Talmud Bavli · Massechet Eruvin · Perek Heh (Keitzad Meabrin) · 54a
כֵּיצַד מְעַבְּרִין

Beruria e o estudo em voz alta; a Torá, cura para todo o corpo; netzach, selá, va’ed; do deserto a Matana: Rava e Rav Yossef

Eruvin 54a — Perek Heh (Keitzad Meabrin, Eruvin 52b:16-61b:10) · Beruria: “ordenada em tudo e guardada”, Shmuel II 23:5 · o aluno de Rabi Eliezer que estudava em sussurro e esqueceu · o aluno passível de queima: “a um grande homem ele serviu” · Shmuel a Rav Yehuda: “Shinena, abre a tua boca”; “agarra e come, agarra e bebe” · Rav a Rav Hamnuna: as ervas do campo · Rabi Yehoshua ben Levi: sem companhia, cabeça, garganta, entranhas, ossos, todo o corpo · Rav Yehuda, filho de Rabi Chiya: remédio de vida · Rav Ami, Rabi Zeira, Rabi Yitzchak e Rava: a Torá na boca · Rava contrapõe: mereceu, não mereceu · a escola de Rabi Eliezer ben Yaakov: netzach, selá, va’ed · siman; Rabi Eliezer: colares, faces, tábuas, gravado · Rav Acha bar Yaakov: charut, cheirut · Rav Matna: “e do deserto, Matana” · Rava e Rav Yossef na véspera de Yom Kipur · Rav Huna: a fera e o pobre · Rabi Chiya bar Abba: a figueira · continua de Eruvin 53b; continua em Eruvin 54b

O daf continua a história de Beruria, que repreende o aluno que estudava em sussurro com o versículo “ordenada em tudo e guardada”: a Torá só se guarda quando está ordenada nos duzentos e quarenta e oito membros; uma baraita conta que um aluno de Rabi Eliezer, que estudava em voz baixa, esqueceu tudo depois de três anos, e outra lembra um aluno seu poupado por ter servido a um grande homem. Shmuel ensina a Rav Yehuda a abrir a boca para ler e estudar, e a desfrutar enquanto pode, pois o mundo passa como uma festa de casamento; Rav diz o mesmo a Rav Hamnuna. Rabi Yehoshua ben Levi ensina que a Torá acompanha quem viaja e cura cada parte do corpo, e Rav Yehuda, filho de Rabi Chiya, a chama remédio de vida. Rav Ami, Rabi Zeira, Rabi Yitzchak e Rava mostram por versículos que a Torá precisa estar nos lábios; Rava contrapõe o desejo do coração e a expressão dos lábios, e a escola de Rabi Eliezer ben Yaakov ensina que netzach, selá e va’ed significam “para sempre”. Seguem, com um siman, as exposições de Rabi Eliezer sobre os colares, as faces, as tábuas de pedra e o “gravado sobre as tábuas”, a de Rav Acha bar Yaakov sobre a liberdade, e a de Rav Matna sobre o deserto e a dádiva, que Rava desenvolve diante de Rav Yossef na véspera de Yom Kipur. O daf termina com Rav Huna, a fera e o pobre, e com o começo do ensinamento de Rabi Yochanan sobre a figueira.

Beruria e o estudo em voz alta · עֲרוּכָה בַכֹּל

1894Ordenada em tudo e guardada
A guemará
בְּטַשָׁה בֵּיהּ, אֲמַרָה לֵיהּ: לֹא כָּךְ כָּתוּב ״עֲרוּכָה בַכֹּל וּשְׁמוּרָה״, אִם עֲרוּכָה בִּרְמַ״ח אֵבָרִים שֶׁלְּךָ — מִשְׁתַּמֶּרֶת, וְאִם לָאו — אֵינָהּ מִשְׁתַּמֶּרֶת. תָּנָא: תַּלְמִיד אֶחָד הָיָה לְרַבִּי אֱלִיעֶזֶר שֶׁהָיָה שׁוֹנֶה בְּלַחַשׁ, לְאַחַר שָׁלֹשׁ שָׁנִים שָׁכַח תַּלְמוּדוֹ.

Ela deu-lhe um pontapé e disse-lhe: Não está escrito assim: “Ordenada em tudo e guardada” (Shmuel II 23:5)? Se a Torá estiver ordenada nos teus duzentos e quarenta e oito membros, ela se guarda; e, se não, não se guarda. Foi ensinado numa baraita: Rabi Eliezer tinha um aluno que repetia o seu estudo em sussurro; depois de três anos, esqueceu o seu estudo.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “betashá beh”
בטשה ביה - בעטה בו:

“Deu-lhe um pontapé” — isto é, chutou-o.

Nota

A história continua de Eruvin 53b (bloco 1893), onde Beruria encontra um aluno que estudava em sussurro; “ela” é Beruria. O versículo é Shmuel II 23:5 (conferido), “עֲרוּכָה בַכֹּל וּשְׁמֻרָה”, dito no seu contexto da aliança eterna feita com David; Beruria o lê como dito da Torá: só quando está “ordenada” em todos os duzentos e quarenta e oito membros do corpo, isto é, quando o estudo envolve o corpo inteiro e é feito em voz alta, ela se “guarda” na memória. A guemará escreve “וּשְׁמוּרָה”, com vav, onde o versículo traz “וּשְׁמֻרָה”. A baraita sobre o aluno de Rabi Eliezer confirma a lição: quem estuda em sussurro esquece. “Repetia o seu estudo” traduz “שׁוֹנֶה”, o estudo pela repetição; o Rashi explica “בְּטַשָׁה” por “בעטה”, “deu um pontapé”.

1895Deixai-o: a um grande homem ele serviu
A guemará
תָּנָא, תַּלְמִיד אֶחָד הָיָה לוֹ לְרַבִּי אֱלִיעֶזֶר שֶׁנִּתְחַיֵּיב בִּשְׂרֵיפָה לַמָּקוֹם. אָמְרוּ: הַנִּיחוּ לוֹ אָדָם גָּדוֹל שִׁמֵּשׁ.

Foi ensinado numa baraita: Rabi Eliezer tinha um aluno que se tornou passível de srefá (a morte por queima) perante o Makom (o Onipresente). Disseram: Deixai-o; a um grande homem ele serviu.

Nota

A guemará traz esta baraita por associação com a anterior, que também fala de um aluno de Rabi Eliezer. O texto não diz qual foi o pecado nem quem disse “deixai-o”; a tradução de referência entende que ele pecou contra Deus e que os sábios não lhe aplicaram o castigo, pelo mérito de ter servido a um grande homem, Rabi Eliezer. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1896Shmuel a Rav Yehuda: abre a tua boca
A guemará
אֲמַר לֵיהּ שְׁמוּאֵל לְרַב יְהוּדָה: שִׁינָּנָא, פְּתַח פּוּמָּיךְ קְרִי, פְּתַח פּוּמָּיךְ תְּנִי, כִּי הֵיכִי דְּתִתְקַיַּים בָּיךְ וְתוֹרִיךְ חַיֵּי, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי חַיִּים הֵם לְמֹצְאֵיהֶם וּלְכׇל בְּשָׂרוֹ מַרְפֵּא״, אַל תִּקְרֵי ״לְמֹצְאֵיהֶם״ אֶלָּא ״לְמוֹצִיאֵיהֶם בַּפֶּה״.

