O daf começa com o fim da disputa sobre a todá abatida sobre oitenta pães: Rabi Yochanan sustenta que o dono teve em vista um sacrifício grande, e por isso nenhum pão se santifica. A guemará volta então à palavra de Rav sobre quem disse “a minha shevitá é debaixo dela”. Abaye ensina que isso só vale numa árvore com doze amot debaixo dela, pois numa menor parte da sua casa é reconhecível; Rav Huna, filho de Rav Yehoshua, objeta que talvez tenha escolhido um dos lados, e corrige: só numa de oito amot, pois numa de sete quaisquer quatro amot incluem a do meio. Seguem-se uma baraita conforme Rav, sobre quem disse “em tal lugar”, o lugar definido, como um monte ou um vale de dez tefachim, entre quatro amot e beit sata’im, os dois viajantes, um que conhece o lugar e outro não, e quem não especificou as suas quatro amot, que não se move do seu lugar; Shmuel responde que a baraita trata de quem está a duas mil e quatro amot do tronco. Uma baraita conforme Shmuel trata de quem errou e fez eruv para duas direções, ou cujos servos o fizeram uma ao norte e outra ao sul: anda para cada lado conforme o eruv do lado oposto, e, se centraram o techum, não se move do seu lugar; à objeção a Rav responde-se que Rav é tanna e diverge. O daf termina com a citação da mishná: “a minha shevitá é no seu tronco”.
…e o outro mestre (Rabi Yochanan) sustenta: tem em vista um sacrifício grande (de oitenta pães, que não é possível, e por isso nenhum se santifica).
“E Rabi Yochanan sustenta: tem em vista um sacrifício grande” — e isso não é possível, e não dizemos que quarenta deles se santifiquem. Mas, a respeito da shevitá (lugar de repouso de Shabat), quando disse “debaixo dela”, que garantia há aí? Certamente teve em vista todas as amot debaixo da árvore; e não há shevitá senão em quatro amot, e não dizemos que a shevitá se lhe adquira em quatro delas.
A frase completa a explicação começada no fim de Eruvin 50a (bloco 1763): quando quem abate a todá sobre oitenta pães não especificou nada, Chizkiya entende que ele quis garantir-se e trouxe os pães sob condição, e por isso quarenta se santificam; Rabi Yochanan entende que ele quis um sacrifício grande, de oitenta pães, que a Torá não prevê, e por isso nenhum se santifica. O lema do Rashi diz “ור' יוחנן סבר”, “e Rabi Yochanan sustenta”, onde a guemará diz “וּמָר סָבַר”, “e o outro mestre sustenta”; o próprio Rashi identifica assim o mestre, e a tradução de referência também. A mesma frase está em Menachot 78b: “ומר סבר: לקרבן גדול קא מיכוין” (conferido). Segundo o Rashi, a todá não contradiz o princípio de Rabba: ali, a razão de Chizkiya é a garantia, que não existe na shevitá; quem disse “debaixo dela” quis certamente todo o espaço debaixo da árvore, e, como a shevitá é de quatro amot, não se pode dizer que adquiriu quatro dentre elas.
Disse Abaye: Não ensinaram isto (o “não disse nada” segundo Rav) senão numa árvore debaixo da qual há doze amot; mas, numa árvore debaixo da qual não há doze amot, eis que parte da sua casa é reconhecível (e adquire a shevitá).
“Não ensinaram”, a saber, que não disse nada — refere-se à palavra de Rav.
“Doze amot” — ou mais; pois se pode dizer que escolheu as quatro deste lado, ou as daquele lado, ou as do meio; por isso as amot não estão especificadas.
“Mas, em onze, eis que parte da sua casa é reconhecível” — tens de escolher a medida da shevitá dentro destas onze amot, naquelas em que forçosamente está parte da sua casa. E quais são elas? As quatro do meio: pois, se disse nelas, bem; e, se disse nas deste lado ou nas daquele lado, eis que meia amá destas e meia daquelas está dentro das do meio. Por isso é especificação suficiente para adquirir casa. Porém, se vem medir a partir do norte, medem-lhe a partir do sul etc.
