Talmud Bavli · Massechet Eruvin · Perek Heh (Keitzad Meabrin) · 53b
כֵּיצַד מְעַבְּרִין

O fim do versículo de Shaul; os de Yehuda e os da Galil; a linguagem de sabedoria; Rabi Yehoshua ben Chananya vencido por uma mulher, uma menina e um menino; Beruria

Eruvin 53b — Perek Heh (Keitzad Meabrin, Eruvin 52b:16-61b:10) · “…condenava”: o fim de Shmuel I 14:47 · Rabi Yochanan: “amanhã tu e os teus filhos estareis comigo”, o perdão de Shaul · Rabi Abba: perguntar aos de Yehuda, me’abrin e akuzo com alef ou com ayin · os de Yehuda precisos na linguagem: como acelgas sobre a terra · os da Galil: “amar, para quem?”; a mulher e a companheira; a mulher diante do juiz · a criada da casa de Rabi: a elet bate no jarro · Rabi Yossi bar Asyan: um boi em juízo num monte pobre; homem, boca, este, vivo · Rabi Abahu: carvões cor de etrog · onde está escondido Rabi Ilai? onde está escondido Rabi Abahu? · Rabi Yehoshua ben Chananya: a hospedeira e os feijões, a menina e o campo, o menino na encruzilhada · Beruria: “Galileu tolo”; o aluno que estudava em sussurro · continua de Eruvin 53a; continua em Eruvin 54a

O daf começa completando o versículo sobre Shaul, cuja citação ficou no meio em Eruvin 53a: “para tudo aonde se voltar, condenava”, que o Rashi lê como dito das suas decisões de halachá; Rabi Yochanan acrescenta que o Santo, bendito seja, lhe perdoou o pecado de Nov, pois Shmuel lhe disse “amanhã tu e os teus filhos estareis comigo”. Rabi Abba volta à palavra da mishná: se houvesse quem perguntasse aos de Yehuda, precisos na linguagem, se se diz me’abrin com alef ou com ayin, e akuzo com alef ou com ayin; e eles respondem que há quem ensine de um modo e quem ensine do outro. A guemará ilustra a precisão dos de Yehuda, com o homem que descreveu o seu manto como acelgas sobre a terra, e o descuido dos da Galil, com o galileu que não se sabia se queria jumento, vinho, lã ou cordeiro, a mulher que quis oferecer leite à companheira e lhe desejou uma leoa, e a mulher que trocou todas as palavras diante do juiz. Seguem exemplos de linguagem de sabedoria: a criada da casa de Rabi, Rabi Yossi bar Asyan, Rabi Abahu e o diálogo velado sobre o paradeiro de Rabi Ilai e de Rabi Abahu. Rabi Yehoshua ben Chananya conta que só foi vencido por uma mulher, uma menina e um menino; e Beruria repreende Rabi Yossi HaGlili por multiplicar palavras. O daf termina quando Beruria encontra um aluno que estudava em sussurro.

O fim do versículo de Shaul e o perdão · יַרְשִׁיעַ

1869“…condenava”
A guemará
יַרְשִׁיעַ״.

E de Shaul está escrito: “Para tudo aonde se voltar, condenava.”

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “yarshia”
ירשיע - לא היה זוכה להורות כהלכה:

“Condenava” — não merecia o privilégio de decidir as questões conforme a halachá.

Nota

O segmento completa o versículo cuja citação começou no fim de Eruvin 53a (bloco 1868): Shmuel I 14:47 (conferido), “e em tudo aonde se voltava, condenava” (“וּבְכֹל אֲשֶׁר יִפְנֶה יַרְשִׁיעַ”). As palavras em itálico retomam o começo da citação, como está em 53a. “Condenava” traduz literalmente “יַרְשִׁיעַ”, “declarava culpado”. No contexto do versículo, trata-se das guerras de Shaul contra os seus inimigos; a guemará o lê como dito sobre Shaul que não revelava a massechta, e o Rashi explica que ele não merecia decidir conforme a halachá: aonde quer que se voltasse para decidir, saía uma condenação. A tradução de referência traduz “fazia-lhes mal”.

1870Rabi Yochanan: de onde que o Santo perdoou Shaul
A guemará
וְאָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: מִנַּיִין שֶׁמָּחַל לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עַל אוֹתוֹ עָוֹן — שֶׁנֶּאֱמַר: ״מָחָר אַתָּה וּבָנֶיךָ עִמִּי״. עִמִּי — בִּמְחִיצָתִי.

E disse Rabi Yochanan: De onde se aprende que o Santo, bendito seja, lhe perdoou aquele pecado? Pois está dito: “Amanhã tu e os teus filhos estareis comigo” (Shmuel I 28:19). “Comigo” quer dizer: na minha mechitzá (no meu compartimento, junto a mim).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “al oto avon”
על אותו עון - עון דנוב עיר הכהנים:

“Aquele pecado” — isto é, o pecado de Nov, a cidade dos kohanim.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ata uvanecha imi”
אתה ובניך עמי - שמואל קאמר לשאול כשהעלהו על ידי בעלת אוב:

“Tu e os teus filhos comigo” — Shmuel é quem o diz a Shaul, quando Shaul o fez subir por meio da baalat ov (a necromante).

Nota

Depois de dizer que Shaul não revelava a massechta, a guemará conclui com uma palavra a seu favor. Segundo o Rashi, “aquele pecado” é a matança de Nov, a cidade dos kohanim, narrada em Shmuel I 22:18-19 (conferido). O versículo é Shmuel I 28:19 (conferido): “E o Eterno entregará também Israel contigo na mão dos filisteus, e amanhã tu e os teus filhos estareis comigo”; quem fala é Shmuel, que Shaul fez subir por meio da necromante de Ein Dor. “Mechitzá” é literalmente uma divisória: estar “na mechitzá” de Shmuel é estar no mesmo lugar que ele, isto é, entre os justos; daí a guemará deduz que o pecado foi perdoado.

Os de Yehuda e os da Galil: a precisão na linguagem · דָּיְיקִי לִישָּׁנָא

1871Rabi Abba: perguntar aos de Yehuda
A guemará
אָמַר רַבִּי אַבָּא: אִי אִיכָּא דִּמְשַׁאֵיל לְהוּ לִבְנֵי יְהוּדָה דְּדָיְיקִי לִשָּׁנֵי — מְאַבְּרִין תְּנַן אוֹ מְעַבְּרִין תְּנַן, אַכּוּזוֹ תְּנַן אוֹ עַכּוּזוֹ תְּנַן, יָדְעִי.

