Talmud Bavli · Massechet Eruvin · Perek Dalet (Mi SheHotziuhu) · 45b
חֶפְצֵי הֶפְקֵר

Os dois e os três que dormiram no caminho; os objetos sem dono adquirem shevitá?; as chuvas, a cisterna e as nuvens

Eruvin 45b — Perek Dalet (Mi SheHotziuhu, Eruvin 41b:6-52b:15) · continuação da mishná (Eruvin 4:6): contanto que um não leve para o do outro; eram três, o do meio absorvido; Rabi Shimon: três pátios · guemará: Rava: Rabi Yochanan ben Nuri e os objetos sem dono · Rav Yossef: as chuvas da véspera do Yom Tov · Rav Safra e Abaye: a cisterna do indivíduo, da cidade e dos que sobem da Babilônia; a cisterna das tribos · Rav Yossef: a prova da própria baraita · o oceano e Rabi Eliezer; Rabi Yitzchak: nuvens formadas na véspera · techumin acima de dez palmos: a água absorvida na nuvem · continua de Eruvin 45a; a guemará continua em Eruvin 46a

Termina a mishná de quem dormiu no caminho: dois cujas quatro amot se sobrepõem comem juntos na parte comum, contanto que um não leve nada para o espaço do outro; se eram três e o do meio partilha área com os dois, ele come com cada um, mas os de fora não comem entre si, como três pátios dos quais os de fora fizeram eruv só com o do meio, segundo a comparação de Rabi Shimon. A guemará começa com a pergunta de Rava: a razão de Rabi Yochanan ben Nuri é que objetos sem dono adquirem shevitá, ou que quem dorme adquire como quem está acordado? Rav Yossef traz as chuvas caídas na véspera do Yom Tov, que têm duas mil amot; Rav Safra objeta que talvez dependam da intenção dos moradores da cidade, e Abaye responde com a contradição entre a mishná da cisterna dos que sobem da Babilônia e a baraita da cisterna das tribos. Rav Yossef mostra a resposta na própria baraita. Por fim, a guemará pergunta por que a chuva não adquiriu shevitá no oceano, de onde, segundo Rabi Eliezer, o mundo bebe, ou nas próprias nuvens, e conclui que a água na nuvem está absorvida.

A Mishná (continuação): os dois e os três · מַתְנִיתִין

1575Contanto que um não leve para o do outro
Mishná
וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יוֹצִיא זֶה מִתּוֹךְ שֶׁלּוֹ לְתוֹךְ שֶׁל חֲבֵרוֹ.

contanto que um não leve de dentro do seu espaço para dentro do espaço do seu companheiro.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “uvilvad”
ובלבד - שלא יפשוט זה ידו לתוך שתים החיצונות שאין לו בהם כלום ויוציא לשם פתו או חפצו דחפציו כרגליו דתנן (ביצה דף לז.) הבהמה והכלים כרגלי הבעלים דכל ד' אמות דכל חד שוינהו רבנן לגביה כרשות היחיד ואסור להכניס ולהוציא מחוצה להן לתוכן ולא דמי להיה מודד ובא וכלתה מדתו בחצי העיר דתניא לעיל (עירובין דף מב:) דמותר לטלטל בכל העיר ע"י זריקה ובלבד שלא יעבור התחום ברגליו דאף ע"ג דאסור להלך מותר להוציא דהתם כולה חדא רשותא הוא ואי נמי כלתה מדתו חוץ לעיר מותר לטלטל מחוץ לתחומו לתוך תחומו שתי אמות בזה ושתי אמות בזה דכולה רשות הרבים הוא דאלפים דידיה לא שוינהו רשות היחיד לגביה דהא אסור לטלטולי בהו אבל ד' אמות דיוצא חוץ לתחום ודנותן את עירובו ודקונה שביתה ברגליו שוינהו רבנן לגביה כרשות היחיד ואסור להו מדרבנן לטלטל מתוכן לחוץ להן:

“Contanto que” — que um não estenda a sua mão para dentro das duas amot exteriores do companheiro, nas quais não tem nada, e leve para lá o seu pão ou o seu objeto; pois os seus objetos são como os seus pés, como aprendemos (Beitzá 37a): O animal e os utensílios são como os pés do dono. Pois as quatro amot de cada um, os Rabanan as consideraram, em relação a ele, como reshut hayachid (domínio particular), e é proibido introduzir e tirar de fora delas para dentro delas. E não se compara ao caso de quem estava medindo e vindo e a sua medida terminou no meio da cidade, como foi ensinado acima (Eruvin 42b), que é permitido carregar em toda a cidade por meio de arremesso, contanto que não ultrapasse o techum com os seus pés; pois, embora seja proibido andar, é permitido levar objetos, porque ali tudo é um só domínio. E também, se a sua medida terminou fora da cidade, é permitido carregar de fora do seu techum para dentro do seu techum, duas amot nesta parte e duas amot naquela, pois tudo é reshut harabim (domínio público); pois as suas duas mil amot os Rabanan não as consideraram domínio particular em relação a ele, já que é proibido carregar nelas (mais de quatro amot, como em domínio público). Mas as quatro amot de quem sai para fora do techum, e de quem deposita o seu eruv, e de quem adquire shevitá com os seus pés, os Rabanan as consideraram em relação a ele como domínio particular, e é proibido a eles, por decreto rabínico, carregar de dentro delas para fora delas.

