O daf começa completando o versículo sobre Shaul, cuja citação ficou no meio em Eruvin 53a: “para tudo aonde se voltar, condenava”, que o Rashi lê como dito das suas decisões de halachá; Rabi Yochanan acrescenta que o Santo, bendito seja, lhe perdoou o pecado de Nov, pois Shmuel lhe disse “amanhã tu e os teus filhos estareis comigo”. Rabi Abba volta à palavra da mishná: se houvesse quem perguntasse aos de Yehuda, precisos na linguagem, se se diz me’abrin com alef ou com ayin, e akuzo com alef ou com ayin; e eles respondem que há quem ensine de um modo e quem ensine do outro. A guemará ilustra a precisão dos de Yehuda, com o homem que descreveu o seu manto como acelgas sobre a terra, e o descuido dos da Galil, com o galileu que não se sabia se queria jumento, vinho, lã ou cordeiro, a mulher que quis oferecer leite à companheira e lhe desejou uma leoa, e a mulher que trocou todas as palavras diante do juiz. Seguem exemplos de linguagem de sabedoria: a criada da casa de Rabi, Rabi Yossi bar Asyan, Rabi Abahu e o diálogo velado sobre o paradeiro de Rabi Ilai e de Rabi Abahu. Rabi Yehoshua ben Chananya conta que só foi vencido por uma mulher, uma menina e um menino; e Beruria repreende Rabi Yossi HaGlili por multiplicar palavras. O daf termina quando Beruria encontra um aluno que estudava em sussurro.
E de Shaul está escrito: “Para tudo aonde se voltar, condenava.”
“Condenava” — não merecia o privilégio de decidir as questões conforme a halachá.
O segmento completa o versículo cuja citação começou no fim de Eruvin 53a (bloco 1868): Shmuel I 14:47 (conferido), “e em tudo aonde se voltava, condenava” (“וּבְכֹל אֲשֶׁר יִפְנֶה יַרְשִׁיעַ”). As palavras em itálico retomam o começo da citação, como está em 53a. “Condenava” traduz literalmente “יַרְשִׁיעַ”, “declarava culpado”. No contexto do versículo, trata-se das guerras de Shaul contra os seus inimigos; a guemará o lê como dito sobre Shaul que não revelava a massechta, e o Rashi explica que ele não merecia decidir conforme a halachá: aonde quer que se voltasse para decidir, saía uma condenação. A tradução de referência traduz “fazia-lhes mal”.
E disse Rabi Yochanan: De onde se aprende que o Santo, bendito seja, lhe perdoou aquele pecado? Pois está dito: “Amanhã tu e os teus filhos estareis comigo” (Shmuel I 28:19). “Comigo” quer dizer: na minha mechitzá (no meu compartimento, junto a mim).
“Aquele pecado” — isto é, o pecado de Nov, a cidade dos kohanim.
“Tu e os teus filhos comigo” — Shmuel é quem o diz a Shaul, quando Shaul o fez subir por meio da baalat ov (a necromante).
Depois de dizer que Shaul não revelava a massechta, a guemará conclui com uma palavra a seu favor. Segundo o Rashi, “aquele pecado” é a matança de Nov, a cidade dos kohanim, narrada em Shmuel I 22:18-19 (conferido). O versículo é Shmuel I 28:19 (conferido): “E o Eterno entregará também Israel contigo na mão dos filisteus, e amanhã tu e os teus filhos estareis comigo”; quem fala é Shmuel, que Shaul fez subir por meio da necromante de Ein Dor. “Mechitzá” é literalmente uma divisória: estar “na mechitzá” de Shmuel é estar no mesmo lugar que ele, isto é, entre os justos; daí a guemará deduz que o pecado foi perdoado.
Disse Rabi Abba: Se houver quem pergunte aos de Yehuda, que são precisos na linguagem: Aprendemos “me’abrin” (com alef) ou aprendemos “me’abrin” (com ayin)? Aprendemos “akuzo” (o seu traseiro, com alef) ou aprendemos “akuzo” (com ayin)? Eles sabem.
