Talmud Bavli · Massechet Eruvin · Perek Heh (Keitzad Meabrin) · 60b
כֵּיצַד מְעַבְּרִין

Aquilo que ganha, ele o perde; no oriente do seu filho; a cidade como quatro amot; palavras de profecia

Eruvin 60b — Perek Heh (Keitzad Meabrin, Eruvin 52b:16-61b:10) · fim da Mishná Eruvin 5:7: aquilo que ganha, ele o perde · guemará: no oriente da sua casa; Rabi Yitzchak: no oriente do seu filho; Rava bar Rav Sheila: a casa na diagonal · o eruv fora do ibur da cidade; a baraita: ganha aquela amá e perde a cidade inteira; a medida que termina no meio ou no fim da cidade · Rabi Idi em nome de Rabi Yehoshua ben Levi; Rabi Idi: palavras de profecia; Rava: os homens de uma cidade grande (Mishná Eruvin 5:8) · continua de Eruvin 60a; continua em Eruvin 61a

O daf abre com o fim da Mishná Eruvin 5:7, começada em Eruvin 60a: quem põe o seu eruv fora do techum, ainda que uma amá, ganha de um lado aquilo que perde do outro. A guemará pergunta como a mishná pode falar de um eruv mais perto que a casa, se “no oriente” e “no ocidente” se medem a partir da casa; Rabi Yitzchak responde que se medem a partir do filho, e Rava bar Rav Sheila, que a casa estava na diagonal. Em seguida corrige “fora do techum” para “fora do ibur da cidade” e confronta a mishná com uma baraita segundo a qual quem põe o eruv fora do ibur perde a cidade inteira: a diferença está em a medida terminar no meio da cidade ou no fim dela, conforme a regra de Rabi Idi em nome de Rabi Yehoshua ben Levi. Rabi Idi chama essa regra de palavras de profecia, e Rava mostra que ambas as partes se aprendem na mishná dos homens de uma cidade grande, que percorrem toda uma cidade pequena.

A Mishná (continuação): o que ganha, perde · מַה שֶּׁנִּשְׂכַּר

2115Aquilo que ganha, ele o perde
Mishná
מַה שֶּׁנִּשְׂכַּר הוּא מַפְסִיד.

…aquilo que ganha de um lado, ele o perde.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ma shenisskar”
מה שנשכר - לרוח זה נפסד לרוח שכנגדה שהרי מנה מן העירוב אלפים לכל רוח ואם נתנו בסוף אלף למזרח נמצא שכלות אלפים של מזרח בסוף ג' אלפים לעיר ונשתכר אלף ואלפים של מערב כלות בסוף אלף של מערב העיר והפסיד האלף וקמ"ל דאין העיר עולה לו מן החשבון האלפים של מערב אלא כולה כד"א:

“Aquilo que ganha” — para este lado, ele o perde para o lado oposto; pois eis que contou a partir do eruv duas mil amot para cada lado; e, se o pôs no fim de mil amot para o oriente da cidade, acha-se que o fim das duas mil do oriente fica no fim de três mil a contar da cidade, e ganhou mil; e as duas mil do ocidente terminam no fim de mil amot a ocidente da cidade, e perdeu as mil. E a Mishná nos ensina que a cidade não lhe entra no cálculo das duas mil do ocidente, mas toda ela é como quatro amot.

Nota

Fim da Mishná Eruvin 5:7 (conferida), que começou em Eruvin 60a (blocos 2111–2114): quem põe o seu eruv fora do techum, isto é, como explica a guemará no bloco 2120, fora do ibur da cidade, ainda que só uma amá, ganha de um lado e perde do outro. Segundo o Rashi, as duas mil amot passam a ser contadas a partir do eruv, para cada lado: se o eruv está a mil amot a oriente da cidade, a medida do oriente chega a três mil amot da cidade, e ele ganha mil; a do ocidente chega só a mil amot além da cidade, e ele perde mil. O Rashi conclui que a Mishná ensina que a cidade não entra no cálculo das duas mil amot do ocidente, mas conta toda ela como quatro amot; a guemará discute isso nos blocos 2121–2122. A edição avulsa vocaliza “מַה שֶׁנִּשְׂכָּר”, onde o Talmud traz “מַה שֶּׁנִּשְׂכַּר”; a forma pode ser lida como passado, “o que ganhou”, e mantemos “aquilo que ganha”, como na nota do bloco 2111. “De um lado” completa a elipse, segundo o Rashi. O Rashi abrevia “כארבע אמות” como “כד״א” e “קא משמע לן” como “קמ״ל”.