Disse Rabi Abba: Se houver quem pergunte aos de Yehuda, que são precisos na linguagem: Aprendemos “me’abrin” (com alef) ou aprendemos “me’abrin” (com ayin)? Aprendemos “akuzo” (o seu traseiro, com alef) ou aprendemos “akuzo” (com ayin)? Eles sabem.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “akuzo tenan o akuzo”
אכוזו תנן או עכוזו - בבכורות (דף מ.) גבי מומין תנן שאין לו אלא ביצה אחת הרי זה מום רבי עקיבא אומר מושיבין אותו על עכוזו וממעך אם יש ביצה אחרת סופה לצאת אכוזו עגבותיו וכן עכוזו:

“Aprendemos akuzo ou akuzo” — em Bechorot (40a), a respeito dos defeitos, aprendemos: O animal que não tem senão um testículo, eis que isso é um defeito; Rabi Akiva diz: Senta-se-o sobre o seu traseiro (akuzo) e espreme-se; se há outro testículo, acabará por sair. “Akuzo” com alef é o seu traseiro, e assim também “akuzo” com ayin.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “yad’ei”
ידעי - היו יודעין:

“Eles sabem” — isto é, eles saberiam.

Nota

A guemará volta à discussão de Rav e Shmuel em Eruvin 53a (bloco 1846), sobre “מְאַבְּרִין”, com alef, ou “מְעַבְּרִין”, com ayin, e acrescenta outra palavra de grafia duvidosa, “אַכּוּזוֹ” ou “עַכּוּזוֹ”, o traseiro do animal. Como as duas formas soam igual em português, indicamos a letra entre parênteses. A mishná citada pelo Rashi é a de Bechorot 40a (conferido; Mishná Bechorot 6:6), onde se lê “מוֹשִׁיבוֹ עַל עַכּוּזוֹ וּמְמַעֵךְ”; o Rashi diz que as duas formas significam o mesmo. Segundo o Rashi, “eles sabem” (“יָדְעִי”) quer dizer “eles saberiam”, se alguém lhes perguntasse.

1872Há quem ensine assim, e há quem ensine assim
A guemará
שְׁאֵילִינְהוּ וְאָמְרִי לֵיהּ: אִיכָּא דְּתָנֵי מְאַבְּרִין, וְאִיכָּא דְּתָנֵי מְעַבְּרִין. אִיכָּא דְּתָנֵי אַכּוּזוֹ וְאִיכָּא דְּתָנֵי עַכּוּזוֹ.

Perguntaram-lhes, e eles lhe disseram: Há quem ensine “me’abrin”, e há quem ensine “me’abrin” (um com alef, o outro com ayin); há quem ensine “akuzo”, e há quem ensine “akuzo” (um com alef, o outro com ayin).

Nota

A resposta dos de Yehuda é que as duas formas eram transmitidas, e nenhuma delas é erro. O hebraico diz “perguntaram-lhes e disseram-lhe”, no plural e depois no singular: perguntaram aos de Yehuda, e eles responderam a quem perguntava; a tradução de referência entende “um deles perguntou”. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1873Os de Yehuda: como acelgas sobre a terra
A guemará
בְּנֵי יְהוּדָה דָּיְיקִי לִישָּׁנָא מַאי הִיא? דְּהָהוּא בַּר יְהוּדָה דַּאֲמַר לְהוּ: טַלִּית יֵשׁ לִי לִמְכּוֹר. אֲמַרוּ לֵיהּ: מַאי גּווֹן טַלִּיתְךָ? אֲמַר לְהוּ: כִּתְרָדִין עֲלֵי אֲדָמָה.

Os de Yehuda são precisos na linguagem: o que é isso? Que aquele homem de Yehuda lhes disse: Tenho um talit (manto) para vender. Disseram-lhe: Qual é a cor do teu manto? Disse-lhes: Como teradin (acelgas) sobre a terra.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “kiteradin al adamá”
כתרדין על אדמה - ירקרקת היתה כצבע ירק הארץ:

“Como acelgas sobre a terra” — o manto era esverdeado, como a cor da verdura da terra.

Nota

Exemplo da precisão dos de Yehuda: em vez de dizer simplesmente “verde”, o homem descreveu o tom exato do manto, o verde das folhas da acelga que brotam da terra. “Teradin” é a acelga ou beterraba; a mesma palavra volta no enigma de Rabi Yossi bar Asyan (bloco 1879).

1874Os da Galil: “Amar, para quem?”
A guemará
בְּנֵי גָלִיל דְּלָא דָּיְיקִי לִישָּׁנָא מַאי הִיא? (דְּתַנְיָא) דְּהָהוּא בַּר גָּלִילָא [דַּהֲוָה קָאָזֵיל] וַאֲמַר לְהוּ: ״אֲמַר לְמַאן, אֲמַר לְמַאן?״ אֲמַרוּ לֵיהּ: גָּלִילָאָה שׁוֹטֶה, חֲמַר לְמִירְכַּב אוֹ חֲמַר לְמִישְׁתֵּי? עֲמַר לְמִילְבַּשׁ אוֹ אִימַּר לְאִיתְכַּסָּאָה?

Os da Galil não são precisos na linguagem: o que é isso? Que aquele homem da Galil ia andando e lhes dizia: Amar, para quem? Amar, para quem? Disseram-lhe: Galileu tolo, chamar (jumento) para montar, ou chamar (vinho) para beber; amar (lã) para vestir, ou imar (cordeiro) para abater?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “amar leman”
אמר למאן - מדבר בשפה רפה ולא פירש האות ואינו ניכר אם עמר אם חמר אם אימר:

“Amar, para quem?” — falava com lábio frouxo e não pronunciava distintamente a letra, e não se reconhecia se dizia amar, se chamar, se imar.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “amar lemilbash”
עמר למילבש - לעשות בגדים:

“Amar para vestir” — isto é, lã para fazer roupas.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “imar le’itkasa’a”
אימר לאיתכסאה - שה לשחוט:

“Imar para abater” — isto é, um cordeiro para abater.