“Aprendemos akuzo ou akuzo” — em Bechorot (40a), a respeito dos defeitos, aprendemos: O animal que não tem senão um testículo, eis que isso é um defeito; Rabi Akiva diz: Senta-se-o sobre o seu traseiro (akuzo) e espreme-se; se há outro testículo, acabará por sair. “Akuzo” com alef é o seu traseiro, e assim também “akuzo” com ayin.
“Eles sabem” — isto é, eles saberiam.
A guemará volta à discussão de Rav e Shmuel em Eruvin 53a (bloco 1846), sobre “מְאַבְּרִין”, com alef, ou “מְעַבְּרִין”, com ayin, e acrescenta outra palavra de grafia duvidosa, “אַכּוּזוֹ” ou “עַכּוּזוֹ”, o traseiro do animal. Como as duas formas soam igual em português, indicamos a letra entre parênteses. A mishná citada pelo Rashi é a de Bechorot 40a (conferido; Mishná Bechorot 6:6), onde se lê “מוֹשִׁיבוֹ עַל עַכּוּזוֹ וּמְמַעֵךְ”; o Rashi diz que as duas formas significam o mesmo. Segundo o Rashi, “eles sabem” (“יָדְעִי”) quer dizer “eles saberiam”, se alguém lhes perguntasse.
Perguntaram-lhes, e eles lhe disseram: Há quem ensine “me’abrin”, e há quem ensine “me’abrin” (um com alef, o outro com ayin); há quem ensine “akuzo”, e há quem ensine “akuzo” (um com alef, o outro com ayin).
A resposta dos de Yehuda é que as duas formas eram transmitidas, e nenhuma delas é erro. O hebraico diz “perguntaram-lhes e disseram-lhe”, no plural e depois no singular: perguntaram aos de Yehuda, e eles responderam a quem perguntava; a tradução de referência entende “um deles perguntou”. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
Os de Yehuda são precisos na linguagem: o que é isso? Que aquele homem de Yehuda lhes disse: Tenho um talit (manto) para vender. Disseram-lhe: Qual é a cor do teu manto? Disse-lhes: Como teradin (acelgas) sobre a terra.
“Como acelgas sobre a terra” — o manto era esverdeado, como a cor da verdura da terra.
Exemplo da precisão dos de Yehuda: em vez de dizer simplesmente “verde”, o homem descreveu o tom exato do manto, o verde das folhas da acelga que brotam da terra. “Teradin” é a acelga ou beterraba; a mesma palavra volta no enigma de Rabi Yossi bar Asyan (bloco 1879).
Os da Galil não são precisos na linguagem: o que é isso? Que aquele homem da Galil ia andando e lhes dizia: Amar, para quem? Amar, para quem? Disseram-lhe: Galileu tolo, chamar (jumento) para montar, ou chamar (vinho) para beber; amar (lã) para vestir, ou imar (cordeiro) para abater?
“Amar, para quem?” — falava com lábio frouxo e não pronunciava distintamente a letra, e não se reconhecia se dizia amar, se chamar, se imar.
“Amar para vestir” — isto é, lã para fazer roupas.
“Imar para abater” — isto é, um cordeiro para abater.
O jogo depende do som. O galileu diz “אֲמַר”, “amar”, sem pronunciar a gutural, e os ouvintes não sabem qual palavra ele quer: “חֲמַר”, “chamar”, que em aramaico é tanto o jumento quanto o vinho; “עֲמַר”, “amar” com ayin, a lã; ou “אִימַּר”, “imar”, o cordeiro. Segundo o Rashi, ele falava “com lábio frouxo” e não articulava a letra. “Para abater” traduz “לְאִיתְכַּסָּאָה”, explicado pelo Rashi como “cordeiro para abater”. No Sefaria, “(דְּתַנְיָא)”, “como foi ensinado numa baraita”, está entre parênteses, e “[דַּהֲוָה קָאָזֵיל]”, “que ia andando”, entre colchetes; traduzimos o texto com o acréscimo e sem a palavra entre parênteses.
Aquela mulher que queria dizer à sua companheira: Vem, que te darei de comer leite, disse-lhe em vez disso: Shluchti (minha companheira), que uma leoa te devore.
