O daf abre completando a baraita que começou no fim de Eruvin 59a: a cidade que era e continua de muitos, se não tem senão uma entrada, recebe um eruv para toda ela. A guemará pergunta quem permite corrigir com um lechi e uma korá o domínio público que passa dentro da cidade, e Rav Huna, filho de Rav Yehoshua, responde que é Rabi Yehuda. Sobre a frase “não se faz eruv pela metade”, Rav Pappa distingue entre dividir a cidade no comprimento e na largura, e a guemará discute se isso segue Rabi Akiva ou os sábios, que divergem sobre o pátio interior que passa pelo exterior; há quem diga que nem na largura se faz eruv. A guemará pergunta por que, então, se pode fazer eruv para cada beco, e responde que se trata de becos com uma daká, uma entrada baixa. Segue-se o episódio de Rabi Zeira, que fez eruv sem deixar uma parte fora numa cidade cuja segunda entrada estivera fechada por um monte de lixo, e a pergunta de Rav Ami bar Adda de Harpania sobre a escada, que, segundo Rav Nachman, tem lei de divisória na muralha e lei de entrada entre dois pátios. O daf termina no meio de uma objeção a Rav Nachman.
A baraita prossegue: …e não tem senão uma entrada, faz-se eruv para toda ela de uma só vez.
“E não tem senão uma entrada” — e assim não é mefulashet (aberta de ponta a ponta), e não se assemelha aos estandartes do acampamento no deserto.
O bloco completa a baraita que começou em Eruvin 59a (blocos 2077–2078): “se a cidade era de muitos, e eis que é de muitos, e não tem senão uma entrada, faz-se eruv para toda ela”. Na Tosefta Eruvin 5:4 (Lieberman; conferido) a frase é igual: “ואין לה אלא פתח אחד, מערבין את כולה”. Segundo o Rashi, por ter uma só entrada a cidade não é aberta de ponta a ponta e não se assemelha ao acampamento de Israel no deserto, isto é, não é um domínio público pela Torá, como o Rashi diz também da cidade de um indivíduo em Eruvin 59a (bloco 2073); por isso basta um eruv para toda ela, sem deixar uma parte fora. A tradução de referência acrescenta que a cidade é cercada por muralha ou por casas de todos os lados. O lema do Rashi abrevia “אחד” como “א׳”.
A guemará pergunta: Quem é o tanna (sábio da Mishná) para quem o domínio público pode receber eruv? Disse Rav Huna, filho de Rav Yehoshua: É Rabi Yehuda, pois foi ensinado numa baraita: Mais que isso disse Rabi Yehuda: Quem tem duas casas nos dois lados do domínio público faz um lechi (poste lateral) de cá e um lechi de lá, ou uma korá (viga transversal) de cá e uma korá de lá, e carrega e transporta no meio. Disseram-lhe os sábios: Não se faz eruv para o domínio público desse modo.
A guemará pergunta quem é o autor da baraita de Eruvin 59a (bloco 2077), que permite corrigir com um lechi ou uma korá em cada extremidade o domínio público que passa dentro da cidade. Rav Huna, filho de Rav Yehoshua, responde que é Rabi Yehuda, que, numa baraita, permite assim carregar entre duas casas situadas dos dois lados do domínio público, contra a opinião dos sábios. A mesma baraita está em Eruvin 6a–6b (blocos 151–152; conferido), com a redação “מִי שֶׁהָיוּ לוֹ שְׁנֵי בָתִּים מִשְּׁנֵי צִידֵּי”, e em Shabat 117a (conferido), com “מִיכָּן” em lugar de “מִכָּאן”. Ali o Rashi explica “mais que isso”: mesmo sem a borda do teto, as paredes das duas casas são duas divisórias completas, e basta uma pequena correção. Em Eruvin 6b (bloco 153; conferido) a guemará cita Rabba bar bar Chana, em nome de Rabi Yochanan: Jerusalém, se as suas portas não fossem trancadas à noite, seria domínio público. Mantemos aqui os termos de Eruvin 59a: “de cá” e “de lá”, “carrega e transporta”. Não há comentário do Rashi neste segmento no Sefaria.
