Completa a pergunta de Rav Nachman bar Yitzchak a Rava, iniciada no fim de 43b, sobre qual era a dúvida de Rav Chisda quando Nechemya, filho de Rav Chanilai, saiu do techum: se as pessoas enchiam todo o espaço até o techum, a dúvida seria a de Rabban Gamliel, que Rav já decidira; portanto as pessoas não o enchiam, e a dúvida era se a halachá é como Rabi Eliezer, que permite voltar a quem saiu duas amot, e por isso Rav Nachman disse “e ele entrará”. Rav Nachman bar Yitzchak objeta então a Rava com a baraita da parede da sucá que caiu no Yom Tov, em cujo lugar não se coloca pessoa, animal ou utensílios, e Rava responde com outra baraita, que permite fazer do companheiro uma parede. A guemará tenta atribuir as baraitot a Rabi Eliezer e aos Rabanan, depois a Rabi Meir e a Rabi Yehuda, e conclui que ambas são dos Rabanan: a que proíbe trata da terceira parede, que faz a tenda, e a que permite, da quarta.
Continuação da frase: …ou não é a halachá como Rabban Gamliel? Ou talvez tratamos de um caso em que as pessoas não enchiam o espaço até o techum, e o que ele perguntava era: A halachá é como Rabi Eliezer, ou não é a halachá como Rabi Eliezer?
“E ele perguntava: A halachá é como Rabi Eliezer” — que disse na mishná: Quem saiu para fora do techum duas amot entrará.
A frase começa no fim de Eruvin 43b (bloco 1516) e se lê inteira assim: “Se dizes que tratamos de um caso em que as pessoas enchiam o espaço até o techum, e o que ele perguntava era: A halachá é como Rabban Gamliel, ou não é a halachá como Rabban Gamliel? Ou talvez tratamos de um caso em que as pessoas não enchiam o espaço, e ele perguntava: A halachá é como Rabi Eliezer, ou não é?” Segundo o Rashi em 43b, no segundo caso as pessoas só chegavam até duas amot junto ao techum, e Nechemya teria de andar sozinho as duas últimas amot. A palavra de Rabi Eliezer está na Mishná Eruvin 4:11, em Eruvin 52b: “Quem saiu para fora do techum, mesmo uma amá, não entrará. Rabi Eliezer diz: Duas, entrará; três, não entrará” (conferido). O Rashi resume a mishná e não cita a última parte. Aqui a guemará diz “הֲלָכָה”, onde em 43b dissera “הִלְכְתָא”.
Responde-se: É evidente que tratamos de um caso em que as pessoas não enchiam o espaço; pois, se te passasse pela mente que tratamos de um caso em que as pessoas enchiam o espaço, que dúvida ele teria? Pois Rav disse: A halachá é como Rabban Gamliel no dir (curral), no sahar (estábulo) e no navio! Mas certamente tratamos de um caso em que as pessoas não enchiam o espaço, e era sobre a palavra de Rabi Eliezer que ele perguntava.
A palavra de Rav está em Eruvin 42b (bloco 1473): “Disse Rav: a halachá é como Rabban Gamliel no dir, no sahar e no navio” (conferido); lá a guemará diz “הִלְכְתָא”, aqui “הֲלָכָה”. Se as pessoas enchiam o espaço até o techum, a dúvida seria só se valem as divisórias em que ele não estava antes do anoitecer, como Rabban Gamliel ensina na Mishná sobre o dir e o sahar (Eruvin 41b, bloco 1420); e isso Rav já tinha decidido. O hebraico não diz quem responde; a tradução de referência atribui a resposta à guemará. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
A guemará comenta: Também é exato, pois ele lhe disse: “E ele entrará.” Que quer dizer “ele entrará”? Não quer dizer que entrará sem divisória?!
“Também é exato” — que era um caso em que as pessoas não enchiam o espaço.
“Pois lhe disse” — Rav Nachman: “Faze-lhe uma divisória de pessoas, e ele entrará.” Para que precisa dizer “ele entrará”? Mas assim diz: faça a divisória até as duas amot, e depois ele entrará por si mesmo, sem divisória.
