Talmud Bavli · Massechet Eruvin · Perek Guimel (BaKol Mearvin)
נְתָנוֹ בְּרֹאשׁ הַקָּנֶה

A cova na karmelit; o eruv no alto da cana; as canas do pântano de Neharde’a; o eruv no migdal cuja chave se perdeu

Eruvin 34b — Perek Guimel (BaKol Mearvin, Eruvin 26b:17-41b:5) · fim da guemará sobre a cova e duas novas mishnayot: o eruv no alto da cana ou da estaca e o eruv no migdal cuja chave se perdeu (Eruvin 3:3) · continua de Eruvin 34a; a guemará continua em Eruvin 35a

A guemará conclui a pergunta sobre a cova: se está no reshut hayachid, é óbvio que o eruv é válido; se está no reshut harabim, ou ele está num lugar e o eruv noutro, ou é óbvio de novo. Responde que se trata de uma cova na karmelit, segundo Rabi, para quem não se decretou sobre o shevut no crepúsculo. Vem então a mishná do eruv posto no alto de uma cana ou de uma estaca desprendida e fincada, válido mesmo a cem amot de altura. Rav Adda bar Matna aponta a Rava a contradição: a primeira parte seria de Rabi, e esta, dos Rabanan; Rava responde com Rav Chisda que assim é, e Ravina diz que tudo é de Rabi, e aqui há um decreto para que não se quebre a cana. Rav Nachman manda os alunos fazerem assentos de canas no pântano de Neharde’a, e responde à objeção distinguindo canas duras de canas moles, como mostram duas baraitot de kilayim; Rav Pappa distingue a kidá da kidá branca. Por fim, a mishná do eruv trancado num migdal cuja chave se perdeu: Rav e Shmuel explicam que se trata de um migdal de tijolos, segundo Rabi Meir, que permite abrir uma brecha; a guemará restringe isso às camadas de tijolos e ao Yom Tov, e objeta a partir das palavras de Rabi Eliezer sobre a chave perdida na cidade ou no campo. O texto continua em Eruvin 35a.

A cova: no reshut harabim ou na karmelit? · בּוֹר דְּקָאֵי בְּכַרְמְלִית

1194O reshut hayachid desce até o fundo
A guemará
פְּשִׁיטָא! רְשׁוּת הַיָּחִיד עוֹלָה עַד לָרָקִיעַ, וְכִי הֵיכִי דְּסָלְקָא לְעֵיל, הָכִי נָמֵי דְּנָחֲתָא לְתַחַת. וְאֶלָּא דְּקָאֵי בִּרְשׁוּת הָרַבִּים.

…é óbvio que o eruv é válido! O reshut hayachid sobe até o firmamento, e, assim como sobe para cima, assim também desce para baixo, até o fundo da cova, mesmo que ela tenha mais de dez tefachim de profundidade. Antes, diremos que a cova está situada no reshut harabim.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Peshita, reshut hayachid olá ad larakía”
הכי גרסינן פשיטא רשות היחיד עולה עד לרקיע וכי היכי דסלקא לעיל ה"נ נחתא לתחת - ומאי אפילו בור עמוק עשרה רה"י היא:

Assim lemos: “É óbvio! O reshut hayachid sobe até o firmamento, e, assim como sobe para cima, assim também desce para baixo”; e que acrescenta o “mesmo” da mishná? Uma cova funda dez tefachim já é reshut hayachid, e não importa que seja mais funda.

Nota

O texto continua a pergunta do fim de Eruvin 34a (bloco 1193): “Se dizes que está situada no reshut hayachid…”. O Rashi registra que assim se deve ler (“הכי גרסינן”), e a leitura que ele dá coincide com o texto do Sefaria. O “mesmo” remete à frase da Mishná Eruvin 3:3, citada em Eruvin 34a: “Se o pôs numa cova, mesmo funda cem amot, o seu eruv é eruv”.

1195Acima ou abaixo?
A guemará
דְּנִתְכַּוֵּון לִשְׁבּוֹת הֵיכָא? אִי לְמַעְלָה — הוּא בְּמָקוֹם אֶחָד וְעֵירוּבוֹ בְּמָקוֹם אַחֵר הוּא. אִי לְמַטָּה, פְּשִׁיטָא — הוּא וְעֵירוּבוֹ בִּמְקוֹם אֶחָד!

