O daf começa com o fim da palavra de Rav Nachman: para Rabi Meir, o principal do eruv é com pão, e por isso só ao pobre, quem está no caminho sem pão, os Rabanan permitiram dizer “a minha shevitá é no meu lugar”; para Rabi Yehuda, o principal do eruv é com o pé, e o rico também pode fazê-lo; mas, em quem disse de longe “em tal lugar”, todos concordam que só o pobre pode. A guemará explica, segundo Rav Nachman, quem ensina cada frase da mishná: “e é isto que disseram” é de Rabi Meir, sobre quem não conhece ou não é perito, e “não disseram que se faz eruv com pão senão para facilitar” é de Rabi Yehuda. Rav Chisda diverge: a disputa é em “em tal lugar”, e “no meu lugar” vale para o pobre e para o rico; o “é isto que disseram” se refere então a quem vinha pelo caminho, e a frase sobre o pão é de todos. Uma baraita apoia Rav Nachman, e Rabi Yehuda conta o caso dos homens de Beit Memel e de Beit Gurion em Aroma, que distribuíam figos secos e uvas-passas aos pobres nos anos de seca, e dos pobres de Kfar Shichin e de Kfar Chananya, que estavam ao escurecer junto ao limite e no dia seguinte vinham. Rav Ashi mostra que também a mishná de quem saiu para outra cidade e o companheiro o fez voltar é precisa assim, pela explicação de Rav Huna sobre quem tem duas casas: ele, que saiu para o caminho, é pobre, e os outros moradores são ricos. Rav manda concluir o ensino da mishná com “a halachá é como Rabi Yehuda”, e o daf termina com o começo do caso de Rabba bar Rav Chanan, que costumava vir de Artivna a Pumbedita.
E por isso, é ao pobre (quem está no caminho sem pão) que os Rabanan facilitaram; mas ao rico, não.
“É ao pobre que os Rabanan facilitaram” — isto é, é a quem vem pelo caminho e não tem pão consigo que os Rabanan facilitaram, permitindo-lhe dizer “A minha shevitá (lugar de repouso de Shabat) é no meu lugar”, quando não conhece uma árvore ou uma cerca; ou, ao que as conhece, dizer “A minha shevitá é em tal lugar”.
“Mas ao rico” — isto é, como quem está sentado na sua casa: não lhe facilitaram nem isto nem aquilo.
Este segmento completa a frase de Rav Nachman que começa no fim de Eruvin 51a (bloco 1797): “A disputa de Rabi Meir e Rabi Yehuda é no caso de quem disse: ‘A minha shevitá é no meu lugar’; pois Rabi Meir sustenta: o principal do eruv é com pão, e por isso é ao pobre que os Rabanan facilitaram”. Seguimos o Rashi, como em Eruvin 47a, 49b e 51a: o “pobre” é quem vem pelo caminho e não tem pão consigo; a ele os Rabanan permitiram dizer “no meu lugar”, se não conhece uma árvore ou uma cerca, ou “em tal lugar”, se conhece; o “rico” é quem está sentado na sua casa, e a ele não permitiram nem uma coisa nem outra. O lema do Rashi diz “גביה”, onde a guemará diz “עִילָּוֵיהּ”; o sentido é o mesmo. A tradução de referência entende “pobre” como quem não tem alimento para duas refeições; a leitura do Rashi, ligada ao caminho, é a que seguimos.
E Rabi Yehuda sustenta: o principal do eruv (a refeição depositada que fixa a residência de Shabat) é com o pé, e por isso vale tanto para o pobre quanto para o rico. Mas em quem disse: “Em tal lugar”, são palavras de todos: pobre, sim; rico, não.
“O principal do eruv é com o pé” — dizer “A minha shevitá é debaixo de mim”, mesmo para o rico, se saiu e lá escureceu: este é o principal do preceito do eruv; como ensina a mishná: “Não disseram que se faz eruv com pão etc.”. Vê-se, pois, que o principal da instituição do eruv, para Rabi Yehuda, é com o pé.
