Completa a resposta do fim de 42b: para Rabi Zeira, as divisórias do navio são feitas para afastar a água, e não fazem dele um lugar de moradia. Rabba não precisa da razão de Rabi Zeira, porque no navio que anda todos concordam; a disputa da mishná é sobre o navio parado. Rav Nachman bar Yitzchak prova isso das palavras “quiseram ser rigorosos”, e Rav Ashi, da comparação do navio com o dir e o sahar; Rav Acha, filho de Rava, objeta que, se Rav e Shmuel decidiram a halachá, os tannaim discordam, e a resposta traz a baraita de Chananya, filho do irmão de Rabi Yehoshua, sobre a decisão tomada no navio. Rav Chananya pergunta se há techumin acima de dez palmos: a guemará define o caso, a coluna estreita, os saltos e o navio, e tenta resolvê-lo com os dois episódios da mishná, os sete ensinamentos levados de Sura a Pumbedita no mesmo Shabat e o voto de nazir no dia em que vier o filho de David, que continua em 43b.
Continuação da resposta: “Ele te diria: As divisórias do navio…” são feitas para afastar a água, e não para morar entre elas.
“São feitas para afastar a água” — e não contam como divisórias para fazer o navio inteiro como quatro amot.
A frase começa no fim de Eruvin 42b (bloco 1478), com a pergunta “E Rabi Zeira, por que razão não disse como Rabba?”, e se lê inteira assim: “Ele te diria: As divisórias do navio são feitas para afastar a água.” Segundo o Rashi, por isso elas não fazem do navio inteiro como quatro amot, e a razão de Rabba, “porque repousou no espaço das divisórias” (bloco 1475), não vale para Rabi Zeira; ele explica o navio pela sua própria razão, a de que o navio o tira das suas quatro amot e o põe em outras, segundo a explicação que o Rashi declara principal (bloco 1476). O hebraico diz, na ordem das palavras, “para afastar a água são feitas”.
A guemará pergunta: E Rabba, por que razão não disse como Rabi Zeira? A guemará responde: No navio que anda, todos concordam que é permitido andar por todo ele; quando discordam, é quando parou.
“Ele te diria: no que anda” — onde se pode dizer esta razão, de que o navio o toma, até Rabi Akiva concorda que é permitido.
“Quando discordam, é quando parou” — e, na hora em que parou, adquiriram para si as suas quatro amot (e, segundo as últimas versões, discordaram sobre a hora em que parou); e, mesmo assim, Rabban Gamliel permite, por causa do espaço das divisórias.
Segundo o Rashi, a razão de Rabi Zeira, a de que o navio o toma e o tira das suas quatro amot, só existe enquanto o navio anda, e nisso até Rabi Akiva concorda; por isso Rabba não precisa dela. A disputa da mishná é sobre o navio parado, em que já adquiriram as suas quatro amot, e ali Rabban Gamliel permite por causa das divisórias, que é a razão de Rabba. O parêntese “segundo as últimas versões” parece remeter às explicações seguintes do Rashi sobre Rabi Zeira (Eruvin 42b, bloco 1476); a leitura é incerta. O lema do Rashi começa com “אמר לך”, “ele te diria”, que não está no texto da guemará deste segmento no Sefaria.
Disse Rav Nachman bar Yitzchak: Também a mishná é precisa em ensinar que, no navio que anda, não discordam. De onde se tira? Do que ensina: “Aconteceu que estes sábios vinham de Plandarsin (nome de um lugar além do mar), e o seu navio se afastou da costa para o mar no Shabat. Rabban Gamliel e Rabi Elazar ben Azarya andaram por todo ele; e Rabi Yehoshua e Rabi Akiva não se moveram das suas quatro amot (côvados), pois quiseram ser rigorosos consigo mesmos.”
A citação é da Mishná Eruvin 4:1, em Eruvin 41b (bloco 1421), cuja redação mantivemos; ali o texto diz “רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ”, onde aqui está “וְרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ”. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
Está bem, se dizes que no navio que anda não discordam: é por isso que ensina “quiseram” ser rigorosos, pois temiam que talvez parasse.