Segundo o Rashi, se as pessoas enchessem todo o espaço até o techum, bastaria dizer “faze-lhe uma divisória”; a palavra “e ele entrará”, de Rav Nachman (Eruvin 43b, bloco 1514), mostra que restava um trecho que Nechemya andaria sozinho, as duas amot de Rabi Eliezer. O Rashi escreve “יעשה המחיצה השתים”, literalmente “faça a divisória as duas”; lemos “até as duas amot”, como pede o contexto, mas a leitura é incerta. O lema do Rashi diz “דאמר ליה”, onde a guemará diz “דְּקָאֲמַר לֵיהּ”.
Rav Nachman bar Yitzchak objetou a Rava a partir de uma baraita (ensinamento dos tanaítas não incluído na Mishná): “Se a sua parede, da sucá, caiu, não se coloque nela uma pessoa, um animal ou utensílios; e não se erga a cama para estender sobre ela um lençol; pois não se faz um ohel arai (tenda provisória) de início no Yom Tov (dia de festa), e não é preciso dizer no Shabat.”
“Se a sua parede caiu” — da sucá.
“E não se erga a cama” — que ele tem na sucá, diante da brecha; e, embora não pareça construção, pois parece que pretende desocupar para si o espaço da sucá, mesmo assim é proibido. E isto é difícil para aqueles que permitem fazer uma divisória de pessoas no Shabat.
Segundo o Rashi, a baraita contradiz a divisória de pessoas que Rav Nachman mandou fazer para Nechemya (Eruvin 43b, bloco 1514): se não se pode pôr uma pessoa no lugar da parede caída da sucá, também não se poderia fazer de pessoas uma divisória no Shabat. O hebraico não diz qual palavra de Rava é contestada; segundo a tradução de referência, é a permissão da divisória de pessoas no Shabat. “De início” traduz “בַּתְּחִילָּה”, isto é, fazer a tenda onde ainda não há nenhuma; a razão da baraita tem as mesmas palavras da regra de Rabba bar bar Chana no bloco 1523.
Rava lhe disse: Tu me dizes que é proibido a partir desta baraita, e eu te digo que é permitido a partir desta: “Uma pessoa faz do seu companheiro uma parede, para que coma, beba e durma na sucá; e ergue a cama e estende sobre ela um lençol, para que o sol não caia sobre o morto nem sobre os alimentos.”
“Para que coma, beba e durma” — o essencial da sua mitzvá (preceito), da sucá, se cumpre nestas três coisas.
“E ergue a cama” etc. — logo, é permitido; e objetamos: elas se contradizem uma à outra.
Segundo o Rashi, “comer, beber e dormir” é o essencial da mitzvá da sucá, e por isso esta baraita permite fazer a parede para tornar a sucá utilizável; e permite também erguer a cama, o que a primeira baraita proibia. Esta baraita está na Tosefta Sucá 1:5, que logo depois traz a regra de que os sábios concordam com Rabi Eliezer que não se fazem tendas de início no Yom Tov, e só divergem quanto a acrescentar (conferido). A Tosefta diz “על האוכלים”, que pode ser lido “sobre os que comem”, onde a guemará diz “וְעַל הָאוֹכָלִין”, “sobre os alimentos”. O hebraico diz só “disse-lhe”; quem responde é Rava, a quem a objeção foi feita.
A guemará pergunta: As baraitot se contradizem uma à outra! Responde: Não é difícil: esta é de Rabi Eliezer, esta é dos Rabanan; pois aprendemos na Mishná: “O pekak (tampa) da janela: Rabi Eliezer diz: Quando está amarrado e pendurado, tampa-se com ele; e, se não, não se tampa com ele. E os sábios dizem: Tanto assim como assim, tampa-se com ele.”
“E, se não, não se tampa com ele” — pois se assemelha a quem constrói, que acrescenta ao fechamento da casa; e embora seja provisório, pois voltará a abri-la.
A mishná é a Mishná Shabat 17:7, em Shabat 125b, na mesma redação (conferido). Segundo a tradução de referência, a baraita que proíbe é de Rabi Eliezer, e a que permite é dos Rabanan, que permitem tampar a janela no Shabat mesmo com uma tampa que não está presa a ela. Segundo o Rashi, Rabi Eliezer proíbe a tampa solta porque fechar a abertura da casa se assemelha a construir, mesmo sendo coisa provisória.
