Continua a baraita que Rava começou a citar no fim de 40b: na véspera de Tishá BeAv que cai no Shabat come-se sem restrição, até como o banquete de Shlomo; quando Tishá BeAv cai na sexta-feira, come-se o volume de um ovo, para não entrar no Shabat aflito, como Rabi Akiva fez diante dos alunos. Rabi Yossi diz que se jejua e se completa o jejum, e discute com os sábios se entrar no Shabat aflito é como sair dele aflito. Ulla decide como Rabi Yossi; a guemará objeta com a mishná de Rabban Gamliel e com a baraita em que Rabi Yochanan ben Nuri impede Rabi Yehoshua de anular as palavras de Rabban Gamliel, e responde que cada geração agiu como o seu mestre. A história de Rabi Elazar ben Tzadok e dos filhos de Sena’av, que jejuavam na véspera do seu Yom Tov, é explicada por Ravina: um Yom Tov rabínico é diferente do Shabat. Por fim, Rav Yossef não se lembra da decisão, e Abaye lembra-lhe que ele mesmo a ensinara em nome de Rav Yehuda e Rav.
Continuação da baraita: “…e assim também a véspera de Tishá BeAv (o nove de Av) que cai no Shabat: come e bebe tudo de que precisa, e serve à sua mesa uma refeição até como o banquete do rei Shlomo no seu tempo. Se Tishá BeAv cai na véspera do Shabat, trazem-lhe alimento do volume de um ovo, e ele come, para que não entre no Shabat estando aflito pelo jejum.”
“E assim também a véspera de Tishá BeAv que cai no Shabat” — embora, se caísse num dia comum, não comeria dois pratos cozidos, nem comeria carne, nem beberia vinho, agora que é Shabat come tudo de que precisa.
“No seu tempo” — quando a sua hora estava firme para ele, no seu reinado, pois foi rei e depois homem comum.
Continua aqui a baraita que Rava começou a citar no fim de Eruvin 40b (bloco 1400): “Tishá BeAv que cai no Shabat, e assim também a véspera de Tishá BeAv que cai no Shabat…”. A primeira parte está em Taanit 29b (conferido), onde a baraita prossegue com outro assunto, o corte de cabelo e a lavagem de roupa; a regra do banquete de Shlomo está também na Tosefta Taanit 3:12, na numeração do Sefaria (conferida). A segunda parte, sobre Tishá BeAv que cai na véspera do Shabat, está na Tosefta Taanit 2:8, na numeração do Sefaria (conferida), onde é dita em nome de Rabi Yehuda. Segundo o Rashi, a véspera de Tishá BeAv que cai no Shabat não tem as restrições da última refeição antes do jejum. As palavras “de reinado” do Rashi não foram postas no texto: “no seu tempo”, segundo ele, é o tempo em que Shlomo ainda reinava, pois foi rei e depois deixou de sê-lo; a tradução de referência diz apenas “no seu tempo”. A expressão “do rei” acompanha a tradução de referência.
Foi ensinado numa baraita: Disse Rabi Yehuda: Certa vez estávamos sentados diante de Rabi Akiva, e era o dia de Tishá BeAv que caía na véspera do Shabat; e trouxeram-lhe um ovo megulgelet (assado e ainda mole), e ele o sorveu sem sal. E não foi porque Rabi Akiva tivesse vontade dele, mas para mostrar aos alunos a halachá, que não se completa o jejum na véspera do Shabat.
“Megulgelet” — assada, mole.
“Para mostrar a halachá” — que não se completa o jejum na véspera do Shabat.
Aqui seguimos o Rashi: “megulgelet” é um ovo assado e ainda mole; a tradução de referência diz “levemente cozido”. Rabi Akiva comeu sem sal, sem prazer, só para ensinar que não se completa o jejum quando Tishá BeAv cai na sexta-feira. As palavras “que não se completa o jejum na véspera do Shabat” seguem o Rashi. O lema do Rashi diz “להראות הלכה”, onde o texto da guemará diz “לְהַרְאוֹת לַתַּלְמִידִים הֲלָכָה”.
E Rabi Yossi diz: Jejua e completa o jejum. Disse-lhes Rabi Yossi: Acaso não concordais comigo quanto a Tishá BeAv que cai no primeiro dia da semana, que se interrompe a refeição ainda de dia, no Shabat? Disseram-lhe: De fato. Disse-lhes: Que diferença me faz entrar nele, no Shabat, estando aflito, ou sair dele estando aflito?
“Que interrompe” — a refeição.
