O daf completa o ensinamento de Rabi Yochanan sobre a figueira: assim como quem a apalpa sempre encontra figos, quem medita nas palavras da Torá sempre encontra nelas sabor. Rabi Shmuel bar Nachmani expõe Mishlei 5:19: a Torá é querida pelos que a estudam como na primeira hora, dá graça aos que a estudam e sempre tem sabor; e o amor por ela faz esquecer o mundo, como a Rabi Elazar ben Pedat, que estudava num mercado de Tzipori enquanto o seu manto ficava no outro. A escola de Rav Anan aplica o cântico de Devorá aos sábios e aos mestres da Escritura, da Mishná e do Talmud. Seguem as exposições sobre o caçador que não assa a sua caça, segundo Rabi Elazar ben Azarya, Rav Sheshet e Rav Dimi, e sobre a riqueza juntada pouco a pouco: quem estuda pouco a pouco e repassa guarda o que aprendeu. Uma baraita descreve a ordem em que Moshé ensinou a Torá Oral a Aharon, aos seus filhos, aos anciãos e a todo o povo, de modo que todos a ouviram quatro vezes; daí Rabi Eliezer ensina que se deve repetir ao aluno quatro vezes, e Rabi Akiva, que se deve ensinar até que aprenda e mostrar-lhe as razões. Rabi Preida repetia a lição quatrocentas vezes a um aluno, e mereceu, com a sua geração, o Mundo Vindouro e mais quatrocentos anos de vida. O daf termina com o ensinamento de que a Torá só se adquire com sinais, segundo Rav Chisda, Rabi Abahu, Rabi Eliezer e Rava.
…todo o tempo em que a pessoa a apalpa (em busca de fruto), encontra nela figos (maduros); assim também as palavras da Torá: todo o tempo em que a pessoa medita nelas, encontra nelas ta’am (sabor, sentido).
“Todo o tempo em que a apalpa, encontra nela figos” — isto é, os figos não amadurecem de uma só vez, mas hoje um pouco e amanhã um pouco, e a toda hora há deles prontos para comer.
O segmento completa a frase com que termina Eruvin 54a (bloco 1920): “Por que as palavras da Torá foram comparadas à figueira? Porque, assim como esta figueira…”. O versículo é Mishlei 27:18 (conferido). Segundo o Rashi, os figos da figueira não amadurecem todos ao mesmo tempo, e por isso quem a apalpa sempre encontra algum maduro; assim também quem medita nas palavras da Torá sempre encontra nelas um sabor novo. “Sabor” traduz “טַעַם”, que também significa “sentido, razão”. O lema do Rashi diz “שממשמש”, sem “אָדָם”.
Disse Rabi Shmuel bar Nachmani: O que significa o que está escrito: “Corça de amores e cabra-montesa de graça etc.” (Mishlei 5:19)? Por que as palavras da Torá foram comparadas à corça? Para te dizer isto: assim como a corça, o seu útero é estreito, e por isso ela é querida pelo seu parceiro (bo’alah) a cada hora e hora como na primeira hora, assim também as palavras da Torá são queridas pelos que as estudam a cada hora e hora como na primeira hora.
O versículo é Mishlei 5:19 (conferido): “אַיֶּלֶת אֲהָבִים וְיַעֲלַת חֵן דַּדֶּיהָ יְרַוֻּךָ בְכׇל עֵת בְּאַהֲבָתָהּ תִּשְׁגֶּה תָמִיד”; a guemará expõe cada parte dele nos blocos 1922 a 1924. No seu contexto, o versículo fala da esposa da juventude; Rabi Shmuel bar Nachmani o aplica às palavras da Torá. “Por isso” liga as duas metades da comparação, como entende a tradução de referência. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
“E cabra-montesa de graça” (veya’alat chen): que a Torá faz subir (ma’alat) graça sobre os que a estudam. “Os seus seios te saciem em todo tempo” (ibidem): por que as palavras da Torá foram comparadas ao seio (dad)? Assim como este seio, todo o tempo em que o bebê o apalpa, encontra nele leite, assim também as palavras da Torá: todo o tempo em que a pessoa medita nelas, encontra nelas sabor (novo).
