Talmud Bavli · Massechet Eruvin · Perek Guimel (BaKol Mearvin)
שְׁנֵי לוּגִּין שֶׁאֲנִי עָתִיד לְהַפְרִישׁ

Os dois luguin que hei de separar; Ulla ensina par a par; Rabi Yossi e os kinin das duas mulheres; Rav Chisda

Eruvin 37a — Perek Guimel (BaKol Mearvin, Eruvin 26b:17-41b:5) · continuação da guemará sobre a mishná da condição sobre o eruv (Eruvin 3:5): quem compra vinho entre os kutim, Ulla e a baraita de Ayo, Rabi Yossi e a bererá, os kinin das duas mulheres, Rabba e Rav Chisda · continua de Eruvin 36b; a guemará continua em Eruvin 37b

A guemará termina de citar a fonte sobre quem compra vinho entre os kutim: segundo Rabi Meir, ele pode designar agora dois luguin que separará no futuro como terumá, dez como maaser rishon e nove como maaser sheni, profanar o maaser sheni e beber imediatamente; Rabi Yehuda, Rabi Yossi e Rabi Shimon proíbem, o que parece mostrar que Rabi Yehuda não sustenta que há bererá. Ulla, ao contrário, rejeita a baraita de Ayo por causa da mishná, e ensina os nomes par a par: Rabi Meir e Rabi Yehuda permitem, Rabi Yossi e Rabi Shimon proíbem. A guemará pergunta se Rabi Yossi realmente rejeita a bererá, à luz da mishná das duas mulheres que tomaram os seus kinin em comum; Rabba responde que ali elas estipularam, e a guemará explica que a mishná ensina como Rav Chisda, cuja palavra continua em Eruvin 37b.

Quem compra vinho entre os kutim (continuação) · הַלּוֹקֵחַ יַיִן מִבֵּין הַכּוּתִים

1276Dois luguin que hei de separar
A mishná citada (continuação)
אוֹמֵר: שְׁנֵי לוּגִּין שֶׁאֲנִי עָתִיד לְהַפְרִישׁ הֲרֵי הֵן תְּרוּמָה, עֲשָׂרָה מַעֲשֵׂר רִאשׁוֹן, תִּשְׁעָה מַעֲשֵׂר שֵׁנִי, וּמֵיחֵל וְשׁוֹתֶה מִיָּד — דִּבְרֵי רַבִּי מֵאִיר. רַבִּי יְהוּדָה וְרַבִּי יוֹסֵי וְרַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹסְרִין.

…diz: Dois luguin (medidas de líquidos; plural de log) dos cem que estão aqui, que hei de separar no futuro, quando terminar de beber, eis que são terumá (a porção do kohen); dez luguin serão maaser rishon (primeiro dízimo); nove luguin, que são a décima parte dos noventa restantes, serão maaser sheni (segundo dízimo); e ele mechal (resgata com moedas) o maaser sheni, que, na sua santidade, só pode ser consumido em Jerusalém, e bebe imediatamente, pois o vinho que restar no fim será a terumá e os dízimos — esta é a palavra de Rabi Meir. Rabi Yehuda, Rabi Yossi e Rabi Shimon proíbem beber o vinho deste modo. Parece, portanto, que Rabi Yehuda não sustenta que há bererá (designação retroativa), ao contrário da nossa mishná e de acordo com Ayo.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “omer shnei luguin she’ani atid lehafrish trumá”
אומר שני לוגין שאני עתיד להפריש תרומה - מן המאה:

“Diz: Dois luguin que hei de separar serão terumá” — dois dos cem luguin.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “harei hen”
הרי הן - בתוכו:

“Eis que são” — terumá, estando ainda dentro dele, isto é, dentro do vinho, sem terem sido separados.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “umechal”
ומיחל - מעשר שני שהוא יכול לתקן מיד בלא הפרשה לאחר שקרא עליו שם יחללנו בכל מקום שהוא על המעות ושותה מיד ולאחר זמן יפריש התרומה והמעשר ואמרינן הוברר הדבר שזהו תרומה:

“E ele profana” — o maaser sheni, que ele pode corrigir imediatamente, sem separação: depois que lhe deu o nome, isto é, depois que o designou como maaser sheni, profana-o, onde quer que esteja, sobre as moedas, e bebe imediatamente; e depois de algum tempo separa a terumá e o maaser, e dizemos: Esclareceu-se a coisa, retroativamente, que isto é terumá.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “osserin”
אוסרין - קס"ד השתא דטעמייהו משום דקסברי אין ברירה:

“Proíbem” — agora te ocorre pensar que a razão deles é porque sustentam que não há bererá.

Nota

Esta frase continua a citação que termina Eruvin 36b (bloco 1275): “Quem compra vinho entre os kutim…”. No Sefaria, a Mishná Demai 7:4 tem uma forma mais breve (“dez” sem “primeiro”, “profana e bebe” sem “imediatamente”, e sem a disputa entre Rabi Meir e os outros sábios); a forma completa, com “profana e bebe imediatamente, palavra de Rabi Meir; Rabi Yehuda, Rabi Yossi e Rabi Shimon proíbem”, está na Tosefta Demai 8:5, e por isso a tradução de referência atribui a fonte à Tosefta. Os “cem luguin” vêm do Rashi e da tradução de referência; não estão no hebraico deste daf.

Ulla: Ayo não é aceito por causa da mishná · לֵיתָא לְאַיּוֹ מִמַּתְנִיתִין

1277A de Ayo não é, por causa da mishná
Ulla
עוּלָּא אָמַר: לֵיתָא לְאַיּוֹ מִמַּתְנִיתִין. וְאֶלָּא הָא דְּקָתָנֵי: רַבִּי יְהוּדָה וְרַבִּי יוֹסֵי וְרַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹסְרִין —

Ulla também notou a contradição entre as palavras de Rabi Yehuda, mas disse o contrário: A baraita de Ayo não deve ser aceita por causa da mishná. A guemará pergunta: Mas então, e aquilo que a fonte citada ensina: Rabi Yehuda, Rabi Yossi e Rabi Shimon proíbem? Daí se vê, como foi demonstrado, que Rabi Yehuda não sustenta que há bererá.

Nota

O hebraico diz “דְּקָתָנֵי”, “o que se ensina”, referindo-se à fonte citada no fim de Eruvin 36b; a tradução de referência a identifica com a Tosefta, onde estão as palavras “Rabi Yehuda, Rabi Yossi e Rabi Shimon proíbem” (Tosefta Demai 8:5). Não há Rashi do Sefaria para este segmento.

1278Ulla ensina par a par
Ulla
עוּלָּא זוּזֵי זוּזֵי קָתָנֵי: דִּבְרֵי רַבִּי מֵאִיר וְרַבִּי יְהוּדָה, רַבִּי יוֹסֵי וְרַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹסְרִין.

Ulla ensina os nomes dos sábios par a par: A permissão é a palavra de Rabi Meir e Rabi Yehuda; Rabi Yossi e Rabi Shimon proíbem beber o vinho deste modo. Portanto, Rabi Yehuda concorda com Rabi Meir e sustenta que há bererá, de acordo com a mishná.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “zuzei”
[זוזי - זוגי]:

“Zuzei” — quer dizer pares.

Nota

No Sefaria, este comentário do Rashi aparece inteiro entre colchetes, marca de editor que indica um acréscimo ao texto; o hebraico foi mantido como está. O Rashi explica a palavra aramaica “זוּזֵי” como “זוגי”, “pares”, e assim se traduziu “par a par”.