“Vem, que te darei de comer leite” — ela queria dizer: Vem, e te darei de comer leite; mas não pronuncia distintamente, separando as palavras uma da outra e fazendo ouvir cada palavra, e duas palavras se juntam como uma; e gagueja as palavras e diz: “Que uma leoa te devore”. E diz também “shluchti” com kaf, e queria dizer “shluvti” com bet, como em “meshulavot” (entrelaçadas), isto é, “minha companheira”.
“Que uma leoa te devore” — a expressão soa como maldição: que uma leoa te devore.
Também aqui o jogo depende do som. Ela queria dizer “תָּאִי דְּאוֹכְלִיךְ חֲלָבָא”, ta’i de’ochlich chalva, “vem, que te darei de comer leite”, mas, juntando as palavras e engolindo a gutural, disse “תּוֹכְלִיךָ לָבִיא”, tochlich lavi, “uma leoa te devore”. Segundo o Rashi, também a palavra de tratamento saiu errada: ela disse “shluchti”, com kaf, querendo dizer “shluvti”, com bet, “minha companheira”, da raiz de “entrelaçadas”; a glosa entre parênteses dá o sentido pretendido. A tradução de referência traduz as duas vezes por “minha vizinha”. No Sefaria, as palavras do Rashi “e gagueja as palavras e diz: Que uma leoa te devore” estão entre colchetes.
Aquela mulher que veio diante do juiz disse-lhe: Meu senhor, kiri (servo), uma tafla (viga) eu tinha, e te roubaram de mim; e agora era tão grande que, quando te penduram nela, os teus pés não alcançam o chão.
“Meu senhor, kiri” — e queria dizer “kiri” (com kuf), que é senhor, e disse “kiri” (com kaf), que é servo.
“Uma tafla eu tinha” — queria dizer: “Uma tavla (tábua) eu tinha”, e disse “tafla”, que é viga.
“E te roubaram de” — queria dizer: “Roubaram-na de mim”, e disse: “Roubaram-te de”, o que significa que roubaram o próprio juiz.
“E agora era, que quando te penduram nela os teus pés não alcançam o chão” — era tão grande que, se te estendessem sobre ela, os teus pés não tocariam o chão. E eis aí muitas tolices: “vechadu” significa “agora”, e ela queria dizer “vechadan havat” (e assim era); e, além disso, ela mencionava enforcamento a respeito do juiz, e dizia: Se te penduram nela etc.
Cada palavra da queixa saiu trocada, como explica o Rashi. Ela queria dizer “קירי”, com kuf, “meu senhor, senhor” (do grego kyrie), e disse “כִּירִי”, com kaf, que é “servo”; queria dizer “טבלא”, tavla, “uma tábua”, e disse “תַּפְלָא”, tafla, “uma viga”; queria dizer “roubaram-na de mim” e disse “וְגַנְבוּךְ מִין”, “roubaram-te de”, como se tivessem roubado o próprio juiz; e, segundo o Rashi, disse “וְכַדּוּ”, “e agora”, em vez de “וכדן”, “e assim”, e ainda falou em pendurar o juiz. As glosas entre parênteses dão o sentido do que ela de fato disse. Para descrever o tamanho da tábua, ela diz que, se pendurassem o juiz nela, os pés dele não chegariam ao chão. A tradução de referência traduz “e assim era”, sem registrar o erro de “kadu”; seguimos o Rashi, e “tão grande” completa a frase conforme a sua explicação. O lema do Rashi lê “הות”, “דכי”, “מטיין” e “כרעיך”, com pequenas diferenças de grafia em relação à guemará.
A criada da casa de Rabi (Yehuda HaNasi), quando falava em linguagem de sabedoria, dizia assim: A elet (a concha de tirar vinho) bate no jarro (no fundo); que voem as águias para os seus ninhos (isto é, que os alunos vão para casa).
“Elet” — é o nome de um utensílio com que se tira vinho do barril e se enchem os copos.
“Bate no jarro” — bate no barril; isto é, o vinho já acabou, e a elet toca o fundo do barril.
“Que voem as águias para os seus ninhos” — que vão os alunos para as suas casas; isto é, que interrompam a sua refeição, pois não há mais vinho.
