Talmud Bavli · Massechet Eruvin · Perek Dalet (Mi SheHotziuhu) · 50a
בְּזֶה אַחַר זֶה

A razão de Rav; “tudo o que não tem efeito um depois do outro”; o dízimo, o dízimo dos animais e a todá sobre oitenta pães

Eruvin 50a — Perek Dalet (Mi SheHotziuhu, Eruvin 41b:6-52b:15) · Rabba: a razão de Rav é que não especificou o seu lugar; e há quem diga: tudo o que não tem efeito um depois do outro, nem mesmo de uma vez o tem · a diferença: quatro amot dentre oito · o princípio de Rabba: Abaye objeta com quem aumenta os dízimos; o dízimo aplica-se a metades · o dízimo dos animais: saíram dois no décimo; aplica-se um depois do outro por erro; chamou o nono de décimo (Mishná Bechorot 9:8) · a todá sobre oitenta pães: Chizkiya e Rabi Yochanan; Rabi Zeira: todos concordam; quando discordam, sem especificação · continua de Eruvin 49b; a guemará continua em Eruvin 50b

Rabba explica por que, segundo Rav, quem disse “a minha shevitá é debaixo dela” não disse nada: porque não especificou o seu lugar; e há quem diga que é porque Rav sustenta que tudo o que não tem efeito um depois do outro, nem mesmo de uma vez o tem. A diferença entre as duas versões está em quem disse “quatro amot dentre oito”. A guemará examina então o princípio de Rabba: Abaye objeta com quem aumenta os dízimos, cujo produto fica dizimado, e a resposta é que o dízimo se aplica a metades de cada grão; objeta-se com o dízimo dos animais, em que, segundo Rabba, se dois saíram juntos no décimo lugar e foram chamados “décimo”, um deles é dízimo, e a resposta é que ali há santidade um depois do outro por erro, como na mishná de quem chamou o nono de décimo; objeta-se ainda com a todá abatida sobre oitenta pães, em que Chizkiya diz que quarenta se santificam, e Rabi Zeira explica que todos concordam quando o dono especificou, e que discordam no caso sem especificação. O daf termina no meio desta explicação.

A razão de Rav: Rabba · טַעְמָא דְּרַב

1749Rabba: o lugar não está especificado
A guemará
אָמַר רַבָּה: מַאי טַעְמָא דְּרַב — מִשּׁוּם דְּלָא מְסַיַּים אַתְרֵיהּ.

Disse Rabba: Qual é a razão de Rav (que disse: não disse nada, de modo algum)? Porque quem disse “a minha shevitá é debaixo dela” não especificou o seu lugar (as quatro amot da sua shevitá debaixo da árvore).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “mai ta’ama deRav”
מאי טעמא דרב - בשלמא לשמואל ללישנא קמא מיסתברא מילתיה דמכל מקום קנה שביתה תחת האילן אבל אין אנו יודעין איזו ד' אמות קנה הלכך ידו על התחתונה ומפסיד מארבע' אלפים כשיעור תחתיו של אילן בא למדוד מכאן מודדין לו מכאן:

“Qual é a razão de Rav” — pergunta-se por Rav, pois para Shmuel, segundo a primeira versão da explicação, a sua palavra é razoável: que, seja como for, adquiriu shevitá debaixo da árvore, mas não sabemos que quatro amot adquiriu; por isso a sua mão fica por baixo (fica em desvantagem), e perde, das quatro mil amot, a medida do espaço debaixo da árvore: se vem medir daqui, medem-lhe dali.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “mishum dela mesayem atreh”
משום דלא סיים אתריה - וכיון דלא סיים לא קני ליה מידי:

“Porque não especificou o seu lugar” — e, já que não especificou, não adquiriu para si coisa alguma (nem debaixo da árvore, nem no lugar dos seus pés).

Nota

A guemará volta à palavra de Rav em Eruvin 49b (bloco 1745): quem disse “a minha shevitá é debaixo dela” não disse nada, de modo algum, e nem para debaixo da árvore pode ir. Segundo o Rashi, a palavra de Shmuel não precisa de explicação, pois é razoável segundo a primeira versão que o próprio Rashi deu em Eruvin 49b (bloco 1748): a shevitá foi adquirida em algum lugar debaixo da árvore, e só se ignora em que quatro amot, de modo que ele perde a largura da copa; por isso a guemará pergunta pela razão de Rav. A razão, nesta primeira versão de Rabba, é que ele não especificou o lugar, e quem não especifica não adquire nada. A tradução de referência (Steinsaltz) explica do mesmo modo. “A sua mão fica por baixo” traduz “ידו על התחתונה”.

