O daf continua a história de Beruria, que repreende o aluno que estudava em sussurro com o versículo “ordenada em tudo e guardada”: a Torá só se guarda quando está ordenada nos duzentos e quarenta e oito membros; uma baraita conta que um aluno de Rabi Eliezer, que estudava em voz baixa, esqueceu tudo depois de três anos, e outra lembra um aluno seu poupado por ter servido a um grande homem. Shmuel ensina a Rav Yehuda a abrir a boca para ler e estudar, e a desfrutar enquanto pode, pois o mundo passa como uma festa de casamento; Rav diz o mesmo a Rav Hamnuna. Rabi Yehoshua ben Levi ensina que a Torá acompanha quem viaja e cura cada parte do corpo, e Rav Yehuda, filho de Rabi Chiya, a chama remédio de vida. Rav Ami, Rabi Zeira, Rabi Yitzchak e Rava mostram por versículos que a Torá precisa estar nos lábios; Rava contrapõe o desejo do coração e a expressão dos lábios, e a escola de Rabi Eliezer ben Yaakov ensina que netzach, selá e va’ed significam “para sempre”. Seguem, com um siman, as exposições de Rabi Eliezer sobre os colares, as faces, as tábuas de pedra e o “gravado sobre as tábuas”, a de Rav Acha bar Yaakov sobre a liberdade, e a de Rav Matna sobre o deserto e a dádiva, que Rava desenvolve diante de Rav Yossef na véspera de Yom Kipur. O daf termina com Rav Huna, a fera e o pobre, e com o começo do ensinamento de Rabi Yochanan sobre a figueira.
Ela deu-lhe um pontapé e disse-lhe: Não está escrito assim: “Ordenada em tudo e guardada” (Shmuel II 23:5)? Se a Torá estiver ordenada nos teus duzentos e quarenta e oito membros, ela se guarda; e, se não, não se guarda. Foi ensinado numa baraita: Rabi Eliezer tinha um aluno que repetia o seu estudo em sussurro; depois de três anos, esqueceu o seu estudo.
“Deu-lhe um pontapé” — isto é, chutou-o.
A história continua de Eruvin 53b (bloco 1893), onde Beruria encontra um aluno que estudava em sussurro; “ela” é Beruria. O versículo é Shmuel II 23:5 (conferido), “עֲרוּכָה בַכֹּל וּשְׁמֻרָה”, dito no seu contexto da aliança eterna feita com David; Beruria o lê como dito da Torá: só quando está “ordenada” em todos os duzentos e quarenta e oito membros do corpo, isto é, quando o estudo envolve o corpo inteiro e é feito em voz alta, ela se “guarda” na memória. A guemará escreve “וּשְׁמוּרָה”, com vav, onde o versículo traz “וּשְׁמֻרָה”. A baraita sobre o aluno de Rabi Eliezer confirma a lição: quem estuda em sussurro esquece. “Repetia o seu estudo” traduz “שׁוֹנֶה”, o estudo pela repetição; o Rashi explica “בְּטַשָׁה” por “בעטה”, “deu um pontapé”.
Foi ensinado numa baraita: Rabi Eliezer tinha um aluno que se tornou passível de srefá (a morte por queima) perante o Makom (o Onipresente). Disseram: Deixai-o; a um grande homem ele serviu.
A guemará traz esta baraita por associação com a anterior, que também fala de um aluno de Rabi Eliezer. O texto não diz qual foi o pecado nem quem disse “deixai-o”; a tradução de referência entende que ele pecou contra Deus e que os sábios não lhe aplicaram o castigo, pelo mérito de ter servido a um grande homem, Rabi Eliezer. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
Disse Shmuel a Rav Yehuda: Shinena (perspicaz), abre a tua boca, lê (a Escritura); abre a tua boca, estuda (a Mishná), para que o estudo se mantenha em ti e prolongues a tua vida; pois está dito: “Pois são vida para os que as encontram, e para toda a sua carne, cura” (Mishlei 4:22). Não leias “para os que as encontram” (lemotzeihem), mas “para os que as fazem sair” (lemotzi’eihem) pela boca.