Abaye limita a palavra de Rav (Eruvin 49b, bloco 1745) à árvore cuja copa cobre doze amot ou mais: ali cabem três grupos de quatro amot sem nenhum ponto comum, e não se sabe qual deles escolheu. Segundo o Rashi, que exemplifica com uma copa de onze amot, as quatro do meio tocam meia amá de cada um dos lados; assim, qualquer que tenha sido a escolha, parte da sua “casa” (as quatro amot da shevitá) está nas quatro do meio, e isso basta como especificação. Mesmo assim, como não se sabe onde está, aplica-se-lhe a regra de medir do norte e do sul (Eruvin 49b, bloco 1748). A tradução de referência explica do mesmo modo. No primeiro comentário, as palavras “(דלא אמר כלום)” estão entre parênteses no texto do Sefaria; a tradução as inclui. No terceiro, o Rashi escreve “י"א”, “onze”, e “בי"א”, “em onze”, onde a guemará diz “שֶׁאֵין שְׁתֵּים עֶשְׂרֵה אַמָּה”, “que não tem doze amot”.
Rav Huna, filho de Rav Yehoshua, objetou a isto: De onde se sabe que especificou a shevitá nas quatro do meio? Talvez a tenha especificado nas quatro deste lado ou nas quatro daquele lado (que não têm nada em comum)!
“E de onde se sabe que nas quatro do meio etc.” — isto é, quem te separou as do meio dentre as restantes? E que importa que parte da casa seja reconhecível nelas? Eis que se pode dizer que escolheu para si as deste lado, ou que escolheu para si as daquele lado, e ele não sabe quais delas. E, já que há dúvida entre estas e aquelas, e estas não estão englobadas naquelas, não há aqui especificação (e não adquire).
Numa copa de onze amot, as quatro amot de um lado e as quatro do outro não se tocam; por isso, se escolheu um dos lados, nada há em comum entre as possibilidades, e o fato de as do meio tocarem as duas não ajuda. “Objetou a isto” traduz “מַתְקֵיף לַהּ”. O lema do Rashi diz “וממאי”, “e de onde”, com vav, onde a guemará diz “מִמַּאי”. A tradução de referência explica do mesmo modo.
Antes, disse Rav Huna, filho de Rav Yehoshua: Não ensinaram isto senão numa árvore debaixo da qual há oito amot (ou mais); mas, numa árvore debaixo da qual há só sete amot, eis que parte da sua casa é reconhecível (pois quaisquer quatro amot debaixo dela incluem a amá do meio).
“Oito amot” — pois se pode dizer que escolheu as quatro deste lado ou as daquele lado, e não há especificação.
“Mas sete amot” — forçosamente parte da sua casa é reconhecível naquela amá do meio, pois é impossível que não a tenha escolhido para si: se escolheu para si quatro amot no meio da árvore, eis que ela é uma delas; e, se deste lado ou daquele lado, eis que ela é uma delas. Por isso adquiriu ali casa. Porém, se vem medir a partir do norte etc.
Numa copa de oito amot, as quatro de um lado e as quatro do outro não têm nada em comum; numa de sete, quaisquer quatro amot que se escolham incluem a quarta, a do meio, e essa amá é parte certa da sua shevitá. Segundo o Rashi, isso basta para adquirir casa ali, embora continue a valer a regra de medir do norte e do sul (Eruvin 49b, bloco 1748). No segundo comentário, as palavras “[או מהאי גיסא]” estão entre colchetes no texto do Sefaria, acréscimo do editor; a tradução as inclui sem marca. A tradução de referência explica do mesmo modo. Em Eruvin 50a (bloco 1753), o Rashi explicou a expressão “quatro amot dentre oito” dizendo que “adiante estabelecemos a mishná numa árvore que tem debaixo de si oito amot”; ao que parece, refere-se a esta palavra de Rav Huna, filho de Rav Yehoshua.
Foi ensinada uma baraita (ensinamento dos tanaítas não incluído na Mishná) conforme Rav; foi ensinada outra conforme Shmuel.