Nota

Continuação da Mishná Eruvin 4:6 na numeração das edições avulsas (conferido), que começou em Eruvin 45a (bloco 1574): a frase completa “Se eram dois, parte das amot de um estava dentro das amot do outro, trazem a comida e comem no meio”. O texto coincide com o da edição avulsa. Segundo o Rashi, cada um pode comer na área comum, mas não pode levar o seu pão ou outro objeto para as duas amot do companheiro que não são comuns, porque os Rabanan consideraram as quatro amot de cada um como domínio particular dele, e os objetos de uma pessoa seguem os seus pés, como diz a Mishná Beitzá 5:3 (conferida), que está em Beitzá 37a (conferido). O Rashi distingue o caso de Eruvin 42b (conferido), em que a medida do techum terminou no meio da cidade e é permitido carregar por toda a cidade por arremesso, porque ali tudo é um só domínio. A frase sobre quem terminou a medida fora da cidade, “duas amot nesta e duas amot naquela”, tem leitura incerta: entendemos que se pode mover um objeto pouco a pouco junto ao limite do techum, porque as duas mil amot dele são domínio público e não domínio particular. “(Eruvin 42b)” no Rashi é marca de editor.

1576Eram três: o do meio absorvido entre eles
Mishná
הָיוּ שְׁלֹשָׁה וְהָאֶמְצָעִי מוּבְלָע בֵּינֵיהֶן — הוּא מוּתָּר עִמָּהֶן, וְהֵן מוּתָּרִין עִמּוֹ, וּשְׁנַיִם הַחִיצוֹנִים אֲסוּרִין זֶה עִם זֶה.

Se eram três, e o do meio estava absorvido entre eles, ele pode comer com eles, e eles podem comer com ele; mas os dois exteriores estão proibidos de comer um com o outro, pois não têm nenhuma área em comum.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “vehaemtza’i muvla beineihem”
והאמצעי מובלע ביניהם - ב' אמותיו בתוך של זה ושתי אמותיו בתוך של זה:

“E o do meio absorvido entre eles” — duas das suas amot estão dentro das amot deste, e duas das suas amot dentro das amot daquele.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “mutar im kol echad”
מותר עם כל אחד - פונה לכאן ומשתמש עם זה ופונה לכאן ומשתמש עם זה:

“Permitido com cada um” — vira-se para cá e serve-se da área comum com este, e vira-se para lá e serve-se da área comum com aquele.

Nota

Continuação da Mishná Eruvin 4:6 (conferido). A edição avulsa diz “מֻבְלָע”, “מֻתָּר”, “מֻתָּרִין” e “אֲסוּרִים”, onde o Talmud diz “מוּבְלָע”, “מוּתָּר”, “מוּתָּרִין” e “אֲסוּרִין”; são diferenças de grafia. O lema do segundo comentário do Rashi, “מותר עם כל אחד”, não coincide com o texto da mishná, “הוּא מוּתָּר עִמָּהֶן”; o sentido é o mesmo. “Absorvidas” traduz “מוּבְלָע”, o mesmo verbo da absorção de techumin de Eruvin 44b e 45a.

1577Rabi Shimon: três pátios
Mishná
אָמַר רַבִּי שִׁמְעוֹן: לְמָה הַדָּבָר דּוֹמֶה — לְשָׁלֹשׁ חֲצֵירוֹת הַפְּתוּחוֹת זוֹ לָזוֹ, וּפְתוּחוֹת לִרְשׁוּת הָרַבִּים. עֵירְבוּ שְׁתַּיִם עִם הָאֶמְצָעִית — הִיא מוּתֶּרֶת עִמָּהֶן וְהֵם מוּתָּרוֹת עִמָּהּ, וּשְׁתַּיִם הַחִיצוֹנוֹת אֲסוּרוֹת זוֹ עִם זוֹ.

