Talmud Bavli · Massechet Eruvin · Perek Guimel (BaKol Mearvin)
סְפֵיקָא לְחוּמְרָא

A força de Rabi Yossi e de Rabi Meir; a dúvida na impureza dos Rabanan; perfurar os montes; as duas turmas de testemunhas

Eruvin 35b — Perek Guimel (BaKol Mearvin, Eruvin 26b:17-41b:5) · guemará sobre a mishná do eruv que se queimou ou, sendo terumá, se tornou impuro (Eruvin 3:4): Rabi Meir e a dúvida, os techumin da Torá, as duas turmas de testemunhas · continua de Eruvin 35a; a guemará continua em Eruvin 36a

A guemará termina a resposta começada em Eruvin 35a: a mishná ensina o eruv queimado para mostrar a força de Rabi Yossi, que o valida na dúvida embora já não exista, e a terumá impura para mostrar a força de Rabi Meir, que é rigoroso embora ela ainda exista. Pergunta-se então se Rabi Meir é rigoroso na dúvida, pois a mishná dos mikvaot, que é anônima e segue Rabi Meir, declara puro quem tem dúvida sobre a sua imersão numa impureza dos Rabanan; a resposta é que, para Rabi Meir, os techumin são da Torá. Mas ele mesmo transmitiu que se perfuram os montes ao medir o techum, o que não se faz no que é da Torá; responde-se que essa opinião é do seu mestre, como mostra a palavra “ouvi”. Contrapõe-se ainda a mishná de quem tocou alguém à noite e o achou morto de manhã, que Rabi Meir declara puro pela presunção. Rabi Yirmeya explica a mishná num sheretz que esteve sobre a terumá durante todo o crepúsculo, o que a guemará rejeita, e Rabba e Rav Yossef explicam-na com duas turmas de testemunhas que se contradizem. O texto continua em Eruvin 36a.

Queimado ou terumá impura: a força de Rabi Yossi e a de Rabi Meir · לְהוֹדִיעֲךָ כֹּחוֹ

1232Para te fazer saber a força de cada um
A guemará
לְהוֹדִיעֲךָ כֹּחוֹ דְּרַבִּי יוֹסֵי. תְּנָא תְּרוּמָה וְנִטְמֵאת — לְהוֹדִיעֲךָ כֹּחוֹ דְּרַבִּי מֵאִיר.

…para te fazer saber a força de Rabi Yossi, que valida o eruv na dúvida se ele se queimou antes ou depois de escurecer, embora o eruv já não exista. E ensinou o caso de “terumá e se tornou impura” para te fazer saber a força de Rabi Meir, que é rigoroso mesmo quando a terumá ainda existe e a dúvida é só sobre o momento em que se tornou impura.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “lehodiacha kocho deRabi Yossi”
להודיעך כחו דר' יוסי - דאע"ג דאינו בעולם לא מיתסר:

“Para te fazer saber a força de Rabi Yossi” — pois, embora o eruv não exista mais no mundo, ele não fica proibido de andar.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “lehodiacha kocho deRabi Meir”
להודיעך כחו דר"מ - דאע"ג דישנה בעולם וי"ל העמידנה בבין השמשות על חזקתה וקודם לכן טהורה היתה אפ"ה לא אמרינן חזקה לקולא:

“Para te fazer saber a força de Rabi Meir” — pois, embora ela, a terumá, exista no mundo, e haja como dizer: Mantém-na, no crepúsculo, na sua chazaká (presunção de estado anterior), pois antes disso era pura, mesmo assim não dizemos que se segue a chazaká para ser leniente.

Nota

Este segmento completa a resposta que ficou cortada no fim de Eruvin 35a (bloco 1231): “Ensinou o caso em que ‘se queimou’…”. O hebraico “לְהוֹדִיעֲךָ כֹּחוֹ” (“para te fazer saber a força”) indica que a mishná escolheu o caso mais extremo para mostrar até onde vai cada opinião. As explicações acrescentadas seguem o Rashi e a tradução de referência.