Disse o mestre na baraita: E não se faz eruv para ela pela metade. Disse Rav Pappa: Não disseram senão quando se divide a cidade no seu comprimento; mas quando se divide na sua largura, faz-se eruv para cada metade.
“Senão no seu comprimento” — o costume das cidades é que as suas entradas de passagem fiquem no seu comprimento, e o domínio público passa de entrada a entrada, e a cidade é dividida no seu comprimento por ele; por isso, os de um lado da rua não têm permissão de fazer eruv só entre si, e os do outro lado dela só entre si, porque estes e aqueles pisam esse domínio público e saem e entram pelas entradas, para cá e para lá, e esse domínio público os une, pois todos estão misturados nele, e por isso proíbem uns aos outros.
“Mas na sua largura” — isto é, os dos dois lados, junto a uma extremidade da cidade, à parte, e os dos dois lados, junto à outra extremidade, à parte, fazem eruv; pois podem afastar-se uns dos outros, e não haverá caminho destes sobre aqueles, e escolhem para si, estes a entrada que está junto deles, e aqueles a entrada que está junto deles.
“Disse o mestre” introduz uma nova frase da baraita de Eruvin 59a (bloco 2077): “não se faz eruv para ela pela metade”. Rav Pappa limita a proibição. Segundo o Rashi, o domínio público costuma atravessar a cidade no seu comprimento, de uma entrada à outra; se a cidade é dividida ao longo dessa rua, os moradores de cada lado pisam o mesmo domínio público e saem pelas duas entradas, e a rua os une, de modo que se proíbem mutuamente. Se é dividida na largura, cada metade, com os dois lados da rua junto a uma extremidade, pode afastar-se da outra, e cada uma escolhe a entrada que está junto dela. A tradução de referência entende do mesmo modo.
A guemará pergunta: Segundo quem é a lei de Rav Pappa? Não segundo Rabi Akiva. Pois, se fosse segundo Rabi Akiva, eis que ele disse: O pé que é permitido no seu lugar (quem pode carregar no seu próprio pátio e tem passagem pelo outro) proíbe mesmo fora do seu lugar.
A disputa dos sábios e de Rabi Akiva está no perek Hadar, adiante em Eruvin 75a.
“O pé que é permitido no seu lugar proíbe fora do seu lugar” — por exemplo, dois pátios, um para dentro do outro, e o exterior está aberto para o domínio público, e o interior não tem entrada para o domínio público, mas sai pelo exterior. E não é preciso dizer que proíbe onde os moradores do exterior fizeram eruv só entre si, e os do interior não fizeram eruv entre si, à parte, para ficarem permitidos no uso do pátio para si, caso que é um pé proibido no seu lugar, cuja derisat haréguel (o direito de passagem) proíbe o carregar no exterior, mesmo segundo os sábios; pois, já que no seu próprio pátio estão proibidos, não há como forçá-los a fechar a sua porta e renunciar ao direito de passagem que têm sobre o exterior. Mas mesmo quando fizeram eruv, este para si e este para si, de modo que o interior é permitido no seu lugar, Rabi Akiva diverge e diz: O seu direito de passagem proíbe o carregar no exterior; e o interior é permitido e o exterior, proibido. E assim também aqui, que se proíbam uns aos outros os moradores das duas metades.
