Rav Yehuda completa o relato do que Shmuel lhe disse: também a restrição, de que o pátio do meio não se serve dos exteriores, é palavra de Rabi Shimon, e os Sábios dizem que os três pátios estão proibidos; uma baraita o confirma. Shmuel segue aqui o seu raciocínio sobre o pátio entre dois becos: se fez eruv com ambos, está proibido com ambos; se não fez eruv com nenhum, proíbe a ambos; e, se costuma passar só por um, só a esse proíbe. Rabba bar Rav Huna acrescenta que, se o beco habitual fez eruv e o outro não, empurra-se o pátio para o outro, pois em tal caso se força contra o caráter de Sodoma. Seguem-se as palavras de Shmuel sobre quem é exigente com o seu eruv, que para Rabi Chanina vale, mas leva o apelido dos homens de Vardina, e sobre quem divide o seu eruv, com a baraita de Beit Shammai e Beit Hillel e a objeção de Rabi Abba a Rav Yehuda na casa da prensa. Por fim, Shmuel diz que o eruv vale por causa de aquisição, e Rabba, por causa de moradia; a guemará começa a enumerar a diferença entre as duas razões, lista que continua em Eruvin 49b.
Continuação: Shmuel disse a Rav Yehuda: Também esta (a regra de que o do meio não se serve dos exteriores) é palavra de Rabi Shimon; mas os Sábios dizem: Os três pátios estão proibidos.
“Também esta é palavra de Rabi Shimon” — isto é: mesmo que ambos os exteriores se sirvam com ele (com o do meio), é Rabi Shimon quem o permite, pois até o do meio servir-se de ambos ele também permite; mas, para os Sábios, divergem em tudo e disseram: Os três estão proibidos um com o outro. Outra versão: “Também esta é palavra de Rabi Shimon” — o próprio Rabi Shimon não permitiu senão os exteriores no do meio. E é difícil para mim: eis que aprendemos na mishná: “Ele está permitido com eles”! E mais: que é “também”? Assim deveria ter dito: “Esta é palavra de Rabi Shimon”; “também” dá a entender que em ambos os sentidos ele permite. E esta última versão eu ouvi, e assim é o principal. E o “ele está permitido com eles” da mishná, Shmuel te explica que fala da permissão de uso no do meio, à semelhança de “ele está permitido com eles” do início (o caso dos três que repousaram no caminho); e, já que ensinou no início “ele está permitido com eles”, ensinou também no fim o mesmo. E “também esta” assim se entende: também Rabi Shimon, que facilita, proíbe nisto, que o do meio não está permitido nos exteriores; também esta proibição Rabi Shimon a disse, como os Sábios. E contra a primeira versão é difícil: que é “E Shmuel segue o seu raciocínio”? Pois, ainda que tivesse dito como Rav, poderia também dizer, segundo os Sábios: “Fez eruv com ambos, está proibido com ambos”, pois dois domínios não se servem de um domínio.
Esta palavra completa o relato de Rav Yehuda no fim de Eruvin 48b (bloco 1709): “Quando a disse diante de Shmuel, disse-me…”. Rav, em nome de quem Rav Yehuda falou ali (bloco 1708), entendeu que a mishná de Rabi Shimon (Eruvin 45b, bloco 1577) permite o do meio com os exteriores e os exteriores com o do meio. O Rashi traz duas versões de Shmuel e fixa a segunda, que diz ter recebido: “também esta” quer dizer que também a restrição, de que o do meio não se serve dos exteriores, é palavra de Rabi Shimon, e os Sábios proíbem os três; o “ele está permitido com eles” da mishná fala só do uso do do meio pelos exteriores, como no caso dos três que repousaram no caminho (Eruvin 45a, blocos 1574–1576). A tradução de referência (Steinsaltz) explica “também esta” como a permissão de levar dos exteriores ao do meio; o resultado é o mesmo, e seguimos a formulação do Rashi. O Rashi escreve “ר' שמעון” e “ר"ש”, abreviaturas de “רבי שמעון”.