“E prolongues a vida” — isto é, que prolongues os teus dias.
Como Beruria, Shmuel ensina que o estudo deve ser feito em voz alta. “Shinena” é o apelido com que Shmuel chama Rav Yehuda, o seu aluno; costuma ser entendido como “perspicaz”, e a tradução de referência traduz “keen scholar”. “Lê” (“קְרִי”) se refere à leitura da Escritura, e “estuda” (“תְּנִי”) ao estudo da Mishná. O versículo é Mishlei 4:22 (conferido), “כִּי חַיִּים הֵם לְמֹצְאֵיהֶם”; a guemará lê “לְמֹצְאֵיהֶם”, “os que as encontram”, como “לְמוֹצִיאֵיהֶם”, “os que as fazem sair” pela boca. O Rashi explica “וְתוֹרִיךְ חַיֵּי” como “que prolongues os dias”.
Disse Shmuel a Rav Yehuda: Shinena, agarra e come, agarra e bebe enquanto podes, pois este mundo, do qual nos vamos, se assemelha a uma hilula (festa de casamento).
“Agarra e come” — se tens dinheiro com que dar prazer a ti mesmo, não esperes até amanhã, pois talvez morras, e então já não terás prazer.
“Pois o mundo do qual nos vamos” — assim lemos o texto.
“Se assemelha a uma hilula” — o mundo hoje existe, e amanhã não existe; é semelhante a uma chupá (a festa nupcial), que passa depressa.
Segundo o Rashi, Shmuel aconselha quem tem dinheiro a desfrutar dele sem adiar, pois a vida passa depressa como uma festa de casamento. “Enquanto podes” completa a frase segundo o Rashi. No segundo comentário, o Rashi apenas confirma a leitura “דְּעָלְמָא דְּאָזְלִינַן מִינֵּיהּ” (“גרסינן”, “assim lemos”), sem dizer qual leitura rejeita. O lema do primeiro comentário diz “חטוף אכול”, sem o vav da guemará.
Disse Rav a Rav Hamnuna: Meu filho, se tens dinheiro, faze o bem a ti mesmo, pois não há deleite no Sheol (o mundo dos mortos), e a morte não tarda. E, se disseres: Deixarei o dinheiro para os meus filhos — o chok (o sustento) que lhes deixas, quando estiveres no Sheol, quem te dirá se ficou nas mãos deles? Os filhos do homem se assemelham às ervas do campo: estas florescem, e aquelas murcham.
“Se tens” — isto é, dinheiro.
“E a morte não tarda” — “tardar” é demora; pois de repente a pessoa morre.
“Chok” — quer dizer sustento.
“Quem te dirá” — se o dinheiro ficou nas mãos deles? Talvez o percam.
“Estas florescem” — isto é, os filhos, quando crescem, o seu sustento e a sua riqueza crescem com eles, e não precisas te preocupar com eles.
“E aquelas murcham” — isto é, morrem; é linguagem de “e a folha murchou” (Yirmeyahu 8:13).
Seguimos o Rashi, que lê “חוֹק” como “sustento” (“מזון”): o dinheiro deixado aos filhos pode se perder, e quem já está no Sheol não saberá o que foi feito dele; além disso, os filhos são como as ervas, uns crescem e trazem consigo o seu sustento, outros morrem antes do tempo. A tradução de referência, seguindo o Aruch, traduz “quem te disse a lei do mundo dos mortos”, isto é, quem sabe quem morrerá primeiro. O versículo citado pelo Rashi é Yirmeyahu 8:13 (conferido), “וְהֶעָלֶה נָבֵל”. Estas palavras de Rav lembram de perto uma passagem do livro de Ben Sira.
Disse Rabi Yehoshua ben Levi: Quem anda pelo caminho e não tem consigo levayá (companhia), que se ocupe com a Torá, pois está dito: “Pois são uma grinalda (livyat) de graça” (Mishlei 1:9).