Rabi Meir é rigoroso na dúvida? A mishná dos mikvaot · סְפֵיקָא לְחוּמְרָא

1233Mas não aprendemos: sua dúvida é impuro?
A guemará
וְסָבַר רַבִּי מֵאִיר סְפֵיקָא לְחוּמְרָא? וְהָתְנַן: טָמֵא שֶׁיָּרַד לִטְבּוֹל, סָפֵק טָבַל סָפֵק לֹא טָבַל; וַאֲפִילּוּ טָבַל — סָפֵק טָבַל בְּאַרְבָּעִים סְאָה, סָפֵק לֹא טָבַל בְּאַרְבָּעִים סְאָה; וְכֵן שְׁנֵי מִקְווֹאוֹת — בְּאַחַת יֵשׁ בָּהּ אַרְבָּעִים סְאָה, וּבְאַחַת אֵין בָּהּ אַרְבָּעִים סְאָה; וְטָבַל בְּאַחַת מֵהֶן, וְאֵינוֹ יוֹדֵעַ בְּאֵיזֶה מֵהֶן טָבַל — סְפֵיקוֹ טָמֵא.

A guemará pergunta sobre a própria mishná: E Rabi Meir sustenta que o safek (dúvida) se resolve com rigor? Mas não aprendemos numa mishná: Uma pessoa impura que desceu para imergir num mikvê, e há dúvida se imergiu, dúvida se não imergiu; e, mesmo que com certeza imergiu, há dúvida se imergiu em quarenta seá (medida de volume) de água, o mínimo para que o mikvê seja válido, dúvida se não imergiu em quarenta seá; e assim também se havia dois mikvaot (banhos rituais), num dos quais há quarenta seá, e por isso é válido, e no outro não há quarenta seá, e imergiu num deles, e não sabe em qual deles imergiu: em todos estes casos, por causa da sua dúvida, ele permanece impuro?

Nota

A mishná citada é a Mishná Mikvaot 2:1 (numeração do Sefaria): “הַטָּמֵא שֶׁיָּרַד לִטְבֹּל… סְפֵקוֹ טָמֵא”, com pequenas diferenças de grafia e de redação em relação à citação da guemará (a edição avulsa diz “סָפֵק יֶשׁ בּוֹ אַרְבָּעִים סְאָה סָפֵק אֵין בּוֹ”); o sentido é o mesmo. A continuação, nos blocos 1234 a 1236, está na Mishná Mikvaot 2:2. A citação não é uma nova mishná do tratado, mas uma mishná de outro tratado trazida pela guemará.

1234Na impureza grave
A guemará
בַּמֶּה דְּבָרִים אֲמוּרִים — בְּטוּמְאָה חֲמוּרָה.

E a mishná continua: Em que caso foram ditas estas palavras, que na dúvida ele permanece impuro? Na impureza grave, isto é, aquela que torna a pessoa impura pela Torá, como a que vem de um av hatumá (fonte primária de impureza).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “betumá chamurá”
בטומאה חמורה - שניטמא בטומאה המטמאתו מן התורה כגון באב הטומאה:

“Na impureza grave” — que se tornou impuro por uma impureza que o torna impuro pela Torá, como por um av hatumá.

Nota

Na Mishná Mikvaot 2:2 a pergunta “Em que caso foram ditas estas palavras?” vem depois da regra do mikvê que foi medido e se achou faltando; a guemará cita só a parte que lhe interessa. A explicação de “impureza grave” segue o Rashi.

