Talmud Bavli · Massechet Eruvin · Perek Heh (Keitzad Meabrin) · 54b
כֵּיצַד מְעַבְּרִין

A figueira e a corça; o caçador astuto; a ordem da Mishná; Rabi Preida e as quatrocentas vezes; a Torá só se adquire com sinais

Eruvin 54b — Perek Heh (Keitzad Meabrin, Eruvin 52b:16-61b:10) · Rabi Chiya bar Abba: a figueira, sempre com figos · Rabi Shmuel bar Nachmani: “corça de amores e cabra-montesa de graça”, Mishlei 5:19 · “no amor por ela errarás sempre”: Rabi Elazar ben Pedat no mercado de Tzipori · a escola de Rav Anan: “os que montam jumentas brancas”, Shoftim 5:10 · Rav Sheizvi em nome de Rabi Elazar ben Azarya: “não assará o enganador a sua caça” · Rav Sheshet: o caçador astuto · Rav Dimi: o caçador de pássaros · Rabba, Rav Sechora e Rav Huna: “a riqueza por vaidade diminuirá” · Rabba: os sábios sabem e transgridem; Rav Nachman bar Yitzchak · a ordem da Mishná: Moshé, Aharon, os seus filhos, os anciãos e todo o povo · Rabi Eliezer: quatro vezes · Rabi Akiva: até que aprenda; mostrar-lhe a face · Rabi Yehuda: Aharon à direita de Moshé; três que andam pelo caminho · Rabi Preida e o aluno: quatrocentas vezes; a bat kol · Rav Chisda: simanim · Rav Tachlifa do Ocidente e Rabi Abahu: tziyunim · Rabi Eliezer: moda’im; Rava: mo’adim · continua de Eruvin 54a; continua em Eruvin 55a

O daf completa o ensinamento de Rabi Yochanan sobre a figueira: assim como quem a apalpa sempre encontra figos, quem medita nas palavras da Torá sempre encontra nelas sabor. Rabi Shmuel bar Nachmani expõe Mishlei 5:19: a Torá é querida pelos que a estudam como na primeira hora, dá graça aos que a estudam e sempre tem sabor; e o amor por ela faz esquecer o mundo, como a Rabi Elazar ben Pedat, que estudava num mercado de Tzipori enquanto o seu manto ficava no outro. A escola de Rav Anan aplica o cântico de Devorá aos sábios e aos mestres da Escritura, da Mishná e do Talmud. Seguem as exposições sobre o caçador que não assa a sua caça, segundo Rabi Elazar ben Azarya, Rav Sheshet e Rav Dimi, e sobre a riqueza juntada pouco a pouco: quem estuda pouco a pouco e repassa guarda o que aprendeu. Uma baraita descreve a ordem em que Moshé ensinou a Torá Oral a Aharon, aos seus filhos, aos anciãos e a todo o povo, de modo que todos a ouviram quatro vezes; daí Rabi Eliezer ensina que se deve repetir ao aluno quatro vezes, e Rabi Akiva, que se deve ensinar até que aprenda e mostrar-lhe as razões. Rabi Preida repetia a lição quatrocentas vezes a um aluno, e mereceu, com a sua geração, o Mundo Vindouro e mais quatrocentos anos de vida. O daf termina com o ensinamento de que a Torá só se adquire com sinais, segundo Rav Chisda, Rabi Abahu, Rabi Eliezer e Rava.

A figueira, a corça e o seio · נֹצֵר תְּאֵנָה

1921Quem guarda a figueira: sempre encontra figos
A guemará
כׇּל זְמַן שֶׁאָדָם מְמַשְׁמֵשׁ בָּהּ — מוֹצֵא בָּהּ תְּאֵנִים. אַף דִּבְרֵי תוֹרָה, כׇּל זְמַן שֶׁאָדָם הוֹגֶה בָּהֶן — מוֹצֵא בָּהֶן טַעַם.

…todo o tempo em que a pessoa a apalpa (em busca de fruto), encontra nela figos (maduros); assim também as palavras da Torá: todo o tempo em que a pessoa medita nelas, encontra nelas ta’am (sabor, sentido).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “kol zeman shememashmesh bah motze bah te’enim”
כל זמן שממשמש בה מוצא בה תאנים - שאינן מתבשלין בבת אחת אלא היום מעט ולמחר מעט וכל שעה ראוי לאכול מהן:

“Todo o tempo em que a apalpa, encontra nela figos” — isto é, os figos não amadurecem de uma só vez, mas hoje um pouco e amanhã um pouco, e a toda hora há deles prontos para comer.

Nota

O segmento completa a frase com que termina Eruvin 54a (bloco 1920): “Por que as palavras da Torá foram comparadas à figueira? Porque, assim como esta figueira…”. O versículo é Mishlei 27:18 (conferido). Segundo o Rashi, os figos da figueira não amadurecem todos ao mesmo tempo, e por isso quem a apalpa sempre encontra algum maduro; assim também quem medita nas palavras da Torá sempre encontra nelas um sabor novo. “Sabor” traduz “טַעַם”, que também significa “sentido, razão”. O lema do Rashi diz “שממשמש”, sem “אָדָם”.

1922Rabi Shmuel bar Nachmani: corça de amores
A guemará
אָמַר רַבִּי שְׁמוּאֵל בַּר נַחְמָנִי: מַאי דִּכְתִיב ״אַיֶּלֶת אֲהָבִים וְיַעֲלַת חֵן וְגוֹ׳״, לָמָּה נִמְשְׁלוּ דִּבְרֵי תוֹרָה לְאַיֶּלֶת? לוֹמַר לָךְ: מָה אַיָּלָה רַחְמָהּ צַר, וַחֲבִיבָה עַל בּוֹעֲלָהּ כׇּל שָׁעָה וְשָׁעָה כְּשָׁעָה רִאשׁוֹנָה — אַף דִּבְרֵי תוֹרָה חֲבִיבִין עַל לוֹמְדֵיהֶן כׇּל שָׁעָה וְשָׁעָה כְּשָׁעָה רִאשׁוֹנָה.

