A guemará continua a examinar a afirmação de Rav Mesharshiya de que as regras de decisão não existem. Rabi Shimon completa a mishná da cidade que se tornou de muitos: basta deixar fora do eruv três pátios de duas casas; e Rav Chama bar Gurya, em nome de Rav, decide como Rabi Shimon contra Rabi Yehuda, o que parece contradizer a regra. A guemará rejeita a prova: onde a halachá foi dita expressamente, foi dita. O mesmo acontece com a mishná de quem deixa a sua casa e vai passar o Shabat em outra cidade, e com a mishná do pobre que faz eruv com os pés, em que Rav manda concluir “a halachá é como Rabi Yehuda”; talvez Rav não sustente as regras. Vem então a mishná da yevamá e das mulheres que esperam três meses: Rabi Yochanan disse que a halachá é como Rabi Yossi, o que seria desnecessário pela regra, mas talvez tenha vindo excluir a regra de Shmuel, segundo a qual a halachá é como Rabi Meir nos seus decretos. Por fim, a guemará traz a baraita da feira dos gentios e do kohen que se torna impuro fora da Terra de Israel para defender os seus bens, para casar e para estudar Torá, e o daf termina no meio das palavras de Rabi Yossi.
Continuação da mishná: …basta deixar fora do eruv três pátios de duas casas cada um. E disse Rav Chama bar Gurya em nome de Rav: A halachá é como Rabi Shimon. E quem diverge dele nesta mishná? Rabi Yehuda. Mas não disseste: Entre Rabi Yehuda e Rabi Shimon, a halachá é como Rabi Yehuda?
“Três pátios” — está adiante, no capítulo Keitzad Meabrin (Eruvin 59a). E diz Rabi Yehuda: uma cidade de muitos que se tornou de um indivíduo, isto é, cuja população diminuiu para menos de seiscentos mil que passam pelas suas praças, e agora não se assemelha mais aos estandartes do acampamento do deserto, não se faz eruv para toda ela junta, a não ser que tenha deixado fora dela cinquenta moradores que não façam eruv com ela, para que haja um sinal de que é uma cidade de muitos, na qual não se faz eruv para toda ela, mas beco por beco. Rabi Shimon diz: Basta-lhe deixar de fora três pátios de dois chefes de família cada um.
Continuação da Mishná Eruvin 5:6 (conferida), cuja primeira parte está no bloco 1631 e termina, em Eruvin 46b, nas palavras “Rabi Shimon diz” (bloco 1632); a mishná está em Eruvin 59a (conferido), no capítulo Keitzad Meabrin, como diz o Rashi; “(Eruvin 59a)” é marca de editor no Rashi. A edição avulsa diz “חֲצֵרוֹת”, onde o Talmud aqui diz “חֲצֵירוֹת”. Seguimos o Rashi: segundo Rabi Shimon, basta deixar fora do eruv três pátios, cada um com duas casas, isto é, de dois chefes de família, em vez da parte com cinquenta moradores exigida por Rabi Yehuda. O Rashi diz que a cidade “de muitos” é aquela por cujas praças passam seiscentos mil, como os estandartes do acampamento de Israel no deserto. Diferente de Eruvin 46b (bloco 1629), aqui o hebraico não diz “אֶלָּא לָאו שְׁמַע מִינַּהּ: לֵיתַנְהוּ”, “antes, não se conclui disto que não existem?”; a conclusão fica implícita: o fato de Rav ter precisado decidir como Rabi Shimon parece mostrar que estas regras não existem. Rav Chama bar Gurya diz aqui, sobre a mishná da cidade, as mesmas palavras que disse em 46b sobre a mishná dos três pátios.
E qual é a dificuldade? Talvez também aqui, onde foi dito expressamente, foi dito; onde não foi dito, não foi dito (e ali valem as regras).
