Talmud Bavli · Massechet Eruvin · Perek Dalet (Mi SheHotziuhu) · 46a
הַמֵּיקֵל בְּעֵירוּב

A água nas nuvens; a halachá como o leniente em eruv; um só diante de muitos: as três onot e a notícia do luto

Eruvin 46a — Perek Dalet (Mi SheHotziuhu, Eruvin 41b:6-52b:15) · guemará: tanto mais que seja nolad; a água nas nuvens e no oceano se move; rios que correm e fontes que brotam · Rabi Yaakov bar Idi em nome de Rabi Yehoshua ben Levi: a halachá é como Rabi Yochanan ben Nuri; Rabi Zeira: explicitamente ou por inferência?; a halachá é como o leniente em eruv · Rabi Zeira: as duas são necessárias; um só diante de muitos · Rava e Rav Pappa: Rabi Eliezer e as três onot; Rabi agiu segundo ele na hora de aperto · Rav Mesharshiya: a shemu’á próxima e a distante; Rabba bar bar Chana em nome de Rabi Yochanan; Shmuel: o leniente no luto · continua de Eruvin 45b; a guemará continua em Eruvin 46b

A guemará termina a discussão sobre as chuvas: se a água na nuvem é como se não existisse, a chuva seria nolad e proibida; por isso a resposta é outra, que a água nas nuvens, como a do oceano, está sempre em movimento e não adquire shevitá, como os rios que correm e as fontes que brotam. Depois, Rabi Yaakov bar Idi diz em nome de Rabi Yehoshua ben Levi que a halachá é como Rabi Yochanan ben Nuri, e Rabi Zeira pergunta se o ouviu explicitamente ou o deduziu da regra de que a halachá é como o leniente em eruv. As duas regras são necessárias: a geral limita a halachá à leniência, e a particular ensina que se segue o leniente mesmo quando está sozinho contra muitos. Rava objeta que nas leis rabínicas isso não deveria importar; Rav Pappa responde com Rabi Eliezer e a mulher sobre quem passaram três onot, em quem Rabi só se apoiou na hora de aperto, e Rav Mesharshiya com a notícia próxima e a distante no luto, em que a halachá segue Rabi Akiva sozinho só porque no luto se segue o leniente.

As nuvens e o oceano: a água em movimento · מַיָּא בְּעָבִים

1597Tanto mais que seja nolad
A guemará
כׇּל שֶׁכֵּן דְּהָווּ לְהוּ נוֹלָד, דַּאֲסִירִי!

Se a água na nuvem é como se não existisse, tanto mais que as águas se tornem nolad (algo que passou a existir só no Yom Tov), que são proibidas!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “kol shekein dehavu lehu nolad”
כל שכן דהוו להו נולד ואסירי - אפילו לטלטלן במקומן:

“Tanto mais que se tornem nolad e são proibidas” — proibidas mesmo para movê-las no seu lugar (e não só para levá-las para fora do techum).

Nota

A objeção volta à resposta do fim de Eruvin 45b (bloco 1596): a água na nuvem está absorvida e, segundo o Rashi ali, é como se não existisse. Se é assim, a água da chuva, que só agora tomou a forma de água, seria nolad, coisa que passou a existir no próprio Yom Tov, e estaria proibida até de ser movida, e não apenas de ser levada além do techum, como explica o Rashi. A glosa de nolad segue a das páginas anteriores do tratado. O lema do Rashi diz “ואסירי”, onde a guemará diz “דַּאֲסִירִי”.

1598A água nas nuvens está em movimento; também a do oceano
A guemará
אֶלָּא: מַיָּא בְּעָבִים מֵינָד נָיְידִי. הַשְׁתָּא דְּאָתֵית לְהָכִי, אוֹקְיָינוֹס נָמֵי לָא לִיקְשׁוֹ לָךְ, מַיָּא בְּאוֹקְיָינוֹס נָמֵי מֵינָד נָיְידִי, וְתַנְיָא: נְהָרוֹת הַמּוֹשְׁכִין וּמַעְיָינוֹת הַנּוֹבְעִין הֲרֵי הֵן כְּרַגְלֵי כׇּל אָדָם.