Foi ensinado numa baraita conforme Rav Yehuda segundo Shmuel: Disse Rabi Shimon: A que se assemelha a coisa? A três pátios abertos um para o outro e abertos para o domínio público. Se os dois exteriores fizeram eruv com o do meio, este (um dos exteriores) traz de dentro da sua casa e come no do meio, e aquele (o outro exterior) traz de dentro da sua casa e come no do meio; este devolve a sua sobra para dentro da sua casa, e aquele devolve a sua sobra para dentro da sua casa.
“Foi ensinado conforme Shmuel” — que nem mesmo Rabi Shimon permitiu o pátio do meio nos pátios exteriores, como ensina: “Este traz de dentro da sua casa etc.”, ao passo que sobre o do meio nos exteriores não diz nada.
“A que se assemelha a coisa” — refere-se ao caso dos três que repousaram no caminho.
“Este traz” — e leva ao do meio e come; e aquele traz e leva ao do meio e come.
A baraita só diz que cada exterior traz da sua casa ao do meio e devolve a sobra à sua casa; não diz que o do meio leva aos exteriores. Por isso, segundo o Rashi, ela apoia Shmuel, para quem nem Rabi Shimon permitiu o do meio nos exteriores. A comparação refere-se, segundo o Rashi, à mishná dos três que repousaram no caminho (Eruvin 45a, blocos 1574–1576). O lema do Rashi diz “תניא כוותיה דשמואל”, onde a guemará diz “תַּנְיָא כְּווֹתֵיהּ דְּרַב יְהוּדָה אַלִּיבָּא דִּשְׁמוּאֵל”. O hebraico diz “זוֹ… וְזוֹ…”, no feminino, como “חָצֵר”; traduzimos “este… e aquele…”, porque “pátio” é masculino em português.
Mas os Sábios dizem: Os três pátios, exteriores e do meio, estão proibidos.
A baraita repete aqui a opinião dos Sábios já citada por Shmuel (bloco 1710): como os exteriores não fizeram eruv um com o outro, nenhum dos três pátios pode levar ao outro. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
E Shmuel segue o seu raciocínio, pois disse Shmuel: Um pátio que está entre dois becos (aberto para ambos): se fez eruv com ambos, está proibido com ambos (não pode levar deles nem a eles).
“E Shmuel segue o seu raciocínio” — pois disse que, mesmo segundo Rabi Shimon, dois domínios não se servem de um domínio.
“Um pátio que está entre dois becos” — aberto para ambos.
Assim lemos: “Fez eruv com ambos, está proibido com ambos” — mesmo segundo Rabi Shimon. E isto é o que se diz: “Shmuel segue o seu raciocínio”; pois disse Shmuel: A lei é conforme as palavras de quem facilita no eruv; e, se Rabi Shimon permitisse nisto, Shmuel não diria: “Está proibido com ambos”.
O pátio entre dois becos é como o pátio do meio entre os dois exteriores: os dois becos não fizeram eruv um com o outro, e cada um o puxa para si; por isso, segundo Shmuel, mesmo para Rabi Shimon, ele está proibido com ambos. O Rashi argumenta: Shmuel decide conforme quem facilita no eruv; se Rabi Shimon permitisse aqui, Shmuel teria decidido como ele. “Beco” traduz “מָבוֹי”, como nas páginas anteriores do tratado. O Rashi escreve “ה"ג”, abreviatura de “הכי גרסינן”, “assim lemos”.
Se não fez eruv com nenhum dos dois, proíbe a ambos os becos: os seus moradores não podem levar objetos dos seus pátios para o beco.
“Não fez eruv com ambos” — não fez eruv nem com este nem com aquele.