“É por isso que ensina: quiseram ser rigorosos” — que dá a entender que é permitido até para Rabi Akiva; logo, quando proíbem, não proíbem no que anda; segundo todos é permitido, e eles é que foram rigorosos consigo mesmos, pois talvez parasse de repente sem que se dessem conta.
Segundo o Rashi, “quiseram ser rigorosos” mostra que no navio que anda nem Rabi Yehoshua nem Rabi Akiva proíbem; o rigor deles era um receio de que o navio parasse de repente sem que percebessem, e então teriam adquirido quatro amot. O lema do Rashi acrescenta “להחמיר”, “ser rigorosos”, que não está no texto da guemará deste segmento.
Mas, se dizes que discordam no que anda, este “quiseram ser rigorosos” não cabe, pois é uma proibição!
“Mas, se dizes” — que, quando parou, segundo todos é proibido, pois as divisórias não contam, e é no que anda que discordam: que quer dizer “quiseram”? Pois para Rabi Akiva e Rabi Yehoshua, tanto no que anda como no que parou, é uma proibição.
Aqui seguimos o Rashi: a hipótese rejeitada é a de que no navio parado todos proíbem, porque as divisórias não contam, e de que a disputa é no navio que anda; então, para Rabi Yehoshua e Rabi Akiva, andar pelo navio seria proibido em qualquer caso, e a mishná não diria que “quiseram” ser rigorosos. A tradução de referência entende “que discordam também no navio que anda”.
Disse Rav Ashi: Também a mishná é precisa nisso, pois ensina o navio à semelhança do dir (curral) e do sahar (estábulo): assim como o dir e o sahar são fixos, também o navio de que fala é fixo.
“Também é precisa” — que discordam quando parou.
Segundo o Rashi, Rav Ashi prova da própria mishná que a disputa é sobre o navio parado: a mishná põe o navio junto da cidade, do dir e do sahar (Eruvin 41b, blocos 1420 e 1421), que são lugares fixos. O lema do Rashi diz “דיקא נמי”, onde a guemará diz “מַתְנִיתִין נָמֵי דַּיְקָא”.
Disse-lhe Rav Acha, filho de Rava, a Rav Ashi: Rav e Shmuel disseram: “A halachá (a lei estabelecida) é como Rabban Gamliel no navio”; se fixaram a halachá, conclui-se por inferência que discordam!
“Por inferência, que discordam” — sobre o navio? É em tom de espanto: mas ensina “quiseram”! E de onde Rav e Shmuel tiram que discordam sobre o navio?
A palavra de Rav e de Shmuel está em Eruvin 42b (bloco 1473): segundo os dois, a halachá é como Rabban Gamliel no navio. Segundo o Rashi, a pergunta é feita em tom de espanto: se a mishná diz que Rabi Yehoshua e Rabi Akiva só “quiseram” ser rigorosos, não haveria disputa sobre o navio, e não seria preciso decidir a halachá.
A resposta é: Sim, discordam no navio parado. E foi ensinado numa baraita: Chananya, filho do irmão de Rabi Yehoshua, diz: Todo aquele dia em que estiveram no navio sentaram-se e discutiram a questão da halachá; ao anoitecer, o irmão do meu pai, Rabi Yehoshua, decidiu: A halachá é como Rabban Gamliel no navio, e a halachá é como Rabi Akiva no dir e no sahar.
“Sim, e foi ensinado” — em tom afirmativo: e discordam quando parou; e isto que ensina “quiseram” é sobre o que anda.
Rabi Chananya, filho do irmão de Rabi Yehoshua.
(“A halachá é como Rabban Gamliel no navio” — como o seu navio, que andava, pois não tememos “talvez tenha parado”; mas, de fato, mesmo quando parou Rabban Gamliel discorda, à semelhança do dir e do sahar, e a halachá não é como ele senão no que anda; mas o que parou, que é como o dir e o sahar, a halachá é como Rabi Akiva.)
“Todo aquele dia” — em que estavam no navio.
“O irmão do meu pai” — Rabi Yehoshua.
“Emesh” — ao anoitecer.
