O daf abre com a guemará sobre a mishná do perito, que começou no fim de Eruvin 58b. A mishná disse que se ouve o lugar onde o agrimensor aumentou; a guemará estranha, pois o que diminuiu deveria ser aceito com mais razão, e responde que a mishná quer dizer “mesmo” o lugar onde aumentou. O caso “aumentou para um e diminuiu para um” é lido como o de dois agrimensores, e ouve-se o que aumentou; Abaye limita isso à diferença da diagonal da cidade. A guemará confronta a frase “os sábios não disseram a coisa para agravar, mas para aliviar” com uma baraita que diz o contrário, e Ravina as concilia: os techumin vieram agravar sobre a Torá, mas, sendo dos sábios, são medidos com leniência. Segue-se uma nova mishná, que volta ao eruv dos pátios: a cidade de um indivíduo que se tornou de muitos recebe um eruv para toda ela; a de muitos que se tornou de um indivíduo só o recebe se uma parte for deixada fora, com a medida discutida por Rabi Yehuda e Rabi Shimon. Na guemará, Rav Yehuda dá como exemplo a iskarta do Reish Galuta, e Rav Nachman objeta e propõe a de Natzuai; uma baraita ensina como se faz eruv quando um domínio público passa dentro dessa cidade. O daf termina no começo do caso da cidade que era de muitos e continua de muitos.
GUEMARÁ. A mishná diz que se ouve o lugar onde aumentou: para o lugar onde aumentou, sim; para o lugar onde diminuiu, não? A guemará responde: Dize: Mesmo para o lugar onde aumentou se ouve.
GUEMARÁ. “Para o lugar onde diminuiu, não?” — a guemará pergunta com espanto: e não há, dentro de duzentos, um maneh (cem zuz)?
A guemará volta à Mishná Eruvin 5:5, no fim de Eruvin 58b (bloco 2066), cuja tradução mantemos: “ouve-se o lugar onde aumentou”. A pergunta: se a medida maior é aceita, a menor deveria sê-lo com mais razão. Segundo o Rashi, a pergunta é feita com espanto: e não estão os cem incluídos nos duzentos? Quem aceita o mais aceita o menos. A resposta, “dize: mesmo para o lugar onde aumentou”, lê a mishná como uma novidade: não só se aceita a medida menor, mas mesmo a maior, e com mais razão a menor. A tradução de referência entende do mesmo modo.
“Se aumentou para um e diminuiu para um” etc. A guemará pergunta: Isto, para que mais me é preciso? É o mesmo que aquilo! A guemará responde: Assim diz a mishná: Se um aumentou e um diminuiu, ouve-se este que aumentou.
“É o mesmo que aquilo” — pois “para um” é o mesmo que “para um lugar”, e a mishná já o ensinou.
“Assim diz: um aumentou e um diminuiu” — isto é, que duas pessoas o mediram: este diminuiu e este aumentou.
A citação é da Mishná Eruvin 5:5, no fim de Eruvin 58b (bloco 2066): “se aumentou para um e diminuiu para um, ouve-se o maior”. Segundo o Rashi, a pergunta é que “para um” seria o mesmo que “para um lugar”, caso já ensinado na primeira frase da mishná; por isso a guemará relê a frase: “um aumentou e um diminuiu” fala de dois agrimensores, um que mediu mais e outro que mediu menos, e segue-se o que aumentou. O Rashi da mishná, em Eruvin 58b, já tinha dito que isto se explica na guemará.
Disse Abaye: E ouve-se o que aumentou, contanto que não aumente mais do que a medida do techum da cidade na alachsona (diagonal).
“Que não aumente mais do que a medida da cidade na diagonal” — pois, mesmo que tenha aumentado uma quantia grande, que não há como atribuir ao esticar da corda, nós a atribuímos ao erro da diagonal, pois dizemos: este era experiente na medição e pôs a tábua dos techumin defronte do canto, na diagonal, como dissemos acima, e este outro mediu duas mil a partir do meio do canto e perdeu os ângulos, isto é, toda a sobra da diagonal de duas mil; mas, se aumentou mais do que isso, não temos a que atribuí-lo. E o meu coração hesita quanto à redação.