1235Na impureza leve, sua dúvida é puro
A guemará
אֲבָל בְּטוּמְאָה קַלָּה, כְּגוֹן שֶׁאָכַל אוֹכָלִין טְמֵאִין וְשָׁתָה מַשְׁקִין טְמֵאִין, וְהַבָּא רֹאשׁוֹ וְרוּבּוֹ בְּמַיִם שְׁאוּבִין, אוֹ שֶׁנָּפְלוּ עַל רֹאשׁוֹ וְעַל רוּבּוֹ שְׁלֹשָׁה לוּגִּין מַיִם שְׁאוּבִין, וְיָרַד לִטְבּוֹל; סָפֵק טָבַל סָפֵק לֹא טָבַל; וַאֲפִילּוּ טָבַל — סָפֵק טָבַל בְּאַרְבָּעִים סְאָה, סָפֵק לֹא טָבַל בְּאַרְבָּעִים סְאָה; וְכֵן שְׁנֵי מִקְווֹאוֹת — בְּאַחַת יֵשׁ בָּהּ אַרְבָּעִים סְאָה, וְאַחַת אֵין בָּהּ אַרְבָּעִים סְאָה; וְטָבַל בְּאַחַת מֵהֶן, וְאֵינוֹ יוֹדֵעַ בְּאֵיזֶה מֵהֶן טָבַל — סְפֵיקוֹ טָהוֹר.

Mas na impureza leve, imposta só por decreto dos Rabanan, como quem comeu meio peras (meia porção de pão) de alimentos impuros, e quem bebeu líquidos impuros, e quem entrou com a cabeça e a maior parte do corpo em água tirada, isto é, tirada com um recipiente, e não de fonte nem de chuva, ou aquele sobre cuja cabeça e sobre a maior parte do corpo caíram três log (medida de líquidos) de água tirada, casos em que os Sábios decretaram que ele fica impuro, e desceu para imergir a fim de se purificar; e há dúvida se imergiu, dúvida se não imergiu; e, mesmo que com certeza imergiu, há dúvida se imergiu em quarenta seá, dúvida se não imergiu em quarenta seá; e assim também se havia dois mikvaot, num dos quais há quarenta seá, e no outro não há quarenta seá, e imergiu num deles, e não sabe em qual deles imergiu: em todos estes casos, por causa da sua dúvida, ele é puro.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “aval betumá kalá”
אבל טומאה קלה - דרבנן היא ואיזו טומאת דברי סופרים לטמאות אדם כגון אכל חצי פרס אוכלין טמאין והבא ראשו ורובו כו' מי"ח דבר הן ביציאות השבת:

“Mas impureza leve” — é dos Rabanan. E qual é a impureza instituída pelas palavras dos escribas para tornar o homem impuro? Como quem comeu meio peras de alimentos impuros, e quem entrou com a cabeça e a maior parte do corpo etc.; elas são parte dos dezoito decretos enumerados no capítulo Yetziot HaShabat.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “vaafilu taval”
ואפילו טבל - י"ל בו ספק כגון ספק טבל בארבעים סאה שהיה מקוה לפנינו ונמצא חסר ואין אנו יודעים אם בשעת טבילה היה שלם ואח"כ חיסר או לא:

“E mesmo que imergiu” — há para ele dúvida, como a dúvida se imergiu em quarenta seá: que havia um mikvê diante de nós, e foi encontrado faltando, e não sabemos se na hora da imersão estava completo, e depois diminuiu, ou não.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “vechen shnei mikvaot”
וכן שני מקואות - שאנו בקיאים בא' מהן שלא היו בו מ' סאה מעולם:

“E assim também dois mikvaot” — que sabemos com certeza, de um deles, que nunca houve nele quarenta seá.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “sefeko tahor”
ספיקו טהור - וסתם משנה ר"מ:

“Sua dúvida é puro” — e uma mishná anônima é segundo Rabi Meir.

