A guemará conclui a tentativa de prova começada no fim de 41a: Rav Yehuda não teria dito que a halachá segue os sábios em todos os casos, pois Rabba lhe perguntou sobre a véspera do Shabat e ele não soube responder; mas o mesmo valeria para Rav Huna, e a prova é desfeita pela distinção entre antes e depois de ouvir a decisão de Rav; e Mar Zutra decide em nome de Rav Huna que se jejua e se completa o jejum. Com o hadran, encerra-se o Perek Guimel (BaKol Mearvin), e abre-se o Perek Dalet (Mi SheHotziuhu): quem foi tirado do techum por gentios ou por um espírito mau tem só quatro amot; se o trouxeram de volta, é como se não tivesse saído; se o levaram a outra cidade ou a um curral, Rabban Gamliel e Rabi Elazar ben Azarya permitem andar por toda ela, e Rabi Yehoshua e Rabi Akiva não; segue o episódio do navio vindo de Plandarsin e da entrada no porto depois do anoitecer. A guemará traz as baraitot das três coisas que fazem o homem passar por cima da sua vontade e da do seu Criador, dos três que não veem a face da Guehinom e dos três que morrem enquanto conversam; discute a palavra de Rav Nachman em nome de Shmuel sobre quem saiu conscientemente; Rabba ensina que a dignidade humana permite sair das quatro amot para fazer as necessidades; e Rav Pappa diz que os frutos que saíram do techum e voltaram não perdem o seu lugar, o que Rav Yossef bar Shemaya contesta, e a guemará responde que é disputa de tannaim. A discussão prossegue em 42a.
…pois se te ocorresse dizer que Rav Yehuda falou sobre todos os casos, inclusive sobre Tishá BeAv que cai na véspera do Shabat, haveria uma dificuldade: eis que Rabba lhe perguntou isso, a Rav Yehuda, e ele não lho resolveu!
“Pois se te ocorresse que sobre todos” — Rav Yehuda o disse.
“Eis que Rabba perguntou a Rav Yehuda” — como dissemos acima: veio diante de Rav Yehuda, e ele não o tinha em mãos.
Continua aqui a frase “הָכִי נָמֵי מִסְתַּבְּרָא”, “assim também é razoável”, com que termina Eruvin 41a (bloco 1412). A guemará tenta provar que a palavra “mas os sábios dizem: jejua e completa”, que Rav Yehuda transmitiu em nome de Rav, só se refere a Chanucá e Purim, e não à véspera do Shabat: em Eruvin 40b (bloco 1399), Rabba conta que perguntou a Rav Yehuda sobre o aluno que jejua na véspera do Shabat, e ele não o tinha em mãos. O “acima” do Rashi remete a essa passagem.
A guemará retruca: E, segundo o teu raciocínio, aquilo que Mar Zutra expôs em nome de Rav Huna, “a halachá é que jejua e completa o jejum na véspera do Shabat”: eis que Rabba perguntou isso a Rav Huna, e ele também não lho resolveu! Como, então, Mar Zutra pôde citar a decisão em nome dele?
“Jejua e completa” — na véspera do Shabat.
“Eis que Rabba perguntou a Rav Huna” — acima, e ele não lho resolveu.
A pergunta de Rabba a Rav Huna é a mesma de Eruvin 40b (bloco 1399): “quando estávamos na casa de estudo de Rav Huna… Rav Huna não o tinha em mãos”. As palavras “A guemará retruca” e a pergunta final, “como, então…”, seguem a tradução de referência; o hebraico só diz “eis que Rabba perguntou… e ele não lho resolveu”. O lema do Rashi diz “הא בעי רבה מרב הונא”, onde o texto da guemará diz “הָא בְּעָא מִינֵּיהּ רַבָּה מֵרַב הוּנָא”.
Antes, esta pergunta de Rabba foi antes que Rav Huna a ouvisse de Rav, e esta decisão, citada por Mar Zutra, depois que a ouviu. Aqui também, quanto a Rav Yehuda: esta, antes que a ouvisse, e esta, depois que a ouviu.
“Depois que a ouviu” — Rav Huna, de Rav, esta frase: “mas os sábios dizem”; então a ensinou a Mar Zutra; e, antes que a ouvisse, Rabba lhe perguntou, e ele não lha resolveu.
“Aqui também” — a palavra de Rav Yehuda não é dificuldade.
“Esta, antes que a ouvisse” — de Rav.
“Esta, depois que a ouviu” — Rav Huna e Rav Yehuda eram alunos de Rav.