1750E há quem diga: um depois do outro
A guemará
וְאִיכָּא דְאָמְרִי, אָמַר רַבָּה: מַאי טַעְמָא דְּרַב — מִשּׁוּם דְּקָסָבַר: כׇּל שֶׁאֵינוֹ בְּזֶה אַחַר זֶה — אֲפִילּוּ בְּבַת אַחַת אֵינוֹ.

E há quem diga de outro modo: Disse Rabba: Qual é a razão de Rav? Porque Rav sustenta: Tudo o que não tem efeito um depois do outro, nem mesmo de uma vez o tem (e, como não pode adquirir quatro amot debaixo da árvore e depois outras quatro, também não adquire de uma vez todo o espaço debaixo dela).

Nota

É a segunda versão da razão que Rabba dá para Rav. “Tudo o que não tem efeito um depois do outro, nem mesmo de uma vez o tem” traduz “כׇּל שֶׁאֵינוֹ בְּזֶה אַחַר זֶה — אֲפִילּוּ בְּבַת אַחַת אֵינוֹ”, literalmente “tudo o que não é um depois do outro, nem mesmo de uma vez é”. Segundo o Rashi (no comentário que o Sefaria liga ao bloco 1753), quem especificasse quatro amot do norte não poderia depois escolher quatro do sul para ter shevitá nos dois lugares; por isso, quando disse todas de uma vez, “debaixo dela”, não adquire. O mesmo princípio de Rabba e a discussão que segue, com as objeções do dízimo, do dízimo dos animais e da todá, estão em Kiddushin 50b–51a (conferido). O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1751Que há entre elas? Quatro amot dentre oito
A guemará
מַאי בֵּינַיְיהוּ? אִיכָּא בֵּינַיְיהוּ דְּאָמַר: ״לִיקְנוֹ לִי בְּאַרְבַּע אַמּוֹת מִגּוֹ שְׁמוֹנֶה״.

Que há entre elas (as duas versões da razão de Rabba)? Há entre elas o caso em que disse: “Que a shevitá se adquira para mim em quatro amot dentre oito” (das que há debaixo da árvore).

Nota

A diferença prática entre as duas versões está no caso de quem disse expressamente que adquire quatro amot dentre as oito que há debaixo da árvore, sem dizer quais. O comentário do Rashi sobre esta frase, “ארבע מינייהו מגו תמני”, é ligado pelo Sefaria ao bloco 1753, e mantemo-lo ali. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1752Para quem diz: não especificou
A guemará
מַאן דְּאָמַר מִשּׁוּם דְּלָא מְסַיַּים אַתְרֵיהּ — הָא לָא מְסַיַּים אַתְרֵיהּ.

Quem diz que a razão de Rav é porque não especificou o seu lugar, para ele, eis que também aqui não especificou o seu lugar (pois não disse quais quatro amot dentre as oito).

Nota

Segundo a primeira versão, também quem disse “quatro amot dentre oito” não adquire nada, pois o lugar continua sem especificação. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1753Para quem diz: um depois do outro
A guemará
וּמַאן דְּאָמַר מִשּׁוּם ״כׇּל שֶׁאֵינוֹ בְּזֶה אַחַר זֶה אֲפִילּוּ בְּבַת אַחַת אֵינוֹ״ — הַאי כְּאַרְבַּע אַמּוֹת דָּמֵי, דְּהָכָא אַרְבַּע אַמּוֹת קָאָמַר.

E quem diz que a razão é por causa de “tudo o que não tem efeito um depois do outro, nem mesmo de uma vez o tem”, este caso é semelhante a quatro amot, pois aqui disse quatro amot (e adquire shevitá).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “kol she’eino bezeh achar zeh”
כל שאינו בזה אחר זה אפילו בבת אחת אינו - דכיון דאם סיים ד' צפוניות אינו יכול לחזור בו לברור ד' דרומיות להיות לו שביתה כאן וכאן כי אמר נמי כולהו כחדא כגון הכא דאמר שביתתי תחתיו לא אמרינן ליקנו:

“Tudo o que não tem efeito um depois do outro, nem mesmo de uma vez o tem” — pois, já que, se especificasse quatro amot do norte, não poderia voltar atrás e escolher quatro do sul, para ter shevitá aqui e ali, também quando disse todas como uma só, como aqui, que disse: “A minha shevitá é debaixo dela”, não dizemos que adquira.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “arba minayhu migo tmanei”
ארבע מינייהו מגו תמני - להכי נקט מגו תמני דלקמן מוקמינן באילן שיש תחתיו ח' אמות:

“Quatro delas dentre oito” — por isso a guemará menciona “dentre oito”, porque adiante estabelecemos a mishná numa árvore que tem debaixo de si oito amot.