Disse Rabi Shimon: A que se assemelha a coisa? A três pátios abertos um para o outro e abertos para o domínio público: se os dois exteriores fizeram eruv (junção dos moradores dos pátios) com o do meio, ele pode carregar com eles, e eles podem carregar com ele; mas os dois exteriores estão proibidos de carregar um com o outro.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “leshalosh chatzerot”
לשלש חצירות - זו אצל זו:

“A três pátios” — um ao lado do outro.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “petuchot lirshut harabim”
פתוחות לרה"ר - דכל אחת רשות לעצמה ואין להן דריסת הרגל זו על זו דאי הוו להו זו לפנים מזו אסרה פנימית אחיצונה דאפילו בפני עצמה אסורה כל אחת להשתמש:

“Abertos para o domínio público” — de modo que cada um é domínio por si, e não têm direito de passagem um pelo outro; pois, se estivessem um dentro do outro, o interior proibiria o exterior, e então mesmo cada um por si estaria proibido de se servir do seu pátio.

Nota

Continuação e fim da Mishná Eruvin 4:6 (conferido). Na edição avulsa lê-se “חֲצֵרוֹת”, “עֵרְבוּ שְׁתֵּיהֶן”, “מֻתֶּרֶת עִמָּהֶם” e “וְהֵן”, onde o Talmud diz “חֲצֵירוֹת”, “עֵירְבוּ שְׁתַּיִם”, “מוּתֶּרֶת עִמָּהֶן” e “וְהֵם”; são diferenças de grafia e de redação. O hebraico diz só “dois fizeram eruv com o do meio”; pelo contexto, são os dois exteriores, como entende a tradução de referência. Segundo o Rashi, a mishná precisa dizer que os pátios se abrem para o domínio público, porque, se um passasse pelo outro, o interior proibiria o exterior. Rabi Shimon compara o caso dos três que dormiram no caminho ao dos três pátios.

Guemará: Rabi Yochanan ben Nuri e os objetos sem dono · חֶפְצֵי הֶפְקֵר

1578Rava: objetos sem dono adquirem shevitá?
A guemará
גְּמָ׳ בָּעֵי רָבָא: מַאי קָסָבַר רַבִּי יוֹחָנָן בֶּן נוּרִי? מִסְבָּר קָא סָבַר: חֶפְצֵי הֶפְקֵר קוֹנִין שְׁבִיתָה.

GUEMARÁ. Rava perguntou: Que pensa Rabi Yochanan ben Nuri? Pensa ele que chaftzei hefker (objetos sem dono) adquirem shevitá (lugar de repouso de Shabat)?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “gemara: chaftzei hefker”
גמ' חפצי הפקר - כלים שאין להם בעלים וחשיכה להן במקום אחד אע"ג שלא נתכוין להן אדם להקנותן שביתה:

GUEMARÁ. “Objetos sem dono” — utensílios que não têm dono, e anoiteceu para eles num lugar, embora nenhuma pessoa tenha tido a intenção de lhes fazer adquirir shevitá.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “konin shevitá”
קונין שביתה - במקומן ואין אדם יכול לטלטלן משם יותר מאלפים לכל רוח ואפילו עירב לצד אחר:

“Adquirem shevitá” — no seu lugar, e ninguém pode carregá-los dali mais de duas mil amot para cada lado, mesmo que quem os toma tenha feito eruv para outro lado.

Nota

A guemará volta à Mishná Eruvin 4:5 (Eruvin 45a, bloco 1571), segundo a qual quem dormiu no caminho e não soube que anoiteceu tem duas mil amot para cada lado, segundo Rabi Yochanan ben Nuri. Rava pergunta qual é a razão dele: se é porque também objetos sem dono adquirem shevitá sem intenção de ninguém, ou outra razão, que vem no bloco 1580.

1579Por que divergem sobre uma pessoa?
A guemará
וּבְדִין הוּא דְּלִיפְלוֹג בְּכֵלִים. וְהָא דְּקָמִיפַּלְגִי בְּאָדָם — לְהוֹדִיעֲךָ כּוֹחָן דְּרַבָּנַן, דְּאַף עַל גַּב דְּאִיכָּא לְמֵימַר: הוֹאִיל וְנֵיעוֹר קָנָה, יָשֵׁן נָמֵי קָנָה, קָא מַשְׁמַע לַן דְּלָא.

Se é assim, por direito deveria divergir dos Rabanan também sobre utensílios; e isto, que divergem sobre uma pessoa, é para te fazer saber a força dos Rabanan: que, embora haja lugar para dizer: uma vez que quem está acordado adquire, quem está dormindo também adquire, ensina-nos que não (e mesmo assim os Rabanan não lhe dão duas mil amot).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “delifleguu bechelim”
דליפלגו בכלים - של הפקר והאי אדם ישן שלא נתכוין לשביתה ככלים של הפקר דמי:

“Que divergissem sobre utensílios” — sem dono; e esta pessoa adormecida, que não teve intenção de adquirir shevitá, é como utensílios sem dono.

Nota

O hebraico diz “דְּלִיפְלוֹג”, no singular, “que divergisse”, isto é, Rabi Yochanan ben Nuri; o lema do Rashi diz “דליפלגו”, no plural, “que divergissem”, os dois lados. A força dos Rabanan é mostrar que, mesmo onde haveria razão para dar a quem dorme o mesmo que a quem está acordado, não lhe dão duas mil amot.

