Talmud Bavli · Massechet Eruvin · Perek Heh (Keitzad Meabrin) · 53a
כֵּיצַד מְעַבְּרִין

O fim da mishná: a tábua quadrada; me’abrin com alef ou com ayin; a Me’arat HaMachpelá, Amrafel e o novo rei; Rabi Yochanan e Rabi Oshaya Beribi; o coração dos primeiros; os de Yehuda e os da Galil

Eruvin 53a — Perek Heh (Keitzad Meabrin, Eruvin 52b:16-61b:10) · o fim da Mishná Eruvin 5:1: pontes e nefashot com moradia; estende-se a medida diante deles; como uma tábua quadrada, para ganhar os cantos · Rav e Shmuel: me’abrin com ayin ou com alef; membro por membro, ou como a mulher grávida · a Me’arat HaMachpelá: duas casas, uma dentro da outra, ou uma casa e um andar sobre ela; dupla em casais; Kiryat Arba · Amrafel e Nimrod · “e levantou-se um novo rei sobre o Egito”: novo de fato, ou renovaram-se os seus decretos · siman · Rabi Yochanan: dezoito dias junto a Rabi Oshaya Beribi, e só aprendeu “com alef”; os doze alunos · quatro numa amá, seis numa amá · como Rabi Meir na sua geração · o coração dos primeiros como a entrada do Ulam; Rabi Akiva e Rabi Elazar ben Shamua · Abaye, Rava e Rav Ashi: a estaca, a cera e o poço · os de Yehuda e os da Galil: a linguagem, os sinais, um só mestre; Ravina: revelavam a massechta · David e Shaul · continua de Eruvin 52b; continua em Eruvin 53b

O daf começa completando a primeira mishná do Perek Heh (Keitzad Meabrin), iniciada em Eruvin 52b: também as pontes e os monumentos sepulcrais com moradia fazem estender a medida da cidade, e o contorno se faz como uma tábua quadrada, para ganhar os cantos. A guemará abre com a discussão de Rav e Shmuel sobre a palavra da mishná, “me’abrin” com ayin, como a mulher grávida, ou com alef, membro por membro, e traz outras três discussões entre eles sobre o sentido de uma palavra: a Me’arat HaMachpelá, duas casas uma dentro da outra ou uma casa com um andar sobre ela, e dupla em casais, como Kiryat Arba, a cidade dos quatro casais; Amrafel e Nimrod; e o novo rei sobre o Egito, novo de fato ou com decretos renovados. Depois de um siman, Rabi Yochanan conta que passou dezoito dias junto a Rabi Oshaya Beribi e só aprendeu dele que “me’abrin” se escreve com alef, embora tenha conhecido o coração e a sabedoria dos seus doze alunos; fala da multidão de alunos, quatro numa amá junto a Rabi Oshaya e seis numa amá junto a Rabi Elazar ben Shamua, compara Rabi Oshaya a Rabi Meir e diz que o coração dos primeiros era como a entrada do Ulam, o dos últimos como a do Heichal, e o nosso como o buraco de uma agulha fina; Abaye, Rava e Rav Ashi acrescentam as imagens da estaca, da cera e do poço. Por fim, Rav explica por que a Torá se manteve nas mãos dos de Yehuda e não nas dos da Galil: a precisão da linguagem e os sinais, o aprender de um só mestre e, segundo Ravina, o revelar a massechta, como fazia David e não fazia Shaul; o daf termina no meio do versículo sobre Shaul.

A Mishná (continuação): pontes, monumentos e a tábua quadrada · כְּמִין טַבְלָא מְרוּבַּעַת

1845Estende-se a medida diante deles
Mishná
וּגְשָׁרִים וּנְפָשׁוֹת שֶׁיֵּשׁ בָּהֶן בֵּית דִּירָה — מוֹצִיאִין אֶת הַמִּדָּה כְּנֶגְדָּן. וְעוֹשִׂין אוֹתָהּ כְּמִין טַבְלָא מְרוּבַּעַת, כְּדֵי שֶׁיְּהֵא נִשְׂכָּר אֶת הַזָּוִיּוֹת.

e pontes e nefashot (monumentos sobre túmulos) em que há moradia, estende-se a medida do techum diante deles (como se houvesse construções também no canto vizinho); e fazem-na (a medida) como uma espécie de tábua quadrada, para que a cidade ganhe os cantos.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “o gesharim o nefashot”
או גשרים או נפשות - כעין שעושין על הקבר:

“Ou pontes ou nefashot” — nefashot são como a construção que fazem sobre o túmulo.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “motzi’in et hamidá kenegdan”
מוציאין את המדה כנגדן - אם בליטות הללו אצל קרן מזרחית צפונית רואין כאילו יש בליטה אחרת כנגדה בקרן מזרחית דרומית וחוט מתוח מזו לזו ומודד מן החוט ולחוץ כדי שיהא התחום שוה לשתי קרנות ולא יהא כאן קצר וכאן ארוך:

“Estende-se a medida diante deles” — se estas saliências estão junto ao canto nordeste, vê-se como se houvesse outra saliência diante dela, no canto sudeste, e como se houvesse um fio estendido desta àquela, e mede-se do fio para fora, para que o techum seja igual nos dois cantos, e não seja aqui curto e ali comprido.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ve’ossin otan”
ועושין אותן - את התחומין מרובעין כדי שיהא אלפים לצדדין כבאמצע ולא עגולין שיהא להן אלפים באמצען ובצדדין הן מתמעטין כדרך כל עגול ובעיר מרובעת עסקינן שאין בה אלא אלפים על אלפים דהוו נמי תחומין מרובעים ואם אינה מרובעת כגון שהיא יתירה על אלפים לאורכה או פחותה מאלפים לא הוו מרובעין דתחומין מרובעין לאו דווקא שיהא ארכן כרחבן שהרי רחבן למידת העיר היא אם קטנה אם גדולה וארכן אלפים אלא מרובעין דקתני למעוטי עגולין כדי שיהא נשכר את הזויות:

“E fazem-nos” — os techumin, quadrados, para que haja duas mil amot nos lados como no meio; e não redondos, que tenham duas mil no seu meio e nos lados se diminuam, como é o modo de todo círculo. E tratamos de uma cidade quadrada, em que não há senão duas mil por duas mil, de modo que os techumin também são quadrados; e, se não é quadrada, por exemplo, se é maior que duas mil no seu comprimento, ou menor que duas mil, os techumin não são quadrados; pois “techumin quadrados” não quer dizer exatamente que o seu comprimento seja como a sua largura, já que a sua largura é segundo a medida da cidade, seja pequena, seja grande, e o seu comprimento, duas mil; mas o “quadrados” que a mishná ensina vem excluir os redondos, “para que ganhe os cantos”.