Disse Shmuel a Rav Yehuda: Shinena (perspicaz), abre a tua boca, lê (a Escritura); abre a tua boca, estuda (a Mishná), para que o estudo se mantenha em ti e prolongues a tua vida; pois está dito: “Pois são vida para os que as encontram, e para toda a sua carne, cura” (Mishlei 4:22). Não leias “para os que as encontram” (lemotzeihem), mas “para os que as fazem sair” (lemotzi’eihem) pela boca.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “torich chayei”
תוריך חיי - שתאריך ימים:

“E prolongues a vida” — isto é, que prolongues os teus dias.

Nota

Como Beruria, Shmuel ensina que o estudo deve ser feito em voz alta. “Shinena” é o apelido com que Shmuel chama Rav Yehuda, o seu aluno; costuma ser entendido como “perspicaz”, e a tradução de referência traduz “keen scholar”. “Lê” (“קְרִי”) se refere à leitura da Escritura, e “estuda” (“תְּנִי”) ao estudo da Mishná. O versículo é Mishlei 4:22 (conferido), “כִּי חַיִּים הֵם לְמֹצְאֵיהֶם”; a guemará lê “לְמֹצְאֵיהֶם”, “os que as encontram”, como “לְמוֹצִיאֵיהֶם”, “os que as fazem sair” pela boca. O Rashi explica “וְתוֹרִיךְ חַיֵּי” como “que prolongues os dias”.

1897Agarra e come, agarra e bebe
A guemará
אֲמַר לֵיהּ שְׁמוּאֵל לְרַב יְהוּדָה: שִׁינָּנָא, חֲטוֹף וֶאֱכוֹל חֲטוֹף וְאִישְׁתִּי, דְּעָלְמָא דְּאָזְלִינַן מִינֵּיהּ כְּהִלּוּלָא דָּמֵי.

Disse Shmuel a Rav Yehuda: Shinena, agarra e come, agarra e bebe enquanto podes, pois este mundo, do qual nos vamos, se assemelha a uma hilula (festa de casamento).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “chatof achol”
חטוף אכול - אם יש לך ממון להנות עצמך אל תמתין עד למחר שמא תמות ושוב אין לך הנאה:

“Agarra e come” — se tens dinheiro com que dar prazer a ti mesmo, não esperes até amanhã, pois talvez morras, e então já não terás prazer.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “de’alma de’azlinan mineh”
דעלמא דאזלינן מיניה - גרסינן:

“Pois o mundo do qual nos vamos” — assim lemos o texto.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “kehilula dami”
כהלולא דמי - היום ישנו ולמחר איננו דומה לחופה שהולכת מהר:

“Se assemelha a uma hilula” — o mundo hoje existe, e amanhã não existe; é semelhante a uma chupá (a festa nupcial), que passa depressa.

Nota

Segundo o Rashi, Shmuel aconselha quem tem dinheiro a desfrutar dele sem adiar, pois a vida passa depressa como uma festa de casamento. “Enquanto podes” completa a frase segundo o Rashi. No segundo comentário, o Rashi apenas confirma a leitura “דְּעָלְמָא דְּאָזְלִינַן מִינֵּיהּ” (“גרסינן”, “assim lemos”), sem dizer qual leitura rejeita. O lema do primeiro comentário diz “חטוף אכול”, sem o vav da guemará.

1898Rav a Rav Hamnuna: as ervas do campo
A guemará
אֲמַר לֵיהּ רַב לְרַב הַמְנוּנָא: בְּנִי אִם יֵשׁ לָךְ — הֵיטֵב לָךְ, שֶׁאֵין בַּשְּׁאוֹל תַּעֲנוּג, וְאֵין לַמָּוֶת הִתְמַהְמֵהַּ. וְאִם תֹּאמַר אַנִּיחַ לְבָנַי — חוֹק בַּשְּׁאוֹל מִי יַגִּיד לָךְ: בְּנֵי הָאָדָם דּוֹמִים לְעִשְׂבֵי הַשָּׂדֶה הַלָּלוּ נוֹצְצִין וְהַלָּלוּ נוֹבְלִין.

Disse Rav a Rav Hamnuna: Meu filho, se tens dinheiro, faze o bem a ti mesmo, pois não há deleite no Sheol (o mundo dos mortos), e a morte não tarda. E, se disseres: Deixarei o dinheiro para os meus filhos — o chok (o sustento) que lhes deixas, quando estiveres no Sheol, quem te dirá se ficou nas mãos deles? Os filhos do homem se assemelham às ervas do campo: estas florescem, e aquelas murcham.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “im yesh lach”
אם יש לך - ממון:

“Se tens” — isto é, dinheiro.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ve’ein lamavet hitmahmea”
ואין למות התמהמה - עיכוב כי פתאום האדם מת:

“E a morte não tarda” — “tardar” é demora; pois de repente a pessoa morre.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “chok”
חוק - מזון:

“Chok” — quer dizer sustento.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “mi yaguid lach”
מי יגיד לך - אם נשאר בידם שמא יאבדוהו:

“Quem te dirá” — se o dinheiro ficou nas mãos deles? Talvez o percam.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “halalu notzetzin”
הללו נוצצין - כלומר כשהן גדילין גדילה פרנסתן ועושרן עמהן ואינך צריך להדאג עליהן:

“Estas florescem” — isto é, os filhos, quando crescem, o seu sustento e a sua riqueza crescem com eles, e não precisas te preocupar com eles.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “vehalalu novlin”
והללו נובלין - מתים לשון והעלה נבל:

“E aquelas murcham” — isto é, morrem; é linguagem de “e a folha murchou” (Yirmeyahu 8:13).

Nota

Seguimos o Rashi, que lê “חוֹק” como “sustento” (“מזון”): o dinheiro deixado aos filhos pode se perder, e quem já está no Sheol não saberá o que foi feito dele; além disso, os filhos são como as ervas, uns crescem e trazem consigo o seu sustento, outros morrem antes do tempo. A tradução de referência, seguindo o Aruch, traduz “quem te disse a lei do mundo dos mortos”, isto é, quem sabe quem morrerá primeiro. O versículo citado pelo Rashi é Yirmeyahu 8:13 (conferido), “וְהֶעָלֶה נָבֵל”. Estas palavras de Rav lembram de perto uma passagem do livro de Ben Sira.

A Torá, cura para todo o corpo · לִוְיַת חֵן

1899Quem anda pelo caminho sem companhia
A guemará
אָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי: הַמְהַלֵּךְ בַּדֶּרֶךְ וְאֵין עִמּוֹ לְוָיָיה — יַעֲסוֹק בַּתּוֹרָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי לִוְיַת חֵן הֵם״.

Disse Rabi Yehoshua ben Levi: Quem anda pelo caminho e não tem consigo levayá (companhia), que se ocupe com a Torá, pois está dito: “Pois são uma grinalda (livyat) de graça” (Mishlei 1:9).