Depois da fala grosseira dos da Galil, a guemará traz exemplos de “linguagem de sabedoria” (“לְשׁוֹן חׇכְמָה”), isto é, uma fala velada, por imagens, que, segundo o Rashi (bloco 1879), os outros não entendessem. “Rabi”, sem outro nome, é Rabi Yehuda HaNasi. Segundo o Rashi, a elet é a concha com que se tira vinho do barril; quando ela bate no fundo, o vinho acabou, e os alunos, “as águias”, devem voltar para casa. A glosa entre parênteses segue o Rashi. No lema do Rashi lê-se “נקפת בכד” e “נישריא”, como na guemará, e ele explica “jarro” por “barril” (“חבית”).
E quando se queria que se sentassem (e continuassem), ela lhes dizia: Que se retire a tampa da jarra que vem depois da sua companheira, e flutue a elet no jarro como um navio que vai pelo mar.
“Que se retire, depois da sua companheira, dela” — retiremos a tampa do outro barril e misturemos mais vinho.
“E flutue a elet no jarro” — que a elet fique flutuando no jarro, com folga (pois está cheio).
“Como um navio no mar” — como um navio que flutua no mar. “Titkefei” é como em “akfu yedaichu” (erguei as vossas mãos), em Chaguigá (16b), e como “kafa tehoma”, em Sucá (53a): o abismo flutuou e subiu.
Quando era para os alunos continuarem sentados, a criada pedia, também por imagens, que se abrisse a jarra seguinte, de modo que a concha flutuasse no vinho como um navio no mar. O verbo “הֲוָה בָּעֵי”, “queria”, está no masculino, e a tradução de referência entende que é Rabi quem queria que eles ficassem; traduzimos de modo impessoal. Segundo o Rashi, “a sua companheira” é o barril seguinte, cuja tampa se retira para misturar mais vinho. O Rashi aproxima “תִתְקְפֵי” de “אקפו ידייכו”, em Chaguigá 16b (conferido), e de “קפא תהומא”, em Sucá 53a (conferido), onde, quando David cavou os alicerces do altar, o abismo subiu e quis inundar o mundo. No Sefaria, o comentário do Rashi começa com “(או)” entre parênteses, sem tradução.
Rabi Yossi bar Asyan, quando falava em linguagem de sabedoria, dizia: Fazei-me um boi em juízo (shor bemishpat) num monte pobre (betur misken).
“Em linguagem de sabedoria” — de modo que os outros não entendessem.
“Um boi, juízo” — teradin: tor, din; “boi” em aramaico é tor, “juízo” em aramaico é din.
“Num monte pobre” — har, dal: chardal (mostarda).
O enigma depende do som. Segundo o Rashi, “שׁוֹר”, “boi”, em aramaico é “תור”, tor, e “מִשְׁפָּט”, “juízo”, em aramaico é “דין”, din: juntos, “tor-din” soa como “תרדין”, teradin, as acelgas (bloco 1873). “טוּר”, “monte” em aramaico, é em hebraico “הר”, har, e “מִסְכֵּן”, “pobre”, é em hebraico “דל”, dal: juntos, “har-dal” soa como “חרדל”, chardal, a mostarda. Rabi Yossi bar Asyan pedia, portanto, acelgas com mostarda. O lema do Rashi diz “שור משפט”, sem a preposição.
E quando perguntava por uma hospedaria, dizia assim: Homem, boca, este, vivo (gevar pum dein chai): que bem é este que há (nele)?
“Perguntava por uma hospedaria” — perguntava aos viajantes a respeito do hospedeiro (ushpizechni).
“Homem, boca, este, vivo” — ush, pi, zo, chai: “ush” como “ish” (homem), “pum” como “pi” (boca), “dein” como “zeh” (este).
“Que bem é este que há” — isto é, quanto de bom há para ele?
Também aqui as palavras devem ser trocadas pelas da outra língua. Segundo o Rashi, “גְּבַר”, “homem”, corresponde ao hebraico “איש”, ish, pronunciado “ush”; “פּוּם”, “boca”, a “פי”, pi; “דֵּין”, “este”, a “זו”/“זה”, zo/zeh; e acrescenta-se “חַי”: “ush-pi-zo-chai”, que soa como o nome do hospedeiro, “אושפיזכני”, ushpizechni. A pergunta “que bem é este que há?” é, segundo o Rashi, “quanto de bom há para ele?”, isto é, como é o hospedeiro. A tradução de referência, seguindo Rabeinu Chananel, lê “חַי” como “cru”, que em aramaico é “na”, e chega a “ushpizachna”, o hospedeiro. A correspondência exata das sílabas é incerta.
