Ameimar conclui a história do cervo: ele não foi caçado no Yom Tov, mas trazido de fora do techum naquele mesmo dia; quem comeu sustenta que o que vem por causa de um judeu é permitido a outro, e Rav Sheshet, que não comeu, sustenta que tudo o que chega à casa do Reish Galuta vem com todos os sábios em mente; por isso, segundo essa versão, o encontro com Rabba bar Shmuel nunca aconteceu. Rava permite comprar em Mechoza nabos murchos trazidos por gentios, mas proíbe quando eles passam a trazer mais. Ravina permite cheirar logo à noite a murta cortada no segundo dia de Yom Tov, e Rava conclui que é preciso esperar o tempo necessário para que se faça. Por fim, a guemará volta à mishná de Rabi Dosa: Rabba conta que na casa de Rav Huna se perguntou se se menciona Rosh Chodesh em Rosh Hashaná; a discussão de Rabi Dosa com os sábios é explicada como sendo sobre a condição “quer hoje, quer amanhã”, e a guemará objeta com a Tosefta de Beit Shammai e Beit Hillel sobre as bênçãos de Rosh Hashaná que cai no Shabat.
…mas veio de fora do techum no próprio dia de Yom Tov, tendo sido caçado antes, e foi abatido naquele dia. Quem comeu dele, isto é, Rav Nachman e Rav Chisda, sustenta: O que vem de fora do techum por causa deste judeu é permitido a outro judeu.
“Mas veio de fora do techum” — e veio naquele mesmo dia de Yom Tov.
Continuação direta do bloco 1364 (Eruvin 39b). Segundo Ameimar, o cervo não foi caçado no Yom Tov, mas foi trazido de fora do techum naquele mesmo dia, como diz o Rashi; assim, a discussão entre os sábios não era se os dois dias de Yom Tov são uma ou duas kedushot, e sim sobre o que é trazido de fora do techum. As palavras “tendo sido caçado antes” e “foi abatido naquele dia”, e a identificação de quem comeu, seguem a tradução de referência; segundo ela, como o cervo foi trazido para o Reish Galuta, os sábios que estavam à sua mesa podiam comer dele. O lema do Rashi diz “קאתא”, onde o texto da guemará diz “אֲתָא”; o sentido é o mesmo.
E quem não comeu dele, isto é, Rav Sheshet, sustenta: Tudo o que vem à casa do Reish Galuta vem com todos os Rabanan em mente, pois é sabido que o Reish Galuta os convida a comer com ele no Yom Tov.
Segundo a tradução de referência, assim como o cervo trazido de fora do techum era proibido ao próprio Reish Galuta, era proibido também a todos os seus convidados, pois foi trazido também por causa deles. A identificação de quem não comeu e a explicação sobre o convite seguem a tradução de referência. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
A guemará pergunta: Mas eis que Rav Sheshet encontrou Rabba bar Shmuel e lhe disse o que disse?! A guemará responde: Segundo a versão de Ameimar, essas coisas nunca aconteceram.
“Mas eis que Rav Sheshet o encontrou” etc. — e, se o cervo veio de fora do techum naquele mesmo dia, por que Rav Sheshet lhe perguntaria se os dois dias são uma só kedushá ou duas kedushot?
O encontro está no bloco 1363 (Eruvin 39b): Rav Sheshet perguntou a Rabba bar Shmuel sobre as kedushot dos dois dias de Yom Tov e lhe pediu que não contasse a resposta a Rav Nachman e a Rav Chisda. Segundo o Rashi, esse diálogo só faz sentido se a questão do cervo fosse a das duas kedushot; se o cervo veio de fora do techum naquele mesmo dia, não havia motivo para a pergunta. A resposta, “לֹא הָיוּ דְבָרִים מֵעוֹלָם”, literalmente “não houve tais coisas jamais”, nega o episódio segundo a versão de Ameimar. As atribuições “A guemará pergunta” e “A guemará responde” e as palavras “Segundo a versão de Ameimar” seguem a tradução de referência.
Aquele nabo que chegou à cidade de Mechoza, trazido por mercadores gentios de fora do techum num Yom Tov da Diáspora: Rava saiu ao mercado e viu que estava murcho, e Rava permitiu comprar dele imediatamente. Disse: Este, certamente, foi arrancado da terra desde ontem.