Nota

Continuação da Mishná Eruvin 5:1 (conferido), que começou em Eruvin 52b (bloco 1844): depois das casas e torres que entram e saem da linha e dos restos de muros de dez palmos, a mishná acrescenta as pontes e os monumentos sepulcrais que têm moradia; diante de todos eles se estende a medida, e então se faz o contorno como uma tábua quadrada. “Nefashot” são, segundo o Rashi, as construções sobre os túmulos. Segundo o Rashi, “estende-se a medida diante deles” quer dizer que uma saliência num canto da cidade é vista como se houvesse outra igual no canto vizinho, com um fio estendido entre elas, e mede-se a partir do fio, para que o techum fique igual nos dois cantos. O Rashi lê “e fazem-nos” (“ועושין אותן”) como referido aos techumin, que se medem quadrados e não redondos; por isso traduzimos o feminino “אוֹתָהּ” por “a medida”, a palavra feminina que o precede. A tradução de referência entende que é a própria cidade que se faz como uma tábua quadrada antes de medir o techum. O Rashi explica ainda que “quadrados” não exige comprimento igual à largura: a largura de cada faixa do techum segue o lado da cidade, e o comprimento é de duas mil amot; numa cidade de duas mil amot de lado, cada faixa seria um quadrado de duas mil por duas mil. Na edição avulsa lê-se “כְנֶגְדָּן” e “מְרֻבַּעַת”, onde o Talmud diz “כְּנֶגְדָּן” e “מְרוּבַּעַת”; são diferenças de grafia.

Guemará: me’abrin com alef ou com ayin · מְעַבְּרִין וּמְאַבְּרִין

1846Rav e Shmuel: um ensinava com ayin, outro com alef
A guemará
גְּמָ׳ רַב וּשְׁמוּאֵל: חַד תָּנֵי ״מְעַבְּרִין״ וְחַד תָּנֵי ״מְאַבְּרִין״.

GUEMARÁ. Rav e Shmuel discordam: um ensinava “me’abrin” (com a letra ayin), e o outro ensinava “me’abrin” (com a letra alef).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “gemara: chad tanei me’abrin”
גמ' חד תני מאברין - באלף:

GUEMARÁ. “Um ensinava me’abrin” — isto é, com alef.

Nota

As duas palavras soam igual em português, e por isso indicamos a letra entre parênteses: “מְעַבְּרִין”, com a letra ayin, e “מְאַבְּרִין”, com a letra alef. O Rashi precisa que a segunda forma é a com alef. Não está dito qual dos dois, Rav ou Shmuel, ensinava cada forma.

1847Membro por membro; como a mulher e o seu feto
A guemará
מַאן דְּתָנֵי ״מְאַבְּרִין״ — אֵבֶר אֵבֶר, וּמַאן דְּתָנֵי ״מְעַבְּרִין״ — כְּאִשָּׁה עוּבָּרָהּ.

Quem ensina “me’abrin” com a letra alef, entende-o no sentido de ever ever (membro por membro); e quem ensina “me’abrin” com a letra ayin, entende-o assim: como a mulher grávida do seu feto.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ever ever”
אבר אבר - שמוסיפין לה אברים שאם יש אבר שיוצא מן העיר בקרן מזרחית דרומית רואין כאילו אבר גם בקרן מזרחית צפונית ומודדין משם:

“Membro, membro” — que se lhe acrescentam membros; pois, se há um membro que sai da cidade no canto sudeste, vê-se como se houvesse um membro também no canto nordeste, e mede-se a partir dali.

Nota

Com alef, a palavra é lida a partir de “אֵבֶר”, “membro”: acrescentam-se à cidade membros, como explica o Rashi, que imagina um membro igual no canto vizinho ao da saliência (ver o bloco 1845). Com ayin, é lida a partir de “עוּבָּרָהּ”, “o seu feto”: a cidade se estende como o ventre da mulher grávida; assim o Rashi já explicou em Eruvin 52b (bloco 1844), “linguagem de mulher grávida”. As palavras “grávida do” completam a expressão concisa do hebraico, literalmente “como a mulher, o seu feto”.

Rav e Shmuel: a Me’arat HaMachpelá · מְעָרַת הַמַּכְפֵּלָה

1848Duas casas, ou uma casa e um andar sobre ela
A guemará
מְעָרַת הַמַּכְפֵּלָה, רַב וּשְׁמוּאֵל, חַד אָמַר: שְׁנֵי בָתִּים זֶה לִפְנִים מִזֶּה, וְחַד אָמַר: בַּיִת וַעֲלִיָּיה עַל גַּבָּיו.

Sobre a Me’arat HaMachpelá (a caverna dupla), Rav e Shmuel discordam. Um disse: Duas casas, uma mais para dentro que a outra; e o outro disse: Uma casa, e um andar superior sobre ela.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “me’arat hamachpelá”
מערת המכפלה - משום דפליגי במשמעות לשון מכפלה נקט לה הכא משום דפליגי נמי בלישנא דמתניתין וכן באמרפל וכן במלך חדש:

“A Me’arat HaMachpelá” — porque discordam no sentido da palavra “machpelá”, a guemará a menciona aqui, porque discordam também na linguagem da nossa mishná; e assim também em Amrafel, e assim no rei novo.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “shnei batim”
שני בתים - היו בה זה לפנים מזה:

“Duas casas” — havia nela, uma mais para dentro que a outra.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “bayit va’aliya”
בית ועליה - הוי כפולה בשתי תקרות אבל שני בתים לא שייך בהו לשון כפולה:

“Uma casa e um andar superior” — é dupla, com dois tetos; mas a duas casas lado a lado não se aplica a linguagem de “dupla”.

