Talmud Bavli · Massechet Eruvin · Fim do Perek Guimel (BaKol Mearvin) · Início do Perek Dalet (Mi SheHotziuhu) · 41b
מִי שֶׁהוֹצִיאוּהוּ

Mar Zutra: jejua-se e completa-se; o hadran do Perek Guimel; a primeira mishná do Perek Dalet: quem foi tirado do techum; três coisas que fazem o homem passar por cima da sua vontade; grande é a dignidade humana; os frutos que saíram do techum

Eruvin 41b — fim do Perek Guimel (BaKol Mearvin, Eruvin 26b:17-41b:5) e início do Perek Dalet (Mi SheHotziuhu, a partir de 41b:6) · fim da tentativa de provar que a palavra dos sábios não se refere à véspera do Shabat, desfeita pela distinção entre antes e depois de ouvir de Rav; Mar Zutra em nome de Rav Huna · o hadran do Perek Guimel · as Mishnayot Eruvin 4:1 e 4:2: os gentios e o espírito mau; a outra cidade, o dir e o sahar; o navio vindo de Plandarsin; a entrada no porto · três que fazem o homem passar por cima da sua vontade, três que não veem a face da Guehinom, três que morrem enquanto conversam · Rav Nachman em nome de Shmuel: saiu conscientemente · Rabba: grande é a dignidade humana; os de Neharde’a · Rav Pappa e os frutos que saíram do techum · a guemará prossegue em 42a

A guemará conclui a tentativa de prova começada no fim de 41a: Rav Yehuda não teria dito que a halachá segue os sábios em todos os casos, pois Rabba lhe perguntou sobre a véspera do Shabat e ele não soube responder; mas o mesmo valeria para Rav Huna, e a prova é desfeita pela distinção entre antes e depois de ouvir a decisão de Rav; e Mar Zutra decide em nome de Rav Huna que se jejua e se completa o jejum. Com o hadran, encerra-se o Perek Guimel (BaKol Mearvin), e abre-se o Perek Dalet (Mi SheHotziuhu): quem foi tirado do techum por gentios ou por um espírito mau tem só quatro amot; se o trouxeram de volta, é como se não tivesse saído; se o levaram a outra cidade ou a um curral, Rabban Gamliel e Rabi Elazar ben Azarya permitem andar por toda ela, e Rabi Yehoshua e Rabi Akiva não; segue o episódio do navio vindo de Plandarsin e da entrada no porto depois do anoitecer. A guemará traz as baraitot das três coisas que fazem o homem passar por cima da sua vontade e da do seu Criador, dos três que não veem a face da Guehinom e dos três que morrem enquanto conversam; discute a palavra de Rav Nachman em nome de Shmuel sobre quem saiu conscientemente; Rabba ensina que a dignidade humana permite sair das quatro amot para fazer as necessidades; e Rav Pappa diz que os frutos que saíram do techum e voltaram não perdem o seu lugar, o que Rav Yossef bar Shemaya contesta, e a guemará responde que é disputa de tannaim. A discussão prossegue em 42a.

Assim também é razoável: antes e depois de ouvir · מִקַּמֵּי דְּשַׁמְעַהּ

1413Rabba perguntou a Rav Yehuda
A guemará
דְּאִי סָלְקָא דַעְתָּךְ אַכּוּלְּהוּ — הָא בָּעֵי מִינֵּיהּ רַבָּה מֵרַב יְהוּדָה וְלָא פְּשַׁט לֵיהּ!

…pois se te ocorresse dizer que Rav Yehuda falou sobre todos os casos, inclusive sobre Tishá BeAv que cai na véspera do Shabat, haveria uma dificuldade: eis que Rabba lhe perguntou isso, a Rav Yehuda, e ele não lho resolveu!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “dei salka daatach achulehu”
דאי סלקא דעתך אכולהו - אמרה רב יהודה:

“Pois se te ocorresse que sobre todos” — Rav Yehuda o disse.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ha baei minei Rabba meRav Yehuda”
הא בעי מיניה רבה מרב יהודה - כדאמרינן לעיל אתא לקמיה דרב יהודה ולא הוה בידיה:

“Eis que Rabba perguntou a Rav Yehuda” — como dissemos acima: veio diante de Rav Yehuda, e ele não o tinha em mãos.

Nota

Continua aqui a frase “הָכִי נָמֵי מִסְתַּבְּרָא”, “assim também é razoável”, com que termina Eruvin 41a (bloco 1412). A guemará tenta provar que a palavra “mas os sábios dizem: jejua e completa”, que Rav Yehuda transmitiu em nome de Rav, só se refere a Chanucá e Purim, e não à véspera do Shabat: em Eruvin 40b (bloco 1399), Rabba conta que perguntou a Rav Yehuda sobre o aluno que jejua na véspera do Shabat, e ele não o tinha em mãos. O “acima” do Rashi remete a essa passagem.

1414E a palavra de Mar Zutra em nome de Rav Huna?
A guemará
וּלְטַעְמָיךְ, הָא דְּדָרֵשׁ מָר זוּטְרָא מִשְּׁמֵיהּ דְּרַב הוּנָא: הֲלָכָה, מִתְעַנֶּה וּמַשְׁלִים. הָא בְּעָא מִינֵּיהּ רַבָּה מֵרַב הוּנָא וְלָא פְּשַׁט לֵיהּ?!