A guemará rejeita também esta prova, com as mesmas palavras de Eruvin 46b (bloco 1630), acrescentando “הָכָא נָמֵי”, “também aqui”: a regra geral vale onde não há decisão expressa, e aqui Rav decidiu expressamente. O acréscimo “expressamente” segue o Rashi de 46b. O hebraico diz aqui “ומַאי” sem vogal no vav, como está no Sefaria. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
Antes, Rav Mesharshiya tira isto daquilo que aprendemos numa mishná: Quem deixa a sua casa sem fazer eruv e vai passar o Shabat em outra cidade, seja gentio, seja israelita, proíbe o carregar aos moradores dos pátios. Estas são as palavras de Rabi Meir.
“Proíbe aos moradores dos pátios” — que não tirem objetos das suas casas para o pátio, porque ele tem direito de uso no pátio; e, embora não esteja na cidade, proíbe-os, se não fez eruv antes de ir.
É a Mishná Eruvin 8:5 (conferida), que está em Eruvin 86a (conferido) e é citada também em Eruvin 62b (conferido). A edição avulsa e Eruvin 86a dizem “הַמַּנִּיחַ בֵּיתוֹ” e “הֲרֵי זֶה אוֹסֵר”, onde o Talmud aqui diz “הַמַּנִּיחַ אֶת בֵּיתוֹ” e “אוֹסֵר לִבְנֵי חֲצֵירוֹת”; o lema do Rashi diz “אוסר על בני חצירות”. “Sem fazer eruv” segue o Rashi, “se não fez eruv antes de ir”. Segundo Rabi Meir, a casa de quem foi embora continua proibindo os vizinhos de carregar no pátio comum, porque ele tem parte no pátio e não entrou no eruv.
Rabi Yehuda diz: Não proíbe (pois não está ali). Rabi Yossi diz: O gentio proíbe (pois pode voltar), o israelita não proíbe, porque não é costume de israelita vir para casa no Shabat. Rabi Shimon diz: Mesmo que tenha deixado a sua casa e ido passar o Shabat junto à sua filha na mesma cidade, não proíbe, porque já desviou a sua mente da casa.
“Rabi Yehuda diz: Não proíbe” — já que não está na cidade.
“O gentio proíbe” — embora não esteja na cidade, pois pode vir no Shabat, e isto não é afastamento da mente; mas o israelita, depois que saiu daqui e não veio na véspera do Shabat, afastou da mente a sua casa durante todo o Shabat, pois não virá no Shabat; por isso, é como se esta morada não tivesse dono.
“Passar o Shabat junto à sua filha” — desde a noite anterior, mesmo na mesma cidade.
Continuação da Mishná Eruvin 8:5 (conferida). A edição avulsa diz “הִנִּיחַ בֵּיתוֹ” e “שֶׁכְּבָר הִסִּיעַ מִלִּבּוֹ”, “porque já tirou do coração”, onde o Talmud aqui diz “הִנִּיחַ אֶת בֵּיתוֹ” e “שֶׁכְּבָר הִסִּיחַ דַּעְתּוֹ”, “porque já desviou a sua mente”; o sentido é o mesmo. Segundo o Rashi, o gentio pode voltar a qualquer momento, e por isso continua proibindo; o israelita que não voltou antes do Shabat já não voltará durante o Shabat, e a sua casa é como uma morada sem dono. Rabi Shimon vai além: mesmo quem foi passar o Shabat na casa da filha, na mesma cidade, desde a véspera, não proíbe.
E disse Rav Chama bar Gurya em nome de Rav: A halachá é como Rabi Shimon. E quem diverge dele nesta mishná? Rabi Yehuda. Mas não disseste: Entre Rabi Yehuda e Rabi Shimon, a halachá é como Rabi Yehuda?
“Rabi Yehuda diverge dele” — pois diz: em outra cidade não proíbe; daí que, na mesma cidade, proíbe. E também Rabi Yossi diverge dele, mas a guemará mencionou só um deles.
Pela terceira vez, Rav Chama bar Gurya decide em nome de Rav como Rabi Shimon contra Rabi Yehuda. Segundo o Rashi, Rabi Yehuda diverge de Rabi Shimon porque só disse que não proíbe quem foi a outra cidade; quem fica na mesma cidade, como na casa da filha, proíbe. Rabi Yossi também diverge de Rabi Shimon, mas a guemará menciona só Rabi Yehuda, porque a objeção é a regra entre Rabi Yehuda e Rabi Shimon. O lema do Rashi diz “רבי יהודה פליג עליה”, onde a guemará diz “וּמַאן פְּלִיג עֲלֵיהּ — רַבִּי יְהוּדָה”.