Segundo o Rashi, Rav Ashi responde em tom afirmativo: de fato discordam, mas no navio parado; e “quiseram ser rigorosos” diz respeito ao navio que anda. A decisão de Rabi Yehoshua, segundo o comentário que o Sefaria traz entre parênteses, é como Rabban Gamliel no navio que anda, como era o deles, e como Rabi Akiva no navio parado, que é como o dir e o sahar. No texto do Sefaria, as palavras “(בֶּן אֲחִי רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ)”, “filho do irmão de Rabi Yehoshua”, estão entre parênteses, marca de leitura a suprimir; mantivemos o hebraico como está e, como em Eruvin 41a (bloco 1408), a tradução segue a tradução de referência, que as inclui. O Rashi as lê no seu lema, “רבי חנניא בן אחי רבי יהושע”, com o título “Rabi”; e o próprio Chananya chama Rabi Yehoshua de “o irmão do meu pai”. Chananya, filho do irmão de Rabi Yehoshua, aparece com este nome em Arakhin 11a e em Niddah 36b (conferido). “Ao anoitecer” traduz “אֶמֶשׁ”, segundo o Rashi, “לערב”; a palavra costuma significar “ontem à noite”.
Rav Chananya perguntou: Há techumin (os limites de duas mil amot que se pode andar no Shabat) acima de dez palmos do chão, ou não há techumin acima de dez palmos?
“Há techumin” — há a proibição dos techumin acima de dez, como vai explicando.
A dúvida é se a proibição de sair do techum vale também para quem se desloca a mais de dez palmos acima do chão. A guemará vai explicar em que caso se pergunta.
Numa coluna de dez palmos de altura e quatro de largura, não te perguntes, pois é como terra firme.
“Numa coluna de dez de altura e quatro de largura” — e uma das suas extremidades entra dentro do techum: não te perguntes, pois a proibição dos techumin vale nela, e não subirá na extremidade que está dentro do techum para sair para a outra extremidade; pois é apta para andar, e é um andar de verdade.
Segundo o Rashi, trata-se de uma coluna comprida, com uma das extremidades dentro do techum e a outra fora; por ter quatro palmos de largura, é boa para andar, e quem anda sobre ela anda de fato, como na terra; por isso não se pode ir por cima dela até a extremidade de fora. “Terra firme” traduz “אַרְעָא סְמִיכְתָּא”, literalmente “terra espessa”. O lema do Rashi diz “בעמוד”, “numa coluna”, onde a guemará diz “עַמּוּד”.
Quando hás de perguntar, é numa coluna de dez palmos de altura que não tem quatro de largura; ou também, quando vai por meio de saltos no ar, acima de dez palmos.
“E não tem quatro de largura” — cujo uso não é cômodo.
“Por meio de saltos” — se tem o nome de andar ou não. Um navio comum anda acima de dez e não pousa, e se parece com o salto no ar; e, mesmo assim, é proibido.
Segundo o Rashi, a coluna sem quatro palmos de largura não serve bem para andar, e por isso se pergunta se ali vale o techum; e quem salta pergunta-se se o salto tem o nome de andar. O Rashi já liga o salto ao navio, que anda acima de dez palmos sem pousar, como na outra versão da pergunta (bloco 1490). As palavras “בשם מי הוי הילוך”, traduzidas “se tem o nome de andar”, e a conclusão “ואפ"ה אסור”, “e, mesmo assim, é proibido”, são de leitura incerta; parecem antecipar a prova de Rav Hoshaya (bloco 1491). O lema do Rashi diz “ואין רחב ד'”, onde a guemará diz “וְאֵינוֹ רָחָב אַרְבָּעָה”.
Outra versão: num navio, que se diz?
Nesta versão, a dúvida de Rav Chananya é sobre quem está num navio, que fica a mais de dez palmos do fundo do mar. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento; ver o Rashi no bloco 1489.
Disse Rav Hoshaya: Vem e ouve: “Aconteceu que estes sábios vinham de Plandarsin, e o seu navio se afastou da costa para o mar no Shabat” etc. Está bem, se dizes que há techumin acima de dez: é por isso que quiseram ser rigorosos. Mas, se dizes que não há techumin, por que quiseram?
“Por que quiseram” — se não há nele proibição alguma, mesmo quando parou.