A guemará retruca: E, segundo o teu raciocínio, aquilo que Mar Zutra expôs em nome de Rav Huna, “a halachá é que jejua e completa o jejum na véspera do Shabat”: eis que Rabba perguntou isso a Rav Huna, e ele também não lho resolveu! Como, então, Mar Zutra pôde citar a decisão em nome dele?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “mitane umashlim”
מתענה ומשלים - בערב שבת:

“Jejua e completa” — na véspera do Shabat.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ha baei Rabba meRav Huna”
הא בעי רבה מרב הונא - לעיל ולא פשט ליה:

“Eis que Rabba perguntou a Rav Huna” — acima, e ele não lho resolveu.

Nota

A pergunta de Rabba a Rav Huna é a mesma de Eruvin 40b (bloco 1399): “quando estávamos na casa de estudo de Rav Huna… Rav Huna não o tinha em mãos”. As palavras “A guemará retruca” e a pergunta final, “como, então…”, seguem a tradução de referência; o hebraico só diz “eis que Rabba perguntou… e ele não lho resolveu”. O lema do Rashi diz “הא בעי רבה מרב הונא”, onde o texto da guemará diz “הָא בְּעָא מִינֵּיהּ רַבָּה מֵרַב הוּנָא”.

1415Antes de ouvir e depois de ouvir
A guemará
אֶלָּא: הָא — מִקַּמֵּי דְּשַׁמְעַהּ, וְהָא — לְבָתַר דְּשַׁמְעַהּ, הָכָא נָמֵי: הָא — מִקַּמֵּי דְּשַׁמְעַהּ, הָא — לְבָתַר דְּשַׁמְעַהּ.

Antes, esta pergunta de Rabba foi antes que Rav Huna a ouvisse de Rav, e esta decisão, citada por Mar Zutra, depois que a ouviu. Aqui também, quanto a Rav Yehuda: esta, antes que a ouvisse, e esta, depois que a ouviu.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “levatar deshamaa”
לבתר דשמעה - רב הונא מרב להאי אבל חכמים אומרים הדר אגמריה למר זוטרא ומקמיה דלישמעיה בעא רבה מיניה ולא פשט ליה:

“Depois que a ouviu” — Rav Huna, de Rav, esta frase: “mas os sábios dizem”; então a ensinou a Mar Zutra; e, antes que a ouvisse, Rabba lhe perguntou, e ele não lha resolveu.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “hacha nami”
הכא נמי - דרב יהודה לא תיקשי:

“Aqui também” — a palavra de Rav Yehuda não é dificuldade.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ha mikamei deshamaa”
הא מקמי דשמעה - מרב:

“Esta, antes que a ouvisse” — de Rav.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ha levatar deshamaa”
הא לבתר דשמעה - רב הונא ורב יהודה תלמידי דרב הוו:

“Esta, depois que a ouviu” — Rav Huna e Rav Yehuda eram alunos de Rav.

Nota

Segundo o Rashi, tanto Rav Huna como Rav Yehuda eram alunos de Rav: quando Rabba lhes perguntou, ainda não tinham ouvido de Rav a frase “mas os sábios dizem: jejua e completa”; depois a ouviram, e por isso ensinaram a decisão. A mesma resposta vale para Rav Yehuda, e assim cai a prova do bloco 1413: o fato de Rav Yehuda não ter respondido a Rabba não mostra que a palavra dos sábios se restringe a Chanucá e Purim. “Antes” traduz “אֶלָּא”, que aqui introduz a resposta.

1416Mar Zutra: jejua-se e completa-se
Mar Zutra
דָּרֵשׁ מָר זוּטְרָא מִשְּׁמֵיהּ דְּרַב הוּנָא: הֲלָכָה, מִתְעַנִּין וּמַשְׁלִימִין.

Mar Zutra expôs em nome de Rav Huna: A halachá é que se jejua e se completa o jejum, mesmo na véspera do Shabat.

Nota

A guemará repete aqui, como decisão, a palavra de Mar Zutra citada de passagem no bloco 1414, agora no plural, “מִתְעַנִּין וּמַשְׁלִימִין”. A mesma decisão está em Taanit 18b, como se registrou na nota do bloco 1410 de Eruvin 41a. As palavras “mesmo na véspera do Shabat” seguem o Rashi do bloco 1414 (“na véspera do Shabat”); a tradução de referência diz “nas vésperas do Shabat e dos dias festivos”. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1417Hadran: voltaremos a ti, BaKol Mearvin
הַדְרָן עֲלָךְ בַּכֹּל מְעָרְבִין

Voltaremos a ti, BaKol Mearvin! Com esta fórmula tradicional se encerra o estudo de cada capítulo do Talmud: quem estuda promete voltar ao capítulo concluído, aqui o Perek Guimel, chamado BaKol Mearvin pelas palavras com que começa.

Encerra-se Perek Guimelהַדְרַן עֲלָךְ בַּכֹּל מְעָרְבִין

Abre-se Perek Dalet: quem foi tirado do techum · מִי שֶׁהוֹצִיאוּהוּ

1418Os gentios e o espírito mau
Mishná (abertura de Perek Dalet)
מַתְנִי׳ מִי שֶׁהוֹצִיאוּהוּ נׇכְרִים, אוֹ רוּחַ רָעָה — אֵין לוֹ אֶלָּא אַרְבַּע אַמּוֹת.