“Que faz subir graça sobre os que a estudam” — isto é, que todos o elevam (ao que estuda), e a sua Torá lhe dá graça.
A guemará lê “וְיַעֲלַת”, “cabra-montesa”, como “מַעֲלַת”, “faz subir”, pela semelhança de som. O versículo é o mesmo Mishlei 5:19 (conferido). A segunda comparação repete, com o seio e o leite, a da figueira do bloco 1921. Segundo o Rashi, a graça que a Torá dá é a estima que todos têm por quem a estuda.
“No amor por ela errarás (tishgê) sempre” (ibidem): como Rabi Elazar ben Pedat. Disseram a respeito dele, de Rabi Elazar, que ficava sentado e se ocupava com a Torá no mercado de baixo de Tzipori, e o seu sadin (manto de linho) ficava largado no mercado de cima de Tzipori. Foi ensinado numa baraita: Disse Rabi Yitzchak ben Elazar: Certa vez, veio uma pessoa para pegá-lo (o manto), e encontrou nele um saraf (serpente venenosa).
“No amor por ela errarás sempre” — por causa do amor por ela (pela Torá), farás a ti mesmo desatento e simples, para deixar os teus negócios e correr a um assunto de halachá.
O versículo é ainda Mishlei 5:19 (conferido). Seguimos o Rashi: “errarás” é fazer-se desatento às coisas do mundo por amor à Torá, como Rabi Elazar ben Pedat, que se esquecia do próprio manto. No Sefaria, o nome aparece duas vezes como “(אֱלִיעֶזֶר)”, entre parênteses, marca de leitura a suprimir, sem o nome que o substitui; mantivemos o hebraico como está e, como em Eruvin 54a (blocos 1909, 1911 e 1912), a tradução segue a tradução de referência, que lê “Rabi Elazar ben Pedat”, o amora conhecido por esse nome. Também “(תַּנְיָא)” está entre parênteses no Sefaria, pois a frase é de um amora, Rabi Yitzchak ben Elazar; traduzimos a palavra, como a tradução de referência. O texto não diz por que a serpente estava no manto; a tradução de referência entende que o guardava.
Ensinou um sábio da escola de Rav Anan: O que significa o que está escrito: “Os que montam jumentas brancas (tzechorot), os que se sentam sobre midin (tapetes), e os que andam pelo caminho, conversai” (Shoftim 5:10)? “Os que montam jumentas”: estes são os talmidei chachamim (sábios da Torá), que andam de cidade em cidade e de província em província para estudar Torá. “Brancas”: que a fazem clara como o meio-dia (tzohorayim). “Os que se sentam sobre midin”: que julgam (danin) um juízo verdadeiro conforme a sua verdade. “E os que andam”: estes são os mestres da Escritura. “Pelo caminho”: estes são os mestres da Mishná. “Conversai” (sichu): estes são os mestres do Talmud, cuja conversa toda é sobre palavras da Torá.
O versículo é Shoftim 5:10 (conferido), do cântico de Devorá. A guemará lê “צְחֹרוֹת”, “brancas”, como “צָהֳרַיִם”, “meio-dia”: os sábios tornam a Torá clara como a luz do meio-dia; e “מִדִּין”, “tapetes”, como “דָּנִין”, “julgam”. No Sefaria, o fim da citação, “וְהוֹלְכֵי עַל דֶּרֶךְ שִׂיחוּ”, está entre colchetes, como acréscimo, e “(בּוֹ)” está entre parênteses, como palavra a suprimir; mantivemos o hebraico como está, e a tradução lê o versículo inteiro, sem “בּוֹ”. A segunda citação diz “רוֹכְבַי”, com patach. Segundo a tradução de referência, a ordem vai do menor ao maior: os mestres da Escritura, os da Mishná e os do Talmud. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
Disse Rav Sheizvi em nome de Rabi Elazar ben Azarya: O que significa o que está escrito: “O enganador não assará (yacharoch) a sua caça” (Mishlei 12:27)? Não viverá nem prolongará os dias o caçador ramai (enganador).