Antes, dize: a água nas nuvens move-se de um lado para outro (e não repousa num lugar para adquirir shevitá). Agora que chegaste a isto (a esta resposta), também a pergunta do oceano não te seja difícil: a água no oceano também se move de um lado para outro. E foi ensinado numa baraita: Rios que correm e fontes que brotam, eis que são como os pés de toda pessoa (que deles tira água).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “harei hen keraglei kol adam”
הרי הן כרגלי כל אדם - כיון דניידי לא קנו שביתה ואפילו הן של יחיד אינן כרגליו:

“Eis que são como os pés de toda pessoa” — uma vez que se movem, não adquiriram shevitá; e, mesmo que sejam de um indivíduo, não são como os pés dele (do dono).

Nota

“Move-se de um lado para outro” traduz o aramaico “מֵינָד נָיְידִי”. A água em movimento não adquire shevitá nem nas nuvens nem no oceano, e assim cai a pergunta do oceano de Eruvin 45b (bloco 1590). A baraita dos rios e das fontes é citada também em Beitzá 39a (conferido), onde Rava a contrapõe à mishná da cisterna do indivíduo. Segundo o Rashi, a água corrente não segue nem os pés do dono, se for de um indivíduo.

Rabi Yehoshua ben Levi: a halachá é como Rabi Yochanan ben Nuri · הֲלָכָה כְּרַבִּי יוֹחָנָן בֶּן נוּרִי

1599Rabi Yaakov bar Idi: a halachá é como Rabi Yochanan ben Nuri
A guemará
אָמַר רַבִּי יַעֲקֹב בַּר אִידֵּי אָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי: הֲלָכָה כְּרַבִּי יוֹחָנָן בֶּן נוּרִי. אֲמַר לֵיהּ רַבִּי זֵירָא לְרַבִּי יַעֲקֹב בַּר אִידִי: בְּפֵירוּשׁ שְׁמִיעַ לָךְ אוֹ מִכְּלָלָא שְׁמִיעַ לָךְ? אֲמַר לֵיהּ: בְּפֵירוּשׁ שְׁמִיעַ לִי.

Rabi Yaakov bar Idi disse em nome de Rabi Yehoshua ben Levi: A halachá (a lei estabelecida) é como Rabi Yochanan ben Nuri (que quem dormiu no caminho tem duas mil amot). Rabi Zeira disse a Rabi Yaakov bar Idi: Ouviste isto explicitamente, ou ouviste isto por inferência? Rabi Yaakov bar Idi lhe disse: Ouvi explicitamente.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “befeirush shemia lach”
בפירוש שמיע לך - מרבי יהושע בן לוי:

“Ouviste explicitamente” — de Rabi Yehoshua ben Levi (que a halachá é como Rabi Yochanan ben Nuri)?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “o mikelala”
או מכללא - דשמיע לך מיניה מילתא אחריתי ודייקת מינה דכר' יוחנן בן נורי סבירא ליה:

“Ou por inferência” — que ouviste dele outra coisa, e deduziste dela que Rabi Yehoshua ben Levi pensa como Rabi Yochanan ben Nuri.

Nota

A guemará volta à Mishná Eruvin 4:5 (Eruvin 45a, bloco 1571): quem dormiu no caminho e não soube que anoiteceu tem duas mil amot para cada lado, segundo Rabi Yochanan ben Nuri, contra os Rabanan, que lhe dão só quatro amot. O hebraico diz só “disse-lhe”; quem responde é, pelo contexto, Rabi Yaakov bar Idi, a quem a pergunta foi feita.

1600Qual seria a inferência
A guemará
מַאי כְּלָלָא? דְּאָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי: הֲלָכָה כְּדִבְרֵי הַמֵּיקֵל בְּעֵירוּב.