Nota

O jogo depende do som. O galileu diz “אֲמַר”, “amar”, sem pronunciar a gutural, e os ouvintes não sabem qual palavra ele quer: “חֲמַר”, “chamar”, que em aramaico é tanto o jumento quanto o vinho; “עֲמַר”, “amar” com ayin, a lã; ou “אִימַּר”, “imar”, o cordeiro. Segundo o Rashi, ele falava “com lábio frouxo” e não articulava a letra. “Para abater” traduz “לְאִיתְכַּסָּאָה”, explicado pelo Rashi como “cordeiro para abater”. No Sefaria, “(דְּתַנְיָא)”, “como foi ensinado numa baraita”, está entre parênteses, e “[דַּהֲוָה קָאָזֵיל]”, “que ia andando”, entre colchetes; traduzimos o texto com o acréscimo e sem a palavra entre parênteses.

1875A mulher que queria dizer à companheira
A guemará
הָהִיא אִיתְּתָא דְּבָעֲיָא לְמֵימַר לַחֲבֶרְתַּהּ: ״תָּאִי דְּאוֹכְלִיךְ חֲלָבָא״, אֲמַרָה לַהּ: ״שְׁלוּכָתִי, תּוֹכְלִיךָ לָבִיא״.

Aquela mulher que queria dizer à sua companheira: Vem, que te darei de comer leite, disse-lhe em vez disso: Shluchti (minha companheira), que uma leoa te devore.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ta de’ochlich chalva”
תא דאוכליך חלבא - היתה רוצה לומר בואי ואוכליך חלב ואינה מפרשת לחתוך תיבות זו מזו ולהשמיע כל תיבה ותיבה ומצטרפות שתי תיבות כאחת [ומגמגמת התיבות ואומרת תאכליך לביא] ואומרת נמי שלוכתי בכ"ף והיתה רוצה לומר שלובתי בב' כמו משולבות כלומר חברתי:

“Vem, que te darei de comer leite” — ela queria dizer: Vem, e te darei de comer leite; mas não pronuncia distintamente, separando as palavras uma da outra e fazendo ouvir cada palavra, e duas palavras se juntam como uma; e gagueja as palavras e diz: “Que uma leoa te devore”. E diz também “shluchti” com kaf, e queria dizer “shluvti” com bet, como em “meshulavot” (entrelaçadas), isto é, “minha companheira”.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “tochlich lavi”
תוכליך לביא - קללה משמע שתאכלך לביא:

“Que uma leoa te devore” — a expressão soa como maldição: que uma leoa te devore.

Nota

Também aqui o jogo depende do som. Ela queria dizer “תָּאִי דְּאוֹכְלִיךְ חֲלָבָא”, ta’i de’ochlich chalva, “vem, que te darei de comer leite”, mas, juntando as palavras e engolindo a gutural, disse “תּוֹכְלִיךָ לָבִיא”, tochlich lavi, “uma leoa te devore”. Segundo o Rashi, também a palavra de tratamento saiu errada: ela disse “shluchti”, com kaf, querendo dizer “shluvti”, com bet, “minha companheira”, da raiz de “entrelaçadas”; a glosa entre parênteses dá o sentido pretendido. A tradução de referência traduz as duas vezes por “minha vizinha”. No Sefaria, as palavras do Rashi “e gagueja as palavras e diz: Que uma leoa te devore” estão entre colchetes.

1876A mulher diante do juiz
A guemará
הַהִיא אִתְּתָא דְּאָתְיָא לְקַמֵּיהּ דְּדַיָּינָא, אֲמַרָה לֵיהּ: ״מָרִי כִּירִי, תַּפְלָא הֲוָית לִי וְגַנְבוּךְ מִין. וְכַדּוּ הֲווֹת, דְּכַד שָׁדְרוּ לָךְ עִילָּוַיהּ — לָא מָטֵי כַּרְעָיךְ אַאַרְעָא״.

Aquela mulher que veio diante do juiz disse-lhe: Meu senhor, kiri (servo), uma tafla (viga) eu tinha, e te roubaram de mim; e agora era tão grande que, quando te penduram nela, os teus pés não alcançam o chão.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “mari kiri”
מרי כירי - ורוצה לומר קירי והוא אדון ואמרה כירי והוא עבד:

“Meu senhor, kiri” — e queria dizer “kiri” (com kuf), que é senhor, e disse “kiri” (com kaf), que é servo.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “tafla havat li”
תפלא הות לי - רוצה לומר טבלא הות לי ואמרה תפלא והיא קורה:

“Uma tafla eu tinha” — queria dizer: “Uma tavla (tábua) eu tinha”, e disse “tafla”, que é viga.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ugenavuch min”
וגנבוך מין - רוצה לומר גנבוה ממני ואמרה גנבוך מין דמשמע שגנבו את הדיין:

“E te roubaram de” — queria dizer: “Roubaram-na de mim”, e disse: “Roubaram-te de”, o que significa que roubaram o próprio juiz.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “vechadu havat dechi shadru lach iluvah la matyan kar’ach ar’a”
וכדו הות דכי שדרו לך עילויה לא מטיין כרעיך אארעא - גדולה היתה כ"כ שאם מותחין אותך עליה לא היו רגליך נוגעות בארץ והרי שטויות הרבה וכדו משמע עכשיו ובעיא לומר וכדן הות ועוד שהיתה מזכרת תלייה בדיין ואומרת אם תולין אותך עליה כו':

“E agora era, que quando te penduram nela os teus pés não alcançam o chão” — era tão grande que, se te estendessem sobre ela, os teus pés não tocariam o chão. E eis aí muitas tolices: “vechadu” significa “agora”, e ela queria dizer “vechadan havat” (e assim era); e, além disso, ela mencionava enforcamento a respeito do juiz, e dizia: Se te penduram nela etc.

Nota

Cada palavra da queixa saiu trocada, como explica o Rashi. Ela queria dizer “קירי”, com kuf, “meu senhor, senhor” (do grego kyrie), e disse “כִּירִי”, com kaf, que é “servo”; queria dizer “טבלא”, tavla, “uma tábua”, e disse “תַּפְלָא”, tafla, “uma viga”; queria dizer “roubaram-na de mim” e disse “וְגַנְבוּךְ מִין”, “roubaram-te de”, como se tivessem roubado o próprio juiz; e, segundo o Rashi, disse “וְכַדּוּ”, “e agora”, em vez de “וכדן”, “e assim”, e ainda falou em pendurar o juiz. As glosas entre parênteses dão o sentido do que ela de fato disse. Para descrever o tamanho da tábua, ela diz que, se pendurassem o juiz nela, os pés dele não chegariam ao chão. A tradução de referência traduz “e assim era”, sem registrar o erro de “kadu”; seguimos o Rashi, e “tão grande” completa a frase conforme a sua explicação. O lema do Rashi lê “הות”, “דכי”, “מטיין” e “כרעיך”, com pequenas diferenças de grafia em relação à guemará.