Guemará: no oriente da sua casa ou do seu filho · לַמִּזְרָח

2116Sobe-te à mente: no oriente da sua casa
A guemará
גְּמָ׳ קָא סָלְקָא דַּעְתָּךְ: ״לַמִּזְרָח״, לְמִזְרַח בֵּיתוֹ. ״לַמַּעֲרָב״, לְמַעֲרַב בֵּיתוֹ.

GUEMARÁ. Sobe-te à mente que “no oriente” quer dizer no oriente da sua casa; “no ocidente”, no ocidente da sua casa.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “guemará: lemizrach beito”
גמ' למזרח ביתו - ואמר לבנו לערב לו במערב ביתו נמצא שביתו עומד בינו לבין עירובו והיכי תני ממנו ולעירובו אלפים ולביתו יותר מכאן הא ודאי עירובו מרחיק טפי:

GUEMARÁ. “No oriente da sua casa” — e disse ao seu filho que fizesse eruv para ele no ocidente da sua casa; acha-se que a sua casa está entre ele e o seu eruv. E como ensina a Mishná: “Dele até o seu eruv duas mil, e até a sua casa mais que isso”? Eis que certamente o seu eruv está mais afastado!

Nota

A guemará começa a discutir a Mishná Eruvin 5:7 (Eruvin 60a, bloco 2111; conferida). A primeira suposição é que “no oriente” e “no ocidente” se medem a partir da casa: o homem estava a oriente da sua casa e pediu ao filho que pusesse o eruv a ocidente dela, ou o contrário. Segundo o Rashi, nesse caso a casa fica entre ele e o eruv, e o eruv está sempre mais longe que a casa; a dificuldade se formula no bloco seguinte, e o Rashi já a antecipa aqui. “Sobe-te à mente” traduz “קָא סָלְקָא דַּעְתָּךְ”, como em Eruvin 60a (bloco 2109). O lema do Rashi começa com “גמ׳”, que traduzimos “GUEMARÁ”. A tradução de referência entende do mesmo modo.

2117Está bem a primeira; mas a segunda, como a encontras?
A guemará
בִּשְׁלָמָא ״הֵימֶנּוּ וּלְבֵיתוֹ אַלְפַּיִם אַמָּה וּלְעֵירוּבוֹ יָתֵר מִכָּאן״ — מַשְׁכַּחַתְּ לַהּ, דְּמָטֵי לְבֵיתֵיהּ וְלָא מָטֵי לְעֵירוּבוֹ, אֶלָּא ״הֵימֶנּוּ וּלְעֵירוּבוֹ אַלְפַּיִם אַמָּה וּלְבֵיתוֹ יָתֵר מִכָּאן״ — הֵיכִי מַשְׁכַּחַתְּ לַהּ?

Está bem o caso de “dele até a sua casa duas mil amot, e até o seu eruv mais que isso”: tu o encontras, pois chega à sua casa sem eruv e não chega ao seu eruv. Mas o caso de “dele até o seu eruv duas mil amot, e até a sua casa mais que isso”, como o encontras, se a casa está entre ele e o eruv?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “dematei leveitei”
דמטי לביתיה - שהיה יכול לילך לביתו בלא עירוב אבל לעירוביה לא הוה מטי:

“Que chega à sua casa” — pois poderia ir à sua casa sem eruv; mas ao seu eruv não chegaria sem passar das duas mil amot.

Nota

A guemará cita as duas cláusulas da Mishná Eruvin 5:7 (Eruvin 60a, blocos 2111–2112; conferida). Se a casa está entre o homem e o eruv, entende-se o primeiro caso: a casa está a duas mil amot e o eruv além dela; segundo o Rashi, ele poderia ir à sua casa mesmo sem eruv, mas não chegaria ao eruv. O segundo caso, em que o eruv está a duas mil amot e a casa mais longe, parece impossível, se a casa fica entre ele e o eruv. “Está bem” traduz “בִּשְׁלָמָא”; “tu o encontras” traduz “מַשְׁכַּחַתְּ לַהּ”. Aqui a guemará diz “יָתֵר מִכָּאן” também na primeira cláusula, onde o Talmud, na mishná do bloco 2111, diz “יוֹתֵר מִכָּאן”. O lema do Rashi diz “דמטי לביתיה”, onde a guemará diz “דְּמָטֵי לְבֵיתֵיהּ”.