Qual seria a inferência? Aquilo que disse Rabi Yehoshua ben Levi: A halachá é como as palavras de quem é leniente em matéria de eruv.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “umai kelala”
ומאי כללא - מאיזה כלל הוה ס"ד מעיקרא דשמעת ליה לר' יהושע בן לוי דנימא מילתא דנידוק לה מינה:

“E qual a inferência” — de qual regra geral subiria à mente, a princípio, que a ouviste de Rabi Yehoshua ben Levi, isto é, que ele tenha dito alguma coisa da qual a deduzíssemos (a halachá como Rabi Yochanan ben Nuri)?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “be’eruv”
בעירוב - בכל משפטיו ותחומין מהלכות עירובין הן:

“Em eruv” — em todas as suas regras; e os techumin também são das leis de eruvin.

Nota

Segundo o Rashi, “em eruv” abrange todas as leis de eruvin, e também os techumin, assunto desta mishná; por isso a regra geral do leniente em eruv bastaria para deduzir a halachá como Rabi Yochanan ben Nuri. O lema do Rashi diz “ומאי כללא”, onde a guemará diz “מַאי כְּלָלָא”.

1601Para que as duas?
A guemará
וְתַרְתֵּי לְמָה לִי?!

E duas afirmações de Rabi Yehoshua ben Levi, para que me são necessárias?!

Nota

A pergunta supõe que Rabi Yehoshua ben Levi disse as duas regras: a particular, como Rabi Yochanan ben Nuri, e a geral, como o leniente em eruv; se uma contém a outra, uma delas sobraria. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1602Rabi Zeira: as duas são necessárias
A guemará
אָמַר רַבִּי זֵירָא: צְרִיכִי, דְּאִי אַשְׁמְעִינַן הֲלָכָה כְּרַבִּי יוֹחָנָן בֶּן נוּרִי, הֲוָה אָמֵינָא בֵּין לְקוּלָּא וּבֵין לְחוּמְרָא, קָא מַשְׁמַע לַן הֲלָכָה כְּדִבְרֵי הַמֵּיקֵל בְּעֵירוּב.

Disse Rabi Zeira: São necessárias as duas. Pois, se nos tivesse feito ouvir só: a halachá é como Rabi Yochanan ben Nuri, eu diria que é assim tanto para a leniência (no caso de quem dorme) como para o rigor (no caso dos objetos sem dono); ensina-nos por isso: a halachá é como as palavras de quem é leniente em eruv.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “bein lekula”
בין לקולא - כגון אדם ישן דאי לא קנה שביתה לא נפיק מד' אמות:

“Tanto para a leniência” — como uma pessoa que dorme; pois, se não adquirisse shevitá dormindo, não sairia de suas quatro amot.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “lechumra”
לחומרא - כגון כלי הפקר אי אמרת קונין שביתה אסור להוליכן למקום שעירב זה המוצאן אלא אלפים הוא דאית להו לכל רוח:

“Para o rigor” — como utensílios sem dono: se disseres que adquirem shevitá, é proibido levá-los ao lugar para o qual fez eruv este que os encontra; antes, só têm duas mil amot para cada lado a partir do seu lugar.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ka mashma lan kedivrei hameikel”
קמ"ל כדברי המיקל - באדם הוא דהלכתא כוותיה דכיון דניעור קנה ישן נמי קנה אבל בכלים לית הלכתא כוותיה:

“Ensina-nos: como as palavras de quem é leniente” — quanto a uma pessoa, a halachá é como ele (Rabi Yochanan ben Nuri), pois, uma vez que quem está acordado adquire, quem está dormindo também adquire; mas quanto a utensílios não é a halachá como ele.

Nota

Os exemplos de leniência e de rigor são do Rashi, que retoma a pergunta de Rava em Eruvin 45b (blocos 1578–1580): se a razão de Rabi Yochanan ben Nuri é que objetos sem dono adquirem shevitá, a regra seria rigorosa para os utensílios. A regra geral ensina que se segue Rabi Yochanan ben Nuri só no que é leniente: quanto à pessoa que dorme, e não quanto aos utensílios sem dono.