Nota

O versículo é Mishlei 1:9 (conferido), “כִּי לִוְיַת חֵן הֵם לְרֹאשֶׁךָ וַעֲנָקִים לְגַרְגְּרֹתֶךָ”, dito das palavras da Torá. A guemará lê “לִוְיַת”, “grinalda”, como “לְוָיָה”, “companhia”: as palavras da Torá acompanham quem viaja sozinho. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1900Cabeça, garganta, entranhas, ossos e todo o corpo
A guemará
חָשׁ בְּרֹאשׁוֹ — יַעֲסוֹק בְּתוֹרָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי לִוְיַת חֵן הֵם לְרֹאשֶׁךָ״. חָשׁ בִּגְרוֹנוֹ — יַעֲסוֹק בַּתּוֹרָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַעֲנָקִים לְגַרְגְּרוֹתֶיךָ״. חָשׁ בְּמֵעָיו — יַעֲסוֹק בַּתּוֹרָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״רִפְאוּת תְּהִי לְשָׁרֶּךָ״. חָשׁ בְּעַצְמוֹתָיו — יַעֲסוֹק בַּתּוֹרָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְשִׁקּוּי לְעַצְמוֹתֶיךָ״. חָשׁ בְּכׇל גּוּפוֹ — יַעֲסוֹק בַּתּוֹרָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּלְכׇל בְּשָׂרוֹ מַרְפֵּא״.

Quem sente dor na cabeça, que se ocupe com a Torá, pois está dito: “Pois são uma grinalda de graça para a tua cabeça” (Mishlei 1:9). Quem sente dor na garganta, que se ocupe com a Torá, pois está dito: “E colares para a tua garganta” (ibidem). Quem sente dor nas entranhas, que se ocupe com a Torá, pois está dito: “Será cura para o teu umbigo” (Mishlei 3:8). Quem sente dor nos ossos, que se ocupe com a Torá, pois está dito: “E refrigério para os teus ossos” (ibidem). Quem sente dor em todo o corpo, que se ocupe com a Torá, pois está dito: “E para toda a sua carne, cura” (Mishlei 4:22).

Nota

Os versículos são Mishlei 1:9, Mishlei 3:8 e Mishlei 4:22 (conferidos). “Garganta” traduz “גְּרוֹנוֹ”, e o versículo diz “לְגַרְגְּרֹתֶךָ”; “umbigo” traduz “לְשָׁרֶּךָ”, que a guemará aplica às entranhas; “refrigério” traduz “שִׁקּוּי”, literalmente “bebida”, que a tradução de referência traduz por “medula”. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1901Rav Yehuda, filho de Rabi Chiya: um remédio de vida
A guemará
אָמַר רַב יְהוּדָה בְּרַבִּי חִיָּיא: בֹּא וּרְאֵה, שֶׁלֹּא כְּמִדַּת הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא מִדַּת בָּשָׂר וְדָם. מִדַּת בָּשָׂר וָדָם: אָדָם נוֹתֵן סַם לַחֲבֵירוֹ — לָזֶה יָפֶה, וְלָזֶה קָשֶׁה. אֲבָל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא אֵינוֹ כֵּן: נָתַן תּוֹרָה לְיִשְׂרָאֵל — סַם חַיִּים לְכׇל גּוּפוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּלְכׇל בְּשָׂרוֹ מַרְפֵּא״.

Disse Rav Yehuda, filho de Rabi Chiya: Vem e vê que não é como a medida do Santo, bendito seja, a medida da carne e sangue. A medida da carne e sangue é esta: uma pessoa dá um sam (remédio) ao seu companheiro, e ele é bom para esta doença e nocivo para aquela. Mas o Santo, bendito seja, não é assim na Sua medida: deu a Torá a Israel, e ela é remédio de vida para todo o seu corpo, pois está dito: “E para toda a sua carne, cura” (Mishlei 4:22).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “yafé”
יפה - לחולי זה וקשה לחולי זה יפה ללב ורע לעינים:

“Bom” — isto é, para esta doença, e nocivo para aquela; por exemplo, bom para o coração e ruim para os olhos.

Nota

“Medida” traduz “מִדָּה”, o modo de agir; “carne e sangue” é o ser humano. “Esta doença” completa a frase segundo o Rashi; a tradução de referência entende “bom para uma parte do corpo e nocivo para outra”. O versículo é Mishlei 4:22 (conferido), já citado no bloco 1896.

Na boca e no coração · יִכֹּנוּ יַחְדָּו עַל שְׂפָתֶיךָ

1902Rav Ami: quando são agradáveis as palavras da Torá
A guemará
אָמַר רַב אַמֵּי: מַאי דִּכְתִיב ״כִּי נָעִים כִּי תִשְׁמְרֵם בְּבִטְנֶךָ יִכּוֹנוּ יַחְדָּיו עַל שְׂפָתֶיךָ״, אֵימָתַי דִּבְרֵי תוֹרָה נְעִימִים — בִּזְמַן שֶׁתִּשְׁמְרֵם בְּבִטְנֶךָ, וְאֵימָתַי תִּשְׁמְרֵם בְּבִטְנֶךָ — בִּזְמַן שֶׁיִּכּוֹנוּ יַחְדָּו עַל שְׂפָתֶיךָ.

Disse Rav Ami: O que significa o que está escrito: “Pois é agradável se os guardares (as palavras dos sábios) no teu ventre; que estejam firmes (yikonu) juntos sobre os teus lábios” (Mishlei 22:18)? Quando as palavras da Torá são agradáveis? No tempo em que as guardas no teu ventre (dentro de ti). E quando as guardas no teu ventre? No tempo em que estejam firmes juntas sobre os teus lábios (quando as pronuncias).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “shetishmerem bevitnecha”
שתשמרם בבטנך - שהן שמורים בידך שאין משתכחין ממך:

“Que as guardes no teu ventre” — isto é, que estejam guardadas na tua mão, de modo que não se esqueçam de ti.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “yikonu yachad”
יכונו יחד - שאתה סודרן ומוציאן בפה ולא בגימגום ובלחישה:

“Estejam firmes juntas” — isto é, que tu as ordenas e as fazes sair pela boca, e não com gaguejo nem em sussurro.

Nota

O versículo é Mishlei 22:18 (conferido), “כִּי נָעִים כִּי תִשְׁמְרֵם בְּבִטְנֶךָ יִכֹּנוּ יַחְדָּו עַל שְׂפָתֶיךָ”. A guemará o lê como uma cadeia: as palavras da Torá só são agradáveis quando guardadas na memória, e só se guardam quando são pronunciadas; segundo o Rashi, “firmes juntas sobre os lábios” quer dizer pronunciá-las em ordem, sem gaguejar e sem sussurrar, como no caso do aluno repreendido por Beruria. Na primeira citação, a guemará escreve “יַחְדָּיו”, e o versículo, “יַחְדָּו”; o lema do Rashi diz “יחד”.