Rabi Abahu, quando falava em linguagem de sabedoria, dizia assim: Fazei os carvões cor de etrog (a cidra), estendei os dourados, e fazei-me dois anunciadores na escuridão (galos). Há quem diga: E que me façam neles (sobre os carvões) dois anunciadores na escuridão.
“Fazei os carvões cor de etrog, estendei os dourados” — acendei os carvões para que fiquem vermelhos como o etrog; que espalhem as brasas acesas sobre a boca do fogão, para se aquecerem diante delas.
“Estendei” — espalhai, como o rakia (o firmamento estendido).
“Os dourados” — são brasas acesas, vermelhas como ouro.
“Anunciadores na escuridão” — são galos, que anunciam as horas da noite.
“Neles” — isto é, sobre os carvões.
Rabi Abahu pedia, por imagens, que se acendesse o fogo e se assassem dois galos. “Fazei cor de etrog” traduz o verbo “אַתְרִיגוּ”, formado de “etrog”; “estendei” traduz “אַרְקִיעוּ”, da raiz de “רקיע”, o firmamento estendido; segundo o Rashi, “os dourados” são as brasas, que se espalham na boca do fogão para aquecer quem está diante delas, e os “anunciadores na escuridão” são os galos, que anunciam as horas da noite. Segundo a segunda versão, ele pedia que os galos fossem feitos, isto é, assados, sobre as brasas.
Disseram os sábios a Rabi Abahu: Mostra-nos (hatzpinenu) onde Rabi Ilai está escondido (tzafun). Disse-lhes: Rejubilou-se com uma jovem aharonita, a última, desperta, e ela o manteve desperto (aharonit, acharonit, eiranit, vehiniratu).
“Mostra-nos” — é linguagem de “Ela observa (tzofiyá) os caminhos da sua casa” (Mishlei 31:27).
“Escondido” — estava se escondendo, pois os alunos não sabiam onde ele estava, e perguntavam a ele (a Rabi Abahu).
“Rejubilou-se com uma jovem aharonita, a última, desperta, e ela o manteve desperto” — alegrou-se esta noite com uma jovem aharonita, e agora ele dorme.
“Desperta” — graciosa e aguda como uma pessoa desperta; “e ela o manteve desperto”: ele não conseguia dormir.
A pergunta e a resposta são feitas em linguagem de sabedoria, com jogos de som: “הַצְפִּינֵנוּ”, hatzpinenu, “mostra-nos”, ao lado de “צָפוּן”, tzafun, “escondido”; e, na resposta, “אַהֲרוֹנִית אַחֲרוֹנִית עֵירָנִית וְהִנְעִירַתּוּ”, aharonit, acharonit, eiranit, vehiniratu, quatro palavras de som parecido. Segundo o Rashi, “mostra-nos” vem de “צוֹפִיָּה הֲלִיכוֹת בֵּיתָהּ”, Mishlei 31:27 (conferido), e Rabi Ilai passara a noite desperto com a “jovem” e agora dormia. “Desperta” segue o Rashi, que lê “עֵירָנִית” como “graciosa e aguda como uma pessoa desperta”; a tradução de referência entende, para a leitura da mulher, “da aldeia” (“עִיר”). O sentido da “jovem” é discutido nos blocos seguintes.
Há quem diga que a frase fala de uma mulher.
“Há quem diga: uma mulher” — “aharonita”: filha de kohen; “a última”: morreu a sua primeira mulher, e esta é a última.
Segundo esta leitura, Rabi Ilai se casara com uma jovem de família de kohanim, descendentes de Aharon, que era a sua última mulher, pois, segundo o Rashi, a primeira morrera; a tradução de referência fala apenas da “segunda” mulher.
E há quem diga que a frase fala de um tratado.
“Um tratado” — “aharonita”: da ordem de Kodashim, o serviço de Aharon; “a última”: terminou outro e começou este; “desperta”: profundo e difícil, e desperta os que o estudam.