2118Rabi Yitzchak: no oriente do seu filho
A guemará
אָמַר רַבִּי יִצְחָק: מִי סָבְרַתְּ ״לַמִּזְרָח״ — לְמִזְרַח בֵּיתוֹ, ״לַמַּעֲרָב״ — לְמַעֲרַב בֵּיתוֹ?! לֹא, ״לַמִּזְרָח״ — לְמִזְרַח בְּנוֹ, ״לַמַּעֲרָב״ — לְמַעֲרַב בְּנוֹ.

Disse Rabi Yitzchak: Acaso pensas que “no oriente” é no oriente da sua casa, “no ocidente”, no ocidente da sua casa?! Não; “no oriente” é no oriente do seu filho, “no ocidente”, no ocidente do seu filho.

Nota

Rabi Yitzchak responde que “no oriente” e “no ocidente” se medem a partir do filho, que foi pôr o eruv, e não da casa; assim, a casa não fica necessariamente entre o homem e o eruv, e os dois casos da mishná são possíveis. A tradução de referência entende do mesmo modo. Não há comentário do Rashi neste segmento no Sefaria.

2119Rava bar Rav Sheila: a sua casa estava na diagonal
A guemará
רָבָא בַּר רַב שֵׁילָא אָמַר: אֲפִילּוּ תֵּימָא ״לַמִּזְרָח״ — לְמִזְרַח בֵּיתוֹ, וְ״לַמַּעֲרָב״ — לְמַעֲרַב בֵּיתוֹ, כְּגוֹן דְּקָאֵי בֵּיתֵיהּ בַּאֲלַכְסוֹנָא.

Rava bar Rav Sheila disse: Mesmo que digas: “no oriente” é no oriente da sua casa; e “no ocidente”, no ocidente da sua casa, trata-se de um caso como quando a sua casa estava na alachsona (diagonal) em relação a ele e ao eruv.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “bealachsona”
באלכסונא - בינו לבין עירובו משוך עירובו למערב יותר מביתו ואעפ"כ כן פעמים שהאלכסון רב והרי ביתו רחוק ממנו יותר מעירובו:

“Na diagonal” — a casa está na diagonal entre ele e o seu eruv: o seu eruv está puxado para o ocidente mais que a sua casa, e mesmo assim, às vezes, a diagonal é grande, e eis que a sua casa está mais distante dele que o seu eruv.

Nota

Rava bar Rav Sheila mantém a suposição de que as direções se medem a partir da casa, e responde que a casa não está em linha reta entre o homem e o eruv, mas na diagonal. Segundo o Rashi, o eruv está mais para o ocidente que a casa, e ainda assim, como a diagonal pode ser longa, a casa fica mais distante do homem que o eruv. O Sefaria traz, no fim do comentário, um desenho que reproduzimos junto ao hebraico: embaixo, o lugar do homem (“מקומו”); acima dele, ligado por uma linha reta com a legenda “אלפים”, o eruv (“עירוב”); e, ligada ao seu lugar por uma linha diagonal com a legenda “יותר מאלפים”, a casa (“בית”). No Sefaria lê-se “ואעפ״כ כן”, com um “כן” que parece repetido; traduzimos “e mesmo assim”. A tradução de referência entende do mesmo modo.

O eruv fora do ibur: ganha de um lado, perde do outro · חוּץ לְעִיבּוּרָהּ

2120Fora do techum? Antes, dize: fora do seu ibur
A guemará
הַנּוֹתֵן עֵירוּבוֹ בְּתוֹךְ עִיבּוּרָהּ וְכוּ׳. חוּץ לַתְּחוּם סָלְקָא דַּעְתָּךְ? אֶלָּא אֵימָא: חוּץ לְעִיבּוּרָהּ.

“Quem põe o seu eruv dentro do seu ibur” etc. A guemará pergunta: Fora do techum mesmo, sobe-te à mente?! Antes, dize: fora do seu ibur, o da cidade.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “chutz latechum salka da’atach”
חוץ לתחום ס"ד - הא לא הוי עירוב:

“Fora do techum, sobe-te à mente?!” — eis que então não seria eruv!