O hebraico “לִיפְתָּא” é o nabo. Segundo a tradução de referência, era um Yom Tov da Diáspora, e os nabos foram trazidos por mercadores gentios de fora do techum; por estarem murchos, ficava claro que tinham sido arrancados antes do Yom Tov e que nenhum trabalho proibido fora feito com eles naquele dia, e por isso Rava permitiu comprá-los logo, sem esperar, depois do Yom Tov, o tempo necessário para trazê-los. As palavras em itálico seguem a tradução de referência. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
O que dirias, que veio de fora do techum e por isso deveria ser proibido? O que vem por causa deste judeu é permitido a outro judeu comer, e com mais razão este nabo, que veio com os gentios em mente, e não por causa dos judeus.
Rava aplica a regra citada no bloco 1365: o que é trazido de fora do techum por causa de um judeu é permitido a outro judeu; com mais razão o que foi trazido para os próprios gentios, e por isso os judeus podiam comprá-lo, segundo a tradução de referência. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
Quando Rava viu que os gentios aumentavam a quantidade e os traziam, proibiu-os aos habitantes de Mechoza.
“Que aumentavam” — os gentios aumentavam e traziam; Rava disse: Estes, certamente, aumentaram e trouxeram com os judeus em mente; e os proibiu.
Segundo o Rashi, o aumento mostrava que os gentios passaram a trazer os nabos por causa dos judeus, e então valia a proibição do que é trazido de fora do techum por causa de quem o recebe. As palavras “aos habitantes de Mechoza” seguem a tradução de referência, que acrescenta que os nabos eram trazidos nos dias de Yom Tov por causa dos fregueses judeus.
Aqueles bnei gananá (fabricantes de dosséis), para quem gentios cortaram murta no segundo dia de Yom Tov: à noite, na saída do Yom Tov, Ravina lhes permitiu cheirá-la imediatamente. Rava bar Tachlifa disse a Ravina: Que o mestre o proíba a eles, porque não são conhecedores da Torá.
“Bnei gananá” — os que amarram dosséis para os noivos e colocam ali murta.
“Porque não são conhecedores da Torá” — e viriam a tratar com leviandade o segundo dia de Yom Tov.
Ravina permitiu cheirar a murta logo ao anoitecer, sem esperar o tempo necessário para cortá-la, porque o segundo dia de Yom Tov é mais leve, como explica o Rashi em Eruvin 39b (bloco 1363). Ali o Rashi cita este episódio com as palavras “דגזו להו נכרים אסא”, “para quem gentios cortaram murta”; por isso “gentios” vem em itálico. A tradução de referência entende que os próprios fabricantes cortaram a murta. “À noite” traduz “לְאוּרְתָּא”; “na saída do Yom Tov” completa o sentido. “Fabricantes de dosséis” segue a tradução de referência, e o Rashi explica que se trata dos dosséis dos noivos, enfeitados com murta. O lema do segundo comentário do Rashi diz “לפי שאינן”, onde o texto da guemará diz “מִפְּנֵי שֶׁאֵינָן”; o sentido é o mesmo.
Rav Shemaya objetou a isto: A razão é que eles não são conhecedores da Torá; mas, para os conhecedores da Torá, é permitido?! Mas eis que precisamos esperar o tempo necessário para que se faça a coisa, isto é, para cortar a murta! Foram e perguntaram a Rava; ele lhes disse: Precisamos esperar o tempo necessário para que se faça a coisa.
“O tempo necessário para que se faça” traduz “בִּכְדֵי שֶׁיֵּעָשׂוּ”: depois do Yom Tov, espera-se o tempo que levaria para fazer, depois do anoitecer, aquilo que foi feito no Yom Tov; aqui, o tempo de cortar a murta. Segundo o Rashi em Eruvin 39b (bloco 1363), esta palavra de Rava é a conclusão: também no segundo dia de Yom Tov é preciso esperar, para que não venham a tratá-lo com leviandade. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
Aprendemos na mishná: “Rabi Dosa diz: Quem passa diante da arca” etc., isto é, quem conduz a oração da congregação no Yom Tov de Rosh Hashaná diz: “Fortalece-nos, Hashem, nosso Deus, neste dia de Rosh Chodesh, quer seja hoje, quer amanhã”.