E qual é a dificuldade? Talvez também aqui, onde foi dito expressamente, foi dito; onde não foi dito, não foi dito (e ali valem as regras).
A mesma resposta do bloco 1634: onde Rav decidiu expressamente, a decisão não contradiz a regra geral. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
Antes, Rav Mesharshiya tira isto daquilo que aprendemos numa mishná: E é isto que disseram: O pobre faz eruv com os seus pés. Rabi Meir diz: Nós não temos esta lei senão para o pobre.
“É isto que disseram” — a mishná está no nosso capítulo (Eruvin 49b).
“Nós não temos” — quem possa adquirir shevitá (lugar de repouso de Shabat) com os pés, sem eruv de pão, senão o pobre, isto é, quem está no caminho e não tem pão consigo.
É a Mishná Eruvin 4:9 (conferida), que está em Eruvin 49b (conferido), no nosso capítulo, como diz o Rashi; “(Eruvin 49b)” é marca de editor no Rashi. A edição avulsa e Eruvin 49b dizem “וְזוֹ הִיא שֶׁאָמְרוּ” e “אָמַר רַבִּי מֵאִיר”, onde o Talmud aqui diz “וְזֶהוּ שֶׁאָמְרוּ” e “רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר”; “Faz eruv com os pés”: vai até o lugar onde quer adquirir a shevitá e o declara sua morada, sem depositar ali comida. Seguimos o Rashi: “o pobre” é quem está no caminho e não tem pão consigo; a tradução de referência entende “quem não tem comida para duas refeições”.
Rabi Yehuda diz: A lei vale tanto para o pobre quanto para o rico. Os Sábios não disseram que se faz eruv com pão senão para facilitar ao rico, para que não precise sair e fazer eruv com os pés.
“Tanto o rico” — que está na sua casa: se quiser ir ele mesmo e estar ali ao escurecer, no techum (limite de Shabat), adquire para si shevitá.
“Para que não saia” — por causa do incômodo, e faça eruv com os pés; antes, permitiram a ele enviar o eruv de pão por meio do seu emissário.
Continuação da Mishná Eruvin 4:9 (conferida). Segundo Rabi Yehuda, o eruv com os pés é o principal, e vale também para o rico; o eruv de pão foi permitido só para poupar o rico de ir pessoalmente, porque pode enviá-lo por um emissário, como explica o Rashi. “No techum” traduz “על התחום”, no limite das duas mil amot.
E Rav Chiya bar Ashi ensinava a mishná a Chiya bar Rav diante de Rav, dizendo: “Tanto o pobre quanto o rico”. E Rav disse-lhe: Conclui com ela também esta frase: “A halachá é como Rabi Yehuda”.
“E Rav Chiya bar Ashi ensinava” — a nossa mishná a Chiya bar Rav diante de Rav.
“Tanto o pobre quanto o rico” — que é a palavra de Rabi Yehuda.
Chiya bar Rav é o filho de Rav. Rav mandou acrescentar à mishná a decisão de que a halachá é como Rabi Yehuda, que diz “tanto o pobre quanto o rico”, como explica o Rashi.
Duas decisões, para que me são necessárias? Mas não disseste: Entre Rabi Meir e Rabi Yehuda, a halachá é como Rabi Yehuda?
“Para que lhe é necessário” — decidir a halachá como Rabi Yehuda, de quem Rabi Meir diverge? Eis que estabeleceste como regra acima que, onde não foi dita halachá nem como um mestre nem como o outro, agimos como Rabi Yehuda.
A regra “entre Rabi Meir e Rabi Yehuda, a halachá é como Rabi Yehuda” é a de Rabi Yaakov bar Idi em nome de Rabi Yochanan, em Eruvin 46b (bloco 1624). Se a regra existe, a decisão expressa de Rav seria uma segunda decisão desnecessária. O lema do Rashi diz “למה ליה”, “para que lhe é necessário”, onde a guemará diz “תַּרְתֵּי לְמָה לִי”, “duas, para que me são necessárias?”.