A guemará volta à disputa de Rav e Shmuel sobre quem disse “a minha shevitá é debaixo dela” (Eruvin 49b, blocos 1745–1748). A baraita conforme Rav vem nos blocos 1769–1775; a conforme Shmuel, nos blocos 1776–1778. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
Foi ensinado numa baraita conforme Rav: Quem vinha pelo caminho na véspera do Shabat e anoiteceu para ele, e conhecia uma árvore ou uma cerca (a duas mil amot de onde estava), e disse: “A minha shevitá é debaixo dela”, não disse nada. Mas, se disse: “A minha shevitá é em tal lugar” (um lugar delimitado), anda no Shabat até chegar àquele lugar; se chegou àquele lugar, anda por todo ele e, fora dele, duas mil amot.
“A minha shevitá é em tal lugar” — como a baraita explica em seguida: que aquele lugar estava cercado de divisórias e era próprio para ser todo ele como quatro amot. Por isso não precisa especificar nele quatro amot, pois todo ele é como quatro amot; e anda por todo ele e, fora dele, duas mil amot.
A primeira frase da baraita é a da mishná (Mishná Eruvin 4:7, em Eruvin 49b, bloco 1739), com “בַּדֶּרֶךְ”, com artigo, como na edição avulsa da Mishná, onde o Talmud, em 49b, diz “בְּדֶרֶךְ”. A tradução de referência entende “em tal lugar” como o Rashi: um lugar delimitado, que conta inteiro como as suas quatro amot. Um paralelo na Tosefta Eruvin 3:15 (Lieberman; conferido) diz de quem declarou a shevitá num monte ou num vale de dez tefachim, ou num jardim cercado: “ומודד עד שמגיע לאותו מקו', בא לאותו מקום, מהלך את כולה וחוצה לה אלפים אמה”.
Em que caso foram ditas estas palavras? Num lugar definido, por exemplo, que repousou num tel (monte) que é alto dez tefachim (palmos), e ele vai de quatro amot até beit sata’im (área de semeadura de duas seás).
“Em que caso foram ditas estas palavras” — isto é, que anda por todo ele, além das duas mil amot que tem fora dele.
“Num lugar definido” — que é destacado e distinto do resto do vale, por ter divisórias; e ele vai de quatro amot até beit sata’im. Pois, sendo menos do que isso, que novidade há em “anda por todo ele”? Também sem divisórias adquire quatro amot para a shevitá. E, se é mais do que beit sata’im, já que não foi cercado para moradia, as divisórias não lhe servem para torná-lo como quatro amot.
Segundo o Rashi, “definido” é o lugar separado do resto da planície por divisórias, como as encostas de um monte de dez tefachim; e o tamanho tem de estar entre quatro amot, porque um espaço menor seria adquirido de qualquer modo, e beit sata’im, porque um espaço maior, não cercado para moradia, não conta como um todo. A tradução de referência explica do mesmo modo. A Tosefta Eruvin 3:15 (Lieberman; conferido) diz: “בתל גבוה עשרה טפחים לא יתר מבית סאתים, פחו' מעשרה טפחים אין יתר מארבע אמות”.
E assim também uma bik’á (vale) que é funda dez tefachim, e ela vai de quatro amot até beit sata’im. Mas, num lugar que não é definido, não tem nele senão quatro amot.
“Mas um lugar que não é definido” — isto é, que não é todo ele um só domínio de quatro amot; por exemplo, que não tem divisórias, ou que é maior que beit duas seás.
“Não tem” — dentro dele senão quatro amot, além das duas mil dali em diante; e precisa especificar nele quais delas, como explica adiante. E, quando as especifica, adquire-as, e anda dali em diante duas mil amot; e o espaço dentro das divisórias entra-lhe na conta (das duas mil).
“Em que caso foram ditas estas palavras” — isto é, que, num lugar não definido, adquire ao menos quatro amot para a shevitá, e duas mil a partir delas para cada direção.