1580Ou porque quem dorme é como quem está acordado?
A guemará
אוֹ דִילְמָא, קָסָבַר רַבִּי יוֹחָנָן בֶּן נוּרִי בְּעָלְמָא: חֶפְצֵי הֶפְקֵר אֵין קוֹנִין שְׁבִיתָה, וְהָכָא הַיְינוּ טַעְמָא: הוֹאִיל וְנֵיעוֹר קָנָה, יָשֵׁן נָמֵי קָנָה?

Ou talvez Rabi Yochanan ben Nuri pense, em geral, que objetos sem dono não adquirem shevitá; e aqui a razão é esta: uma vez que quem está acordado adquire, quem está dormindo também adquire?

Nota

Esta é a segunda possibilidade da pergunta de Rava: a razão de Rabi Yochanan ben Nuri seria própria da pessoa, que adquire shevitá acordada e por isso também dormindo, e não valeria para objetos sem dono. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

Rav Yossef: as chuvas da véspera do Yom Tov · גְּשָׁמִים שֶׁיָּרְדוּ

1581Rav Yossef: as chuvas da véspera do Yom Tov
A guemará
אָמַר רַב יוֹסֵף, תָּא שְׁמַע: גְּשָׁמִים שֶׁיָּרְדוּ מֵעֶרֶב יוֹם טוֹב — יֵשׁ לָהֶן אַלְפַּיִם אַמָּה לְכׇל רוּחַ. בְּיוֹם טוֹב — הֲרֵי הֵן כְּרַגְלֵי כׇּל אָדָם.

Rav Yossef disse: Vem e ouve: Chuvas que caíram na véspera do Yom Tov (dia de festa) têm duas mil amot para cada lado a partir do lugar onde caíram; se caíram no Yom Tov, eis que são como os pés de toda pessoa (que as tira).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “beyom tov”
ביום טוב - אם ירדו בי"ט:

“No Yom Tov” — se caíram no Yom Tov.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “harei hen keraglei kol adam”
הרי הן כרגלי כל אדם - שלא היתה להן שביתה בין השמשות ולכל צד שעירב האדם יכול ליטלן:

“Eis que são como os pés de toda pessoa” — pois não tinham shevitá ao crepúsculo (do início da festa), e para qualquer lado para o qual a pessoa fez eruv pode levá-las.

Nota

Rav Yossef traz uma baraita, segundo a tradução de referência; não encontramos no Sefaria outra fonte com este texto, e por isso não indicamos lugar. As chuvas que caíram antes do Yom Tov não têm dono e adquirem shevitá no lugar onde estão ao começar a festa; as que caíram no próprio Yom Tov não adquiriram shevitá, e quem as toma pode levá-las aonde ele pode ir. “Como os pés de toda pessoa” traduz “כְּרַגְלֵי כׇּל אָדָם”.

1582Se adquirem, é Rabi Yochanan ben Nuri
A guemará
אִי אָמְרַתְּ בִּשְׁלָמָא קָסָבַר רַבִּי יוֹחָנָן בֶּן נוּרִי: ״חֶפְצֵי הֶפְקֵר קוֹנִין שְׁבִיתָה״, הָא מַנִּי — רַבִּי יוֹחָנָן הִיא.

Se dizes, está bem: Rabi Yochanan ben Nuri pensa que objetos sem dono adquirem shevitá; de quem é esta baraita? É de Rabi Yochanan ben Nuri.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ha mani”
הא מני - דקתני מערב י"ט יש להן אלפים ואינן כרגלי כל אדם אלמא חפצי הפקר קונין שביתה:

“De quem é esta” — que ensina que as chuvas caídas na véspera do Yom Tov têm duas mil amot, e não são como os pés de toda pessoa? Logo, objetos sem dono adquirem shevitá.

Nota

O hebraico põe entre aspas a frase “חֶפְצֵי הֶפְקֵר קוֹנִין שְׁבִיתָה”, como formulação da posição atribuída a Rabi Yochanan ben Nuri; na tradução a damos sem aspas, como oração dependente. Segundo o Rashi, a prova está em que as chuvas caídas antes da festa têm duas mil amot e não seguem quem as tira.

1583Se não adquirem, de quem é?
A guemará
אֶלָּא אִי אָמְרַתְּ: ״חֶפְצֵי הֶפְקֵר אֵין קוֹנִין שְׁבִיתָה״, הָא מַנִּי? לָא רַבִּי יוֹחָנָן וְלֹא רַבָּנַן!

Mas, se dizes que objetos sem dono não adquirem shevitá, de quem é esta baraita? Nem de Rabi Yochanan ben Nuri, nem dos Rabanan!