Disse Rabi Shmuel bar Nachmani: O que significa o que está escrito: “Corça de amores e cabra-montesa de graça etc.” (Mishlei 5:19)? Por que as palavras da Torá foram comparadas à corça? Para te dizer isto: assim como a corça, o seu útero é estreito, e por isso ela é querida pelo seu parceiro (bo’alah) a cada hora e hora como na primeira hora, assim também as palavras da Torá são queridas pelos que as estudam a cada hora e hora como na primeira hora.

Nota

O versículo é Mishlei 5:19 (conferido): “אַיֶּלֶת אֲהָבִים וְיַעֲלַת חֵן דַּדֶּיהָ יְרַוֻּךָ בְכׇל עֵת בְּאַהֲבָתָהּ תִּשְׁגֶּה תָמִיד”; a guemará expõe cada parte dele nos blocos 1922 a 1924. No seu contexto, o versículo fala da esposa da juventude; Rabi Shmuel bar Nachmani o aplica às palavras da Torá. “Por isso” liga as duas metades da comparação, como entende a tradução de referência. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1923Cabra-montesa de graça; os seus seios te saciem
A guemará
״וְיַעֲלַת חֵן״ — שֶׁמַּעֲלָת חֵן עַל לוֹמְדֶיהָ. ״דַּדֶּיהָ יְרַוֻּךָ בְכׇל עֵת״ — לָמָּה נִמְשְׁלוּ דִּבְרֵי תוֹרָה כְּדַד? מָה דַּד זֶה כׇּל זְמַן שֶׁהַתִּינוֹק מְמַשְׁמֵשׁ בּוֹ — מוֹצֵא בּוֹ חָלָב, אַף דִּבְרֵי תוֹרָה, כׇּל זְמַן שֶׁאָדָם הוֹגֶה בָּהֶן — מוֹצֵא בָּהֶן טַעַם.

“E cabra-montesa de graça” (veya’alat chen): que a Torá faz subir (ma’alat) graça sobre os que a estudam. “Os seus seios te saciem em todo tempo” (ibidem): por que as palavras da Torá foram comparadas ao seio (dad)? Assim como este seio, todo o tempo em que o bebê o apalpa, encontra nele leite, assim também as palavras da Torá: todo o tempo em que a pessoa medita nelas, encontra nelas sabor (novo).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “shema’alat chen al lomdeha”
שמעלת חן על לומדיה - שהכל מנשאין אותו ותורתו נותנת לו חן:

“Que faz subir graça sobre os que a estudam” — isto é, que todos o elevam (ao que estuda), e a sua Torá lhe dá graça.

Nota

A guemará lê “וְיַעֲלַת”, “cabra-montesa”, como “מַעֲלַת”, “faz subir”, pela semelhança de som. O versículo é o mesmo Mishlei 5:19 (conferido). A segunda comparação repete, com o seio e o leite, a da figueira do bloco 1921. Segundo o Rashi, a graça que a Torá dá é a estima que todos têm por quem a estuda.

1924No amor por ela errarás sempre: Rabi Elazar ben Pedat
A guemará
״בְּאַהֲבָתָהּ תִּשְׁגֶּה תָּמִיד״ — כְּגוֹן רַבִּי (אֱלִיעֶזֶר) בֶּן פְּדָת. אָמְרוּ עָלָיו עַל רַבִּי (אֱלִיעֶזֶר) שֶׁהָיָה יוֹשֵׁב וְעוֹסֵק בַּתּוֹרָה בַּשּׁוּק הַתַּחְתּוֹן שֶׁל צִיפּוֹרִי, וּסְדִינוֹ מוּטָל בַּשּׁוּק הָעֶלְיוֹן שֶׁל צִיפּוֹרִי. (תַּנְיָא) אָמַר רַבִּי יִצְחָק בֶּן אֶלְעָזָר: פַּעַם אַחַת בָּא אָדָם לִיטְּלוֹ, וּמָצָא בּוֹ שָׂרָף.

“No amor por ela errarás (tishgê) sempre” (ibidem): como Rabi Elazar ben Pedat. Disseram a respeito dele, de Rabi Elazar, que ficava sentado e se ocupava com a Torá no mercado de baixo de Tzipori, e o seu sadin (manto de linho) ficava largado no mercado de cima de Tzipori. Foi ensinado numa baraita: Disse Rabi Yitzchak ben Elazar: Certa vez, veio uma pessoa para pegá-lo (o manto), e encontrou nele um saraf (serpente venenosa).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “be’ahavatah tishgê tamid”
באהבתה תשגה תמיד - בשביל אהבתה תעשה עצמך שוגה ופתי להניח עסקיך ולרוץ לדבר הלכה:

“No amor por ela errarás sempre” — por causa do amor por ela (pela Torá), farás a ti mesmo desatento e simples, para deixar os teus negócios e correr a um assunto de halachá.

Nota

O versículo é ainda Mishlei 5:19 (conferido). Seguimos o Rashi: “errarás” é fazer-se desatento às coisas do mundo por amor à Torá, como Rabi Elazar ben Pedat, que se esquecia do próprio manto. No Sefaria, o nome aparece duas vezes como “(אֱלִיעֶזֶר)”, entre parênteses, marca de leitura a suprimir, sem o nome que o substitui; mantivemos o hebraico como está e, como em Eruvin 54a (blocos 1909, 1911 e 1912), a tradução segue a tradução de referência, que lê “Rabi Elazar ben Pedat”, o amora conhecido por esse nome. Também “(תַּנְיָא)” está entre parênteses no Sefaria, pois a frase é de um amora, Rabi Yitzchak ben Elazar; traduzimos a palavra, como a tradução de referência. O texto não diz por que a serpente estava no manto; a tradução de referência entende que o guardava.