“Proíbe a ambos” — de levar objetos dos seus pátios para o beco. E trata-se do caso em que costuma, todos os dias da semana, sair e entrar por ambos, pelas aberturas; a derisat haréguel (o direito de passagem) que tem os proíbe, como a guemará explica; pois, se não costumasse passar senão por um, não proibiria o outro. E, embora costume passar por ambos, este é o seu remédio: faz eruv com um, e revela a sua intenção de que se retirou do outro, e o outro está permitido por si.
Segundo o Rashi, o pátio proíbe os dois becos porque os seus moradores costumam passar por ambos, e esse direito de passagem faz deles moradores de cada beco; como não fizeram eruv com nenhum, cada beco tem um pátio sem eruv. O remédio que o Rashi indica, fazer eruv com um só beco, é a palavra de Rabba bar Rav Huna no bloco 1716.
Se o pátio era reguilá (habituado a passar) por um e não era habituado a passar pelo outro: aquele pelo qual é habituado a passar está proibido, e aquele pelo qual não é habituado está permitido.
“Era habituado a um” — a sair e entrar a toda hora; e ao outro não era habituado; e não fez eruv nem com este nem com aquele: aquele ao qual é habituado está proibido, pois este pátio o proíbe, já que é dele, e eis que não fez eruv; e o outro beco está permitido, pois o pátio não é dele.
Isto é, o pátio conta como morador só do beco por onde costuma passar, e só a esse beco proíbe; o outro beco, que faz eruv sem ele, está permitido. “Habituado” e “não habituado” traduzem “רְגִילָה” e “אֵינָהּ רְגִילָה”, no feminino, concordando com “חָצֵר”.
Disse Rabba bar Rav Huna: Se fez eruv com aquele pelo qual não é habituado a passar, ficou permitido aquele pelo qual é habituado, por si (mesmo sem o pátio).
“Ficou permitido aquele ao qual é habituado, por si” — pois o pátio se retirou dele.
Ao fazer eruv com o beco por onde não costuma passar, o pátio mostra que escolheu aquele beco e se retira do outro; por isso o beco por onde costumava passar pode fazer eruv por si, e o pátio já não o proíbe.
E disse Rabba bar Rav Huna, disse Shmuel: Se o beco pelo qual é habituado fez eruv por si, e este beco pelo qual não é habituado não fez eruv, e ele mesmo (o pátio) não fez eruv (com nenhum dos dois), empurramo-lo para junto daquele pelo qual não é habituado (para que conte como morador dele).
“E este pelo qual não é habituado não fez eruv” — nem mesmo por si.
“E ele também não fez eruv” — nem com este nem com aquele.
“Empurramo-lo para junto daquele pelo qual não é habituado” — para que não proíba este que fez eruv, já que este (o beco sem eruv) não perde nada, pois de qualquer modo não fez eruv.
O beco que fez eruv perderia o seu eruv se o pátio contasse como morador dele; o beco que não fez eruv não perde nada, porque já está proibido. Por isso, segundo o Rashi, empurra-se o pátio para o beco sem eruv, mesmo contra o seu costume. O lema do Rashi diz “והיא נמי לא עירבה”, onde a guemará diz “וְהִיא עַצְמָהּ לֹא עֵירְבָה”; e o terceiro lema diz “אצל שאינה רגילה”, sem o “בּוֹ” da guemará.
E num caso como este força-se contra a midat Sedom (o caráter de Sodoma, de quem não cede nem o que não lhe custa).
“O caráter de Sodoma” — que, mesmo uma coisa de que não sente falta, não deixa que sirva ao seu companheiro; e aqui, contra a sua vontade, empurramo-lo para junto dele (do beco que não fez eruv).
“O caráter de Sodoma” — dizer: “O meu é meu”.