Nota

A guemará cita a Mishná Eruvin 5:7 (Eruvin 60a, blocos 2113–2114; conferida), que diz “se o pôs fora do techum, mesmo uma amá”. Segundo o Rashi, um eruv posto fora do techum não seria eruv, porque o homem não poderia chegar até ele; por isso a guemará corrige: fora do ibur da cidade, isto é, além das casas que se juntam a ela até setenta amot e um resto (Rashi em Eruvin 60a, bloco 2113). Aqui a guemará diz “בְּתוֹךְ עִיבּוּרָהּ”, “dentro do seu ibur”, onde a mishná do bloco 2113 diz “בְּעִיבּוּרָהּ שֶׁל עִיר”, “no ibur da cidade”. A tradução de referência entende do mesmo modo.

2121Aquilo que ganha, e nada mais? A baraita: perde a cidade inteira
A guemará
מַה שֶּׁנִּשְׂכַּר הוּא מַפְסִיד. מָה שֶּׁנִּשְׂכַּר וְתוּ לָא?! וְהָתַנְיָא: הַנּוֹתֵן אֶת עֵירוּבוֹ בְּתוֹךְ עִיבּוּרָהּ שֶׁל עִיר, לֹא עָשָׂה וְלֹא כְלוּם. נְתָנוֹ חוּץ לְעִיבּוּרָהּ שֶׁל עִיר אֲפִילּוּ אַמָּה אַחַת, מִשְׂתַּכֵּר אוֹתָהּ אַמָּה וּמַפְסִיד אֶת כָּל הָעִיר כּוּלָּהּ, מִפְּנֵי שֶׁמִּדַּת הָעִיר עוֹלָה לוֹ בְּמִדַּת הַתְּחוּם!

“Aquilo que ganha, ele o perde.” A guemará pergunta: Aquilo que ganha de um lado, ele perde do outro, e nada mais?! Mas não foi ensinado numa baraita: Quem põe o seu eruv dentro do ibur da cidade não fez coisa alguma; se o pôs fora do ibur da cidade, mesmo uma amá, ganha aquela amá do lado do eruv e perde a cidade inteira, toda ela, do lado oposto, porque a medida da cidade lhe entra na medida do techum!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “mishtaker otah amá”
משתכר אותה אמה - לרוח העירוב והפסיד מדת כל העיר לרוח שכנגדה שכשימדוד אלפים מעירובו לצד העיר תעלה לו מדת העיר מן החשבון:

“Ganha aquela amá” — isto é, para o lado do eruv; e perde a medida da cidade inteira para o lado oposto; pois, quando medir duas mil amot a partir do seu eruv para o lado da cidade, a medida da cidade lhe entrará no cálculo.

Nota

A guemará estranha a mishná: ela diz só que ele perde do outro lado aquilo que ganha, mas uma baraita ensina que perde a cidade inteira. Segundo o Rashi, ganha a amá do lado do eruv, mas, ao medir as duas mil amot do eruv para o lado da cidade, a medida da cidade entra no cálculo, e ele perde do lado oposto toda a extensão da cidade, e não só o que ganhou. A baraita se encontra na Tosefta Eruvin 3:14 (edição Lieberman no Sefaria; conferida), que diz “נתנו חוץ לתחום”, “se o pôs fora do techum”, como a mishná, onde a guemará diz “חוּץ לְעִיבּוּרָהּ שֶׁל עִיר”, e “מסתכר באותה אמה”; não traz “כּוּלָּהּ” nem “אֲפִילּוּ”. “Lhe entra na medida do techum” traduz “עוֹלָה לוֹ בְּמִדַּת הַתְּחוּם”, literalmente “lhe sobe”. A tradução de referência entende do mesmo modo.

2122Não é difícil: no meio da cidade, no fim da cidade
A guemará
לָא קַשְׁיָא: כָּאן שֶׁכָּלְתָה מִדָּתוֹ בַּחֲצִי הָעִיר, כָּאן שֶׁכָּלְתָה מִדָּתוֹ בְּסוֹף הָעִיר.

A guemará responde: Não é difícil: aqui, na baraita, quando a sua medida terminou no meio da cidade; aqui, na Mishná, quando a sua medida terminou no fim da cidade.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “shekaletá midató bachatzi ha’ir”
שכלתה מדתו בחצי העיר - אם היתה עיר גדולה או שהרחיק עירובו מן העיר עד שאין כל העיר נבלעת במדת אלפים של עירוב תעלה לו העיר מן החשבון ומפסידה ואם היתה כל העיר נבלעת באלפים של עירובו הויא לה כולה כארבע אמות:

“Quando a sua medida terminou no meio da cidade” — se era uma cidade grande, ou se afastou o seu eruv da cidade, até que a cidade inteira não fica absorvida na medida das duas mil amot do eruv, a cidade lhe entra no cálculo, e ele a perde; e, se a cidade inteira ficava absorvida nas duas mil amot do seu eruv, ela toda lhe é como quatro amot.