Os que montam jumentas brancas; o caçador · רוֹכְבֵי אֲתֹנוֹת צְחֹרוֹת

1925A escola de Rav Anan: os que montam jumentas brancas
A guemará
תָּנָא דְּבֵי רַב עָנָן: מַאי דִּכְתִיב ״רוֹכְבֵי אֲתוֹנוֹת צְחוֹרוֹת יוֹשְׁבֵי עַל מִדִּין [וְהוֹלְכֵי עַל דֶּרֶךְ שִׂיחוּ]״, ״רוֹכְבַי אֲתוֹנוֹת״ — אֵלּוּ תַּלְמִידֵי חֲכָמִים, שֶׁמְּהַלְּכִין מֵעִיר לְעִיר וּמִמְּדִינָה לִמְדִינָה לִלְמוֹד (בּוֹ) תּוֹרָה. ״צְחוֹרוֹת״ — שֶׁעוֹשִׂין אוֹתָהּ כְּצָהֳרַיִם. ״יֹשְׁבֵי עַל מִדִּין״ — שֶׁדָּנִין דִּין אֱמֶת לַאֲמִיתּוֹ. ״וְהוֹלְכֵי״ — אֵלּוּ בַּעֲלֵי מִקְרָא. ״עַל דֶּרֶךְ״ — אֵלּוּ בַּעֲלֵי מִשְׁנָה. ״שִׂיחוּ״ — אֵלּוּ בַּעֲלֵי תַלְמוּד, שֶׁכׇּל שִׂיחָתָן דִּבְרֵי תוֹרָה.

Ensinou um sábio da escola de Rav Anan: O que significa o que está escrito: “Os que montam jumentas brancas (tzechorot), os que se sentam sobre midin (tapetes), e os que andam pelo caminho, conversai” (Shoftim 5:10)? “Os que montam jumentas”: estes são os talmidei chachamim (sábios da Torá), que andam de cidade em cidade e de província em província para estudar Torá. “Brancas”: que a fazem clara como o meio-dia (tzohorayim). “Os que se sentam sobre midin”: que julgam (danin) um juízo verdadeiro conforme a sua verdade. “E os que andam”: estes são os mestres da Escritura. “Pelo caminho”: estes são os mestres da Mishná. “Conversai” (sichu): estes são os mestres do Talmud, cuja conversa toda é sobre palavras da Torá.

Nota

O versículo é Shoftim 5:10 (conferido), do cântico de Devorá. A guemará lê “צְחֹרוֹת”, “brancas”, como “צָהֳרַיִם”, “meio-dia”: os sábios tornam a Torá clara como a luz do meio-dia; e “מִדִּין”, “tapetes”, como “דָּנִין”, “julgam”. No Sefaria, o fim da citação, “וְהוֹלְכֵי עַל דֶּרֶךְ שִׂיחוּ”, está entre colchetes, como acréscimo, e “(בּוֹ)” está entre parênteses, como palavra a suprimir; mantivemos o hebraico como está, e a tradução lê o versículo inteiro, sem “בּוֹ”. A segunda citação diz “רוֹכְבַי”, com patach. Segundo a tradução de referência, a ordem vai do menor ao maior: os mestres da Escritura, os da Mishná e os do Talmud. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1926Rav Sheizvi: o caçador enganador não viverá
A guemará
אָמַר רַב שֵׁיזְבִי מִשּׁוּם רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה: מַאי דִּכְתִיב ״לֹא יַחֲרוֹךְ רְמִיָּה צֵידוֹ״ — לֹא יִחְיֶה וְלֹא יַאֲרִיךְ יָמִים צַיָּיד הָרַמַּאי.

Disse Rav Sheizvi em nome de Rabi Elazar ben Azarya: O que significa o que está escrito: “O enganador não assará (yacharoch) a sua caça” (Mishlei 12:27)? Não viverá nem prolongará os dias o caçador ramai (enganador).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “lo yacharoch”
לא יחרוך - נוטריקון דריש ליה לא יחיה ולא יאריך:

“Não assará” — a guemará o expõe como notarikon (palavra decomposta): “não viverá e não prolongará”.

Nota

O versículo é Mishlei 12:27 (conferido), “לֹא יַחֲרֹךְ רְמִיָּה צֵידוֹ”. Segundo o Rashi, a palavra “יַחֲרֹךְ” é lida como notarikon: o “ח” de “יִחְיֶה”, “viverá”, e o “רך” de “יַאֲרִיךְ”, “prolongará”. A tradução de referência explica que se trata do caçador que caça sempre mais e não guarda o que já apanhou, como quem estuda coisas novas sem repassar as antigas; a guemará não o diz aqui, mas o sentido se esclarece nos blocos seguintes.

1927Rav Sheshet: o caçador astuto assará
A guemará
רַב שֵׁשֶׁת אָמַר: צַיָּיד הָרַמַּאי יַחֲרוֹךְ?

Rav Sheshet disse: O caçador astuto assará a sua caça!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “veRav Sheshet amar”
ורב ששת אמר - אין זה רמאי אלא שוטה והקובץ על יד הוא הרמאי וערום בדבר והוא יחרוך כלומר יתקיים בידו כצייד הרמאי שמשבר גף ראשון ראשון כשהוא לוכדו שלא יברח הוא חורך עופות ואוכלן וקרא אתמוהי מתמה לא יחרוך לא יצלה ויאכל:

“E Rav Sheshet disse” — este (que não guarda a sua caça) não é ramai, mas tolo; e quem junta pouco a pouco é que é o ramai, astuto na coisa, e ele “assará”, isto é, o estudo se manterá na sua mão; como o caçador astuto, que quebra a asa de cada um, primeiro a primeiro, quando o captura, para que não fuja: ele assa as aves e as come. E Rav Sheshet lê o versículo em tom de espanto: “Não assará?” — isto é, não assará e comerá?

Nota

Seguimos o Rashi: para Rav Sheshet, “רַמַּאי” não é o enganador, mas o astuto, o que guarda o que apanhou, isto é, quem estuda pouco a pouco e repassa; e o versículo é lido como pergunta de espanto: “o astuto não assará a sua caça?”, isto é, certamente assará. Por isso traduzimos a frase como afirmação, com o Rashi (“והוא יחרוך”). O Sefaria a pontua como pergunta, e a tradução de referência traduz “um caçador enganador terá o que assar?”, entendendo que quem age assim é tolo, e não enganador. O lema do Rashi diz “ורב ששת אמר”, com vav. A imagem do caçador que quebra as asas é a do bloco seguinte, que o Rashi já usa aqui.

1928Rav Dimi: o caçador que caça pássaros
A guemará
כִּי אֲתָא רַב דִּימִי, אָמַר: מָשָׁל לְצַיָּיד שֶׁצָּד צִפֳּרִים, אִם רִאשׁוֹן רִאשׁוֹן מְשַׁבֵּר כְּנָפָיו — מִשְׁתַּמֵּר, וְאִם לָאו — אֵין מִשְׁתַּמֵּר.