O pátio não perde nada em ser contado como morador do beco sem eruv, e o beco com eruv ganha; recusar seria o “caráter de Sodoma”, e por isso o tribunal o força. A mesma regra, “כּוֹפִין עַל מִדַּת סְדוֹם”, aparece em Bava Batra 12b (Rabba e Rav Yossef, na divisão de campos entre herdeiros), em Bava Batra 59a (“בְּכוֹפִין עַל מִדַּת סְדוֹם קָא מִיפַּלְגִי”) e em Ketubot 103a (todos conferidos). O segundo comentário do Rashi lembra Pirkei Avot 5:10 (conferido): “O meu é meu e o teu é teu… há quem diga que este é o caráter de Sodoma” (“שלי שלי ושלך שלך… ויש אומרים, זו מדת סדום”). “Sodoma” segue a grafia das páginas do Talmud no site; “Sedom” é a transliteração do hebraico. O Sefaria liga ao segmento dois comentários do Rashi com o mesmo lema; mantemo-los separados.
Disse Rav Yehuda, disse Shmuel: Quem é exigente com o seu eruv (que outro não coma do pão que deu), o seu eruv não é eruv (válido). Qual é o seu nome? Eruv é o seu nome (isto é, junção).
“Quem é exigente com o seu eruv” — caso um dos membros do grupo coma o pão que ele deu.
“Eruv é o seu nome” — que estejam todos misturados (meoravin) e contentes com ele, que um não proteste contra o outro, mas haja uma sociedade agradável e doce (arevá).
O Rashi explica o nome “עֵירוּב” por duas palavras da mesma raiz: “מְעוֹרָבִין”, “misturados”, e “עֲרֵיבָה”, “doce, agradável”. Quem não deixa os outros comerem do seu pão não está, de fato, junto com eles.
Rabi Chanina diz: O seu eruv é eruv, só que ele é chamado um dos homens de Vardina.
“Homens de Vardina” — eram avarentos.
O hebraico diz “מֵאַנְשֵׁי וַרְדִּינָא”, “dos homens de Vardina”; o lema do Rashi escreve “וורדינא”. Vardina é o nome de um lugar cujos moradores, segundo o Rashi, eram avarentos. Para Rabi Chanina, o eruv vale, mas quem é exigente com ele leva esse apelido.
Disse Rav Yehuda, disse Shmuel: Quem divide o seu eruv (pondo-o em dois recipientes) — o seu eruv não é eruv.
“Quem divide” — em dois recipientes, não é eruv, por esta mesma razão: “Qual é o seu nome? Eruv é o seu nome”.
Segundo quem Shmuel disse isto? Segundo Beit Shammai; pois foi ensinado numa baraita: Cinco moradores de um pátio que recolheram o seu eruv e o puseram em dois recipientes: Beit Shammai dizem: Isto não é eruv (válido); e Beit Hillel dizem: Eis que isto é eruv!
“A casa em que se põe o eruv” — quatro que recolheram o seu eruv e o puseram na casa de um quinto: este não precisa pôr ali o seu pão.
É a mesma baraita citada em Eruvin 48b (bloco 1702), e a tradução segue a mesma redação; aqui, como já registra a nota daquele bloco, lê-se “אֵין זֶה עֵירוּב” e “הֲרֵי זֶה עֵירוּב”, onde em 48b se lê “אֵין עֵירוּבָן עֵירוּב” e “עֵירוּבָן עֵירוּב”. O Sefaria liga a este segmento um comentário do Rashi cujo lema, “שמניחין בו עירוב”, é da pergunta de Rabi Abba (bloco 1726), e que se repete ali com o mesmo texto; mantemo-lo onde o Sefaria o põe e o traduzimos nos dois lugares.
Mesmo que digas que é segundo Beit Hillel: até aqui, Beit Hillel não disseram a sua palavra ali senão onde o recipiente se encheu e sobrou (e puseram o resto num segundo); mas onde o dividiu de propósito, não.
“Que o recipiente se encheu e sobrou” — que o recipiente não pôde conter todo o eruv, e não o dividiram de propósito; e, quando Shmuel fala, trata-se do caso em que o dividiram de propósito.