1603Que diga só a regra geral
A guemará
וְלֵימָא ״הֲלָכָה כְּדִבְרֵי הַמֵּיקֵל בְּעֵירוּב״. הֲלָכָה כְּרַבִּי יוֹחָנָן בֶּן נוּרִי לְמָה לִי?

Então que diga só: “A halachá é como as palavras de quem é leniente em eruv”; a regra “A halachá é como Rabi Yochanan ben Nuri”, para que me é necessária?

Nota

O hebraico põe entre aspas só a primeira regra; damos a segunda também entre aspas, porque também é citação das palavras de Rabi Yehoshua ben Levi. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1604Um só diante de muitos
A guemará
אִיצְטְרִיךְ, סָלְקָא דַּעְתָּךְ אָמֵינָא הָנֵי מִילֵּי יָחִיד בִּמְקוֹם יָחִיד וְרַבִּים בִּמְקוֹם רַבִּים, אֲבָל יָחִיד בִּמְקוֹם רַבִּים — אֵימָא לָא.

Foi necessária, pois subiria à tua mente dizer: estas palavras valem num só diante de um só, e em muitos diante de muitos; mas um só diante de muitos, dize que não (não se segue o leniente).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “aval yachid bimkom rabim”
אבל יחיד במקום רבים - כגון ר' יוחנן בן נורי דפליגי רבנן עליה אימא לית הלכתא כוותיה:

“Mas um só diante de muitos” — como Rabi Yochanan ben Nuri, de quem os Rabanan divergem; dize que neste caso a halachá não é como ele.

Nota

“Um só diante de um só” traduz “יָחִיד בִּמְקוֹם יָחִיד”, isto é, uma disputa entre um sábio e outro sábio; “um só diante de muitos”, uma disputa entre um sábio sozinho e a maioria. Sem a regra particular, poder-se-ia pensar que a regra do leniente em eruv não vale contra a maioria, e Rabi Yochanan ben Nuri está sozinho contra os Rabanan.

Nas leis rabínicas: um só diante de muitos · יָחִיד בִּמְקוֹם רַבִּים

1605Rava: se eruvin são rabínicos, que importa?
A guemará
אֲמַר לֵיהּ רָבָא לְאַבָּיֵי: מִכְּדֵי עֵירוּבִין דְּרַבָּנַן, מָה לִי יָחִיד בִּמְקוֹם יָחִיד, וּמָה לִי יָחִיד בִּמְקוֹם רַבִּים!

Rava disse a Abaye: Ora, uma vez que eruvin são dos Rabanan (de lei rabínica), que me importa se é um só diante de um só, e que me importa se é um só diante de muitos?!

Nota

Rava pergunta por que a regra do leniente em eruv deveria distinguir entre um só diante de um só e um só diante de muitos, se as leis de eruvin são de origem rabínica. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1606Rav Pappa: não há diferença nas leis rabínicas?
A guemará
אֲמַר לֵיהּ רַב פָּפָּא לְרָבָא: וּבִדְרַבָּנַן לָא שָׁנֵי לַן בֵּין יָחִיד בִּמְקוֹם יָחִיד לְיָחִיד בִּמְקוֹם רַבִּים!

Rav Pappa disse a Rava: E acaso nas leis dos Rabanan não há diferença para nós entre um só que diverge diante de um só e um só diante de muitos?!

Nota

O hebraico diz “לָא שָׁנֵי לַן”, “não há diferença para nós”. Rav Pappa traz a prova nos blocos seguintes. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1607Rabi Eliezer: três onot
A guemará
וְהָתְנַן, רַבִּי אֶלְעָזָר אוֹמֵר: כׇּל אִשָּׁה שֶׁעָבְרוּ עָלֶיהָ שָׁלֹשׁ עוֹנוֹת — דַּיָּיהּ שְׁעָתָהּ.