A guemará observa que a regra de Rav Pappa não segue Rabi Akiva. Segundo o Rashi, a disputa está adiante, no perek Hadar: na Mishná Eruvin 6:9 (Eruvin 75a; conferido), quando dois pátios, um para dentro do outro, fizeram cada um o seu eruv, Rabi Akiva proíbe o pátio exterior, “porque o direito de passagem o proíbe”, e os sábios dizem que o direito de passagem não o proíbe; na guemará de Eruvin 75a (conferido), Rav Dimi, em nome de Rabi Yannai, atribui a Rabi Akiva a frase “mesmo o pé permitido no seu lugar proíbe fora do seu lugar”, que se lê também em Eruvin 65b (conferido). O Rashi explica que, quando o pátio interior não fez eruv, até os sábios admitem que o seu direito de passagem proíbe o exterior, pois não se pode obrigar os seus moradores a fechar a porta; Rabi Akiva diverge mesmo quando o interior fez o seu eruv e está permitido no seu lugar. Aplicado à cidade dividida na largura, cada metade passaria pela outra, e se proibiriam mutuamente. “Pé” traduz “רֶגֶל”, que aqui designa quem passa por um lugar; a explicação entre parênteses é nossa. O lema do segundo comentário do Rashi omite o “אֲפִילּוּ” (“mesmo”) da guemará. O primeiro comentário não tem lema; a remissão “(לקמן עירובין דף עה.)”, entre parênteses no Sefaria, foi conferida.
A guemará responde: Mesmo que digas que é segundo Rabi Akiva: Rabi Akiva não disse a sua regra ali senão em dois pátios, um para dentro do outro, pois o interior não tem outra entrada e precisa passar pelo exterior; mas aqui, estes saem por esta entrada e aqueles saem por aquela entrada, sem passar pela outra metade.
A guemará rejeita a observação: mesmo Rabi Akiva só disse a sua regra no caso de dois pátios em que o interior não tem outra saída senão pelo exterior; na cidade dividida na largura, os moradores de cada metade saem pela entrada que está do seu lado, e não precisam do domínio público da outra metade. A tradução de referência entende do mesmo modo. Não há comentário do Rashi neste segmento no Sefaria.
Há quem diga: Disse Rav Pappa: Não digas que só quando se divide a cidade no seu comprimento não se faz eruv pela metade, mas quando se divide na sua largura se faz eruv; antes, mesmo na sua largura também não se faz eruv para metade da cidade.
Segunda versão das palavras de Rav Pappa: não se faz eruv para metade da cidade nem quando ela é dividida na largura. Não há comentário do Rashi neste segmento no Sefaria.
A guemará pergunta: Segundo quem é isto? Segundo Rabi Akiva! A guemará responde: Mesmo que digas que é segundo os sábios: Os sábios não disseram a sua regra ali senão em dois pátios, um para dentro do outro, pois o interior fecha a porta e usa o seu próprio pátio; mas aqui, podem acaso remover daqui o domínio público?!
“Pois o interior fecha a porta e usa” — pois, já que é permitido no seu lugar, como este que fez eruv para si, força-se contra o caráter de Sodoma, de modo que hoje ele não tenha direito de passagem sobre o exterior, mas feche a porta que está entre eles e use o pátio no seu lugar.
“Mas aqui” — eis que o domínio público destes e daqueles é um só, pois não há nele divisão no meio do seu comprimento, nem sinal de divisória, para dizer: Que uma metade feche a porta e use todo o seu espaço no seu lugar; e como podes remover estes daqueles?
Nesta versão, a guemará pensa primeiro que a regra segue Rabi Akiva, e responde que pode seguir até os sábios. Segundo o Rashi, quando o pátio interior fez o seu eruv e está permitido no seu lugar, força-se contra o caráter de Sodoma: ele não perde nada se fechar a porta entre os dois pátios e usar só o seu, e por isso não proíbe o exterior (a expressão é a de Eruvin 49a). Mas o domínio público da cidade é um só, sem divisão no meio do seu comprimento nem sinal de divisória, e não se pode dizer a uma metade que feche a porta; não é possível afastar uns dos outros. O Rashi lê “אחדא דשא”, onde a guemará diz “אָחֲדָא לְדַשָּׁא”. A tradução de referência entende do mesmo modo.
Disse o mestre na baraita: Ou toda ela, ou cada mavoi (beco) por si mesmo. A guemará pergunta: Em que difere o eruv pela metade, que não se faz? Porque proíbem uns aos outros; também cada mavoi proíbe os outros!