Segundo o Rashi, num lugar sem divisórias, ou maior que beit sata’im, a shevitá é só de quatro amot, que ele precisa especificar; uma vez especificadas, tem duas mil amot a partir delas, e o espaço dentro das divisórias conta nessas duas mil. O terceiro comentário explica o “em que caso foram ditas estas palavras” do bloco 1773, mas o Sefaria o liga a este segmento, e mantemo-lo aqui. O lema do primeiro diz “אבל מקום שאינו מסויים”, onde a guemará diz “אֲבָל בְּמָקוֹם שֶׁאֵין מְסוּיָּים”. A Tosefta Eruvin 3:15 (Lieberman; conferido) diz: “ובנקע עמוק מעשרה לא יתר מבית סאתים”, com “נקע”, “depressão”, onde a baraita diz “בקעה”.
Se eram dois, um que conhece o lugar e um que não o conhece, aquele que não conhece entrega a sua shevitá ao que conhece (para que a fixe junto com a sua), e o que conhece diz: “A minha shevitá é em tal lugar”.
A tradução de referência entende que quem não conhece o lugar confia ao outro o direito de fixar a sua shevitá. Na Tosefta Eruvin 3:16 (Lieberman; conferido), num caso semelhante, de quem adquiriu as quatro amot ao lado de uma árvore que depois foi arrancada, lê-se: “ר' יוסה או' היו שנים, אחד מכיר ואחד שאינו מכיר, הואיל ואחד מהן מכיר, שניהן מותרין”. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
Em que caso foram ditas estas palavras? Quando especificou as quatro amot que fixou (para a shevitá); mas, se não especificou as quatro amot que fixou, não se mova do seu lugar.
“Quando especificou quatro amot” — que a shevitá fixou em quatro amot nas quais havia para ele um sinal, uma árvore ou uma pedra, e disse: “Nestas quatro seja a minha shevitá”.
“Não se mova do seu lugar” — nem mesmo um passo para fora das quatro amot do lugar dos seus pés; pois não tem shevitá nem aqui nem ali: no lugar dos seus pés não quis adquirir, e aqui, onde quis adquirir, não especificou. E isto é conforme Rav.
É o fim da baraita conforme Rav: quem não especificou as quatro amot da sua shevitá não adquiriu nada, nem onde está, porque desviou dali a intenção, nem onde quis, porque não especificou; é a mesma razão que o Rashi dá para Rav em Eruvin 49b (bloco 1745). A tradução de referência explica do mesmo modo. O lema do Rashi diz “במסיים ד"א”, onde a guemará diz “כְּשֶׁסִּיֵּים אַרְבַּע אַמּוֹת”.
Digamos que a baraita seja uma refutação de Shmuel? Shmuel te diria: Aqui, de que tratamos? Por exemplo, quando há, do lugar dos seus pés até o seu tronco (da árvore), duas mil e quatro garmidei (amot); de modo que, se o pões do outro lado da árvore, o lugar dos seus pés fica fora do techum (limite de Shabat).
“Aqui, de que tratamos” — na baraita que ensina “não se mova”? Por exemplo, quando há, do lugar dos seus pés até o seu tronco, duas mil e quatro garmidei: duas mil para o techum e quatro para a shevitá. Todas se esgotam do lugar dos seus pés até o seu tronco, e ainda a copa do outro lado da árvore se estende para fora de todas elas.