A abertura repete a de Eruvin 48b (bloco 1703), mas a distinção é outra: ali, dois recipientes numa só casa contra duas casas; aqui, um recipiente que se encheu contra uma divisão feita de propósito. O lema do Rashi diz “דמלא למנא”, onde a guemará diz “דְּמָלְיָין לְמָנָא”.
E duas regras, para que preciso? São necessárias: pois, se nos ensinasse ali (sobre quem é exigente), porque é exigente; mas aqui (quem divide), diria: não.
“E duas, para que preciso?” — para Shmuel, já que ambas as regras têm uma só razão: a do exigente e a do que divide.
E, se nos ensinasse aqui (quem divide), porque de fato o dividiu; mas ali, diria: não. Ambas são necessárias.
“Que de fato o dividiu” — e anulou-se o nome de eruv, que significa “misturado”.
Quem só é exigente não separou nada com as mãos; quem divide não declarou que é exigente. Por isso Shmuel precisou dizer as duas regras. O lema do Rashi diz “דמיפלג פלגיה”, invertendo a ordem da guemará, “דְּפַלְגֵיהּ מִיפְלָג”.
Disse Rabi Abba a Rav Yehuda na casa da prensa da casa de Rav Zakai: Acaso disse Shmuel: “Quem divide o seu eruv, não é eruv”? Mas não disse Shmuel: A casa em que se põe o eruv não precisa dar o seu pão (para o eruv)? Qual a razão? Não é porque disse que, uma vez que o pão do dono da casa está posto no cesto (dele), é como se estivesse posto aqui (junto com o eruv)? Assim também aqui: uma vez que a parte está posta no cesto (no segundo recipiente), é como se estivesse posta aqui!
“A casa em que se põe o eruv” — quatro que recolheram o seu eruv e o puseram na casa de um quinto: este não precisa pôr ali o seu pão.
“Não é porque, uma vez que está posto” — que o pão do dono da casa está no seu próprio cesto, do qual ele come, e é como se estivesse posto no recipiente com o eruv?
“Casa da prensa” traduz “בֵּי מַעְצַרְתָּא”. A objeção: se o pão que o dono da casa guarda no seu cesto conta como parte do eruv, também a parte posta num segundo recipiente deveria contar como se estivesse junto com o resto. O primeiro comentário do Rashi é o mesmo que o Sefaria liga também ao segmento 13 (bloco 1722). O lema do segundo, “לאו משום דכיון דמנח ליה”, acrescenta “ליה” ao texto da guemará.
Disse-lhe: Ali, mesmo que não haja pão (na casa), qual a razão? Porque todos moram aqui (por causa do eruv posto nesta casa).
“Porque todos moram aqui” — por causa do seu pão, esta casa torna-se para eles a sua moradia; e tanto mais o dono da casa, que mora ali de fato, dentro dela; e, mesmo que não tenha pão em toda a casa, está bem.
Quem responde é Rav Yehuda, a quem Rabi Abba dirigiu a pergunta; o hebraico diz só “אֲמַר לֵיהּ”. A casa do eruv não precisa contribuir, não porque o seu pão conte como se estivesse junto, mas porque o eruv faz de todos moradores daquela casa, e o dono dela já mora ali.
Disse Shmuel: O eruv tem efeito e une todos os que dele participam por causa de kinyan (aquisição).
“Eruv” — que os junta: a razão é por causa de aquisição, pois o dono da casa lhes transfere o seu domínio, e acham-se todos donos nesta casa em que o eruv está posto; e todo o pátio está sujeito a este seu domínio, e é um só domínio.
Segundo o Rashi, é o dono da casa em que o eruv é posto quem transfere aos demais o seu domínio, de modo que todos se tornam donos daquela casa. A tradução de referência (Steinsaltz) formula ao contrário: cada um, ao dar a sua parte de alimento, adquire o direito de uso na residência. Seguimos o Rashi.