Nota

A guemará distingue: quando as duas mil amot contadas a partir do eruv terminam no meio da cidade, a cidade entra no cálculo, como diz a baraita; quando terminam no fim da cidade, ou além dele, a cidade inteira conta como quatro amot, como supõe a mishná. Segundo o Rashi, isso depende do tamanho da cidade ou da distância do eruv: se a cidade não fica toda absorvida nas duas mil amot do eruv, ele a perde; se fica, ela toda é como quatro amot. O hebraico diz “כָּאן… כָּאן”, “aqui… aqui”; quem é quem não está dito, e o completamos segundo o sentido. A tradução de referência entende do mesmo modo.

Rabi Idi em nome de Rabi Yehoshua ben Levi: palavras de profecia · דִּבְרֵי נְבִיאוּת

2123Se estava medindo e vindo: metade da cidade ou a cidade inteira
A guemará
וְכִדְרַבִּי אִידִי, דְּאָמַר רַבִּי אִידִי אָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי: הָיָה מוֹדֵד וּבָא וְכָלְתָה מִדָּתוֹ בַּחֲצִי הָעִיר — אֵין לוֹ אֶלָּא חֲצִי הָעִיר. כָּלְתָה מִדָּתוֹ בְּסוֹף הָעִיר — נַעֲשֵׂית לוֹ הָעִיר כּוּלָּהּ כְּאַרְבַּע אַמּוֹת, וּמַשְׁלִימִין לוֹ אֶת הַשְּׁאָר.

E isto é conforme Rabi Idi, pois disse Rabi Idi, disse Rabi Yehoshua ben Levi: Se estava medindo e vindo em direção à cidade, e a sua medida terminou no meio da cidade, não tem senão metade da cidade; se a sua medida terminou no fim da cidade, a cidade inteira se torna para ele como quatro amot, e completam-lhe o resto da medida fora dela.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “hayá moded uvá”
היה מודד ובא - שבת חוץ לעיר ולא היה יודע שיש עיר סמוך לו ותנן בפרק מי שהוציאוהו (לעיל עירובין דף מה.) הואיל ולא היתה כוונתו לכך לא יכנס לעיר אלא עד אלפים ממקום שביתתו והתחיל למנות אלפים פסיעות בינוניות וכלתה מדתו כו' והוא הדין נמי לנותן עירובו חוץ לעיר וקנה שביתה:

“Estava medindo e vindo” — trata-se de quem repousou fora da cidade e não sabia que havia uma cidade perto dele, e aprendemos no perek Mi Shehotziuhu (acima, Eruvin 45a): “Já que não era essa a sua intenção, não entre” na cidade, senão até duas mil amot do lugar da sua shevitá; e começou a contar duas mil passadas médias, e a sua medida terminou etc.; e o mesmo vale também para quem põe o seu eruv fora da cidade e com isso adquiriu shevitá.

Nota

A resposta do bloco 2122 segue a regra de Rabi Idi em nome de Rabi Yehoshua ben Levi: quem mede as suas duas mil amot em direção a uma cidade e vê a medida terminar no meio dela só pode andar até ali; se a medida termina no fim da cidade, a cidade inteira conta como quatro amot, e o resto da medida se completa além dela. Segundo o Rashi, trata-se de quem passou o Shabat fora da cidade sem saber que ela estava perto: pela Mishná Eruvin 4:4 (Eruvin 45a; conferida), “já que não era essa a sua intenção, não entre”, isto é, só pode andar duas mil amot a partir do lugar onde repousou, e conta-as em passadas médias; e o mesmo vale para quem pôs o eruv fora da cidade. A mishná citada pelo Rashi é a opinião de Rabi Meir; Rabi Yehuda diz ali “entre”. “Repousou” traduz “שבת” no Rashi. A tradução de referência entende do mesmo modo.

2124Rabi Idi: estas não são senão palavras de profecia
A guemará
אָמַר רַבִּי אִידִי: אֵין אֵלּוּ אֶלָּא דִּבְרֵי נְבִיאוּת. מָה לִי כָּלְתָה בַּחֲצִי הָעִיר, מָה לִי כָּלְתָה בְּסוֹף הָעִיר?