1903Rabi Zeira: alegria na resposta da boca
A guemará
רַבִּי זֵירָא אָמַר מֵהָכָא: ״שִׂמְחָה לָאִישׁ בְּמַעֲנֵה פִיו וְדָבָר בְּעִתּוֹ מַה טּוֹב״, אֵימָתַי שִׂמְחָה לָאִישׁ — בִּזְמַן שֶׁמַּעֲנֶה בְּפִיו. לָשׁוֹן אַחֵר: אֵימָתַי שִׂמְחָה לָאִישׁ בְּמַעֲנֵה פִיו — בִּזְמַן שֶׁדָּבָר בְּעִתּוֹ מַה טּוֹב.

Rabi Zeira disse: Daqui se aprende: “Alegria para o homem na resposta da sua boca; e uma palavra no seu tempo, quão boa!” (Mishlei 15:23). Quando há alegria para o homem? No tempo em que há resposta na sua boca. Outra versão: Quando há alegria para o homem na resposta da sua boca? No tempo em que nele se cumpre: “Uma palavra no seu tempo, quão boa!”.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “eimatai simchá vechu’ bizman”
אימתי שמחה וכו' בזמן - שיודע לדרוש הלכות חג בחג דבר אחר אימתי שמחה לאיש אימתי אדם שמח בתלמודו בזמן שיש לו מענה כששואלין ממנו דבר הלכה:

“Quando há alegria etc. No tempo” — isto é, quando sabe expor as leis da festa na festa. Outra explicação: “Quando há alegria para o homem” significa: quando a pessoa se alegra no seu estudo? No tempo em que tem resposta quando lhe perguntam um assunto de halachá.

Nota

O versículo é Mishlei 15:23 (conferido). O comentário do Rashi parece trazer as duas versões em ordem inversa: a primeira explicação, saber expor as leis da festa na própria festa, corresponde a “uma palavra no seu tempo”; a segunda, ter resposta quando lhe perguntam halachá, corresponde a “resposta na sua boca”. A tradução de referência entende, na segunda versão, saber quando e como tratar cada assunto.

1904Rabi Yitzchak: na tua boca e no teu coração
A guemará
רַבִּי יִצְחָק אָמַר מֵהָכָא: ״כִּי קָרוֹב אֵלֶיךָ הַדָּבָר מְאֹד בְּפִיךָ וּבִלְבָבְךָ לַעֲשׂוֹתוֹ״, אֵימָתַי קָרוֹב אֵלֶיךָ — בִּזְמַן שֶׁבְּפִיךָ וּבִלְבָבְךָ לַעֲשׂוֹתוֹ.

Rabi Yitzchak disse: Daqui se aprende: “Pois muito perto de ti está a palavra, na tua boca e no teu coração, para cumpri-la” (Devarim 30:14). Quando ela está perto de ti? No tempo em que está na tua boca e no teu coração, para cumpri-la.

Nota

O versículo é Devarim 30:14 (conferido). A guemará lê a ordem das palavras como condição: a Torá só está perto de quem a tem também na boca, isto é, de quem a pronuncia. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1905Rava: o desejo do coração e a expressão dos lábios
A guemará
רָבָא אָמַר מֵהָכָא: ״תַּאֲוַת לִבּוֹ נָתַתָּה לּוֹ וַאֲרֶשֶׁת שְׂפָתָיו בַּל מָנַעְתָּ סֶּלָה״, אֵימָתַי תַּאֲוַת לִבּוֹ נָתַתָּה לּוֹ — בִּזְמַן שֶׁאֲרֶשֶׁת שְׂפָתָיו בַּל מָנַעְתָּ סֶּלָה.

Rava disse: Daqui se aprende: “O desejo do seu coração Tu lhe deste, e a areshet (a expressão) dos seus lábios não negaste, selá” (Tehilim 21:3). Quando “o desejo do seu coração Tu lhe deste”? No tempo em que, como diz o versículo, “a expressão dos seus lábios não negaste, selá”.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “she’areshet”
שארשת - ספירת שפתיו בל תמנע סלה כשנתת בו דעת להוציא בשפתיו:

“Que a expressão” — isto é, o falar dos seus lábios “não negarás, selá”: quando lhe deste entendimento para o fazer sair (o estudo) pelos seus lábios.

Nota

O versículo é Tehilim 21:3 (conferido). Seguimos o Rashi, que explica “אֲרֶשֶׁת” como “ספירת”, o falar dos lábios, isto é, o estudo pronunciado; a tradução de referência traduz “o pedido dos seus lábios” e entende a conversa em palavras de Torá. O lema do Rashi inclui o “ש” de “בִּזְמַן שֶׁ”, e o Rashi parafraseia “בל תמנע”, no futuro, onde o versículo diz “בַּל מָנַעְתָּ”.

1906Rava contrapõe: mereceu, não mereceu
A guemará
רָבָא רָמֵי: כְּתִיב ״תַּאֲוַת לִבּוֹ נָתַתָּה לּוֹ״. וּכְתִיב ״וַאֲרֶשֶׁת שְׂפָתָיו בַּל מָנַעְתָּ סֶּלָה״. זָכָה — תַּאֲוַת לִבּוֹ נָתַתָּה לוֹ. לֹא זָכָה — וַאֲרֶשֶׁת שְׂפָתָיו בַּל מָנַעְתָּ סֶּלָה.

Rava contrapôs: Está escrito: “O desejo do seu coração Tu lhe deste”, e está escrito: “E a expressão dos seus lábios não negaste, selá” (no mesmo versículo)! Se mereceu, “o desejo do seu coração Tu lhe deste” (mesmo sem pedir); se não mereceu, “a expressão dos seus lábios não negaste, selá”.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “zachá”
זכה - אם יש לו מזל טוב תאות לבו נתת לו שבעוד שהוא מתאוה באה לו תאותו עד שלא ישאלנה:

“Mereceu” — isto é, se tem boa fortuna, “o desejo do seu coração Tu lhe deste”: enquanto ainda o deseja, o seu desejo lhe vem, antes mesmo que o peça.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “lo zachá”
לא זכה - צריך להתמקמק ולהצטער:

“Não mereceu” — então precisa definhar e sofrer.

Nota

A contradição está entre o começo do versículo, onde basta o desejo do coração, e o fim, onde se fala do que os lábios exprimem. Segundo o Rashi, quem tem mérito recebe o que deseja antes mesmo de pedir; quem não tem precisa definhar e sofrer, e só então lhe é dado o que os lábios pedem. A tradução de referência entende que ao menos o pedido dos lábios não lhe é negado; o texto não diz quem responde à contradição, e a tradução de referência atribui a resposta ao próprio Rava.

Netzach, selá, va’ed · נֶצַח סֶלָה וָעֶד

1907Netzach, selá, va’ed: não há interrupção jamais
A guemará
תָּנָא דְּבֵי רַבִּי אֱלִיעֶזֶר בֶּן יַעֲקֹב: כׇּל מָקוֹם שֶׁנֶּאֱמַר ״נֶצַח״ ״סֶלָה״ ״וָעֶד״ — אֵין לוֹ הֶפְסֵק עוֹלָמִית. נֶצַח, דִּכְתִיב: ״כִּי לֹא לְעוֹלָם אָרִיב וְלֹא לָנֶצַח אֶקְּצוֹף״.