“Não assará” — a guemará o expõe como notarikon (palavra decomposta): “não viverá e não prolongará”.
O versículo é Mishlei 12:27 (conferido), “לֹא יַחֲרֹךְ רְמִיָּה צֵידוֹ”. Segundo o Rashi, a palavra “יַחֲרֹךְ” é lida como notarikon: o “ח” de “יִחְיֶה”, “viverá”, e o “רך” de “יַאֲרִיךְ”, “prolongará”. A tradução de referência explica que se trata do caçador que caça sempre mais e não guarda o que já apanhou, como quem estuda coisas novas sem repassar as antigas; a guemará não o diz aqui, mas o sentido se esclarece nos blocos seguintes.
Rav Sheshet disse: O caçador astuto assará a sua caça!
“E Rav Sheshet disse” — este (que não guarda a sua caça) não é ramai, mas tolo; e quem junta pouco a pouco é que é o ramai, astuto na coisa, e ele “assará”, isto é, o estudo se manterá na sua mão; como o caçador astuto, que quebra a asa de cada um, primeiro a primeiro, quando o captura, para que não fuja: ele assa as aves e as come. E Rav Sheshet lê o versículo em tom de espanto: “Não assará?” — isto é, não assará e comerá?
Seguimos o Rashi: para Rav Sheshet, “רַמַּאי” não é o enganador, mas o astuto, o que guarda o que apanhou, isto é, quem estuda pouco a pouco e repassa; e o versículo é lido como pergunta de espanto: “o astuto não assará a sua caça?”, isto é, certamente assará. Por isso traduzimos a frase como afirmação, com o Rashi (“והוא יחרוך”). O Sefaria a pontua como pergunta, e a tradução de referência traduz “um caçador enganador terá o que assar?”, entendendo que quem age assim é tolo, e não enganador. O lema do Rashi diz “ורב ששת אמר”, com vav. A imagem do caçador que quebra as asas é a do bloco seguinte, que o Rashi já usa aqui.
Quando veio Rav Dimi da Terra de Israel, disse: Isto é comparável a um caçador que caça pássaros: se quebra as asas de cada um, primeiro a primeiro, a caça se guarda; e, se não, não se guarda.
Rav Dimi explica o versículo como Rav Sheshet: o caçador astuto quebra as asas de cada pássaro logo que o captura, e por isso não o perde; assim o estudante astuto repassa cada lição antes de passar à seguinte. “Primeiro a primeiro” traduz literalmente “רִאשׁוֹן רִאשׁוֹן”, isto é, um a um, à medida que os captura. “Se guarda” traduz “מִשְׁתַּמֵּר”, o mesmo verbo usado para a Torá que “se guarda” em Eruvin 54a (bloco 1894). O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
Disse Rabba, disse Rav Sechora, disse Rav Huna: O que significa o que está escrito: “A riqueza obtida por vaidade (hevel) diminuirá, mas quem junta pouco a pouco aumentará” (Mishlei 13:11)? Se a pessoa faz da sua Torá feixes e feixes (chavilot), ela diminui; e, se não, “quem junta pouco a pouco aumentará”.
O versículo é Mishlei 13:11 (conferido). A guemará lê “הֶבֶל”, “vaidade”, como “חֲבִילוֹת”, “feixes”: quem acumula muito estudo de uma vez, em grandes porções, o perde; quem junta pouco a pouco, e repassa, o aumenta. “Pouco a pouco” traduz “עַל יָד”, literalmente “à mão”. No Sefaria, o nome “(רַבָּה)” está entre parênteses, marca de leitura a suprimir, sem o nome que o substitui; mantivemos o hebraico como está e, como em Eruvin 50a (bloco 1758), a tradução segue a tradução de referência, que lê “Rabba”; a frase seguinte, sem parênteses, também é de Rabba. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
Disse Rabba: Os rabanan (sábios) sabem esta coisa, e mesmo assim a transgridem. Disse Rav Nachman bar Yitzchak: Eu a fiz, e o estudo se manteve na minha mão.