A linguagem de sabedoria · בִּלְשׁוֹן חׇכְמָה

1877A criada da casa de Rabi: a elet bate no jarro
A guemará
אַמְהֲתָא דְּבֵי רַבִּי כִּי הֲוָה מִשְׁתַּעְיָא בִּלְשׁוֹן חׇכְמָה, אָמְרָה הָכִי: עֶלֶת נְקַפַת בְּכַד, יִדְאוֹן נִישְׁרַיָּא לְקִינֵּיהוֹן.

A criada da casa de Rabi (Yehuda HaNasi), quando falava em linguagem de sabedoria, dizia assim: A elet (a concha de tirar vinho) bate no jarro (no fundo); que voem as águias para os seus ninhos (isto é, que os alunos vão para casa).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “elet”
עלת - שם כלי שדולין בו יין מן החבית וממלאין הכוסות:

“Elet” — é o nome de um utensílio com que se tira vinho do barril e se enchem os copos.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “nakfat bechad”
נקפת בכד - מנקפת בחבית כלומר כבר כלה היין נוגע בתחתית החבית:

“Bate no jarro” — bate no barril; isto é, o vinho já acabou, e a elet toca o fundo do barril.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “yid’on nishraya lekinehon”
ידאון נישריא לקיניהון - ילכו תלמידים לבתיהם כלומר יפסקו סעודתן [שאין עוד יין]:

“Que voem as águias para os seus ninhos” — que vão os alunos para as suas casas; isto é, que interrompam a sua refeição, pois não há mais vinho.

Nota

Depois da fala grosseira dos da Galil, a guemará traz exemplos de “linguagem de sabedoria” (“לְשׁוֹן חׇכְמָה”), isto é, uma fala velada, por imagens, que, segundo o Rashi (bloco 1879), os outros não entendessem. “Rabi”, sem outro nome, é Rabi Yehuda HaNasi. Segundo o Rashi, a elet é a concha com que se tira vinho do barril; quando ela bate no fundo, o vinho acabou, e os alunos, “as águias”, devem voltar para casa. A glosa entre parênteses segue o Rashi. No lema do Rashi lê-se “נקפת בכד” e “נישריא”, como na guemará, e ele explica “jarro” por “barril” (“חבית”).

1878Que flutue a elet no jarro como um navio no mar
A guemará
וְכַד הֲוָה בָּעֵי דְּלִיתְּבוּן, הֲוָה אָמְרָה לְהוּ: יִעְדֵּי בָּתַר חֲבֶרְתַּהּ מִינַּהּ, וְתִתְקְפֵי עֶלֶת בְּכַד, כְּאִילְפָא דְּאָזְלָא בְּיַמָּא.

E quando se queria que se sentassem (e continuassem), ela lhes dizia: Que se retire a tampa da jarra que vem depois da sua companheira, e flutue a elet no jarro como um navio que vai pelo mar.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “yadei batar chaverta mina”
(או) יעדי בתר חברתה מינה - נסיר מגופת חבית האחרת ונמזוג עוד:

“Que se retire, depois da sua companheira, dela” — retiremos a tampa do outro barril e misturemos mais vinho.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “vetitkefei elet bechad”
ותתקפי עלת בכד - תהא צפה עלת בכד בריוח:

“E flutue a elet no jarro” — que a elet fique flutuando no jarro, com folga (pois está cheio).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ke’ilfa beyama”
כאילפא בימא - כאניה הצפה בים תתקפי כמו אקפו ידייכו בחגיגה (דף טז:) וכמו קפא תהומא דסוכה (דף נג.) צף התהום ועלה:

“Como um navio no mar” — como um navio que flutua no mar. “Titkefei” é como em “akfu yedaichu” (erguei as vossas mãos), em Chaguigá (16b), e como “kafa tehoma”, em Sucá (53a): o abismo flutuou e subiu.

Nota

Quando era para os alunos continuarem sentados, a criada pedia, também por imagens, que se abrisse a jarra seguinte, de modo que a concha flutuasse no vinho como um navio no mar. O verbo “הֲוָה בָּעֵי”, “queria”, está no masculino, e a tradução de referência entende que é Rabi quem queria que eles ficassem; traduzimos de modo impessoal. Segundo o Rashi, “a sua companheira” é o barril seguinte, cuja tampa se retira para misturar mais vinho. O Rashi aproxima “תִתְקְפֵי” de “אקפו ידייכו”, em Chaguigá 16b (conferido), e de “קפא תהומא”, em Sucá 53a (conferido), onde, quando David cavou os alicerces do altar, o abismo subiu e quis inundar o mundo. No Sefaria, o comentário do Rashi começa com “(או)” entre parênteses, sem tradução.

1879Rabi Yossi bar Asyan: um boi em juízo num monte pobre
A guemará
רַבִּי יוֹסֵי בַּר אָסְיָין כִּי הֲוָה מִשְׁתַּעֵי בִּלְשׁוֹן חׇכְמָה, אֲמַר: עֲשׂוּ לִי שׁוֹר בְּמִשְׁפָּט בְּטוּר מִסְכֵּן.

Rabi Yossi bar Asyan, quando falava em linguagem de sabedoria, dizia: Fazei-me um boi em juízo (shor bemishpat) num monte pobre (betur misken).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “bilshon chochmá”
בלשון חכמה - שלא יבינו האחרים:

“Em linguagem de sabedoria” — de modo que os outros não entendessem.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “shor mishpat”
שור משפט - תרדין תור דין שור תור משפט דין:

“Um boi, juízo” — teradin: tor, din; “boi” em aramaico é tor, “juízo” em aramaico é din.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “betur misken”
בטור מסכן - הר דל חרדל:

“Num monte pobre” — har, dal: chardal (mostarda).