O versículo é Mishlei 1:9 (conferido), “כִּי לִוְיַת חֵן הֵם לְרֹאשֶׁךָ וַעֲנָקִים לְגַרְגְּרֹתֶךָ”, dito das palavras da Torá. A guemará lê “לִוְיַת”, “grinalda”, como “לְוָיָה”, “companhia”: as palavras da Torá acompanham quem viaja sozinho. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
Quem sente dor na cabeça, que se ocupe com a Torá, pois está dito: “Pois são uma grinalda de graça para a tua cabeça” (Mishlei 1:9). Quem sente dor na garganta, que se ocupe com a Torá, pois está dito: “E colares para a tua garganta” (ibidem). Quem sente dor nas entranhas, que se ocupe com a Torá, pois está dito: “Será cura para o teu umbigo” (Mishlei 3:8). Quem sente dor nos ossos, que se ocupe com a Torá, pois está dito: “E refrigério para os teus ossos” (ibidem). Quem sente dor em todo o corpo, que se ocupe com a Torá, pois está dito: “E para toda a sua carne, cura” (Mishlei 4:22).
Os versículos são Mishlei 1:9, Mishlei 3:8 e Mishlei 4:22 (conferidos). “Garganta” traduz “גְּרוֹנוֹ”, e o versículo diz “לְגַרְגְּרֹתֶךָ”; “umbigo” traduz “לְשָׁרֶּךָ”, que a guemará aplica às entranhas; “refrigério” traduz “שִׁקּוּי”, literalmente “bebida”, que a tradução de referência traduz por “medula”. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
Disse Rav Yehuda, filho de Rabi Chiya: Vem e vê que não é como a medida do Santo, bendito seja, a medida da carne e sangue. A medida da carne e sangue é esta: uma pessoa dá um sam (remédio) ao seu companheiro, e ele é bom para esta doença e nocivo para aquela. Mas o Santo, bendito seja, não é assim na Sua medida: deu a Torá a Israel, e ela é remédio de vida para todo o seu corpo, pois está dito: “E para toda a sua carne, cura” (Mishlei 4:22).
“Bom” — isto é, para esta doença, e nocivo para aquela; por exemplo, bom para o coração e ruim para os olhos.
“Medida” traduz “מִדָּה”, o modo de agir; “carne e sangue” é o ser humano. “Esta doença” completa a frase segundo o Rashi; a tradução de referência entende “bom para uma parte do corpo e nocivo para outra”. O versículo é Mishlei 4:22 (conferido), já citado no bloco 1896.
Disse Rav Ami: O que significa o que está escrito: “Pois é agradável se os guardares (as palavras dos sábios) no teu ventre; que estejam firmes (yikonu) juntos sobre os teus lábios” (Mishlei 22:18)? Quando as palavras da Torá são agradáveis? No tempo em que as guardas no teu ventre (dentro de ti). E quando as guardas no teu ventre? No tempo em que estejam firmes juntas sobre os teus lábios (quando as pronuncias).
“Que as guardes no teu ventre” — isto é, que estejam guardadas na tua mão, de modo que não se esqueçam de ti.
“Estejam firmes juntas” — isto é, que tu as ordenas e as fazes sair pela boca, e não com gaguejo nem em sussurro.
O versículo é Mishlei 22:18 (conferido), “כִּי נָעִים כִּי תִשְׁמְרֵם בְּבִטְנֶךָ יִכֹּנוּ יַחְדָּו עַל שְׂפָתֶיךָ”. A guemará o lê como uma cadeia: as palavras da Torá só são agradáveis quando guardadas na memória, e só se guardam quando são pronunciadas; segundo o Rashi, “firmes juntas sobre os lábios” quer dizer pronunciá-las em ordem, sem gaguejar e sem sussurrar, como no caso do aluno repreendido por Beruria. Na primeira citação, a guemará escreve “יַחְדָּיו”, e o versículo, “יַחְדָּו”; o lema do Rashi diz “יחד”.