Segundo esta leitura, a “jovem” é uma massechta: “aharonita”, por ser de Kodashim, a ordem que trata do serviço dos kohanim, descendentes de Aharon; “a última”, por ser a que ele começou depois de terminar outra; “desperta”, por ser profunda e difícil e manter desperto quem a estuda. Rabi Ilai passara a noite estudando e agora dormia.
Os sábios disseram a Rabi Ilai: Mostra-nos onde Rabi Abahu está escondido. Disse-lhes: Aconselhou-se com o que coroa (o Nasi), e foi para o sul, a Mefiboshet (aos sábios do sul).
“Aconselhou-se com o que coroa” — tomou licença do Nasi; é chamado “o que coroa” porque dá licença para ordenar e chamar alguém de “Rabi”, e dali em diante ele está apto a ser coroado, a ser chamado “Rabi”, perito para o público; e, se errar numa decisão, não pagará.
“E foi para o sul” — isto é, e rumou ao sul, foi-se para o Darom.
“A Mefiboshet” — à presença dos anciãos do sul, que são muito sábios; porque Mefiboshet foi um homem grande, a guemará os chama assim.
Também a resposta de Rabi Ilai vem em linguagem de sabedoria. Segundo o Rashi, “o que coroa” é o Nasi, que dá licença para ordenar e chamar alguém de “Rabi”, coroando-o como perito para o público, que não paga se errar numa decisão; Rabi Abahu tomou licença dele e foi para o sul, aos anciãos do sul, chamados “Mefiboshet” porque Mefiboshet foi um grande sábio, como David o chama “meu mestre” em Berachot 4a, citado pelo Rashi em Eruvin 53a (bloco 1868). “Foi para o sul” traduz “הִנְגִּיב”, do Negev. No Sefaria, “[צָפוּן]”, “está escondido”, está entre colchetes, como acréscimo ao texto.
Disse Rabi Yehoshua ben Chananya: Nunca, em meus dias, me venceu ninguém em palavras, senão uma mulher, um menino e uma menina. O caso da mulher, o que é? Uma vez hospedei-me com uma hospedeira; ela me fez feijões. No primeiro dia, comi-os e não deixei deles nada; no segundo dia, comi-os e não deixei deles nada. No terceiro dia, ela os queimou com sal (salgou-os demais); assim que os provei, retirei deles as minhas mãos.
“Não me venceu ninguém” — isto é, em palavras.
“Queimou-os” — queimou-o, como em “Pois um fogo se acendeu (kadechá) na Minha ira” (Devarim 32:22); isto é, pôs nele sal demais.
Segundo o Rashi, “venceu” é em palavras. “Hospedeira” traduz “אַכְסַנְיָא”, que aqui designa a dona da hospedagem, pois o verbo seguinte, “עָשְׂתָה”, “fez”, está no feminino. “Queimou-os com sal” traduz literalmente “הִקְדִּיחָתַן בְּמֶלַח”; o Rashi explica pelo verbo de Devarim 32:22 (conferido), “כִּי אֵשׁ קָדְחָה בְאַפִּי”, e diz que ela pôs sal demais. O lema do Rashi lê “הקדיחתו”, no singular, onde a guemará diz “הִקְדִּיחָתַן”, no plural. A tradução de referência explica que, segundo as boas maneiras, devia-se deixar algo no prato, e que ela salgou de propósito; isso se depreende do que ela diz a seguir.
Disse-me: Rabi, por que não comes a tua refeição? Disse-lhe: Já comi a minha refeição enquanto ainda era dia. Disse-me: Devias ter retirado as tuas mãos do pão e deixado lugar para os feijões!
Rabi Yehoshua não quis ofender a hospedeira dizendo que a comida estava salgada, e deu uma desculpa; ela respondeu que, se ele já tinha comido, devia ter deixado de comer pão para guardar lugar para os feijões. “Comer a refeição” traduz “סוֹעֵד”, que designa a refeição propriamente dita. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
Disse-me: Rabi, talvez não tenhas deixado pe’á (um resto no prato) nos primeiros dias? Pois não disseram assim os sábios: Não se deixa pe’á na ilpas (a panela), mas deixa-se pe’á na tigela?