Nota

Texto da Mishná Mikvaot 2:2 (numeração do Sefaria). Os dezoito decretos estão em Shabat 13b, no primeiro capítulo de Shabat, chamado Yetziot HaShabat, onde a lista começa com “הָאוֹכֵל אוֹכֶל רִאשׁוֹן… וְהַשּׁוֹתֶה מַשְׁקִין טְמֵאִין, וְהַבָּא רֹאשׁוֹ וְרוּבּוֹ בְּמַיִם שְׁאוּבִין”. A quantidade “meio peras” vem do Rashi, e o hebraico da guemará não a menciona. O lema do primeiro Rashi diz “אבל טומאה קלה”, onde o texto diz “אֲבָל בְּטוּמְאָה קַלָּה”; o sentido é o mesmo. O último Rashi explica por que esta mishná anônima prova a opinião de Rabi Meir.

1236Rabi Yossi o declara impuro
A guemará
רַבִּי יוֹסֵי מְטַמֵּא.

Rabi Yossi discorda e o declara impuro. Seja como for, a mishná anônima, que segue Rabi Meir, é leniente na dúvida sobre uma impureza dos Rabanan; por que, então, Rabi Meir não é leniente na dúvida sobre o eruv, que também é dos Rabanan?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “veRabi Yossi metamé”
ור' יוסי מטמא - ולקמן מקשינן דרבי יוסי אדר' יוסי:

“E Rabi Yossi declara impuro” — e adiante contrapomos a palavra de Rabi Yossi à outra palavra de Rabi Yossi.

Nota

O lema do Rashi diz “ור׳ יוסי מטמא”, com “e”, que o texto da guemará não tem. A contradição anunciada pelo Rashi é levantada em Eruvin 36a: “קַשְׁיָא דְּרַבִּי יוֹסֵי אַדְּרַבִּי יוֹסֵי”, pois aqui Rabi Yossi é rigoroso na dúvida, e na mishná do eruv ele valida o eruv duvidoso. A pergunta acrescentada no fim segue a tradução de referência e o último Rashi do bloco anterior.

Os techumin são da Torá · תְּחוּמִין דְּאוֹרָיְיתָא

1237Rabi Meir: os techumin são da Torá
A guemará
קָסָבַר רַבִּי מֵאִיר: תְּחוּמִין דְּאוֹרָיְיתָא נִינְהוּ.

A guemará responde: Rabi Meir sustenta que as proibições dos techumin (limites de Shabat) são da Torá, e por isso a dúvida da mishná envolve uma proibição da Torá, na qual não se é leniente.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “techumin deoraita”
תחומין דאורייתא - וספיקא דאורייתא לחומרא:

“Techumin são da Torá” — e uma dúvida da Torá se resolve com rigor.

Perfurar os montes: a opinião de Rabi Meir e a do seu mestre · מְקַדְּרִין בֶּהָרִים

1238Se não consegue absorvê-lo
A guemará
וְסָבַר רַבִּי מֵאִיר תְּחוּמִין דְּאוֹרָיְיתָא?! וְהָא תְּנַן: אִם אֵין יָכוֹל לְהַבְלִיעוֹ, בְּזוֹ אָמַר רַבִּי דּוֹסְתַּאי בַּר יַנַּאי מִשּׁוּם רַבִּי מֵאִיר: שָׁמַעְתִּי שֶׁמְּקַדְּרִין בֶּהָרִים.

A guemará pergunta: E Rabi Meir sustenta que os techumin são da Torá?! Mas não aprendemos numa mishná, sobre a medição do techum com uma corda de cinquenta amot: Se não consegue absorvê-lo, o monte, dentro da corda, neste caso disse Rabi Dostai bar Yanai em nome de Rabi Meir: Ouvi que se perfuram os montes, isto é, mede-se como se o monte estivesse perfurado de um lado ao outro, de modo que se conta só a distância horizontal, e não a subida e a descida.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “im eino yachol lehavlio”
אם אינו יכול להבליעו - בפרק כיצד מעברין (עירובין נז:) היא היה מודד ורוצה לסיים תחומי העיר ולעשות שם סימן ותנן אין מודדין אלא בחבל של נ' אמה והגיע לגיא או לגדר משופע ויכול להבליעו בחבל של נ' אמה מבליעו ואף על פי ששפועו מרבה את הדרך ואם היה מודד שיפועו מכאן ועלייתו לעבר השני יש בו ק' או ר' אמות לא איכפת לן הואיל ומשפתו אל שפתו אין יותר מנ' אמה ואם אינו יכול להבליעו בחבל של חמשים אמה:

“Se não consegue absorvê-lo” — está no capítulo Keitzad Meabrin (Eruvin 57b): ele estava medindo e queria demarcar o fim dos techumin da cidade e fazer ali um sinal; e aprendemos: Não se mede senão com uma corda de cinquenta amot. E se chegou a um vale ou a uma muralha inclinada, e pode absorvê-lo na corda de cinquenta amot, absorve-o, embora a sua encosta aumente o caminho; e, se medisse a sua descida de um lado e a sua subida do outro lado, haveria nela cem ou duzentas amot, não nos importa, já que de uma borda à outra não há mais de cinquenta amot. E se não consegue absorvê-lo na corda de cinquenta amot:

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “bazo amar Rabi Dostai… shemekaderin beharim”
בזו אמר רבי דוסתאי בר רבי ינאי משום ר"מ שמעתי שמקדרין בהרים - לא מבליעו בחבל ארוך יותר מנ' דהתנן אין מודדין אלא בחבל של נ' אמה ולא מודד כל מדרונו כמות שהוא בחבל של חמישים בקרקע חלקה דאיכא חומרא טפי אלא מודדו בחבלים קטנים של ארבע אמות ואוחזין בו ב' בני אדם בב' ראשי החבל התחתון נותן ראש החבל כנגד לבו והעליון כנגד מרגלותיו ומשתכרין בכל ארבע אמות כשיעור חצי קומת אדם ולשון מקדרין כמו נוקבין דמשוה מדת ההר כאילו הוא נקוב במקום מעמד רגלי העליון ונמצא לבו במקום שרגליו עומדות עכשיו וכשנותן החבל עכשיו כנגד מרגלותיו ה"ל כאילו נותן אותו כנגד לבו בקרקע חלקה כדרך כל המודדין:

“Neste caso disse Rabi Dostai bar Rabi Yanai em nome de Rabi Meir: Ouvi que se perfuram os montes” — não o absorve numa corda mais longa que cinquenta, pois aprendemos: Não se mede senão com uma corda de cinquenta amot; e não mede toda a sua encosta tal como ela é, com a corda de cinquenta, como num terreno plano, pois haveria nisso rigor demais; mas mede-o com cordas pequenas, de quatro amot, e duas pessoas a seguram pelas duas pontas da corda: o de baixo põe a ponta da corda à altura do seu coração, e o de cima, à altura dos seus pés, e ganham, a cada quatro amot, a medida de meia altura de um homem. E a expressão mekaderin é como nokvin (perfuram), pois iguala a medida do monte como se ele estivesse perfurado no lugar onde ficam os pés do de cima; e resulta que o coração do de baixo está no lugar onde agora estão os pés do de cima; e, quando agora o de cima põe a corda à altura dos seus pés, é como se a pusesse à altura do seu coração num terreno plano, como é o modo de todos os que medem.

Nota

A mishná citada é a Mishná Eruvin 5:4 (numeração do Sefaria), no quinto capítulo de Eruvin, Keitzad Meabrin; ela começa em Eruvin 57b, e a frase citada, “אִם אֵינוֹ יָכוֹל לְהַבְלִיעוֹ”, está em Eruvin 58a. A indicação “(עירובין נז:)” no Rashi é uma marca de editor no hebraico, mantida, e foi traduzida como referência. A edição avulsa da Mishná e o Rashi dizem “רַבִּי דוֹסְתַּאי בַּר רַבִּי יַנַּאי”, onde a guemará diz “רַבִּי דּוֹסְתַּאי בַּר יַנַּאי”. O modo de medir descrito pelo Rashi, com a corda de quatro amot, o de baixo à altura do coração e o de cima à altura dos pés, é a baraita de Eruvin 58b: “תַּחְתּוֹן כְּנֶגֶד לִבּוֹ, עֶלְיוֹן כְּנֶגֶד מַרְגְּלוֹתָיו”. O primeiro Rashi termina com dois-pontos porque continua no segundo.