“Ainda de dia” — pois é preciso comer ainda de dia, e aceita sobre si o jejum desde que acabou de comer, embora seja Shabat.
“Aval” — de fato.
“E que diferença me faz entrar estando aflito” — por exemplo, se completou o seu jejum na véspera do Shabat.
“E que diferença me faz sair dele jejuando” — pois começa o seu jejum ainda de dia.
Quando Tishá BeAv cai no domingo, a última refeição é feita no Shabat, e o jejum começa antes do anoitecer, ainda no Shabat; os sábios aceitam isso, e Rabi Yossi argumenta que não há diferença entre sair do Shabat aflito e entrar nele aflito. A mesma discussão está na Tosefta Taanit 2:8, na numeração do Sefaria (conferida), onde Rabi Yossi responde só a Rabi Yehuda. “De fato” traduz “אֲבָל”, segundo o Rashi. Os lemas do Rashi dizem “שהוא מפסיק”, “ומה לי ליכנס” e “ומה לי לצאת ממנה כשהוא מתענה”, onde o texto da guemará diz “שֶׁמַּפְסִיק”, “מַה לִּי לִיכָּנֵס בָּהּ” e “מַה לִּי לָצֵאת מִמֶּנָּה כְּשֶׁהוּא מְעוּנֶּה”.
Disseram-lhe: Se disseste isso quanto a sair dele, é porque comeu e bebeu o dia inteiro; dirás o mesmo quanto a entrar nele estando aflito, quando não comeu nem bebeu o dia inteiro?
Os sábios distinguem: quem sai do Shabat jejuando comeu e bebeu durante todo o Shabat e não sofre com algumas horas de jejum no fim; quem entra no Shabat depois de jejuar a sexta-feira inteira entra nele aflito. Na Tosefta Taanit 2:8 (conferida), a resposta é dada a Rabi Yossi com as palavras “לא אם אמרת בזה”. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
E disse Ulla: A halachá é como Rabi Yossi. A guemará pergunta: E acaso agimos como Rabi Yossi? Mas confronta-se com uma mishná: “Não se decreta jejum sobre a comunidade nos dias de Rosh Chodesh, em Chanucá (a festa das luzes) e em Purim; e, se começaram uma série de jejuns, não interrompem; são palavras de Rabban Gamliel. Disse Rabi Meir: Embora Rabban Gamliel tenha dito que não interrompem, ele concordava que não completam o jejum; e assim também em Tishá BeAv que cai na véspera do Shabat.”
“E, se começaram” — que começaram a jejuar vinte ou trinta dias, e entraram neles dias de Chanucá ou Rosh Chodesh.
“Que não completam” — o jejum em Chanucá e Rosh Chodesh, jejuando o dia inteiro.
“E assim também em Tishá BeAv que cai na véspera do Shabat” — também não completam.
A mishná é Taanit 2:10 (conferida no Sefaria), citada também em Taanit 15b (conferido); a mishná diz “בְּרֹאשׁ חֹדֶשׁ”, no singular, e a guemará aqui diz “בְּרָאשֵׁי חֳדָשִׁים”. Segundo Rabi Meir, mesmo para Rabban Gamliel não se completa o jejum na véspera do Shabat, contra Rabi Yossi; daí a pergunta contra Ulla. As palavras “uma série de jejuns” seguem o Rashi. O lema do Rashi diz “וכן בתשעה באב שחל בע״ש”, onde o texto da guemará diz “וְכֵן בְּתִשְׁעָה בְּאָב שֶׁחָל לִהְיוֹת בְּעֶרֶב שַׁבָּת”.
E foi ensinado numa baraita: Depois da morte de Rabban Gamliel, entrou Rabi Yehoshua na casa de estudo para anular as suas palavras sobre os jejuns. Levantou-se Rabi Yochanan ben Nuri sobre os seus pés e disse: Vejo eu que o corpo vai atrás da cabeça. Todos os dias da vida de Rabban Gamliel fixamos a halachá conforme a opinião dele, e agora queres anular as suas palavras? Yehoshua, não te ouvimos, pois já foi fixada a halachá como a opinião de Rabban Gamliel. E não houve ninguém que contestasse em nada este assunto, e por isso não se completa o jejum na véspera do Shabat.
“Para anular as suas palavras” — e dizer que completam.
“Vejo eu que o corpo vai atrás da cabeça” — vejo, pelo direito e pela lei, que precisamos seguir as palavras dos primeiros.
“E não houve ninguém etc.” — vê-se, pois, que não completam.