Nota

A caverna que Avraham comprou de Efron é chamada “מְעָרַת הַמַּכְפֵּלָה” em Bereshit 23:9 e 23:19 (conferidos). Segundo o Rashi, a guemará traz aqui esta discussão e as duas seguintes, sobre Amrafel e sobre o rei novo, porque nelas Rav e Shmuel também discordam no sentido de uma palavra, como discordaram na palavra da nossa mishná. O segundo comentário do Rashi vem no Sefaria com um pequeno desenho das duas casas, uma dentro da outra, que reproduzimos junto ao hebraico. O lema do terceiro comentário, “בית ועליה”, resume a palavra da guemará, “בַּיִת וַעֲלִיָּיה עַל גַּבָּיו”.

1849Para quem disse duas casas, o que é “Machpelá”?
A guemará
בִּשְׁלָמָא לְמַאן דְּאָמַר זֶה עַל גַּב זֶה — הַיְינוּ ״מַכְפֵּלָה״. אֶלָּא לְמַאן דְּאָמַר שְׁנֵי בָתִּים זֶה לִפְנִים מִזֶּה, מַאי ״מַכְפֵּלָה״?

Bem está para quem disse que eram uma sobre a outra: isso é o sentido de “Machpelá” (dupla). Mas para quem disse que eram duas casas, uma mais para dentro que a outra, o que é “Machpelá”?

Nota

Duas casas em sequência, uma atrás da outra, são coisa comum e não justificam o nome “dupla”, como diz o Rashi no bloco anterior. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1850Dupla em casais; Kiryat Arba, a cidade dos quatro casais
A guemará
שֶׁכְּפוּלָה בְּזוּגוֹת. ״מַמְרֵא קִרְיַת אַרְבַּע״, אָמַר רַבִּי יִצְחָק, קִרְיַת הָאַרְבַּע זוּגוֹת: אָדָם וְחַוָּה, אַבְרָהָם וְשָׂרָה, יִצְחָק וְרִבְקָה, יַעֲקֹב וְלֵאָה.

É chamada assim porque é dupla em casais. Como está escrito: “Mamre, Kiryat Arba” (Bereshit 35:27); disse Rabi Yitzchak: É chamada “cidade dos quatro” por causa dos quatro casais que estão sepultados ali: Adam e Chavá, Avraham e Sará, Yitzchak e Rivká, Yaakov e Leá.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “shekefulá bezugot”
שכפולה בזוגות - שנקברו כולן איש ואשתו דהיינו זוג זוג דכתיב (בראשית מ״ט:ל״א) שמה קברו את אברהם ואת שרה וגו':

“Que é dupla em casais” — que foram enterrados todos, um homem e a sua mulher, isto é, casal por casal, como está escrito (Bereshit 49:31): “Ali enterraram Avraham e Sará” etc.

Nota

Para quem diz que eram duas casas em sequência, o nome “Machpelá” não descreve a construção, mas os que ali estão: foi “duplicada” por casais. O versículo citado é Bereshit 35:27 (conferido), “E Yaakov veio a Yitzchak, seu pai, a Mamre, Kiryat HaArba, que é Chevron”; no versículo lê-se “קִרְיַת הָאַרְבַּע”, com o artigo, e a guemará cita “קִרְיַת אַרְבַּע”, sem ele, como em Yehoshua 14:15 (conferido); Rabi Yitzchak diz “קִרְיַת הָאַרְבַּע זוּגוֹת”. O versículo do Rashi é Bereshit 49:31 (conferido): “Ali enterraram Avraham e Sará, sua mulher; ali enterraram Yitzchak e Rivká, sua mulher; e ali enterrei Leá.” Adam e Chavá vêm da tradição de Rabi Yitzchak, e não desse versículo.

Amrafel e Nimrod · אַמְרָפֶל

1851Disse e lançou; fez rebelar o mundo inteiro
A guemará
״וַיְהִי בִּימֵי אַמְרָפֶל״, רַב וּשְׁמוּאֵל, חַד אָמַר: נִמְרוֹד שְׁמוֹ. וְלָמָּה נִקְרָא שְׁמוֹ אַמְרָפֶל? שֶׁאָמַר וְהִפִּיל לְאַבְרָהָם אָבִינוּ בְּתוֹךְ כִּבְשַׁן הָאֵשׁ, וְחַד אָמַר: אַמְרָפֶל שְׁמוֹ, וְלָמָּה נִקְרָא שְׁמוֹ נִמְרוֹד? שֶׁהִמְרִיד אֶת כָּל הָעוֹלָם כּוּלּוֹ עָלָיו בְּמַלְכוּתוֹ.

“E foi nos dias de Amrafel” (Bereshit 14:1): Rav e Shmuel discordam. Um disse: Nimrod era o seu nome; e por que foi chamado o seu nome Amrafel? Porque disse (amar) e lançou (hipil) Avraham, nosso pai, dentro da fornalha de fogo. E o outro disse: Amrafel era o seu nome; e por que foi chamado o seu nome Nimrod? Porque fez rebelar (himrid) o mundo inteiro contra ele no seu reinado.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “alav”
עליו - כלפי מעלה אלא שכינו חכמים בלשונם:

“Contra ele” — isto é, contra o Alto; mas os sábios o disseram em linguagem eufemística.