Quando veio Rav Dimi da Terra de Israel, disse: Isto é comparável a um caçador que caça pássaros: se quebra as asas de cada um, primeiro a primeiro, a caça se guarda; e, se não, não se guarda.

Nota

Rav Dimi explica o versículo como Rav Sheshet: o caçador astuto quebra as asas de cada pássaro logo que o captura, e por isso não o perde; assim o estudante astuto repassa cada lição antes de passar à seguinte. “Primeiro a primeiro” traduz literalmente “רִאשׁוֹן רִאשׁוֹן”, isto é, um a um, à medida que os captura. “Se guarda” traduz “מִשְׁתַּמֵּר”, o mesmo verbo usado para a Torá que “se guarda” em Eruvin 54a (bloco 1894). O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1929Rabba: a riqueza por vaidade diminuirá
A guemará
אָמַר (רַבָּה) אָמַר רַב סְחוֹרָה אָמַר רַב הוּנָא: מַאי דִּכְתִיב ״הוֹן מֵהֶבֶל יִמְעָט וְקוֹבֵץ עַל יָד יַרְבֶּה״, אִם עוֹשֶׂה אָדָם תּוֹרָתוֹ חֲבִילוֹת חֲבִילוֹת, — מִתְמַעֵט, וְאִם לָאו — קוֹבֵץ עַל יָד יַרְבֶּה.

Disse Rabba, disse Rav Sechora, disse Rav Huna: O que significa o que está escrito: “A riqueza obtida por vaidade (hevel) diminuirá, mas quem junta pouco a pouco aumentará” (Mishlei 13:11)? Se a pessoa faz da sua Torá feixes e feixes (chavilot), ela diminui; e, se não, “quem junta pouco a pouco aumentará”.

Nota

O versículo é Mishlei 13:11 (conferido). A guemará lê “הֶבֶל”, “vaidade”, como “חֲבִילוֹת”, “feixes”: quem acumula muito estudo de uma vez, em grandes porções, o perde; quem junta pouco a pouco, e repassa, o aumenta. “Pouco a pouco” traduz “עַל יָד”, literalmente “à mão”. No Sefaria, o nome “(רַבָּה)” está entre parênteses, marca de leitura a suprimir, sem o nome que o substitui; mantivemos o hebraico como está e, como em Eruvin 50a (bloco 1758), a tradução segue a tradução de referência, que lê “Rabba”; a frase seguinte, sem parênteses, também é de Rabba. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1930Rabba: os sábios sabem e transgridem
A guemará
אָמַר רַבָּה: יָדְעִי רַבָּנַן לְהָא מִלְּתָא, וְעָבְרִי עֲלַהּ. אָמַר רַב נַחְמָן בַּר יִצְחָק: אֲנָא עֲבַדְתַּהּ, וְאִיקַּיַּים בִּידַאי.

Disse Rabba: Os rabanan (sábios) sabem esta coisa, e mesmo assim a transgridem. Disse Rav Nachman bar Yitzchak: Eu a fiz, e o estudo se manteve na minha mão.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ana avadteh vekayamteh”
אנא עבדתה וקיימתיה - לקבוץ על יד וחזרתי עליה עד שהחזקתי בה ואחר כך חזרתי ושמעתי אחרת:

“Eu a fiz e a mantive” — isto é, fiz o juntar pouco a pouco: repassei cada lição até que a retive com firmeza, e depois voltei e ouvi outra.

Nota

“Esta coisa” é o conselho do versículo, de estudar pouco a pouco e repassar. Rav Nachman bar Yitzchak testemunha que o seguiu e que o seu estudo permaneceu. O lema do Rashi diz “אנא עבדתה וקיימתיה”, “eu a fiz e a mantive”, onde a guemará diz “אֲנָא עֲבַדְתַּהּ, וְאִיקַּיַּים בִּידַאי”, “eu a fiz, e se manteve na minha mão”.

Como era a ordem da Mishná · כֵּיצַד סֵדֶר מִשְׁנָה

1931Moshé, Aharon, os seus filhos, os anciãos e todo o povo
A guemará
תָּנוּ רַבָּנַן, כֵּיצַד סֵדֶר מִשְׁנָה: מֹשֶׁה לָמַד מִפִּי הַגְּבוּרָה. נִכְנַס אַהֲרֹן, וְשָׁנָה לוֹ מֹשֶׁה פִּירְקוֹ, נִסְתַּלֵּק אַהֲרֹן וְיָשַׁב לִשְׂמֹאל מֹשֶׁה. נִכְנְסוּ בָּנָיו, וְשָׁנָה לָהֶן מֹשֶׁה פִּירְקָן. נִסְתַּלְּקוּ בָּנָיו, אֶלְעָזָר יָשַׁב לִימִין מֹשֶׁה, וְאִיתָמָר לִשְׂמֹאל אַהֲרֹן. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: לְעוֹלָם אַהֲרֹן לִימִין מֹשֶׁה חוֹזֵר. נִכְנְסוּ זְקֵנִים וְשָׁנָה לָהֶן מֹשֶׁה פִּירְקָן. נִסְתַּלְּקוּ זְקֵנִים, נִכְנְסוּ כׇּל הָעָם וְשָׁנָה לָהֶן מֹשֶׁה פִּירְקָן. נִמְצְאוּ בְּיַד אַהֲרֹן אַרְבָּעָה, בְּיַד בָּנָיו שְׁלֹשָׁה, וּבְיַד הַזְּקֵנִים שְׁנַיִם, וּבְיַד כׇּל הָעָם אֶחָד.