Rabi Zeira disse: Daqui se aprende: “Alegria para o homem na resposta da sua boca; e uma palavra no seu tempo, quão boa!” (Mishlei 15:23). Quando há alegria para o homem? No tempo em que há resposta na sua boca. Outra versão: Quando há alegria para o homem na resposta da sua boca? No tempo em que nele se cumpre: “Uma palavra no seu tempo, quão boa!”.
“Quando há alegria etc. No tempo” — isto é, quando sabe expor as leis da festa na festa. Outra explicação: “Quando há alegria para o homem” significa: quando a pessoa se alegra no seu estudo? No tempo em que tem resposta quando lhe perguntam um assunto de halachá.
O versículo é Mishlei 15:23 (conferido). O comentário do Rashi parece trazer as duas versões em ordem inversa: a primeira explicação, saber expor as leis da festa na própria festa, corresponde a “uma palavra no seu tempo”; a segunda, ter resposta quando lhe perguntam halachá, corresponde a “resposta na sua boca”. A tradução de referência entende, na segunda versão, saber quando e como tratar cada assunto.
Rabi Yitzchak disse: Daqui se aprende: “Pois muito perto de ti está a palavra, na tua boca e no teu coração, para cumpri-la” (Devarim 30:14). Quando ela está perto de ti? No tempo em que está na tua boca e no teu coração, para cumpri-la.
O versículo é Devarim 30:14 (conferido). A guemará lê a ordem das palavras como condição: a Torá só está perto de quem a tem também na boca, isto é, de quem a pronuncia. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
Rava disse: Daqui se aprende: “O desejo do seu coração Tu lhe deste, e a areshet (a expressão) dos seus lábios não negaste, selá” (Tehilim 21:3). Quando “o desejo do seu coração Tu lhe deste”? No tempo em que, como diz o versículo, “a expressão dos seus lábios não negaste, selá”.
“Que a expressão” — isto é, o falar dos seus lábios “não negarás, selá”: quando lhe deste entendimento para o fazer sair (o estudo) pelos seus lábios.
O versículo é Tehilim 21:3 (conferido). Seguimos o Rashi, que explica “אֲרֶשֶׁת” como “ספירת”, o falar dos lábios, isto é, o estudo pronunciado; a tradução de referência traduz “o pedido dos seus lábios” e entende a conversa em palavras de Torá. O lema do Rashi inclui o “ש” de “בִּזְמַן שֶׁ”, e o Rashi parafraseia “בל תמנע”, no futuro, onde o versículo diz “בַּל מָנַעְתָּ”.
Rava contrapôs: Está escrito: “O desejo do seu coração Tu lhe deste”, e está escrito: “E a expressão dos seus lábios não negaste, selá” (no mesmo versículo)! Se mereceu, “o desejo do seu coração Tu lhe deste” (mesmo sem pedir); se não mereceu, “a expressão dos seus lábios não negaste, selá”.
“Mereceu” — isto é, se tem boa fortuna, “o desejo do seu coração Tu lhe deste”: enquanto ainda o deseja, o seu desejo lhe vem, antes mesmo que o peça.
“Não mereceu” — então precisa definhar e sofrer.
A contradição está entre o começo do versículo, onde basta o desejo do coração, e o fim, onde se fala do que os lábios exprimem. Segundo o Rashi, quem tem mérito recebe o que deseja antes mesmo de pedir; quem não tem precisa definhar e sofrer, e só então lhe é dado o que os lábios pedem. A tradução de referência entende que ao menos o pedido dos lábios não lhe é negado; o texto não diz quem responde à contradição, e a tradução de referência atribui a resposta ao próprio Rava.
Ensinou um sábio da escola de Rabi Eliezer ben Yaakov: Todo lugar em que se diz netzach (eternidade), selá ou va’ed (e para sempre), aquilo de que se fala não tem interrupção jamais. Netzach, como está escrito: “Pois não para sempre contenderei, nem para o netzach me irarei” (Yeshayahu 57:16).