MISHNÁ. Aquele a quem gentios tiraram para fora do techum (o limite de duas mil amot que se pode andar no Shabat), ou a quem tirou um ruach raá (espírito mau), não tem senão quatro amot (côvados) para andar, a partir do lugar onde está.

Nota — nova Mishná

Com o hadran, encerra-se o Perek Guimel (BaKol Mearvin), que vai de 26b a 41b, e abre-se aqui o Perek Dalet (Mi SheHotziuhu), chamado pelas palavras com que começa esta mishná. Ela trata de quem saiu do techum contra a sua vontade, levado por gentios ou por um espírito mau: tem só quatro amot; se o trouxeram de volta, é como se não tivesse saído; se o levaram a uma cidade cercada, a um curral ou a um estábulo, Rabban Gamliel e Rabi Elazar ben Azarya permitem andar por todo o lugar, e Rabi Yehoshua e Rabi Akiva não; e conta o episódio do navio que vinha de Plandarsin. Na divisão do Sefaria, os segmentos 6 a 9 deste daf (blocos 1418 a 1421) correspondem à Mishná Eruvin 4:1, e os segmentos 10 e 11 (blocos 1422 e 1423), à Mishná Eruvin 4:2 (conferido). A Mishná avulsa traz גוֹיִם onde o Talmud traz נׇכְרִים.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “matnitin mi shehotziuhu nochrim”
מתני' מי שהוציאוהו נכרים - חוץ לתחום:

MISHNÁ. “Aquele a quem gentios tiraram” — para fora do techum.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “o ruach raá”
או רוח רעה - שנכנס בו שד ונטרפה דעתו ויצא חוץ לתחום ואחר כך נשתפה והרי הוא חוץ לתחום:

“Ou um espírito mau” — que um shed (demônio) entrou nele, e a sua mente se perturbou, e saiu para fora do techum; e depois se recuperou, e eis que está fora do techum.

Nota

Segundo o Rashi, o “espírito mau” é uma perturbação da mente: a pessoa saiu do techum sem saber o que fazia e, ao recuperar o juízo, se acha fora dele; por isso a mishná a iguala a quem foi levado à força.

1419Se o trouxeram de volta
Mishná
הֶחְזִירוּהוּ — כְּאִילּוּ לֹא יָצָא.

Se os gentios o trouxeram de volta para dentro do seu techum, é como se não tivesse saído.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “hechziruhu”
החזירוהו - לתוך התחום:

“Trouxeram-no de volta” — para dentro do techum.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “keilu lo yatza”
כאילו לא יצא - והרי כל העיר לו כד' אמות כבתחילה וחוצה לה אלפים אמה לכל רוח:

“É como se não tivesse saído” — e eis que toda a cidade é para ele como quatro amot, como no início, e fora dela tem duas mil amot para cada direção.

1420A outra cidade, o dir e o sahar
Mishná
הוֹלִיכוּהוּ לְעִיר אַחֶרֶת, נְתָנוּהוּ בְּדִיר אוֹ בְּסַהַר, רַבָּן גַּמְלִיאֵל וְרַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה אוֹמְרִים: מְהַלֵּךְ אֶת כּוּלָּהּ. רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ וְרַבִּי עֲקִיבָא אוֹמְרִים: אֵין לוֹ אֶלָּא אַרְבַּע אַמּוֹת.

Se o levaram a outra cidade, ou o puseram num dir (curral) ou num sahar (estábulo), Rabban Gamliel e Rabi Elazar ben Azarya dizem: Anda por toda ela, pela cidade ou pelo cercado inteiro. Rabi Yehoshua e Rabi Akiva dizem: Não tem senão quatro amot a partir do lugar onde o puseram.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “holichuhu leir acheret”
הוליכוהו לעיר אחרת - והרי היא. מוקפת מחיצות:

“Levaram-no a outra cidade” — e ela é cercada de divisórias.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “o shenetanuhu bedir o besahar”
או שנתנוהו בדיר או בסהר - שהן מוקפין והיקיפן גדול:

“Ou o puseram num dir ou num sahar” — que são cercados, e o seu cercado é grande.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “mehalech et kulá”
מהלך את כולה - דהואיל ומוקפת מחיצות הרי היא כד' אמות:

“Anda por toda ela” — pois, já que é cercada de divisórias, eis que é toda ela como quatro amot.

Nota

Segundo o Rashi, a cidade, o dir e o sahar são todos lugares cercados de divisórias, e por isso, para Rabban Gamliel e Rabi Elazar ben Azarya, o lugar inteiro conta como as quatro amot de quem foi posto ali. O lema do Rashi diz “או שנתנוהו”, onde a mishná diz só “נְתָנוּהוּ”; o ponto depois de “והרי היא” está assim no texto do Rashi no Sefaria.

1421O navio vindo de Plandarsin
Mishná
מַעֲשֶׂה שֶׁבָּאוּ מִפְּלַנְדַּרְסִין, וְהִפְלִיגָה סְפִינָתָם בַּיָּם. רַבָּן גַּמְלִיאֵל וְרַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה הָלְכוּ אֶת כּוּלָּהּ, רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ וְרַבִּי עֲקִיבָא לֹא זָזוּ מֵאַרְבַּע אַמּוֹת, שֶׁרָצוּ לְהַחֲמִיר עַל עַצְמָן.