A guemará pergunta: Onde ele pretendeu estabelecer a sua morada de Shabat? Se acima, junto à boca da cova, no reshut harabim, ele está num lugar e o seu eruv está noutro lugar, pois o eruv está na cova, que é reshut hayachid, e então o eruv não é válido. Se abaixo, dentro da cova, é óbvio que o eruv é válido, pois ele e o seu eruv estão num só lugar!

1196A cova na karmelit, segundo Rabi
A guemará
לָא צְרִיכָא, דְּקָאֵי בְּכַרְמְלִית וְנִתְכַּוֵּון לִשְׁבּוֹת לְמַעְלָה, וְרַבִּי הִיא דְּאָמַר: כׇּל דָּבָר שֶׁהוּא מִשּׁוּם שְׁבוּת לֹא גָּזְרוּ עָלָיו בֵּין הַשְּׁמָשׁוֹת.

A guemará responde: Não é necessário ensiná-lo senão para o caso em que a cova está situada numa karmelit (domínio intermediário), e ele pretendeu estabelecer a sua morada acima, na karmelit, junto à boca da cova; e a mishná é de Rabi, que disse: Toda coisa que é proibida por causa de shevut (proibição rabínica do Shabat), não decretaram sobre ela no crepúsculo; e tirar o eruv da cova, que é reshut hayachid, para a karmelit é só shevut, e por isso no crepúsculo, hora em que o eruv adquire a morada, ele pode pegá-lo.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Bevor dekaei bekarmelit”
בבור דקאי בכרמלית - כגון בקעה דהיינו שדות דהוי בור רה"י ושפתו כרמלית:

“Numa cova que está situada numa karmelit” — por exemplo, num vale, isto é, numa área de campos, de modo que a cova é reshut hayachid e a sua borda é karmelit.

Nota

O lema do Rashi diz “בבור דקאי בכרמלית” (“numa cova que está situada numa karmelit”), onde o texto diz apenas “דְּקָאֵי בְּכַרְמְלִית”; o sentido é o mesmo. O princípio de Rabi, de que não se decretou sobre o shevut no crepúsculo, foi dito nestas mesmas palavras em Eruvin 32b, a respeito do eruv posto na árvore.

A Mishná: o eruv no alto da cana ou da estaca · מַתְנִיתִין

1197Desprendido e fincado
Mishná
מַתְנִי׳ נְתָנוֹ בְּרֹאשׁ הַקָּנֶה אוֹ בְּרֹאשׁ הַקּוּנְדָּס, בִּזְמַן שֶׁהוּא תָּלוּשׁ וְנָעוּץ, אֲפִילּוּ גָּבוֹהַּ מֵאָה אַמָּה — הֲרֵי זֶה עֵירוּב.

MISHNÁ. Se o pôs, o seu eruv, no alto de um kané (cana) ou no alto de um kundas (estaca), quando ele, o kané ou o kundas, está desprendido do chão onde cresceu e fincado na terra, mesmo que seja alto cem amot, eis que é eruv válido, pois pode arrancar a cana ou a estaca do chão e pegar o seu eruv.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “kundas”
מתני' קונדס - פל"ו בלע"ז ואינם מחוברים ובגמ' פריך והאמרת רישא רבי היא דאמר לא גזרו במחובר בין השמשות:

Mishná: “Kundas” — em francês antigo, “pel” (estaca); e o kané e o kundas não estão presos ao chão. E na guemará objeta: Mas não disseste que a primeira parte é de Rabi, que disse que não decretaram sobre o que está preso ao chão no crepúsculo?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “afilu gavoha mea amá”
אפילו גבוה מאה אמה - הואיל ואינו רחב ד' למטה לאו רשות היחיד הוה ואע"ג דלמעלה ד' דהא עירוב על גבי מקום ד' בעינן:

“Mesmo alto cem amot” — já que o kané não é largo quatro tefachim embaixo, não é reshut hayachid, e por isso o eruv é válido em qualquer altura; e isso embora em cima seja largo quatro, pois precisamos que o eruv esteja sobre um lugar de quatro.