Para Rav Nachman, Rabi Yehuda permite também ao rico ir até onde quer adquirir a shevitá e dizer ali “a minha shevitá é no meu lugar”, porque o eruv foi instituído primeiro “com o pé”, e o pão é só uma facilidade; mas, se alguém disse de longe “a minha shevitá é em tal lugar”, também Rabi Yehuda o permite só ao pobre. Segundo o Rashi, “com o pé” é dizer “a minha shevitá é debaixo de mim” no lugar onde escureceu, e a prova é a frase da mishná “não disseram que se faz eruv com pão senão para facilitar ao rico” (Mishná Eruvin 4:9, em Eruvin 49b, bloco 1743). O Rashi cita a mishná com “לערב”, onde a mishná diz “מְעָרְבִין”.
“E é isto que disseram” (o pobre faz eruv com os seus pés): quem o ensina? É Rabi Meir. E a que se refere? A “não conhece, ou não é perito na halachá (a lei estabelecida)”. “E não disseram que se faz eruv com pão senão para facilitar”: quem o ensina? É Rabi Yehuda.
“É isto que disseram os Sábios” — expressão que dá a entender que a instituição principal do eruv não era assim, mas que é uma mera facilidade o que disseram a respeito do pobre: fazer eruv com os seus pés.
“Quem o diz? Rabi Meir” — que disse que o principal do eruv é com pão.
“E a que se refere? A ‘não conhece, ou não é perito na halachá’” — e por isso disse “A minha shevitá é debaixo de mim”: é a respeito dele que Rabi Meir diz “e é isto que disseram”; isto é, que mesmo para este que disse “no meu lugar” é uma facilidade que os Rabanan lhe concederam, mas não é esta a instituição principal do eruv.
“E não disseram que se faz eruv com pão” — expressão que dá a entender que o principal do eruv, quando foi instituído, com o pé foi instituído, e não disseram que se faz eruv com pão senão para facilitar ao rico.
A citação “וְזוֹ הִיא שֶׁאָמְרוּ” tem a mesma redação da Mishná Eruvin 4:9 em Eruvin 49b (bloco 1743), e mantemos a tradução de lá e de Eruvin 51a (bloco 1796): “E é isto que disseram: o pobre faz eruv com os seus pés”. Segundo Rav Nachman, quem a ensina é Rabi Meir, e ela se refere à cláusula anterior, “se não conhece ou se não é perito na halachá” (Mishná Eruvin 4:8, em Eruvin 49b, bloco 1741), isto é, a quem disse “no meu lugar”: mesmo isso é só uma facilidade concedida ao pobre. A frase seguinte, “não disseram que se faz eruv com pão senão para facilitar ao rico”, é de Rabi Yehuda, para quem o principal do eruv é com o pé. O Rashi chama a citação de “זהו שאמרו חכמים”, cita a pergunta como “מאן קאמר ליה” e “ואהיכא קאי”, onde a guemará diz “מַאן קָתָנֵי לַהּ” e “וְאַהֵיָיא קָאֵי”, e cita a mishná com “לערב”; o sentido é o mesmo.
E Rav Chisda disse: A disputa é no caso de quem disse: “A minha shevitá é em tal lugar”; pois Rabi Meir sustenta: pobre, sim; rico, não; e Rabi Yehuda sustenta: tanto o pobre quanto o rico. Mas em “no meu lugar”, são palavras de todos que vale tanto para o pobre quanto para o rico, pois o principal do eruv é com o pé.
“A disputa é em ‘em tal lugar’” — caso em que não há aqui nem eruv com pão nem eruv com o pé, mas uma mera declaração: a respeito dele diz Rabi Meir: ao pobre, sim; ao rico, não.
“Mas em ‘no meu lugar’, são palavras de todos: tanto o pobre quanto o rico” — pois o principal do eruv é com o pé (e quem está no lugar faz eruv com o pé).