Ensinou um sábio da escola de Rabi Eliezer ben Yaakov: Todo lugar em que se diz netzach (eternidade), selá ou va’ed (e para sempre), aquilo de que se fala não tem interrupção jamais. Netzach, como está escrito: “Pois não para sempre contenderei, nem para o netzach me irarei” (Yeshayahu 57:16).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ki lo le’olam ariv velo lanetzach ektzof”
כי לא לעולם אריב ולא לנצח אקצוף - אלמא לנצח לשון עולם הוא מדסמיך ליה וכן עד עולם סלה אלמא סלה לשון לעולם משמע:

“Pois não para sempre contenderei, nem para o netzach me irarei” — logo, “lanetzach” é linguagem de “para sempre”, já que está junto de “le’olam”; e assim também em “até sempre, selá”: logo, “selá” significa “para sempre”.

Nota

A guemará volta à palavra “selá” do versículo de Tehilim 21:3. O versículo é Yeshayahu 57:16 (conferido): segundo o Rashi, “לָנֶצַח” está em paralelo com “לְעוֹלָם”, “para sempre”, e daí se aprende o seu sentido; o Rashi já antecipa também a prova de “selá”, do bloco seguinte.

1908Selá e va’ed
A guemará
סֶלָה, דִּכְתִיב: ״כַּאֲשֶׁר שָׁמַעְנוּ כֵּן רָאִינוּ בְּעִיר ה׳ צְבָאוֹת בְּעִיר אֱלֹהֵינוּ אֱלֹהִים יְכוֹנְנֶהָ עַד עוֹלָם סֶלָה״. וָעֶד, דִּכְתִיב: ״ה׳ יִמְלוֹךְ לְעוֹלָם וָעֶד״.

Selá, como está escrito: “Como ouvimos, assim vimos, na cidade do Eterno dos Exércitos, na cidade do nosso Deus; Deus a estabelecerá para sempre, selá” (Tehilim 48:9), onde “selá” vem junto de “para sempre”. Va’ed, como está escrito: “O Eterno reinará para sempre e eternamente (va’ed)” (Shemot 15:18).

Nota

Os versículos são Tehilim 48:9 e Shemot 15:18 (conferidos). A explicação de que “selá” vem junto de “para sempre” segue o Rashi do bloco anterior. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

Para que o estudo se mantenha na mão · תַּלְמוּדוֹ מִתְקַיֵּים

1909Siman; Rabi Eliezer: como o colar no pescoço
A guemará
(סִימָן: ״עֲנָקִים״ ״לְחָיָיו״ ״לוּחוֹת״ ״חָרוּת״). אָמַר רַבִּי (אֱלִיעֶזֶר): מַאי דִּכְתִיב ״וַעֲנָקִים לְגַרְגְּרוֹתֶיךָ״, אִם מֵשִׂים אָדָם עַצְמוֹ כַּעֲנָק זֶה שֶׁרָף עַל הַצַּוָּאר וְנִרְאֶה וְאֵינוֹ נִרְאֶה — תַּלְמוּדוֹ מִתְקַיֵּים בְּיָדוֹ. וְאִם לָאו — אֵין תַּלְמוּדוֹ מִתְקַיֵּים בְּיָדוֹ.

Siman (sinal mnemônico): “Colares”; “as suas faces”; “tábuas”; “gravado”.

Disse Rabi Eliezer: O que significa o que está escrito: “E colares para a tua garganta” (Mishlei 1:9)? Se a pessoa faz a si mesma como este colar, que é frouxo no pescoço (sem apertá-lo), e é visto e não é visto, o seu estudo se mantém na sua mão (não o esquece); e, se não se faz assim, o seu estudo não se mantém na sua mão.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “saruf latzavar”
שרף לצואר - שאינו מצומצם בדוחק סביב הצואר אלא שרפוי בריוח כך הוא נעים ומרוצה לבריות:

“Frouxo no pescoço” — isto é, o colar que não está apertado com aperto em volta do pescoço, mas frouxo, com folga; assim ele (o sábio) é agradável e aceito pelas pessoas.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “venireh ve’eino nireh”
ונראה ואינו נראה - כשמגביה צוארו נראה מתחת זקנו ורוב פעמים שסנטרו וזקנו מכסין אותו כך אם תלמיד חכם הוא אינו רודף לצאת ולבא בשוק אלא יושב ומחזר על תלמודו מתקיים בידו:

“E é visto e não é visto” — quando a pessoa levanta o pescoço, o colar é visto debaixo da sua barba, e na maioria das vezes o seu queixo e a sua barba o cobrem; assim, se é um talmid chacham (sábio da Torá), não corre a sair e entrar no mercado, mas fica sentado e repassa o seu estudo, e este se mantém na sua mão.

Nota

Este segmento começa com um siman, entre parênteses no Sefaria, como o de Eruvin 53a (bloco 1855): uma sequência de palavras-chave para memorizar a ordem das tradições de Rabi Eliezer que se seguem. “Colares” lembra este bloco; “as suas faces”, o bloco 1910; “tábuas”, o bloco 1911; e “gravado”, o bloco 1912. No siman, “לְחָיָיו” está escrito com yod, e o versículo do bloco 1910 diz “לְחָיָו”. No Sefaria, o nome “(אֱלִיעֶזֶר)” está entre parênteses depois de “אָמַר רַבִּי”, marca de leitura a suprimir, sem o nome que o substitui; mantivemos o hebraico como está, e a tradução segue a tradução de referência e o bloco 1910, onde o nome aparece sem parênteses, e lê “Rabi Eliezer”. O versículo é Mishlei 1:9 (conferido). Segundo o Rashi, o colar frouxo é o sábio agradável, que não oprime os outros, e o colar escondido pela barba é o sábio que não anda pelo mercado, mas fica sentado repassando o estudo. “Na sua mão” é o modo hebraico de dizer que o estudo permanece com ele.

1910Como um canteiro de bálsamo
A guemará
וְאָמַר רַבִּי אֱלִיעֶזֶר: מַאי דִּכְתִיב ״לְחָיָו כַּעֲרוּגַת הַבּוֹשֶׂם״, אִם מֵשִׂים אָדָם עַצְמוֹ כַּעֲרוּגָה זוֹ שֶׁהַכֹּל דָּשִׁין בָּהּ, וּכְבוֹשֶׂם זֶה שֶׁהַכֹּל מִתְבַּשְּׂמִין בָּהּ — תַּלְמוּדוֹ מִתְקַיֵּים, וְאִם לָאו — אֵין תַּלְמוּדוֹ מִתְקַיֵּים.

E disse Rabi Eliezer: O que significa o que está escrito: “As suas faces são como um canteiro de bálsamo” (Shir HaShirim 5:13)? Se a pessoa faz a si mesma como este canteiro de jardim, sobre o qual todos pisam, e se se faz como este bálsamo, com o qual todos se perfumam (e não só o seu dono), o seu estudo se mantém; e, se não se faz assim, o seu estudo não se mantém.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “shehakol dashin oto”
שהכל דשין אותו - שאין לו גסות:

“Que todos pisam nele” — isto é, que não tem arrogância.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “shehakol mitbasmin mimenu”
שהכל מתבשמין ממנו - שמלמד תורה לתלמידים:

“Que todos se perfumam dele” — isto é, que ensina Torá aos alunos.