Aconteceu que estes sábios vinham de Plandarsin (nome de um lugar além do mar), e o seu navio se afastou da costa para o mar no Shabat. Rabban Gamliel e Rabi Elazar ben Azarya andaram por todo ele; Rabi Yehoshua e Rabi Akiva não se moveram das suas quatro amot, pois quiseram ser rigorosos consigo mesmos.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “miPlandarsin”
מפלנדרסין - שם מקום:

“De Plandarsin” — nome de um lugar.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “vehiflíga”
והפליגה - כשהיא מתרחק' משפת הים ונכנסת לאמצעי קרי ליה הפלגה ולשון לע"ז הוא שקורין לשלולית הים פיל"ג:

“E se afastou” — quando o navio se distancia da beira do mar e entra no meio dele, chama-se haflagá; e é palavra de língua estrangeira, pois chamam ao fundo do mar de pileg.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “halchu et kulá”
הלכו את כולה - היו מהלכין בכל הספינה דאע"פ שהספינה הולכת בשבת ויצאו חוץ לתחום הוו כמי שיצא חוץ לתחום וניתן בדיר או בסהר שהספינה מחיצות לה:

“Andaram por todo ele” — andavam por todo o navio; pois, embora o navio andasse no Shabat e eles saíssem para fora do techum, eram como quem saiu para fora do techum e foi posto num dir ou num sahar, já que o navio tem divisórias.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “sheratzu lehachmir”
שרצו להחמיר - בגמרא מפרש:

“Pois quiseram ser rigorosos” — na guemará se explica.

Nota

Segundo o Rashi, o navio é como o dir e o sahar do bloco 1420: um lugar cercado de divisórias; por isso Rabban Gamliel e Rabi Elazar ben Azarya andaram por todo ele, segundo a sua opinião. A explicação de “quiseram ser rigorosos”, que o Rashi remete à guemará, vem adiante neste capítulo; o caso de Plandarsin volta a ser discutido em Eruvin 43a (conferido). A Mishná avulsa traz “מִפְּרַנְדִּיסִין” e “הִלְּכוּ”, onde o Talmud traz “מִפְּלַנְדַּרְסִין” e “הָלְכוּ”. A palavra do Rashi traduzida por “fundo do mar” é “שלולית הים”, e o termo estrangeiro aparece como “פיל"ג”; a leitura exata é incerta.

1422Podemos descer?
Mishná
פַּעַם אַחַת לֹא נִכְנְסוּ לַנָּמָל עַד שֶׁחָשֵׁיכָה, אָמְרוּ לוֹ לְרַבָּן גַּמְלִיאֵל: מָה אָנוּ לֵירֵד?

Certa vez não entraram no namal (porto) até que escureceu. Disseram a Rabban Gamliel: Como ficamos quanto a descer do navio?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “lanamal”
לנמל - פורט"ו בלע"ז ששם הספינות יוצאות מן הים לשפתו:

“No namal” — em língua estrangeira, portu, onde os navios saem do mar para a sua beira.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ma anu lered”
מה אנו לירד - מן הספינה לתוך העיר כלומר באנו מחוץ לתחום משחשיכה:

“Como ficamos quanto a descer?” — do navio para dentro da cidade; isto é, viemos de fora do techum depois que escureceu.

Nota

Segundo o Rashi, a dúvida era se, tendo chegado ao porto depois do anoitecer, eles tinham entrado na cidade vindos de fora do techum, e então teriam só quatro amot. Começa aqui, na divisão do Sefaria, a Mishná Eruvin 4:2.

1423Já estávamos dentro do techum
Mishná
אָמַר לָהֶם: מוּתָּרִים אַתֶּם, שֶׁכְּבָר הָיִיתִי מִסְתַּכֵּל וְהָיִינוּ בְּתוֹךְ הַתְּחוּם עַד שֶׁלֹּא חָשֵׁיכָה.

Rabban Gamliel lhes disse: Estais permitidos a descer, pois eu já estava observando, e estávamos dentro do techum antes que escurecesse.

Nota

Rabban Gamliel observou que o navio já estava dentro das duas mil amot da cidade antes do anoitecer; segundo a tradução de referência, eles adquiriram então o seu lugar de Shabat na cidade, e podem andar por toda ela. A Mishná avulsa traz “אָמַר לָהֶן, מֻתָּר אַתֶּם”, onde o Talmud traz “אָמַר לָהֶם: מוּתָּרִים אַתֶּם”. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

Três coisas que fazem o homem passar por cima da sua vontade · שְׁלֹשָׁה דְּבָרִים

1424Gentios, espírito mau e pobreza extrema
A baraita
גְּמָ׳ תָּנוּ רַבָּנַן: שְׁלֹשָׁה דְּבָרִים מַעֲבִירִין אֶת הָאָדָם עַל דַּעְתּוֹ וְעַל דַּעַת קוֹנוֹ, אֵלּוּ הֵן: נׇכְרִים, וְרוּחַ רָעָה, וְדִקְדּוּקֵי עֲנִיּוּת.

