O daf completa a baraita que Eruvin 55b deixou no meio: as três coisas que aumentam o excremento, curvam a estatura e tiram a luz dos olhos são o pão de farelo, a cerveja nova e a verdura. A guemará concilia a baraita com Rav Huna, que não deixa o sábio morar numa cidade sem verdura, distinguindo alhos e alhos-porós das demais verduras, e duas baraitot opostas sobre o rabanete, pelas folhas e pelas raízes, ou pelo verão e pelo inverno. Rav Yehuda, em nome de Rav, diz que numa cidade de subidas e descidas se envelhece na metade dos dias. Volta então à geometria do ibur da cidade: quem a quadra deve alinhá-la com o quadrado do mundo, reconhecendo o norte pela agalá e o sul pelo akrav; Rabi Yossi ensina a fazê-lo pelo caminho do sol nas estações, e Rav Mesharshiya rejeita essas regras a partir de outra baraita. O daf termina com Shmuel e as tekufot: as horas em que caem os equinócios e os solstícios, o intervalo de noventa e um dias e sete horas e meia, a meia hora de atraso na ordem dos planetas, e a tekufá que cai na hora de Tzedek.
…e estas são elas: pão de kibar (farelo), cerveja nova e verdura. Não é difícil: esta palavra trata de alhos e alhos-porós; aquela, das demais verduras. Como foi ensinado numa baraita: O alho: verdura; os alhos-porós: meia verdura. Quando se vê o rabanete, vê-se uma sam chayim (poção de vida).
“Pão de kibar” — é o que se chama shnodr’ em laaz (francês antigo).
“Alhos e alhos-porós” — estes não são bons: assim ouvi dos meus mestres. Mas me parece que alhos e alhos-porós são bons, e assim foi ensinado numa baraita (Bava Kamma, folha 72a): “Cinco coisas foram ditas do alho: sacia, aquece, alegra o rosto, aumenta a semente e mata o piolho que está nas entranhas”; e, sobre os alhos-porós, também foi ensinado em Berachot (folha 44b) que são bons para os intestinos.
“O alho é verdura” — eu ouvi esta frase como depreciação, e eu digo que é como louvor.
A baraita começou no fim de Eruvin 55b (bloco 1981): “três coisas aumentam o excremento, curvam a estatura e tiram um quinhentos avos da luz dos olhos de uma pessoa, e estas são elas”; aqui vem a lista. A pergunta da guemará era que Rav Huna louva a verdura, ao proibir ao sábio morar numa cidade sem ela, e a baraita a põe entre as três coisas nocivas. A resposta distingue “estas” e “aquelas” sem dizer qual é qual. O Rashi conta que ouviu de seus mestres que alhos e alhos-porós não são bons, de modo que Rav Huna falaria das demais verduras e a baraita, dos alhos; mas ele mesmo entende o contrário: alhos e alhos-porós são bons, e a eles se refere Rav Huna. Pelo mesmo motivo, ouviu “o alho é verdura” como crítica, e ele o lê como louvor. A tradução de referência segue a leitura do próprio Rashi. A fonte das cinco qualidades do alho, que o Rashi cita como “Bava Kamma, folha 72a” (“ב״ק דף עב.”), está de fato em Bava Kamma 82a (conferido), numa baraita dos sábios; em Bava Kamma 72a não há essa passagem. Sobre os alhos-porós, Berachot 44b (conferido) diz: “os alhos-porós são nocivos aos dentes e bons para os intestinos”. Traduzimos “ומשחין” por “aquece”, como a raiz de “calor”; “כינה שבמעים” é literalmente “o piolho que está nas entranhas”, isto é, os vermes intestinais. “Pat kibar” é o pão de farinha grossa, não peneirada, com o farelo; o Rashi o traduz com uma palavra em laaz, que no Sefaria aparece abreviada, “שנודר׳”, e cuja forma exata não conseguimos esclarecer.
Mas não foi ensinado noutra baraita: Quando se vê o rabanete, vê-se uma sam hamavet (poção de morte)? Não é difícil: aqui, trata-se das folhas; ali, das imahot (raízes; literalmente, “mães”). Aqui, nos dias de calor; ali, nos dias das chuvas.