Nota

O versículo é Shir HaShirim 5:13 (conferido). Segundo o Rashi, ser como o canteiro que todos pisam é não ter arrogância, e ser como o bálsamo que perfuma a todos é ensinar Torá aos alunos. Os lemas do Rashi dizem “דשין אותו” e “מתבשמין ממנו”, no masculino, onde a guemará diz “בָּהּ”.

1911Tábuas de pedra: faces como pedra
A guemará
וְאָמַר רַבִּי (אֱלִיעֶזֶר): מַאי דִּכְתִיב ״לוּחוֹת אֶבֶן״, אִם אָדָם מֵשִׂים עַצְמוֹ אֶת לְחָיָיו כְּאֶבֶן זוֹ שֶׁאֵינָהּ נִמְחֵית — תַּלְמוּדוֹ מִתְקַיֵּים בְּיָדוֹ, וְאִם לָאו — אֵין תַּלְמוּדוֹ מִתְקַיֵּים בְּיָדוֹ.

E disse Rabi Eliezer: O que significa o que está escrito: “Tábuas de pedra” (Shemot 31:18)? Se a pessoa faz a si mesma — as suas faces (lechayav) — como esta pedra, que não se desgasta (sob os pés que a pisam), o seu estudo se mantém na sua mão; e, se não se faz assim, o seu estudo não se mantém na sua mão.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ke’even zo she’einá nimchet”
כאבן זו שאינה נמחת - מפני דריסת רגלי בני אדם כך לחייו אינן נלאין מלחזר על למודו וללמד לאחרים:

“Como esta pedra, que não se desgasta” — por causa do pisar dos pés das pessoas; assim também as suas faces não se cansam de repassar o seu estudo e de ensinar aos outros.

Nota

A expressão “לֻחֹת אֶבֶן” está em Shemot 31:18 (conferido), e a guemará lê “לוּחוֹת”, “tábuas”, como “לְחָיָיו”, “as suas faces”, de som parecido. Segundo o Rashi, as faces que não se desgastam são as de quem não se cansa de repassar o estudo e de ensiná-lo; a tradução de referência fala de diligência. O lema do Rashi diz “נמחת”, e a guemará, “נִמְחֵית”. Também aqui o nome “(אֱלִיעֶזֶר)” está entre parênteses no Sefaria, marca de leitura a suprimir, sem o nome que o substitui; a tradução segue a tradução de referência, que lê “Rabi Eliezer”.

1912Gravado sobre as tábuas
A guemará
וְאָמַר רַבִּי (אֱלִיעֶזֶר): מַאי דִּכְתִיב ״חָרוּת עַל הַלּוּחוֹת״, אִלְמָלֵי לֹא נִשְׁתַּבְּרוּ לוּחוֹת הָרִאשׁוֹנוֹת — לֹא נִשְׁתַּכְּחָה תּוֹרָה מִיִּשְׂרָאֵל.

E disse Rabi Eliezer: O que significa o que está escrito: “Gravado sobre as tábuas” (Shemot 32:16)? Se as primeiras tábuas não se tivessem quebrado, a Torá não teria sido esquecida de Israel jamais.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “lo nishtakchá”
לא נשתכחה - חרות משמע חקוק ואינו נמחק לעולם על ידי הלוחות היתה תורה חקוקה לישראל מהשתכח מהן עולמית:

“Não teria sido esquecida” — a palavra “gravado” significa entalhado, e nunca se apaga; por meio das tábuas, a Torá estaria entalhada para Israel de modo a não ser esquecida por eles jamais.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “al haluchot”
על הלוחות - בשביל הלוחות היו בני ישראל בני חורין:

“Sobre as tábuas” — isto é, por causa das tábuas, os filhos de Israel seriam livres.

Nota

O versículo é Shemot 32:16 (conferido), “וְהַמִּכְתָּב מִכְתַּב אֱלֹהִים הוּא חָרוּת עַל הַלֻּחֹת”. Segundo o Rashi, o que está gravado não se apaga: se as primeiras tábuas tivessem permanecido, a Torá ficaria gravada em Israel para sempre. O segundo comentário do Rashi explica a exposição de Rav Acha bar Yaakov, no bloco seguinte, mas o Sefaria o liga a este segmento, e o mantemos aqui; ele diz “היו”, “eram”, que traduzimos como condicional, conforme o contexto. Também aqui o nome “(אֱלִיעֶזֶר)” está entre parênteses no Sefaria, marca de leitura a suprimir; a tradução segue a tradução de referência, que lê “Rabi Eliezer”.

1913Rav Acha bar Yaakov: não charut, mas cheirut
A guemará
רַב אַחָא בַּר יַעֲקֹב אָמַר: אֵין כׇּל אוּמָּה וְלָשׁוֹן שׁוֹלֶטֶת בָּהֶן, שֶׁנֶּאֱמַר: ״חָרוּת״ — אַל תִּיקְרֵי ״חָרוּת״, אֶלָּא חֵירוּת.

Rav Acha bar Yaakov disse: Se as primeiras tábuas não se tivessem quebrado, nenhuma nação e língua dominaria sobre eles, pois está dito: “Gravado” (charut); não leias “charut”, mas cheirut (liberdade).

Nota

A oração em itálico retoma a condição do bloco anterior, como entende a tradução de referência. O hebraico diz literalmente “nenhuma nação e língua domina sobre eles”. A leitura “não leias ‘חָרוּת’, mas ‘חֵירוּת’” aparece também, com outra aplicação, em Pirkei Avot 6:2 (conferido). O Rashi a esta exposição está ligado, no Sefaria, ao segmento anterior (bloco 1912).

1914Rav Matna: e do deserto, Matana
A guemará
אָמַר רַב מַתְנָה: מַאי דִּכְתִיב ״וּמִמִּדְבָּר מַתָּנָה״, אִם מֵשִׂים אָדָם עַצְמוֹ כְּמִדְבָּר זֶה שֶׁהַכֹּל דָּשִׁין בּוֹ — תַּלְמוּדוֹ מִתְקַיֵּים בְּיָדוֹ. וְאִם לָאו — אֵין תַּלְמוּדוֹ מִתְקַיֵּים בְּיָדוֹ.

Disse Rav Matna: O que significa o que está escrito: “E do deserto, Matana (dádiva)” (Bamidbar 21:18)? Se a pessoa faz a si mesma como este deserto, sobre o qual todos pisam, o seu estudo se mantém na sua mão (como dádiva); e, se não se faz assim, o seu estudo não se mantém na sua mão.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “mimidbar matana”
ממדבר מתנה - אם כמדבר הוא תורה נתונה לו במתנה ולא ישכח:

“Do deserto, Matana” — se ele é como um deserto, a Torá lhe é dada como dádiva, e ele não a esquecerá.