GUEMARÁ. Os Sábios ensinaram numa baraita (ensinamento dos tanaítas não incluído na Mishná): Três coisas fazem o homem passar por cima da sua própria vontade e da vontade do seu Criador, e são estas: os gentios, o espírito mau e os dikdukei aniyut (as minúcias da pobreza, isto é, a pobreza extrema).

Nota

Os dois primeiros itens da baraita, os gentios e o espírito mau, são os mesmos da mishná (bloco 1418), o que explica por que a guemará a cita aqui. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1425Para pedir misericórdia por eles
A guemará
לְמַאי נָפְקָא מִינַּהּ? לְמִיבְעֵי רַחֲמֵי עֲלַיְיהוּ.

A guemará pergunta: Que diferença isso faz? Para pedir misericórdia por eles, pelos que sofrem estas coisas.

1426Três que não veem a face da Guehinom
A baraita
שְׁלֹשָׁה אֵין רוֹאִין פְּנֵי גֵיהִנָּם, אֵלּוּ הֵן: דִּקְדּוּקֵי עֲנִיּוּת, וְחוֹלֵי מֵעַיִין, וְהָרְשׁוּת. וְיֵשׁ אוֹמְרִים: אַף מִי שֶׁיֵּשׁ לוֹ אִשָּׁה רָעָה.

Três não veem a face da Guehinom (o lugar de punição depois da morte), e são estes: quem sofre as minúcias da pobreza, quem sofre de doença dos intestinos, e quem sofre o reshut (literalmente, a autoridade; segundo o Rashi, quem tem credores). E há quem diga: também quem tem uma mulher má.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “guemará vehareshut”
גמ' והרשות - מי שיש לו נושין:

GUEMARÁ. “E o reshut” — quem tem credores.

Nota

Aqui seguimos o Rashi, que explica “הָרְשׁוּת” como quem tem credores; a palavra significa “a autoridade”, e a tradução de referência diz “os oprimidos pelos credores”, com o mesmo sentido. A razão, segundo a tradução de referência, é que o sofrimento neste mundo expia os seus pecados. O Rashi marca aqui “גמ'”, “guemará”, embora a guemará comece no bloco 1424.

1427E o outro? É mitzvá divorciá-la
A guemará
וְאִידָּךְ? אִשָּׁה רָעָה מִצְוָה לְגָרְשָׁהּ.

A guemará pergunta: E o outro tanna, que não conta quem tem uma mulher má, por que não a conta? É mitzvá (preceito) divorciar-se da mulher má.

Nota

Segundo a tradução de referência, como é mitzvá divorciar-se dela, esse sofrimento tem remédio e não se conta entre os que expiam. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1428E o outro? A ketubá e os filhos
A guemará
וְאִידָּךְ? זִימְנִין דִּכְתוּבָּתָהּ מְרוּבָּה. אִי נָמֵי, אִית לֵיהּ בָּנִים מִינַּהּ, וְלָא מָצֵי מְגָרֵשׁ לַהּ.

A guemará pergunta: E o outro, que conta a mulher má, por que a conta? Responde: Às vezes a sua ketubá (a quantia do contrato de casamento, que se paga no divórcio) é grande; ou também, ele tem filhos dela, e não pode divorciar-se dela.

1429Para aceitá-los com amor
A guemará
לְמַאי נָפְקָא מִינַּהּ? לְקַבּוֹלֵי מֵאַהֲבָה.

A guemará pergunta: Que diferença isso faz? Para aceitá-los, a esses sofrimentos, com amor.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “lekabelinhu meahavá”
לקבלינהו מאהבה - דמכפרי עליה:

“Para aceitá-los com amor” — pois expiam por ele.

Nota

O lema do Rashi diz “לקבלינהו”, onde o texto da guemará diz “לְקַבּוֹלֵי”; o sentido é o mesmo.

1430Três que morrem enquanto conversam
A baraita
שְׁלֹשָׁה מֵתִין כְּשֶׁהֵן מְסַפְּרִין, וְאֵלּוּ הֵן: חוֹלִי מֵעַיִין, וְחַיָּה, וְהִדְרוֹקָן.

Três morrem enquanto conversam, e são estes: quem sofre de doença dos intestinos, a parturiente e quem sofre de hidrokan (nome de uma doença; ver a nota).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “keshehen mesaperim”
כשהן מספרים - אפי' יש בהן חיות הרבה שמדברים אעפ"כ מתין פתאום:

“Enquanto conversam” — mesmo que tenham muita vitalidade, a ponto de falarem, ainda assim morrem de repente.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “hidrokan”
הדרוקן - חולי הפה מושג"א:

“Hidrokan” — doença da boca; em língua estrangeira, mosga.

Nota

Leitura incerta. O Rashi, no texto do Sefaria, explica aqui “הדרוקן” como “חולי הפה”, “doença da boca”, seguido de um termo estrangeiro, “מושג"א”, de leitura incerta. Em Berachot 62b o Rashi explica a mesma palavra como “כרסו צבה”, “o seu ventre incha”, e em Shabat 33a diz só “חולי הוא”, “é uma doença” (conferidos); a tradução de referência diz “edema”. Por isso deixamos a palavra transliterada, com a glosa neutra.

1431Para preparar as mortalhas
A guemará
לְמַאי נָפְקָא מִינַּהּ: לְמַשְׁמוֹשֵׁי בְּהוּ זְוַודְתָּא.