1239Não se perfura no que é da Torá
A guemará
וְאִי סָלְקָא דַעְתָּךְ תְּחוּמִין דְּאוֹרָיְיתָא — מִי מְקַדְּרִין? וְהָא אָמַר רַב נַחְמָן אָמַר רַבָּה בַּר אֲבוּהּ: אֵין מְקַדְּרִין לֹא בְּעָרֵי מִקְלָט, וְלֹא בְּעֶגְלָה עֲרוּפָה — מִפְּנֵי שֶׁהֵן שֶׁל תּוֹרָה.

E, se te vem à mente dizer que os techumin são da Torá, acaso se perfuram os montes? Mas não disse Rav Nachman que disse Rabba bar Avuh: Não se perfuram os montes, nem ao medir o techum das cidades de refúgio, nem ao medir, para a eglá arufá (a novilha cuja nuca é quebrada), qual cidade está mais perto do morto, porque elas são da Torá, e por isso a medição tem de ser exata?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ein mekaderin beeglá arufá”
אין מקדרין בעגלה ערופה - כשבא למדוד הערים שסביבות החלל לידע איזו היא קרובה מכולן מודד את ההרים ואת הגאיות כמות שהן ואף על פי שהמדרון מרבה את המדה ומרחיק את העיר:

“Não se perfura na eglá arufá” — quando vem medir as cidades que estão ao redor do morto, para saber qual delas é a mais próxima de todas, mede os montes e os vales tal como são, embora a encosta aumente a medida e afaste a cidade.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “vechen bitchum arei miklat”
וכן בתחום ערי מקלט - דקי"ל כשם שהעיר קולטת כך תחומה קולט:

“E assim no techum das cidades de refúgio” — pois estabelecemos: Assim como a cidade acolhe o homicida, assim o seu techum o acolhe.

Nota

A palavra de Rav Nachman em nome de Rabba bar Avuh está em Eruvin 58b, na ordem “לֹא בְּעֶגְלָה עֲרוּפָה וְלֹא בְּעָרֵי מִקְלָט”; os lemas do Rashi seguem essa ordem, inversa à desta página, e o segundo diz “וכן בתחום ערי מקלט”, com a palavra “בתחום”, que não está no texto. A medição da eglá arufá vem de Devarim 21:2: “וּמָדְדוּ אֶל הֶעָרִים אֲשֶׁר סְבִיבֹת הֶחָלָל”; as cidades de refúgio, de Bamidbar 35:11. A regra “Assim como a cidade acolhe, assim o seu techum acolhe” é da Mishná Makkot 2:7 (Makkot 12a). As explicações acrescentadas seguem o Rashi e a tradução de referência.

1240Esta é sua, aquela é do seu mestre
A guemará
לָא קַשְׁיָא: הָא דִידֵיהּ, הָא דְרַבֵּיהּ. דַּיְקָא נָמֵי, דְּקָתָנֵי: ״בְּזוֹ אָמַר רַבִּי דּוֹסְתַּאי בַּר יַנַּאי מִשּׁוּם רַבִּי מֵאִיר: שָׁמַעְתִּי שֶׁמְּקַדְּרִין בֶּהָרִים״. שְׁמַע מִינַּהּ.

A guemará responde: Não é difícil: esta, que os techumin são da Torá, é sua própria opinião; aquela, em que é leniente, é do seu mestre. A linguagem da mishná também é precisa assim, pois ensina: “Neste caso disse Rabi Dostai bar Yanai em nome de Rabi Meir: Ouvi que se perfuram os montes”; Rabi Meir não disse a sua própria opinião, mas transmitiu o que ouviu do seu mestre. De fato, conclui-se disto.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “shamati”
שמעתי - ר' מאיר קאמר ליה ושמעתי איכא למימר שמעתי מרבותי ולדידיה לא ס"ל:

“Ouvi” — Rabi Meir o diz; e de “ouvi” há que dizer: Ouvi dos meus mestres, mas ele mesmo não sustenta isso.