“Eu a fiz e a mantive” — isto é, fiz o juntar pouco a pouco: repassei cada lição até que a retive com firmeza, e depois voltei e ouvi outra.
“Esta coisa” é o conselho do versículo, de estudar pouco a pouco e repassar. Rav Nachman bar Yitzchak testemunha que o seguiu e que o seu estudo permaneceu. O lema do Rashi diz “אנא עבדתה וקיימתיה”, “eu a fiz e a mantive”, onde a guemará diz “אֲנָא עֲבַדְתַּהּ, וְאִיקַּיַּים בִּידַאי”, “eu a fiz, e se manteve na minha mão”.
Os sábios ensinaram numa baraita: Como era a ordem da Mishná (do ensino da Torá Oral)? Moshé aprendeu da boca da Guevurá (o Todo-Poderoso). Entrou Aharon (e sentou-se diante dele), e Moshé lhe ensinou a sua lição (pirko); Aharon se afastou e sentou-se à esquerda de Moshé. Entraram os filhos dele, e Moshé lhes ensinou a sua lição; os filhos dele se afastaram: Elazar sentou-se à direita de Moshé, e Itamar sentou-se à esquerda de Aharon. Rabi Yehuda diz: Aharon sempre volta à direita de Moshé. Entraram os anciãos, e Moshé lhes ensinou a sua lição; os anciãos se afastaram, entrou todo o povo, e Moshé lhes ensinou a sua lição. Resultou que havia na mão de Aharon quatro vezes, na mão dos seus filhos, três vezes, na mão dos anciãos, duas vezes, e na mão de todo o povo, uma vez.
“Como era a ordem da Mishná” — isto é, como Israel aprendeu a Torá Oral.
“Entrou Aharon” — e sentou-se diante de Moshé, como está escrito: “E os teus olhos verão os teus mestres” (Yeshayahu 30:20); e assim todos eles, na hora em que ouviam a lição, todos se sentavam diante dele.
“Sentou-se à esquerda de Moshé” — pois foi ensinado: Quem anda à direita do seu mestre, eis que é um bur (ignorante); e com mais razão quem se senta à sua direita, no tempo em que não há um segundo (discípulo) para se sentar à esquerda.
“E lhes ensinou a sua lição” — isto é, aquela mesma lição que ensinara a Aharon.
“Aharon volta à direita de Moshé” — depois que os seus filhos ouviram a lição, e há um segundo para se sentar à esquerda de Moshé, é honra para Aharon e para Moshé que Aharon, que é grande, venha e se sente à direita.
“A ordem da Mishná” é, segundo o Rashi, o modo como Israel recebeu a Torá Oral. “Guevurá”, literalmente “Poder”, é um dos nomes de Deus. “Lição” traduz “פֶּרֶק”, a porção ensinada; e “havia na mão” é o modo hebraico de dizer que cada um tinha ouvido a lição tantas vezes. O versículo citado pelo Rashi é Yeshayahu 30:20 (conferido). A frase “quem anda à direita do seu mestre é um ignorante” está em Yoma 37a (conferido), como palavra de Rav Yehuda; o Rashi a introduz com “דתניא”. Segundo o Rashi, Aharon se sentou primeiro à esquerda porque estava sozinho; o tanna kamma deixa-o ali, e Rabi Yehuda o faz voltar à direita quando chegam os seus filhos.
Moshé se afastou, e Aharon lhes ensinou a sua lição. Aharon se afastou, e os filhos dele lhes ensinaram a sua lição. Os filhos dele se afastaram, e os anciãos lhes ensinaram a sua lição. Resultou que havia na mão de todos quatro vezes.