Nota

Os Rabanan da mishná são mais rigorosos que Rabi Yochanan ben Nuri e certamente não dão shevitá a objetos sem dono; se também ele não lha dá, a baraita não teria autor. Daí Rav Yossef conclui que, para Rabi Yochanan ben Nuri, objetos sem dono adquirem shevitá. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

Rav Safra e Abaye: a cisterna · בּוֹר שֶׁל יָחִיד

1584Rav Safra: as chuvas perto da cidade
A guemará
יְתֵיב אַבָּיֵי וְקָאָמַר לַהּ לְהָא שְׁמַעְתָּא. אֲמַר לֵיהּ רַב סָפְרָא לְאַבָּיֵי: וְדִילְמָא בִּגְשָׁמִים הַסְּמוּכִין לָעִיר עָסְקִינַן, וְאַנְשֵׁי אוֹתָהּ הָעִיר דַּעְתָּם עִילַּיְיהוּ!

Abaye estava sentado e dizia este ensinamento de Rav Yossef. Rav Safra disse a Abaye: E talvez tratemos de chuvas caídas perto da cidade, e os homens daquela cidade tinham a sua intenção nelas (de adquiri-las)!

Nota

Rav Safra propõe que as chuvas da baraita têm duas mil amot não por adquirirem shevitá sozinhas, mas porque os moradores da cidade próxima pensavam nelas e elas seguem os pés deles. “Tinham a sua intenção nelas” traduz “דַּעְתָּם עִילַּיְיהוּ”. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1585Abaye: a cisterna do indivíduo, da cidade e dos que sobem da Babilônia
A guemará
אֲמַר לֵיהּ: לָא סָלְקָא דַּעְתָּךְ, דִּתְנַן: בּוֹר שֶׁל יָחִיד — כְּרַגְלֵי יָחִיד, וְשֶׁל אוֹתָהּ הָעִיר — כְּרַגְלֵי אוֹתָהּ הָעִיר, וְשֶׁל עוֹלֵי בָּבֶל — כְּרַגְלֵי הַמְמַלֵּא.

Abaye lhe disse: Não te suba à mente, pois aprendemos numa mishná: A cisterna de um indivíduo é como os pés do indivíduo; e a daquela cidade, como os pés daquela cidade; e a dos que sobem da Babilônia, como os pés de quem enche (quem tira a água).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “la salka da’atach”
לא ס"ד - לאוקמי טעמא משום דעת אנשי העיר אלא טעמא משום דחפצי הפקר קונין שביתה:

“Não te suba à mente” — estabelecer a razão por causa da intenção dos homens da cidade; mas a razão é porque objetos sem dono adquirem shevitá.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ditnan”
דתנן - נמי בדוכתא אחריתי ומתני' קשיין אהדדי ועל כרחך חדא מינייהו תוקמא כרבי יוחנן בן נורי ותיפשוט דחפצי הפקר קונין שביתה:

“Pois aprendemos” — também em outro lugar, e a mishná e a baraita contradizem-se uma à outra; e forçosamente uma delas se estabelece segundo Rabi Yochanan ben Nuri, e resolve-se daí que objetos sem dono adquirem shevitá.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “keraglei oto yachid”
כרגלי אותו יחיד - בעל הבור ואם לקח מהם אדם אחר אין יכול להוליכן אלא למקום שזה יכול להוליכן ואם עירב הוא למזרח אין יכול זה להוליכן חוץ לעיר בצד מערב אפילו פסיעה אחת:

“Como os pés daquele indivíduo” — o dono da cisterna; e, se outra pessoa tomou delas (das águas), não pode levá-las senão ao lugar aonde este (o dono) pode levá-las; e, se ele fez eruv para o oriente, este (o outro) não pode levá-las para fora da cidade, do lado do ocidente, nem um passo.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “keraglei ota ha’ir”
כרגלי אותה העיר - אלפים לכל רוח ואם עירב זה למערב או למזרח אין יכול זה להוציאן חוץ לאלפים:

“Como os pés daquela cidade” — duas mil amot para cada lado; e, se este fez eruv para o ocidente ou para o oriente, este não pode tirá-las para fora das duas mil amot.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “veshel olei Bavel”
ושל עולי בבל - שבדרך שעולים מבבל לא"י והוא של הפקר:

“E a dos que sobem da Babilônia” — que está no caminho por onde sobem da Babilônia para a Terra de Israel, e é sem dono.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “keraglei hamemalé”
כרגלי הממלא - דכל מילי דהפקירא מאן דמגבה ליה קני ואפילו נתן לאחרים לאחר שמילאן לצורכו הרי הן כרגליו אלמא מידי דהפקירא אין קונין שביתה:

“Como os pés de quem enche” — pois todas as coisas sem dono, quem as levanta adquire; e, mesmo que as tenha dado a outros depois de enchê-las para a sua necessidade, eis que são como os seus pés. Logo, coisa sem dono não adquire shevitá.