Rav Chisda diverge de Rav Nachman: a disputa de Rabi Meir e Rabi Yehuda não é em “no meu lugar”, que vale para todos, pois é o próprio eruv “com o pé”, mas em quem declarou de longe “em tal lugar”, sem pão e sem ir até lá; isso, segundo o Rashi, é “uma mera declaração”, que Rabi Meir só permite ao pobre e Rabi Yehuda permite também ao rico. Em Eruvin 52a, Abaye cita esta palavra de Rav Chisda (“וְאָמַר רַב חִסְדָּא: מַחֲלוֹקֶת בְּ״מָקוֹם פְּלוֹנִי״”, conferido).
“E é isto que disseram”: quem o ensina? É Rabi Meir. E a que se refere? A isto: “Quem vinha pelo caminho e anoiteceu” (e conhecia uma árvore). “E não disseram que se faz eruv com pão senão para facilitar”: quem o ensina? São palavras de todos.
“É isto que disseram os Sábios” — expressão que dá a entender que a instituição principal do eruv não era assim, mas que é uma mera facilidade o que disseram a respeito do pobre: fazer eruv com os seus pés.
“A ‘quem vinha pelo caminho e anoiteceu para ele’” — e conhecia uma árvore e disse “A minha shevitá é no seu tronco”, de quem a mishná ensina que adquiriu ali a sua shevitá; e a respeito dele diz Rabi Meir: “É isto que disseram: o pobre faz eruv com os seus pés”; pois é uma facilidade ao pobre que os Rabanan concederam, não que seja este o principal do eruv, mas o principal é no que diz “A minha shevitá é no meu lugar”. E Rabi Yehuda disse: mesmo ao rico, que estava sentado na sua casa e disse “A minha shevitá é no fim das duas mil amot”, também facilitaram, embora o principal do eruv seja “no meu lugar”.
“E não disseram” — frase que dá a entender que o principal do eruv não é com pão, mas que foi instituído com pão para facilitar ao rico: é ensino anônimo e palavras de todos, e não é a conclusão da palavra de Rabi Yehuda; pois também Rabi Meir concorda com ela, que o principal do eruv é com o pé, dizendo “no meu lugar”.
Segundo Rav Chisda, o “é isto que disseram” de Rabi Meir se refere ao início da mishná, “quem vinha pelo caminho e anoiteceu para ele” (Mishná Eruvin 4:7, em Eruvin 49b, bloco 1739): quem conhecia uma árvore e disse “a minha shevitá é no seu tronco” declarou a shevitá à distância, e isso é só uma facilidade ao pobre; o principal é “no meu lugar”. Para Rabi Yehuda, segundo o Rashi, também o rico sentado na sua casa pode dizer “a minha shevitá é no fim das duas mil amot”. Já a frase “não disseram que se faz eruv com pão senão para facilitar ao rico” é, segundo o Rashi, ensino anônimo aceito por todos, pois também Rabi Meir concorda que o principal do eruv é com o pé, “no meu lugar”. Aqui a guemará cita a mishná como “וְחָשֵׁכָה”, sem “לוֹ”, que o lema do Rashi traz; o Rashi cita a mishná como “זה הוא שאמרו”, onde em Eruvin 49b se lê “וְזוֹ הִיא שֶׁאָמְרוּ”. O primeiro comentário do Rashi repete, palavra por palavra, o do bloco 1800, e o traduzimos do mesmo modo.
Foi ensinado numa baraita (ensinamento dos tanaítas não incluído na Mishná) conforme Rav Nachman: Tanto o pobre quanto o rico fazem eruv com pão; e não saia o rico para fora do techum (limite de Shabat) e diga: “A minha shevitá é no meu lugar”, porque não disseram que se faz eruv com o pé senão para quem vinha pelo caminho e anoiteceu. São palavras de Rabi Meir.