Cada grupo, ao sair o que estava acima dele, repetia a lição aos demais, e assim todos a ouviram quatro vezes: Aharon, de Moshé quatro vezes; os seus filhos, três de Moshé e uma de Aharon; os anciãos, duas de Moshé, uma de Aharon e uma dos filhos; e o povo, uma de cada. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
Daqui disse Rabi Eliezer: A pessoa é obrigada a ensinar ao seu aluno quatro vezes. E é um kal vachomer (inferência do menor ao maior): se Aharon, que aprendeu da boca de Moshé, e Moshé, da boca da Guevurá, aprendeu assim, um hedyot (homem comum) que aprende da boca de um hedyot, quanto mais e quanto mais!
“Se Aharon, que ouviu de Moshé etc.” — e a coisa era assistida (do Céu) para se manter no seu coração e para ele entender depressa; mesmo assim, ouviu quatro vezes.
Seguimos o Rashi, que explica o kal vachomer: se Aharon, cujo estudo era assistido por vir de Moshé, que o recebera de Deus, precisou ouvir quatro vezes, com mais razão o aluno comum de um mestre comum. O lema do Rashi diz “ששמע”, “que ouviu”, onde a guemará diz “שֶׁלָּמַד”, “que aprendeu”. A expressão “assistida” antecipa o “מִסְתַּיְּיעָא” do bloco 1937.
Rabi Akiva diz: De onde se aprende que a pessoa é obrigada a ensinar ao seu aluno até que ele o aprenda? Pois está dito: “E ensina-a aos filhos de Israel” (Devarim 31:19). E de onde se aprende que se deve ensinar até que a lição esteja ordenada na boca deles? Pois está dito: “Põe-na na boca deles” (ibidem).
O versículo é Devarim 31:19 (conferido): “וְעַתָּה כִּתְבוּ לָכֶם אֶת הַשִּׁירָה הַזֹּאת וְלַמְּדָהּ אֶת בְּנֵי יִשְׂרָאֵל שִׂימָהּ בְּפִיהֶם”. Rabi Akiva discorda do número fixo de Rabi Eliezer: não bastam quatro vezes, deve-se ensinar até que o aluno aprenda e saiba a lição com fluência. “Ordenada” traduz “סְדוּרָה”. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
E de onde se aprende que é obrigado a mostrar-lhe panim (face, isto é, razões)? Pois está dito: “E estas são as leis que porás diante deles” (Shemot 21:1).
“Mostrar-lhe panim” — isto é, ensiná-lo dando razão às suas palavras em tudo o que puder, e não dirá: Assim ouvi; entende tu a razão por ti mesmo. E o seu paralelo está no primeiro capítulo (folha 13b): que ele dizia do impuro que é puro e lhe mostrava panim.
“Que porás diante deles” — e não está escrito “que lhes ensinarás”: precisas ordenar e pôr diante deles a razão que assenta o seu estudo.
O versículo é Shemot 21:1 (conferido). A guemará liga “פָּנִים”, “face”, a “לִפְנֵיהֶם”, “diante deles”, literalmente “às suas faces”. Seguimos o Rashi: “mostrar a face” é explicar as razões, e não apenas transmitir o que se ouviu. O paralelo indicado pelo Rashi é Eruvin 13b (conferido), sobre Rabi Meir, que “dizia do impuro que é puro e lhe mostrava panim”; ali traduzimos “mostrava-lhe uma razão” (bloco 409). A referência “(דף יג:)” está entre parênteses no próprio Rashi.
E que todos eles aprendam quatro vezes de Moshé! Foi assim para conceder honra a Aharon e aos seus filhos, e honra aos anciãos.