Nota

Segundo a segunda versão, quem disse “quatro amot dentre oito” não pediu mais do que quatro amot, e não há aqui várias aquisições que se anulem uma à outra; por isso adquire. O Sefaria liga a este segmento os dois comentários do Rashi: o primeiro explica o princípio citado no bloco 1750, e o segundo a expressão “dentre oito” do bloco 1751; mantemo-los onde o Sefaria os põe. O lema do segundo diz “ארבע מינייהו מגו תמני”, “quatro delas dentre oito”, onde a guemará diz “בְּאַרְבַּע אַמּוֹת מִגּוֹ שְׁמוֹנֶה”. O “adiante” do Rashi não é identificado por ele; não o localizamos.

O princípio de Rabba: o dízimo · הַמַּרְבֶּה בְּמַעַשְׂרוֹת

1754Abaye: quem aumenta os dízimos
A guemará
גּוּפָא, אָמַר רַבָּה: כׇּל דָּבָר שֶׁאֵינוֹ בְּזֶה אַחַר זֶה — אֲפִילּוּ בְּבַת אַחַת אֵינוֹ, אֵיתִיבֵיהּ אַבָּיֵי לְרַבָּה: הַמַּרְבֶּה בְּמַעַשְׂרוֹת — פֵּירוֹתָיו מְתוּקָּנִין, וּמַעְשְׂרוֹתָיו מְקוּלְקָלִין.

Voltando ao próprio assunto: Disse Rabba: Toda coisa que não tem efeito um depois do outro, nem mesmo de uma vez o tem. Abaye objetou a Rabba: Quem aumenta os maasrot (dízimos) (separando mais de um décimo), os seus frutos estão consertados, e os seus dízimos estão estragados.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “hamarbe bema’asrot”
המרבה במעשרות - אחד מחמש או מח':

“Quem aumenta os dízimos” — separando um de cada cinco ou um de cada oito.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “peirotav”
פירותיו - שסילק לצד אחר חולין מתוקנין הן אבל המעשרות שנותן ללוי מקולקלין הן שהרי טבל מעורב בהן כשנתן קב השמיני לא חל שם המעשר אלא על הראוי למעשר והשאר טבל הוא דמעשר בהדיא אמר רחמנא שיעור אחד מעשרה ולא דמי לתרומה שניטלת בעין יפה ובעין רעה ובבינונית דבתרומה לא כתיב בה שיעור:

“Os seus frutos” — que pôs de lado, como chulin (alimento comum), estão consertados; mas os dízimos que dá ao levita estão estragados, pois há tevel (produto ainda não dizimado) misturado neles: quando deu um kav (medida de volume) de cada oito, o nome de dízimo não recaiu senão sobre o que é adequado para dízimo (um décimo), e o restante é tevel; pois sobre o dízimo o Misericordioso disse expressamente a medida: um de dez. E não se compara à terumá (a porção da colheita separada para o cohen), que se tira com olho bom, com olho mau e com olho mediano, pois na terumá não está escrita medida.

Nota

A guemará examina o princípio de Rabba em si. Abaye objeta a partir de uma baraita: quem separa como dízimo mais de um décimo, por exemplo um quinto, deixou o resto do produto dizimado, mas o que deu como dízimo fica estragado. Segundo o Rashi, o dízimo tem medida fixa, um de dez, e o nome de dízimo recai só sobre a parte devida; o excedente é tevel misturado ao dízimo, e por isso o levita não pode usá-lo; já a terumá não tem medida escrita na Torá e pode ser tirada com generosidade ou com avareza. A mesma baraita está em Kiddushin 51a, com “המרבה במעשר” no singular (conferido), e na Tosefta Demai 8:10, na numeração do Sefaria (conferida), onde se lê ao contrário: “os seus dízimos estão consertados e os seus frutos estão estragados”. A tradução de referência diz que a fonte é a Tosefta. “Consertados” traduz “מְתוּקָּנִין”, isto é, aptos para comer; “estragados” traduz “מְקוּלְקָלִין”. “Voltando ao próprio assunto” traduz “גּוּפָא”.

1755Por que? Que valha o princípio
A guemará
אַמַּאי? לֵימָא: כׇּל שֶׁאֵינוֹ בְּזֶה אַחַר זֶה — אֲפִילּוּ בְּבַת אַחַת אֵינוֹ!