“Folhas” — são nocivas; as imahot são boas; imahot são as raízes.
“Nos dias de calor” — os rabanetes são bons, pois refrescam o corpo; nos dias das chuvas, são nocivos.
Segundo o Rashi, as folhas do rabanete fazem mal e as raízes, chamadas “mães”, fazem bem; e no verão o rabanete é bom, porque refresca o corpo, e no inverno é nocivo. A guemará diz “כָּאן... כָּאן”, “aqui... aqui”, sem dizer qual das duas baraitot corresponde a cada caso; pelo Rashi, a “poção de morte” são as folhas, ou o rabanete do inverno, e a “poção de vida”, as raízes, ou o rabanete do verão. “Dias de calor” e “dias das chuvas” traduzem “יְמוֹת הַחַמָּה” e “יְמוֹת הַגְּשָׁמִים”, o verão e o inverno da terra de Israel e da Babilônia.
Disse Rav Yehuda, disse Rav: Toda cidade em que há subidas e descidas, o homem e o animal que estão nela morrem na metade dos seus dias (o tempo da sua vida). Morrem, passa-te pela mente dizer? Não é assim; antes, dize: Envelhecem na metade dos seus dias. Disse Rav Huna, filho de Rav Yehoshua: Estas mulyata (subidas) de Bei Biri e de Bei Naresh me envelheceram.
“Envelhecem” — por causa do esforço de subir e descer.
“Bei Biri e Bei Naresh” — são duas cidades, e há entre uma e outra subidas e descidas, e elas são as mulyata.
“Azkenun” — quer dizer: envelheceram-me.
A guemará não aceita que os moradores de tais cidades morram cedo, e corrige: envelhecem antes do tempo; segundo o Rashi, pelo esforço de subir e descer. Rav Huna, filho de Rav Yehoshua, dá o seu próprio testemunho. Segundo o Rashi, Bei Biri e Bei Naresh são duas cidades com subidas e descidas entre elas, e “mulyata” são essas subidas. A tradução de referência acrescenta que Rav Huna morava ali; o Rashi não o diz. O lema do primeiro comentário diz “מזקינין”, onde a guemará diz “מַזְקִינִים”; o do segundo diz “בי בירי ובי נרש”, onde a guemará diz “דְּבֵי בֵירֵי וּדְבֵי נָרֶשׁ”.
Os sábios ensinaram numa baraita: Se vem quadrá-la (a cidade), quadra-a segundo o ribua olam (o quadrado do mundo): põe o seu norte voltado para o norte do mundo e o seu sul, para o sul do mundo. E o teu sinal: a agalá (a Carroça, a Ursa Maior) está no norte, e o akrav (o Escorpião), no sul.
“Segundo o quadrado do mundo” — como a baraita vai explicando em seguida.
“Põe o seu norte para o norte do mundo e o seu sul para o sul do mundo” — e não de modo que fique na diagonal do mundo.
“E o teu sinal” — serve se não sabes orientar a direção do norte e do sul.
“A agalá no norte e o akrav no sul” — estes são mazalot (constelações).
A baraita retoma a geometria do ibur da cidade de Eruvin 55a (blocos 1949–1952): antes de medir as duas mil amot do techum, traça-se o contorno da cidade como um quadrado, e a guemará já ensinara que a cidade quadrada “mas não segundo o quadrado do mundo” não recebe cantos novos (bloco 1952). Aqui se diz como se faz o quadrado quando é preciso fazê-lo: com os lados voltados para os quatro pontos cardeais, e não, como acrescenta o Rashi, na diagonal. Para achar o norte e o sul, a baraita dá um sinal no céu: a “agalá”, a Carroça, isto é, a Ursa Maior, que se vê ao norte, e o “akrav”, o Escorpião, constelação do zodíaco que, nas terras de Israel e da Babilônia, fica baixa no céu do sul. O Rashi diz apenas que são “mazalot”, constelações. Um paralelo está na Tosefta Eruvin 4:6 (Lieberman; conferido): “מרבעה כריבוע עולם, נותן צפונה לצפון עולם, ודרומה לדרום עולם”, sem o sinal da agalá e do akrav. O lema do primeiro comentário diz “בריבוע של עולם”, onde a guemará diz “בְּרִיבּוּעַ עוֹלָם”.