A guemará objeta: Mas eis que foi dito sobre ela, sobre esta mishná: Disse Rabba bar bar Chana, disse Rabi Yochanan: Todos concordam, Rabi Eliezer e os sábios, que não se faz ohel arai de início no Yom Tov, e não é preciso dizer que não se faz no Shabat. Só divergiram quanto a acrescentar a uma tenda que já existe: pois Rabi Eliezer diz: Não se acrescenta no Yom Tov, e não é preciso dizer que não se acrescenta no Shabat; e os sábios dizem: Acrescenta-se à tenda no Shabat, e não é preciso dizer que se acrescenta no Yom Tov.
“Mas eis que foi dito sobre ela” — que mesmo os Rabanan só permitiram acrescentar, como a tampa da janela, que é mero acréscimo; e a baraita permite fazer uma parede de início.
A palavra de Rabba bar bar Chana em nome de Rabi Yochanan está também em Shabat 125b, sobre a mishná da tampa da janela, e em Shabat 137b, na mesma redação (conferido); e a Tosefta Sucá 1:5 traz a mesma regra como concordância dos sábios com Rabi Eliezer. Segundo o Rashi, a tampa da janela é só acréscimo a uma casa já fechada, mas a baraita que permite fala de fazer a parede de início; por isso a divergência entre Rabi Eliezer e os Rabanan não explica a contradição. A guemará não conclui a objeção em palavras; o que ela implica é que ninguém permite fazer uma parede de início.
A guemará responde de outro modo: Antes, não é difícil: esta é como Rabi Meir, esta é como Rabi Yehuda; pois foi ensinado numa baraita: “Se fez do animal uma parede para a sucá, Rabi Meir a invalida, e Rabi Yehuda a valida.”
“Rabi Meir invalida” — explica-se no tratado Sucá (folha 21a): por receio de que fuja.
A baraita está em Sucá 23a, e é citada de novo em Sucá 24a (conferido). Lá Rabi Meir diz que de nada que tenha espírito de vida se faz parede para a sucá; Abaye explica a sua razão “por receio de que morra”, e Rabi Zeira “por receio de que fuja”. O Rashi aqui segue a explicação de Rabi Zeira; a referência impressa no Rashi, folha 21a, não corresponde ao lugar da discussão, que está em Sucá 23a. Segundo a tradução de referência, a baraita que permite é como Rabi Meir, e a que proíbe é como Rabi Yehuda, como explicam os blocos seguintes.
Rabi Meir, que invalida ali, na sucá: vê-se, portanto, que não é uma divisória; aqui, no Shabat, ele permite, pois não está fazendo coisa alguma.
“Pois não está fazendo coisa alguma” — pois, uma vez que não conserta a sucá, embora faça uma tenda, é permitido, pois ele pensa que se faz ohel arai; e, já que não conserta a sucá, não é senão ohel arai, e é permitido. E ainda há muito a objetar contra isto, pois ensina “para que coma, beba e durma”: logo, vem para consertá-la como sucá. Eis que objetamos contra isto muitas objeções, até que o tiramos desta razão.
Seguimos o Rashi: para Rabi Meir, a pessoa ou o animal posto no lugar da parede não conserta a sucá, e por isso é só uma tenda provisória, que ele permite fazer. A tradução de referência explica que, para Rabi Meir, isto nem conta como construção. O Rashi já adianta que a explicação não se sustenta, pois a própria baraita diz que a parede é feita “para que coma, beba e durma”, isto é, para tornar a sucá válida; a guemará a rejeita nos blocos 1527 a 1529.
E Rabi Yehuda, que valida ali, na sucá: vê-se, portanto, que é uma divisória; aqui, no Shabat, ele proíbe.
Para Rabi Yehuda, a pessoa ou o animal posto no lugar da parede é uma divisória de verdade, que torna a sucá válida; por isso, colocá-los no Shabat ou no Yom Tov é fazer uma divisória, e a baraita do bloco 1520 seria a dele. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
A guemará objeta: E tu entendes isso? Dize que ouviste de Rabi Meir que invalida o animal; mas sobre pessoa e utensílios, acaso o ouviste?
“Dize que ouviste de Rabi Meir” — que invalida.
“Animal” — por receio de que fuja.
“Pessoa” — que tem discernimento para ficar de pé, ou utensílios, que não se movem do seu lugar: acaso o ouviste dele? E este tanna, é de pessoa e utensílios que ensina: “Uma pessoa faz do seu companheiro uma parede” e “ergue a cama”.