“Também cada mavoi proíbe os outros” — pois, já que no começo a cidade era de um indivíduo, e faziam eruv para toda ela, e os moradores se acostumaram a ser um só, proíbem uns aos outros; e mesmo que haja lechi ou korá para o mavoi, não adianta para separá-lo.
Outra frase da baraita de Eruvin 59a (bloco 2077): “ou toda ela, ou cada mavoi por si”. A guemará pergunta: se as duas metades da cidade se proíbem mutuamente, também os becos deveriam proibir-se uns aos outros. Segundo o Rashi, a razão é que a cidade era no começo de um indivíduo, faziam eruv para toda ela e se acostumaram a ser uma só; por isso nem um lechi ou uma korá na entrada de cada beco bastaria para separá-lo. Seguimos o Rashi; a tradução de referência explica que os moradores de um beco costumam entrar também nos outros. É a pergunta a que o Rashi já tinha remetido em Eruvin 59a (bloco 2077).
A guemará responde: Aqui, de que tratamos? Por exemplo, de que fizeram uma daká (entrada baixa) à entrada de cada mavoi. E é como aquilo que disse Rav Idi bar Avin, disse Rav Chisda: Um dos moradores do mavoi que fez uma daká para a sua entrada não proíbe aos moradores do mavoi o carregar.
“Que fizeram uma daká” — isto é, uma entrada baixa na cabeceira de cada mavoi, pois revelaram a sua intenção de se afastar, cada um dos becos, do seu companheiro.
“Para a sua entrada” — isto é, para a entrada do seu pátio.
“Não proíbe sobre o mavoi” — isto é, se não se associou com eles no shituf do mavoi, pois revelou a sua intenção de que se afastou.
A guemará responde que a baraita trata do caso em que os moradores fizeram uma daká na entrada de cada beco. Segundo o Rashi, a daká é uma entrada baixa na cabeceira de cada beco, sinal de que cada beco quis afastar-se dos outros; e é como a regra de Rav Idi bar Avin, em nome de Rav Chisda: o morador que fez uma daká para a entrada do seu pátio, ainda que não se tenha associado ao shituf dos demais, não os proíbe, pois mostrou que renunciou ao beco. Seguimos o Rashi; a tradução de referência entende a daká como uma divisória posta na entrada. A palavra aparece também em Eruvin 75a (conferido), no caso dos dois pátios: “quando fez uma daká”. O lema do terceiro comentário diz “על המבוי”, onde a guemará diz “עַל בְּנֵי מָבוֹי”.
“Se a cidade era de muitos, e eis que é” etc. Rabi Zeira fez eruv para a cidade da casa de Rabi Chiya e não lhe deixou shiur (uma parte de fora). Disse-lhe Abaye: Qual é a razão pela qual o mestre fez assim, numa cidade de muitos?
“E não lhe deixou shiur” — e era uma cidade de muitos que continua de muitos, como se vê pelo que lhe disse: É cidade de um indivíduo que se tornou de muitos; vê-se que naquela hora era de muitos. E eles disseram-lhe a Abaye: No começo também era de muitos, mas tinha uma ashpá que fechava uma das suas entradas, e não tinha senão uma entrada; e a baraita disse acima que, mesmo numa cidade de muitos, com isso lhe bastava.