Nota

O enigma depende do som. Segundo o Rashi, “שׁוֹר”, “boi”, em aramaico é “תור”, tor, e “מִשְׁפָּט”, “juízo”, em aramaico é “דין”, din: juntos, “tor-din” soa como “תרדין”, teradin, as acelgas (bloco 1873). “טוּר”, “monte” em aramaico, é em hebraico “הר”, har, e “מִסְכֵּן”, “pobre”, é em hebraico “דל”, dal: juntos, “har-dal” soa como “חרדל”, chardal, a mostarda. Rabi Yossi bar Asyan pedia, portanto, acelgas com mostarda. O lema do Rashi diz “שור משפט”, sem a preposição.

1880Homem, boca, este, vivo
A guemará
וְכַד הֲוָה שָׁאֵיל בְּאוּשְׁפִּיזָא, אָמַר הָכִי: גְּבַר פּוּם דֵּין חַי, מַה זּוֹ טוֹבָה יֵשׁ?

E quando perguntava por uma hospedaria, dizia assim: Homem, boca, este, vivo (gevar pum dein chai): que bem é este que há (nele)?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “mishayel be’ushpiza”
משייל באושפיזא - שואל עוברי דרכים בענין אושפזיכני:

“Perguntava por uma hospedaria” — perguntava aos viajantes a respeito do hospedeiro (ushpizechni).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “gevar pum dein chai”
גבר פום דין חי - אוש פי זו חי אוש כמו איש פום כמו פי דין כמו זה:

“Homem, boca, este, vivo” — ush, pi, zo, chai: “ush” como “ish” (homem), “pum” como “pi” (boca), “dein” como “zeh” (este).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ma zo tová yesh”
מה זו טובה יש - כלומר כמה טוב לו:

“Que bem é este que há” — isto é, quanto de bom há para ele?

Nota

Também aqui as palavras devem ser trocadas pelas da outra língua. Segundo o Rashi, “גְּבַר”, “homem”, corresponde ao hebraico “איש”, ish, pronunciado “ush”; “פּוּם”, “boca”, a “פי”, pi; “דֵּין”, “este”, a “זו”/“זה”, zo/zeh; e acrescenta-se “חַי”: “ush-pi-zo-chai”, que soa como o nome do hospedeiro, “אושפיזכני”, ushpizechni. A pergunta “que bem é este que há?” é, segundo o Rashi, “quanto de bom há para ele?”, isto é, como é o hospedeiro. A tradução de referência, seguindo Rabeinu Chananel, lê “חַי” como “cru”, que em aramaico é “na”, e chega a “ushpizachna”, o hospedeiro. A correspondência exata das sílabas é incerta.

1881Rabi Abahu: carvões cor de etrog e dois anunciadores na escuridão
A guemará
רַבִּי אֲבָהוּ כִּי הֲוָה מִשְׁתַּעֵי בִּלְשׁוֹן חׇכְמָה, הֲוָה אָמַר הָכִי: אַתְרִיגוּ לְפֶחָמִין, אַרְקִיעוּ לִזְהָבִין, וַעֲשׂוּ לִי שְׁנֵי מַגִּידֵי בַּעֲלָטָה. אִיכָּא דְּאָמְרִי: וְיַעֲשׂוּ לִי בָּהֶן שְׁנֵי מַגִּידֵי בַּעֲלָטָה.

Rabi Abahu, quando falava em linguagem de sabedoria, dizia assim: Fazei os carvões cor de etrog (a cidra), estendei os dourados, e fazei-me dois anunciadores na escuridão (galos). Há quem diga: E que me façam neles (sobre os carvões) dois anunciadores na escuridão.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “atrigu lefechamin arki’u lizehavin”
אתריגו לפחמין ארקיעו לזהבין - הבעירו את הפחמין להיות אדומין כאתרוג שישטחו גחלים הלוחשות על פי הכירה להתחמם כנגדן:

“Fazei os carvões cor de etrog, estendei os dourados” — acendei os carvões para que fiquem vermelhos como o etrog; que espalhem as brasas acesas sobre a boca do fogão, para se aquecerem diante delas.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “arki’u”
ארקיעו - שטחו כמו רקיע:

“Estendei” — espalhai, como o rakia (o firmamento estendido).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “lizehavin”
לזהבין - גחלים לוחשות אדומות כזהב:

“Os dourados” — são brasas acesas, vermelhas como ouro.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “magidei ba’alatá”
מגידי בעלטה - תרנגולין המודיעין עונות הלילה:

“Anunciadores na escuridão” — são galos, que anunciam as horas da noite.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “bahen”
בהן - על הפחמין:

“Neles” — isto é, sobre os carvões.

Nota

Rabi Abahu pedia, por imagens, que se acendesse o fogo e se assassem dois galos. “Fazei cor de etrog” traduz o verbo “אַתְרִיגוּ”, formado de “etrog”; “estendei” traduz “אַרְקִיעוּ”, da raiz de “רקיע”, o firmamento estendido; segundo o Rashi, “os dourados” são as brasas, que se espalham na boca do fogão para aquecer quem está diante delas, e os “anunciadores na escuridão” são os galos, que anunciam as horas da noite. Segundo a segunda versão, ele pedia que os galos fossem feitos, isto é, assados, sobre as brasas.

1882Onde está escondido Rabi Ilai?
A guemará
אֲמַרוּ לֵיהּ רַבָּנַן לְרַבִּי אֲבָהוּ: הַצְפִּינֵנוּ הֵיכָן רַבִּי אִלְעַאי צָפוּן. אָמַר לָהֶן: עָלַץ בְּנַעֲרָה אַהֲרוֹנִית אַחֲרוֹנִית עֵירָנִית וְהִנְעִירַתּוּ.

Disseram os sábios a Rabi Abahu: Mostra-nos (hatzpinenu) onde Rabi Ilai está escondido (tzafun). Disse-lhes: Rejubilou-se com uma jovem aharonita, a última, desperta, e ela o manteve desperto (aharonit, acharonit, eiranit, vehiniratu).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “hatzpinenu”
הצפיננו - הראנו לשון צופיה הליכות ביתה (משלי לא):

“Mostra-nos” — é linguagem de “Ela observa (tzofiyá) os caminhos da sua casa” (Mishlei 31:27).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “tzafun”
צפון - הוה מתחבא דלא היו יודעים התלמידים להיכן היה והיו שואלים ממנו:

“Escondido” — estava se escondendo, pois os alunos não sabiam onde ele estava, e perguntavam a ele (a Rabi Abahu).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “alatz bena’ará aharonit acharonit eiranit vehiniratu”
עלץ בנערה אהרונית אחרונית עירנית והנעירתו - שמח הלילה בנערה אהרונית ועכשיו הוא ישן:

“Rejubilou-se com uma jovem aharonita, a última, desperta, e ela o manteve desperto” — alegrou-se esta noite com uma jovem aharonita, e agora ele dorme.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “eiranit”
עירנית - בעלת חן וחריפה כאדם ער והנעירתו לא היה יכול לישון:

“Desperta” — graciosa e aguda como uma pessoa desperta; “e ela o manteve desperto”: ele não conseguia dormir.