Rabi Yossi e os kinin das duas mulheres · שְׁתֵּי נָשִׁים שֶׁלָּקְחוּ אֶת קִינֵּיהֶן

1279Duas mulheres que tomaram os seus kinin em comum
A guemará
וְסָבַר רַבִּי יוֹסֵי אֵין בְּרֵירָה? וְהָתְנַן: רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר: שְׁתֵּי נָשִׁים שֶׁלָּקְחוּ אֶת קִינֵּיהֶן בְּעֵירוּב, אוֹ שֶׁנָּתְנוּ קִינֵּיהֶן לַכֹּהֵן — אֵיזֶהוּ שֶׁיִּרְצֶה כֹּהֵן יַקְרִיב עוֹלָה, וּלְאֵיזֶה שֶׁיִּרְצֶה יַקְרִיב חַטָּאת!

A guemará pergunta: E Rabi Yossi sustenta que não há bererá? Mas não aprendemos numa mishná: Rabi Yossi diz: Duas mulheres que tomaram os seus kinin (pares de aves), que trazem como ofertas de purificação depois do parto, em comum, sem especificar qual par era de qual mulher, ou que deram os seus kinin ao kohen sem lhe dizer quais aves foram consagradas como oferta de pecado e quais como oferta queimada — a ave que o kohen quiser, oferecerá como olá (oferta queimada), e a que quiser, oferecerá como chatat (oferta de pecado)! Portanto, Rabi Yossi sustenta que há bererá: quando o kohen oferece uma das aves, esclarece-se retroativamente que aquela ave fora destinada àquela mulher e àquele sacrifício.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “be’eruv”
בעירוב - בשותפות:

“Em comum” — em sociedade.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “le’eize”
לאיזה - מן הקינין שירצה ב' הפרידות יקריב עולות לשתי הנשים ואת קן הא' יקריב שתיהן חטאות לשתי הנשים וכ"ש אם בא לחלק כל קן וקן פרידה לעולה ופרידה לחטאת דשפיר דמי אלמא מדקא אמר שמותר ליקח קיניהן בעירוב מכלל דיש ברירה דאמרינן הוברר הדבר שזו הפרידה שהקריב לשמה של זו שלה היא דשם בעלים בעינן דאי אין ברירה איכא למימר חטאת ועולה שהקריב לה לא שלה היו אלא של חברתה וקרבן הקרב בשנוי בעלים קי"ל בפסחים (דף ס:) ובזבחים (דף ב.) דאינו עולה לבעלים וכ"ש בחטאת שלא לשמה או שלא לשם בעליה לגמרי מיפסלא וקביעות שם בעלים אינו תלוי בכהן:

“Para qual” — dos ninhos que quiser: as duas aves de um ninho oferecerá como olot (ofertas queimadas) para as duas mulheres, e, do outro ninho, oferecerá as duas aves como chataot (ofertas de pecado) para as duas mulheres; e com mais razão, se vier dividir cada ninho, uma ave para olá e uma ave para chatat, é evidente que está bem. Portanto, pelo fato de dizer que é permitido tomar os seus ninhos em comum, conclui-se que há bererá, pois dizemos: Esclareceu-se a coisa, que esta ave que ofereceu em nome desta mulher é dela; pois precisamos do nome do dono, isto é, que o sacrifício seja oferecido em nome do seu dono; pois, se não há bererá, pode-se dizer que a chatat e a olá que ofereceu por ela não eram dela, mas da sua companheira; e, quanto a um sacrifício oferecido com mudança de dono, estabelecemos em Pesachim (60b) e em Zevachim (2a) que não conta para o dono; e com mais razão a chatat oferecida não para o seu fim, ou não em nome do seu dono, é inteiramente invalidada; e a fixação do nome do dono não depende do kohen.