Nota

O hebraico diz só “disse-lhe”; que é Abaye quem responde, ele mesmo o diz no bloco 1588 (“assim lhe respondi”). A mishná citada é a Mishná Beitzá 5:5 na numeração do Sefaria (conferida), que está em Beitzá 39a (conferido). Na mishná lê-se “כְּרַגְלֵי הַיָּחִיד”, “וְשֶׁל אַנְשֵׁי אוֹתָהּ הָעִיר, כְּרַגְלֵי אַנְשֵׁי אוֹתָהּ הָעִיר” e “בָבֶל”, onde aqui se lê “כְּרַגְלֵי יָחִיד”, “וְשֶׁל אוֹתָהּ הָעִיר — כְּרַגְלֵי אוֹתָהּ הָעִיר” e “בָּבֶל”; o lema do Rashi, “כרגלי אותו יחיד”, também difere. Segundo o Rashi, a água da cisterna dos que sobem da Babilônia é sem dono, e quem a tira a adquire; logo, coisa sem dono não adquire shevitá por si. No quarto comentário, “se este fez eruv” refere-se, ao que parece, a um dos moradores da cidade, que não pode levar a água além das duas mil amot da cidade.

1586A cisterna das tribos: contradizem-se
A guemará
וְתַנְיָא: בּוֹר שֶׁל שְׁבָטִים — יֵשׁ לָהֶן אַלְפַּיִם אַמָּה לְכׇל רוּחַ. קַשְׁיָין אַהֲדָדֵי!

E foi ensinado numa baraita: As águas da cisterna das tribos têm duas mil amot para cada lado. A mishná e a baraita contradizem-se uma à outra!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “vetanya idach: bor shel shevatim”
ותניא אידך בור של שבטים - דהיינו של עולי בבל יש להם אלפים לכל רוח אלמא קנו שביתה דאינן כרגלי כל אדם:

“E foi ensinado em outra baraita: a cisterna das tribos” — que é a dos que sobem da Babilônia; têm duas mil amot para cada lado. Logo, adquiriram shevitá, pois não são como os pés de toda pessoa (de quem as tira).

Nota

Seguimos o Rashi: a cisterna das tribos é a mesma cisterna pública dos que sobem da Babilônia; a tradução de referência a entende como a cisterna de uma das tribos, sem dono particular. Na Tosefta Beitzá 4:8, edição Lieberman no Sefaria (conferida), lê-se “בור של שני שבטים יש לו אלפים אמה לכל רוח”, “a cisterna de duas tribos tem duas mil amot para cada lado”. O lema do Rashi diz “ותניא אידך”, “e foi ensinado em outra”, onde a guemará diz só “וְתַנְיָא”.

1587Uma é de Rabi Yochanan ben Nuri, a outra dos Rabanan
A guemará
אֶלָּא לָאו, שְׁמַע מִינַּהּ: הָא — רַבִּי יוֹחָנָן בֶּן נוּרִי, הָא — רַבָּנַן.

Não é, pois, que se aprende daí: esta (a baraita) é de Rabi Yochanan ben Nuri, e aquela (a mishná), dos Rabanan?

Nota

Esta é a conclusão de Abaye: a contradição entre a mishná e a baraita só se resolve se a baraita for de Rabi Yochanan ben Nuri, para quem objetos sem dono adquirem shevitá, e a mishná dos Rabanan, para quem não adquirem; e assim, como diz o Rashi no bloco 1585, resolve-se a pergunta de Rava. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1588Rav Yossef: por que não da própria baraita?
A guemará
כִּי אֲתָא לְקַמֵּיהּ דְּרַב יוֹסֵף, אֲמַר לֵיהּ: הָכִי קָאָמַר רַב סָפְרָא, וְהָכִי אַהְדַּרִי לֵיהּ. אֲמַר לֵיהּ: וְאַמַּאי לָא תֵּימָא לֵיהּ מִגּוּפַהּ? אִי סָלְקָא דַעְתָּךְ גְּשָׁמִים הַסְּמוּכִין לָעִיר עָסְקִינַן — הַאי ״יֵשׁ לָהֶן אַלְפַּיִם אַמָּה לְכׇל רוּחַ״?!

Quando Abaye veio diante de Rav Yossef, disse-lhe: Assim disse Rav Safra, e assim lhe respondi. Rav Yossef lhe disse: E por que não lhe disseste a resposta a partir dela mesma (da própria baraita)? Se te sobe à mente que tratamos de chuvas caídas perto da cidade, esta expressão, “têm duas mil amot para cada lado”?!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ki ata”
כי אתא - אביי לקמיה דרב יוסף:

“Quando veio” — Abaye veio diante de Rav Yossef.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “yesh lahen”
יש להן - משמע דאינהו גופייהו קנו להו שביתה ולאו משום דעת אנשי העיר דאי משום דעת אנשי העיר הא לישנא בעי למימר הרי הן כרגלי אותה העיר דהיינו נמי אלפים לכל רוח:

“Têm” — dá a entender que elas mesmas adquiriram para si shevitá, e não por causa da intenção dos homens da cidade; pois, se fosse por causa da intenção dos homens da cidade, esta é a expressão que a baraita deveria dizer: eis que são como os pés daquela cidade, o que é também duas mil amot para cada lado.