Nota

A pergunta e a resposta são feitas em linguagem de sabedoria, com jogos de som: “הַצְפִּינֵנוּ”, hatzpinenu, “mostra-nos”, ao lado de “צָפוּן”, tzafun, “escondido”; e, na resposta, “אַהֲרוֹנִית אַחֲרוֹנִית עֵירָנִית וְהִנְעִירַתּוּ”, aharonit, acharonit, eiranit, vehiniratu, quatro palavras de som parecido. Segundo o Rashi, “mostra-nos” vem de “צוֹפִיָּה הֲלִיכוֹת בֵּיתָהּ”, Mishlei 31:27 (conferido), e Rabi Ilai passara a noite desperto com a “jovem” e agora dormia. “Desperta” segue o Rashi, que lê “עֵירָנִית” como “graciosa e aguda como uma pessoa desperta”; a tradução de referência entende, para a leitura da mulher, “da aldeia” (“עִיר”). O sentido da “jovem” é discutido nos blocos seguintes.

1883Há quem diga: uma mulher
A guemará
אָמְרִי לַהּ אִשָּׁה.

Há quem diga que a frase fala de uma mulher.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “amrei la ishá”
אמרי לה אשה - אהרונית בת כהן אחרונית מתה אשתו ראשונה וזו אחרונה:

“Há quem diga: uma mulher” — “aharonita”: filha de kohen; “a última”: morreu a sua primeira mulher, e esta é a última.

Nota

Segundo esta leitura, Rabi Ilai se casara com uma jovem de família de kohanim, descendentes de Aharon, que era a sua última mulher, pois, segundo o Rashi, a primeira morrera; a tradução de referência fala apenas da “segunda” mulher.

1884E há quem diga: um tratado
A guemará
וְאָמְרִי לַהּ מַסֶּכְתָּא.

E há quem diga que a frase fala de um tratado.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “massechta”
מסכתא - אהרונית מסדר קדשים עבודת אהרן אחרונית סיים אחרת והתחיל בזו עירנית עמוקה וחמורה ומעוררת לומדיה:

“Um tratado” — “aharonita”: da ordem de Kodashim, o serviço de Aharon; “a última”: terminou outro e começou este; “desperta”: profundo e difícil, e desperta os que o estudam.

Nota

Segundo esta leitura, a “jovem” é uma massechta: “aharonita”, por ser de Kodashim, a ordem que trata do serviço dos kohanim, descendentes de Aharon; “a última”, por ser a que ele começou depois de terminar outra; “desperta”, por ser profunda e difícil e manter desperto quem a estuda. Rabi Ilai passara a noite estudando e agora dormia.

1885Onde está escondido Rabi Abahu?
A guemará
אָמְרִי לֵיהּ לְרַבִּי אִלְעַאי: הַצְפִּינֵנוּ הֵיכָן רַבִּי אֲבָהוּ [צָפוּן]. אָמַר לָהֶן: נִתְיָיעֵץ בַּמַּכְתִּיר וְהִנְגִּיב לִמְפִיבֹשֶׁת.

Os sábios disseram a Rabi Ilai: Mostra-nos onde Rabi Abahu está escondido. Disse-lhes: Aconselhou-se com o que coroa (o Nasi), e foi para o sul, a Mefiboshet (aos sábios do sul).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “nityaetz bamachtir”
נתיעץ במכתיר - נטל רשות מנשיא מכתיר ע"ש שנותן רשות לסמוך ולקרותו רבי ומאז והלאה הוא כשר להיות מוכתר ליקרא רבי מומחה לרבים ואם טעה לא ישלם:

“Aconselhou-se com o que coroa” — tomou licença do Nasi; é chamado “o que coroa” porque dá licença para ordenar e chamar alguém de “Rabi”, e dali em diante ele está apto a ser coroado, a ser chamado “Rabi”, perito para o público; e, se errar numa decisão, não pagará.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “vehingiv”
והנגיב - והדרים הלך לו לדרום:

“E foi para o sul” — isto é, e rumou ao sul, foi-se para o Darom.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “liMefiboshet”
למפיבושת - לפני זקני דרום שהן חכמים מאד ע"ש שהיה מפיבשת אדם גדול קרי להו הכי:

“A Mefiboshet” — à presença dos anciãos do sul, que são muito sábios; porque Mefiboshet foi um homem grande, a guemará os chama assim.

Nota

Também a resposta de Rabi Ilai vem em linguagem de sabedoria. Segundo o Rashi, “o que coroa” é o Nasi, que dá licença para ordenar e chamar alguém de “Rabi”, coroando-o como perito para o público, que não paga se errar numa decisão; Rabi Abahu tomou licença dele e foi para o sul, aos anciãos do sul, chamados “Mefiboshet” porque Mefiboshet foi um grande sábio, como David o chama “meu mestre” em Berachot 4a, citado pelo Rashi em Eruvin 53a (bloco 1868). “Foi para o sul” traduz “הִנְגִּיב”, do Negev. No Sefaria, “[צָפוּן]”, “está escondido”, está entre colchetes, como acréscimo ao texto.

Rabi Yehoshua ben Chananya: uma mulher, uma menina e um menino · לֹא נִצְּחַנִי אָדָם

1886Nunca me venceu ninguém senão uma mulher, um menino e uma menina
A guemará
אָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן חֲנַנְיָה: מִיָּמַי לֹא נִצְּחַנִי אָדָם חוּץ מֵאִשָּׁה תִּינוֹק וְתִינוֹקֶת. אִשָּׁה מַאי הִיא? פַּעַם אַחַת נִתְאָרַחְתִּי אֵצֶל אַכְסַנְיָא אַחַת, עָשְׂתָה לִי פּוֹלִין בְּיוֹם רִאשׁוֹן — אֲכַלְתִּים וְלֹא שִׁיַּירְתִּי מֵהֶן כְּלוּם. שְׁנִיָּיה, וְלֹא שִׁיַּירְתִּי מֵהֶן כְּלוּם. בְּיוֹם שְׁלִישִׁי הִקְדִּיחָתַן בְּמֶלַח, כֵּיוָן שֶׁטָּעַמְתִּי — מָשַׁכְתִּי יָדַי מֵהֶן.