Segundo o Rashi, Rabi Yehoshua quis anular a palavra de Rabban Gamliel e decidir que se completa o jejum; Rabi Yochanan ben Nuri respondeu que se devem seguir as palavras dos primeiros, e ninguém contestou; vê-se, pois, que na prática não se completava. As palavras “e por isso não se completa o jejum na véspera do Shabat” seguem o Rashi; “na casa de estudo” e “sobre os jejuns”, a tradução de referência. “Vejo eu que o corpo vai atrás da cabeça” é aramaico no meio da baraita. A mesma narrativa está na Tosefta Taanit 2:6, na numeração do Sefaria (conferida; 2:5 na edição Lieberman, também conferida), mas ali é o próprio Rabi Yehoshua quem responde: “אנו שומעין לך”, “nós te ouvimos”. O lema do Rashi diz “ולא היה אדם כו׳”, onde o texto da guemará continua “שֶׁעִרְעֵר בַּדָּבָר כְּלוּם”.
Responde a guemará: Na geração de Rabban Gamliel agiram como Rabban Gamliel; na geração de Rabi Yossi agiram como Rabi Yossi, e é assim que agimos.
“Na geração de Rabi Yossi” — que foi depois disso, deixaram a opinião de Rabban Gamliel e fixaram a halachá como Rabi Yossi, que é permitido.
Segundo o Rashi, a geração de Rabi Yossi, posterior, abandonou a opinião de Rabban Gamliel e fixou a halachá como Rabi Yossi; por isso a mishná e a baraita não contradizem Ulla. A palavra “דמותר”, “que é permitido”, do Rashi, parece referir-se a completar o jejum na véspera do Shabat; a leitura não é certa. As palavras “e é assim que agimos” completam o sentido da resposta, como na tradução de referência.
A guemará pergunta: E na geração de Rabban Gamliel agiram como Rabban Gamliel? Mas eis que foi ensinado numa baraita: Disse Rabi Elazar ben Tzadok: Eu sou dos filhos de Sena’av ben Binyamin. Certa vez Tishá BeAv caiu no Shabat, e o adiamos para depois do Shabat, pois não se jejua no Shabat, e jejuamos nele, no domingo, e não o completamos, porque era o nosso Yom Tov (dia de festa). Vê-se que a razão é que era Yom Tov; mas na véspera do Yom Tov completam o jejum, mesmo na geração de Rabban Gamliel!
“Dos filhos de Sena’av ben Binyamin” — é uma família da tribo de Binyamin, a quem coube a sorte da oferta de lenha no dia dez de Av, nos dias de Ezra; e tinham esse dia como Yom Tov para sempre, como ensinamos no último capítulo de Taanit.
“Para depois do Shabat” — que é o dez de Av, e era o nosso Yom Tov.
“A razão é que era Yom Tov” — mas, nos outros anos, em Tishá BeAv completavam, embora todo Tishá BeAv fosse a véspera do seu Yom Tov. E Rabi Elazar bar Tzadok viveu na geração de Rabban Gamliel, como foi ensinado em Beitzá (22b): “Disse Rabi Elazar, filho de Rabi Tzadok: Muitas vezes entrei atrás de meu pai na casa de Rabban Gamliel.”
Segundo o Rashi, a família de Sena’av levava a oferta de lenha ao Templo no dia dez de Av e o celebrava como Yom Tov; assim, todo Tishá BeAv era para eles véspera de Yom Tov, e mesmo assim completavam o jejum. Só quando o jejum foi adiado para o próprio dia dez não o completaram. Como Rabi Elazar viveu na geração de Rabban Gamliel, vê-se que então já se completava o jejum na véspera de um Yom Tov. Na Mishná Taanit 4:5 (conferida), o dia dez de Av é o dos “בְּנֵי סְנָאָה בֶן בִּנְיָמִין”. A mesma baraita está em Taanit 12a (conferido), com “רבי אלעזר ברבי צדוק” e “מבני בניו של סנאה בן בנימין”, e na Tosefta Taanit 3:6, na numeração do Sefaria (conferida), com “רבי אלעזר בר צדוק” e “הייתי”. No texto do Sefaria aqui, as palavras “(בֶּן)” e “(הָיִיתִי)” estão entre parênteses, marca de leitura a suprimir; a tradução segue a tradução de referência, “ben Tzadok” e “eu sou”. Em Beitzá 22b o Sefaria traz “רבי אליעזר בר צדוק” (conferido); “(22b)” no Rashi é marca de editor. O lema do Rashi diz “טעמא דיו״ט”, onde o texto da guemará diz “טַעְמָא דְּיוֹם טוֹב”. As palavras “pois não se jejua no Shabat”, “no domingo” e “mesmo na geração de Rabban Gamliel” seguem a tradução de referência.