Os sábios ensinaram numa baraita: Como era a ordem da Mishná (do ensino da Torá Oral)? Moshé aprendeu da boca da Guevurá (o Todo-Poderoso). Entrou Aharon (e sentou-se diante dele), e Moshé lhe ensinou a sua lição (pirko); Aharon se afastou e sentou-se à esquerda de Moshé. Entraram os filhos dele, e Moshé lhes ensinou a sua lição; os filhos dele se afastaram: Elazar sentou-se à direita de Moshé, e Itamar sentou-se à esquerda de Aharon. Rabi Yehuda diz: Aharon sempre volta à direita de Moshé. Entraram os anciãos, e Moshé lhes ensinou a sua lição; os anciãos se afastaram, entrou todo o povo, e Moshé lhes ensinou a sua lição. Resultou que havia na mão de Aharon quatro vezes, na mão dos seus filhos, três vezes, na mão dos anciãos, duas vezes, e na mão de todo o povo, uma vez.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “keitzad seder haMishná”
כיצד סדר המשנה - כיצד למדו ישראל תורה שבעל פה:

“Como era a ordem da Mishná” — isto é, como Israel aprendeu a Torá Oral.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “nichnas Aharon”
נכנס אהרן - וישב לפני משה כדכתיב (ישעיהו ל׳:כ׳) והיו עיניך רואות את מוריך וכן כולם בשעת שמועתן כולן יושבין לפניו:

“Entrou Aharon” — e sentou-se diante de Moshé, como está escrito: “E os teus olhos verão os teus mestres” (Yeshayahu 30:20); e assim todos eles, na hora em que ouviam a lição, todos se sentavam diante dele.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “yashav lismol Moshé”
ישב לשמאל משה - דתניא המהלך לימין רבו הרי זה בור וכ"ש יושב בזמן שאין שני לישב בשמאל:

“Sentou-se à esquerda de Moshé” — pois foi ensinado: Quem anda à direita do seu mestre, eis que é um bur (ignorante); e com mais razão quem se senta à sua direita, no tempo em que não há um segundo (discípulo) para se sentar à esquerda.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “veshaná lahen pirkan”
ושנה להן פירקן - אותו פרק עצמו ששנה לאהרן:

“E lhes ensinou a sua lição” — isto é, aquela mesma lição que ensinara a Aharon.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Aharon limin Moshé chozer”
אהרן לימין משה חוזר - אחרי ששמעו בניו ויש שני לישב בשמאל משה כבוד הוא לאהרן ולמשה להיות אהרן שהוא גדול בא ויושב בימין:

“Aharon volta à direita de Moshé” — depois que os seus filhos ouviram a lição, e há um segundo para se sentar à esquerda de Moshé, é honra para Aharon e para Moshé que Aharon, que é grande, venha e se sente à direita.

Nota

“A ordem da Mishná” é, segundo o Rashi, o modo como Israel recebeu a Torá Oral. “Guevurá”, literalmente “Poder”, é um dos nomes de Deus. “Lição” traduz “פֶּרֶק”, a porção ensinada; e “havia na mão” é o modo hebraico de dizer que cada um tinha ouvido a lição tantas vezes. O versículo citado pelo Rashi é Yeshayahu 30:20 (conferido). A frase “quem anda à direita do seu mestre é um ignorante” está em Yoma 37a (conferido), como palavra de Rav Yehuda; o Rashi a introduz com “דתניא”. Segundo o Rashi, Aharon se sentou primeiro à esquerda porque estava sozinho; o tanna kamma deixa-o ali, e Rabi Yehuda o faz voltar à direita quando chegam os seus filhos.

1932Resultou que todos tinham quatro vezes
A guemará
נִסְתַּלֵּק מֹשֶׁה וְשָׁנָה לָהֶן אַהֲרֹן פִּירְקוֹ. נִסְתַּלֵּק אַהֲרֹן שָׁנוּ לָהֶן בָּנָיו פִּירְקָן. נִסְתַּלְּקוּ בָּנָיו, שָׁנוּ לָהֶן זְקֵנִים פִּירְקָן. נִמְצָא בְּיַד הַכֹּל אַרְבָּעָה.

Moshé se afastou, e Aharon lhes ensinou a sua lição. Aharon se afastou, e os filhos dele lhes ensinaram a sua lição. Os filhos dele se afastaram, e os anciãos lhes ensinaram a sua lição. Resultou que havia na mão de todos quatro vezes.

Nota

Cada grupo, ao sair o que estava acima dele, repetia a lição aos demais, e assim todos a ouviram quatro vezes: Aharon, de Moshé quatro vezes; os seus filhos, três de Moshé e uma de Aharon; os anciãos, duas de Moshé, uma de Aharon e uma dos filhos; e o povo, uma de cada. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1933Rabi Eliezer: ensinar ao aluno quatro vezes
A guemará
מִכָּאן אָמַר רַבִּי אֱלִיעֶזֶר: חַיָּיב אָדָם לִשְׁנוֹת לְתַלְמִידוֹ אַרְבָּעָה פְּעָמִים. וְקַל וָחוֹמֶר, וּמָה אַהֲרֹן שֶׁלָּמַד מִפִּי מֹשֶׁה, וּמֹשֶׁה מִפִּי הַגְּבוּרָה — כָּךְ, הֶדְיוֹט מִפִּי הֶדְיוֹט — עַל אַחַת כַּמָּה וְכַמָּה.

Daqui disse Rabi Eliezer: A pessoa é obrigada a ensinar ao seu aluno quatro vezes. E é um kal vachomer (inferência do menor ao maior): se Aharon, que aprendeu da boca de Moshé, e Moshé, da boca da Guevurá, aprendeu assim, um hedyot (homem comum) que aprende da boca de um hedyot, quanto mais e quanto mais!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “umá Aharon sheshama miMoshé”
ומה אהרן ששמע ממשה כו' - ומסתייעא מילתא להתקיים בלבו להבין מהר אפ"ה שמע ד' פעמים:

“Se Aharon, que ouviu de Moshé etc.” — e a coisa era assistida (do Céu) para se manter no seu coração e para ele entender depressa; mesmo assim, ouviu quatro vezes.

Nota

Seguimos o Rashi, que explica o kal vachomer: se Aharon, cujo estudo era assistido por vir de Moshé, que o recebera de Deus, precisou ouvir quatro vezes, com mais razão o aluno comum de um mestre comum. O lema do Rashi diz “ששמע”, “que ouviu”, onde a guemará diz “שֶׁלָּמַד”, “que aprendeu”. A expressão “assistida” antecipa o “מִסְתַּיְּיעָא” do bloco 1937.