Nota

A mishná citada é a Mishná Kinnim 1:4 (numeração do Sefaria). Ali se lê “שֶׁנָּתְנוּ דְמֵי קִנֵּיהֶן”, “que deram o dinheiro dos seus kinin” ao kohen, onde a guemará diz “que deram os seus kinin”; e a ordem é “chatat… olá”, onde a guemará diz “olá… chatat”. A explicação “depois do parto” é da tradução de referência; a mishná de Kinnim trata tanto da mulher que deu à luz como da zavá. Referências do Rashi conferidas: Zevachim 2a traz a mishná segundo a qual os sacrifícios abatidos não para o seu fim são válidos, “mas não contam para os donos”, exceto o pessach e a chatat; Pesachim 60b discute o pessach abatido para um fim e para outro. A expressão “mudança de dono” não aparece literalmente nessas duas páginas; a referência é mantida como o Rashi a dá.

1280Ali, quando estipularam
Rabba
אָמַר רַבָּה: הָתָם — כְּשֶׁהִתְנוּ.

Rabba disse: Não há prova dali, pois ali, na mishná das duas mulheres, trata-se de um caso especial: quando elas estipularam de antemão.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “keshehitnu”
כשהתנו - הנשים ביניהן שכל מי שיקריב הכהן לשמה יהא שלה:

“Quando estipularam” — as mulheres, entre si, que tudo o que o kohen oferecer em nome de uma delas será dela.

Nota

A tradução de referência descreve a condição como uma estipulação de que o kohen decidiria qual ave seria de qual mulher e como qual sacrifício; seguiu-se aqui o Rashi, para quem a estipulação foi feita pelas mulheres entre si.

1281Os kinin não se designam
A guemará
אִי הָכִי, מַאי לְמֵימְרָא? קָא מַשְׁמַע לַן כִּדְרַב חִסְדָּא, דְּאָמַר רַב חִסְדָּא: אֵין הַקִּינִּין מִתְפָּרְשׁוֹת.

A guemará pergunta: Se é assim, o que há para dizer? Se fizeram uma condição explícita, é evidente que o kohen pode cumpri-la. A guemará responde: A mishná nos ensina que a halachá é como Rav Chisda, pois Rav Chisda disse: Os kinin não se designam como olá ou como chatat…

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “i hachi mai lemeimra”
אי הכי מאי למימרא - כיון דמדעת כהן תלוי:

“Se é assim, o que há para dizer?” — já que a coisa depende da decisão do kohen.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “kamashma lan kidRav Chisda”
קמ"ל כדרב חסדא - שאע"פ שהיה כל קן וקן בפני עצמו אלא שלקחום ביחד וסד"א על כרחו מכל קן צריך לעשות חטאת ועולה ולא יוכל לעשות מן הקן הא' שתי עולות לשתי הנשים ומקן השני ב' חטאות דלאו אדעתא דהכי יהבינהו קא משמע לן כיון דלא אקבעינהו בהדיא בשעת לקיחה לאמר פרידה זו חטאת ופרידה זו עולה אפילו קבעום לאחר לקיחה יכול הכהן לעשות כמה שירצה:

“Ensina-nos como Rav Chisda” — que, embora cada ninho estivesse à parte, só que os tomaram juntos, e te ocorreria dizer que forçosamente de cada ninho ele precisa fazer uma chatat e uma olá, e não pode fazer do primeiro ninho duas olot para as duas mulheres e do segundo ninho duas chataot, pois não os deram com essa intenção; a mishná nos ensina que, já que não os fixaram explicitamente na hora da compra, dizendo: Esta ave é chatat e esta ave é olá, mesmo que os fixem depois da compra, o kohen pode fazer como quiser.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ein hakinin”
אין הקינין - של כל מחוסרי כפרה מתפרשות איזו עולה ואיזו חטאת:

“Os kinin não” — de todos os que carecem de expiação — se designam, dizendo qual é olá e qual é chatat.

Nota

O Rashi abrevia “קא משמע לן” como “קמ״ל” e “סלקא דעתך” como “סד״א”. A palavra de Rav Chisda, que diz em que momento os kinin se designam, e o comentário do Rashi sobre ela continuam em Eruvin 37b; o daf termina no meio da frase.