Quem tocou alguém à noite · נָגַע בְּאֶחָד בַּלַּיְלָה

1241Uma regra da Torá contra outra
A guemará
וּרְמִי דְּאוֹרָיְיתָא אַדְּאוֹרָיְיתָא לְרַבִּי מֵאִיר,

A guemará continua: E ainda se contrapõe uma regra da Torá a outra regra da Torá, segundo Rabi Meir,

Nota

O segmento termina com vírgula porque a frase continua no bloco seguinte.

1242Rabi Meir declara puro
A guemará
דִּתְנַן: נָגַע בְּאֶחָד בַּלַּיְלָה, וְאֵינוֹ יוֹדֵעַ אִם חַי אִם מֵת, וּלְמָחָר הִשְׁכִּים וּמְצָאוֹ מֵת. רַבִּי מֵאִיר מְטַהֵר וַחֲכָמִים מְטַמְּאִין, שֶׁכׇּל הַטֻּמְאוֹת כִּשְׁעַת מְצִיאָתָן.

pois aprendemos numa mishná: Se alguém tocou em um homem à noite, e não sabe se ele estava vivo ou morto, e no dia seguinte madrugou e o encontrou morto, Rabi Meir o declara puro, pois presume que o morto estava vivo até que se saiba com certeza que morreu, e os Sábios o declaram impuro, pois todas as impurezas são consideradas como na hora em que foram encontradas. Vê-se que Rabi Meir é leniente mesmo numa dúvida da Torá; por que, então, é rigoroso com a terumá do eruv, que se deveria manter pura até que se saiba com certeza que se tornou impura?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “naga beechad”
נגע באחד - באדם אחד:

“Tocou em um” — em um homem.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Rabi Meir metaher”
ר"מ מטהר - דאמר אוקמיה אחזקיה ואתמול חי היה אלמא בספיקא דאורייתא ואיכא חזקה לקולא אזיל ר"מ בתר חזקה ומתני' נמי ניזיל בתר חזקה ומעיקרא כי אנח התם טהור הואי:

“Rabi Meir declara puro” — pois diz: Mantém-no na sua chazaká, e ontem ele estava vivo. Vê-se, então, que numa dúvida da Torá, havendo chazaká para ser leniente, Rabi Meir segue a chazaká; e também na mishná sigamos a chazaká, pois, no início, quando o eruv foi posto ali, era puro.

Nota

A mishná citada é a Mishná Taharot 5:7 (numeração do Sefaria), onde se lê “וְאֵין יָדוּעַ” e “וּבַשַּׁחַר עָמַד”, em vez de “וְאֵינוֹ יוֹדֵעַ” e “וּלְמָחָר הִשְׁכִּים”; o sentido é o mesmo. Esta citação não é uma nova mishná do tratado. A pergunta acrescentada no fim segue o Rashi e a tradução de referência.

O sheretz no crepúsculo e as duas turmas de testemunhas · שְׁתֵּי כִּיתֵּי עֵדִים

1243Um sheretz durante todo o crepúsculo
Rabi Yirmeya e a guemará
אָמַר רַבִּי יִרְמְיָה: מִשְׁנָתֵנוּ שֶׁהָיָה עָלֶיהָ שֶׁרֶץ כָּל בֵּין הַשְּׁמָשׁוֹת. אִי הָכִי, בְּהָא לֵימָא רַבִּי יוֹסֵי סְפֵק עֵירוּב כָּשֵׁר?!