“Pois, se o pões do outro lado da árvore, fica fora do techum” — pois, se lhe dás shevitá debaixo da copa do outro lado, resulta que o lugar dos seus pés, onde estava de pé na hora em que anoiteceu para ele, fica fora do seu techum, pois dista do lugar da sua shevitá mais de duas mil e quatro amot. Por isso, se especificou para si quatro amot deste lado da árvore, pode ir bem debaixo da árvore; mas, se não as especificou para si, pode-se dizer que escolheu a shevitá do outro lado, e eis que ele está agora fora do seu techum e não tem senão quatro amot onde está. E, quando Shmuel disse que adquire shevitá debaixo da árvore, embora não tenha especificado, e pode ir até lá, trata-se do caso em que todo o espaço debaixo da árvore está dentro de duas mil e quatro amot; pois, quaisquer quatro amot que lhe dês para a shevitá debaixo dela, o techum delas chega até o lugar dos seus pés. Por isso adquiriu ali shevitá; mas não sabe se ao norte da árvore ou ao sul dela, e por isso a sua mão fica por baixo: se vem medir duas mil amot a partir do norte da árvore, para o lado da sua casa, medem-lhe a partir do sul dela, e encurtam-lhe todo o seu techum em toda a medida do espaço debaixo da árvore, e não chega à sua casa; se vem medir a partir do sul da árvore e voltar para trás do lugar dos seus pés tanto quanto a medida do espaço debaixo da árvore, medem-lhe a partir do norte da árvore, e o techum termina no lugar dos seus pés (e não pode voltar para trás).
Segundo o Rashi, Shmuel admite a baraita só no caso em que a copa passa do limite: do lugar onde está até o tronco há duas mil e quatro amot, e a copa do outro lado está além disso. Se escolheu as quatro amot do lado de cá, adquire e pode ir; se não especificou, talvez tenha escolhido o lado de lá, e então o lugar onde está ficaria fora do seu techum. Já a palavra de Shmuel em Eruvin 49b (bloco 1746) trata do caso em que toda a copa está dentro de duas mil e quatro amot; aí ele adquire, mas, como não se sabe de que lado, perde a largura da copa nas duas direções (bloco 1748). A tradução de referência explica do mesmo modo. “Garmidei” é palavra aramaica para amot, côvados. “A sua mão fica por baixo” traduz “ידו על התחתונה”, como em Eruvin 50a.
Se especificou quatro amot do lado de cá da árvore, pode ir; e, se não, não pode ir (pois talvez tenha escolhido o outro lado).
Segundo o Rashi (comentário ligado ao bloco 1774), quem não especificou, neste caso, não tem senão quatro amot onde está. A tradução de referência explica do mesmo modo. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
Foi ensinado numa baraita conforme Shmuel: Se errou e fez eruv (a refeição depositada que fixa a residência de Shabat) para duas direções — isto é, ele imagina que se faz eruv para duas direções —, ou que disse aos seus servos: “Saí e fazei eruv para mim” (sem dizer para onde), e um fez eruv por ele para o norte e um fez eruv por ele para o sul, anda para o norte conforme o seu eruv para o sul, e anda para o sul conforme o seu eruv para o norte (só até onde os dois lhe permitem).
“Errou e fez eruv para duas direções” — isto é, para o sul e para o norte.
“Ele imagina” — que é permitido fazer assim, e ir de manhã aqui e à tarde ali. E, já que teve em vista as duas, e só um deles (dos eruvin) lhe adquiriu a shevitá, e não se sabe qual é, impõem-se-lhe os rigores deste e os rigores daquele.
“Anda para o norte conforme o seu eruv para o sul, e para o sul conforme o seu eruv para o norte” — anda a partir da sua casa para o norte a medida do techum que lhe deixa o seu eruv do sul para o lado do norte, e anda da sua casa para o sul a medida do techum que lhe deixa o eruv do norte para o lado do sul. Por exemplo, se não precisava ir senão três mil amot para cá e três mil amot para lá, e puseram o eruv no fim de mil amot para cá e no fim de mil amot para lá, para que tenha, do lugar do seu eruv, duas mil amot: pode ir mil amot da sua casa para cá e para lá (e não mais), pois do seu eruv tem duas mil amot para cada direção. Por isso, as duas mil amot que tem para o norte a partir do seu eruv do sul terminam para ele no fim de mil amot ao norte da sua casa, e as duas mil amot que tem para o sul a partir do seu eruv do norte terminam para ele no fim de mil amot ao sul da sua casa.