E se disseres: Por que não se adquire o domínio com uma ma'á (pequena moeda de prata), em vez de pão? Porque não é encontrada nas vésperas de Shabat.
“E por que não se faz eruv com uma ma'á?” — que cada um dê uma ma'á, e o seu dinheiro lhe adquira o domínio do seu companheiro.
O lema do Rashi diz “ומפני מה אין מערבין במעה”, “por que não se faz eruv”, onde a guemará diz “מִפְּנֵי מָה אֵין קוֹנִין בְּמָעָה”, “por que não se adquire”. A tradução de referência explica que na véspera de Shabat se gasta o dinheiro nas compras para o Shabat; o hebraico diz só que a ma'á “não é encontrada”.
Onde fez eruv com uma ma'á, ao menos, que adquira!
Isto é, se a única razão é que a moeda nem sempre está à mão, quem de fato fez eruv com uma ma'á deveria ter um eruv válido. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
É um decreto, para que não digam que a ma'á é o principal; e às vezes não se encontra ma'á, e não virão a fazer eruv com pão, e a lei do eruv virá a se arruinar (a ser esquecida).
“A se arruinar” — isto é, a lei do eruv ser esquecida.
A preocupação de que a lei do eruv não seja esquecida aparece também na baraita de Eruvin 71b, “שֶׁלֹּא לְשַׁכֵּחַ תּוֹרַת עֵירוּב מִן הַתִּינוֹקוֹת”, e na mishná de Eruvin 80b, “וְלֹא אָמְרוּ לְעָרֵב בַּחֲצֵירוֹת אֶלָּא כְּדֵי שֶׁלֹּא לְשַׁכֵּחַ אֶת הַתִּינוֹקוֹת” (ambas conferidas). O Rashi usa a mesma expressão, “תורת עירוב”.
Rabba disse: O eruv tem efeito e une todos os que dele participam por causa de dirá (moradia).
“Por causa de moradia” — pois a intenção de uma pessoa está no seu pão, e os participantes são como se morassem naquela casa; e neste pátio não há senão uma moradia, e eis que todo o domínio do pátio está reservado a esta casa.
Qual é a diferença prática entre eles? Há entre eles: um utensílio (adquirir o domínio com ele, como nas demais aquisições),
Assim lemos: “Há entre eles: um utensílio, e o que não vale uma perutá, e um menor.” Para quem diz que é por causa de aquisição, podem adquirir com um sudar (lenço), à maneira das demais aquisições; e não podem adquirir com pão que não vale uma perutá, mesmo que seja alimento para duas refeições; e não se pode fazer de um menor agente para fazer por ele o eruv de pátios, pois o menor não é capaz de adquirir nem de transferir. E para quem diz que é por causa de moradia, a aquisição com lenço não serve, e faz-se eruv com alimento que não vale uma perutá, e o menor recolhe o eruv, pois o pão os torna uma só moradia, e o menor não faz coisa alguma (não é ele quem efetua o eruv).
A tradução de referência (Steinsaltz) entende “um utensílio” como fazer o eruv com um utensílio em vez de alimento; o Rashi entende a aquisição com um lenço, o modo comum de adquirir por troca, e é o que seguimos. A leitura do Rashi inclui um terceiro item, “וְקָטָן”, “e um menor”, que é a primeira palavra de Eruvin 49b (conferido). O lema do Rashi começa com “הדי גרסינן”, erro de impressão por “הכי גרסינן”, “assim lemos”; o hebraico do Rashi está reproduzido como o Sefaria o traz.
e menos do que o valor de uma perutá (a menor moeda)…
Segundo o Rashi (bloco 1733), para Shmuel, que faz do eruv uma aquisição, não se adquire com pão que vale menos de uma perutá, mesmo que seja alimento para duas refeições; para Rabba, que faz do eruv uma moradia, o valor não importa. A lista continua em Eruvin 49b. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.