A guemará pergunta: Que diferença isso faz? Para preparar para eles a zevadta (a provisão de viagem; segundo o Rashi, as mortalhas).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “zevadta”
זוודתא - לזמן תכריכין:

“Zevadta” — preparar mortalhas.

Nota

A palavra aramaica “זְוַודְתָּא” significa “provisão de viagem”; aqui, segundo o Rashi, são as mortalhas, para o caso de morrerem de repente. “Preparar” traduz o verbo do Rashi, “לזמן”, e o da guemará, “לְמַשְׁמוֹשֵׁי”, que significa propriamente “manusear, arrumar”.

Saiu conscientemente · יָצָא לְדַעַת

1432Rav Nachman: saiu conscientemente
Rav Nachman em nome de Shmuel
אָמַר רַב נַחְמָן אָמַר שְׁמוּאֵל: יָצָא לְדַעַת — אֵין לוֹ אֶלָּא אַרְבַּע אַמּוֹת. פְּשִׁיטָא, הַשְׁתָּא מִי שֶׁהוֹצִיאוּהוּ נׇכְרִים אֵין לוֹ אֶלָּא אַרְבַּע אַמּוֹת, יָצָא לְדַעַת מִיבַּעְיָא?!

Disse Rav Nachman, disse Shmuel: Se saiu do techum conscientemente, não tem senão quatro amot. A guemará objeta: É óbvio! Agora, se quem foi tirado por gentios não tem senão quatro amot, quem saiu conscientemente, é preciso dizê-lo?!

1433Antes, dize: voltou conscientemente
A guemará
אֶלָּא אֵימָא: חָזַר לְדַעַת — אֵין לוֹ אֶלָּא אַרְבַּע אַמּוֹת.

Antes, dize assim a palavra de Rav Nachman: Se, depois de tirado por gentios, voltou conscientemente para dentro do techum, não tem senão quatro amot.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “chazar ledaat”
חזר לדעת - מי שהוציאוהו נכרים וחזר לדעת לתוך התחום לא הוי כהחזירוהו דתנן במתני' כאילו לא יצא:

“Voltou conscientemente” — quem foi tirado por gentios e voltou conscientemente para dentro do techum não é como “o trouxeram de volta”, sobre o qual ensinamos na mishná: “é como se não tivesse saído”.

1434Isto também já aprendemos
A guemará
הָא נָמֵי תְּנֵינָא: הֶחְזִירוּהוּ נׇכְרִים כְּאִילּוּ לֹא יָצָא. הֶחְזִירוּהוּ הוּא דִּכְאִילּוּ לֹא יָצָא, אֲבָל הוֹצִיאוּהוּ נׇכְרִים וְחָזַר לְדַעַת — אֵין לוֹ אֶלָּא אַרְבַּע אַמּוֹת!

A guemará objeta: Isto também já aprendemos na mishná: “Se gentios o trouxeram de volta, é como se não tivesse saído.” Só quando o trouxeram de volta é como se não tivesse saído; mas se gentios o tiraram e ele voltou conscientemente, não tem senão quatro amot!

Nota

A guemará cita a mishná (bloco 1419) como “הֶחְזִירוּהוּ נׇכְרִים”, “gentios o trouxeram de volta”, enquanto o texto da mishná diz só “הֶחְזִירוּהוּ”. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1435Antes, dize: saiu conscientemente e o trouxeram de volta
A guemará
אֶלָּא אֵימָא, יָצָא לְדַעַת וְהֶחְזִירוּהוּ נׇכְרִים — אֵין לוֹ אֶלָּא אַרְבַּע אַמּוֹת.

Antes, dize assim: Se saiu conscientemente e gentios o trouxeram de volta, não tem senão quatro amot.

1436Isto também já aprendemos
A guemará
הָא נָמֵי תְּנֵינָא: הוֹצִיאוּהוּ וְהֶחְזִירוּהוּ כְּאִילּוּ לֹא יָצָא. הוֹצִיאוּהוּ וְהֶחְזִירוּהוּ — הוּא דִּכְאִילּוּ לֹא יָצָא, אֲבָל יָצָא לְדַעַת — לָא!

A guemará objeta: Isto também já aprendemos na mishná: “Se o tiraram e o trouxeram de volta, é como se não tivesse saído.” Só quando o tiraram e o trouxeram de volta é como se não tivesse saído; mas se saiu conscientemente, não!

1437A mishná ensina em casos separados?
A guemará
מַהוּ דְּתֵימָא, לִצְדָדִין קָתָנֵי: מִי שֶׁהוֹצִיאוּהוּ נׇכְרִים וְחָזַר לְדַעַת — אֵין לוֹ אֶלָּא אַרְבַּע אַמּוֹת, אֲבָל יָצָא לְדַעַת וְהֶחְזִירוּהוּ נׇכְרִים — כְּאִילּוּ לֹא יָצָא, קָא מַשְׁמַע לַן.