Nota — nova Mishná

Encerrada a guemará sobre a cova, inicia-se aqui uma nova mishná do Perek Guimel (BaKol Mearvin), que corresponde à segunda parte de Mishná Eruvin 3:3 na numeração das edições avulsas da Mishná, das palavras “Se o pôs no alto de um kané” até “eis que é eruv”; a primeira parte da mesma mishná avulsa, sobre a árvore e a cova, veio em Eruvin 32b, e a última, sobre o migdal cuja chave se perdeu, vem neste mesmo daf (bloco 1206). Ela ensina que o eruv posto no alto de uma cana ou de uma estaca, desprendida e fincada na terra, é válido em qualquer altura. Na edição avulsa lê-se “בְרֹאשׁ”, “הַקֻּנְדָּס”, “תָלוּשׁ”, “אֲפִלּוּ גָבוֹהַּ” e “עֵרוּב”, onde o Talmud diz “בְּרֹאשׁ”, “הַקּוּנְדָּס”, “תָּלוּשׁ”, “אֲפִילּוּ גָּבוֹהַּ” e “עֵירוּב”; são diferenças de grafia, e o sentido é o mesmo. O Rashi traduz kundas pela palavra do francês antigo “פל"ו”, aqui transliterada “pel”. A “primeira parte” de que fala o Rashi é a parte da mesma mishná avulsa sobre o eruv posto na árvore, explicada em Eruvin 32b segundo Rabi.

Rabi na primeira parte e os Rabanan na última? · רֵישָׁא רַבִּי וְסֵיפָא רַבָּנַן

1198A contradição de Rav Adda bar Matna
Rav Adda bar Matna
גְּמָ׳ רָמֵי לֵיהּ רַב אַדָּא בַּר מַתְנָא לְרָבָא: תָּלוּשׁ וְנָעוּץ — אִין. לֹא תָּלוּשׁ וְנָעוּץ — לָא. מַנִּי? רַבָּנַן הִיא, דְּאָמְרִי: כׇּל דָּבָר שֶׁהוּא מִשּׁוּם שְׁבוּת גָּזְרוּ עָלָיו בֵּין הַשְּׁמָשׁוֹת. וְהָא אָמְרַתְּ רֵישָׁא רַבִּי! רֵישָׁא רַבִּי וְסֵיפָא רַבָּנַן?!

GUEMARÁ. Rav Adda bar Matna apontou a Rava uma contradição: A mishná diz: Se o kané está desprendido e fincado, sim, o eruv é válido; se não está desprendido e fincado, mas preso ao chão onde cresceu, não. De quem é esta mishná? É dos Rabanan, que dizem: Toda coisa que é proibida por causa de shevut, como servir-se de uma árvore no Shabat, decretaram sobre ela também no crepúsculo; e por isso, se a cana está presa ao chão, ele não pode pegar o eruv na hora em que este adquire a morada, e o eruv não é válido. Mas não disseste que a primeira parte, sobre o eruv posto na árvore, é de Rabi? A primeira parte é de Rabi, e a última parte é dos Rabanan?!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “talush vena’utz”
גמ' תלוש ונעוץ - הוא דהוי עירוב אבל מחובר לא הוה עירוב משום דכי בעי למשקליה משתמש באילן:

Guemará: “Desprendido e fincado” — é que é eruv válido; mas o que está preso ao chão não é eruv válido, porque, quando quer pegá-lo, o eruv, serve-se da árvore.

Nota

Segundo o Rashi (bloco 1197), a “primeira parte” é a da mesma mishná avulsa sobre o eruv posto na árvore abaixo de dez tefachim, que em Eruvin 32b se explicou segundo Rabi; a tradução de referência a apresenta como a mishná anterior. A divergência entre Rabi e os Rabanan sobre o shevut no crepúsculo é trazida em Eruvin 33a, na baraita do eruv posto num cesto pendurado na árvore.

1199Rami bar Chama e Rav Chisda
Rava
אֲמַר לֵיהּ: כְּבָר רָמֵי לֵיהּ רָמֵי בַּר חָמָא לְרַב חִסְדָּא, וְשַׁנִּי לֵיהּ: רֵישָׁא רַבִּי, וְסֵיפָא רַבָּנַן.

Rava disse-lhe: Rami bar Chama já apontou essa contradição a Rav Chisda, e Rav Chisda respondeu-lhe: De fato, a primeira parte é de Rabi, e a última parte é dos Rabanan.

1200Um decreto, para que não a quebre
Ravina
רָבִינָא אָמַר: כּוּלָּהּ רַבִּי הִיא, וְסֵיפָא גְּזֵירָה שֶׁמָּא יִקְטוֹם.