Pois não aprendemos numa mishná: Rabi Eliezer diz: Toda mulher sobre quem passaram três onot (períodos do fluxo, de trinta em trinta dias) sem ver sangue, basta-lhe a sua hora (é impura só desde que viu, e não retroativamente).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Rabi Eliezer”
רבי אליעזר גרסינן:

Lemos aqui: “Rabi Eliezer”.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “kol ishá she’averu aleha shalosh onot”
כל אשה שעברו עליה שלש עונות - דהיינו צ' יום דעונה סתם לפריסת נדה משלשים יום לשלשים יום וכל אשה שעברו עליה תשעים יום ולא ראתה נסתלקו דמיה ואם ראתה אחרי כן אמרינן השתא הוא דראתה דם ולא מטמינן טהרות שנתעסק' בהן למפרע כשאר נשים שדמיהן מצויין שמטמאות טהרות למפרע מעת לעת כדאמר במס' נדה (דף ג.) דחיישינן שמא כותלי בית הרחם העמידוהו ותנן (שם מ.) כל הנשים מטמאות בבית החיצון ופליגי רבנן עליה ואמרי דאין הפסקת ג' עונות סילוק אלא לזקנה שעברו עליה ג' עונות סמוך לזקנתה אבל בילדה לא:

“Toda mulher sobre quem passaram três onot” — isto é, noventa dias, pois a ona simples para o afastamento da nidá é de trinta em trinta dias; e toda mulher sobre quem passaram noventa dias e não viu sangue, o seu sangue se retirou, e, se viu depois disso, dizemos: agora é que viu sangue, e não tornamos impuros retroativamente os alimentos puros com que se ocupou, como fazem as outras mulheres, cujo sangue é frequente, que tornam impuros os puros retroativamente me’et le’et (nas vinte e quatro horas anteriores), como se diz no tratado Nidá (3a), pois tememos que as paredes do útero o tenham retido; e aprendemos (ali, 40a): Todas as mulheres se tornam impuras na câmara exterior (mesmo antes de o sangue sair). E os Rabanan divergem dele e dizem que a interrupção de três onot só é retirada do sangue para a idosa sobre quem passaram três onot perto da sua velhice; mas na jovem, não.

Nota

O hebraico da guemará diz aqui “רַבִּי אֶלְעָזָר”, Rabi Elazar, mas o Rashi lê “רבי אליעזר”, Rabi Eliezer, e assim lemos, seguindo o Rashi. A Mishná Nidá 1:5 (conferida) traz “רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, כׇּל אִשָּׁה שֶׁעָבְרוּ עָלֶיהָ שָׁלֹשׁ עוֹנוֹת, דַּיָּהּ שְׁעָתָהּ”, depois da definição anônima de idosa, “toda aquela sobre quem passaram três onot perto da sua velhice”, que é a posição dos Rabanan segundo o Rashi. As referências do Rashi conferem: Nidá 3a (conferido), a opinião de Hillel de que as paredes do útero retêm o sangue, e Nidá 40a (conferido), a Mishná Nidá 5:1 (conferida), “Todas as mulheres se tornam impuras na câmara exterior”. “(3a)” e “(ali, 40a)” são marcas de editor no Rashi. A glosa de onot segue o Rashi, para quem a ona é de trinta dias.

1608Rabi agiu segundo Rabi Eliezer
A guemará
וְתַנְיָא: מַעֲשֶׂה וְעָשָׂה רַבִּי כְּרַבִּי אֶלְעָזָר. לְאַחַר שֶׁנִּזְכַּר, אָמַר: כְּדַי הוּא רַבִּי אֶלְעָזָר לִסְמוֹךְ עָלָיו בִּשְׁעַת הַדְּחָק.

