O daf abre com o fim da Mishná Eruvin 5:7, começada em Eruvin 60a: quem põe o seu eruv fora do techum, ainda que uma amá, ganha de um lado aquilo que perde do outro. A guemará pergunta como a mishná pode falar de um eruv mais perto que a casa, se “no oriente” e “no ocidente” se medem a partir da casa; Rabi Yitzchak responde que se medem a partir do filho, e Rava bar Rav Sheila, que a casa estava na diagonal. Em seguida corrige “fora do techum” para “fora do ibur da cidade” e confronta a mishná com uma baraita segundo a qual quem põe o eruv fora do ibur perde a cidade inteira: a diferença está em a medida terminar no meio da cidade ou no fim dela, conforme a regra de Rabi Idi em nome de Rabi Yehoshua ben Levi. Rabi Idi chama essa regra de palavras de profecia, e Rava mostra que ambas as partes se aprendem na mishná dos homens de uma cidade grande, que percorrem toda uma cidade pequena.
…aquilo que ganha de um lado, ele o perde.
“Aquilo que ganha” — para este lado, ele o perde para o lado oposto; pois eis que contou a partir do eruv duas mil amot para cada lado; e, se o pôs no fim de mil amot para o oriente da cidade, acha-se que o fim das duas mil do oriente fica no fim de três mil a contar da cidade, e ganhou mil; e as duas mil do ocidente terminam no fim de mil amot a ocidente da cidade, e perdeu as mil. E a Mishná nos ensina que a cidade não lhe entra no cálculo das duas mil do ocidente, mas toda ela é como quatro amot.
Fim da Mishná Eruvin 5:7 (conferida), que começou em Eruvin 60a (blocos 2111–2114): quem põe o seu eruv fora do techum, isto é, como explica a guemará no bloco 2120, fora do ibur da cidade, ainda que só uma amá, ganha de um lado e perde do outro. Segundo o Rashi, as duas mil amot passam a ser contadas a partir do eruv, para cada lado: se o eruv está a mil amot a oriente da cidade, a medida do oriente chega a três mil amot da cidade, e ele ganha mil; a do ocidente chega só a mil amot além da cidade, e ele perde mil. O Rashi conclui que a Mishná ensina que a cidade não entra no cálculo das duas mil amot do ocidente, mas conta toda ela como quatro amot; a guemará discute isso nos blocos 2121–2122. A edição avulsa vocaliza “מַה שֶׁנִּשְׂכָּר”, onde o Talmud traz “מַה שֶּׁנִּשְׂכַּר”; a forma pode ser lida como passado, “o que ganhou”, e mantemos “aquilo que ganha”, como na nota do bloco 2111. “De um lado” completa a elipse, segundo o Rashi. O Rashi abrevia “כארבע אמות” como “כד״א” e “קא משמע לן” como “קמ״ל”.
GUEMARÁ. Sobe-te à mente que “no oriente” quer dizer no oriente da sua casa; “no ocidente”, no ocidente da sua casa.
GUEMARÁ. “No oriente da sua casa” — e disse ao seu filho que fizesse eruv para ele no ocidente da sua casa; acha-se que a sua casa está entre ele e o seu eruv. E como ensina a Mishná: “Dele até o seu eruv duas mil, e até a sua casa mais que isso”? Eis que certamente o seu eruv está mais afastado!
A guemará começa a discutir a Mishná Eruvin 5:7 (Eruvin 60a, bloco 2111; conferida). A primeira suposição é que “no oriente” e “no ocidente” se medem a partir da casa: o homem estava a oriente da sua casa e pediu ao filho que pusesse o eruv a ocidente dela, ou o contrário. Segundo o Rashi, nesse caso a casa fica entre ele e o eruv, e o eruv está sempre mais longe que a casa; a dificuldade se formula no bloco seguinte, e o Rashi já a antecipa aqui. “Sobe-te à mente” traduz “קָא סָלְקָא דַּעְתָּךְ”, como em Eruvin 60a (bloco 2109). O lema do Rashi começa com “גמ׳”, que traduzimos “GUEMARÁ”. A tradução de referência entende do mesmo modo.