Quem fez eruv para duas direções opostas, por pensar que é permitido, ou cujos servos, mandados sem especificação, puseram um eruv ao norte e outro ao sul, adquiriu shevitá num só deles, mas não se sabe em qual; por isso, segundo o Rashi, aplicam-se-lhe os rigores dos dois: para cada lado, só pode andar até onde chega o techum do eruv do lado oposto. No exemplo do Rashi, com os eruvin a mil amot da casa, de cada lado, ele pode andar só mil amot da casa em cada direção. A tradução de referência explica do mesmo modo. A mesma baraita está na Tosefta Eruvin 3:4 (Lieberman; conferido): “טעה ועירב לשתי רוחות, כמדומה שמותר בשתיהן, מהלך בצפון כעירובו של זה בדרום, ובדרום כעירובו של זה בצפון”; ali, antes dela, também se fala de dois eruvin feitos para alguém, um para o norte e outro para o sul.
E, se os que fizeram o eruv centraram sobre ele o techum (pondo cada eruv a duas mil amot da sua casa, em direções opostas), não se mova do seu lugar (da sua casa).
“E, se centraram sobre ele o techum” — “sobre ele”, isto é, por causa dele centraram o techum: que cada um pôs o eruv no fim de duas mil amot, de modo que agora a sua cidade fica no meio de dois techumim, um techum inteiro do ocidente até a sua casa e um techum inteiro do oriente; pois tiveram em vista adquirir shevitá do eruv, com duas mil amot dali em diante.
“Não se mova do seu lugar” — da sua casa; e nem sequer é como os moradores da sua cidade (que têm duas mil amot para cada lado), pois não teve em vista adquirir shevitá senão no lugar dos eruvin, e não sabe qual deles lhe adquiriu a shevitá: este eruv do sul faz-lhe perder as duas mil amot do norte, e este eruv do norte faz-lhe perder as duas mil do sul. De qualquer modo, ensina a baraita: “Anda para o norte conforme o seu eruv para o sul”. Vê-se, pois, que, onde estamos em dúvida sobre qual dos dois lhe convém, seguimos ambos para o rigor; porém, no que os dois lhe deixam, é-lhe permitido ir, embora não tenha especificado qual lhe convém. E isto é conforme Shmuel, que disse que, onde estamos em dúvida sobre em quais quatro amot da árvore adquiriu shevitá, damos-lhe os rigores de ambas.
Se cada eruv foi posto a duas mil amot da casa, um de cada lado, o techum do eruv do norte termina na casa, e o do eruv do sul também; por isso não pode sair dela. Segundo o Rashi, a baraita apoia Shmuel: embora a shevitá esteja em dúvida, ele não fica sem nada, mas pode andar no espaço que os dois eruvin lhe permitem, como Shmuel diz de quem não especificou as quatro amot debaixo da árvore (Eruvin 49b, blocos 1746–1748). No primeiro comentário, o texto do Sefaria traz “עירוב [עירו]”, com a correção “עירו”, “a sua cidade”, entre colchetes; a tradução segue a correção. O Rashi fala aqui de ocidente e oriente, onde a baraita fala de norte e sul. A Tosefta Eruvin 3:4 (Lieberman; conferido) diz: “אם מיצע את התחום, אל יזוז ממקומו”. A tradução de referência explica do mesmo modo e entende “do seu lugar” como o lugar onde está.
Digamos que a baraita seja uma refutação de Rav? Rav é tanna (sábio da Mishná) e diverge.