Abaye limita a regra: aceita-se a medida maior só quando a diferença entre as duas não passa daquilo que a diagonal acrescenta nos cantos da cidade. Segundo o Rashi, uma diferença pequena se explica pela corda que não foi bem esticada (Eruvin 58b, bloco 2066); uma diferença grande se explica por um erro na diagonal: o agrimensor experiente pôs a tábua quadrada dos techumin no canto, de modo que a medida segue a diagonal, e o outro mediu duas mil amot a partir do canto em linha reta e perdeu o que a diagonal acrescenta. A remissão “(דף נו:)”, entre parênteses no Rashi, aponta para Eruvin 56b (conferido), onde se explica que as duas mil amot não se medem a partir do meio do canto, mas com uma tábua de duas mil por duas mil (bloco 1994); pela regra ali citada, “toda amá no quadrado é uma amá e dois quintos na diagonal”, a sobra é de cerca de oitocentas amot. O Rashi termina dizendo que o seu coração hesita quanto à redação, isto é, que não está seguro desta explicação das palavras de Abaye. A tradução de referência entende do mesmo modo: a diferença entre a medida na diagonal e a medida em linha reta.
“Pois os sábios não disseram a coisa, a lei dos techumin, para agravar, mas para aliviar.” A guemará pergunta: Mas não foi ensinado numa baraita: Os sábios não disseram a coisa para aliviar, mas para agravar?
A citação é do fim da Mishná Eruvin 5:5, em Eruvin 58b (bloco 2067), cuja tradução mantemos. A baraita citada diz o contrário: os sábios não disseram a coisa para aliviar, mas para agravar. Não a encontramos na Tosefta Eruvin (edição Lieberman) e por isso não indicamos a sua fonte. Não há comentário do Rashi neste segmento no Sefaria.
Disse Ravina: A baraita quer dizer: Não disseram os techumin para aliviar sobre as palavras da Torá, mas para agravar sobre as palavras da Torá; e os techumin são dos sábios, e por isso a mishná é leniente na sua medida.
“Não para aliviar sobre as palavras da Torá” — tudo o que os sábios decretaram nos techumin, para agravar sobre as palavras da Torá vieram decretá-lo, pois pela Torá nada se proíbe, e eles decretaram; por isso vamos com eles para a leniência, pois os próprios techumin são dos sábios.
Ravina concilia as duas frases: a baraita fala da própria instituição dos techumin, que veio acrescentar um rigor ao que a Torá proíbe; a mishná fala da sua medição, em que se segue a leniência, porque os techumin são uma lei dos sábios. Segundo o Rashi, pela Torá nada se proíbe aqui, e por isso, nos techumin, vai-se para a leniência. A tradução de referência entende do mesmo modo.
MISHNÁ. Uma cidade de um indivíduo que se tornou de muitos, faz-se eruv (junção dos pátios) para toda ela de uma só vez.
MISHNÁ. “Uma cidade de um indivíduo” — isto é, que não entravam nela sempre seiscentas mil pessoas, e não é considerada domínio público, pois não se assemelha aos estandartes do acampamento no deserto.
“E se tornou de muitos” — isto é, que se acrescentaram nela moradores, ou se estabeleceram nela mercados.
“Faz-se eruv para toda ela” — como no início, e os seus mevuot (becos sem saída para os quais se abrem pátios) não precisam de correção, pois ela é como um só pátio; e trata-se do caso em que não há nela um domínio público completo, de dezesseis amot; e, se há, explica-se na guemará a correção para o domínio público que está dentro dela.
Encerrada a guemará sobre a Mishná Eruvin 5:5, do perito que mede o techum, que começou em Eruvin 58b, inicia-se aqui uma nova mishná do Perek Heh (Keitzad Meabrin), que corresponde à Mishná Eruvin 5:6 na numeração das edições avulsas da Mishná (conferido); o bloco 2074 corresponde à continuação da mesma Mishná Eruvin 5:6. Embora o capítulo trate dos techumin, esta mishná volta ao eruv dos pátios. Ela já foi citada em Eruvin 46b (bloco 1631) e em Eruvin 47a (bloco 1633), e mantemos a tradução de lá. Segundo o Rashi, a cidade “de um indivíduo” é aquela em que não entram sempre seiscentas mil pessoas, e por isso não é domínio público, pois não se assemelha ao acampamento de Israel no deserto, como o Rashi diz também em Eruvin 47a (bloco 1633); ela “se tornou de muitos” quando lhe vieram mais moradores ou nela se estabeleceram mercados. Faz-se eruv para toda ela como antes, e os seus becos não precisam de correção, pois a cidade inteira é como um só pátio; isto quando não passa por ela um domínio público completo, de dezesseis amot de largura, caso que a guemará explica adiante (bloco 2077). Na edição avulsa lê-se “כֻּלָּהּ”, onde o Talmud diz “כּוּלָּהּ”; é diferença de grafia.
E uma cidade de muitos que se tornou de um indivíduo, não se faz eruv para toda ela, a não ser que faça uma parte fora dela, sem eruv com o restante da cidade, como a cidade de Chadashá, que fica em Yehudá, na qual há cinquenta moradores. Estas são as palavras de Rabi Yehuda. Rabi Shimon diz: Basta deixar fora do eruv três pátios de duas casas cada um.