“Pois não para sempre contenderei, nem para o netzach me irarei” — logo, “lanetzach” é linguagem de “para sempre”, já que está junto de “le’olam”; e assim também em “até sempre, selá”: logo, “selá” significa “para sempre”.
A guemará volta à palavra “selá” do versículo de Tehilim 21:3. O versículo é Yeshayahu 57:16 (conferido): segundo o Rashi, “לָנֶצַח” está em paralelo com “לְעוֹלָם”, “para sempre”, e daí se aprende o seu sentido; o Rashi já antecipa também a prova de “selá”, do bloco seguinte.
Selá, como está escrito: “Como ouvimos, assim vimos, na cidade do Eterno dos Exércitos, na cidade do nosso Deus; Deus a estabelecerá para sempre, selá” (Tehilim 48:9), onde “selá” vem junto de “para sempre”. Va’ed, como está escrito: “O Eterno reinará para sempre e eternamente (va’ed)” (Shemot 15:18).
Os versículos são Tehilim 48:9 e Shemot 15:18 (conferidos). A explicação de que “selá” vem junto de “para sempre” segue o Rashi do bloco anterior. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
Siman (sinal mnemônico): “Colares”; “as suas faces”; “tábuas”; “gravado”.
Disse Rabi Eliezer: O que significa o que está escrito: “E colares para a tua garganta” (Mishlei 1:9)? Se a pessoa faz a si mesma como este colar, que é frouxo no pescoço (sem apertá-lo), e é visto e não é visto, o seu estudo se mantém na sua mão (não o esquece); e, se não se faz assim, o seu estudo não se mantém na sua mão.
“Frouxo no pescoço” — isto é, o colar que não está apertado com aperto em volta do pescoço, mas frouxo, com folga; assim ele (o sábio) é agradável e aceito pelas pessoas.
“E é visto e não é visto” — quando a pessoa levanta o pescoço, o colar é visto debaixo da sua barba, e na maioria das vezes o seu queixo e a sua barba o cobrem; assim, se é um talmid chacham (sábio da Torá), não corre a sair e entrar no mercado, mas fica sentado e repassa o seu estudo, e este se mantém na sua mão.
Este segmento começa com um siman, entre parênteses no Sefaria, como o de Eruvin 53a (bloco 1855): uma sequência de palavras-chave para memorizar a ordem das tradições de Rabi Eliezer que se seguem. “Colares” lembra este bloco; “as suas faces”, o bloco 1910; “tábuas”, o bloco 1911; e “gravado”, o bloco 1912. No siman, “לְחָיָיו” está escrito com yod, e o versículo do bloco 1910 diz “לְחָיָו”. No Sefaria, o nome “(אֱלִיעֶזֶר)” está entre parênteses depois de “אָמַר רַבִּי”, marca de leitura a suprimir, sem o nome que o substitui; mantivemos o hebraico como está, e a tradução segue a tradução de referência e o bloco 1910, onde o nome aparece sem parênteses, e lê “Rabi Eliezer”. O versículo é Mishlei 1:9 (conferido). Segundo o Rashi, o colar frouxo é o sábio agradável, que não oprime os outros, e o colar escondido pela barba é o sábio que não anda pelo mercado, mas fica sentado repassando o estudo. “Na sua mão” é o modo hebraico de dizer que o estudo permanece com ele.
E disse Rabi Eliezer: O que significa o que está escrito: “As suas faces são como um canteiro de bálsamo” (Shir HaShirim 5:13)? Se a pessoa faz a si mesma como este canteiro de jardim, sobre o qual todos pisam, e se se faz como este bálsamo, com o qual todos se perfumam (e não só o seu dono), o seu estudo se mantém; e, se não se faz assim, o seu estudo não se mantém.
“Que todos pisam nele” — isto é, que não tem arrogância.