“Digamos que seja uma refutação de Rav” — que disse que, onde não especificou, não se mova do seu lugar, pois no lugar dos seus pés não quis adquirir, e debaixo da árvore, já que se pode dizer assim e se pode dizer assado, não adquiriu nem estas nem aquelas amot; pois aqui dizemos que, embora se possa dizer assim e se possa dizer assado, adquiriu shevitá num dos eruvin e é permitido andar no lugar que ambos lhe dão. Pois, para Rav, mesmo que não tivessem centrado o techum, não se moveria do seu lugar, pois na sua casa não quis adquirir, e nas shevitot dos eruvin não especificou qual lhe convém. Mas, segundo a versão que ouvi sobre a palavra de Shmuel, é-me difícil: que o obrigou a guemará a dizer “Rav é tanna e diverge”? Ora, a disputa de Rav e Shmuel é sobre quê? Rav sustenta que não lhe adquiriu nem o lugar dos seus pés nem o espaço debaixo da árvore, e, para Shmuel, adquiriu ou o lugar dos seus pés ou debaixo da árvore. E objetamos a Rav a partir disto que ensina a baraita, que adquiriu ou ao norte ou ao sul, e anda conforme os pés de ambos. Acaso se assemelha isto ao caso de Rav? Aqui, teve em vista ambos; e, no caso dos servos, também ambos cumpriram a sua missão; e duas shevitot são impossíveis, porém uma delas adquire; e, como não se sabe qual adquire, impõem-se-lhe os rigores das duas, e o resto do espaço é permitido, seja como for. Mas lá, no seu lugar, não quis adquirir, e, debaixo da árvore, Rav sustenta que, já que não especificou, não é aquisição; por isso não tem shevitá alguma. E, se disseres que esta é a refutação dele: por que lá não adquire, debaixo da árvore, ou as quatro amot do norte ou as quatro do sul, e se lhe imponham os rigores de ambas, e o resto do espaço seja permitido, seja como for? Se é assim, para Shmuel também é refutação, pois naquela versão se explica que, para Shmuel, não tem nada da árvore em diante; e por quê? Seja como for, que se lhe dêem, a partir do começo da árvore, do lado dos seus pés, duas mil amot para o lado da sua casa.
A baraita parece contradizer Rav, pois admite uma shevitá adquirida sem especificação; a guemará responde que Rav tem autoridade de tanna e pode divergir de uma baraita. A mesma resposta, “רב תנא הוא ופליג”, aparece em Ketubot 8a, Gittin 38b, Sanhedrin 83b e Bava Batra 42a (conferidos). Segundo o Rashi, a objeção é forte segundo a primeira explicação de Eruvin 49b (bloco 1748), em que, para Shmuel, a shevitá debaixo da árvore vale com os rigores dos dois lados, como na baraita dos dois eruvin; mas, segundo a outra versão que o Rashi diz ter ouvido (ali, “זה שמעתי”), em que Shmuel deixa a shevitá em dúvida entre o lugar onde está e a árvore, a baraita não seria objeção a Rav: nela, quem fez os eruvin quis adquirir nos dois lugares, e um deles certamente adquire; já na árvore, ele não quis adquirir onde está, e, para Rav, sem especificação não há aquisição. E, se se disser que a objeção é que Rav deveria dar-lhe as quatro amot do norte ou as do sul, com os rigores dos dois, então essa versão seria refutada também para Shmuel, que nela não lhe dá nada da árvore em diante. No texto do Sefaria lê-se “מי דמיא הא לדרב: הכא איכוין”, com dois-pontos depois de “לדרב”; a tradução lê “acaso se assemelha isto ao caso de Rav? Aqui, teve em vista ambos”. “Conforme os pés de ambos” traduz “כרגלי שניהן”, isto é, só até onde ambos lhe permitem; “seja como for” traduz “ממה נפשך”. A tradução de referência diz que a baraita de fato diverge de Rav.
Se disse: “A minha shevitá é no seu tronco” (da árvore), adquiriu-a ali, e anda do lugar dos seus pés até o seu tronco duas mil amot, e do seu tronco até a sua casa outras duas mil amot. Resulta que anda, desde que anoiteceu, quatro mil amot.
A guemará cita a continuação da mishná (Mishná Eruvin 4:7, em Eruvin 49b, bloco 1740; conferida), para explicá-la. Aqui se lê “וּמֵעִיקָּרוֹ לְבֵיתוֹ”, “e do seu tronco para a sua casa”, onde em 49b se lê “וּמֵעִיקָּרוֹ וְעַד בֵּיתוֹ”, “e do seu tronco até a sua casa”; o sentido não muda. A guemará prossegue em Eruvin 51a com a palavra de Rava sobre esta frase: “וְהוּא דְּכִי רָהֵיט לְעִיקָּרוֹ מָטֵי” (conferido). O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.