Nota

Para ambos, Amrafel, rei de Shinar (Bereshit 14:1, conferido), é Nimrod; a discussão é qual dos dois é o nome próprio e qual é o apelido. “Amrafel” é lido como “אָמַר וְהִפִּיל”, “disse e lançou”, isto é, ordenou que Avraham fosse lançado à fornalha; “Nimrod” é lido a partir de “הִמְרִיד”, “fez rebelar”. Segundo o Rashi, “contra ele” não se refere ao próprio Nimrod, mas a Deus (“כלפי מעלה”, literalmente “para o Alto”): os sábios evitaram dizer “contra Deus” e usaram uma linguagem velada; mantemos no texto o literal “contra ele”. A tradução de referência traz “contra Deus”.

Um novo rei sobre o Egito · מֶלֶךְ חָדָשׁ

1852Novo de fato, ou renovaram-se os seus decretos
A guemará
״וַיָּקׇם מֶלֶךְ חָדָשׁ עַל מִצְרָיִם״, רַב וּשְׁמוּאֵל, חַד אָמַר: חָדָשׁ מַמָּשׁ, וְחַד אָמַר: שֶׁנִּתְחַדְּשׁוּ גְּזֵירוֹתָיו.

“E levantou-se um novo rei sobre o Egito” (Shemot 1:8): Rav e Shmuel discordam. Um disse: Era novo de fato; e o outro disse: Era o mesmo rei, mas renovaram-se os seus decretos.

Nota

Shemot 1:8 (conferido): “E levantou-se um novo rei sobre o Egito, que não conhecia Yossef.” As palavras “era o mesmo rei, mas” explicitam o que está implícito na segunda opinião, como mostra o bloco seguinte. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1853Não está escrito “e morreu, e reinou”
A guemará
מַאן דְּאָמַר חָדָשׁ מַמָּשׁ — דִּכְתִיב ״חָדָשׁ״, וּמַאן דְּאָמַר שֶׁנִּתְחַדְּשׁוּ גְּזֵירוֹתָיו — מִדְּלָא כְּתִיב ״וַיָּמׇת וַיִּמְלוֹךְ״.

Quem disse que era novo de fato: porque está escrito “novo”; e quem disse que se renovaram os seus decretos: do fato de não estar escrito “E morreu um rei, e reinou outro”.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “midelo ketiv vayamat”
מדלא כתיב וימת - זה וימלוך פלוני תחתיו:

“Do fato de não estar escrito ‘E morreu’” — fulano, este, “e reinou fulano em seu lugar”.

Nota

Quando a Torá fala da sucessão de um rei, diz “e morreu fulano, e reinou em seu lugar fulano”, como na lista dos reis de Edom, por exemplo em Bereshit 36:33 (conferido), “E morreu Bela, e reinou em seu lugar Yovav”; como no Egito não está escrito assim, entende-se que o rei era o mesmo. As palavras “um rei” e “outro” completam a citação abreviada da guemará, conforme o Rashi.

1854“Que não conhecia Yossef”
A guemará
וּלְמַאן דְּאָמַר שֶׁנִּתְחַדְּשׁוּ גְּזֵירוֹתָיו, הָא כְתִיב ״אֲשֶׁר לֹא יָדַע אֶת יוֹסֵף״? מַאי ״אֲשֶׁר לֹא יָדַע אֶת יוֹסֵף״ — דַּהֲוָה דָּמֵי כְּמַאן דְּלָא יָדַע לֵיהּ לְיוֹסֵף כְּלָל.

E, para quem disse que se renovaram os seus decretos, eis que está escrito: “Que não conhecia Yossef” (Shemot 1:8)? Se era o mesmo rei, como não o conhecia? O que significa “que não conhecia Yossef”? Que ele era semelhante a quem não conhecia Yossef de modo algum.

Nota

A pergunta “se era o mesmo rei, como não o conhecia?” explicita a dificuldade implícita na guemará. A resposta é que o rei agia como se nunca tivesse conhecido Yossef, esquecendo o bem que ele fizera ao Egito. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

Sinal · סִימָן

1855Dezoito e doze, aprendemos, em David, e construiu
A guemará
(סִימָן: שְׁמוֹנֶה עֶשְׂרֵה וּשְׁנֵים עָשָׂר לָמַדְנוּ בְּדָוִד וַיִּבֶן.)

Siman (sinal mnemônico): “Dezoito” e “doze”; “aprendemos”; “em David”; “e construiu”.

Nota

Este segmento, entre parênteses no Sefaria, é um siman, uma sequência de palavras-chave que serve para memorizar a ordem das tradições que se seguem; não é uma frase com sentido próprio, e por isso o traduzimos palavra por palavra, separando as palavras-chave por aspas. “Dezoito” lembra os dezoito dias de Rabi Yochanan junto a Rabi Oshaya (bloco 1856), e “doze”, os doze alunos de Rabi Oshaya (bloco 1857); “em David” lembra a tradição sobre David e Shaul (bloco 1868). A que tradições se referem exatamente “aprendemos” (“לָמַדְנוּ”) e “e construiu” (“וַיִּבֶן”) não está claro; “e construiu” traduz a vocalização do Sefaria, e a tradução de referência lê “e ele entenderá”, de outra raiz. Esta identificação é incerta.

Rabi Yochanan e Rabi Oshaya Beribi · רַבִּי אוֹשַׁעְיָא בְּרִיבִּי

1856Dezoito dias, e uma só coisa: com alef
A guemará
אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: שְׁמוֹנָה עָשָׂר יָמִים גִּידַּלְתִּי אֵצֶל רַבִּי אוֹשַׁעְיָא בְּרִיבִּי וְלֹא לָמַדְתִּי מִמֶּנּוּ אֶלָּא דָּבָר אֶחָד בְּמִשְׁנָתֵינוּ: כֵּיצַד מְאַבְּרִין אֶת הֶעָרִים — בְּאָלֶף.