Disse Rabi Yehoshua ben Chananya: Nunca, em meus dias, me venceu ninguém em palavras, senão uma mulher, um menino e uma menina. O caso da mulher, o que é? Uma vez hospedei-me com uma hospedeira; ela me fez feijões. No primeiro dia, comi-os e não deixei deles nada; no segundo dia, comi-os e não deixei deles nada. No terceiro dia, ela os queimou com sal (salgou-os demais); assim que os provei, retirei deles as minhas mãos.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “lo nitzchani adam”
לא נצחני אדם - בדברים:

“Não me venceu ninguém” — isto é, em palavras.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “hikdichatan”
הקדיחתו - שרפתו כמו כי אש קדחה (דברים ל״ב:כ״ב) כלומר נתנה בו מלח יותר מדאי:

“Queimou-os” — queimou-o, como em “Pois um fogo se acendeu (kadechá) na Minha ira” (Devarim 32:22); isto é, pôs nele sal demais.

Nota

Segundo o Rashi, “venceu” é em palavras. “Hospedeira” traduz “אַכְסַנְיָא”, que aqui designa a dona da hospedagem, pois o verbo seguinte, “עָשְׂתָה”, “fez”, está no feminino. “Queimou-os com sal” traduz literalmente “הִקְדִּיחָתַן בְּמֶלַח”; o Rashi explica pelo verbo de Devarim 32:22 (conferido), “כִּי אֵשׁ קָדְחָה בְאַפִּי”, e diz que ela pôs sal demais. O lema do Rashi lê “הקדיחתו”, no singular, onde a guemará diz “הִקְדִּיחָתַן”, no plural. A tradução de referência explica que, segundo as boas maneiras, devia-se deixar algo no prato, e que ela salgou de propósito; isso se depreende do que ela diz a seguir.

1887Devias ter retirado as mãos do pão
A guemará
אָמְרָה לִי: רַבִּי, מִפְּנֵי מָה אֵינְךָ סוֹעֵד? אָמַרְתִּי לָהּ: כְּבָר סָעַדְתִּי מִבְּעוֹד יוֹם. אָמְרָה לִי: הָיָה לְךָ לִמְשׁוֹךְ יָדֶיךָ מִן הַפַּת!

Disse-me: Rabi, por que não comes a tua refeição? Disse-lhe: Já comi a minha refeição enquanto ainda era dia. Disse-me: Devias ter retirado as tuas mãos do pão e deixado lugar para os feijões!

Nota

Rabi Yehoshua não quis ofender a hospedeira dizendo que a comida estava salgada, e deu uma desculpa; ela respondeu que, se ele já tinha comido, devia ter deixado de comer pão para guardar lugar para os feijões. “Comer a refeição” traduz “סוֹעֵד”, que designa a refeição propriamente dita. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1888Não se deixa pe’á na panela, mas deixa-se na tigela
A guemará
אָמְרָה לִי: רַבִּי, שֶׁמָּא לֹא הִנַּחְתָּ פֵּאָה בָּרִאשׁוֹנִים? וְלֹא כָּךְ אָמְרוּ חֲכָמִים: אֵין מְשַׁיְּירִין פֵּאָה בָּאִלְפָּס, אֲבָל מְשַׁיְּירִין פֵּאָה בַּקְּעָרָה.

Disse-me: Rabi, talvez não tenhas deixado pe’á (um resto no prato) nos primeiros dias? Pois não disseram assim os sábios: Não se deixa pe’á na ilpas (a panela), mas deixa-se pe’á na tigela?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ein meshayrin pe’á ba’ilpas”
אין משיירין פאה באילפס - כשהשמש מערה מן האילפס לתוך הקערה אין דרך להניח באילפס כלום לצורכו אבל כל אחד מניח פאה בקערה ומחזירה לשמש והוא מאכל שמש:

“Não se deixa pe’á na panela” — quando o servente despeja da panela para a tigela, não é costume deixar na panela nada para a sua necessidade; mas cada um deixa pe’á na tigela e a devolve ao servente, e esse é o alimento do servente.

Nota

A hospedeira percebeu que ele deixava o prato por causa do sal e respondeu com elegância: talvez ele estivesse compensando agora o resto que não deixara nos dias anteriores. “Pe’á”, literalmente “canto”, é o nome do canto do campo deixado aos pobres, e aqui, por analogia, a porção deixada no prato. Segundo o Rashi, o costume era não deixar nada na panela, mas cada um deixava uma porção na tigela e a devolvia ao servente, que se alimentava dela. A tradução de referência explica o costume como boas maneiras, segundo os Tosafot.

1889A menina: ladrões como tu o pisaram
A guemará
תִּינוֹקֶת מַאי הִיא? פַּעַם אַחַת הָיִיתִי מְהַלֵּךְ בַּדֶּרֶךְ, וְהָיְתָה דֶּרֶךְ עוֹבֶרֶת בַּשָּׂדֶה, וְהָיִיתִי מְהַלֵּךְ בָּהּ. אָמְרָה לִי תִּינוֹקֶת אַחַת: רַבִּי, לֹא שָׂדֶה הִיא זוֹ? אָמַרְתִּי לָהּ: לֹא, דֶּרֶךְ כְּבוּשָׁה הִיא. אָמְרָה לִי: לִיסְטִים כְּמוֹתְךָ כְּבָשׁוּהָ.

O caso da menina, o que é? Uma vez eu ia andando pelo caminho, e o caminho passava por um campo, e eu ia andando por ele (pelo caminho). Disse-me uma menina: Rabi, não é isto um campo (semeado, por onde não se passa)? Disse-lhe: Não, é um caminho pisado (pelos passantes). Disse-me ela: Ladrões como tu o pisaram.