A guemará cita as primeiras palavras de Rabi Dosa ben Harkinas na Mishná Eruvin 3:9 (bloco 1350, Eruvin 39a); é citação de mishná dentro da guemará, e não uma nova mishná. O hebraico abrevia com “כּוּ׳”, “etc.”; o conteúdo indicado em itálico segue a mishná, conferida no Sefaria, e a tradução de referência. Na mishná o nome é “רַבִּי דוֹסָא בֶן הַרְכִּינָס”; aqui a guemará diz só “רַבִּי דּוֹסָא”. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
Rabba disse: Quando estávamos na casa de estudo de Rav Huna, levantou-se para nós a pergunta: Qual é a halachá quanto a mencionar na oração o dia de Rosh Chodesh em Rosh Hashaná? Uma vez que estão separados nos mussafin (sacrifícios adicionais), dizemos que se mencionam ambos? Ou, talvez, uma só menção de lembrança vale para isto e para aquilo?
“Uma vez que estão separados nos mussafin” — pois se oferecem os sacrifícios adicionais de Rosh Chodesh e os sacrifícios adicionais de Rosh Hashaná, como está escrito (Bamidbar 29:6): “Além do holocausto do mês”.
“Dizemos” — também na oração: “Este dia de Rosh Chodesh e este Dia da Lembrança”.
“Uma só lembrança” — diz-se somente “este Dia da Lembrança”, pois o Misericordioso o chama “lembrança”, como está escrito (Vayikrá 23:24): “Lembrança de teruá (toque do shofar)”; e também sobre Rosh Chodesh está escrito (Bamidbar 10:10): “E serão para vós por lembrança”.
Rabba relata uma dúvida da casa de estudo de Rav Huna: em Rosh Hashaná, que é também o Rosh Chodesh de Tishrei, deve-se mencionar Rosh Chodesh na oração? Segundo o Rashi, como cada um tem os seus próprios sacrifícios adicionais, talvez se devam mencionar ambos os dias; ou talvez baste dizer “este Dia da Lembrança”, pois a Torá chama ambos de “lembrança”. Referências conferidas no Sefaria: Bamidbar 29:6 (“מִלְּבַד עֹלַת הַחֹדֶשׁ”), Vayikrá 23:24 (“זִכְרוֹן תְּרוּעָה”) e Bamidbar 10:10 (“וְהָיוּ לָכֶם לְזִכָּרוֹן”, dito sobre os dias de Rosh Chodesh, entre outros). No hebraico do Rashi, a frase “ובר״ח נמי כתיב והיו לכם לזכרון” está entre colchetes, marca de editor; foi traduzida no texto sem os colchetes. A referência “(במדבר כ״ט:ו׳)” também é marca de editor. As palavras “qual é a halachá quanto a” e “na oração” seguem a tradução de referência.
Rav Huna disse-nos: Já o aprendestes na mishná: “Rabi Dosa diz: Quem passa diante da arca” etc., e os sábios não concordaram com ele. Não é que discordam dele quanto a mencionar Rosh Chodesh em Rosh Hashaná?
“Não é” — a frase “não concordaram” refere-se a mencionar, isto é, que não concordaram com ele em mencionar Rosh Chodesh em Rosh Hashaná.
Rav Huna entende que os sábios, que não concordaram com Rabi Dosa (Mishná Eruvin 3:9, conferida: “וְלֹא הוֹדוּ לוֹ חֲכָמִים”), discordaram da própria menção de Rosh Chodesh em Rosh Hashaná, como explica o Rashi; assim a dúvida estaria resolvida. A identificação de quem fala, “Rav Huna”, segue a tradução de referência. O hebraico do Rashi escreve “אלהזכיר”, contração de “על להזכיר”, “sobre mencionar”.
A guemará refuta: Não, discordam quanto a fazer a condição “quer seja hoje, quer amanhã”.
“Fazer a condição” — “quer seja hoje, quer amanhã”; mas diga-se a menção sem especificar, e assim também no dia seguinte.
Segundo o Rashi, os sábios não se opõem à menção de Rosh Chodesh, mas à condição: deve-se mencioná-lo sem especificar, nos dois dias. A tradução de referência explica que a novidade de Rabi Dosa não era a menção, mas a condição feita por causa da dúvida sobre o dia.
Assim também é razoável dizer, pelo que foi ensinado numa baraita: “E assim Rabi Dosa fazia nos dias de Rosh Chodesh de todo o ano, e os sábios não concordaram com ele”.
“Nos dias de Rosh Chodesh de todo o ano” — que são dias de dúvida, pois não se sabe se o tribunal fez o ibur do mês anterior.
Nos meses em que se observam dois dias de Rosh Chodesh, Rabi Dosa também fazia a condição “quer hoje, quer amanhã”; o Rashi explica que a dúvida é se o tribunal acrescentou um dia ao mês anterior, fazendo-o de trinta dias. A tradução de referência acrescenta que se trata dos dias de Rosh Chodesh em que se observam dois dias por causa da dúvida.