A guemará volta à frase da baraita de Eruvin 59a (bloco 2078) e do bloco 2079: “se era de muitos, e eis que é de muitos”, que a guemará cita aqui com “וַהֲרֵי הִיא כּוּ׳”. Não é a Mishná Eruvin 5:6 (blocos 2073–2074), que trata da cidade de um indivíduo que se tornou de muitos e da de muitos que se tornou de um indivíduo, mas a baraita (Tosefta Eruvin 5:4, Lieberman; conferido), segundo a qual a cidade de muitos com uma só entrada recebe um eruv inteiro. Rabi Zeira fez eruv para a cidade “da casa de Rabi Chiya” sem deixar uma parte fora, e Abaye lhe pergunta por quê. Segundo o Rashi, Abaye entendia que a cidade era e continuava de muitos, como se vê pela resposta de Rabi Zeira no bloco seguinte, que a chama de cidade de um indivíduo que se tornou de muitos; os anciãos, porém, disseram a Abaye que ela sempre fora de muitos, mas um monte de lixo fechava uma das suas entradas, de modo que só tinha uma, e a baraita ensina que nesse caso basta o eruv inteiro. No hebraico do Rashi lê-se “[סגי לה]”, entre colchetes no Sefaria, depois de “שסותם אחד”: “bastava-lhe”; é um acréscimo marcado no texto, que não altera o sentido, e não o traduzimos à parte. A tradução de referência diz “a cidade de Rabi Chiya”; o aramaico diz “לְמָתָא דְּבֵי רַבִּי חִיָּיא”, “para a cidade da casa de Rabi Chiya”.
Disse-lhe Rabi Zeira: Os anciãos dela, da cidade, disseram-me: Rav Chiya bar Assi fazia eruv para toda ela sem shiur. E eu disse: Conclui-se disso que é uma cidade de um indivíduo que se tornou de muitos, para a qual se faz eruv inteiro.
Rabi Zeira explica: os anciãos da cidade lhe contaram que Rav Chiya bar Assi fazia eruv para toda ela, e ele concluiu que era uma cidade de um indivíduo que se tornou de muitos, para a qual a Mishná Eruvin 5:6 (bloco 2073) permite um eruv inteiro. O nome está escrito “רַב חִיָּיא בַּר אַסִּי”, com samech, e por isso transcrevemos “bar Assi”, como “Rav Assi” nas páginas de Eruvin; não é o Rav Chiya bar Ashi (“אַשִׁי”) de outras páginas. “Fazia eruv” traduz o particípio “מְעָרֵב”. Não há comentário do Rashi neste segmento no Sefaria; o Rashi do bloco 2088 explica a troca.
Disse-lhe Abaye: A mim disseram-me aqueles anciãos: Havia nela uma certa ashpá (monte de lixo) de um lado, que fechava uma das entradas; e agora, que foi removida dela a ashpá, ficou-lhe como duas entradas, e é proibido fazer eruv para toda ela sem shiur. Disse-lhe Rabi Zeira: Não estava na minha mente.
Abaye responde que os mesmos anciãos lhe deram outra razão: a cidade era de muitos, mas havia um monte de lixo de um lado, que fechava uma das entradas; agora que foi removido, a cidade tem como que duas entradas e já não se pode fazer eruv para toda ela sem deixar uma parte fora. Rabi Zeira admite que não o sabia. “Ficou-lhe como duas entradas” traduz “הָוֵה לַהּ כִּשְׁנֵי פְּתָחִים”. Não há comentário do Rashi neste segmento no Sefaria; o Rashi do bloco 2088 explica a troca.
Perguntou Rav Ami bar Adda de Harpania a Rabba: Se a cidade tem uma escada de cá e uma entrada de lá, qual é a lei? Disse-lhe Rabba: Assim disse Rav: A escada tem sobre si a lei de entrada.
“Uma escada” — isto é, pela qual sobem e descem do lado de fora da sua muralha.
Rav Ami bar Adda de Harpania pergunta a Rabba sobre a cidade de muitos que tem uma escada de um lado e uma entrada do outro: a escada conta como segunda entrada? Segundo o Rashi, trata-se de uma escada pela qual se sobe e desce do lado de fora da muralha. Rabba responde em nome de Rav que a escada tem a lei de entrada, e assim a cidade seria como a que tem duas entradas, para a qual não basta um eruv inteiro. “De Harpania” traduz “הַרְפַּנָּאָה”. A tradução de referência entende do mesmo modo.
Disse-lhes Rav Nachman: Não lhe deis ouvidos a Rabba; assim disse Rav Adda, disse Rav: A escada tem sobre si a lei de entrada e tem sobre si a lei de divisória. Tem sobre si a lei de divisória, como dissemos, na escada da muralha; tem sobre si a lei de entrada na escada que está entre dois pátios: se quiserem, fazem os dois pátios um eruv; se quiserem, fazem dois eruvin.
