם עֵרוּבוֹ אֶלָּא אַלְפַּיִם אַמָּה”, com outra ordem das palavras. A tradução de referência entende do mesmo modo.
Disseram-lhe: Quando é assim? Quando não há nela moradores; mas, se há nela moradores, percorre toda ela e fora dela duas mil amot. Acha-se que é mais leve pôr o eruv no seu interior que em cima dela.
“Acha-se mais leve o seu interior” — isto é, por causa dos moradores.
“Que em cima dela” — onde não há moradores; e, se o tivesse posto em cima dela, não teria senão duas mil amot a partir do lugar do seu eruv.
Os sábios respondem que a caverna sem moradores é de fato medida a partir do eruv; mas a caverna habitada é como uma cidade, e quem põe o eruv nela a percorre inteira e mais duas mil amot fora. Daí o paradoxo: pôr o eruv dentro da caverna habitada é mais leve que pô-lo em cima dela, onde não há moradores e só há duas mil amot a partir do eruv, como explica o Rashi. A edição avulsa diz “דִּיוּרִין”, onde o Talmud diz “דָּיוֹרִין”. “Mais leve” traduz “קַל”, isto é, mais brando. A tradução de referência entende do mesmo modo.
E ao que mede, de quem disseram que se dão duas mil amot: que, mesmo se o fim da sua medida termina numa caverna habitada, não passa dali.
“E ao que mede, de quem disseram” etc. — e, ainda que os sábios divirjam de Rabi Akiva sobre quem põe o seu eruv numa cidade, para dizer que a cidade inteira lhe é como quatro amot, eles concordam sobre quem vem de outra cidade, ou do lugar da sua shevitá, e a sua medida de duas mil passadas médias terminou, mesmo numa caverna que tem moradores: que não entra nela nada além da sua medida.
A mishná termina com a cláusula que a guemará já citou no bloco 2129: quem mede as suas duas mil amot a partir de fora não entra além delas, ainda que terminem dentro de uma caverna. Segundo o Rashi, aqui os sábios concordam com Rabi Akiva: a cidade ou a caverna habitada só conta como quatro amot para quem pôs nela o eruv, e não para quem vem de outra cidade ou do lugar onde repousou, ainda que a caverna tenha moradores. No Rashi, as palavras “שיש בה”, “que tem”, vêm entre colchetes no Sefaria. A mishná aqui diz “נוֹתְנִין אַלְפַּיִם אַמָּה”, sem “לוֹ”, que a citação do bloco 2129 traz; a edição avulsa diz “נוֹתְנִין לוֹ אַלְפַּיִם”. A tradução de referência entende do mesmo modo.