Ravina disse: Pode-se dizer que toda ela, a mishná, é de Rabi; e a última parte, que exige que a cana esteja desprendida e fincada, não se deve à proibição de servir-se de uma árvore, mas é um decreto especial, para que não venha a quebrá-la, pois a cana é mole.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “gezerá shema yiktom”
גזירה שמא יקטום - לפי שהקנה רך הוא איכא למיגזר שמא יקטום כי שקיל ליה אבל אילן קשה הוא ובין השמשות לשמא יעלה ויתלוש לא חיישינן אבל לקטימת קנה ודאי היא איידי דרכיכא מיקטמא ולאו שבות הוא אלא מלאכה דמיחייב משום קוצר:

“Um decreto, para que não venha a quebrá-la” — porque a cana é mole, há motivo para decretar, para que não a quebre quando o pega, o eruv; mas a árvore é dura, e no crepúsculo não tememos que alguém suba e arranque algo dela. Mas a quebra da cana é certa, pois, por ser mole, quebra-se; e isso não é shevut, mas um trabalho proibido, pelo qual se é culpado como quem ceifa.

Nota

Steinsaltz acrescenta que a parte anterior trata de quem pôs o eruv numa árvore, onde esse receio não se aplica; o Rashi dá a razão: a árvore é dura e não se quebra, e no crepúsculo não se teme que alguém suba e arranque algo dela, ao passo que quebrar a cana seria um trabalho proibido, o de ceifar, e não apenas shevut.

As canas do pântano de Neharde’a · כְּבוּשֵׁי כַּבְשֵׁי בְּאַגְמָא

1201Assentos de canas
Rav Nachman
הָהוּא פּוּלְמוּסָא דַּאֲתָא לִנְהַרְדְּעָא. אֲמַר לְהוּ רַב נַחְמָן: פּוּקוּ עֲבִידוּ כְּבוּשֵׁי כַּבְשֵׁי בְּאַגְמָא, וּלְמָחָר נֵיזִיל וְנִיתֵּיב עִלָּוַיְהוּ.

Conta-se que uma certa pulmosa (tropa do rei) veio a Neharde’a, e o lugar ficou apertado para os alunos por causa dos soldados. Rav Nachman disse-lhes, aos alunos: Saí e fazei assentos, apertando as canas umas sobre as outras no pântano, e amanhã, no Shabat, iremos e nos sentaremos sobre elas para estudar.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “pulmosa”
פולמוסא - חיל המלך היה מקום דחוק לתלמידים מפני אנשי החיל:

“Pulmosa” — a tropa do rei; e o lugar estava apertado para os alunos por causa dos homens da tropa.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “kevushei kavshei be’agma”
כבושי כבשי באגמא - צאו וכפו הקנים זה על זה הרבה כמין כסאות לישב עליהן:

“Fazei assentos, apertando canas no pântano” — saí e dobrai as canas, muitas, umas sobre as outras, como uma espécie de cadeiras, para sentar sobre elas.

Nota

A tradução de referência acrescenta que a tropa se alojou na casa de estudo; o Rashi diz apenas que o lugar ficou apertado para os alunos por causa dos homens da tropa, e o texto segue o Rashi.

1202A objeção a partir da mishná
Rami bar Chama ou Rav Ukva bar Abba
אֵיתִיבֵיהּ רָמֵי בַּר חָמָא לְרַב נַחְמָן, וְאָמְרִי לַהּ רַב עוּקְבָא בַּר אַבָּא לְרַב נַחְמָן: תָּלוּשׁ וְנָעוּץ אִין, לֹא תָּלוּשׁ וְלֹא נָעוּץ לָא.

Rami bar Chama objetou a Rav Nachman, e há quem diga que foi Rav Ukva bar Abba quem objetou a Rav Nachman, a partir da mishná: Se a cana está desprendida e fincada, sim, o eruv é válido; se não está desprendida nem fincada, não. Logo, as canas presas ao chão são como uma árvore, e é proibido servir-se delas no Shabat.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “lo talush vena’utz, la”
לא תלוש ונעוץ לא - אלמא קנים כאילן הן ואסור להשתמש עליהן:

“Não desprendida e fincada, não” — conclui-se que as canas são como árvore, e é proibido servir-se delas.

Nota

O lema do Rashi diz “לא תלוש ונעוץ לא”, como a formulação de Rav Adda bar Matna no bloco 1198, onde o texto aqui diz “לֹא תָּלוּשׁ וְלֹא נָעוּץ לָא” (“não desprendida nem fincada, não”); o sentido é o mesmo.