Disse Rabi Yochanan: Dezoito dias cresci junto a Rabi Oshaya Beribi (o grande da sua geração), e não aprendi dele senão uma coisa na nossa mishná: que em “Como se faz o ibur (me’abrin) das cidades”, a palavra se escreve com alef.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Oshaya Beribi”
אושעיא בריבי - אדם גדול בדורו וכל היכי דקרי בריבי הכי פירושו:

“Oshaya Beribi” — isto é, homem grande na sua geração; e em todo lugar onde a guemará chama alguém “Beribi”, assim é a explicação.

Nota

“Cresci junto a” traduz literalmente “גִּידַּלְתִּי אֵצֶל”, isto é, passei esse tempo como discípulo dele. O título “Beribi” é explicado pelo Rashi como “homem grande na sua geração”. A coisa aprendida é a da discussão de Rav e Shmuel no bloco 1846: a palavra da mishná se lê “מְאַבְּרִין”, com alef. Em português a frase da mishná é a mesma do bloco 1844, e por isso indicamos a palavra hebraica entre parênteses.

1857Doze alunos: o coração e a sabedoria de cada um
A guemará
אִינִי?! וְהָאָמַר רַבִּי יוֹחָנָן שְׁנֵים עָשָׂר תַּלְמִידִים הָיוּ לוֹ לְרַבִּי אוֹשַׁעְיָא בְּרִיבִּי, וּשְׁמוֹנָה עָשָׂר יָמִים גִּידַּלְתִּי בֵּינֵיהֶן, וְלָמַדְתִּי לֵב כׇּל אֶחָד וְאֶחָד, וְחׇכְמַת כׇּל אֶחָד וְאֶחָד?

É assim que só aprendeu uma coisa?! Mas não disse Rabi Yochanan: Doze alunos tinha Rabi Oshaya Beribi, e dezoito dias cresci entre eles (os alunos), e aprendi o coração de cada um e a sabedoria de cada um deles? Então aprendeu ali mais de uma coisa!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “lev kol echad ve’echad”
לב כל אחד ואחד - כמה היה מחודד כלומר בכולן הכרתי מה חריפות יש מזה לזה:

“O coração de cada um” — quão aguçado era; isto é, em todos eles reconheci que agudeza há de um para outro.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “vechochmat kol echad ve’echad”
וחכמת כל אחד ואחד - כמה זה חכם מזה וכמה למד יותר ממנו:

“E a sabedoria de cada um” — quanto este é mais sábio que aquele, e quanto estudou mais que ele.

Nota

A dificuldade: se Rabi Yochanan conheceu tão bem os alunos de Rabi Oshaya, como diz que aprendeu ali uma só coisa? A frase final em itálico explicita a pergunta. Segundo o Rashi, “o coração” é a agudeza de cada um, e “a sabedoria”, o quanto cada um sabia e tinha estudado em comparação com os outros.

1858Três respostas
A guemará
לֵב כׇּל אֶחָד וְאֶחָד וְחׇכְמַת כׇּל אֶחָד וְאֶחָד גְּמַר, גְּמָרָא — לָא גְּמַר. אִיבָּעֵית אֵימָא: מִנַּיְיהוּ דִּידְהוּ — גְּמַר, מִינֵּיהּ דִּידֵיהּ — לָא גְּמַר. וְאִיבָּעֵית אֵימָא: דָּבָר אֶחָד בְּמִשְׁנָתֵינוּ קָאָמַר.

O coração de cada um e a sabedoria de cada um aprendeu; guemará (a tradição do estudo) não aprendeu. Se quiseres, diz: deles, dos alunos mesmos, aprendeu muito; dele, de Rabi Oshaya mesmo, não aprendeu senão uma coisa. E, se quiseres, diz: Rabi Yochanan disse “uma coisa na nossa mishná”, mas aprendeu dele outras coisas fora da mishná.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ibaít eima”
איבעית אימא - במשנתינו לא למד אלא דבר אחד אבל ברייתות וגמרות גמר טובא:

“Se quiseres, diz” — na nossa mishná não aprendeu senão uma coisa, mas baraitot e explicações da guemará aprendeu muito.

Nota

Três respostas: Rabi Yochanan conheceu os alunos, mas não aprendeu deles a tradição; ou aprendeu dos alunos, mas do próprio Rabi Oshaya só aprendeu uma coisa; ou de Rabi Oshaya só aprendeu uma coisa na mishná, mas aprendeu muito nas baraitot e nas explicações. O comentário do Rashi, com o lema “איבעית אימא”, explica a terceira resposta, e as palavras finais em itálico do bloco seguem a sua explicação. “Guemará” aqui é o conteúdo transmitido pelo mestre, como na fala de Abaye no bloco 1863.

1859Quatro numa amá; seis numa amá
A guemará
וְאָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: כְּשֶׁהָיִינוּ לוֹמְדִין תּוֹרָה אֵצֶל רַבִּי אוֹשַׁעְיָא, הָיִינוּ יוֹשְׁבִין אַרְבָּעָה אַרְבָּעָה בְּאַמָּה. אָמַר רַבִּי: כְּשֶׁהָיִינוּ לוֹמְדִין תּוֹרָה אֵצֶל רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן שַׁמּוּעַ, הָיִינוּ יוֹשְׁבִין שִׁשָּׁה שִׁשָּׁה בְּאַמָּה.

E disse Rabi Yochanan: Quando estudávamos Torá junto a Rabi Oshaya, sentávamos em grupos de quatro em cada amá. Disse Rabi (Yehuda HaNasi): Quando estudávamos Torá junto a Rabi Elazar ben Shamua, sentávamos seis em cada amá.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “shishá ba’amá”
ששה באמה - שהיינו מתקרבין לשמוע מפיו ודוחקין זה את זה:

“Seis numa amá” — pois nos aproximávamos para ouvir da sua boca, e nos apertávamos uns aos outros.

Nota

O hebraico repete os números, “quatro, quatro” e “seis, seis”, o que indica distribuição; daí “em grupos de” e “em cada”. “Rabi”, sem outro nome, é Rabi Yehuda HaNasi, que foi aluno de Rabi Elazar ben Shamua. Segundo o Rashi, os alunos se apertavam para ficar perto do mestre e ouvir da sua boca.