A guemará responde: Era necessário, pois poderias dizer que a mishná ensina em casos separados: quem foi tirado por gentios e voltou conscientemente não tem senão quatro amot; mas quem saiu conscientemente e gentios o trouxeram de volta, é como se não tivesse saído. Por isso Rav Nachman nos ensina que não é assim.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “mahu detema”
מהו דתימא - מתני' לצדדין קתני והחזירוהו דסיפא מילתא באפי נפשה היא ולאו אהוציאוהו נכרים קאי והכי קאמר מי שהוציאוהו נכרים בין כשהוא עומד בחוץ בין שחזר לדעת אין לו אלא ד' אמות ומי שהיה חוץ לתחום והחזירוהו נכרים בין שהיתה יציאתו ראשונה לדעת בין שלא לדעת אלא באונס הוי כאילו לא יצא:

“Poderias dizer” — a mishná ensina em casos separados, e o “trouxeram-no de volta” da parte final é coisa à parte, e não se refere a “gentios o tiraram”; e assim diz: quem foi tirado por gentios, tanto quando está do lado de fora como quando voltou conscientemente, não tem senão quatro amot; e quem estava fora do techum e gentios o trouxeram de volta, seja a sua primeira saída consciente, seja não consciente, mas forçada, é como se não tivesse saído.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ka mashma lan”
קמ"ל - ר"נ דסיפא דמתני' ארישא מהדר:

“Ensina-nos” — Rav Nachman, que a parte final da mishná se volta para a parte inicial.

Nota

Segundo o Rashi, Rav Nachman ensina que “se o trouxeram de volta” se refere a quem foi tirado por gentios, e não é um caso à parte: só quem saiu e voltou à força é como se não tivesse saído. Quem saiu conscientemente fica com quatro amot, mesmo que gentios o tragam de volta. O Sefaria liga o comentário do Rashi “קמ"ל” ao segmento seguinte (41b:26); como o lema está no fim deste segmento, ele foi posto aqui.

Grande é a dignidade humana · גָּדוֹל כְּבוֹד הַבְּרִיּוֹת

1438Se precisou fazer as suas necessidades
Rabba
בְּעוֹ מִינֵּיהּ מֵרַבָּה: הוּצְרַךְ לִנְקָבָיו מַהוּ? אָמַר לָהֶם: גָּדוֹל כְּבוֹד הַבְּרִיּוֹת שֶׁדּוֹחֶה אֶת לֹא תַעֲשֶׂה שֶׁבַּתּוֹרָה.

Perguntaram a Rabba: Se quem está restrito às quatro amot precisou fazer as suas necessidades, qual é a halachá? Disse-lhes: Grande é a kevod habriyot (a dignidade das criaturas), que afasta um lo taasse (preceito negativo) da Torá.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “hutzrach linkavav”
הוצרך לנקביו - זה שהוציאוהו נכרים מהו לצאת מד' אמותיו:

“Precisou fazer as suas necessidades” — este que gentios tiraram, qual é a halachá quanto a sair das suas quatro amot?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “et lo taasse shebaTorá”
את לא תעשה שבתורה - לאו דלא תסור (דברים יז) ותחומין נמי דרבנן:

“Um lo taasse da Torá” — o preceito negativo de “não te desviarás” (Devarim 17), e os techumin também são de ordem rabínica.

Nota

Segundo o Rashi, o “preceito negativo da Torá” que a dignidade humana afasta é “não te desviarás da palavra que te disserem” (Devarim 17:11, conferido), que obriga a cumprir as leis dos sábios; como o limite do techum é rabínico, a dignidade humana permite sair das quatro amot para fazer as necessidades em lugar reservado. A frase “גָּדוֹל כְּבוֹד הַבְּרִיּוֹת שֶׁדּוֹחֶה אֶת לֹא תַעֲשֶׂה שֶׁבַּתּוֹרָה” aparece também em Berachot 19b, Shabat 81b, Meguilá 3b e Menachot 37b (conferidos). “Fazer as suas necessidades” traduz “לִנְקָבָיו”, literalmente “para os seus orifícios”.

1439Se é esperto, entra no techum
Os de Neharde’a
אָמְרִי נְהַרְדָּעֵי: אִי פִּיקֵּחַ הוּא עָיֵיל לִתְחוּמָא, וְכֵיוָן דְּעָל — עָל.

Disseram os de Neharde’a: Se ele é esperto, entra no techum original; e, uma vez que entrou, entrou, e pode andar nele como antes.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “i pikeach hu”
אי פיקח הוא - האי דנצרך לנקביו ויהבו ליה רבנן רשות למיפק חוץ לארבע אמותיו:

“Se ele é esperto” — este que precisou fazer as suas necessidades, e os Sábios lhe deram permissão de sair para fora das suas quatro amot.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ayil litchuma vechevan deal al”
עייל לתחומא וכיון דעל על - ומותר כאילו לא יצא דהא ברשות על ולא גרע מהחזירוהו:

“Entra no techum, e, uma vez que entrou, entrou” — e é permitido andar, como se não tivesse saído; pois entrou com permissão, e não é menos que “o trouxeram de volta”.

Nota

Segundo o Rashi, quem recebeu permissão de sair das quatro amot para fazer as necessidades pode aproveitar para entrar no seu techum original; como entrou com permissão, é como quem foi trazido de volta à força, e “é como se não tivesse saído”. “Os de Neharde’a” traduz “נְהַרְדָּעֵי”.

Os frutos que saíram do techum · פֵּירוֹת שֶׁיָּצְאוּ חוּץ לַתְּחוּם

1440Rav Pappa: não perderam o seu lugar
Rav Pappa
אָמַר רַב פָּפָּא: פֵּירוֹת שֶׁיָּצְאוּ חוּץ לַתְּחוּם וְחָזְרוּ, אֲפִילּוּ בְּמֵזִיד — לֹא הִפְסִידוּ אֶת מְקוֹמָן. מַאי טַעְמָא? אֲנוּסִין נִינְהוּ.