Nota

O versículo é Bamidbar 21:18 (conferido): no seu contexto, Matana é uma etapa da viagem de Israel no deserto; Rav Matna a lê como “dádiva”. Segundo o Rashi, quem se faz humilde como o deserto recebe a Torá como dádiva e não a esquece.

Rava e Rav Yossef: do deserto a Matana · וּמִמִּדְבָּר מַתָּנָה

1915Rava e Rav Yossef na véspera de Yom Kipur
A guemará
רָבָא בְּרֵיהּ דְּרַב יוֹסֵף בַּר חָמָא הֲוָה לֵיהּ מִלְּתָא לְרַב יוֹסֵף בַּהֲדֵיהּ, כִּי מְטָא מַעֲלֵי יוֹמָא דְכִיפּוּרֵי אֲמַר: אֵיזִיל וַאֲפַיְּיסֵיהּ. אֲזַל, אַשְׁכְּחֵיהּ לְשַׁמָּעֵיהּ דְּקָא מָזֵיג לֵיהּ כָּסָא. אֲמַר: הַב לִי וְאֶימְזְגֵיהּ אֲנָא. יְהַב לֵיהּ, מַזְגֵיהּ. כִּדְטַעְמֵיהּ אָמַר: דָּמֵי הַאי מְזִיגָא לִמְזִיגָא דְּרָבָא בְּרֵיהּ דְּרַב יוֹסֵף בַּר חָמָא. אֲמַר לֵיהּ: אֲנָא הוּא.

Rava, filho de Rav Yossef bar Chama: Rav Yossef tinha uma milta (ressentimento) contra ele. Quando chegou a véspera de Yom Kipur, Rava disse: Irei e o apaziguarei. Foi, e encontrou o servente dele, que lhe estava misturando um copo (de vinho com água). Disse ao servente: Dá-mo, e eu o misturarei. Deu-lho, e ele o misturou. Quando Rav Yossef o provou, disse: Esta mistura se assemelha à mistura de Rava, filho de Rav Yossef bar Chama. Rava lhe disse: Sou eu.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “milta”
מילתא - כעס:

“Milta” — quer dizer ira.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “amar”
אמר - רבא איזיל אפייסיה לרב יוסף:

“Disse” — é Rava quem diz: Irei e apaziguarei Rav Yossef.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “mazeg”
מזוג - במים:

“Misturando” — isto é, com água.

Rashi · רַשִּׁי
Comentário sem lema, sobre o reconhecimento da mistura
רב יוסף סגי נהור הוה ולא היה רואהו והכירו בטעם היין שהוא מזגו לפי שהיה מכיר רב יוסף במזגו של רבא מתחילה שהיה בקי ליתן מים במדה:

Rav Yossef era cego e não o via (a Rava), e o reconheceu pelo gosto do vinho, sabendo que ele o tinha misturado, pois Rav Yossef conhecia desde antes a mistura de Rava, que era perito em pôr água na medida certa.

Nota

Rava, filho de Rav Yossef bar Chama, é o Rava conhecido do Talmud, aluno de Rav Yossef. “Milta”, literalmente “uma coisa”, é explicada pelo Rashi como “ira”. Como explica o Rashi, Rav Yossef era cego (“סגי נהור”, literalmente “de muita luz”, eufemismo) e reconheceu Rava pela medida da água no vinho; segundo o Rashi, Rava era perito em pôr a água na medida certa, enquanto a tradução de referência diz que ele punha água a mais. O último comentário do Rashi não tem lema no Sefaria.

1916Não te sentarás até me explicares estes versículos
A guemará
אֲמַר לֵיהּ: לָא תִּתֵּיב אַכַּרְעָיךָ עַד דִּמְפָרְשַׁתְּ לִי הָנֵי קְרָאֵי. מַאי דִּכְתִיב: ״וּמִמִּדְבָּר מַתָּנָה וּמִמַּתָּנָה נַחֲלִיאֵל וּמִנַּחֲלִיאֵל בָּמוֹת וּמִבָּמוֹת הַגַּיְא״?

Rav Yossef lhe disse: Não te sentarás sobre os teus joelhos até que me expliques estes versículos. O que significa o que está escrito: “E do deserto, Matana; e de Matana, Nachaliel; e de Nachaliel, Bamot (alturas); e de Bamot, o vale” (Bamidbar 21:18-20)?

Nota

Os versículos são Bamidbar 21:18-20 (conferidos): “וּמִמִּדְבָּר מַתָּנָה” fecha o versículo 18, “וּמִמַּתָּנָה נַחֲלִיאֵל וּמִנַּחֲלִיאֵל בָּמוֹת” é o versículo 19, e “וּמִבָּמוֹת הַגַּיְא” abre o versículo 20. “Não te sentarás sobre os teus joelhos” traduz literalmente “לָא תִּתֵּיב אַכַּרְעָיךְ”. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1917Do deserto a Matana, a Nachaliel, a Bamot
A guemará
אֲמַר לֵיהּ: אִם אָדָם מֵשִׂים עַצְמוֹ כְּמִדְבָּר זֶה שֶׁהַכֹּל דָּשִׁין בּוֹ — תּוֹרָה נִיתְּנָה לוֹ בְּמַתָּנָה. וְכֵיוָן שֶׁנִּיתְּנָה לוֹ בְּמַתָּנָה — נְחָלוֹ אֵל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּמִמַּתָּנָה נַחֲלִיאֵל״. וְכֵיוָן שֶׁנְּחָלוֹ אֵל — עוֹלֶה לִגְדוּלָּה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּמִנַּחֲלִיאֵל בָּמוֹת״.

Rava lhe disse: Se a pessoa faz a si mesma como este deserto, sobre o qual todos pisam, a Torá lhe é dada como dádiva (matana). E, uma vez que a Torá lhe foi dada como dádiva, Deus o toma por herança (nechalo El), pois está dito: “E de Matana, Nachaliel”. E, uma vez que Deus o tomou por herança, ele sobe à grandeza, pois está dito: “E de Nachaliel, Bamot”, que são as alturas.

Nota

Rava lê os nomes dos lugares como etapas: “מַתָּנָה”, dádiva; “נַחֲלִיאֵל”, lido como “נְחָלוֹ אֵל”, “Deus o tomou por herança”; e “בָּמוֹת”, as alturas, a grandeza. “Deus o toma por herança” traduz literalmente “נְחָלוֹ אֵל”; a tradução de referência entende “ele a herda, e Deus a faz Sua herança”. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1918De Bamot ao vale; todo vale será elevado
A guemará
וְאִם מֵגֵיס לִבּוֹ — הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא מַשְׁפִּילוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּמִבָּמוֹת הַגַּיְא״. וְאִם חוֹזֵר בּוֹ — הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא מַגְבִּיהוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כׇּל גֶּיא יִנָּשֵׂא״.