Nota

O jogo está em “כְּבוּשָׁה”, “pisado”, e “כְּבָשׁוּהָ”, “o pisaram”: o caminho só estava pisado porque pessoas como ele, que não respeitavam o campo alheio, já tinham passado por ali, e “ladrões” é o nome que ela dá a quem anda pelo campo de outro. O hebraico diz “לֹא, דֶּרֶךְ כְּבוּשָׁה הִיא”, “não, é um caminho pisado”; a tradução de referência o traduz como pergunta. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1890O menino: curto e longo, longo e curto
A guemará
תִּינוֹק מַאי הִיא? פַּעַם אַחַת הָיִיתִי מְהַלֵּךְ בַּדֶּרֶךְ, וְרָאִיתִי תִּינוֹק יוֹשֵׁב עַל פָּרָשַׁת דְּרָכִים. וְאָמַרְתִּי לוֹ: בְּאֵיזֶה דֶּרֶךְ נֵלֵךְ לָעִיר? אָמַר לִי: זוֹ קְצָרָה וַאֲרוּכָּה, וְזוֹ אֲרוּכָּה וּקְצָרָה. וְהָלַכְתִּי בִּקְצָרָה וַאֲרוּכָּה, כֵּיוָן שֶׁהִגַּעְתִּי לָעִיר מָצָאתִי שֶׁמַּקִּיפִין אוֹתָהּ גַּנּוֹת וּפַרְדֵּיסִין.

O caso do menino, o que é? Uma vez eu ia andando pelo caminho e vi um menino sentado numa encruzilhada. E disse-lhe: Por qual caminho iremos à cidade? Disse-me: Este caminho é curto e longo, e este outro é longo e curto. E fui pelo caminho curto e longo. Quando cheguei à cidade, encontrei que a rodeavam hortas e pomares (e não havia por onde entrar).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “parashat drachim”
פרשת דרכים - דרך פורש לכאן ולכאן:

“Encruzilhada” — lugar onde o caminho se separa para cá e para lá.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “aruká”
ארוכה - שמאריך הדרך:

“Longo” — que alonga o caminho.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “uktzará”
וקצרה - שמוציא מבוי העיר פנוי ליכנס:

“E curto” — que leva a uma rua da cidade livre para entrar.

Nota

Segundo o Rashi, o primeiro caminho é curto na distância, mas “longo” porque alonga a viagem, já que não tem entrada para a cidade; o segundo é longo na distância, mas “curto” porque leva a uma rua livre por onde se entra na cidade. As palavras finais entre parênteses explicitam o que se segue do Rashi.

1891Felizes sois vós, Israel
A guemará
חָזַרְתִּי לַאֲחוֹרַי. אָמַרְתִּי לוֹ: בְּנִי, הֲלֹא אָמַרְתָּ לִי קְצָרָה? אָמַר לִי: וְלֹא אָמַרְתִּי לְךָ אֲרוּכָּה? נְשַׁקְתִּיו עַל רֹאשׁוֹ, וְאָמַרְתִּי לוֹ: אַשְׁרֵיכֶם יִשְׂרָאֵל שֶׁכּוּלְּכֶם חֲכָמִים גְּדוֹלִים אַתֶּם, מִגְּדוֹלְכֶם וְעַד קְטַנְּכֶם.

Voltei para trás e encontrei-o, e disse-lhe: Meu filho, não me disseste que este era curto? Disse-me ele: E não te disse também longo? Beijei-o na cabeça e disse-lhe: Felizes sois vós, Israel, pois todos vós sois grandes sábios, do vosso grande até o vosso pequeno.

Nota

O menino tinha dito a verdade: o caminho era curto, mas também longo. Rabi Yehoshua reconhece a derrota e louva a sabedoria de todo Israel, dos grandes aos pequenos. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

Beruria · בְּרוּרְיָה

1892Beruria: Galileu tolo, por qual a Lod
A guemará
רַבִּי יוֹסֵי הַגְּלִילִי הֲוָה קָא אָזֵיל בְּאוֹרְחָא, אַשְׁכְּחַהּ לִבְרוּרְיָה אֲמַר לַהּ: בְּאֵיזוֹ דֶּרֶךְ נֵלֵךְ לְלוֹד? אֲמַרָה לֵיהּ: גָּלִילִי שׁוֹטֶה, לֹא כָּךְ אָמְרוּ חֲכָמִים: אַל תַּרְבֶּה שִׂיחָה עִם הָאִשָּׁה?! הָיָה לְךָ לוֹמַר: ״בְּאֵיזֶה לְלוֹד״.

Rabi Yossi HaGlili ia andando pelo caminho; e encontrou Beruria e disse-lhe: Por qual caminho iremos a Lod? Disse-lhe ela: Galileu tolo, não disseram assim os sábios: Não multipliques conversa com a mulher (Pirkei Avot 1:5)? Tu devias ter dito: Por qual a Lod?

Nota

Beruria cita a mishná de Pirkei Avot 1:5 (conferido), dita por Yossi ben Yochanan de Yerushalaim: “וְאַל תַּרְבֶּה שִׂיחָה עִם הָאִשָּׁה”, “e não multipliques conversa com a mulher”. Segundo ela, Rabi Yossi HaGlili deveria ter perguntado com o mínimo de palavras, “בְּאֵיזֶה לְלוֹד”, “por qual a Lod?”, sem “caminho iremos”. O “Galileu tolo” retoma o tema da fala descuidada dos da Galil (bloco 1874). O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1893Beruria e o aluno que estudava em sussurro
A guemará
בְּרוּרְיָה אַשְׁכַּחְתֵּיהּ לְהַהוּא תַּלְמִידָא דַּהֲוָה קָא גָרֵיס בִּלְחִישָׁה.

Beruria encontrou um certo aluno que estava repetindo o seu estudo em sussurro.

Nota

“Repetindo o seu estudo” traduz “גָרֵיס”, que designa o estudo pela repetição do texto. A história continua em Eruvin 54a, com a repreensão de Beruria ao aluno. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

O daf termina aqui, no começo da história de Beruria e do aluno que estudava em sussurro: depois de completar o versículo sobre Shaul e do perdão que lhe foi concedido, a guemará trata da precisão dos de Yehuda e do descuido dos da Galil na linguagem, traz exemplos de linguagem de sabedoria, as três vezes em que Rabi Yehoshua ben Chananya foi vencido e a resposta de Beruria a Rabi Yossi HaGlili. A guemará prossegue em Eruvin 54a.