Disse Ravina: É diferente um Yom Tov das palavras deles, dos sábios: uma vez que se jejua nele algumas horas, completa-se nele o jejum das vésperas. O Shabat, já que não se jejua nele nem algumas horas, não se completa nele o jejum das vésperas.
“É diferente um Yom Tov rabínico” — como esta oferta de lenha; já que é leve, pois se jejua nele por algumas horas, como ensina a baraita: “e jejuamos nele”, por isso “completa-se nele as vésperas”, isto é, é permitido completar o jejum na véspera desse Yom Tov e entrar nele estando aflito, pois mesmo no próprio dia é permitido jejuar uma parte do dia. Mas o Shabat, em que é proibido jejuar mesmo uma parte do dia por qualquer jejum, é proibido também completar nele as vésperas, pois quem completa o jejum na véspera do Shabat jejua uma parte do Shabat.
Segundo o Rashi, Ravina distingue: num Yom Tov rabínico, como o da oferta de lenha, pode-se jejuar parte do dia, como os filhos de Sena’av fizeram; por isso pode-se também completar o jejum na sua véspera e entrar nele aflito. No Shabat não se pode jejuar nem uma parte do dia, e quem completa o jejum na sexta-feira jejua, na prática, o início do Shabat. “As vésperas” traduz “עַרְבִיּוֹת”. O lema do Rashi diz “שאני יום טוב דרבנן”, onde o texto da guemará diz “שָׁאנֵי יוֹם טוֹב שֶׁל דִּבְרֵיהֶם”; o sentido é o mesmo.
Disse Rav Yossef: Não ouvi este ensinamento, de que a halachá é como Rabi Yossi. Disse-lhe Abaye, seu aluno: Tu mesmo no-lo disseste, e foi sobre esta mishná que no-lo disseste: “Não se decreta jejum sobre a comunidade nos dias de Rosh Chodesh etc.”; e dissemos sobre ela: Disse Rav Yehuda, disse Rav: Estas são as palavras de Rabi Meir, que as disse em nome de Rabban Gamliel; mas os sábios dizem: Jejua e completa o jejum.
“Não ouvi este ensinamento” — que Ulla fixou acima: a halachá é como Rabi Yossi.
“Tu no-lo disseste” — Rav Yossef adoeceu e esqueceu o seu estudo, e Abaye, o seu aluno, o fazia lembrar.
“Estas são as palavras de Rabi Meir” — que disse acima em nome de Rabban Gamliel: “Ele concordava que não completam; e assim também Tishá BeAv que cai na véspera do Shabat”; mas os sábios dizem: Jejua e completa.
Segundo o Rashi, Rav Yossef não se lembrava da decisão de Ulla, porque tinha adoecido e esquecido o seu estudo, e Abaye, o seu aluno, lembrou-lhe que ele mesmo a tinha ensinado, a propósito da mishná de Taanit 2:10 (bloco 1405). O hebraico cita só o começo da mishná, seguido de “וְכוּ׳”, “etc.”; a tradução de referência a transcreve inteira. A palavra de Rav Yehuda em nome de Rav está também em Taanit 18b (conferido), seguida da decisão de Mar Zutra em nome de Rav Huna: “הלכה מתענה ומשלים”. “Este ensinamento” traduz o aramaico “הָא שְׁמַעְתָּא”.
A guemará pergunta: Acaso não se refere a todos os casos, também a Tishá BeAv que cai na véspera do Shabat? Não, a Chanucá e Purim.
“Acaso não” — os sábios se referem a todos, tanto a Chanucá e Purim quanto à véspera do Shabat; e, como Rav ensinou a opinião de Rabi Yossi na formulação dos sábios, conclui-se daí que a halachá é como Rabi Yossi.
Segundo o Rashi, a pergunta supõe que os sábios que dizem “jejua e completa” discordam de Rabi Meir em todos os casos, também na véspera do Shabat; e, como Rav apresentou a opinião de Rabi Yossi como a dos sábios, a halachá seria como Rabi Yossi. A resposta restringe a palavra dos sábios a Chanucá e Purim. As palavras “A guemará pergunta” seguem a tradução de referência; o hebraico não diz quem pergunta.
Assim também é razoável dizer…
O daf termina no meio da frase; a prova continua em Eruvin 41b. Segundo a tradução de referência, a guemará vai mostrar que é razoável restringir a palavra dos sábios a Chanucá e Purim, e não à véspera do Shabat. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.