“E a de muitos que se tornou de um indivíduo” — a mishná nos ensina uma novidade: embora tenha se tornado de um indivíduo, não se faz eruv para toda ela, já que no começo era de muitos; pois talvez volte e se torne de muitos, e venham a fazer eruv para toda ela, e é proibido fazer eruv para uma cidade de muitos sem shiur (uma parte deixada fora), embora não haja nela domínio público completo, para que não se esqueça a lei do domínio público; e esse shiur é um sinal de que a razão pela qual se carrega é por causa do eruv.
“A não ser que faça fora dela” — isto é, um shiur de moradores que não fizeram eruv com o restante da cidade, mas só entre si.
“Como a cidade de Chadashá” — assim é o seu nome, Chadashá.
Continuação da Mishná Eruvin 5:6 (conferida). Mantemos a tradução de Eruvin 46b (bloco 1631) e de Eruvin 47a (bloco 1633), com um ajuste: lá se disse “uma parte fora dela sem eruv”; aqui seguimos o Rashi, para quem a parte deixada fora não fica necessariamente sem eruv, mas não faz eruv com o restante da cidade, e sim só entre si. Aqui o Talmud diz “עָשָׂה”, como a edição avulsa, onde a citação de Eruvin 46b diz “עוֹשֶׂה”; mantivemos “faça”. Segundo o Rashi, a novidade é que, mesmo depois de ter-se tornado de um indivíduo, a cidade não recebe um eruv para toda ela, porque poderia voltar a ser de muitos e continuariam a fazer-lhe um eruv inteiro; e numa cidade de muitos é proibido fazer eruv sem deixar uma parte fora, ainda que não haja nela um domínio público completo, para que não se esqueça a lei do domínio público: a parte excluída mostra que só se carrega por causa do eruv. Sobre Chadashá, o Rashi diz apenas que é o nome da cidade; a tradução de referência entende que a parte excluída deve ser do tamanho dessa cidade, com cinquenta moradores, e o sentido exato é discutido na guemará que segue. Para Rabi Shimon, basta deixar fora três pátios de duas casas cada um, como em Eruvin 47a (bloco 1633). Na edição avulsa lê-se “כְּעִיר”, “דִּיּוּרִים” e “חֲצֵרוֹת”, onde o Talmud diz “כָּעִיר”, “דָּיוֹרִין” e “חֲצֵירוֹת”. O lema do primeiro comentário do Rashi diz “שנעשית”, onde a mishná diz “וְנַעֲשֵׂית”; o do segundo diz “אא״כ”, abreviação de “אֶלָּא אִם כֵּן”.
GUEMARÁ. A guemará pergunta: Como é uma cidade de um indivíduo que se tornou de muitos? Disse Rav Yehuda: Como, por exemplo, a iskarta (aldeia) do Reish Galuta (Exilarca).
Rav Yehuda dá como exemplo a aldeia do Reish Galuta, que era de um indivíduo e passou a ser frequentada por muitos. A palavra “דִּאיסְקַרְתָּא” é “de iskarta”; a tradução de referência a explica como uma pequena aldeia reservada à família e aos servidores do Exilarca. Não há comentário do Rashi neste segmento no Sefaria; o Rashi explica o exemplo no segmento seguinte (bloco 2076).
Disse-lhe Rav Nachman: Qual é a razão de dares este exemplo? Se dizes que é porque muitos se acham junto ao harmana (o governante) e lembram uns aos outros, e não virão a permitir outra cidade, também todos os de Israel, na manhã de Shabat, se acham uns junto aos outros! Antes, disse Rav Nachman: Como, por exemplo, a iskarta de Natzuai.
GUEMARÁ. “Qual é a razão?” — Rav Nachman pergunta porque atribuíram nela uma razão, como se dissessem que não se acha outra cidade de um indivíduo que se tornou de muitos.
“Porque muitos se acham junto ao harmana” — isto é, junto ao governante, que é o Reish Galuta, para receber permissão para julgar, e para permitir os bechorot (primogênitos de animal com defeito), e para ordenar juízes.
“Lembram uns aos outros” — que não venham a permitir uma cidade de muitos que continua de muitos.
“Na manhã de Shabat se acham uns com os outros” — para ouvir a derashá (a exposição pública da Torá).
“Antes, disse Rav Nachman” — que toda cidade de um indivíduo que se tornou de muitos é permitida, e se faz eruv para toda ela.
“Como, por exemplo, a iskarta de Natzuai” — isto é, a cidade daquele homem.