1934Rabi Akiva: até que aprenda; ordenada na boca
A guemará
רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר: מִנַּיִן שֶׁחַיָּיב אָדָם לִשְׁנוֹת לְתַלְמִידוֹ עַד שֶׁיִּלְמָדֶנּוּ — שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְלַמְּדָהּ אֶת בְּנֵי יִשְׂרָאֵל״, וּמִנַּיִן עַד שֶׁתְּהֵא סְדוּרָה בְּפִיהֶם — שֶׁנֶּאֱמַר: ״שִׂימָהּ בְּפִיהֶם״,

Rabi Akiva diz: De onde se aprende que a pessoa é obrigada a ensinar ao seu aluno até que ele o aprenda? Pois está dito: “E ensina-a aos filhos de Israel” (Devarim 31:19). E de onde se aprende que se deve ensinar até que a lição esteja ordenada na boca deles? Pois está dito: “Põe-na na boca deles” (ibidem).

Nota

O versículo é Devarim 31:19 (conferido): “וְעַתָּה כִּתְבוּ לָכֶם אֶת הַשִּׁירָה הַזֹּאת וְלַמְּדָהּ אֶת בְּנֵי יִשְׂרָאֵל שִׂימָהּ בְּפִיהֶם”. Rabi Akiva discorda do número fixo de Rabi Eliezer: não bastam quatro vezes, deve-se ensinar até que o aluno aprenda e saiba a lição com fluência. “Ordenada” traduz “סְדוּרָה”. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1935Mostrar-lhe a face
A guemará
וּמִנַּיִין שֶׁחַיָּיב לְהַרְאוֹת לוֹ פָּנִים — שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְאֵלֶּה הַמִּשְׁפָּטִים אֲשֶׁר תָּשִׂים לִפְנֵיהֶם״.

E de onde se aprende que é obrigado a mostrar-lhe panim (face, isto é, razões)? Pois está dito: “E estas são as leis que porás diante deles” (Shemot 21:1).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “lehar’ot lo panim”
להראות לו פנים - ללמדו לתת טעם בדבריו בכל אשר יוכל ולא יאמר כך שמעתי הבן אתה הטעם מעצמך וחבירו בפרק ראשון (דף יג:) שהיה אומר על טמא טהור ומראה לו פנים:

“Mostrar-lhe panim” — isto é, ensiná-lo dando razão às suas palavras em tudo o que puder, e não dirá: Assim ouvi; entende tu a razão por ti mesmo. E o seu paralelo está no primeiro capítulo (folha 13b): que ele dizia do impuro que é puro e lhe mostrava panim.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “asher tassim lifneihem”
אשר תשים לפניהם - ולא כתיב אשר תלמדם צריך אתה לסדר ולשום לפניהם טעם המיישב תלמודם:

“Que porás diante deles” — e não está escrito “que lhes ensinarás”: precisas ordenar e pôr diante deles a razão que assenta o seu estudo.

Nota

O versículo é Shemot 21:1 (conferido). A guemará liga “פָּנִים”, “face”, a “לִפְנֵיהֶם”, “diante deles”, literalmente “às suas faces”. Seguimos o Rashi: “mostrar a face” é explicar as razões, e não apenas transmitir o que se ouviu. O paralelo indicado pelo Rashi é Eruvin 13b (conferido), sobre Rabi Meir, que “dizia do impuro que é puro e lhe mostrava panim”; ali traduzimos “mostrava-lhe uma razão” (bloco 409). A referência “(דף יג:)” está entre parênteses no próprio Rashi.

1936E que todos aprendam de Moshé!
A guemará
וְלִיגְמְרוּ כּוּלְּהוּ מִמֹּשֶׁה! כְּדֵי לַחֲלוֹק כָּבוֹד לְאַהֲרֹן וּבָנָיו, וְכָבוֹד לַזְּקֵנִים.

E que todos eles aprendam quatro vezes de Moshé! Foi assim para conceder honra a Aharon e aos seus filhos, e honra aos anciãos.

Nota

A guemará pergunta por que cada grupo não ouviu as quatro vezes do próprio Moshé, e responde que a ordem foi feita para honrar Aharon, os seus filhos e os anciãos, que também ensinaram. “Quatro vezes” completa a pergunta como a tradução de referência. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1937Uma vez que Moshé aprendeu da boca da Guevurá
A guemará
וְנֵיעוּל אַהֲרֹן וְנִיגְמַר מִמֹּשֶׁה, וְלִיעַיְילוּ בָּנָיו וְלִיגְמְרוּ מֵאַהֲרֹן, וְלִיעַיְילוּ זְקֵנִים וְלֵילְפוּ מִבָּנָיו, וְלֵיזְלוּ וְלַיגְמְרִינְהוּ לְכוּלְּהוּ יִשְׂרָאֵל! כֵּיוָן דְּמֹשֶׁה מִפִּי הַגְּבוּרָה גָּמַר, מִסְתַּיְּיעָא מִלְּתֵיהּ.

E que entre Aharon e aprenda quatro vezes de Moshé, e que entrem os filhos dele e aprendam de Aharon, e que entrem os anciãos e aprendam dos filhos dele, e que estes vão e ensinem a todo Israel! Responde-se: Uma vez que Moshé aprendeu diretamente da boca da Guevurá, a sua palavra é assistida (e se fixa melhor).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “veli’aylu banav velilfu meAharon”
וליעיילו בניו ולילפו מאהרן - ד' זימנין וכן כולן:

“E que entrem os filhos dele e aprendam de Aharon” — isto é, quatro vezes; e assim todos eles.

Nota

A guemará propõe uma ordem mais simples, em que cada grupo aprende quatro vezes do grupo anterior, como explica o Rashi, e Moshé ensinaria só a Aharon. Responde que é melhor que todos ouçam ao menos uma vez do próprio Moshé, porque o ensino de quem aprendeu de Deus é “assistido”; segundo o Rashi do bloco 1933, assistido para se manter no coração e ser entendido depressa. A tradução de referência traduz “mais eficaz”. O lema do Rashi diz “ולילפו”, onde a guemará diz “וְלִיגְמְרוּ”.