Está bem se dizes que discordam quanto a fazer a condição: por isso não concordaram com ele também nos dias de Rosh Chodesh de todo o ano. Mas, se dizes que discordam quanto a mencionar, por que não concordaram com ele quanto aos dias de Rosh Chodesh de todo o ano?
Nos dias de Rosh Chodesh de todo o ano, todos concordam que se menciona Rosh Chodesh na oração; se os sábios discordaram de Rabi Dosa também ali, a discussão só pode ser sobre a condição, como explica a tradução de referência. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
A guemará pergunta: Mas então, o quê? Discordam quanto a fazer a condição? Para que preciso que discordem em dois casos? A guemará responde: Foi necessário ensinar ambos. Pois, se nos tivesse feito saber somente o caso de Rosh Hashaná, diria eu que nisto os Rabanan dizem que não se faz a condição, porque viriam a tratá-lo com leviandade; mas, nos dias de Rosh Chodesh de todo o ano, diria eu que concordam com Rabi Dosa.
“Tratá-lo com leviandade” — se o considerarmos dia de dúvida, viriam a tratar com leviandade o segundo dia; mas, quando dizemos a menção sem especificar, consideramo-los uma só kedushá.
“Mas nos outros meses” — em que é permitido fazer trabalho, e não há por que temer que os tratem com leviandade, diria eu que concordam com ele.
Segundo o Rashi, em Rosh Hashaná a condição “quer hoje, quer amanhã” mostraria que um dos dias talvez seja dia comum, e viriam a trabalhar no segundo dia; dizendo a menção sem especificar, os dois dias são tratados como uma só kedushá. Nos outros dias de Rosh Chodesh o trabalho é permitido, e esse temor não existe. As atribuições “A guemará pergunta” e “A guemará responde” seguem a tradução de referência. O lema do segundo comentário do Rashi diz “אבל בשאר חדשים”, “mas nos outros meses”, onde o texto da guemará diz “אֲבָל בְּרָאשֵׁי חֳדָשִׁים שֶׁל כׇּל הַשָּׁנָה כּוּלָּהּ”; o sentido é o mesmo.
E, se tivesse sido dito somente neste caso, dos dias de Rosh Chodesh de todo o ano, diria eu que neste Rabi Dosa diz que se faz a condição; mas, naquele de Rosh Hashaná, diria eu que concorda com os Rabanan. Por isso foi necessário ensinar ambos.
Em Rosh Hashaná, Rabi Dosa poderia concordar com os Rabanan por causa do temor de que tratem o Yom Tov com leviandade, como diz a tradução de referência; por isso a discussão precisou ser ensinada nos dois casos. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
A guemará objeta: “Rosh Hashaná que cai no Shabat: Beit Shammai dizem: Reza dez bênçãos na Amidá; e Beit Hillel dizem: Reza nove”. E, se fosse assim, que se menciona Rosh Chodesh à parte em Rosh Hashaná, para Beit Shammai não seriam necessárias onze?
“Reza dez” — as três primeiras bênçãos e as três últimas, e a do Shabat por si mesma, eis sete; e a santidade do dia, e inclui com ela Malchuyot (os versículos da realeza), eis oito; e Zichronot (os versículos das lembranças) e Shofarot (os versículos do shofar), eis dez.
“E Beit Hillel dizem: Reza nove” — pois inclui o Shabat e o Yom Tov numa só bênção, e conclui: “Que santifica o Shabat, e Israel, e o Dia da Lembrança”.
“E, se fosse assim” — que se menciona Rosh Chodesh, para Beit Shammai, que exigem para cada um uma bênção por si mesma, seriam necessárias onze.
A fonte citada está na Tosefta Rosh Hashaná 2:13, na numeração do Sefaria (conferida), que diz “יוֹם טוֹב שֶׁל רֹאשׁ הַשָּׁנָה שֶׁחָל לִהְיוֹת בְּשַׁבָּת”; a guemará a cita de forma abreviada, e a tradução de referência a identifica como Tosefta. Segundo o Rashi, Beit Shammai exigem uma bênção à parte para cada santidade; se fosse preciso mencionar Rosh Chodesh em Rosh Hashaná, teriam de contar onze bênçãos. As palavras “bênçãos na Amidá” seguem a tradução de referência. O daf termina com esta pergunta; a resposta vem em Eruvin 40b.