“Foi ensinado conforme Rav Nachman” — que disse que a disputa é em “no meu lugar”: que, mesmo onde disse “no meu lugar”, para Rabi Meir o rico não pode; e Rabi Yehuda também não permite ao rico senão dizendo “no meu lugar”, mas em “em tal lugar”, não.
Assim lemos: “E não saia o rico para fora do techum e diga: ‘Seja a minha shevitá no meu lugar’” — e este “para fora do techum” não é preciso, mas quer dizer no fim do techum; e, se é preciso “para fora do techum”, diz respeito a quem está dentro de quatro amot, nas quais está a sua shevitá.
“Porque não disseram que se faz eruv com o pé” — mesmo de um modo como este, em que disse “no meu lugar”, senão para quem vinha pelo caminho etc. Vê-se, pois, que para Rabi Meir, mesmo em “no meu lugar”, ao pobre, sim; ao rico, não.
“E saia o rico para fora do techum” — isto é, se quiser.
“E diga: ‘A minha shevitá é no meu lugar’” — vê-se, pois, que para Rabi Yehuda não é permitido ao rico senão dizendo “no meu lugar”, como disse Rav Nachman.
A baraita apoia Rav Nachman: para Rabi Meir, o rico não pode ir ao limite e dizer “no meu lugar”, porque o eruv com o pé só foi permitido a quem vinha pelo caminho; e, segundo o Rashi, também Rabi Yehuda só o permite ao rico “no meu lugar”, e não “em tal lugar”. O Rashi lê “ולא יצא עשיר ... ויאמר תהא שביתתי במקומי”, com “תהא”, “seja”, que o texto do Sefaria só traz na palavra de Rabi Yehuda (bloco 1804); e explica que “para fora do techum” não é preciso, mas quer dizer “no fim do techum”; se fosse preciso, trataria de quem está dentro das quatro amot em que está a sua shevitá. Esta última explicação é breve e a traduzimos literalmente. No primeiro comentário, o Sefaria traz “אל במקומי”, que lemos como “אלא”, “senão”. Os dois últimos comentários explicam palavras de Rabi Yehuda que estão no segmento seguinte, mas o Sefaria os liga a este, e os mantemos aqui. A baraita está na Tosefta Eruvin 3:17 (Lieberman; conferido), com redação um pouco diferente: “ובלבד שלא יצא מן העיר ויאמר שביתתי במקומי, שלא התירו אלא למהלך בדרך”.
Rabi Yehuda diz: Tanto o pobre quanto o rico fazem eruv com o pé; e saia o rico, se quiser, para fora do techum e diga ali: “Seja a minha shevitá no meu lugar”; e este modo é o principal do eruv. E os Sábios permitiram ao dono da casa enviar o seu eruv de pão pela mão do seu servo, ou pela mão do seu filho, ou pela mão do seu emissário, para lhe facilitar (para que não precise sair e fazer eruv com o pé).
Segundo Rabi Yehuda, o eruv com o pé é o principal, e o eruv de pão enviado por meio de outro é uma facilidade para o dono da casa; “se quiser” segue o Rashi (bloco 1803). A tradução de referência explica do mesmo modo. A Tosefta Eruvin 3:17 (Lieberman; conferido) traz a mesma lista em outra ordem: “ביד בנו, ביד עבדו, ביד שלוחו”. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
Disse Rabi Yehuda: Houve um caso com os homens de Beit Memel e com os homens de Beit Gurion em Aroma, que distribuíam figos secos e uvas-passas aos pobres nos anos de seca; e vinham os pobres de Kfar Shichin e os pobres de Kfar Chananya e estavam ao escurecer junto ao techum (de Aroma); no dia seguinte madrugavam e vinham à distribuição.
“Disse Rabi Yehuda: Houve um caso com os homens de Beit Memel e com os homens de Beit Gurion em Aroma” — Aroma é o nome de um lugar.
“Gerogerot” — isto é, figos secos.
“Tzimukin” — isto é, uvas secas, que secaram e se encolheram.