Disse Rabi Idi: Estas coisas não são senão palavras de profecia. Que me importa se a medida terminou no meio da cidade, que me importa se terminou no fim da cidade?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “amar Rabi Idi ein elu ela divrei nevi’ut”
א"ר אידי אין אלו אלא דברי נביאות - כמתנבא מפני הגבורה שאינו נותן טעם לדבריו אמרן רבי יהושע בן לוי לדברים הללו ואי לאו דגמיר להו מרביה לא הוה אמר כי האי מילתא בלא טעמא:

“Disse Rabi Idi: Estas não são senão palavras de profecia” — como quem profetiza da boca da Gevurá (o Poder divino), que não dá razão às suas palavras, assim as disse Rabi Yehoshua ben Levi, estas coisas; e, se não as tivesse aprendido do seu mestre, não teria dito uma coisa assim sem razão.

Nota

Rabi Idi, o mesmo que transmitiu a regra, diz que ela é como palavras de profecia, porque não se vê a razão de distinguir entre a medida que termina no meio da cidade e a que termina no fim. Seguimos o Rashi: Rabi Yehoshua ben Levi falou como quem profetiza, sem dar razão, e só o disse porque o recebeu do seu mestre; a frase registra uma tradição sem razão explícita, não a rejeita. A tradução de referência entende que Rabi Idi não vê a lógica da regra. “Da boca da Gevurá” traduz “מפני הגבורה”, literalmente “de diante da Gevurá”. “Que me importa” traduz “מָה לִי”.

2125Rava: ambas as aprendemos — os homens de uma cidade grande
A guemará
אָמַר רָבָא, תַּרְוַיְיהוּ תְּנַנְהִי: אַנְשֵׁי עִיר גְּדוֹלָה מְהַלְּכִין אֶת כׇּל עִיר קְטַנָּה.

Disse Rava: Ambas as coisas nós as aprendemos na Mishná: “Os homens de uma cidade grande percorrem toda uma cidade pequena.”

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “amar Rava”
אמר רבא - ומאי נביאותיה תרוייהו תננהי במתני' דאנשי עיר גדולה שהיתה להן עיר קטנה בתוך אלפים ויוצאין מעירן והולכין לילך דרך הקטנה מהלכין את כל העיר הקטנה הסמוכה להן ועל כרחך ה"ק מהלכין את כולה כד' אמות ומשלימין מדתן חוצה לה דאי ס"ד מדת העיר סליק להו מאי אתא לאשמועינן פשיטא דעד אלפים יכול להלך:

“Disse Rava” — e que profecia há nisso? Pois ambas as aprendemos na nossa Mishná: que os homens de uma cidade grande que tinham uma cidade pequena dentro de duas mil amot, e saem da sua cidade e vão andar pelo caminho da cidade pequena, percorrem toda a cidade pequena vizinha a eles; e forçosamente assim diz a Mishná: percorrem toda ela como quatro amot, e completam a sua medida fora dela; pois, se te subisse à mente que a medida da cidade lhes conta, que veio ensinar-nos? É óbvio que até duas mil amot pode andar!

Nota

Rava responde que não há aqui profecia: as duas regras estão na mishná seguinte, a Mishná Eruvin 5:8 (conferida), que o Talmud traz em Eruvin 61a: “Os homens de uma cidade grande percorrem toda uma cidade pequena”. Segundo o Rashi, trata-se de uma cidade pequena dentro das duas mil amot da cidade grande: se a cidade pequena entrasse no cálculo, a mishná não ensinaria nada, pois é óbvio que se pode andar até duas mil amot; logo, ela toda conta como quatro amot, e a medida se completa além dela. O Rashi explica aqui só esta cláusula; a guemará prossegue em Eruvin 61a com a cláusula seguinte da mesma mishná. A edição avulsa diz “אֶת כָּל”, onde a guemará escreve “אֶת כׇּל”; é diferença de grafia. O lema do Rashi diz só “אמר רבא”, e “תרוייהו תננהי” no corpo, onde a guemará diz “תַּרְוַיְיהוּ תְּנַנְהִי”. A tradução de referência entende do mesmo modo.

O daf termina aqui: depois de completar a Mishná Eruvin 5:7, a guemará explicou o oriente e o ocidente da mishná, a partir do filho ou com a casa na diagonal, corrigiu “fora do techum” para “fora do ibur”, distinguiu a medida que termina no meio da cidade da que termina no fim, e trouxe a regra de Rabi Idi em nome de Rabi Yehoshua ben Levi, que Rava apoia na mishná dos homens de uma cidade grande (Mishná Eruvin 5:8). A guemará prossegue em Eruvin 61a.