Segundo o Rashi, Rabi Meir invalida o animal só por receio de que fuja; uma pessoa, que sabe ficar parada, e os utensílios, que não se movem, seriam para ele paredes válidas. Ora, a baraita que permite fala justamente de uma pessoa e de uma cama; então ela não pode ser explicada como Rabi Meir. O lema do Rashi diz “אימור”, onde a guemará diz “אֵימַר”. “E tu entendes isso?” traduz “וְתִיסְבְּרָא”.
E mais: Rabi Meir, segundo quem fala? Se é segundo Rabi Eliezer, também acrescentar uma tenda ele proíbe!
“E mais” — admitamos que não a conserta para a sucá.
“Rabi Meir” — segundo quem estabeleces esta baraita, que permite; e isto porque não é conserto de divisória e de tenda, pois não é o que torna a divisória válida.
“Segundo quem” — Rabi Meir permite? Ele não falou nem como Rabi Eliezer, seu mestre, nem como os Rabanan; pois a tampa da janela não envolve a mitzvá da sucá, e mesmo assim os Rabanan só permitiram acrescentar.
Seguimos o Rashi: mesmo admitindo que, para Rabi Meir, a parede viva não conserta a sucá, ainda assim fazê-la é fazer uma tenda provisória de início; e isso nem Rabi Eliezer permite, que proíbe até acrescentar, nem os Rabanan, que permitiram só acrescentar, como na tampa da janela, onde não há questão de mitzvá. A tradução de referência introduz o “e mais” de outro modo: mesmo sem a distinção do bloco anterior, e admitindo que o receio de que o animal fuja é pertinente. Que Rabi Eliezer era mestre de Rabi Meir é palavra do Rashi.
Mas se é segundo os Rabanan, dize que os Rabanan disseram que se pode acrescentar; de início, acaso foi dito?
A regra de Rabba bar bar Chana em nome de Rabi Yochanan (bloco 1523) vale também aqui: segundo todos, não se faz uma tenda provisória de início no Yom Tov e no Shabat. Com isso cai a explicação de que as duas baraitot seguem Rabi Meir e Rabi Yehuda. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
A guemará responde: Antes, esta e esta são dos Rabanan; e utensílios contra utensílios não é difícil: esta, que proíbe, trata da terceira parede; esta, que permite, da quarta parede.
“Antes, esta e esta são dos Rabanan” — também esta que ensina: “Se a sua parede caiu, não se coloque nela” etc.
“Na terceira parede” — pois com duas paredes não se chama tenda, e, quando faz nela a terceira parede, torna-a tenda; e os Rabanan concordam que não se faz ohel arai de início. E esta que ensina que é permitido trata da quarta parede, pois sem ela já é tenda, e isto é mero acréscimo; e os Rabanan seguem a sua razão, pois dizem que se acrescenta a uma tenda no Shabat.
Segundo o Rashi, com duas paredes ainda não há tenda, e a terceira a completa; fazê-la no Yom Tov ou no Shabat é fazer uma tenda de início, o que os Rabanan também proíbem. A quarta parede só acrescenta a uma tenda já existente, e isso os Rabanan permitem, como na tampa da janela. A tradução de referência explica a quarta parede como coisa sem importância, pois a sucá não precisa de quatro paredes. A guemará menciona só a contradição entre os utensílios das duas baraitot, a cama que se proíbe erguer e a cama que se ergue; o Rashi não diz por que não menciona a pessoa, e a leitura exata do porquê é incerta.
A guemará comenta: Também é exato, pois ensina: “Caiu a sua parede.” Conclui-se disto.
“Pois ensina: Caiu a sua parede” — o que dá a entender uma parede pela qual ela se torna permitida; e a quarta não é conserto da sucá, pois aprendemos (Sucá, folha 2a): “E a que não tem três paredes é inválida”; logo, com três é válida.
Segundo o Rashi, “a sua parede” indica a parede que torna a sucá utilizável, isto é, a terceira; a quarta não conserta a sucá. A mishná citada é a Mishná Sucá 1:1, em Sucá 2a: “e a que não tem três paredes… é inválida” (conferido). “Pela qual ela se torna permitida” traduz “שהיא מותרת בה”, literalmente “que ela é permitida por ela”.