“Não se deixa pe’á na panela” — quando o servente despeja da panela para a tigela, não é costume deixar na panela nada para a sua necessidade; mas cada um deixa pe’á na tigela e a devolve ao servente, e esse é o alimento do servente.
A hospedeira percebeu que ele deixava o prato por causa do sal e respondeu com elegância: talvez ele estivesse compensando agora o resto que não deixara nos dias anteriores. “Pe’á”, literalmente “canto”, é o nome do canto do campo deixado aos pobres, e aqui, por analogia, a porção deixada no prato. Segundo o Rashi, o costume era não deixar nada na panela, mas cada um deixava uma porção na tigela e a devolvia ao servente, que se alimentava dela. A tradução de referência explica o costume como boas maneiras, segundo os Tosafot.
O caso da menina, o que é? Uma vez eu ia andando pelo caminho, e o caminho passava por um campo, e eu ia andando por ele (pelo caminho). Disse-me uma menina: Rabi, não é isto um campo (semeado, por onde não se passa)? Disse-lhe: Não, é um caminho pisado (pelos passantes). Disse-me ela: Ladrões como tu o pisaram.
O jogo está em “כְּבוּשָׁה”, “pisado”, e “כְּבָשׁוּהָ”, “o pisaram”: o caminho só estava pisado porque pessoas como ele, que não respeitavam o campo alheio, já tinham passado por ali, e “ladrões” é o nome que ela dá a quem anda pelo campo de outro. O hebraico diz “לֹא, דֶּרֶךְ כְּבוּשָׁה הִיא”, “não, é um caminho pisado”; a tradução de referência o traduz como pergunta. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
O caso do menino, o que é? Uma vez eu ia andando pelo caminho e vi um menino sentado numa encruzilhada. E disse-lhe: Por qual caminho iremos à cidade? Disse-me: Este caminho é curto e longo, e este outro é longo e curto. E fui pelo caminho curto e longo. Quando cheguei à cidade, encontrei que a rodeavam hortas e pomares (e não havia por onde entrar).
“Encruzilhada” — lugar onde o caminho se separa para cá e para lá.
“Longo” — que alonga o caminho.
“E curto” — que leva a uma rua da cidade livre para entrar.
Segundo o Rashi, o primeiro caminho é curto na distância, mas “longo” porque alonga a viagem, já que não tem entrada para a cidade; o segundo é longo na distância, mas “curto” porque leva a uma rua livre por onde se entra na cidade. As palavras finais entre parênteses explicitam o que se segue do Rashi.
Voltei para trás e encontrei-o, e disse-lhe: Meu filho, não me disseste que este era curto? Disse-me ele: E não te disse também longo? Beijei-o na cabeça e disse-lhe: Felizes sois vós, Israel, pois todos vós sois grandes sábios, do vosso grande até o vosso pequeno.
O menino tinha dito a verdade: o caminho era curto, mas também longo. Rabi Yehoshua reconhece a derrota e louva a sabedoria de todo Israel, dos grandes aos pequenos. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
Rabi Yossi HaGlili ia andando pelo caminho; e encontrou Beruria e disse-lhe: Por qual caminho iremos a Lod? Disse-lhe ela: Galileu tolo, não disseram assim os sábios: Não multipliques conversa com a mulher (Pirkei Avot 1:5)? Tu devias ter dito: Por qual a Lod?
Beruria cita a mishná de Pirkei Avot 1:5 (conferido), dita por Yossi ben Yochanan de Yerushalaim: “וְאַל תַּרְבֶּה שִׂיחָה עִם הָאִשָּׁה”, “e não multipliques conversa com a mulher”. Segundo ela, Rabi Yossi HaGlili deveria ter perguntado com o mínimo de palavras, “בְּאֵיזֶה לְלוֹד”, “por qual a Lod?”, sem “caminho iremos”. O “Galileu tolo” retoma o tema da fala descuidada dos da Galil (bloco 1874). O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
Beruria encontrou um certo aluno que estava repetindo o seu estudo em sussurro.
“Repetindo o seu estudo” traduz “גָרֵיס”, que designa o estudo pela repetição do texto. A história continua em Eruvin 54a, com a repreensão de Beruria ao aluno. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.