1203Canas duras e canas moles
Rav Nachman
אֲמַר לֵיהּ: הָתָם בְּעוּזְרָדִין. וּמְנָא תֵּימְרָא דְּשָׁנֵי לַן בֵּין עוּזְרָדִין לְשֶׁאֵין עוּזְרָדִין — דְּתַנְיָא: הַקָּנִין וְהָאֲטָדִין וְהַהִגִּין — מִין אִילָן הֵן, וְאֵינָן כִּלְאַיִם בַּכֶּרֶם. וְתַנְיָא אִידַּךְ: הַקָּנִים וְהַקִּידָן וְהָאוּרְבָּנִין — מִין יָרָק הֵן, וְהֵן כִּלְאַיִם בַּכֶּרֶם. קַשְׁיָא אַהֲדָדֵי!

Rav Nachman disse-lhe: Ali, na mishná, trata-se de uzradin (canas já endurecidas), que são como árvore; mas as canas moles são como verdura, e é permitido servir-se delas. E de onde dizes que distinguimos entre uzradin e as que não são uzradin? Pois se ensinou numa baraita: As canas, os atadin (espinheiros) e os higin (cardos) são espécie de árvore, e não são kilayim (mistura proibida de espécies) na vinha, pois essa proibição só vale para as verduras semeadas entre as videiras. E ensinou-se em outra baraita: As canas, o kidan (cássia) e os urbanin (juncos) são espécie de verdura, e são kilayim na vinha. As duas baraitot contradizem-se uma à outra, pois uma diz que as canas são árvore, e a outra, que são verdura!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “be’uzradin”
עוזרדין - שהוקשה כבר הרי הן כאילן וכי שרינן בשאינן עוזרדין. בעוד הקנים רכין דהוו כירק ובירק לא הזכירו חכמים שבות: עוזרדין אטדין והיגין מיני קוצים הן:

“Uzradin” — canas que já endureceram; eis que são como árvore. E, quando permitimos servir-se delas, é com as que não são uzradin, enquanto as canas ainda são moles, pois são como verdura; e, quanto à verdura, os Sábios não mencionaram shevut. E uzradin, atadin e higin são espécies de espinhos.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “kidan”
קידן - בושם ששמו קידה:

“Kidan” — uma especiaria cujo nome é kidá.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “urbanin”
אורבנין - אורשרי"ש:

“Urbanin” — em francês antigo, “orsheris”.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “kashya”
קשיא - קנים אקנים:

“É difícil” — a baraita das canas contradiz a das canas.

Nota

A primeira baraita tem um paralelo na Tosefta Kilayim 3:13 (numeração do Sefaria), com outra lista de plantas: “הקנים והחבין והוורד והאטדין מין אילן ואינן כלאים בכרם” (“as canas, os chavin, a rosa e os atadin são espécie de árvore, e não são kilayim na vinha”); a segunda baraita não foi localizada com esta formulação. As glosas dos nomes das plantas seguem o Rashi (atadin e higin são “espécies de espinhos”; kidan é “uma especiaria cujo nome é kidá”) e a tradução de referência (cássia, juncos). O Rashi dá urbanin pela palavra do francês antigo “אורשרי"ש”, aqui apenas transliterada.

1204Conclui daí
A guemará
אֶלָּא שְׁמַע מִינַּהּ: כָּאן בְּעוּזְרָדִין, כָּאן בְּשֶׁאֵין עוּזְרָדִין. שְׁמַע מִינַּהּ.

Antes, conclui daí: aqui, na primeira baraita, trata-se de uzradin, que são como árvore; ali, na segunda, trata-se das que não são uzradin. A guemará conclui: Conclui daí, de fato.

1205A kidá e a kidá branca
A guemará e Rav Pappa
וְקִידָּה מִין יָרָק הוּא?! וְהָתְנַן: אֵין מַרְכִּיבִין פֵּגָם עַל גַּבֵּי קִידָּה לְבָנָה, מִפְּנֵי שֶׁהוּא יָרָק בְּאִילָן! אָמַר רַב פָּפָּא: קִידָּה לְחוּד, וְקִידָּה לְבָנָה לְחוּד.

A guemará pergunta: E a kidá é espécie de verdura?! Mas não aprendemos numa mishná: Não se enxerta pegam (arruda) sobre kidá levaná (cássia branca), porque é enxertar verdura em árvore? Logo, a kidá branca é árvore! Rav Pappa disse: Não é difícil: a kidá é uma coisa à parte, e é espécie de verdura, e a kidá branca é outra coisa à parte, e é espécie de árvore.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “pegam”
פגם - רוד"א:

“Pegam” — em francês antigo, “ruda” (arruda).