Nota

Rav Yossef, autor da prova, mostra a Abaye que a resposta a Rav Safra estava na própria baraita: “têm duas mil amot” indica que as chuvas adquirem shevitá por si; se dependessem dos moradores, a baraita diria que são como os pés deles. A pergunta de Rav Yossef termina no bloco seguinte.

1589Deveria dizer: como os pés dos homens da cidade
A guemará
הָא ״כְּרַגְלֵי אַנְשֵׁי אוֹתָהּ הָעִיר״ מִיבַּעְיָא לֵיהּ!

Eis que a baraita deveria dizer: “como os pés dos homens daquela cidade”!

Nota

Fim da resposta de Rav Yossef. A expressão “como os pés dos homens daquela cidade” é a que a mishná de Beitzá usa para a cisterna da cidade (bloco 1585). O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

As chuvas, o oceano e as nuvens · אוֹקְיָינוֹס

1590Que adquiram shevitá no oceano
A guemará
אָמַר מָר: בְּיוֹם טוֹב — הֲרֵי הֵן כְּרַגְלֵי כׇּל אָדָם. וְאַמַּאי? לִיקְנֵי שְׁבִיתָה בְּאוֹקְיָינוֹס.

Disse o mestre na baraita: “No Yom Tov, eis que são como os pés de toda pessoa.” E por quê? Que adquiram as águas shevitá no okyanos (o oceano, de onde vem a água das chuvas)!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “likenu shevitá be’okyanos”
ליקנו שביתה באוקיינוס - ששבתו שם אמש והיום שאבו העבים והרי יצאו חוץ לתחום ואין להם אלא ארבע אמות:

“Que adquiram shevitá no oceano” — onde repousaram na véspera (ao entrar a festa), e hoje as nuvens as sugaram, e eis que saíram para fora do techum, e não têm senão quatro amot.

Nota

“Disse o mestre” introduz a citação da baraita trazida por Rav Yossef (bloco 1581). “Okyanos” translitera “אוֹקְיָינוֹס”, o oceano. Segundo o Rashi, a água estava no oceano ao começar a festa e ali adquiriu shevitá; tirada dali pelas nuvens, saiu do seu techum, e deveria ter só quatro amot. O lema do Rashi diz “ליקנו”, no plural, onde a guemará diz “לִיקְנֵי”.

1591Rabi Eliezer: o mundo bebe das águas do oceano
A guemará
לֵימָא דְּלָא כְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר, דְּאִי כְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר — הָא אָמַר: כָּל הָעוֹלָם כּוּלּוֹ מִמֵּי אוֹקְיָינוֹס הוּא שׁוֹתֶה!

Digamos que a baraita não é segundo Rabi Eliezer; pois, se fosse segundo Rabi Eliezer, eis que ele disse: Todo o mundo inteiro bebe das águas do oceano!

Nota

A palavra de Rabi Eliezer está numa baraita em Taanit 9b (conferido): “כׇּל הָעוֹלָם כּוּלּוֹ מִמֵּימֵי אוֹקְיָינוֹס הוּא שׁוֹתֶה”, com o versículo “e um vapor subia da terra” e a resposta de que as águas se adoçam nas nuvens. Aqui lê-se “מִמֵּי”, onde ali se lê “מִמֵּימֵי”. Segundo Rabi Eliezer, a chuva vem do oceano, e então deveria ter adquirido shevitá ali. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1592Rabi Yitzchak: nuvens formadas na véspera
A guemará
אָמַר רַבִּי יִצְחָק: הָכָא בְּעָבִים שֶׁנִּתְקַשְּׁרוּ מֵעֶרֶב יוֹם טוֹב עָסְקִינַן.

Rabi Yitzchak disse: Aqui na baraita tratamos de nuvens que se formaram na véspera do Yom Tov (e a água já não estava no oceano).

Nota

“Que se formaram” traduz “שֶׁנִּתְקַשְּׁרוּ”, literalmente “que se ataram”. Rabi Yitzchak responde que a baraita pode seguir também Rabi Eliezer: se as nuvens já estavam formadas antes da festa, a água não adquiriu shevitá no oceano. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1593E talvez sejam outras nuvens?
A guemará
וְדִילְמָא הָנָךְ אָזְלִי, וְהָנָךְ אַחֲרִינֵי נִינְהוּ? דְּאִית לְהוּ סִימָנָא בְּגַוַּיְיהוּ.