E qual é a dificuldade daí? Talvez Rav não sustente estas regras e outros as sustentem?
“Rav não sustenta estas regras” — e, porque Rav não as sustenta, dizes que não existem? Mas Rabi Yochanan as diz, e a halachá é como Rabi Yochanan.
Seguimos o Rashi: as regras foram ditas em nome de Rabi Yochanan (Eruvin 46b, bloco 1624), e o fato de Rav não as aceitar não prova que não existam. O acréscimo “e outros as sustentem” completa o sentido da resposta segundo o Rashi.
Antes, Rav Mesharshiya tira isto daquilo que aprendemos numa mishná: A yevamá (viúva sem filhos, ligada ao irmão do marido) não fará chalitzá (a cerimônia que a libera do levirato) nem será tomada em yibum (casamento de levirato) até que tenha três meses.
“A yevamá não fará chalitzá” — dentro de três meses da morte do seu marido. Explica-se a razão em Yevamot: talvez esteja grávida, e a chalitzá de uma grávida não é chalitzá. E se disseres: Que faça chalitzá dentro dos três meses e espere até depois dos três; pois, se for achada grávida, não precisa de chalitzá, se der à luz um filho viável; e, se não for achada grávida, não precisa de outra chalitzá; e, se der à luz um filho não viável, fará chalitzá uma segunda vez. Responde-se: Talvez seja um filho viável, e então não é chalitzá para proibi-la ao sacerdócio, e resulta que se lhe torna necessária uma proclamação para o sacerdócio. E que lhe seja necessária! Talvez haja quem estivesse na chalitzá e não estivesse na proclamação, e pense que permitiram uma mulher que fez chalitzá a um kohen.
“Nem será tomada em yibum” — talvez esteja grávida, e resulta que ele coabitou com a mulher do seu irmão que tem filhos, e ela lhe é proibida sob karet (extirpação); mas depois de três meses, quando se reconhece nela que não está grávida, ou fará chalitzá, ou será tomada em yibum.
É a Mishná Yevamot 4:10 (conferida), que está em Yevamot 41a (conferido). A edição avulsa diz “לֹא תַחֲלֹץ וְלֹא תִתְיַבֵּם, עַד שֶׁיֶּשׁ לָהּ”, onde o Talmud aqui diz “לֹא תַּחֲלוֹץ וְלֹא תִּתְיַיבֵּם עַד שֶׁיְּהוּ לָהּ”. Os três meses contam-se desde a morte do marido, como diz o Rashi. A razão citada pelo Rashi está em Yevamot 41b (conferido): “שֶׁמָּא יְהֵא וָלָד בֶּן קַיָּימָא, וְנִמְצֵאתָ אַתָּה מַצְרִיכָהּ כָּרוֹז לַכְּהוּנָּה”, e a objeção “וְנַצְרְכַהּ! דִּלְמָא אִיכָּא דְּהָוֵאי בַּחֲלִיצָה וְלָא הָוֵי בְּהַכְרָזָה”; isto é: se nascer um filho viável, a chalitzá feita não valeu, e seria preciso anunciar publicamente que ela continua permitida a um kohen, mas haveria quem viu a chalitzá sem ouvir o anúncio. Em Yevamot 41b, o fim da frase é “וּמַפְסְלוּהָ מִן הַכְּהוּנָּה”, “e a desqualificariam do sacerdócio”; o Rashi aqui diz, em vez disso, que essa pessoa pensaria que se permitiu a um kohen uma mulher que fez chalitzá. A divisão do Rashi entre pergunta e resposta é leitura nossa, apoiada em Yevamot 41b.
E assim todas as demais mulheres não se casarão nem sequer se desposarão até que tenham três meses desde a viuvez ou o divórcio: tanto virgens como não virgens, tanto viúvas como divorciadas, tanto as que eram desposadas como as que eram casadas.