Segundo o Rashi, tanto Rav Huna como Rav Yehuda eram alunos de Rav: quando Rabba lhes perguntou, ainda não tinham ouvido de Rav a frase “mas os sábios dizem: jejua e completa”; depois a ouviram, e por isso ensinaram a decisão. A mesma resposta vale para Rav Yehuda, e assim cai a prova do bloco 1413: o fato de Rav Yehuda não ter respondido a Rabba não mostra que a palavra dos sábios se restringe a Chanucá e Purim. “Antes” traduz “אֶלָּא”, que aqui introduz a resposta.
Mar Zutra expôs em nome de Rav Huna: A halachá é que se jejua e se completa o jejum, mesmo na véspera do Shabat.
A guemará repete aqui, como decisão, a palavra de Mar Zutra citada de passagem no bloco 1414, agora no plural, “מִתְעַנִּין וּמַשְׁלִימִין”. A mesma decisão está em Taanit 18b, como se registrou na nota do bloco 1410 de Eruvin 41a. As palavras “mesmo na véspera do Shabat” seguem o Rashi do bloco 1414 (“na véspera do Shabat”); a tradução de referência diz “nas vésperas do Shabat e dos dias festivos”. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
Voltaremos a ti, BaKol Mearvin! Com esta fórmula tradicional se encerra o estudo de cada capítulo do Talmud: quem estuda promete voltar ao capítulo concluído, aqui o Perek Guimel, chamado BaKol Mearvin pelas palavras com que começa.
MISHNÁ. Aquele a quem gentios tiraram para fora do techum (o limite de duas mil amot que se pode andar no Shabat), ou a quem tirou um ruach raá (espírito mau), não tem senão quatro amot (côvados) para andar, a partir do lugar onde está.
Com o hadran, encerra-se o Perek Guimel (BaKol Mearvin), que vai de 26b a 41b, e abre-se aqui o Perek Dalet (Mi SheHotziuhu), chamado pelas palavras com que começa esta mishná. Ela trata de quem saiu do techum contra a sua vontade, levado por gentios ou por um espírito mau: tem só quatro amot; se o trouxeram de volta, é como se não tivesse saído; se o levaram a uma cidade cercada, a um curral ou a um estábulo, Rabban Gamliel e Rabi Elazar ben Azarya permitem andar por todo o lugar, e Rabi Yehoshua e Rabi Akiva não; e conta o episódio do navio que vinha de Plandarsin. Na divisão do Sefaria, os segmentos 6 a 9 deste daf (blocos 1418 a 1421) correspondem à Mishná Eruvin 4:1, e os segmentos 10 e 11 (blocos 1422 e 1423), à Mishná Eruvin 4:2 (conferido). A Mishná avulsa traz גוֹיִם onde o Talmud traz נׇכְרִים.
MISHNÁ. “Aquele a quem gentios tiraram” — para fora do techum.
“Ou um espírito mau” — que um shed (demônio) entrou nele, e a sua mente se perturbou, e saiu para fora do techum; e depois se recuperou, e eis que está fora do techum.
Segundo o Rashi, o “espírito mau” é uma perturbação da mente: a pessoa saiu do techum sem saber o que fazia e, ao recuperar o juízo, se acha fora dele; por isso a mishná a iguala a quem foi levado à força.
Se os gentios o trouxeram de volta para dentro do seu techum, é como se não tivesse saído.
“Trouxeram-no de volta” — para dentro do techum.
“É como se não tivesse saído” — e eis que toda a cidade é para ele como quatro amot, como no início, e fora dela tem duas mil amot para cada direção.
Se o levaram a outra cidade, ou o puseram num dir (curral) ou num sahar (estábulo), Rabban Gamliel e Rabi Elazar ben Azarya dizem: Anda por toda ela, pela cidade ou pelo cercado inteiro. Rabi Yehoshua e Rabi Akiva dizem: Não tem senão quatro amot a partir do lugar onde o puseram.
“Levaram-no a outra cidade” — e ela é cercada de divisórias.
“Ou o puseram num dir ou num sahar” — que são cercados, e o seu cercado é grande.
“Anda por toda ela” — pois, já que é cercada de divisórias, eis que é toda ela como quatro amot.
Segundo o Rashi, a cidade, o dir e o sahar são todos lugares cercados de divisórias, e por isso, para Rabban Gamliel e Rabi Elazar ben Azarya, o lugar inteiro conta como as quatro amot de quem foi posto ali. O lema do Rashi diz “או שנתנוהו”, onde a mishná diz só “נְתָנוּהוּ”; o ponto depois de “והרי היא” está assim no texto do Rashi no Sefaria.