“Tem sobre si a lei de divisória” — quer dizer: não anula o fechamento da muralha para ser como entrada.
“Na escada que está entre dois pátios” — e não há entre eles entrada, e esta escada, larga de quatro palmos, está entre eles: eis que é como dois pátios com uma entrada entre eles, dos quais dizemos no perek Chalon, adiante em Eruvin 76a: Se quiserem, fazem um eruv, um só eruv para os dois, e usam um com o outro pelo alto do muro e por buracos e fendas; pois, se não fosse entrada, não fariam um só eruv, e não poderiam usar um com o outro por buracos e fendas.
“Se quiserem, fazem dois” — fazem dois eruvin: estes para si, os moradores das casas de um pátio, para que não proíbam um ao outro de levar objetos das suas casas, que são domínio particular de cada um, para dentro do pátio, que é domínio de todos eles; e aqueles do outro pátio para si; e não usam um pátio com o outro.
Rav Nachman rejeita a resposta de Rabba e cita Rav em nome de Rav Adda: a escada tem a lei de divisória num caso e a de entrada noutro. No caso da muralha da cidade, segundo o Rashi, a escada não anula o fechamento para ser como entrada, e a cidade continua a ter uma só entrada. Entre dois pátios, a escada é como uma entrada: segundo o Rashi, quando não há entrada entre os pátios e a escada tem quatro de largura, é como o caso da janela entre dois pátios, adiante no perek Chalon (Mishná Eruvin 7:1, em Eruvin 76a; conferido): “se quiserem, fazem um eruv”, e então usam um pátio com o outro pelo alto do muro e por buracos e fendas; ou fazem dois eruvin, cada pátio para os seus moradores, e não usam um com o outro. A medida “quatro” no Rashi não diz a unidade; acrescentamos “palmos”, como na Mishná da janela, de quatro palmos por quatro. A remissão “(לקמן עירובין דף עו.)”, entre parênteses no Sefaria, foi conferida. A tradução de referência entende do mesmo modo.
A guemará pergunta: E acaso disse Rav Nachman assim? Mas não disse Rav Nachman, disse Shmuel: Os moradores do pátio e os moradores da mirpeset (sacada) que se esqueceram e não fizeram eruv…
“E acaso disse Rav Nachman assim?” — que a escada tem sobre si a lei de divisória, para a leniência.
“Mirpeset” — aldoyer em laaz (língua vernácula, aqui o francês antigo). Isto é, moradores de andares superiores, cujos andares são contíguos um ao outro e abertos para o pátio, fazem uma mirpeset ao longo do comprimento dos andares superiores, e abrem para ela as entradas de todos eles, e sobem e descem pela escada da mirpeset para o pátio; e o seu passo e a sua saída para o domínio público são pelo pátio. Por isso, se os de cima não fazem eruv com os moradores de baixo, proíbem uns aos outros de levar os utensílios das casas para o pátio.
A guemará estranha a posição atribuída a Rav Nachman: segundo o Rashi, a objeção é que Rav Nachman deu à escada a lei de divisória para a leniência. A prova vem de uma regra de Rav Nachman em nome de Shmuel sobre a mishná dos moradores do pátio e da sacada que se esqueceram e não fizeram eruv (Mishná Eruvin 8:3, citada em Eruvin 83b; conferido); a frase continua em Eruvin 60a. Segundo o Rashi, a mirpeset é uma galeria ao longo dos andares superiores, aberta para o pátio, onde se abrem as entradas desses andares; os seus moradores descem por uma escada para o pátio e por ele saem para o domínio público, e, se não fazem eruv com os de baixo, uns proíbem os outros de levar utensílios das casas para o pátio. A palavra em laaz, “אלדויי״ר”, é transcrita do francês antigo; não a identificamos com segurança, e o sentido vem da própria explicação do Rashi. O lema do primeiro comentário abrevia “רב נחמן” como “ר״נ”.