Disse Rav Pappa: Frutos que saíram para fora do techum e voltaram, mesmo se foram tirados e trazidos de volta de propósito, não perderam o seu lugar de Shabat. Qual é a razão? São forçados, pois não saíram por vontade própria.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “perot sheyatzu chutz latchum vechazru”
פירות שיצאו חוץ לתחום וחזרו - ביום טוב לא הפסידו מקומן וכל העיר להן כד' אמות ויש להן לכל רוח אלפים אמה אם יו"ט הוא ואי שבת מותרין לאכילה במקום שחזרו:

“Frutos que saíram para fora do techum e voltaram” — no Yom Tov, não perderam o seu lugar, e toda a cidade é para eles como quatro amot, e têm duas mil amot para cada direção, se é Yom Tov; e, se é Shabat, são permitidos para comer no lugar a que voltaram.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “anussim hayu”
אנוסים היו - על ידי המוציאן:

“Eram forçados” — por quem os tirou.

Nota

Segundo o Rashi, “não perderam o seu lugar” quer dizer, no Yom Tov, que se pode levá-los por toda a cidade e pelas duas mil amot ao redor, e, no Shabat, que é permitido comê-los no lugar a que voltaram. O “de propósito” se refere a quem os tirou; os frutos mesmos são “forçados”. O lema do Rashi diz “אנוסים היו”, onde o texto da guemará diz “אֲנוּסִין נִינְהוּ”.

1441A objeção de Rav Yossef bar Shemaya
Rav Yossef bar Shemaya
אֵיתִיבֵיהּ רַב יוֹסֵף בַּר שְׁמַעְיָה לְרַב פָּפָּא: רַבִּי נְחֶמְיָה וְרַבִּי אֱלִיעֶזֶר בֶּן יַעֲקֹב אוֹמְרִים: לְעוֹלָם אֲסוּרִין, עַד שֶׁיַּחְזְרוּ לִמְקוֹמָן שׁוֹגְגִין. בְּשׁוֹגֵג אִין, בְּמֵזִיד לָא!

Rav Yossef bar Shemaya objetou a Rav Pappa a partir de uma baraita: Rabi Nechemya e Rabi Eliezer ben Yaakov dizem: Os frutos são sempre proibidos, até que voltem ao seu lugar sem querer. Daí se conclui: sem querer, sim; de propósito, não!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “assurin”
אסורין - לזוז אותן מארבע אמותיהן ולא לאוכלן אפי' חזרו אלא אם כן חזרו שוגגין אבל מזיד לא:

“Proibidos” — de movê-los das suas quatro amot, e de comê-los, mesmo se voltaram, a não ser que tenham voltado sem querer; mas de propósito, não.

1442É disputa de tannaim
A guemará
תַּנָּאֵי הִיא, דְּתַנְיָא: פֵּירוֹת שֶׁיָּצְאוּ חוּץ לַתְּחוּם, בְּשׁוֹגֵג — יֵאָכֵלוּ, בְּמֵזִיד — לֹא יֵאָכֵלוּ.

A guemará responde: É disputa de tannaim (os sábios da Mishná), pois foi ensinado numa baraita: Frutos que saíram para fora do techum: sem querer, sejam comidos; de propósito, não sejam comidos.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “hachi garsinan”
הכי גרסינן תנאי היא דתניא פירות שיצאו חוץ לתחום בשוגג יאכלו - ולא גרסינן הכא וחזרו:

Assim lemos: “É disputa de tannaim, pois foi ensinado: Frutos que saíram para fora do techum, sem querer, sejam comidos”; e não lemos aqui “e voltaram”.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “beshogeg yeachlu”
בשוגג יאכלו - במקום שהן שם אם יש אדם שעירב לאותו צד או שהיו בני עיר אחרת סמוכים להן:

“Sem querer, sejam comidos” — no lugar onde estão, se há alguém que fez eruv para aquele lado, ou se os moradores de outra cidade estavam próximos deles.

Nota

Segundo o Rashi, a versão correta da baraita não diz “e voltaram”, e “sejam comidos” se refere ao lugar onde os frutos estão, fora do techum, por quem pode chegar até eles. Uma baraita semelhante, com as palavras “וחזרו” e a opinião de Rabi Nechemya, está na Tosefta Shabat 18:9, na numeração do Sefaria (conferida). A guemará prossegue com esta discussão em Eruvin 42a.

O daf termina aqui, no meio da discussão sobre os frutos que saíram do techum: depois de concluir a prova sobre a palavra de Rav Yehuda e a decisão de Mar Zutra em nome de Rav Huna, encerra-se o Perek Guimel (BaKol Mearvin) com o hadran e abre-se o Perek Dalet (Mi SheHotziuhu) com as mishnayot sobre quem foi tirado do techum por gentios ou por um espírito mau e sobre o navio vindo de Plandarsin; seguem as baraitot das três coisas, a palavra de Rav Nachman em nome de Shmuel, a dignidade humana segundo Rabba e a palavra de Rav Pappa sobre os frutos, contestada por Rav Yossef bar Shemaya. A guemará prossegue em Eruvin 42a.