Aconteceu que estes sábios vinham de Plandarsin (nome de um lugar além do mar), e o seu navio se afastou da costa para o mar no Shabat. Rabban Gamliel e Rabi Elazar ben Azarya andaram por todo ele; Rabi Yehoshua e Rabi Akiva não se moveram das suas quatro amot, pois quiseram ser rigorosos consigo mesmos.
“De Plandarsin” — nome de um lugar.
“E se afastou” — quando o navio se distancia da beira do mar e entra no meio dele, chama-se haflagá; e é palavra de língua estrangeira, pois chamam ao fundo do mar de pileg.
“Andaram por todo ele” — andavam por todo o navio; pois, embora o navio andasse no Shabat e eles saíssem para fora do techum, eram como quem saiu para fora do techum e foi posto num dir ou num sahar, já que o navio tem divisórias.
“Pois quiseram ser rigorosos” — na guemará se explica.
Segundo o Rashi, o navio é como o dir e o sahar do bloco 1420: um lugar cercado de divisórias; por isso Rabban Gamliel e Rabi Elazar ben Azarya andaram por todo ele, segundo a sua opinião. A explicação de “quiseram ser rigorosos”, que o Rashi remete à guemará, vem adiante neste capítulo; o caso de Plandarsin volta a ser discutido em Eruvin 43a (conferido). A Mishná avulsa traz “מִפְּרַנְדִּיסִין” e “הִלְּכוּ”, onde o Talmud traz “מִפְּלַנְדַּרְסִין” e “הָלְכוּ”. A palavra do Rashi traduzida por “fundo do mar” é “שלולית הים”, e o termo estrangeiro aparece como “פיל"ג”; a leitura exata é incerta.
Certa vez não entraram no namal (porto) até que escureceu. Disseram a Rabban Gamliel: Como ficamos quanto a descer do navio?
“No namal” — em língua estrangeira, portu, onde os navios saem do mar para a sua beira.
“Como ficamos quanto a descer?” — do navio para dentro da cidade; isto é, viemos de fora do techum depois que escureceu.
Segundo o Rashi, a dúvida era se, tendo chegado ao porto depois do anoitecer, eles tinham entrado na cidade vindos de fora do techum, e então teriam só quatro amot. Começa aqui, na divisão do Sefaria, a Mishná Eruvin 4:2.
Rabban Gamliel lhes disse: Estais permitidos a descer, pois eu já estava observando, e estávamos dentro do techum antes que escurecesse.
Rabban Gamliel observou que o navio já estava dentro das duas mil amot da cidade antes do anoitecer; segundo a tradução de referência, eles adquiriram então o seu lugar de Shabat na cidade, e podem andar por toda ela. A Mishná avulsa traz “אָמַר לָהֶן, מֻתָּר אַתֶּם”, onde o Talmud traz “אָמַר לָהֶם: מוּתָּרִים אַתֶּם”. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
GUEMARÁ. Os Sábios ensinaram numa baraita (ensinamento dos tanaítas não incluído na Mishná): Três coisas fazem o homem passar por cima da sua própria vontade e da vontade do seu Criador, e são estas: os gentios, o espírito mau e os dikdukei aniyut (as minúcias da pobreza, isto é, a pobreza extrema).
Os dois primeiros itens da baraita, os gentios e o espírito mau, são os mesmos da mishná (bloco 1418), o que explica por que a guemará a cita aqui. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
A guemará pergunta: Que diferença isso faz? Para pedir misericórdia por eles, pelos que sofrem estas coisas.
Três não veem a face da Guehinom (o lugar de punição depois da morte), e são estes: quem sofre as minúcias da pobreza, quem sofre de doença dos intestinos, e quem sofre o reshut (literalmente, a autoridade; segundo o Rashi, quem tem credores). E há quem diga: também quem tem uma mulher má.
GUEMARÁ. “E o reshut” — quem tem credores.
Aqui seguimos o Rashi, que explica “הָרְשׁוּת” como quem tem credores; a palavra significa “a autoridade”, e a tradução de referência diz “os oprimidos pelos credores”, com o mesmo sentido. A razão, segundo a tradução de referência, é que o sofrimento neste mundo expia os seus pecados. O Rashi marca aqui “גמ'”, “guemará”, embora a guemará comece no bloco 1424.
A guemará pergunta: E o outro tanna, que não conta quem tem uma mulher má, por que não a conta? É mitzvá (preceito) divorciar-se da mulher má.
Segundo a tradução de referência, como é mitzvá divorciar-se dela, esse sofrimento tem remédio e não se conta entre os que expiam. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
A guemará pergunta: E o outro, que conta a mulher má, por que a conta? Responde: Às vezes a sua ketubá (a quantia do contrato de casamento, que se paga no divórcio) é grande; ou também, ele tem filhos dela, e não pode divorciar-se dela.