“Que todos se perfumam dele” — isto é, que ensina Torá aos alunos.
O versículo é Shir HaShirim 5:13 (conferido). Segundo o Rashi, ser como o canteiro que todos pisam é não ter arrogância, e ser como o bálsamo que perfuma a todos é ensinar Torá aos alunos. Os lemas do Rashi dizem “דשין אותו” e “מתבשמין ממנו”, no masculino, onde a guemará diz “בָּהּ”.
E disse Rabi Eliezer: O que significa o que está escrito: “Tábuas de pedra” (Shemot 31:18)? Se a pessoa faz a si mesma — as suas faces (lechayav) — como esta pedra, que não se desgasta (sob os pés que a pisam), o seu estudo se mantém na sua mão; e, se não se faz assim, o seu estudo não se mantém na sua mão.
“Como esta pedra, que não se desgasta” — por causa do pisar dos pés das pessoas; assim também as suas faces não se cansam de repassar o seu estudo e de ensinar aos outros.
A expressão “לֻחֹת אֶבֶן” está em Shemot 31:18 (conferido), e a guemará lê “לוּחוֹת”, “tábuas”, como “לְחָיָיו”, “as suas faces”, de som parecido. Segundo o Rashi, as faces que não se desgastam são as de quem não se cansa de repassar o estudo e de ensiná-lo; a tradução de referência fala de diligência. O lema do Rashi diz “נמחת”, e a guemará, “נִמְחֵית”. Também aqui o nome “(אֱלִיעֶזֶר)” está entre parênteses no Sefaria, marca de leitura a suprimir, sem o nome que o substitui; a tradução segue a tradução de referência, que lê “Rabi Eliezer”.
E disse Rabi Eliezer: O que significa o que está escrito: “Gravado sobre as tábuas” (Shemot 32:16)? Se as primeiras tábuas não se tivessem quebrado, a Torá não teria sido esquecida de Israel jamais.
“Não teria sido esquecida” — a palavra “gravado” significa entalhado, e nunca se apaga; por meio das tábuas, a Torá estaria entalhada para Israel de modo a não ser esquecida por eles jamais.
“Sobre as tábuas” — isto é, por causa das tábuas, os filhos de Israel seriam livres.
O versículo é Shemot 32:16 (conferido), “וְהַמִּכְתָּב מִכְתַּב אֱלֹהִים הוּא חָרוּת עַל הַלֻּחֹת”. Segundo o Rashi, o que está gravado não se apaga: se as primeiras tábuas tivessem permanecido, a Torá ficaria gravada em Israel para sempre. O segundo comentário do Rashi explica a exposição de Rav Acha bar Yaakov, no bloco seguinte, mas o Sefaria o liga a este segmento, e o mantemos aqui; ele diz “היו”, “eram”, que traduzimos como condicional, conforme o contexto. Também aqui o nome “(אֱלִיעֶזֶר)” está entre parênteses no Sefaria, marca de leitura a suprimir; a tradução segue a tradução de referência, que lê “Rabi Eliezer”.
Rav Acha bar Yaakov disse: Se as primeiras tábuas não se tivessem quebrado, nenhuma nação e língua dominaria sobre eles, pois está dito: “Gravado” (charut); não leias “charut”, mas cheirut (liberdade).
A oração em itálico retoma a condição do bloco anterior, como entende a tradução de referência. O hebraico diz literalmente “nenhuma nação e língua domina sobre eles”. A leitura “não leias ‘חָרוּת’, mas ‘חֵירוּת’” aparece também, com outra aplicação, em Pirkei Avot 6:2 (conferido). O Rashi a esta exposição está ligado, no Sefaria, ao segmento anterior (bloco 1912).
Disse Rav Matna: O que significa o que está escrito: “E do deserto, Matana (dádiva)” (Bamidbar 21:18)? Se a pessoa faz a si mesma como este deserto, sobre o qual todos pisam, o seu estudo se mantém na sua mão (como dádiva); e, se não se faz assim, o seu estudo não se mantém na sua mão.