Rabi Yossi diz: Se não sabe quadrá-la segundo o quadrado do mundo, quadra-a à maneira da tekufá (o ciclo do sol nas estações). Como se faz? O lado em que o sol sai no dia longo e se põe no dia longo, esse lado é a face norte. O lado em que o sol sai no dia curto e se põe no dia curto, esse lado é a face sul. Na tekufá de Nissan (o equinócio da primavera) e na tekufá de Tishrei (o equinócio do outono), o sol sai no meio do leste e se põe no meio do oeste,
“Se não sabe quadrá-la segundo o quadrado do mundo” — isto é, que não reconhece estas constelações.
“Quadra-a à maneira da tekufá” — conforme o andar do giro do sol nas estações, reconhece-se qual lado é o do sul e qual lado é o do norte.
“O sol sai no dia longo” — aquele lado em que vês que o sol sai, no dia longo dos dias da tekufá de Tamuz (o solstício de verão): sai numa das suas pontas e se põe nesse mesmo lado, na sua outra ponta.
“Esse é a face norte” — porque o sol, de dia, sempre anda do leste para o sul, como diz o versículo (Kohelet 1:6): “Vai para o sul”; e o andar do sol é de dia, mas de noite não anda à nossa vista, senão que gira por fora da abóbada do céu. E, no dia longo, o sol está no canto nordeste, anda pelo leste, pelo sul e pelo oeste, e se põe no canto noroeste; e, de noite, contorna a face norte. E, no dia seguinte, o dia se encurta um pouco, e o sol não sai no canto, mas se afasta do canto um pouco para o leste, e sai; e, à tarde, se põe dentro do oeste, um pouco afastado do canto; e, de noite, contorna esse pouco do oeste, e todo o norte, e um pouco do leste, mais do que na noite de ontem. E assim todo dia, até que, na tekufá de Tishrei, sai no meio do leste e se põe no meio do oeste; por isso o dia e a noite são iguais. E ainda, a cada dia, se afasta para o lado do sul ao sair, e, ao se pôr, se afasta para o lado do sul e se põe, até que, no dia da tekufá de Tevet, sai no canto sudeste, anda somente pelo sul e se põe no canto sudoeste. E é isso o que a baraita diz: “O sol sai no dia curto e se põe no dia curto: esse é a face sul”.
“Tekufá” é o momento em que o sol chega a um dos quatro pontos do seu ciclo anual: a de Nissan e a de Tishrei são os equinócios, da primavera e do outono, e a de Tamuz e a de Tevet, os solstícios, de verão e de inverno. Rabi Yossi ensina a achar os pontos cardeais pelo sol: no dia mais longo, o sol nasce e se põe do lado norte do céu, e esse é o norte; no mais curto, nasce e se põe do lado sul, e esse é o sul; nos equinócios, nasce exatamente no leste e se põe exatamente no oeste. O Rashi descreve o caminho do sol ao longo do ano, partindo de Tamuz: no dia mais longo, ele nasce no canto nordeste, passa pelo leste, pelo sul e pelo oeste, e se põe no canto noroeste, e de noite contorna o norte “por fora da abóbada”; a cada dia nasce e se põe um pouco mais ao sul, até que, em Tishrei, nasce no meio do leste, e, em Tevet, nasce no canto sudeste e se põe no sudoeste. A frase “por fora da abóbada” reflete a imagem do céu como uma cúpula, por trás da qual o sol passa de noite. O versículo citado pelo Rashi é Kohelet 1:6 (conferido), que a guemará traz no bloco seguinte. Na Tosefta Eruvin 4:6 (Lieberman; conferido), o ensino é de “ר׳ יוסה”, com as palavras “ירבענה כמין תקופה”. O lema do primeiro comentário diz “בריבוע של עולם”, como no bloco anterior; o do quarto diz “זהו פני צפון”, onde a guemará diz “זֶה הוּא פְּנֵי צָפוֹן”.
como foi dito: “Vai para o sul e gira para o norte” (Kohelet 1:6): “vai para o sul”: isto é, de dia; “e gira para o norte”: isto é, de noite. “Girando, girando vai o ruach” (o vento; aqui, o lado): estas são a face leste e a face oeste: às vezes o sol as percorre, e às vezes as contorna.