A guemará pergunta: Que diferença isso faz? Para aceitá-los, a esses sofrimentos, com amor.
“Para aceitá-los com amor” — pois expiam por ele.
O lema do Rashi diz “לקבלינהו”, onde o texto da guemará diz “לְקַבּוֹלֵי”; o sentido é o mesmo.
Três morrem enquanto conversam, e são estes: quem sofre de doença dos intestinos, a parturiente e quem sofre de hidrokan (nome de uma doença; ver a nota).
“Enquanto conversam” — mesmo que tenham muita vitalidade, a ponto de falarem, ainda assim morrem de repente.
“Hidrokan” — doença da boca; em língua estrangeira, mosga.
Leitura incerta. O Rashi, no texto do Sefaria, explica aqui “הדרוקן” como “חולי הפה”, “doença da boca”, seguido de um termo estrangeiro, “מושג"א”, de leitura incerta. Em Berachot 62b o Rashi explica a mesma palavra como “כרסו צבה”, “o seu ventre incha”, e em Shabat 33a diz só “חולי הוא”, “é uma doença” (conferidos); a tradução de referência diz “edema”. Por isso deixamos a palavra transliterada, com a glosa neutra.
A guemará pergunta: Que diferença isso faz? Para preparar para eles a zevadta (a provisão de viagem; segundo o Rashi, as mortalhas).
“Zevadta” — preparar mortalhas.
A palavra aramaica “זְוַודְתָּא” significa “provisão de viagem”; aqui, segundo o Rashi, são as mortalhas, para o caso de morrerem de repente. “Preparar” traduz o verbo do Rashi, “לזמן”, e o da guemará, “לְמַשְׁמוֹשֵׁי”, que significa propriamente “manusear, arrumar”.
Disse Rav Nachman, disse Shmuel: Se saiu do techum conscientemente, não tem senão quatro amot. A guemará objeta: É óbvio! Agora, se quem foi tirado por gentios não tem senão quatro amot, quem saiu conscientemente, é preciso dizê-lo?!
Antes, dize assim a palavra de Rav Nachman: Se, depois de tirado por gentios, voltou conscientemente para dentro do techum, não tem senão quatro amot.
“Voltou conscientemente” — quem foi tirado por gentios e voltou conscientemente para dentro do techum não é como “o trouxeram de volta”, sobre o qual ensinamos na mishná: “é como se não tivesse saído”.
A guemará objeta: Isto também já aprendemos na mishná: “Se gentios o trouxeram de volta, é como se não tivesse saído.” Só quando o trouxeram de volta é como se não tivesse saído; mas se gentios o tiraram e ele voltou conscientemente, não tem senão quatro amot!
A guemará cita a mishná (bloco 1419) como “הֶחְזִירוּהוּ נׇכְרִים”, “gentios o trouxeram de volta”, enquanto o texto da mishná diz só “הֶחְזִירוּהוּ”. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
Antes, dize assim: Se saiu conscientemente e gentios o trouxeram de volta, não tem senão quatro amot.
A guemará objeta: Isto também já aprendemos na mishná: “Se o tiraram e o trouxeram de volta, é como se não tivesse saído.” Só quando o tiraram e o trouxeram de volta é como se não tivesse saído; mas se saiu conscientemente, não!
A guemará responde: Era necessário, pois poderias dizer que a mishná ensina em casos separados: quem foi tirado por gentios e voltou conscientemente não tem senão quatro amot; mas quem saiu conscientemente e gentios o trouxeram de volta, é como se não tivesse saído. Por isso Rav Nachman nos ensina que não é assim.
“Poderias dizer” — a mishná ensina em casos separados, e o “trouxeram-no de volta” da parte final é coisa à parte, e não se refere a “gentios o tiraram”; e assim diz: quem foi tirado por gentios, tanto quando está do lado de fora como quando voltou conscientemente, não tem senão quatro amot; e quem estava fora do techum e gentios o trouxeram de volta, seja a sua primeira saída consciente, seja não consciente, mas forçada, é como se não tivesse saído.
“Ensina-nos” — Rav Nachman, que a parte final da mishná se volta para a parte inicial.
Segundo o Rashi, Rav Nachman ensina que “se o trouxeram de volta” se refere a quem foi tirado por gentios, e não é um caso à parte: só quem saiu e voltou à força é como se não tivesse saído. Quem saiu conscientemente fica com quatro amot, mesmo que gentios o tragam de volta. O Sefaria liga o comentário do Rashi “קמ"ל” ao segmento seguinte (41b:26); como o lema está no fim deste segmento, ele foi posto aqui.