“Todas as demais mulheres etc.” — talvez dê à luz dentro de nove meses da morte do seu marido: haverá dúvida se é filho de sete meses do último, dúvida se é filho de nove do primeiro; e precisamos de distinção, como dizemos em Yevamot (42a): talvez o filho faça yibum com a mulher do seu irmão por parte de mãe; e há ainda muitas proibições.
“Nem se desposarão” — os Rabanan decretaram a proibição do noivado por causa do casamento.
“Tanto virgens etc.” — explica-se lá (ibid., b): tanto as que se casaram com este marido quando eram virgens, como as que se casaram com ele quando não eram virgens, que enviuvaram ou se divorciaram deste marido, seja do noivado, seja do casamento, precisam esperar três meses depois do get (documento de divórcio) ou depois da morte.
“Tanto desposadas” — embora a desposada não seja apta a estar grávida, os Rabanan decretaram sobre a desposada por causa da casada. “Palavras de Rabi Meir” não lemos aqui; antes, é mishná anônima.
Continuação da Mishná Yevamot 4:10 (conferida). A edição avulsa diz “וְכֵן כָּל שְׁאָר הַנָּשִׁים לֹא יִתְאָרְסוּ וְלֹא יִנָּשְׂאוּ” e põe “גְּרוּשׁוֹת” antes de “אַלְמָנוֹת” e “נְשׂוּאוֹת” antes de “אֲרוּסוֹת”; o Talmud aqui diz “וְכֵן שְׁאָר כׇּל הַנָּשִׁים לֹא יִנָּשְׂאוּ וְלֹא יִתְאָרְסוּ”, com a outra ordem. “Desposar-se” traduz “לְהִתְאָרֵס”, o noivado, primeira etapa do casamento judaico; “casar-se” traduz “לְהִנָּשֵׂא”, a entrada na chupá. Segundo o Rashi, a espera serve para distinguir se um filho nascido é de sete meses do segundo marido ou de nove do primeiro; a fonte que ele cita, Yevamot 42a (conferido), diz: “שֶׁמָּא יִשָּׂא אֶת אֲחוֹתוֹ מֵאָבִיו, וִייַבֵּם אֵשֶׁת אָחִיו מֵאִמּוֹ”. O “lá (ibid., b)” do Rashi é Yevamot 42b (conferido), onde Rabi Yehuda explica “אַחַת בְּתוּלוֹת וְאַחַת בְּעוּלוֹת”. O Rashi diz que não se lê aqui “palavras de Rabi Meir”: a mishná é anônima; e, de fato, o texto do Talmud aqui não o diz.
Rabi Yehuda diz: As que eram casadas podem desposar-se.
“Podem desposar-se” — imediatamente, pois não engravida do segundo dentro dos três meses; e, se der à luz dentro de nove, certamente é do primeiro, pois, se fosse do último, seria filho de seis meses e não vive.
Continuação da Mishná Yevamot 4:10 (conferida); a edição avulsa diz “הַנְּשׂוּאוֹת”, com artigo. Segundo o Rashi, a que era casada pode desposar-se imediatamente, porque no noivado não há coabitação; mas não se casa antes dos três meses, como entende também a tradução de referência.
E as desposadas podem casar-se imediatamente, exceto a desposada que está em Yehudá, porque o coração dele (do noivo) está familiarizado com ela.
“E as desposadas” — que enviuvaram ou se divorciaram do noivado casem-se imediatamente, pois não está grávida do primeiro.
“Exceto a desposada que está em Yehudá” — onde costumavam deixar o noivo e a noiva a sós antes da sua entrada na chupá (cerimônia nupcial), como dizemos em Ketubot (12a).
“Familiarizado com ela” — acostumado a ela, conhece-a e ela lhe agrada.