A guemará pergunta por que cada grupo não ouviu as quatro vezes do próprio Moshé, e responde que a ordem foi feita para honrar Aharon, os seus filhos e os anciãos, que também ensinaram. “Quatro vezes” completa a pergunta como a tradução de referência. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
E que entre Aharon e aprenda quatro vezes de Moshé, e que entrem os filhos dele e aprendam de Aharon, e que entrem os anciãos e aprendam dos filhos dele, e que estes vão e ensinem a todo Israel! Responde-se: Uma vez que Moshé aprendeu diretamente da boca da Guevurá, a sua palavra é assistida (e se fixa melhor).
“E que entrem os filhos dele e aprendam de Aharon” — isto é, quatro vezes; e assim todos eles.
A guemará propõe uma ordem mais simples, em que cada grupo aprende quatro vezes do grupo anterior, como explica o Rashi, e Moshé ensinaria só a Aharon. Responde que é melhor que todos ouçam ao menos uma vez do próprio Moshé, porque o ensino de quem aprendeu de Deus é “assistido”; segundo o Rashi do bloco 1933, assistido para se manter no coração e ser entendido depressa. A tradução de referência traduz “mais eficaz”. O lema do Rashi diz “ולילפו”, onde a guemará diz “וְלִיגְמְרוּ”.
Disse o mestre: Rabi Yehuda diz: Aharon sempre volta à direita de Moshé. Conforme quem vai isto que foi ensinado numa baraita: Três que andavam pelo caminho, o mestre vai no meio, o maior dos dois à sua direita, e o menor à sua esquerda? Digamos que é a opinião de Rabi Yehuda, e não a dos rabanan?
“Disse o mestre” introduz a citação da baraita anterior (bloco 1931). Se o maior deve estar à direita do mestre, parece que a baraita dos três caminhantes segue Rabi Yehuda, que faz Aharon voltar à direita de Moshé; e não o tanna kamma, que o deixa à esquerda. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
Podes dizer até que é a dos rabanan: Aharon ficou à esquerda por causa do incômodo de Aharon.
“Por causa do incômodo de Aharon” — pois no começo, quando estava sozinho, não havia como evitar que se sentasse à esquerda; e quando os outros entraram de novo, havia incômodo em fazê-lo levantar-se e voltar à direita.
Seguimos o Rashi: também os rabanan concordam que o maior fica à direita do mestre; Aharon só permaneceu à esquerda porque se sentara ali quando estava sozinho, e seria um incômodo fazê-lo levantar-se e mudar de lugar. Assim, a baraita dos três caminhantes pode seguir também os rabanan.
Rabi Preida tinha um aluno a quem repetia a lição quatrocentas vezes, e então ele aprendia. Um dia, pediram-no (a Rabi Preida) para um assunto de mitzvá. Repetiu-lhe as quatrocentas vezes, e ele não aprendeu.
“Pediram-no” — isto é, a Rabi Preida, para um assunto de mitzvá.
A história ilustra o dever de ensinar o aluno até que aprenda (bloco 1934). O Rashi esclarece que foi Rabi Preida quem foi chamado para o assunto de mitzvá; a tradução de referência acrescenta que o chamaram para depois da aula.
Rabi Preida disse-lhe: Agora, o que há de diferente de antes? O aluno disse-lhe: Desde aquela hora em que disseram ao mestre: Há um assunto de mitzvá, desviei a minha mente da lição, e a toda hora eu dizia: Agora o mestre se levanta, agora o mestre se levanta. Disse-lhe: Dá a tua atenção, e eu te ensinarei. Voltou e lhe repetiu a lição outras quatrocentas vezes.
“Rabi Preida” e “o aluno” completam os sujeitos, que o texto deixa implícitos, como a tradução de referência. No Sefaria, “[אַחֲרִינֵי]”, “outras”, está entre colchetes, como acréscimo; mantivemos o hebraico como está, e a tradução o lê. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
Saiu uma bat kol (voz celestial) e disse-lhe (a Rabi Preida): Preferes que te acrescentem quatrocentos anos de vida, ou que mereças, tu e a tua geração, o Mundo Vindouro? Disse Rabi Preida: Que eu e a minha geração mereçamos o Mundo Vindouro. Disse-lhes o Santo, bendito seja: Dai-lhe isto e aquilo.