“A face leste e a face oeste: às vezes as percorre” — de dia, nos dias longos; às vezes as contorna, de noite, nos dias da tekufá de Tevet (o solstício de inverno).
O versículo é Kohelet 1:6 (conferido), “הוֹלֵךְ אֶל דָּרוֹם וְסוֹבֵב אֶל צָפוֹן סוֹבֵב סֹבֵב הוֹלֵךְ הָרוּחַ”, que Rabi Yossi lê como uma descrição do sol: de dia, ele “vai” para o sul, à vista; de noite, “gira” pelo norte, fora da vista. A palavra “רוּחַ”, vento, também significa lado, e o “girando, girando” refere-se ao leste e ao oeste. Segundo o Rashi, nos dias longos o sol percorre de dia os dois lados, pois nasce no nordeste e se põe no noroeste; nos dias de Tevet, contorna-os de noite, pois se põe no sudoeste e nasce no sudeste. A Tosefta Eruvin 4:6 (Lieberman; conferido) traz a mesma leitura do versículo, terminando com “זה הוא מזרח ומערב”. O lema do Rashi diz “פני מזרח ומערב”, onde a guemará diz “פְּנֵי מִזְרָח וּפְנֵי מַעֲרָב”.
Disse Rav Mesharshiya: Não existem estas regras de Rabi Yossi, pois foi ensinado numa baraita: Jamais o sol saiu, nem no verão, do canto nordeste e se pôs no canto noroeste; nem o sol saiu, no inverno, do canto sudeste e se pôs no canto sudoeste.
“Não existem estas regras” — as regras que dissemos acima: “o sol sai no dia longo etc.”
Segundo o Rashi, Rav Mesharshiya rejeita as regras ditas acima, “o sol sai no dia longo” e “no dia curto”: segundo a baraita, nem no dia mais longo o sol nasce exatamente no canto nordeste, nem no mais curto nasce exatamente no canto sudeste; por isso o lado em que nasce e se põe nesses dias não marca o norte e o sul com precisão. Note-se que a descrição do Rashi no bloco 1986, com o sol nascendo no canto nordeste e no sudeste, explica a regra de Rabi Yossi, que é justamente a que esta baraita nega. A tradução de referência conclui que só os equinócios servem para achar os pontos cardeais; o Rashi não o diz.
Disse Shmuel: A tekufá de Nissan (o equinócio da primavera) não cai senão nos quatro quartos do dia inteiro, no início de um deles: ou no início do dia, ou no início da noite, ou ao meio-dia, ou à meia-noite.
“Ou no início do dia, ou no início da noite etc.” — porque os luzeiros foram suspensos no início da noite do quarto dia da semana, e no mês de Nissan. E os dias do ano do sol são trezentos e sessenta e cinco dias e seis horas: conta-os todos em grupos de sete, e restará contigo um dia e um quarto. Acha-se então a tekufá de Nissan, no ano seguinte, à meia-noite da noite do quinto dia; no terceiro ano, no início do sexto dia; e, no quarto ano, ao meio-dia do Shabat. E assim sempre: há um dia e um quarto entre a tekufá de um ano e a tekufá do ano seguinte, e sempre elas terminam em um destes quartos.
Shmuel conta o ano solar como trezentos e sessenta e cinco dias e um quarto. Segundo o Rashi, a primeira tekufá de Nissan foi no início da noite do quarto dia da Criação, quando os luzeiros foram suspensos no céu; e, como o ano tem cinquenta e duas semanas completas mais um dia e seis horas, cada tekufá de Nissan cai um dia e seis horas depois, na semana, da do ano anterior: no início da noite do quarto dia, à meia-noite do quinto, no início do dia do sexto, ao meio-dia do Shabat, e de novo no início de uma noite. Assim, ela sempre cai no início de um dos quatro quartos do dia de vinte e quatro horas. O dia judaico começa à noite: “o início da noite” é o pôr do sol, por volta das seis da tarde, e “o início do dia”, o nascer do sol, por volta das seis da manhã, contando doze horas para cada metade. O lema do Rashi vem no Sefaria terminado por ponto, e não por travessão.