1938Três que andam pelo caminho
A guemará
אָמַר מָר, רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: לְעוֹלָם אַהֲרֹן לִימִין מֹשֶׁה חוֹזֵר. כְּמַאן אָזְלָא הָא דְּתַנְיָא: שְׁלֹשָׁה שֶׁהָיוּ מְהַלְּכִין בַּדֶּרֶךְ — הָרַב בָּאֶמְצַע, וְגָדוֹל בִּימִינוֹ, וְקָטָן בִּשְׂמֹאלוֹ. לֵימָא רַבִּי יְהוּדָה הִיא וְלָא רַבָּנַן?

Disse o mestre: Rabi Yehuda diz: Aharon sempre volta à direita de Moshé. Conforme quem vai isto que foi ensinado numa baraita: Três que andavam pelo caminho, o mestre vai no meio, o maior dos dois à sua direita, e o menor à sua esquerda? Digamos que é a opinião de Rabi Yehuda, e não a dos rabanan?

Nota

“Disse o mestre” introduz a citação da baraita anterior (bloco 1931). Se o maior deve estar à direita do mestre, parece que a baraita dos três caminhantes segue Rabi Yehuda, que faz Aharon voltar à direita de Moshé; e não o tanna kamma, que o deixa à esquerda. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1939Por causa do incômodo de Aharon
A guemará
אֲפִילּוּ תֵּימָא רַבָּנַן, מִשּׁוּם טִירְחָא דְאַהֲרֹן.

Podes dizer até que é a dos rabanan: Aharon ficou à esquerda por causa do incômodo de Aharon.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “mishum tircha deAharon”
משום טרחא דאהרן - דמתחילה דיחיד הוה לא סגי דלאו לשמאל יתיב וכי הדור עיילו אינך איכא טרחא לאוקומיה ולאהדוריה לימין:

“Por causa do incômodo de Aharon” — pois no começo, quando estava sozinho, não havia como evitar que se sentasse à esquerda; e quando os outros entraram de novo, havia incômodo em fazê-lo levantar-se e voltar à direita.

Nota

Seguimos o Rashi: também os rabanan concordam que o maior fica à direita do mestre; Aharon só permaneceu à esquerda porque se sentara ali quando estava sozinho, e seria um incômodo fazê-lo levantar-se e mudar de lugar. Assim, a baraita dos três caminhantes pode seguir também os rabanan.

Rabi Preida e o aluno · רַבִּי פְּרִידָא

1940Rabi Preida: quatrocentas vezes
A guemará
רַבִּי פְּרִידָא הֲוָה לֵיהּ הָהוּא תַּלְמִידָא דַּהֲוָה תָּנֵי לֵיהּ אַרְבַּע מְאָה זִימְנֵי וְגָמַר. יוֹמָא חַד בַּעְיוּהּ לְמִלְּתָא דְמִצְוָה. תְּנָא לֵיהּ וְלָא גְּמַר.

Rabi Preida tinha um aluno a quem repetia a lição quatrocentas vezes, e então ele aprendia. Um dia, pediram-no (a Rabi Preida) para um assunto de mitzvá. Repetiu-lhe as quatrocentas vezes, e ele não aprendeu.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ba’yuhu”
בעיוה - לר' פרידא למלתא דמצוה:

“Pediram-no” — isto é, a Rabi Preida, para um assunto de mitzvá.

Nota

A história ilustra o dever de ensinar o aluno até que aprenda (bloco 1934). O Rashi esclarece que foi Rabi Preida quem foi chamado para o assunto de mitzvá; a tradução de referência acrescenta que o chamaram para depois da aula.

1941Agora o mestre se levanta
A guemará
אֲמַר לֵיהּ: הָאִידָּנָא מַאי שְׁנָא? אֲמַר לֵיהּ: מִדְּהָהִיא שַׁעְתָּא דַּאֲמַר לֵיהּ לְמָר אִיכָּא מִילְּתָא דְּמִצְוָה — אַסְּחַאי לְדַעְתַּאי, וְכׇל שַׁעְתָּא אָמֵינָא: הַשְׁתָּא קָאֵי מָר, הַשְׁתָּא קָאֵי מָר. אֲמַר לֵיהּ: הַב דַּעְתָּיךְ וְאַתְנֵי לִיךְ. הֲדַר תְּנָא לֵיהּ אַרְבַּע מְאָה זִימְנֵי [אַחֲרִינֵי].

Rabi Preida disse-lhe: Agora, o que há de diferente de antes? O aluno disse-lhe: Desde aquela hora em que disseram ao mestre: Há um assunto de mitzvá, desviei a minha mente da lição, e a toda hora eu dizia: Agora o mestre se levanta, agora o mestre se levanta. Disse-lhe: Dá a tua atenção, e eu te ensinarei. Voltou e lhe repetiu a lição outras quatrocentas vezes.

Nota

“Rabi Preida” e “o aluno” completam os sujeitos, que o texto deixa implícitos, como a tradução de referência. No Sefaria, “[אַחֲרִינֵי]”, “outras”, está entre colchetes, como acréscimo; mantivemos o hebraico como está, e a tradução o lê. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1942A bat kol: quatrocentos anos ou o Mundo Vindouro
A guemará
נְפַקָא בַּת קָלָא וַאֲמַר לֵיהּ: נִיחָא לָיךְ דְּלִיסְפּוֹ לָךְ אַרְבַּע מְאָה שְׁנֵי, אוֹ דְּתִיזְכּוֹ אַתְּ וְדָרָךְ לְעָלְמָא דְּאָתֵי? אָמַר: דְּנִיזְכּוֹ אֲנָא וְדָרַיי לְעָלְמָא דְּאָתֵי. אָמַר לָהֶן הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: תְּנוּ לוֹ זוֹ וָזוֹ.

Saiu uma bat kol (voz celestial) e disse-lhe (a Rabi Preida): Preferes que te acrescentem quatrocentos anos de vida, ou que mereças, tu e a tua geração, o Mundo Vindouro? Disse Rabi Preida: Que eu e a minha geração mereçamos o Mundo Vindouro. Disse-lhes o Santo, bendito seja: Dai-lhe isto e aquilo.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “nafak ba kol ve’amar”
נפק בה קול ואמר - לר' פרידא:

“Saiu uma voz e disse” — isto é, disse a Rabi Preida.