Está bem o caso de “dele até a sua casa duas mil amot, e até o seu eruv mais que isso”: tu o encontras, pois chega à sua casa sem eruv e não chega ao seu eruv. Mas o caso de “dele até o seu eruv duas mil amot, e até a sua casa mais que isso”, como o encontras, se a casa está entre ele e o eruv?
“Que chega à sua casa” — pois poderia ir à sua casa sem eruv; mas ao seu eruv não chegaria sem passar das duas mil amot.
A guemará cita as duas cláusulas da Mishná Eruvin 5:7 (Eruvin 60a, blocos 2111–2112; conferida). Se a casa está entre o homem e o eruv, entende-se o primeiro caso: a casa está a duas mil amot e o eruv além dela; segundo o Rashi, ele poderia ir à sua casa mesmo sem eruv, mas não chegaria ao eruv. O segundo caso, em que o eruv está a duas mil amot e a casa mais longe, parece impossível, se a casa fica entre ele e o eruv. “Está bem” traduz “בִּשְׁלָמָא”; “tu o encontras” traduz “מַשְׁכַּחַתְּ לַהּ”. Aqui a guemará diz “יָתֵר מִכָּאן” também na primeira cláusula, onde o Talmud, na mishná do bloco 2111, diz “יוֹתֵר מִכָּאן”. O lema do Rashi diz “דמטי לביתיה”, onde a guemará diz “דְּמָטֵי לְבֵיתֵיהּ”.
Disse Rabi Yitzchak: Acaso pensas que “no oriente” é no oriente da sua casa, “no ocidente”, no ocidente da sua casa?! Não; “no oriente” é no oriente do seu filho, “no ocidente”, no ocidente do seu filho.
Rabi Yitzchak responde que “no oriente” e “no ocidente” se medem a partir do filho, que foi pôr o eruv, e não da casa; assim, a casa não fica necessariamente entre o homem e o eruv, e os dois casos da mishná são possíveis. A tradução de referência entende do mesmo modo. Não há comentário do Rashi neste segmento no Sefaria.
Rava bar Rav Sheila disse: Mesmo que digas: “no oriente” é no oriente da sua casa; e “no ocidente”, no ocidente da sua casa, trata-se de um caso como quando a sua casa estava na alachsona (diagonal) em relação a ele e ao eruv.
“Na diagonal” — a casa está na diagonal entre ele e o seu eruv: o seu eruv está puxado para o ocidente mais que a sua casa, e mesmo assim, às vezes, a diagonal é grande, e eis que a sua casa está mais distante dele que o seu eruv.
Rava bar Rav Sheila mantém a suposição de que as direções se medem a partir da casa, e responde que a casa não está em linha reta entre o homem e o eruv, mas na diagonal. Segundo o Rashi, o eruv está mais para o ocidente que a casa, e ainda assim, como a diagonal pode ser longa, a casa fica mais distante do homem que o eruv. O Sefaria traz, no fim do comentário, um desenho que reproduzimos junto ao hebraico: embaixo, o lugar do homem (“מקומו”); acima dele, ligado por uma linha reta com a legenda “אלפים”, o eruv (“עירוב”); e, ligada ao seu lugar por uma linha diagonal com a legenda “יותר מאלפים”, a casa (“בית”). No Sefaria lê-se “ואעפ״כ כן”, com um “כן” que parece repetido; traduzimos “e mesmo assim”. A tradução de referência entende do mesmo modo.
“Quem põe o seu eruv dentro do seu ibur” etc. A guemará pergunta: Fora do techum mesmo, sobe-te à mente?! Antes, dize: fora do seu ibur, o da cidade.
“Fora do techum, sobe-te à mente?!” — eis que então não seria eruv!