E a tekufá de Tamuz (o solstício de verão) não cai senão ou em uma hora e meia, ou em sete horas e meia, seja de dia, seja de noite. E a tekufá de Tishrei não cai senão ou em três horas, ou em nove horas, seja de dia, seja de noite. E a tekufá de Tevet (o solstício de inverno) não cai senão ou em quatro horas e meia, ou em dez horas e meia, seja de dia, seja de noite.
“E a tekufá de Tamuz não cai senão em uma e meia ou em sete e meia, ou de dia ou de noite” — pois, quando a tekufá de Nissan cai no início do dia, a de Tamuz cai em sete horas e meia do dia; e, quando a tekufá de Nissan cai ao meio-dia, a de Tamuz cai em uma hora e meia da noite. Porque há sete horas e meia entre uma tekufá e outra: pois no mesmo dia da semana em que esta cai, aquela cai, só que se estende adiante sete horas e meia a partir da hora em que esta caiu; e são trinta horas para as quatro tekufot, isto é, um dia e um quarto. E, segundo este cálculo, a de Tishrei cai ou em três ou em nove: se a tekufá de Tamuz caiu em uma e meia, a de Tishrei cai em nove; e, se a de Tamuz caiu em sete e meia, a de Tishrei cai em três; e assim todas. E este é o sinal: azgy (alef, zayin, guímel, yod) e vatd (vav, alef, tet, dalet): quando a tekufá de Nissan cai em uma, a de Tamuz cai em sete e meia, a de Tishrei em três, e a de Tevet em dez e meia; e, no segundo ano, a de Nissan cai na metade do dia, isto é, em seis horas, a de Tamuz em uma e meia, a de Tishrei em nove, e a de Tevet em quatro e meia do dia.
As horas são contadas a partir do início do dia ou da noite, em duas séries de doze. Segundo o Rashi, entre uma tekufá e a seguinte há treze semanas completas mais sete horas e meia, de modo que cada tekufá cai sete horas e meia mais tarde, no relógio da semana, do que a anterior; quatro vezes sete horas e meia são trinta horas, o dia e um quarto que separa as tekufot de Nissan de dois anos seguidos (bloco 1989). Se a tekufá de Nissan cai no início do dia, a de Tamuz cai na sétima hora e meia do dia, a de Tishrei na terceira hora da noite, e a de Tevet na décima hora e meia da noite; se cai ao meio-dia, as outras caem em uma hora e meia da noite, na nona hora da noite e na quarta hora e meia do dia seguinte. O sinal do Rashi junta as letras-números: “אזג״י” para o primeiro caso (alef, zayin, guímel, yod: um, sete, três, dez) e “ואט״ד” para o segundo (vav, alef, tet, dalet: seis, um, nove, quatro); o “alef” do primeiro caso indica o início do dia. As meias horas não estão marcadas nas letras; o Rashi as acrescenta no comentário seguinte. O lema do Rashi diz “או ביום או בלילה”, onde a guemará diz “בֵּין בַּיּוֹם וּבֵין בַּלַּיְלָה”.
E não há entre o início de uma tekufá e o da outra senão noventa e um dias e sete horas e meia. E uma tekufá não se estende além da sua companheira anterior senão meia hora na ordem dos astros que servem as horas.
“E não há entre uma tekufá e outra etc.” — como expliquei: conta os noventa e um dias: todos eles são semanas de sete completas, e as sete horas e meia se estendem depois deles. Pois os dias das tekufot são assim: noventa e um dias e sete horas e meia, que são um quarto de trezentos e sessenta e cinco dias e um quarto.