1860Como Rabi Meir na sua geração
A guemará
אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: רַבִּי אוֹשַׁעְיָא בְּרִיבִּי בְּדוֹרוֹ כְּרַבִּי מֵאִיר בְּדוֹרוֹ, מָה רַבִּי מֵאִיר בְּדוֹרוֹ לֹא יָכְלוּ חֲבֵרָיו לַעֲמוֹד עַל סוֹף דַּעְתּוֹ — אַף רַבִּי אוֹשַׁעְיָא לֹא יָכְלוּ חֲבֵרָיו לַעֲמוֹד עַל סוֹף דַּעְתּוֹ.

Disse Rabi Yochanan: Rabi Oshaya Beribi era, na sua geração, como Rabi Meir na sua geração: assim como de Rabi Meir, na sua geração, os seus companheiros não puderam alcançar o fim do seu pensamento, também de Rabi Oshaya, na sua geração, os seus companheiros não puderam alcançar o fim do seu pensamento.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Rabi Meir lo amdu chaverav”
ר"מ לא עמדו חביריו על סוף דעתו - כדאמרינן בפרק קמא (דף יג:) שהיה אומר על טמא טהור ומראה פנים:

“Rabi Meir: os seus companheiros não alcançaram o fim do seu pensamento” — como dizemos no primeiro capítulo (Eruvin 13b), que ele dizia do impuro que era puro e mostrava razões para isso.

Nota

O Rashi remete a Eruvin 13b (conferido), onde Rabi Acha bar Chanina explica por que a halachá não foi fixada conforme Rabi Meir, embora não houvesse ninguém como ele na sua geração: os seus companheiros não alcançavam o fim do seu pensamento, pois ele dizia do impuro que era puro e mostrava razões convincentes, e do puro que era impuro, e mostrava razões. “Mostrava razões” traduz “מראה פנים”, literalmente “mostrava faces”. O lema do Rashi diz “לא עמדו”, onde a guemará diz “לֹא יָכְלוּ... לַעֲמוֹד”.

O coração dos primeiros e o dos últimos · לִבָּן שֶׁל רִאשׁוֹנִים

1861Como a entrada do Ulam, como a entrada do Heichal
A guemará
אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: לִבָּן שֶׁל רִאשׁוֹנִים כְּפִתְחוֹ שֶׁל אוּלָם, וְשֶׁל אַחֲרוֹנִים כְּפִתְחוֹ שֶׁל הֵיכָל, וְאָנוּ — כִּמְלֹא נֶקֶב מַחַט סִידְקִית.

Disse Rabi Yochanan: O coração dos primeiros era como a entrada do Ulam (o vestíbulo do Templo), e o dos últimos, como a entrada do Heichal (o santuário); e nós, como a medida do buraco de uma agulha sidkit (fina).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “petach ulam”
פתח אולם - רחבו כ' ושל היכל י':

“A entrada do Ulam” — a sua largura é de vinte amot; e a do Heichal, dez.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “sidkit”
סדקית - מחט שתופרין בה סדקי בגדים והוא דק ביותר:

“Sidkit” — uma agulha com que se costuram os rasgos das roupas, e ela é finíssima.

Nota

“O coração” é a capacidade de compreender. Segundo o Rashi, a entrada do Ulam tinha vinte amot de largura, e a do Heichal, dez: a compreensão dos últimos era a metade da dos primeiros, e a nossa, a de um buraco de agulha. “Sidkit”, segundo o Rashi, é a agulha fina com que se costuram os rasgos (“סדקי”) das roupas.

1862Quem são os primeiros e os últimos
A guemará
רִאשׁוֹנִים — רַבִּי עֲקִיבָא, אַחֲרוֹנִים — רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן שַׁמּוּעַ. אִיכָּא דְּאָמְרִי: רִאשׁוֹנִים — רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן שַׁמּוּעַ, אַחֲרוֹנִים — רַבִּי אוֹשַׁעְיָא בְּרִיבִּי. וְאָנוּ כִּמְלֹא נֶקֶב מַחַט סִידְקִית.

Os primeiros são Rabi Akiva; os últimos, Rabi Elazar ben Shamua. Há quem diga: os primeiros são Rabi Elazar ben Shamua; os últimos são Rabi Oshaya Beribi. E nós, como a medida do buraco de uma agulha fina.

Nota

Rabi Elazar ben Shamua foi aluno de Rabi Akiva, e Rabi Yehuda HaNasi, aluno de Rabi Elazar ben Shamua (bloco 1859); Rabi Oshaya Beribi foi o mestre de Rabi Yochanan. Em ambas as versões, “nós” é a geração de Rabi Yochanan. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1863Abaye, Rava e Rav Ashi: a estaca, a cera e o poço
A guemará
אָמַר אַבָּיֵי: וַאֲנַן, כִּי סִיכְּתָא בְּגוּדָּא לִגְמָרָא. אָמַר רָבָא: וַאֲנַן, כִּי אֶצְבַּעְתָּא בְּקִירָא לִסְבָרָא. אָמַר רַב אָשֵׁי: אֲנַן, כִּי אֶצְבַּעְתָּא בְּבֵירָא לְשִׁכְחָה.

Disse Abaye: E nós somos como uma estaca na parede para a guemará (o aprendizado da tradição; ela entra em nós com dificuldade). Disse Rava: E nós somos como um dedo na cera para a sevará (o raciocínio). Disse Rav Ashi: Nós somos como um dedo no poço para o esquecimento (nele entramos com facilidade).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “kesichta begudá ligmara”
כסיכתא בגודא לגמרא - כיתד שנועצין אותו בכותל בנקב צר ונכנס בדוחק כך אין יכולין אנו להבין מה שאנו שומעין כי אם מעט ובקושי:

“Como uma estaca na parede para a guemará” — como uma estaca que se crava na parede num buraco estreito, e entra com aperto: assim não podemos entender o que ouvimos senão pouco e com dificuldade.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ke’etzba bekira”
כאצבע בקירא - בשעוה קשה שאין האצבע יכול ליכנס בתוכה אלא מדבק מעט:

“Como um dedo na cera” — na cera dura, em que o dedo não pode entrar, mas só se gruda nela um pouco.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ke’etzba bebira leshichchá”
כאצבע בבירה לשכחה - כשם שהאצבע נוח ליכנס בפי הבור כך אנו מהירין לשכוח:

“Como um dedo no poço para o esquecimento” — assim como o dedo entra com facilidade na boca do poço, assim nós somos rápidos para esquecer.