“Os pobres de Kfar Shichin” — que eram próximos a eles, a Aroma, dentro de quatro mil amot.
“E estavam ao escurecer junto ao techum etc.” — vê-se, pois, que o principal do eruv é com o pé e dizendo “no meu lugar”. E, embora fossem pobres, já que estavam nas suas casas, são como ricos, pois é impossível para eles estarem sem alimento para duas refeições; e, ainda assim, faziam eruv com os seus pés e estavam ao escurecer no techum, que é o caso de “no meu lugar”, como disse Rav Nachman. Vê-se, pois, que o principal do eruv é com o pé, e que estavam ao escurecer junto ao techum; e, embora, quanto ao eruv, sejam ricos, pois saíam das suas casas para isso e tinham pão, ainda assim é permitido, quando não se tem emissário, fazer eruv com os seus pés.
Segundo o Rashi, Aroma é o nome de um lugar, e Kfar Shichin ficava a menos de quatro mil amot dela; os pobres saíam das suas casas na véspera do Shabat, estavam ao escurecer junto ao limite e diziam “no meu lugar”, e no Shabat podiam andar até Aroma. Embora fossem pobres, estavam nas suas casas e tinham pão, e por isso eram como ricos quanto ao eruv; a prova é para Rabi Yehuda, segundo Rav Nachman: o rico pode fazer eruv com o pé, “no meu lugar”. Os nomes estão transliterados do hebraico do Sefaria: “בֵּית מֶמֶל”, Beit Memel; “בֵּית גּוּרְיוֹן”, Beit Gurion (a tradução de referência diz “Guryon”); “אָרוֹמָא”, Aroma; “כְּפַר שִׁיחִין” e “כְּפַר חֲנַנְיָה”, Kfar Shichin e Kfar Chananya, grafados como nas outras páginas do site. “Anos de seca” traduz “שְׁנֵי בַצּוֹרֶת”; a tradução de referência diz “anos de fome”. Na Tosefta Eruvin 3:17 (Lieberman; conferido), o relato diz “מעשה בבית ממל ובבית גוריון ברומה שהיו מחלקין גרוגרות לעניים”, menciona só os pobres de Shichin e diz que eles “saíam e faziam eruv com os seus pés”. A tradução de referência acrescenta que os pobres voltavam às suas casas; o hebraico não o diz, e o Rashi o pressupõe ao dizer que “estavam nas suas casas”.
Disse Rav Ashi: A nossa mishná também é precisa assim, pois ensina: Quem saiu na véspera do Shabat para ir a uma cidade para a qual se faz eruv, e o seu companheiro o fez voltar para casa, ele está permitido a ir (no Shabat), e todos os outros moradores da cidade estão proibidos — palavras de Rabi Yehuda.
“A nossa mishná também é precisa” — isto é, conforme Rav Nachman: que para Rabi Yehuda, em “em tal lugar”, o rico não pode; e, quando diverge de Rabi Meir, é em “no meu lugar” que diverge.
“Quem saiu” — por pouco que seja, e tomou o caminho para a cidade para a qual se faz eruv, que é próxima à sua cidade, no fim de quatro mil amot, e uma pessoa pode ir de uma à outra no Shabat por meio de eruv.
“E o seu companheiro o fez voltar” — pois lhe disse: “É tempo de calor, é tempo de frio”, como se ensina adiante (Eruvin 52a).
“Ele está permitido a ir” — isto é, no dia seguinte, àquela outra cidade; e todos os moradores da sua cidade estão proibidos de ir.