“E uma tekufá não se estende além da sua companheira senão meia hora” — o sinal para as suas metades é azach, giach, vaach, tedach (as letras de antes, com chet, de chatzi, “meia”). O serviço das horas: kalash tzamchan é a sua ordem e o seu percurso. No início da noite do primeiro dia da semana serve Kochav (Mercúrio), e depois dele Levaná (a Lua), e depois dela Shabtai (Saturno), Tzedek (Júpiter), Maadim (Marte), Chamá (o Sol) e Noga (Vênus): eis sete horas; e voltam em roda. Acha-se assim que a primeira hora do primeiro dia da semana é de Chamá, e depois dele, Noga, e de novo kalash tzamchan. Acharás que os sinais das primeiras horas dos dias da semana são chalam katznash, para os dias, e os sinais das primeiras horas de todas as noites da semana, katznash chalam. E Rabi Shabtai, chamado “Datlo”, o médico, de memória justa e abençoada, explicou bem, no seu livro Chachmoni, por que os astros foram ordenados desta maneira. E, já que entre uma tekufá e outra não há a mais senão sete horas e meia, acha-se que, se a tekufá de Nissan caiu no início da hora de Kochav, a tekufá de Tamuz cairá na metade de Kochav; a de Tishrei, no início de Levaná; a de Tevet, na metade de Levaná; e assim todas: quando contares sete horas e meia depois da queda desta, chegarás àquela mesma hora do mesmo astro, só que a tekufá se estende meia hora depois dela.
Noventa e um dias são treze semanas exatas, e sete horas e meia são um quarto de trinta horas, de modo que quatro tekufot somam trezentos e sessenta e cinco dias e um quarto. A “meia hora” se entende, segundo o Rashi, pelas horas dos planetas: cada hora do dia e da noite é “servida” por um dos sete astros, em ciclo fixo, na ordem que ele resume como “כל״ש צמח״ן”: Kochav (Mercúrio), Levaná (a Lua), Shabtai (Saturno), Tzedek (Júpiter), Maadim (Marte), Chamá (o Sol) e Noga (Vênus). Começando com Kochav no início da noite do primeiro dia da semana, a primeira hora de cada dia é, de domingo a sábado, Chamá, Levaná, Maadim, Kochav, Tzedek, Noga e Shabtai, “חל״ם כצנ״ש”; e a primeira hora de cada noite, Kochav, Tzedek, Noga, Shabtai, Chamá, Levaná e Maadim, “כצנ״ש חל״ם”. Como sete horas e meia são um ciclo completo dos sete astros mais meia hora, cada tekufá cai na hora do mesmo astro que a anterior, meia hora mais adiante. É o mesmo ciclo de Shabbat 156a (conferido), onde Rabi Chanina diz que o “mazal da hora” é o que determina, e o Rashi ali conta os sete astros que servem as horas como “חנכ״ל שצ״ם”, a mesma roda começada em Chamá. O sinal “אז״ח גי״ח וא״ח טד״ח” repete os do comentário anterior com um “ח”, de “חצי”, “meia”, junto às horas que têm meia hora. O nome do médico vem no Sefaria como “ר׳ שבתי דטל״ו”, grafia que não conseguimos esclarecer, e o livro Chachmoni não está no Sefaria; não o citamos. O lema do segundo comentário diz “ואין תקופה מושכת מחברתה”, como a guemará.
E disse Shmuel: Não há para ti tekufá de Nissan que caia em hora de Tzedek (Júpiter) que não quebre as árvores; e não há para ti tekufá de Tevet que caia em hora de Tzedek que não seque as sementes. E isso, quando a lua nasceu ou em hora de Levaná, ou em hora de Tzedek.
“E isso vale quando nasceu” — o molad (nascimento) da lua de Nissan ou de Tevet, na hora de Levaná ou na hora de Tzedek.
Shmuel liga o tempo das tekufot às horas dos planetas do bloco anterior: a tekufá de Nissan que cai na hora de Tzedek quebra as árvores, e a de Tevet, na mesma hora, seca as sementes; segundo o Rashi, isso vale quando o molad, o nascimento da lua nova, de Nissan ou de Tevet, também cai na hora de Levaná ou de Tzedek. A tradução de referência explica que as árvores se quebram pelos ventos fortes; a guemará não o diz. O lema do Rashi diz “והני מילי דאתיליד”, onde a guemará diz “וְהוּא, דְּאִיתְיְלִיד”.