Rabi Yirmeya disse: A nossa mishná trata do caso em que houve sobre ela, a terumá do eruv, um sheretz (réptil que transmite impureza) durante todo o crepúsculo, do seu início até o seu fim. A guemará pergunta: Se é assim, neste caso diria Rabi Yossi que um eruv cuja validade é duvidosa é válido?! Aqui não há dúvida nenhuma.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “kol bein hashmashot”
כל בין השמשות - מתחילתו ועד סופו דודאי איטמי מבעוד יום דתחילת בין השמשות מערב שבת הוא:

“Todo o crepúsculo” — do seu início até o seu fim; pois com certeza se tornou impura enquanto ainda era dia, já que o início do crepúsculo pertence à véspera do Shabat.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “behá leima…”
בהא לימא כו' - הא ודאי מבעוד יום איטמי ומתני' קתני מבעוד יום אין עירובו עירוב דברי הכל:

“Neste caso diria etc.” — ora, esta com certeza se tornou impura enquanto ainda era dia, e a mishná ensina: Enquanto ainda era dia, o seu eruv não é eruv, segundo as palavras de todos.

Nota

O Rashi cita a mishná (Eruvin 35a, bloco 1222) com as palavras “אין עירובו עירוב”, onde a mishná diz “אֵינוֹ עֵירוּב”; o sentido é o mesmo. O acréscimo “do seu início até o seu fim” segue o primeiro Rashi; como ele explica, nesse caso a terumá com certeza se tornou impura ainda de dia, pois o início do crepúsculo pertence à véspera do Shabat, e por isso a guemará pergunta como Rabi Yossi poderia falar ali de dúvida.

1244Duas turmas de testemunhas
Rabba e Rav Yossef
רַבָּה וְרַב יוֹסֵף דְּאָמְרִי תַּרְוַיְיהוּ: הָכָא בִּשְׁתֵּי כִּיתֵּי עֵדִים עָסְקִינַן, אַחַת אוֹמֶרֶת: מִבְּעוֹד יוֹם נִטְמָאָה, וְאַחַת אוֹמֶרֶת: מִשֶּׁחָשֵׁיכָה.

A guemará responde: Foram Rabba e Rav Yossef que disseram ambos: A dúvida não vem dos fatos, mas de testemunhos que se contradizem: aqui tratamos de duas turmas de testemunhas; uma diz: A terumá se tornou impura enquanto ainda era dia, antes de entrar o Shabat; e a outra diz: Só depois que escureceu.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “achat omeret mibeod yom”
אחת אומרת מבעוד יום כו' - ובהא פליגי ר' יוסי סבר אוקי תרי לבהדי תרי ואוקי תרומה אחזקה קמייתא וכי אנחה טהורה הואי רבי מאיר סבר כיון דאיכא כת דמפקא ליה מחזקיה בספיקא דאורייתא לא אזלינן בתר חזקה אבל בנוגע באחד בלילה דאין כת מוציאתו מחזקתו מוקמינן ליה כל הלילה בחזקתו ובתר שעת מציאתו לא אזלינן דאיכא למימר השתא הוא דמיית:

“Uma diz: Enquanto ainda era dia etc.” — e nisto divergem: Rabi Yossi sustenta: Põe dois diante de dois, e mantém a terumá na sua primeira chazaká, e, quando ele a pôs, era pura. Rabi Meir sustenta: Já que há uma turma que a tira da sua chazaká, numa dúvida da Torá não seguimos a chazaká; mas, no caso do que tocou em um homem à noite, em que não há turma que o tire da sua chazaká, mantemo-lo toda a noite na sua chazaká, e não seguimos a hora em que foi encontrado, pois há que dizer: Só agora é que morreu.

Nota

O daf termina com esta resposta; a guemará continua em Eruvin 36a, onde se discute a opinião de Rabi Yossi. O Rashi explica a divergência: para Rabi Yossi as duas turmas se anulam e a terumá fica na sua presunção de pureza; para Rabi Meir, numa dúvida da Torá, uma turma que contradiz a presunção basta para não segui-la.