Nota

Segundo o Rashi, a estaca entra com aperto na parede, como o que ouvimos entra pouco e com dificuldade na nossa compreensão; o dedo não penetra na cera dura, como o nosso raciocínio não penetra no assunto; e o dedo entra com facilidade na boca do poço, como nós esquecemos depressa. As palavras em itálico ao fim das falas de Abaye e de Rav Ashi seguem o Rashi. Sobre a cera, o Rashi diz que o dedo “se gruda um pouco” (“מדבק מעט”); a tradução de referência diz que o dedo não extrai nada da cera. No lema do terceiro comentário lê-se “בבירה”, onde a guemará diz “בְּבֵירָא”.

Os de Yehuda e os da Galil · בְּנֵי יְהוּדָה וּבְנֵי גָלִיל

1864Rav: os que foram cuidadosos com a sua linguagem
A guemará
אָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר רַב: בְּנֵי יְהוּדָה שֶׁהִקְפִּידוּ עַל לְשׁוֹנָם, נִתְקַיְּימָה תּוֹרָתָם בְּיָדָם. בְּנֵי גָלִיל שֶׁלֹּא הִקְפִּידוּ עַל לְשׁוֹנָם, לֹא נִתְקַיְּימָה תּוֹרָתָם בְּיָדָם.

Disse Rav Yehuda, disse Rav: Quanto aos de Yehuda (habitantes da Judeia), que foram cuidadosos com a sua linguagem, a sua Torá se manteve nas suas mãos; quanto aos da Galil (habitantes da Galileia), que não foram cuidadosos com a sua linguagem, a sua Torá não se manteve nas suas mãos.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “shehikpidu al leshonam”
שהקפידו על לשונם - לדבר בלשון צח ולא בלשון מגונה כדאמרינן לקמן בבני גליל:

“Que foram cuidadosos com a sua linguagem” — em falar em linguagem limpa, e não em linguagem indecorosa, como dizemos adiante a respeito dos da Galil.

Nota

“Os de Yehuda” e “os da Galil” traduzem “בְּנֵי יְהוּדָה” e “בְּנֵי גָלִיל”, literalmente “os filhos de Yehuda” e “os filhos da Galil”, isto é, os habitantes da Judeia e da Galileia; “quanto aos” acompanha a construção do hebraico, que põe o grupo em destaque e depois diz “a sua Torá”. Segundo o Rashi, “cuidadosos com a sua linguagem” é falar de modo limpo e não grosseiro; ele remete ao que a guemará conta mais adiante sobre a fala dos da Galil, que já não está neste daf.

1865Precisos na linguagem, e estabeleciam sinais
A guemará
מִידֵּי בִּקְפֵידָא תַּלְיָא מִילְּתָא? אֶלָּא: בְּנֵי יְהוּדָה דְּדָיְיקִי לִישָּׁנָא, וּמַתְנְחִי לְהוּ סִימָנָא, נִתְקַיְּימָה תּוֹרָתָן בְּיָדָן. בְּנֵי גָלִיל דְּלָא דָּיְיקִי לִישָּׁנָא, וְלָא מַתְנְחִי לְהוּ סִימָנָא, לֹא נִתְקַיְּימָה תּוֹרָתָן בְּיָדָם.

Acaso a coisa depende de cuidado na fala? Antes, diz assim: quanto aos de Yehuda, que eram precisos na linguagem e estabeleciam para si simanim (sinais mnemônicos), a sua Torá se manteve nas suas mãos; quanto aos da Galil, que não eram precisos na linguagem e não estabeleciam para si sinais, a sua Torá não se manteve nas suas mãos.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “dedaykei lishana”
דדייקי לישנא - לחזר באותו לשון שהיו שומעין מרבן וע"י שהיו שומעין ע"פ שמועה אחר שמועה היו נותנין בהן סימן זו אחר זו ומתוך כך שהיו מדקדקים בלשון יודעין להניח סימנין נאין ואינן משתכחין מהן:

“Que eram precisos na linguagem” — em repetir na mesma linguagem que ouviam do seu mestre; e, porque ouviam tradição após tradição, punham nelas um sinal, uma após a outra; e, por serem precisos na linguagem, sabiam pôr sinais bonitos, e as tradições não lhes eram esquecidas.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “umatnechei”
ומתנחי - ומניחין סימנין:

“E estabeleciam” — isto é, e punham sinais.

Nota

A guemará pergunta como a delicadeza da fala poderia fazer a Torá se manter, e reinterpreta: trata-se da precisão em repetir as palavras exatas do mestre e de compor sinais para lembrar a ordem das tradições, como o siman do bloco 1855. Segundo o Rashi, a precisão na linguagem permitia compor sinais bem feitos. “Cuidado na fala” completa a palavra “קְפֵידָא” conforme o bloco anterior.

1866Aprenderam de um só mestre
A guemará
בְּנֵי יְהוּדָה גְּמַרוּ מֵחַד רַבָּה, נִתְקַיְּימָה תּוֹרָתָן בְּיָדָם. בְּנֵי גָלִיל דְּלָא גָּמְרִי מֵחַד רַבָּה, לֹא נִתְקַיְּימָה תּוֹרָתָן בְּיָדָם.