Continuação da Mishná Yevamot 4:10 (conferida). A edição avulsa diz “וְהָאֲרוּסוֹת” e “חוּץ מִן הָאֲרוּסוֹת שֶׁבִּיהוּדָה”, como os lemas do Rashi (“והארוסות”, “חוץ מן הארוסה”), onde o Talmud aqui diz “וַאֲרוּסוֹת” e “חוּץ מֵאֲרוּסָה שֶׁבִּיהוּדָה”. A fonte do Rashi está em Ketubot 12a (conferido): “בִּיהוּדָה, בָּרִאשׁוֹנָה הָיוּ מְיַיחֲדִין אֶת הֶחָתָן וְאֶת הַכַּלָּה שָׁעָה אַחַת קוֹדֶם כְּנִיסָתָן לַחוּפָּה, כְּדֵי שֶׁיְּהֵא לִבּוֹ גַּס בָּהּ”. Seguimos o Rashi em “גַּס בָּהּ”, “acostumado a ela”; a tradução de referência diz “o coração é ousado”.
Rabi Yossi diz: Todas as mulheres podem desposar-se imediatamente, exceto a viúva, que espera por causa do luto.
“Todas as mulheres podem desposar-se” — Rabi Yossi diverge do tanna kamma (o primeiro sábio da mishná), que proíbe até desposar-se, e diverge de Rabi Yehuda, que permite à desposada casar-se.
“Exceto a viúva, por causa do luto” — que é proibida de desposar-se todos os dias do seu luto; mas a divorciada desposa-se imediatamente.
Fim da Mishná Yevamot 4:10 (conferida). A edição avulsa diz “הָאִבּוּל”, onde o Talmud aqui diz “הָאִיבּוּל”. “Imediatamente” segue o Rashi; segundo ele, Rabi Yossi diverge do tanna kamma, que proíbe até o noivado, e de Rabi Yehuda, que permite à desposada casar-se; para Rabi Yossi, todas podem só desposar-se, e não casar-se.
E dissemos sobre isso: Rabi Eliezer não entrou na casa de estudo. Encontrou Rabi Assi, que estava de pé. Disse-lhe Rabi Eliezer: Que foi dito na casa de estudo? Disse-lhe Rabi Assi: Assim disse Rabi Yochanan: A halachá é como Rabi Yossi. Por implicação, conclui-se que um só diverge dele?
“A halachá é como Rabi Yossi” — que permite desposar-se imediatamente.
“E dissemos” — “por implicação”: que esta mishná anônima ensinada acima, “tanto desposadas como casadas”, é opinião de um só.
O episódio está também em Yevamot 42b (conferido), onde se lê “רַבִּי אֶלְעָזָר” e “מַאי אֲמוּר רַבָּנַן בְּבֵי מִדְרְשָׁא”; aqui o hebraico diz “רַבִּי אֱלִיעֶזֶר” e “מַאי אֲמוּר בְּבֵי מִדְרְשָׁא”, e seguimos o hebraico desta página. “Rabi Assi” segue o hebraico, “רַבִּי אַסִּי”. A identificação dos dois que falam completa a sequência “disse-lhe… disse-lhe” do hebraico; quem pergunta “por implicação…” o hebraico não diz. Segundo o Rashi, a pergunta é se a mishná anônima, que proíbe também o noivado, é opinião de um só, isto é, de Rabi Meir, como mostra a baraita a seguir.
Sim. E assim foi ensinado numa baraita: Se ela era assídua em ir à casa do seu pai em outra cidade, ou se tinha ira com o seu marido, ou se o seu marido era velho ou doente, ou se ela era doente, estéril, idosa, menor ou aylonit (mulher que não se desenvolveu e não pode conceber), ou que não é apta a dar à luz por outra causa, ou se o seu marido estava preso na prisão, ou a que aborta depois da morte do seu marido — todas essas precisam esperar três meses antes de se desposar. Estas são as palavras de Rabi Meir. Rabi Yossi permite a elas desposar-se e casar-se imediatamente.
“E assim foi ensinado” — é dito em tom afirmativo.
“Assídua em ir à casa do seu pai” — habituada a morar na casa do seu pai, em outra cidade, e não está habitualmente com o seu marido.
“Doente” — e não suporta o esforço da coabitação.
“Estéril” — por causa do seu destino, pois já se casou com três homens e não lhes deu filhos, e ficou estabelecida como estéril.