“Saiu uma voz e disse” — isto é, disse a Rabi Preida.
Segundo o Rashi, a bat kol falou a Rabi Preida, e não ao aluno; por isso completamos “Rabi Preida” também na resposta. O texto não diz a quem o Santo, bendito seja, disse “dai-lhe”; a tradução de referência entende que foi aos anjos. “Isto e aquilo” traduz “זוֹ וָזוֹ”: os quatrocentos anos e o Mundo Vindouro. O lema do Rashi diz “נפק בה קול”, onde a guemará diz “נְפַקָא בַּת קָלָא”; traduzimos o lema como “saiu uma voz”.
Disse Rav Chisda: A Torá só se adquire com simanim (sinais mnemônicos), pois está dito: “Põe-na na boca deles” (Devarim 31:19); não leias “simah” (põe-na), mas “sayemenah” (o seu sinal).
“Simanim” — sinais das tradições, uma depois da outra, e sinais dos sábios, como há no Shas; e porás na boca deles a recitação dos seus sinais.
O versículo é Devarim 31:19 (conferido), já citado por Rabi Akiva no bloco 1934. Rav Chisda lê “שִׂימָהּ”, “põe-na”, como “סַיְּמֶנָּהּ”, “o seu sinal”: o ensino deve ser posto na boca dos alunos com sinais que ajudem a memória, como o siman de Eruvin 54a (bloco 1909). Segundo o Rashi, são sinais da ordem das tradições e dos nomes dos sábios, como os que aparecem no Shas; a última frase do Rashi, “ותשים גירסא דסמניה בפיהם”, é de leitura incerta, e a traduzimos como explicação do versículo: põe na boca deles a recitação dos sinais.
Ouviu-o Rav Tachlifa do Ocidente (Maarava), foi e o disse diante de Rabi Abahu. Rabi Abahu disse: Vós, de lá, o ensinais daquele versículo; nós o ensinamos daqui: “Ergue para ti marcos (tziyunim), põe para ti etc.” (Yirmeyahu 31:21): fazei marcos para a Torá. E de onde se entende que este “tziyun” é linguagem de sinal? Pois está escrito: “E vir um osso humano, construirá junto a ele um tziyun” (Yechezkel 39:15).
“Ocidente” é a Terra de Israel, a oeste da Babilônia. O texto diz apenas “disse”; a tradução de referência entende que é Rabi Abahu, que vivia na Terra de Israel e responde aos sábios da Babilônia. Os versículos são Yirmeyahu 31:21 e Yechezkel 39:15 (conferidos); a tradução de referência dá Jeremias 31:20, segundo outra numeração. Em Yechezkel, o “צִיּוּן” é o marco posto junto a um osso humano, para avisar da impureza; daí a guemará aprende que “צִיּוּן” é um sinal. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
Rabi Eliezer disse: Daqui se aprende: “Dize à sabedoria: Tu és minha irmã, e chama ao entendimento moda (parente)” (Mishlei 7:4): faze moda’im (sinais que dão a conhecer) para a Torá. Rava disse: Faze mo’adim (tempos fixos) para a Torá.
“Fazei tempo fixo para a Torá” — isto é, fixai horários para os vossos alunos, para que saibam a hora de vir e estudar.
O versículo é Mishlei 7:4 (conferido). Rabi Eliezer lê “וּמֹדָע”, “parente”, como “מוֹדָעִים”, sinais que dão a conhecer, isto é, simanim; Rava o lê como “מוֹעֲדִים”, tempos fixos para o estudo, e o Rashi explica que se trata de horários fixos para os alunos. O lema do Rashi diz “עשו מועד”, “fazei tempo fixo”, onde a guemará diz “עֲשֵׂה מוֹעֲדִים”, “faze tempos fixos”.