E, se ele ensoberbece o seu coração, o Santo, bendito seja, o rebaixa das alturas, pois está dito: “E de Bamot, o vale” (Bamidbar 21:20). E, se ele se arrepende, o Santo, bendito seja, o eleva de novo, pois está dito: “Todo vale será elevado” (Yeshayahu 40:4).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “kol gai yinasse”
כל גיא ינשא - אף על גב דלאו גבי הני קראי כתיב דרשי ליה דמי שבא לידי גיא שהושפל חוזר ומתנשא:

“Todo vale será elevado” — embora não esteja escrito junto a estes versículos, expõem-no aqui: quem chegou a ser um vale, que foi rebaixado, volta e se eleva.

Nota

Os versículos são Bamidbar 21:20 e Yeshayahu 40:4 (conferidos). Como observa o Rashi, o versículo de Yeshayahu não pertence à sequência de Bamidbar, mas é trazido para completar a exposição: quem foi rebaixado e se arrepende volta a ser elevado. “Se ele se arrepende” traduz “חוֹזֵר בּוֹ”, literalmente “volta atrás”.

Rav Huna; a figueira · נֹצֵר תְּאֵנָה

1919Rav Huna: como a fera que despedaça e come
A guemará
אָמַר רַב הוּנָא: מַאי דִּכְתִיב: ״חַיָּתְךָ יָשְׁבוּ בָהּ תָּכִין בְּטוֹבָתְךָ לֶעָנִי אֱלֹהִים״, אִם אָדָם מֵשִׂים עַצְמוֹ כְּחַיָּה זוֹ שֶׁדּוֹרֶסֶת וְאוֹכֶלֶת, וְאִיכָּא דְּאָמְרִי שֶׁמַּסְרַחַת וְאוֹכֶלֶת — תַּלְמוּדוֹ מִתְקַיֵּים בְּיָדוֹ. וְאִם לָאו — אֵין תַּלְמוּדוֹ מִתְקַיֵּים בְּיָדוֹ. וְאִם עוֹשֶׂה כֵּן — הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עוֹשֶׂה לוֹ סְעוּדָה בְּעַצְמוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״תָּכִין בְּטוֹבָתְךָ לֶעָנִי אֱלֹהִים״.

Disse Rav Huna: O que significa o que está escrito: “As tuas feras (chayatecha) habitaram nela; preparas na Tua bondade para o pobre, ó Deus” (Tehilim 68:11)? Se a pessoa faz a si mesma como esta fera (chayá), que despedaça a presa e come — e há quem diga: que a suja na lama e come —, o seu estudo se mantém na sua mão; e, se não se faz assim, o seu estudo não se mantém na sua mão. E, se faz assim, o Santo, bendito seja, lhe faz um banquete Ele mesmo, pois está dito: “Preparas na Tua bondade para o pobre, ó Deus” (no mesmo versículo).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “shedoresset ve’ochelet”
שדורסת ואוכלת - מיד לאחר הריגתה שאינו מקפיד על תענוגים אלא אוכל בשר בלא תבלין וכן שאר עינוגין:

“Que despedaça e come” — come logo depois de matar a presa; assim é quem não é exigente quanto a iguarias, mas come carne sem tempero, e assim também quanto aos demais prazeres.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “shemassrachat”
שמסרחת - בטיט היינו מי שאינו הולך אחר גבהות לקוץ במאכלו אם לא נתבשל כל צרכו ל"א שדורסת ואוכלת לאחר הריגתה אוכלת מיד כך תלמיד חכם מחזר על תלמודו מיד כשמקבלו מרבו מסרחת מנבל עצמו על דברי תורה לשון זה נראה בעיני לפי שמצינו בכל הש"ס שדרך תלמידי חכמים להקפיד על מאכלן דרך גדולה וכבוד ועל מלבושיהן כדכתיב (משלי ח׳:ל״ו) ולמשנאי אהבו מות:

“Que suja” — a comida na lama; isto é, quem não vai atrás da altivez a ponto de se enojar da sua comida, se não foi cozida o quanto precisa. Outra versão: “que despedaça e come” quer dizer: depois de matar a presa, come logo; assim o talmid chacham repassa o seu estudo logo que o recebe do seu mestre; e “que suja” quer dizer que ele se rebaixa pelas palavras da Torá. Esta versão parece correta aos meus olhos, porque encontramos em todo o Shas (o Talmud) que o costume dos sábios é ser exigentes com a sua comida, por grandeza e honra, e com as suas roupas, como está escrito: “E os que Me odeiam amam a morte” (Mishlei 8:36).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “le’ani”
לעני - לזה ששם עצמו כעני וללישנא בתרא ששם עצמו כעני לחזר עליה:

“Para o pobre” — isto é, para este que faz a si mesmo como pobre; e, segundo a última versão, que faz a si mesmo como pobre para correr atrás dela (da Torá).

Nota

O versículo é Tehilim 68:11 (conferido); a guemará lê “חַיָּתְךָ” como “a fera”, e “o pobre” como quem se faz pobre e humilde pela Torá. O Rashi traz duas explicações e prefere a segunda: a fera que despedaça e come logo é o sábio que repassa o estudo logo que o recebe do mestre, e a que suja a comida é quem se rebaixa pela Torá; a primeira, a de quem não é exigente com a comida, não lhe parece correta, porque os sábios costumam ser exigentes com a comida e com as roupas, por honra. O versículo que o Rashi cita é Mishlei 8:36 (conferido), que diz “כׇּל מְשַׂנְאַי אָהֲבוּ מָוֶת”, “todos os que Me odeiam amam a morte”, onde o Rashi lê “ולמשנאי”; é o versículo exposto em Shabat 114a (conferido) sobre o sábio que tem uma mancha na roupa. A tradução de referência combina as explicações: o sábio que repassa logo o que ouviu, ou que não se preocupa com a própria honra durante o estudo. “Para correr atrás dela” traduz “לחזר עליה”, que também pode querer dizer “para repassá-la”.

1920Rabi Chiya bar Abba: quem guarda a figueira
A guemará
אָמַר רַבִּי חִיָּיא בַּר אַבָּא אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: מַאי דִּכְתִיב ״נוֹצֵר תְּאֵנָה יֹאכַל פִּרְיָהּ״, לָמָּה נִמְשְׁלוּ דִּבְרֵי תוֹרָה כִּתְאֵנָה, מָה תְּאֵנָה זוֹ

Disse Rabi Chiya bar Abba, disse Rabi Yochanan: O que significa o que está escrito: “Quem guarda a figueira comerá o seu fruto” (Mishlei 27:18)? Por que as palavras da Torá foram comparadas à figueira? Porque, assim como esta figueira…

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “te’ená”
תאנה - אילן:

“Figueira” — isto é, a árvore.

Nota

O versículo é Mishlei 27:18 (conferido). Segundo o Rashi, “figueira” é a árvore, e não o fruto. O ensinamento fica no meio e continua em Eruvin 54b.

O daf termina aqui, no meio do ensinamento de Rabi Chiya bar Abba em nome de Rabi Yochanan sobre a figueira: depois de concluir a história de Beruria e do aluno que estudava em sussurro, a guemará reúne ensinamentos sobre o estudo da Torá em voz alta e sobre a humildade que faz o estudo se manter. A guemará prossegue em Eruvin 54b.