Por que os seus frutos estão consertados? Digamos: Tudo o que não tem efeito um depois do outro, nem mesmo de uma vez o tem, e nada recaiu sobre o que separou!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “amai”
אמאי - פירותיו מתוקנין:

“Por que” — estão os seus frutos consertados?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “nema kol she’eino bezeh achar zeh”
נימא כל שאינו בזה אחר זה - דאילו הוה מפריש מעשר כהלכתו והדר שקל תו וקרייה עליה שם מעשר על חולין שניתקנו כבר לא חייל עליה שם מעשר והשתא נמי כי אפריש האי טופיינא עם מעשר לא ליחול שם מעשר אפילו על הראוי למעשר כי היכי דאמר גבי שביתה דלא קני ארבע מינייהו מגו תמני כי לא אמר ארבע בהדיא:

“Digamos: Tudo o que não tem efeito um depois do outro” — pois, se separasse o dízimo segundo a sua lei e depois tomasse ainda mais e lhe desse o nome de dízimo, sobre chulin que já foram consertados, o nome de dízimo não recairia sobre ele; e agora também, quando separou esse excedente junto com o dízimo, que o nome de dízimo não recaia nem mesmo sobre o que é adequado para dízimo, assim como disse a respeito da shevitá que não adquire quatro delas dentre oito, quando não disse quatro expressamente.

Nota

Segundo o Rashi, separar um segundo dízimo depois do primeiro não tem efeito, pois o produto já está dizimado; logo, pelo princípio de Rabba, separar os dois de uma vez também não deveria ter efeito, e o produto deveria continuar sem dízimo. O Rashi compara com a shevitá: quem disse “debaixo dela”, sem dizer quatro amot, não adquire quatro dentre oito.

1756O dízimo é diferente: aplica-se a metades
A guemará
שָׁאנֵי מַעֲשֵׂר דְּאִיתֵיהּ לַחֲצָאִין, דְּאִי אָמַר: ״תִּקְדּוֹשׁ פַּלְגָא פַּלְגָא דְחִיטְּתָא״ — קָדְשָׁה.

O maaser (dízimo) é diferente, pois se aplica a metades; pois, se disse: “Que se santifique como dízimo metade, metade do grão de trigo”, ele se santifica (e assim cada grão do que separou é meio dízimo).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “shani maaser”
שאני מעשר - דלהכי פירותיו מתוקנין דעל כל גרגר וגרגר שבו חל השם עליו לפי חשבון הראוי למעשר כגון הפריש אחד מחמשה קדש כל גרגר חציו אבל גבי שביתה ליכא למימר דשייכא בכל תחתיו של אילן דארבע אמות כהדדי בעינן:

“O maaser é diferente” — pois por isso os seus frutos estão consertados: porque sobre cada grão e grão que há nele recai o nome de dízimo, segundo a conta do que é adequado para dízimo; por exemplo, se separou um de cada cinco, santificou-se a metade de cada grão. Mas a respeito da shevitá não se pode dizer que se aplique a todo o espaço debaixo da árvore, pois requeremos quatro amot juntas.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “de’i amar tikdosh palga palga dechitta”
דאי אמר תיקדוש פלגא פלגא דחיטתא קדשה - והאי כיון דאפריש כפלים וקרא עליה שם מעשר כמאן דאמר תיקדוש כל חיטתא לפלגא:

“Pois, se disse: Que se santifique metade, metade do grão de trigo, ele se santifica” — e este, já que separou o dobro e lhe deu o nome de dízimo, é como quem disse: “Que se santifique cada grão de trigo pela metade”.

Nota

O dízimo pode recair sobre uma parte de cada grão. Segundo o Rashi, quem separou o dobro é como quem disse que cada grão do que separou seja dízimo pela metade; assim o produto que ficou está dizimado, mas o que foi separado é estragado, pois em cada grão há dízimo e tevel. Na shevitá isso não se aplica, pois ela requer quatro amot juntas. A tradução de referência explica do mesmo modo. “Metade, metade do grão de trigo” traduz “פַּלְגָא פַּלְגָא דְחִיטְּתָא”.

O dízimo dos animais · מַעְשַׂר בְּהֵמָה

1757Mas eis o dízimo dos animais
A guemará
מַעְשַׂר בְּהֵמָה דְּלֵיתֵיהּ לַחֲצָאִין.