Nota

Segundo o Rashi, a bat kol falou a Rabi Preida, e não ao aluno; por isso completamos “Rabi Preida” também na resposta. O texto não diz a quem o Santo, bendito seja, disse “dai-lhe”; a tradução de referência entende que foi aos anjos. “Isto e aquilo” traduz “זוֹ וָזוֹ”: os quatrocentos anos e o Mundo Vindouro. O lema do Rashi diz “נפק בה קול”, onde a guemará diz “נְפַקָא בַּת קָלָא”; traduzimos o lema como “saiu uma voz”.

A Torá só se adquire com sinais · אֵין תּוֹרָה נִקְנֵית אֶלָּא בְּסִימָנִין

1943Rav Chisda: não leias simah, mas sayemenah
A guemará
אָמַר רַב חִסְדָּא: אֵין תּוֹרָה נִקְנֵית אֶלָּא בְּסִימָנִין, שֶׁנֶּאֱמַר: ״שִׂימָהּ בְּפִיהֶם״, אַל תִּקְרֵי ׳שִׂימָהּ׳, אֶלָּא ׳סַיְּמֶנָּהּ׳.

Disse Rav Chisda: A Torá só se adquire com simanim (sinais mnemônicos), pois está dito: “Põe-na na boca deles” (Devarim 31:19); não leias “simah” (põe-na), mas “sayemenah” (o seu sinal).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “simanin”
סימנין - סימני השמועות זו אחר זו וסימני חכמים כדרך שיש בהש"ס ותשים גירסא דסמניה בפיהם:

“Simanim” — sinais das tradições, uma depois da outra, e sinais dos sábios, como há no Shas; e porás na boca deles a recitação dos seus sinais.

Nota

O versículo é Devarim 31:19 (conferido), já citado por Rabi Akiva no bloco 1934. Rav Chisda lê “שִׂימָהּ”, “põe-na”, como “סַיְּמֶנָּהּ”, “o seu sinal”: o ensino deve ser posto na boca dos alunos com sinais que ajudem a memória, como o siman de Eruvin 54a (bloco 1909). Segundo o Rashi, são sinais da ordem das tradições e dos nomes dos sábios, como os que aparecem no Shas; a última frase do Rashi, “ותשים גירסא דסמניה בפיהם”, é de leitura incerta, e a traduzimos como explicação do versículo: põe na boca deles a recitação dos sinais.

1944Rav Tachlifa do Ocidente: ergue para ti marcos
A guemará
שַׁמְעַהּ רַב תַּחְלִיפָא מִמַּעְרְבָא, אֲזַל אַמְרַהּ קַמֵּיהּ דְּרַבִּי אֲבָהוּ, אֲמַר: אַתּוּן מֵהָתָם מַתְנִיתוּ לַהּ, אֲנַן מֵהָכָא מַתְנִינַן לַהּ: ״הַצִּיבִי לָךְ צִיּוּנִים שִׂימִי לָךְ וְגוֹ׳״ — עֲשׂוּ צִיּוּנִים לַתּוֹרָה. וּמַאי מַשְׁמַע דְּהַאי צִיּוּן לִישָּׁנָא דְסִימָנָא הוּא? דִּכְתִיב: ״וְרָאָה עֶצֶם אָדָם וּבָנָה אֶצְלוֹ צִיּוּן״.

Ouviu-o Rav Tachlifa do Ocidente (Maarava), foi e o disse diante de Rabi Abahu. Rabi Abahu disse: Vós, de lá, o ensinais daquele versículo; nós o ensinamos daqui: “Ergue para ti marcos (tziyunim), põe para ti etc.” (Yirmeyahu 31:21): fazei marcos para a Torá. E de onde se entende que este “tziyun” é linguagem de sinal? Pois está escrito: “E vir um osso humano, construirá junto a ele um tziyun” (Yechezkel 39:15).

Nota

“Ocidente” é a Terra de Israel, a oeste da Babilônia. O texto diz apenas “disse”; a tradução de referência entende que é Rabi Abahu, que vivia na Terra de Israel e responde aos sábios da Babilônia. Os versículos são Yirmeyahu 31:21 e Yechezkel 39:15 (conferidos); a tradução de referência dá Jeremias 31:20, segundo outra numeração. Em Yechezkel, o “צִיּוּן” é o marco posto junto a um osso humano, para avisar da impureza; daí a guemará aprende que “צִיּוּן” é um sinal. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1945Rabi Eliezer: moda’im; Rava: mo’adim
A guemará
רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אָמַר, מֵהָכָא: ״אֱמוֹר לַחׇכְמָה אֲחוֹתִי אָתְּ וּמוֹדָע לַבִּינָה תִקְרָא״ — עֲשֵׂה מוֹדָעִים לַתּוֹרָה. רָבָא אָמַר: עֲשֵׂה מוֹעֲדִים לַתּוֹרָה.

Rabi Eliezer disse: Daqui se aprende: “Dize à sabedoria: Tu és minha irmã, e chama ao entendimento moda (parente)” (Mishlei 7:4): faze moda’im (sinais que dão a conhecer) para a Torá. Rava disse: Faze mo’adim (tempos fixos) para a Torá.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “asu mo’ed laTorá”
עשו מועד לתורה - קבעו עתים לתלמידיכם שידעו עת לבא ולשנות:

“Fazei tempo fixo para a Torá” — isto é, fixai horários para os vossos alunos, para que saibam a hora de vir e estudar.

Nota

O versículo é Mishlei 7:4 (conferido). Rabi Eliezer lê “וּמֹדָע”, “parente”, como “מוֹדָעִים”, sinais que dão a conhecer, isto é, simanim; Rava o lê como “מוֹעֲדִים”, tempos fixos para o estudo, e o Rashi explica que se trata de horários fixos para os alunos. O lema do Rashi diz “עשו מועד”, “fazei tempo fixo”, onde a guemará diz “עֲשֵׂה מוֹעֲדִים”, “faze tempos fixos”.

O daf termina aqui, no meio dos ensinamentos sobre os sinais e os tempos fixos para a Torá: depois de completar a comparação da Torá com a figueira, a guemará reúne as exposições de Mishlei 5:19 e do cântico de Devorá, as do caçador e da riqueza juntada pouco a pouco, a ordem em que Moshé ensinou a Torá Oral, a história de Rabi Preida e os ensinamentos de que a Torá só se adquire com sinais. A guemará prossegue em Eruvin 55a.