“Do deserto, Matana” — se ele é como um deserto, a Torá lhe é dada como dádiva, e ele não a esquecerá.
O versículo é Bamidbar 21:18 (conferido): no seu contexto, Matana é uma etapa da viagem de Israel no deserto; Rav Matna a lê como “dádiva”. Segundo o Rashi, quem se faz humilde como o deserto recebe a Torá como dádiva e não a esquece.
Rava, filho de Rav Yossef bar Chama: Rav Yossef tinha uma milta (ressentimento) contra ele. Quando chegou a véspera de Yom Kipur, Rava disse: Irei e o apaziguarei. Foi, e encontrou o servente dele, que lhe estava misturando um copo (de vinho com água). Disse ao servente: Dá-mo, e eu o misturarei. Deu-lho, e ele o misturou. Quando Rav Yossef o provou, disse: Esta mistura se assemelha à mistura de Rava, filho de Rav Yossef bar Chama. Rava lhe disse: Sou eu.
“Milta” — quer dizer ira.
“Disse” — é Rava quem diz: Irei e apaziguarei Rav Yossef.
“Misturando” — isto é, com água.
Rav Yossef era cego e não o via (a Rava), e o reconheceu pelo gosto do vinho, sabendo que ele o tinha misturado, pois Rav Yossef conhecia desde antes a mistura de Rava, que era perito em pôr água na medida certa.
Rava, filho de Rav Yossef bar Chama, é o Rava conhecido do Talmud, aluno de Rav Yossef. “Milta”, literalmente “uma coisa”, é explicada pelo Rashi como “ira”. Como explica o Rashi, Rav Yossef era cego (“סגי נהור”, literalmente “de muita luz”, eufemismo) e reconheceu Rava pela medida da água no vinho; segundo o Rashi, Rava era perito em pôr a água na medida certa, enquanto a tradução de referência diz que ele punha água a mais. O último comentário do Rashi não tem lema no Sefaria.
Rav Yossef lhe disse: Não te sentarás sobre os teus joelhos até que me expliques estes versículos. O que significa o que está escrito: “E do deserto, Matana; e de Matana, Nachaliel; e de Nachaliel, Bamot (alturas); e de Bamot, o vale” (Bamidbar 21:18-20)?
Os versículos são Bamidbar 21:18-20 (conferidos): “וּמִמִּדְבָּר מַתָּנָה” fecha o versículo 18, “וּמִמַּתָּנָה נַחֲלִיאֵל וּמִנַּחֲלִיאֵל בָּמוֹת” é o versículo 19, e “וּמִבָּמוֹת הַגַּיְא” abre o versículo 20. “Não te sentarás sobre os teus joelhos” traduz literalmente “לָא תִּתֵּיב אַכַּרְעָיךְ”. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
Rava lhe disse: Se a pessoa faz a si mesma como este deserto, sobre o qual todos pisam, a Torá lhe é dada como dádiva (matana). E, uma vez que a Torá lhe foi dada como dádiva, Deus o toma por herança (nechalo El), pois está dito: “E de Matana, Nachaliel”. E, uma vez que Deus o tomou por herança, ele sobe à grandeza, pois está dito: “E de Nachaliel, Bamot”, que são as alturas.
Rava lê os nomes dos lugares como etapas: “מַתָּנָה”, dádiva; “נַחֲלִיאֵל”, lido como “נְחָלוֹ אֵל”, “Deus o tomou por herança”; e “בָּמוֹת”, as alturas, a grandeza. “Deus o toma por herança” traduz literalmente “נְחָלוֹ אֵל”; a tradução de referência entende “ele a herda, e Deus a faz Sua herança”. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
E, se ele ensoberbece o seu coração, o Santo, bendito seja, o rebaixa das alturas, pois está dito: “E de Bamot, o vale” (Bamidbar 21:20). E, se ele se arrepende, o Santo, bendito seja, o eleva de novo, pois está dito: “Todo vale será elevado” (Yeshayahu 40:4).