Mas eis o maaser behemá (dízimo dos animais, separado das crias do rebanho, um de cada dez), que não se aplica a metades (pois não se consagra meio animal).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “veharei maaser behemá”
והרי מעשר בהמה דליתיה לחצאין - דאי אמר חצי טלה זה חולין והחצי מעשר לא אמר כלום ליקדש לחצאין דכל אשר יעבור תחת השבט העשירי יהיה קדש אמר רחמנא (יהיה כולו קדוש לשם מעשר) וליתיה נמי בזה אחר זה שאם קרא לעשירי עשירי ולאחד עשר עשירי אינו קדוש וכי קרא לשנים עשירי בבת אחת אמרינן דחד מינייהו מעשר גמור דאמר רבה עשירי ואחד עשר מעורבין זה בזה דחד מינייהו מעשר ואידך הוי אחד עשר שקראו עשירי ואילו הוה ידע ביה כגון שטעה וקרא לעשירי תשיעי ולאחד עשר עשירי קיימא לן דעשירי מעשר ואחד עשר קרב שלמים ומה בין שלמים למעשר שהשלמים טעונין סמיכה ונסכים ותנופת חזה ושוק ונפדין במומן ותמורתן קריבה מה שאין כן במעשר והשתא דקראן בבת אחת ולא ידע הי עשירי גמור והי אחד עשר שנקרא עשירי בעו תרוייהו תנופת חזה ושוק וסמיכה ולבי אומר דאינו מברך על התנופה ועל הסמיכה דלא ליהוי ברכה לבטלה ונסכים יביא נסכי קרבן אחד על תנאי ויאמר אם זה שלמים יהיו על זה ואם לאו יהיו על חברו אלמא מדחל שם מעשר אחד מינייהו שמע. מינה אע"ג דלא קדיש אחד עשר אם קרא לעשירי עשירי דהוי עשירי וקרא לאחד עשר עשירי אפילו הכי כי קראן בבת אחת קדיש חד מינייהו בעשירי:

“Mas eis o maaser behemá, que não se aplica a metades” — pois, se disse: “Metade deste cordeiro é chulin e a metade é dízimo”, não disse nada quanto a que se santifique pela metade; pois “tudo o que passar debaixo da vara, o décimo será santo”, disse o Misericordioso, isto é, será todo ele santo como dízimo. E também não se aplica um depois do outro: pois, se chamou ao décimo “décimo” e ao décimo primeiro “décimo”, este não é santo. E, quando chamou a dois “décimo” de uma vez, dizemos que um deles é dízimo completo, pois disse Rabba: “O décimo e o décimo primeiro estão misturados um com o outro”, isto é, um deles é dízimo, e o outro é o décimo primeiro que ele chamou “décimo”. E, se se soubesse qual é, como quando errou e chamou ao décimo “nono” e ao décimo primeiro “décimo”, estabelecemos que o décimo é dízimo e o décimo primeiro é oferecido como shelamim (oferta de paz). E que diferença há entre shelamim e dízimo? Que os shelamim requerem semichá (apoiar as mãos sobre o animal) e libações e o movimento do peito e da coxa, e são redimidos quando têm defeito, e o seu substituto é oferecido, o que não ocorre com o dízimo. E agora, que os chamou de uma vez e não se sabe qual é o décimo completo e qual é o décimo primeiro que foi chamado “décimo”, ambos os animais requerem o movimento do peito e da coxa e a semichá; e o meu coração diz que não se recita bênção sobre o movimento e sobre a semichá, para que não seja bênção em vão. E as libações: traga o dono as libações de um só sacrifício sob condição, e diga: “Se este é shelamim, sejam por este; e, se não, sejam pelo seu companheiro”. Vê-se, pois, que o nome de dízimo recaiu sobre um deles. Aprende-se disso que, embora o décimo primeiro não se santifique se chamou ao décimo, que é de fato o décimo, “décimo”, e ao décimo primeiro “décimo”, ainda assim, quando os chamou de uma vez, um deles se santifica como décimo.

Nota

Nova objeção ao princípio de Rabba: o dízimo dos animais não recai sobre meio animal. Segundo o Rashi, ele também não recai um depois do outro, pois, depois de chamar o décimo de “décimo”, chamar o décimo primeiro de “décimo” não tem efeito; e, no entanto, quando dois saem juntos e se chamam “décimo” de uma vez, um deles é dízimo (bloco 1758). O Rashi explica como se tratam os dois, pois não se sabe qual é shelamim e qual é dízimo: a semichá e o movimento do peito e da coxa se fazem com os dois, sem bênção, e as libações de um só sacrifício se trazem sob condição. O versículo citado é Vayikra 27:32, “כֹּל אֲשֶׁר־יַעֲבֹר תַּחַת הַשָּׁבֶט הָעֲשִׂירִי יִהְיֶה־קֹּדֶשׁ” (conferido). No texto do Sefaria, as palavras “(יהיה כולו קדוש לשם מעשר)” estão entre parênteses no próprio Rashi; a tradução as inclui como explicação. O Rashi diz aqui “דאמר רבה”, sem parênteses; veja a nota do bloco 1758. O Sefaria imprime “שמע. מינה” com um ponto no meio da expressão “שְׁמַע מִינַּהּ”, “aprende-se disso”; a tradução lê a expressão inteira. A tradução de referência diz “that does take effect partially”, mas explica que não se pode consagrar meio animal; seguimos o hebraico, “דְּלֵיתֵיהּ לַחֲצָאִין”, “que não se aplica a metades”. O lema do Rashi começa com “והרי”, “mas eis”, que a guemará não traz aqui; a tradução acrescenta “mas eis” em itálico.