Quanto aos de Yehuda, que aprenderam de um só mestre, a sua Torá se manteve nas suas mãos; quanto aos da Galil, que não aprendiam de um só mestre, mas de muitos, a sua Torá não se manteve nas suas mãos.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “la gamrei mechad rabá”
לא גמרי מחד רבה - והיו שומעין מזה בלשון זה ומזה בלשון אחר אע"פ ששניהם אחד שינוי לשון מבלבלן ומשכחן:

“Não aprendiam de um só mestre” — e ouviam deste numa linguagem e daquele noutra linguagem; e, embora ambas as tradições sejam uma só, a mudança de linguagem os confunde e os faz esquecer.

Nota

Segundo o Rashi, o problema de aprender de vários mestres é que a mesma tradição chega com palavras diferentes, e a variação confunde a memória. As palavras “mas de muitos” explicitam o contraste com os de Yehuda.

1867Ravina: os que revelavam a massechta
A guemará
רָבִינָא אָמַר: בְּנֵי יְהוּדָה דְּגַלּוֹ מַסֶּכְתָּא, נִתְקַיְּימָה תּוֹרָתָן בְּיָדָם. בְּנֵי גָלִיל דְּלָא גַּלּוֹ מַסֶּכְתָּא, לֹא נִתְקַיְּימָה תּוֹרָתָן בְּיָדָם.

Ravina disse: Quanto aos de Yehuda, que revelavam a massechta (o tratado estudado), a sua Torá se manteve nas suas mãos; quanto aos da Galil, que não revelavam a massechta, a sua Torá não se manteve nas suas mãos.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “degalu massechta”
דגלו מסכתא - למדו לאחרים כך שמעתי. ל"א מפרשין שמועותיהן ומדקדקים בטעמו של דבר עד שמתיישב בלבן:

“Que revelavam a massechta” — isto é, ensinavam a outros: “Assim ouvi.” Outra versão: explicam as suas tradições e examinam a razão da coisa, até que ela se assente no seu coração.

Nota

Seguimos o Rashi, que dá duas explicações de “revelar a massechta”: transmitir aos outros o que se ouviu do mestre, ou explicar as tradições e examinar as suas razões até que se assentem no coração. A tradução de referência segue a explicação dos Gueonim, segundo a qual se anunciava publicamente o tratado a ser estudado, para que todos o preparassem com antecedência. Mantemos no texto o literal “revelavam”.

1868David revelava a massechta; Shaul não revelava
A guemará
דָּוִד גַּלִּי מַסֶּכְתָּא, שָׁאוּל לָא גַּלִּי מַסֶּכְתָּא. דָּוִד דְּגַלִּי מַסֶּכְתָּא, כְּתִיב בֵּיהּ: ״יְרֵאֶיךָ יִרְאוּנִי וְיִשְׂמָחוּ״. שָׁאוּל דְּלָא גַּלִּי מַסֶּכְתָּא, כְּתִיב בֵּיהּ: ״(אֶל כׇּל) אֲשֶׁר יִפְנֶה

David revelava a massechta, e Shaul não revelava a massechta. De David, que revelava a massechta, está escrito: “Os que Te temem me verão e se alegrarão” (Tehilim 119:74). E de Shaul, que não revelava a massechta, está escrito (Shmuel I 14:47): “Para tudo aonde se voltar

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “yere’uni veyismachu”
יראוני וישמחו - לפי ששמועותיו מכוונות לאיסור איסור ולהיתר היתר:

“Me verão e se alegrarão” — porque as suas tradições eram exatas: para o proibido, proibido, e para o permitido, permitido.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “David degalei massechta”
דוד דגלי מסכתא - כדאמר בברכות (דף ד.) שהיה יגע בתורה ומורה הוראות כדאמר ידי מלוכלכות בדם ושפיר ושיליא ואומר מפיבושת רבי יפה דנתי יפה זכיתי כו' ואמרינן נמי במועד קטן (דף טז.) עדינו העצני יושב בשבת תחכמוני זה דוד כו':

“David revelava a massechta” — como diz em Berachot (4a), que ele se esforçava na Torá e decidia questões de halachá, como diz: “As minhas mãos estão sujas de sangue, de feto e de placenta”; e diz: “Mefiboshet, meu mestre, julguei bem? Declarei inocente bem?” etc. E dizemos também em Moed Katan (16a): “Adino HaEtzni”, “o que se senta na assembleia, Tachkemoni”: este é David etc.

Nota

Tehilim 119:74 (conferido): “Os que Te temem me verão e se alegrarão, porque esperei na Tua palavra.” Segundo o Rashi, os que temiam a Deus se alegravam ao ver David porque as suas decisões eram exatas. O versículo sobre Shaul é Shmuel I 14:47 (conferido), “e em tudo aonde se voltava, condenava”; o daf termina no meio dele, e a citação continua em Eruvin 53b. No Sefaria, as palavras “אֶל כׇּל” estão entre parênteses, e o versículo diz “וּבְכֹל”; traduzimos o texto da guemará. O Rashi remete a Berachot 4a (conferido), onde David diz que as suas mãos estão sujas de sangue, de feto e de placenta para tornar a mulher permitida ao marido, e que consultava Mefiboshet, o seu mestre, sobre as suas decisões; e a Moed Katan, onde “Adino HaEtzni” e “Tachkemoni”, de Shmuel II 23:8 (conferido), são aplicados a David: no Sefaria esta passagem está em Moed Katan 16b (conferido), enquanto o Rashi indica 16a.

O daf termina aqui, no meio da citação do versículo sobre Shaul: depois de completar a primeira mishná do Perek Heh, com as pontes, os monumentos e a tábua quadrada, a guemará traz as discussões de Rav e Shmuel sobre me’abrin com alef ou com ayin, a Me’arat HaMachpelá, Amrafel e o novo rei do Egito; Rabi Yochanan e os seus dezoito dias junto a Rabi Oshaya Beribi, o coração dos primeiros e dos últimos, a estaca, a cera e o poço de Abaye, Rava e Rav Ashi; e os de Yehuda e os da Galil, com David e Shaul. A guemará prossegue em Eruvin 53b.