A citação é da Mishná Eruvin 4:1, em Eruvin 41b (bloco 1421), na mesma redação. Segundo o Rashi, se não houvesse techumin acima de dez palmos, no navio não haveria proibição alguma, nem mesmo se parasse, e Rabi Yehoshua e Rabi Akiva não teriam por que ser rigorosos.
A guemará responde: Como disse Rava: no navio que anda num rekak (água rasa); aqui também, no navio que anda num rekak.
“Num rekak” — menos de dez palmos; rekak, em língua estrangeira, gravele.
Segundo o Rashi, o rekak é um lugar de água rasa, com menos de dez palmos de profundidade; ali o navio está a menos de dez palmos do fundo, e o techum certamente vale. O termo estrangeiro é “גרבל"א”, que o Otzar La’azei Rashi lê “gravele”, cascalho ou areia molhada, a areia da beira do mar coberta de menos de dez palmos de água (conferido). A palavra de Rava a que a guemará se refere é a do bloco 1494, neste mesmo daf; no Talmud Bavli do Sefaria, “במהלכת ברקק” só aparece nestes dois segmentos de Eruvin 43a (conferido).
A guemará traz outra prova: Vem e ouve: “Certa vez não entraram no namal (porto) até que escureceu” etc. Está bem, se dizes que há techumin acima de dez: a pergunta deles está bem. Mas, se dizes que não há techumin, ainda que não estivéssemos dentro do techum, que diferença faz?
A citação é da Mishná Eruvin 4:2, em Eruvin 41b (blocos 1422 e 1423), na mesma redação: os sábios perguntaram a Rabban Gamliel se podiam descer do navio, e ele lhes respondeu que “estávamos dentro do techum antes que escurecesse”. Se não houvesse techumin acima de dez palmos, não importaria que o navio estivesse ou não dentro do techum antes do anoitecer, e não haveria por que perguntar. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
Disse Rava: Aqui se trata do navio que anda num rekak.
É a palavra de Rava citada no bloco 1492: o navio da mishná andava em água rasa, a menos de dez palmos do fundo, e ali o techum vale de todo modo. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
Vem e ouve: Quanto a estes sete ensinamentos que foram ditos na manhã de Shabat diante de Rav Chisda, em Sura, e foram ditos ao entardecer do Shabat diante de Rava, em Pumbedita,
“Na manhã” traduz “בְּצַפְרָא”, em aramaico, “de manhã”; não é o nome da cidade de Tzipori. “Ao entardecer” traduz “בַּהֲדֵי פַּנְיָא”. Segundo a tradução de referência, Sura e Pumbedita ficam longe demais uma da outra para que se pudesse ir de uma à outra no Shabat. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
quem os disse? Não foi Eliyahu que os disse? Logo, não há techumin acima de dez palmos! A guemará rejeita: Não; talvez Yossef, o demônio, os tenha dito.
“Yossef, o demônio” — que não guarda o Shabat.
A prova supõe que Eliyahu levou os ensinamentos de Sura a Pumbedita no mesmo Shabat; segundo a tradução de referência, ele teria passado pelo ar, acima de dez palmos, e não transgrediria o techum. A guemará responde que quem os levou talvez tenha sido Yossef, o demônio, que, segundo o Rashi, não guarda o Shabat. Yossef, o demônio, aparece também em Pesachim 110a, onde Rav Yossef e Rav Pappa dizem “אָמַר לִי יוֹסֵף שֵׁידָא”, “disse-me Yossef, o demônio” (conferido).
Vem e ouve: “Eis que sou nazir (nazireu) no dia em que vier o filho de David”: é permitido a ele beber vinho nos Shabatot e nos Yamim Tovim…
“Nos Shabatot e nos Yamim Tovim” — pois certamente o Mashiach não vem hoje.
O daf termina no meio desta citação, que continua em Eruvin 43b: “e é proibido beber vinho em todos os dias de semana” (conferido). Segundo o Rashi, quem fez o voto pode beber vinho nos Shabatot e nos Yamim Tovim porque é certo que o Mashiach não virá nesses dias; e a guemará, em 43b, vai perguntar o que isso prova sobre os techumin.