“Aylonit” — desde o ventre da sua mãe, e tem sinais: não tem pelos nem seios; e o termo aylonit quer dizer masculina, como o carneiro (ayil), que não dá à luz.
“Ou que não é apta a dar à luz” — por ter bebido uma poção que a esterilizou.
“Palavras de Rabi Meir” — evidentemente, Rabi Meir é quem decretou naquele caso em que é claro para nós que ela não está grávida, e o mesmo vale para a desposada.
A baraita está também em Yevamot 42b e em Ketubot 60b (conferidos), com outra ordem e pequenas diferenças: lá se lê “כַּעַס בְּבֵית בַּעְלָהּ”, onde aqui se lê “כַּעַס עִם בַּעְלָהּ”, e em Ketubot 60b aparece também “אוֹ שֶׁהָלַךְ בַּעְלָהּ לִמְדִינַת הַיָּם”. “Sim” traduz “אִין”, e o Rashi diz que “וְהָתַנְיָא” é aqui afirmativo (“בניחותא”), não uma objeção. Seguimos o Rashi em “רְדוּפָה לֵילֵךְ לְבֵית אָבִיהָ”: mulher habituada a morar na casa do pai, em outra cidade, longe do marido; a tradução de referência entende que ela estava ansiosa por ir à casa do pai e não ficou com o marido nos seus últimos dias. Em todos estes casos é claro que ela não está grávida do marido, e mesmo assim Rabi Meir exige a espera; daí, diz o Rashi, que Rabi Meir decretou também sobre a desposada, e a mishná anônima é dele.
Para que me é necessário que Rabi Yochanan o dissesse? Mas não disseste: Entre Rabi Meir e Rabi Yossi, a halachá é como Rabi Yossi?
“E para que lhe é necessário” — a Rabi Yochanan dizer “a halachá é como Rabi Yossi”, pois ele mesmo estabeleceu como regra acima: entre Rabi Meir e Rabi Yossi, a halachá é como Rabi Yossi. Antes, aprende-se daí que Rabi Yochanan não disse estas regras, mas aqueles amoraim as disseram por si mesmos.
A regra “entre Rabi Meir e Rabi Yossi, a halachá é como Rabi Yossi” é a de Rabi Yaakov bar Idi em nome de Rabi Yochanan, em Eruvin 46b (bloco 1624), onde se diz “não é preciso dizer”. Seguimos o Rashi: a conclusão da objeção é que Rabi Yochanan não disse estas regras, e que os amoraim que as transmitiram as formularam por conta própria; a tradução de referência diz só que não se pode confiar nelas. O lema do Rashi diz “ולמה ליה”, onde a guemará diz “לְמָה לִי”.
E qual é a dificuldade? Talvez tenha vindo para excluir a regra de Rav Nachman em nome de Shmuel, que disse: A halachá é como Rabi Meir nos seus decretos.
“E qual é a dificuldade? Talvez” — embora Rabi Yochanan as tenha estabelecido como regra, foi-lhe necessário decidir neste caso, porque Rabi Meir era rigoroso, e Shmuel disse: A halachá é como Rabi Meir nos seus decretos, em todo lugar em que foi rigoroso; e veio Rabi Yochanan para excluir a regra de Shmuel, ao menos para dizer que nisto a halachá é como Rabi Yossi.
A regra de Rav Nachman em nome de Shmuel está também em Ketubot 60b (conferido), logo depois desta mesma baraita, e em Ketubot 57a (conferido). Segundo o Rashi, Rabi Yochanan teve de decidir expressamente como Rabi Yossi porque aqui Rabi Meir decretou por rigor, e pela regra de Shmuel se poderia seguir Rabi Meir; o Rashi cita só “Shmuel”, sem Rav Nachman.
Antes, Rav Mesharshiya tira isto daquilo que foi ensinado numa baraita: Vai-se à feira dos gentios e compra-se deles gado, escravos e escravas, casas, campos e vinhas; e o comprador escreve e registra o documento nos tribunais deles, porque é como quem salva da mão deles.
“À feira” — mercado fixado para o dia de festa dos gentios; e compram-se deles casas e campos, porque assim os diminui; ou, alternativamente, por causa do povoamento da Terra de Israel.