E foi ensinado numa baraita: Houve um caso, e Rabi, isto é, Rabi Yehuda HaNasi, agiu segundo Rabi Eliezer. Depois que se lembrou, disse: Digno é Rabi Eliezer de que se apoie nele na hora de aperto.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “keRabi Elazar”
כרבי אלעזר - וטיהר אף בילדה שעברו עליה ג' עונות:

“Segundo Rabi Eliezer” — e declarou puro o que ela tocara, mesmo no caso de uma jovem sobre quem passaram três onot.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “achar shenizkar”
אחר שנזכר - משמע דנזכר דלאו שפיר עביד:

“Depois que se lembrou” — dá a entender que se lembrou de que não tinha agido bem.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “she’at hadechak”
שעת הדחק - שני בצורת הוו ואיכא הפסד טהרות:

“Hora de aperto” — eram anos de fome, e havia perda de alimentos puros.

Nota

A baraita está em Nidá 9b (conferido): “מַעֲשֶׂה, וְעָשָׂה רַבִּי כְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר”, com a mesma discussão sobre “depois que se lembrou”; lá se lê Rabi Eliezer, como o Rashi lê aqui, e também lá se explica a hora de aperto como anos de fome ou como perda de alimentos puros. O lema do Rashi diz “כרבי אלעזר”, como o texto impresso; traduzimos Rabi Eliezer, segundo a leitura do próprio Rashi no bloco anterior, e “אחר שנזכר”, onde a guemará diz “לְאַחַר שֶׁנִּזְכַּר”. A identificação de “Rabi” com Rabi Yehuda HaNasi segue a tradução de referência e as páginas anteriores do tratado.

1609Que significa “depois que se lembrou”?
A guemará
מַאי ״לְאַחַר שֶׁנִּזְכַּר״? אִילֵּימָא: לְאַחַר שֶׁנִּזְכַּר דְּאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי אֶלְעָזָר אֶלָּא כְּרַבָּנַן — בִּשְׁעַת הַדְּחָק הֵיכִי עָבֵיד כְּווֹתֵיהּ!

Que significa “depois que se lembrou”? Se dizes que é: depois que se lembrou de que a halachá não é como Rabi Eliezer, mas como os Rabanan, na hora de aperto que fosse, como agiu segundo ele e não desfez o ato?!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “mai keshenizkar”
מאי כשנזכר - אילימא נזכר דאיתמר בפלוגתייהו הלכה כרבנן וכשנעשה המעשה לא היה זכור ועכשיו נזכר אמאי לא אהדר עובדא:

“Que é ‘quando se lembrou’” — se dizes: lembrou-se de que foi dito na disputa deles que a halachá é como os Rabanan, e, quando o ato foi feito, não se lembrava disso, e agora se lembrou, por que não desfez o ato?

Nota

Seguimos o Rashi: a pergunta é por que Rabi não desfez o ato depois de se lembrar; a tradução de referência entende “como podia decidir segundo ele, mesmo na hora de aperto”. O lema do Rashi diz “מאי כשנזכר”, “que é ‘quando se lembrou’”, onde a guemará diz “מַאי לְאַחַר שֶׁנִּזְכַּר”.

1610Muitos divergiam dele
A guemará
אֶלָּא: דְּלָא אִיתְּמַר הִלְכְתָא לָא כְּרַבִּי אֶלְעָזָר וְלָא כְּרַבָּנַן. ״לְאַחַר שֶׁנִּזְכַּר״ דְּלָאו יָחִיד פְּלִיג עֲלֵיהּ אֶלָּא רַבִּים פְּלִיגִי עֲלֵיהּ, אָמַר: כְּדַי הוּא רַבִּי אֶלְעָזָר לִסְמוֹךְ עָלָיו בִּשְׁעַת הַדְּחָק.

Antes, é que não foi dita a halachá, nem como Rabi Eliezer, nem como os Rabanan; e “depois que se lembrou” significa: depois que se lembrou de que não era um só que divergia dele, mas muitos que divergiam dele, disse: Digno é Rabi Eliezer de que se apoie nele na hora de aperto.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ela”
אלא - האי דלא אהדר משום דלא איתמר הלכתא לא כמר ולא כמר ומאי נזכר לאחר שנזכר דרבים פליגי עליה דהוה ליה למיעבד כרבים אמר כדי הוא רבי אליעזר לסמוך עליו בשעת הדחק ולא אהדר עובדא הא לאו בשעת הדחק לא אלמא אע"ג דמעת לעת גזירה דרבנן היא בעי למיעבד כרבים:

“Antes” — isto, que não desfez o ato, é porque não foi dita a halachá nem como um mestre nem como o outro. E que significa “lembrou-se”? Depois que se lembrou de que muitos divergem dele, de modo que deveria ter agido como os muitos, disse: Digno é Rabi Eliezer de que se apoie nele na hora de aperto; e não desfez o ato. Logo, fora da hora de aperto, não. Evidentemente, embora a impureza de me’et le’et seja decreto dos Rabanan, é preciso agir como os muitos.

Nota

Esta é a prova de Rav Pappa: a impureza retroativa de vinte e quatro horas é decreto rabínico, como diz o Rashi, e mesmo assim Rabi só se apoiou no sábio isolado na hora de aperto; logo, também nas leis rabínicas há diferença entre um só diante de um só e um só diante de muitos. Em Nidá 9b (conferido) a mesma explicação está com “וּמַאי ‘לְאַחַר שֶׁנִּזְכַּר’”, que falta aqui.

A notícia próxima e a distante · שְׁמוּעָה קְרוֹבָה

1611Rav Mesharshiya: não há diferença nas leis rabínicas?
A guemará
אָמַר רַב מְשַׁרְשְׁיָא לְרָבָא, וְאָמְרִי לַהּ רַב נַחְמָן בַּר יִצְחָק לְרָבָא: וּבִדְרַבָּנַן לָא שָׁנֵי בֵּין יָחִיד בִּמְקוֹם יָחִיד, בֵּין יָחִיד בִּמְקוֹם רַבִּים?

Rav Mesharshiya disse a Rava, e há quem diga que foi Rav Nachman bar Yitzchak quem disse a Rava: E nas leis dos Rabanan não há diferença entre um só que diverge diante de um só e um só diante de muitos?

Nota

A mesma objeção a Rava, com outra prova, atribuída a Rav Mesharshiya ou, segundo outra tradição, a Rav Nachman bar Yitzchak. “E há quem diga” traduz “וְאָמְרִי לַהּ”. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1612A notícia próxima e a distante
A guemará
וְהָתַנְיָא: שְׁמוּעָה קְרוֹבָה נוֹהֶגֶת שִׁבְעָה וּשְׁלֹשִׁים, רְחוֹקָה אֵינָהּ נוֹהֶגֶת אֶלָּא יוֹם אֶחָד.

Pois não foi ensinado numa baraita: A shemu’á (notícia da morte de um parente) próxima vigora por shivá (os sete dias de luto) e shloshim (os trinta dias); a distante só vigora por um dia.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “noheget shiv’á”
נוהגת שבעה - לרחיצה ולתכבוסת ושלשים לתספורת ולגיהוץ מיום שנשמע לו:

“Vigora por shivá” — quanto à proibição de banhar-se e de lavar roupa; e por shloshim, quanto a cortar o cabelo e passar roupa, contados desde o dia em que lhe chegou a notícia.

Nota

A baraita está em Moed Katan 20a (conferido), com o mesmo texto e a mesma disputa entre Rabi Akiva e os Sábios. “Vigora por” traduz “נוֹהֶגֶת”. O Rashi diz literalmente “desde o dia em que foi ouvida por ele”.

1613Qual é a próxima e qual a distante
A guemará
וְאֵי זוֹ הִיא קְרוֹבָה וְאֵיזוֹ הִיא רְחוֹקָה? בְּתוֹךְ שְׁלֹשִׁים — קְרוֹבָה, לְאַחַר שְׁלֹשִׁים — רְחוֹקָה, דִּבְרֵי רַבִּי עֲקִיבָא. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים: אַחַת שְׁמוּעָה קְרוֹבָה וְאַחַת שְׁמוּעָה רְחוֹקָה נוֹהֶגֶת שִׁבְעָה וּשְׁלֹשִׁים.