Segundo o Rashi, Rav Nachman pergunta por que Rav Yehuda deu um exemplo tão particular, como se a regra dependesse de uma razão própria daquela aldeia e não houvesse outra cidade de um indivíduo que se tornou de muitos. A razão seria que muitos frequentam o harmana, que, segundo o Rashi, é o próprio Reish Galuta, para receber permissão para julgar, para permitir primogênitos de animal com defeito e para ordenar, e ali lembram uns aos outros que não se deve permitir uma cidade que é e continua de muitos. Rav Nachman objeta que todo Israel também se reúne na manhã de Shabat, diz o Rashi, para ouvir a derashá; e por isso, segundo o Rashi, toda cidade de um indivíduo que se tornou de muitos é permitida, e a de Natzuai é só um exemplo, a cidade de certo homem. A tradução de referência entende o harmana como o governador, a cuja residência muitos iam pedir licenças e autorizações; seguimos o Rashi. A grafia “Natzuai” transcreve “נַתְּזוּאִי”; a vocalização do nome é incerta. A palavra “דִּיסְקַרְתָּא”, aqui sem o “א” de “דִּאיסְקַרְתָּא” do bloco 2075, é a mesma. O lema do segundo comentário diz “משום דשכיחי רבים גבי הרמנא”, com “רבים”, que não está na guemará; o do quarto diz “שכיחי אהדדי”, onde a guemará diz “שְׁכִיחִי גַּבֵּי הֲדָדֵי”; o primeiro começa com “גמ׳”, porque o segmento anterior não tem comentário do Rashi.
Ensinaram os sábios numa baraita: Uma cidade de um indivíduo que se tornou de muitos, e um domínio público passa dentro dela, como se faz eruv para ela? Faz um lechi (poste lateral) de cá e um lechi de lá, ou uma korá (viga transversal) de cá e uma korá de lá, nas extremidades do domínio público, e carrega e transporta no meio. E não se faz eruv para ela pela metade, mas ou para toda ela, ou para cada mavoi por si.
“E um domínio público passa dentro dela” — isto é, um domínio público de dezesseis amot de largura.
“Um lechi de cá e um lechi de lá” — isto é, nas extremidades do domínio público; e tratamos de cidades que não têm muralha, de modo que as extremidades do domínio público estão abertas de ponta a ponta. E, na cidade de muitos que continua de muitos, os sábios não permitiram esta correção, pois todos os seus mevuot abertos de ponta a ponta são como domínio público e precisam de correção pela lei dos sábios, porque se confundem com o domínio público; mas, na cidade de um indivíduo, a coisa é evidente.
“E não se faz eruv para ela pela metade” — pois, já que no começo é uma só, estes proíbem aqueles, e é como um mavoi em que um dos pátios esqueceu e não se associou a ele, que proíbe a todos.
“Ou cada mavoi” — e adiante a guemará pergunta: Também agora, que se proíbam uns aos outros!
A baraita está na Tosefta Eruvin 5:4 (Lieberman; conferido), com redação um pouco diferente: “כיצד מעברין אותה, נותן לחי מיכן ולחי מיכן, או קורה מיכן וקור׳ מיכן, ומערבין ונושאין ונותנין באמצע”, e “או מבוי בפני עצמו”, sem a repetição de “mavoi”. Segundo o Rashi, trata-se de um domínio público completo, de dezesseis amot de largura, numa cidade sem muralha, de modo que as suas extremidades estão abertas; um lechi ou uma korá em cada extremidade basta, e carrega-se no meio, porque, diz o Rashi, na cidade de um indivíduo “a coisa é evidente”. Na cidade que é e continua de muitos, os sábios não permitiram esta correção: todos os seus becos abertos de ponta a ponta são como domínio público e precisam de correção dos sábios, porque se confundem com ele. Não se faz eruv para metade da cidade, porque, sendo uma só desde o começo, as partes se proíbem mutuamente, como o mavoi em que um pátio não se associou e proíbe todos os demais; ou se faz eruv para toda a cidade, ou para cada beco por si. O Rashi remete a uma objeção que a guemará faz adiante: também assim os becos deveriam proibir-se uns aos outros. “Carrega e transporta” traduz “נוֹשֵׂא וְנוֹתֵן”. Os lemas do Rashi usam a abreviação “רה״ר” para “רְשׁוּת הָרַבִּים”, “domínio público”.
Se a cidade era de muitos, e eis que é de muitos…
O daf termina no meio da baraita, que prossegue em Eruvin 59b. Na Tosefta Eruvin 5:4 (Lieberman; conferido), a frase prossegue: “ואין לה אלא פתח אחד, מערבין את כולה”, “e não tem senão uma entrada, faz-se eruv para toda ela”. Não há comentário do Rashi neste segmento no Sefaria; o Rashi do bloco 2077 já fala do caso da cidade que é e continua de muitos.