A guemará cita a Mishná Eruvin 5:7 (Eruvin 60a, blocos 2113–2114; conferida), que diz “se o pôs fora do techum, mesmo uma amá”. Segundo o Rashi, um eruv posto fora do techum não seria eruv, porque o homem não poderia chegar até ele; por isso a guemará corrige: fora do ibur da cidade, isto é, além das casas que se juntam a ela até setenta amot e um resto (Rashi em Eruvin 60a, bloco 2113). Aqui a guemará diz “בְּתוֹךְ עִיבּוּרָהּ”, “dentro do seu ibur”, onde a mishná do bloco 2113 diz “בְּעִיבּוּרָהּ שֶׁל עִיר”, “no ibur da cidade”. A tradução de referência entende do mesmo modo.
“Aquilo que ganha, ele o perde.” A guemará pergunta: Aquilo que ganha de um lado, ele perde do outro, e nada mais?! Mas não foi ensinado numa baraita: Quem põe o seu eruv dentro do ibur da cidade não fez coisa alguma; se o pôs fora do ibur da cidade, mesmo uma amá, ganha aquela amá do lado do eruv e perde a cidade inteira, toda ela, do lado oposto, porque a medida da cidade lhe entra na medida do techum!
“Ganha aquela amá” — isto é, para o lado do eruv; e perde a medida da cidade inteira para o lado oposto; pois, quando medir duas mil amot a partir do seu eruv para o lado da cidade, a medida da cidade lhe entrará no cálculo.
A guemará estranha a mishná: ela diz só que ele perde do outro lado aquilo que ganha, mas uma baraita ensina que perde a cidade inteira. Segundo o Rashi, ganha a amá do lado do eruv, mas, ao medir as duas mil amot do eruv para o lado da cidade, a medida da cidade entra no cálculo, e ele perde do lado oposto toda a extensão da cidade, e não só o que ganhou. A baraita se encontra na Tosefta Eruvin 3:14 (edição Lieberman no Sefaria; conferida), que diz “נתנו חוץ לתחום”, “se o pôs fora do techum”, como a mishná, onde a guemará diz “חוּץ לְעִיבּוּרָהּ שֶׁל עִיר”, e “מסתכר באותה אמה”; não traz “כּוּלָּהּ” nem “אֲפִילּוּ”. “Lhe entra na medida do techum” traduz “עוֹלָה לוֹ בְּמִדַּת הַתְּחוּם”, literalmente “lhe sobe”. A tradução de referência entende do mesmo modo.
A guemará responde: Não é difícil: aqui, na baraita, quando a sua medida terminou no meio da cidade; aqui, na Mishná, quando a sua medida terminou no fim da cidade.
“Quando a sua medida terminou no meio da cidade” — se era uma cidade grande, ou se afastou o seu eruv da cidade, até que a cidade inteira não fica absorvida na medida das duas mil amot do eruv, a cidade lhe entra no cálculo, e ele a perde; e, se a cidade inteira ficava absorvida nas duas mil amot do seu eruv, ela toda lhe é como quatro amot.
A guemará distingue: quando as duas mil amot contadas a partir do eruv terminam no meio da cidade, a cidade entra no cálculo, como diz a baraita; quando terminam no fim da cidade, ou além dele, a cidade inteira conta como quatro amot, como supõe a mishná. Segundo o Rashi, isso depende do tamanho da cidade ou da distância do eruv: se a cidade não fica toda absorvida nas duas mil amot do eruv, ele a perde; se fica, ela toda é como quatro amot. O hebraico diz “כָּאן… כָּאן”, “aqui… aqui”; quem é quem não está dito, e o completamos segundo o sentido. A tradução de referência entende do mesmo modo.
E isto é conforme Rabi Idi, pois disse Rabi Idi, disse Rabi Yehoshua ben Levi: Se estava medindo e vindo em direção à cidade, e a sua medida terminou no meio da cidade, não tem senão metade da cidade; se a sua medida terminou no fim da cidade, a cidade inteira se torna para ele como quatro amot, e completam-lhe o resto da medida fora dela.
“Estava medindo e vindo” — trata-se de quem repousou fora da cidade e não sabia que havia uma cidade perto dele, e aprendemos no perek Mi Shehotziuhu (acima, Eruvin 45a): “Já que não era essa a sua intenção, não entre” na cidade, senão até duas mil amot do lugar da sua shevitá; e começou a contar duas mil passadas médias, e a sua medida terminou etc.; e o mesmo vale também para quem põe o seu eruv fora da cidade e com isso adquiriu shevitá.