Rav Ashi cita a mishná seguinte (Mishná Eruvin 4:10, conferida), que no Talmud está em Eruvin 52a: “מִי שֶׁיָּצָא לֵילֵךְ בְּעִיר שֶׁמְּעָרְבִין בָּהּ”; aqui a citação diz “לְעִיר שֶׁמְּעָרְבִין לָהּ”, “a uma cidade para a qual se faz eruv”, e traduzimos esta redação. Segundo o Rashi, trata-se de quem tomou o caminho, por pouco que seja, para uma cidade a quatro mil amot da sua, e o companheiro o fez voltar dizendo “é tempo de calor, é tempo de frio”; essas palavras estão em Eruvin 52a (conferido), numa baraita em nome de Rabi Yossi beRabi Yehuda: “לִין פֹּה, עֵת חַמָּה הוּא, עֵת צִינָּה הוּא”.
E discutimos sobre ela (a mishná): Em que difere ele, e em que diferem eles? E disse Rav Huna: Aqui, de que tratamos? De um caso em que tem duas casas (uma em cada cidade), e há dois techumim (quatro mil amot) de Shabat entre elas.
“Que tem duas casas” — uma nesta cidade e outra naquela; e queria ir para a sua casa que está na outra cidade desde a véspera do Shabat e repousar ali no Shabat; e não saiu da sua casa com a intenção de adquirir shevitá no fim do techum e voltar, mas com a intenção de ir até lá; e então o seu companheiro o fez voltar.
A pergunta e a resposta de Rav Huna estão em Eruvin 52a (conferido), na guemará da mishná: “מַאי שְׁנָא אִיהוּ וּמַאי שְׁנָא אִינְהוּ? אָמַר רַב הוּנָא ...”; lá se lê “וּבֵינֵיהֶן שְׁנֵי תְּחוּמֵי שַׁבָּת”, e aqui “וּשְׁנֵי תְּחוּמֵי שַׁבָּת בֵּינֵיהֶן”, com o mesmo sentido. Segundo o Rashi, ele não saiu para adquirir shevitá no fim do limite e voltar, mas para ir de fato à sua outra casa.
Quanto a ele, já que saiu para o caminho, tornou-se pobre (como quem está no caminho sem pão).
“Ele, já que saiu para o caminho” — por causa de ir de fato, e não por causa de fazer eruv com os seus pés, tornou-se pobre, e pode dizer “A minha shevitá é no fim do techum” e especificar ali um lugar reconhecível para ele. E é uma disputa de amoraim (sábios do Talmud) adiante (ali): há quem diga que, mesmo se não disse nada, já que nós somos testemunhas de que quer ir para lá, é como quem disse. E, forçosamente, tratamos do caso em que não disse nada. Primeiro, porque a mishná não ensina: “e disse: ‘A minha shevitá é em tal lugar’”. E mais: já que Rabi Meir diverge sobre isso e diz “eis que este é chamar gamal (condutor de jumento e condutor de camelo, puxado para os dois lados)”, conclui-se que tratamos do caso em que não disse “A minha shevitá é em tal lugar”, pois Rabi Meir concorda no caso do pobre. E, se disseres que Rabi Meir considera rico a este, porque, por ter tomado o caminho só um pouco, não o faz pobre: se assim é, que Rabi Meir o considera rico, por que é chamar gamal? Eis que na sua casa não quis adquirir shevitá, pois disse “A minha shevitá é no fim do techum”; e lá não pode adquiri-la, pois não é pobre; a mishná deveria dizer: “Não se mova do seu lugar”! Antes, tratamos do caso em que não disse nada, e Rabi Meir também o faz pobre; e, porque não disse coisa alguma, tem dúvida se a sua intenção é adquirir shevitá no fim do techum, ou se talvez desistiu totalmente de ir no dia seguinte àquela cidade e a sua intenção é adquirir shevitá na sua casa; por isso é chamar gamal.