1758Saíram dois no décimo
A guemará
וְאָמַר (רַבָּה): יָצְאוּ שְׁנַיִם בַּעֲשִׂירִי, וּקְרָאָן עֲשִׂירִי — עֲשִׂירִי וְאַחַד עָשָׂר מְעוֹרָבִין זֶה בָּזֶה!

E disse Rabba: Se saíram dois do curral juntos no décimo, e o dono os chamou “décimo”, o décimo e o décimo primeiro estão misturados um com o outro (um deles é dízimo e o outro, shelamim)!

Nota

Na contagem do dízimo dos animais, as crias saem uma a uma do curral, e a décima é marcada como santa. Rabba ensina que, se duas saíram juntas na décima posição e o dono chamou as duas de “décimo”, uma é dízimo e a outra é o décimo primeiro, e não se sabe qual é qual. Isto contradiz o princípio de Rabba, pois, um depois do outro, chamar o décimo primeiro de “décimo” não teria efeito. No texto do Sefaria, o nome “(רַבָּה)” está entre parênteses, marca de leitura a suprimir; o Sefaria não indica o nome que o substitui. Mantivemos o hebraico como está e, como em Eruvin 41a (bloco 1408) e 43a (bloco 1479), a tradução segue a tradução de referência, que lê “Rabba”; o próprio Rashi, nos comentários dos blocos 1757 e 1759, diz “דאמר רבה” e “והא דרבה בפרק בתרא דבכורות”. Nos paralelos, a mesma frase é de Rava: em Kiddushin 51a, “ואמר רבא: יצאו שנים בעשירי” (conferido), e em Bechorot 60b, onde a palavra de Rava “יצאו שנים בעשירי וקראן עשירי, עשירי ואחד עשר מעורבין זה בזה” continua a de “אמר רבא: יצאו שנים בתשיעי” (conferido). O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1759O dízimo dos animais é diferente: um depois do outro por erro
A guemará
שָׁאנֵי מַעְשַׂר בְּהֵמָה דְּאִיתֵיהּ בְּזֶה אַחַר זֶה בְּטָעוּת.

O maaser behemá é diferente, pois se aplica um depois do outro quando é feito por erro (e por isso também de uma vez se aplica).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “shani maaser behemá”
שאני מעשר בהמה דאיתיה בזה אחר זה בטעות - כגון אם טעה בעשירי וקראו תשיעי ולאחד עשר עשירי קדוש אחד עשר משום קריאת השם וקרב שלמים דתנן כו' ובפרק בתרא דבכורות ילפינן מקראי הלכך כי קראן כאחד לא מעכב י"א על העשירי מלחול עליו שם גמור דהא י"א גופיה זימנין דקדוש בקריאת שם מעשר כגון היכא דקרייה לעשירי שלפניו תשיעי והא דרבה בפרק בתרא דבכורות:

“O maaser behemá é diferente, pois se aplica um depois do outro por erro” — por exemplo, se errou no décimo e o chamou “nono”, e ao décimo primeiro “décimo”, o décimo primeiro é santo por causa da designação do nome e é oferecido como shelamim, como ensinamos na mishná etc.; e no último capítulo de Bechorot aprendemos isso dos versículos. Por isso, quando os chamou como um só, o décimo primeiro não impede que recaia sobre o décimo o nome de dízimo completo, pois o próprio décimo primeiro às vezes é santo pela designação do nome de dízimo, como quando chamou ao décimo, que está antes dele, “nono”. E esta palavra de Rabba está no último capítulo de Bechorot.

Nota

Segundo o Rashi, quando por erro se chama o décimo de “nono” e o décimo primeiro de “décimo”, o décimo primeiro também se santifica, como shelamim; como, por erro, há santidade um depois do outro, também de uma vez ela tem efeito. O Rashi lembra que isso se aprende dos versículos no último capítulo de Bechorot; a mishná está em Bechorot 60a, e a baraita que a deriva dos versículos, em Bechorot 60b (conferidos). Ali, como visto na nota do bloco 1758, a palavra sobre os dois que saíram no décimo é de Rava.