A resposta do bloco 2122 segue a regra de Rabi Idi em nome de Rabi Yehoshua ben Levi: quem mede as suas duas mil amot em direção a uma cidade e vê a medida terminar no meio dela só pode andar até ali; se a medida termina no fim da cidade, a cidade inteira conta como quatro amot, e o resto da medida se completa além dela. Segundo o Rashi, trata-se de quem passou o Shabat fora da cidade sem saber que ela estava perto: pela Mishná Eruvin 4:4 (Eruvin 45a; conferida), “já que não era essa a sua intenção, não entre”, isto é, só pode andar duas mil amot a partir do lugar onde repousou, e conta-as em passadas médias; e o mesmo vale para quem pôs o eruv fora da cidade. A mishná citada pelo Rashi é a opinião de Rabi Meir; Rabi Yehuda diz ali “entre”. “Repousou” traduz “שבת” no Rashi. A tradução de referência entende do mesmo modo.
Disse Rabi Idi: Estas coisas não são senão palavras de profecia. Que me importa se a medida terminou no meio da cidade, que me importa se terminou no fim da cidade?
“Disse Rabi Idi: Estas não são senão palavras de profecia” — como quem profetiza da boca da Gevurá (o Poder divino), que não dá razão às suas palavras, assim as disse Rabi Yehoshua ben Levi, estas coisas; e, se não as tivesse aprendido do seu mestre, não teria dito uma coisa assim sem razão.
Rabi Idi, o mesmo que transmitiu a regra, diz que ela é como palavras de profecia, porque não se vê a razão de distinguir entre a medida que termina no meio da cidade e a que termina no fim. Seguimos o Rashi: Rabi Yehoshua ben Levi falou como quem profetiza, sem dar razão, e só o disse porque o recebeu do seu mestre; a frase registra uma tradição sem razão explícita, não a rejeita. A tradução de referência entende que Rabi Idi não vê a lógica da regra. “Da boca da Gevurá” traduz “מפני הגבורה”, literalmente “de diante da Gevurá”. “Que me importa” traduz “מָה לִי”.
Disse Rava: Ambas as coisas nós as aprendemos na Mishná: “Os homens de uma cidade grande percorrem toda uma cidade pequena.”
“Disse Rava” — e que profecia há nisso? Pois ambas as aprendemos na nossa Mishná: que os homens de uma cidade grande que tinham uma cidade pequena dentro de duas mil amot, e saem da sua cidade e vão andar pelo caminho da cidade pequena, percorrem toda a cidade pequena vizinha a eles; e forçosamente assim diz a Mishná: percorrem toda ela como quatro amot, e completam a sua medida fora dela; pois, se te subisse à mente que a medida da cidade lhes conta, que veio ensinar-nos? É óbvio que até duas mil amot pode andar!
Rava responde que não há aqui profecia: as duas regras estão na mishná seguinte, a Mishná Eruvin 5:8 (conferida), que o Talmud traz em Eruvin 61a: “Os homens de uma cidade grande percorrem toda uma cidade pequena”. Segundo o Rashi, trata-se de uma cidade pequena dentro das duas mil amot da cidade grande: se a cidade pequena entrasse no cálculo, a mishná não ensinaria nada, pois é óbvio que se pode andar até duas mil amot; logo, ela toda conta como quatro amot, e a medida se completa além dela. O Rashi explica aqui só esta cláusula; a guemará prossegue em Eruvin 61a com a cláusula seguinte da mesma mishná. A edição avulsa diz “אֶת כָּל”, onde a guemará escreve “אֶת כׇּל”; é diferença de grafia. O lema do Rashi diz só “אמר רבא”, e “תרוייהו תננהי” no corpo, onde a guemará diz “תַּרְוַיְיהוּ תְּנַנְהִי”. A tradução de referência entende do mesmo modo.