“Todo vale será elevado” — embora não esteja escrito junto a estes versículos, expõem-no aqui: quem chegou a ser um vale, que foi rebaixado, volta e se eleva.
Os versículos são Bamidbar 21:20 e Yeshayahu 40:4 (conferidos). Como observa o Rashi, o versículo de Yeshayahu não pertence à sequência de Bamidbar, mas é trazido para completar a exposição: quem foi rebaixado e se arrepende volta a ser elevado. “Se ele se arrepende” traduz “חוֹזֵר בּוֹ”, literalmente “volta atrás”.
Disse Rav Huna: O que significa o que está escrito: “As tuas feras (chayatecha) habitaram nela; preparas na Tua bondade para o pobre, ó Deus” (Tehilim 68:11)? Se a pessoa faz a si mesma como esta fera (chayá), que despedaça a presa e come — e há quem diga: que a suja na lama e come —, o seu estudo se mantém na sua mão; e, se não se faz assim, o seu estudo não se mantém na sua mão. E, se faz assim, o Santo, bendito seja, lhe faz um banquete Ele mesmo, pois está dito: “Preparas na Tua bondade para o pobre, ó Deus” (no mesmo versículo).
“Que despedaça e come” — come logo depois de matar a presa; assim é quem não é exigente quanto a iguarias, mas come carne sem tempero, e assim também quanto aos demais prazeres.
“Que suja” — a comida na lama; isto é, quem não vai atrás da altivez a ponto de se enojar da sua comida, se não foi cozida o quanto precisa. Outra versão: “que despedaça e come” quer dizer: depois de matar a presa, come logo; assim o talmid chacham repassa o seu estudo logo que o recebe do seu mestre; e “que suja” quer dizer que ele se rebaixa pelas palavras da Torá. Esta versão parece correta aos meus olhos, porque encontramos em todo o Shas (o Talmud) que o costume dos sábios é ser exigentes com a sua comida, por grandeza e honra, e com as suas roupas, como está escrito: “E os que Me odeiam amam a morte” (Mishlei 8:36).
“Para o pobre” — isto é, para este que faz a si mesmo como pobre; e, segundo a última versão, que faz a si mesmo como pobre para correr atrás dela (da Torá).
O versículo é Tehilim 68:11 (conferido); a guemará lê “חַיָּתְךָ” como “a fera”, e “o pobre” como quem se faz pobre e humilde pela Torá. O Rashi traz duas explicações e prefere a segunda: a fera que despedaça e come logo é o sábio que repassa o estudo logo que o recebe do mestre, e a que suja a comida é quem se rebaixa pela Torá; a primeira, a de quem não é exigente com a comida, não lhe parece correta, porque os sábios costumam ser exigentes com a comida e com as roupas, por honra. O versículo que o Rashi cita é Mishlei 8:36 (conferido), que diz “כׇּל מְשַׂנְאַי אָהֲבוּ מָוֶת”, “todos os que Me odeiam amam a morte”, onde o Rashi lê “ולמשנאי”; é o versículo exposto em Shabat 114a (conferido) sobre o sábio que tem uma mancha na roupa. A tradução de referência combina as explicações: o sábio que repassa logo o que ouviu, ou que não se preocupa com a própria honra durante o estudo. “Para correr atrás dela” traduz “לחזר עליה”, que também pode querer dizer “para repassá-la”.
Disse Rabi Chiya bar Abba, disse Rabi Yochanan: O que significa o que está escrito: “Quem guarda a figueira comerá o seu fruto” (Mishlei 27:18)? Por que as palavras da Torá foram comparadas à figueira? Porque, assim como esta figueira…
“Figueira” — isto é, a árvore.
O versículo é Mishlei 27:18 (conferido). Segundo o Rashi, “figueira” é a árvore, e não o fruto. O ensinamento fica no meio e continua em Eruvin 54b.