1760Chamou o nono de décimo
A guemará
דִּתְנַן: קָרָא לַתְּשִׁיעִי עֲשִׂירִי, וְלָעֲשִׂירִי תְּשִׁיעִי, וְלָאַחַד עָשָׂר עֲשִׂירִי — שְׁלָשְׁתָּן מְקוּדָּשִׁין.

Como ensinamos na mishná: Se chamou ao nono “décimo”, e ao décimo “nono”, e ao décimo primeiro “décimo”, os três estão santificados (cada um com a sua santidade).

Nota

É a Mishná Bechorot 9:8 (conferida), em Bechorot 60a. A continuação da mishná diz qual é a santidade de cada um: o nono é comido quando tiver defeito, o décimo é dízimo, e o décimo primeiro é oferecido como shelamim. A mesma mishná é lembrada na disputa de Beit Shamai e Beit Hillel sobre a consagração por erro (Mishná Nazir 5:3, conferida). A tradução de referência diz que o nono é santo “porque foi chamado décimo”; a mishná diz só que os três estão santificados, e a tradução segue o hebraico. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

A todá e os oitenta pães · תּוֹדָה עַל שְׁמוֹנִים חַלּוֹת

1761Mas eis a todá: oitenta pães
A guemará
וַהֲרֵי תּוֹדָה, דְּלֵיתַהּ בְּטָעוּת, וְלֵיתַהּ בְּזֶה אַחַר זֶה, וְאִיתְּמַר: תּוֹדָה שֶׁנִּשְׁחֲטָה עַל שְׁמוֹנִים חַלּוֹת, חִזְקִיָּה אָמַר: קָדְשׁוּ עֲלַהּ אַרְבָּעִים מִתּוֹךְ שְׁמוֹנִים, רַבִּי יוֹחָנָן אָמַר: לֹא קָדְשׁוּ עֲלַהּ אַרְבָּעִים מִתּוֹךְ שְׁמוֹנִים.

Mas eis a todá (oferta de agradecimento, trazida com quarenta pães), cuja santidade sobre os pães não se aplica por erro, e não se aplica um depois do outro; e foi dito: Sobre uma todá que foi abatida sobre oitenta chalot (pães), Chizkiya disse: Santificaram-se por ela quarenta pães dentre os oitenta; Rabi Yochanan disse: Não se santificaram por ela quarenta pães dentre os oitenta (e, segundo Chizkiya, o que não tem efeito um depois do outro tem efeito de uma vez).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “veharei todá”
והרי תודה - דלחמי תודה מ' חלות כדאמר במנחות (דף ע'.):

“Mas eis a todá” — pois os pães da todá são quarenta chalot, como se diz em Menachot.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “deleita betaut”
דליתה בטעות - אם הפריש לחמי תודתו וטעה וסבור שלא הפריש וחזר וקרא שם על מ' חלות אחרות לא קדשי דהא טעה ותנן הקדש טעות אינו הקדש במסכת נזיר (דף לא.) וליתה נמי בזה אחר זה שאם הפריש מ' לתודתו ושחט הזבח עליהן וחזר והפריש לה מ' אחרות לא קדשי וכי שחטה על שמונים בבת אחת אמר חזקיה דקדשי מ' מתוך שמונים שחיטת התודה מקדשת הלחם כדתניא במנחות (דף עח:) קרבנו על זבח מלמד שאין הלחם קדוש אלא על הזביחה:

“Que não se aplica por erro” — se separou os pães da sua todá e errou, pensando que não os tinha separado, e voltou a designar o nome de pães da todá sobre outros quarenta pães, estes não se santificam, pois errou; e ensinamos: “Consagração por erro não é consagração”, no tratado Nazir. E também não se aplica um depois do outro: pois, se separou quarenta para a sua todá e abateu o sacrifício sobre eles, e voltou a separar para ela outros quarenta, estes não se santificam. E, quando a abateu sobre oitenta de uma vez, Chizkiya disse que se santificam quarenta pães dentre os oitenta. O abate da todá santifica o pão, como foi ensinado em Menachot: “A sua oferta sobre o sacrifício” — ensina que o pão não é santo senão pelo abate.

Nota

A todá é trazida com quarenta pães; que são quarenta está em Menachot 77b, “ונמצאו לחמי תודה ארבעים” (conferido). Segundo o Rashi, a santidade dos pães não recai por erro nem um depois do outro; mas, quando se abate a todá sobre oitenta pães de uma vez, Chizkiya diz que quarenta deles se santificam, o que contradiz o princípio de Rabba. A disputa de Chizkiya e Rabi Yochanan está também em Menachot 78b e em Kiddushin 51a (conferidos). “Consagração por erro não é consagração” é a opinião de Beit Hillel na Mishná Nazir 5:1, em Nazir 30b (conferida). A baraita de Menachot está em Menachot 78b: “״יקריב קרבנו על זבח״ – מלמד שאין הלחם קדוש אלא בשחיטת הזבח” (conferido), sobre Vayikra 7:13 (conferido). O Rashi traz as marcas de página “(דף ע'.)”, “(דף לא.)” e “(דף עח:)”, que são de editor e não se traduzem. O Rashash observa que, depois do abate, nem os primeiros quarenta pães separados se santificariam, pois os pães só se santificam pelo abate.