Segundo o Rashi, quem saiu para ir de fato à sua outra casa tem o estatuto de pobre e pode adquirir shevitá no fim do limite. O Rashi acrescenta que a mishná trata de quem não disse nada, pois há amoraim (em Eruvin 52a) que dizem que, quando é evidente que ele quer ir para lá, é como se o tivesse dito; e prova-o de duas maneiras: a mishná não diz “e disse: a minha shevitá é em tal lugar”, e Rabi Meir o chama de “chamar gamal” (Mishná Eruvin 4:10, conferida: “רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר, כֹּל שֶׁהוּא יָכוֹל לְעָרֵב וְלֹא עֵרֵב, הֲרֵי זֶה חַמָּר גַּמָּל”), isto é, em dúvida entre os dois lugares, o que só se explica se ele não disse nada. A tradução de referência entende que ele adquire a shevitá “por declaração verbal”; seguimos o Rashi. O “(שם)” do Rashi remete a Eruvin 52a, citado no comentário anterior; a tradução o deixa como “ali”.
E aqueles são ricos (pois estão nas suas casas). Vê-se, pois, que todo caso de “em tal lugar”: pobre, sim; rico, não. Aprende-se disso.
“E aqueles são ricos” — e, mesmo se disseram “A nossa shevitá é em tal lugar”, é proibido; pois, se não o disseram, é óbvio. Vê-se, pois, que todo “em tal lugar”, para Rabi Yehuda: ao pobre, sim; ao rico, não. E por isso Rav Huna tomou o caso de quem “tem duas casas”: pois, se não tivesse uma casa lá, não diríamos que, quando não disse nada, é como quem disse, pois talvez esteja desistindo.
A conclusão confirma Rav Nachman: se, para Rabi Yehuda, os moradores da cidade, que são “ricos”, não podem ir mesmo que tenham dito “a nossa shevitá é em tal lugar”, então em “em tal lugar” também Rabi Yehuda só o permite ao pobre, e a disputa com Rabi Meir é em “no meu lugar”. Segundo o Rashi, Rav Huna fala de quem tem duas casas porque só então se presume que, mesmo sem dizer nada, ele quer ir para lá; sem casa lá, poderia ter desistido. O Rashi não diz quem “tomou” o caso; pelo contexto, é Rav Huna (bloco 1807).
Rav Chiya bar Ashi ensinava a mishná a Chiya bar Rav diante de Rav, dizendo: “Tanto o pobre quanto o rico”. Disse-lhe Rav: Conclui com ela também esta frase: “A halachá é como Rabi Yehuda”.
“A halachá é como Rabi Yehuda” — e conforme a explicação de Rav Nachman, que a disputa é em “no meu lugar”.
O mesmo relato está em Eruvin 47a (bloco 1641), onde começa com “וּמַתְנֵי” e diz “וַאֲמַר לֵיהּ רַב, סַיֵּים בָּהּ נָמֵי”; mantemos a tradução de lá. Segundo o Rashi, a halachá segue Rabi Yehuda conforme a explicação de Rav Nachman: o rico pode fazer eruv com o pé dizendo “no meu lugar”, mas não “em tal lugar”.
Rabba bar Rav Chanan costumava vir de Artivna a Pumbedita no Shabat.
“Vinha de Artivna” — costumava vir todo Shabat de Artivna a Pumbedita; e ficava na véspera do Shabat na sua casa e dizia: “A minha shevitá é em Tzinta”: Tzinta era um lugar determinado entre os dois techumim.
A guemará começa aqui o caso de Rabba bar Rav Chanan, que continua em Eruvin 52a (conferido): “אָמַר: ״תְּהֵא שְׁבִיתָתִי בְּצִינְתָא״”, e Abaye lhe pergunta qual é o seu raciocínio, citando a palavra de Rav Chisda (bloco 1801). Segundo o Rashi, ele vinha todo Shabat, dizia na véspera, em casa, “a minha shevitá é em Tzinta”, e Tzinta era um lugar determinado entre os dois limites. “Artivna” translitera “אַרְטִיבְנָא” (a tradução de referência diz “Artibbena”); “Tzinta” translitera “צינתא”, que o Rashi trata como nome de lugar. O lema do Rashi diz “הוה אתי”, onde a guemará diz “הֲוָה רְגִיל דְּאָתֵי”.