“Gado, escravos e escravas” — porque os introduz na santidade.
“E registra” — o documento.
“Nos tribunais deles” — diante dos juízes deles, para assinar; e, embora isso lhes dê importância, e haja que temer que talvez vão e deem graças, mesmo assim é permitido.
“Porque é como quem salva da mão deles” — para que o gentio não volte e conteste a venda.
A baraita está em Avodah Zará 13a (conferido), onde se lê “גּוֹיִם” e “מֵהֶם”, e não “וַעֲבָדִים”, mas “עֲבָדִים”. “Registra” traduz “וּמַעֲלֶה”, literalmente “eleva”, isto é, apresenta o documento ao tribunal para ser validado; o Rashi diz que o objeto é o documento. Segundo o Rashi, comprar gado e escravos é permitido porque os introduz na santidade, e casas e campos, porque “os diminui” — o Rashi não diz a quem ou o quê; presumivelmente, as posses dos gentios — ou por causa do povoamento da Terra de Israel. No Rashi sobre “nos tribunais deles”, “vão e deem graças” traduz “אזלי ומודו”; o Rashi não diz a quem dão graças, e a tradução de referência fala de reconhecer a autoridade deles.
E, se for kohen (sacerdote), torna-se impuro saindo para fora da Terra de Israel para litigar e contestar com eles. E assim como se torna impuro fora da Terra, assim se torna impuro entrando num cemitério.
Continuação da baraita de Avodah Zará 13a (conferido), onde se lê “עִמָּהֶם”, onde aqui se lê “עִמָּהֶן”. A terra fora da Terra de Israel transmite impureza por decreto dos Sábios, e por isso o kohen normalmente não deve sair dela; aqui se permite, para defender os seus bens diante dos gentios. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
Entrar num cemitério, subiria à tua mente?! É impureza da Torá!
“Num cemitério, subiria à tua mente” — eis que transgrediria um lav (mandamento negativo).
A guemará interrompe a baraita: a impureza de cemitério para o kohen é proibição da Torá, e não se pode permiti-la por causa de bens. A mesma pergunta está em Avodah Zará 13a (conferido), onde se lê “בְּבֵית הַקְּבָרוֹת”, com preposição.
Antes, a baraita fala do beit hapras (campo em que se arou um túmulo, espalhando os ossos), que é dos Rabanan.
Também em Avodah Zará 13a (conferido), onde se lê “אֶלָּא בֵּית הַפְּרָס דְּרַבָּנַן”, sem preposição. A impureza do beit hapras é só rabínica, e por isso os Sábios a permitiram ao kohen nesta situação. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
E o kohen torna-se impuro para casar com uma mulher e para estudar Torá. Disse Rabi Yehuda: Quando isto vale? Quando não encontra onde estudar; mas, encontrando onde estudar, não se tornará impuro.
“Que não encontra onde estudar” — na sua terra.
Continuação da baraita de Avodah Zará 13a (conferido), onde se lê “לִלְמוֹד תּוֹרָה וְלִישָּׂא אִשָּׁה”, na outra ordem, “בִּזְמַן שֶׁמּוֹצֵא” e “אֵינוֹ מְטַמֵּא”, onde aqui se lê “מוֹצֵא לִלְמוֹד” e “לֹא יִטַּמָּא”. O lema do Rashi diz “שאינו מוצא”, onde a guemará diz “שֶׁאֵין מוֹצֵא”. Segundo o Rashi, o kohen só pode sair quando não encontra onde estudar na sua terra, isto é, na Terra de Israel.
Rabi Yossi diz: Mesmo quando encontra onde estudar, também se tornará impuro, porque…
O daf termina no meio da baraita. Em Avodah Zará 13a (conferido), Rabi Yossi conclui: “לְפִי שֶׁאֵין אָדָם זוֹכֶה לִלְמוֹד מִכֹּל”, “porque não é toda pessoa que merece aprender de qualquer um”; lá se lê “אֲפִילּוּ”, sem “אַף” nem “נָמֵי”. A guemará retoma a discussão em Eruvin 47b. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.