1762Rabi Zeira: todos concordam
A guemará
הָא אִיתְּמַר עֲלַהּ, אָמַר רַבִּי (זֵירָא): הַכֹּל מוֹדִים הֵיכָא דְּאָמַר ״לִיקְדְּשׁוּ אַרְבָּעִים מִתּוֹךְ שְׁמוֹנִים״ — דְּקָדְשִׁי, ״לֹא יִקְדְּשׁוּ אַרְבָּעִים אֶלָּא אִם כֵּן קָדְשׁוּ שְׁמוֹנִים״ — כּוּלֵּי עָלְמָא לָא פְּלִיגִי דְּלֹא קָדְשׁוּ.

Eis que foi dito a respeito dela: Disse Rabi Zeira: Todos concordam que, onde o dono disse: “Que se santifiquem quarenta dentre oitenta”, eles se santificam; e, se disse: “Que não se santifiquem quarenta, a não ser que se santifiquem os oitenta”, ninguém discorda que não se santificam (conforme o princípio de Rabba).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “yikdeshu arbaim”
יקדשו ארבעים - הא מ' קאמר וגבי שביתה נמי הא אמרן דאי אמר לקנו לי ארבע מתוך תמני קני:

“Que se santifiquem quarenta” — eis que disse quarenta (e não mais); e a respeito da shevitá também, eis que dissemos que, se disse: “Que se me adquiram quatro amot dentre oito”, adquire.

Nota

Segundo o Rashi, quem disse “quarenta dentre oitenta” pediu só quarenta, como quem disse “quatro amot dentre oito” na shevitá (bloco 1753); e, se condicionou os quarenta aos oitenta, nada se santifica, pois os oitenta não podem ser santificados. “Ninguém discorda” traduz “כּוּלֵּי עָלְמָא לָא פְּלִיגִי”, literalmente “todo o mundo não discorda”. No texto do Sefaria, o nome “(זֵירָא)” está entre parênteses, marca de leitura a suprimir, sem o nome que o substitui; mantivemos o hebraico como está e a tradução segue a tradução de referência, que lê “Rabi Zeira”. Em Menachot 78b a mesma palavra é de “רבי זירא” (conferido), e em Kiddushin 51a é de “רבי יהושע בן לוי” (conferido). Em Menachot 78b lê-se “אל יקדשו ארבעים אלא אם כן יקדשו שמונים”.

1763Quando discordam: sem especificação
A guemará
כִּי פְּלִיגִי בִּסְתָמָא. מָר סָבַר: לְאַחְרָיוּת קָא מְכַוֵּין, וְעַל תְּנַאי אַיְיתִינְהוּ.

Quando discordam, é no caso sem especificação. Um mestre (Chizkiya) sustenta: tem em vista a garantia, e os trouxe sob condição (de que só quarenta se santifiquem)…

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “le’achrayut ka mechaven”
לאחריות קא מכוין - שאם יאבדו או יטמאו חציין יפטור בחציין והוה ליה כאומר יקדשו ארבעים מתוך שמונים:

“Tem em vista a garantia” — que, se se perderem ou se tornarem impuros metade deles, cumpra com a outra metade; e é como quem diz: “Que se santifiquem quarenta dentre oitenta”.

Nota

Segundo o Rashi, Chizkiya entende que quem traz oitenta pães sem especificar quer garantir-se, caso metade se perca ou se torne impura; é como se tivesse dito “quarenta dentre oitenta”, e por isso quarenta se santificam. A tradução de referência entende que os outros quarenta foram trazidos sob a condição de substituir os primeiros, e que os primeiros quarenta se santificam; seguimos o Rashi. A frase continua em Eruvin 50b com a opinião de Rabi Yochanan; em Menachot 78b ela diz: “ומר סבר: לקרבן גדול קא מיכוין” (conferido).

O daf termina aqui, no meio da explicação da disputa de Chizkiya e Rabi Yochanan sobre a todá abatida sobre oitenta pães: depois da razão de Rav segundo as duas versões de Rabba e da diferença entre elas, quatro amot dentre oito, a guemará examinou o princípio de Rabba à luz do dízimo, do dízimo dos animais e da todá. A guemará prossegue em Eruvin 50b.