E talvez aquelas tenham ido embora, e estas sejam outras? Trata-se de quando há nelas um sinal (de que são as mesmas).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “dilma hanach”
דילמא הנך - שראה אמש קשורות אזדו לעלמא:

“Talvez aquelas” — que viu formadas na véspera tenham ido pelo mundo (para longe).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “vehanei acharinei ninhu”
והני אחריני נינהו - ונתקשרו היום וקנו אמש שביתה באוקיינוס וליתסרו:

“E estas sejam outras” — e se formaram hoje, e adquiriram shevitá na véspera no oceano; e que sejam proibidas (além de quatro amot)!

Nota

A resposta, “דְּאִית לְהוּ סִימָנָא בְּגַוַּיְיהוּ”, significa que há nas nuvens um sinal pelo qual se reconhece que são as mesmas da véspera. “Ido pelo mundo” traduz o aramaico “אזדו לעלמא”, isto é, foram-se embora.

1594Ou: dúvida rabínica, para a leniência
A guemará
וְאִיבָּעֵית אֵימָא: הָוֵי סָפֵק דְּדִבְרֵיהֶם, וְסָפֵק דְּדִבְרֵיהֶם לְהָקֵל.

E, se quiseres, dize: é uma dúvida das palavras deles (de lei rabínica), e a dúvida das palavras deles decide-se para a leniência.

Nota

“Das palavras deles” traduz “דְּדִבְרֵיהֶם”, isto é, de lei rabínica: a proibição em causa, segundo a tradução de referência, é de origem rabínica, e por isso, na dúvida se são as mesmas nuvens, segue-se a opinião leniente. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1595Que adquiram shevitá nas nuvens: não há techumin acima de dez?
A guemará
וְלִיקְנִי שְׁבִיתָה בְּעָבִים! תִּיפְשׁוֹט מִינַּהּ, דְּאֵין תְּחוּמִין לְמַעְלָה מֵעֲשָׂרָה. דְּאִי יֵשׁ תְּחוּמִין לִיקְנֵי שְׁבִיתָה בְּעָבִים!

E que adquiram as águas shevitá nas nuvens (onde estavam ao entrar a festa)! Resolve daí que não há techumin acima de dez palmos; pois, se há techumin, que adquiram shevitá nas nuvens!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “velifshot”
וליפשוט - מדקתני במים שקנו שביתה אמש בעבים וירדו היום דמותר להוליכן כרגלי כל אדם אלמא אין איסור תחומין למעלה מעשרה:

“E que se resolva” — já que ensina, a respeito das águas que adquiriram shevitá na véspera nas nuvens e caíram hoje, que é permitido levá-las como os pés de toda pessoa; logo, não há proibição de techumin acima de dez palmos.

Nota

A dúvida sobre techumin acima de dez palmos é a pergunta de Rav Chananya em Eruvin 43a (conferido): “יֵשׁ תְּחוּמִין לְמַעְלָה מֵעֲשָׂרָה, אוֹ אֵין תְּחוּמִין לְמַעְלָה מֵעֲשָׂרָה?”. As nuvens estão acima de dez palmos; se ali houvesse techumin, a água teria adquirido shevitá nelas e não seria como os pés de toda pessoa. O lema do Rashi diz “וליפשוט”, onde a guemará diz “תִּיפְשׁוֹט”.

1596A água na nuvem está absorvida
A guemará
לְעוֹלָם אֵימָא לָךְ: יֵשׁ תְּחוּמִין, וּמַיָּא בְּעֵיבָא מִיבְלָע בְּלִיעִי.

Na verdade, digo-te: há techumin acima de dez palmos, e a água na nuvem está absorvida (e não adquire shevitá ali).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “mivla beli’i”
מיבלע בליעי - וכמאן דליתנהו דמו ולא קנו להו שביתה אמש:

“Está absorvida” — e as águas são como se não existissem, e não adquiriram para si shevitá na véspera (nas nuvens).

Nota

Seguimos o Rashi: a água absorvida na nuvem é como se não existisse, e por isso não adquiriu shevitá ali; a tradução de referência explica que a água na nuvem tem outra forma. Assim a guemará não resolve a dúvida sobre techumin acima de dez palmos.

O daf termina aqui, no meio da discussão sobre a palavra de Rabi Yochanan ben Nuri: depois do fim da mishná de quem dormiu no caminho, com os três pátios de Rabi Shimon, a guemará traz a pergunta de Rava sobre os objetos sem dono, a prova de Rav Yossef das chuvas da véspera do Yom Tov, a objeção de Rav Safra e a resposta de Abaye com a cisterna, e a discussão sobre o oceano, as nuvens e os techumin acima de dez palmos. A guemará prossegue em Eruvin 46a.