E qual é a próxima, e qual é a distante? Dentro de trinta dias da morte, próxima; depois de trinta dias, distante. Estas são as palavras de Rabi Akiva. E os Sábios dizem: Tanto a shemu’á próxima quanto a shemu’á distante vigoram por sete e trinta dias.

Nota

Rabi Akiva é leniente: a notícia que chega depois de trinta dias obriga só a um dia de luto; os Sábios são rigorosos e exigem shivá e shloshim em todo caso. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1614Rabba bar bar Chana: exceto nesta
A guemará
וְאָמַר רַבָּה בַּר בַּר חָנָה אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: כׇּל מָקוֹם שֶׁאַתָּה מוֹצֵא יָחִיד מֵיקֵל וְרַבִּים מֵחֲמִירִין, הֲלָכָה כְּדִבְרֵי הַמַּחְמִירִין הַמְרוּבִּים, חוּץ מִזּוֹ, שֶׁאַף עַל פִּי שֶׁרַבִּי עֲקִיבָא מֵיקֵל וַחֲכָמִים מֵחֲמִירִין — הֲלָכָה כְּדִבְרֵי רַבִּי עֲקִיבָא.

E disse Rabba bar bar Chana em nome de Rabi Yochanan: Em todo lugar em que encontras um só sábio leniente e muitos sábios rigorosos, a halachá é como as palavras dos rigorosos, que são a maioria, exceto nesta disputa, em que, embora Rabi Akiva seja leniente e os Sábios sejam rigorosos, a halachá é como as palavras de Rabi Akiva.

Nota

A mesma palavra de Rabba bar bar Chana em nome de Rabi Yochanan está em Moed Katan 20a (conferido), seguida ali da razão de Shmuel. “Que são a maioria” traduz “הַמְרוּבִּים”, “os mais numerosos”. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1615Shmuel: o leniente no luto
A guemará
וְסָבַר לַהּ כִּשְׁמוּאֵל, דְּאָמַר שְׁמוּאֵל: הֲלָכָה כְּדִבְרֵי הַמֵּיקֵל בְּאֵבֶל.

E Rabi Yochanan pensa como Shmuel, pois Shmuel disse: A halachá é como as palavras de quem é leniente no evel (luto).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “vesavar lah”
וסבר לה - רבי יוחנן כשמואל:

“E pensa” — Rabi Yochanan pensa como Shmuel.

Nota

A regra de Shmuel, “הֲלָכָה כְּדִבְרֵי הַמֵּיקֵל בְּאֵבֶל”, aparece também em Moed Katan 18a, 19b, 20a e 26b (conferidos).

1616No luto foram lenientes; em geral há diferença
A guemará
בַּאֲבֵילוּת הוּא דְּאַקִּילוּ בַּהּ רַבָּנַן, אֲבָל בְּעָלְמָא — אֲפִילּוּ בִּדְרַבָּנַן שָׁנֵי בֵּין יָחִיד בִּמְקוֹם יָחִיד בֵּין יָחִיד בִּמְקוֹם רַבִּים.

No luto é que os Rabanan foram lenientes; mas em geral, nas outras leis, mesmo nas leis dos Rabanan há diferença entre um só que diverge diante de um só e um só diante de muitos.

Nota

Conclusão da objeção: só no luto se segue o leniente sozinho contra muitos; nas outras leis rabínicas a maioria prevalece. Por isso, como explica a tradução de referência, Rabi Yehoshua ben Levi precisou dizer expressamente que a halachá é como Rabi Yochanan ben Nuri, embora ele esteja sozinho contra os Rabanan. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

O daf termina aqui: depois de resolver a pergunta das nuvens e do oceano com a água em movimento, a guemará discute a palavra de Rabi Yehoshua ben Levi sobre a halachá como Rabi Yochanan ben Nuri e como o leniente em eruv, e a distinção entre um só diante de um só e um só diante de muitos, com as provas de Rabi Eliezer e das três onot e da notícia próxima e distante no luto. A guemará prossegue em Eruvin 46b.