Perguntaram a Rabba: Se quem está restrito às quatro amot precisou fazer as suas necessidades, qual é a halachá? Disse-lhes: Grande é a kevod habriyot (a dignidade das criaturas), que afasta um lo taasse (preceito negativo) da Torá.
“Precisou fazer as suas necessidades” — este que gentios tiraram, qual é a halachá quanto a sair das suas quatro amot?
“Um lo taasse da Torá” — o preceito negativo de “não te desviarás” (Devarim 17), e os techumin também são de ordem rabínica.
Segundo o Rashi, o “preceito negativo da Torá” que a dignidade humana afasta é “não te desviarás da palavra que te disserem” (Devarim 17:11, conferido), que obriga a cumprir as leis dos sábios; como o limite do techum é rabínico, a dignidade humana permite sair das quatro amot para fazer as necessidades em lugar reservado. A frase “גָּדוֹל כְּבוֹד הַבְּרִיּוֹת שֶׁדּוֹחֶה אֶת לֹא תַעֲשֶׂה שֶׁבַּתּוֹרָה” aparece também em Berachot 19b, Shabat 81b, Meguilá 3b e Menachot 37b (conferidos). “Fazer as suas necessidades” traduz “לִנְקָבָיו”, literalmente “para os seus orifícios”.
Disseram os de Neharde’a: Se ele é esperto, entra no techum original; e, uma vez que entrou, entrou, e pode andar nele como antes.
“Se ele é esperto” — este que precisou fazer as suas necessidades, e os Sábios lhe deram permissão de sair para fora das suas quatro amot.
“Entra no techum, e, uma vez que entrou, entrou” — e é permitido andar, como se não tivesse saído; pois entrou com permissão, e não é menos que “o trouxeram de volta”.
Segundo o Rashi, quem recebeu permissão de sair das quatro amot para fazer as necessidades pode aproveitar para entrar no seu techum original; como entrou com permissão, é como quem foi trazido de volta à força, e “é como se não tivesse saído”. “Os de Neharde’a” traduz “נְהַרְדָּעֵי”.
Disse Rav Pappa: Frutos que saíram para fora do techum e voltaram, mesmo se foram tirados e trazidos de volta de propósito, não perderam o seu lugar de Shabat. Qual é a razão? São forçados, pois não saíram por vontade própria.
“Frutos que saíram para fora do techum e voltaram” — no Yom Tov, não perderam o seu lugar, e toda a cidade é para eles como quatro amot, e têm duas mil amot para cada direção, se é Yom Tov; e, se é Shabat, são permitidos para comer no lugar a que voltaram.
“Eram forçados” — por quem os tirou.
Segundo o Rashi, “não perderam o seu lugar” quer dizer, no Yom Tov, que se pode levá-los por toda a cidade e pelas duas mil amot ao redor, e, no Shabat, que é permitido comê-los no lugar a que voltaram. O “de propósito” se refere a quem os tirou; os frutos mesmos são “forçados”. O lema do Rashi diz “אנוסים היו”, onde o texto da guemará diz “אֲנוּסִין נִינְהוּ”.
Rav Yossef bar Shemaya objetou a Rav Pappa a partir de uma baraita: Rabi Nechemya e Rabi Eliezer ben Yaakov dizem: Os frutos são sempre proibidos, até que voltem ao seu lugar sem querer. Daí se conclui: sem querer, sim; de propósito, não!
“Proibidos” — de movê-los das suas quatro amot, e de comê-los, mesmo se voltaram, a não ser que tenham voltado sem querer; mas de propósito, não.
A guemará responde: É disputa de tannaim (os sábios da Mishná), pois foi ensinado numa baraita: Frutos que saíram para fora do techum: sem querer, sejam comidos; de propósito, não sejam comidos.
Assim lemos: “É disputa de tannaim, pois foi ensinado: Frutos que saíram para fora do techum, sem querer, sejam comidos”; e não lemos aqui “e voltaram”.
“Sem querer, sejam comidos” — no lugar onde estão, se há alguém que fez eruv para aquele lado, ou se os moradores de outra cidade estavam próximos deles.
Segundo o Rashi, a versão correta da baraita não diz “e voltaram”, e “sejam comidos” se refere ao lugar onde os frutos estão, fora do techum, por quem pode chegar até eles. Uma baraita semelhante, com as palavras “וחזרו” e a opinião de Rabi Nechemya, está na Tosefta Shabat 18:9, na numeração do Sefaria (conferida). A guemará prossegue com esta discussão em Eruvin 42a.