Nota

A mishná citada é a Mishná Kilayim 1:8: “אֵין מַרְכִּיבִין פֵּיגָם עַל גַּבֵּי קִדָּה לְבָנָה, מִפְּנֵי שֶׁהוּא יָרָק בְּאִילָן”; na edição avulsa lê-se “פֵּיגָם” e “קִדָּה”, onde o Talmud diz “פֵּגָם” e “קִידָּה”, diferenças de grafia. A baraita do bloco 1203 dizia “הַקִּידָן”, e aqui a guemará fala de “קִידָּה”, conforme o Rashi: “uma especiaria cujo nome é kidá”.

A Mishná: o eruv no migdal cuja chave se perdeu · מַתְנִיתִין

1206A chave perdida
Mishná
מַתְנִי׳ נְתָנוֹ בְּמִגְדָּל וְאָבַד הַמַּפְתֵּחַ — הֲרֵי זֶה עֵירוּב. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר: אִם אֵינוֹ יוֹדֵעַ שֶׁהַמַּפְתֵּחַ בִּמְקוֹמוֹ — אֵינוֹ עֵירוּב.

MISHNÁ. Se o pôs, o seu eruv, num migdal (armário), e o trancou, e a chave se perdeu, de modo que não pode abrir o migdal e chegar ao eruv, eis que é eruv válido. Rabi Eliezer diz: Se não sabe que a chave está no seu lugar, não é eruv válido.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ve’avad hamafteach, eruvo eruv”
מתני' ואבד המפתח עירובו עירוב - ובגמרא מפרש לה וכגון שהמגדל ברה"י דאי הוה ביה מפתח לא הוה ביה שום איסור דהוא ועירובו ברה"י:

Mishná: “E a chave se perdeu, o seu eruv é eruv” — e na guemará se explica isto; e trata-se de um caso em que o migdal está no reshut hayachid, pois, se tivesse a chave, não haveria nele nenhuma proibição, pois ele e o seu eruv estariam no reshut hayachid.

Nota — nova Mishná

Encerrada a guemará sobre a cana e a estaca, inicia-se aqui uma nova mishná do Perek Guimel (BaKol Mearvin), que corresponde à última parte de Mishná Eruvin 3:3 na numeração das edições avulsas da Mishná, das palavras “Se o pôs num migdal” até “não é eruv”; com ela termina a mishná avulsa 3:3, cujas partes anteriores vieram em Eruvin 32b e no bloco 1197 deste daf. Ela trata do eruv trancado num armário cuja chave se perdeu: para o primeiro Tana o eruv é válido, e para Rabi Eliezer só o é se ele sabe que a chave está no seu lugar. Na edição avulsa lê-se “בְמִגְדָּל” e “עֵרוּב”, onde o Talmud diz “בְּמִגְדָּל” e “עֵירוּב”; são diferenças de grafia. O lema do Rashi diz “עירובו עירוב”, onde a mishná diz “הֲרֵי זֶה עֵירוּב”; o sentido é o mesmo. Seguindo Eruvin 34a, migdal é traduzido por armário.

O migdal de tijolos, segundo Rabi Meir · מִגְדָּל שֶׁל לְבֵנִים

1207Ele num lugar e o eruv noutro
A guemará
גְּמָ׳ וְאַמַּאי? הוּא בְּמָקוֹם אֶחָד וְעֵירוּבוֹ בְּמָקוֹם אַחֵר הוּא!

GUEMARÁ. A guemará pergunta: E por que o eruv é válido, se a chave se perdeu? Ele está num lugar e o seu eruv noutro lugar, pois não pode chegar ao eruv!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “veamai”
גמ' ואמאי - נהי דתרוויהו ברה"י נינהו כיון דלא מצי שקיל ליה הוה ליה כשני מקומות:

Guemará: “E por quê” — ainda que ambos, ele e o eruv, estejam no reshut hayachid, já que não pode pegá-lo, é como se estivessem em dois lugares.

1208Abre-se uma brecha de antemão
Rav e Shmuel
רַב וּשְׁמוּאֵל דְּאָמְרִי תַּרְוַיְיהוּ: הָכָא בְּמִגְדָּל שֶׁל לְבֵנִים עָסְקִינַן וְרַבִּי מֵאִיר הִיא, דְּאָמַר: פּוֹחֵת לְכַתְּחִילָּה וְנוֹטֵל. דִּתְנַן: בַּיִת שֶׁמִּילְּאָהוּ פֵּירוֹת, סָתוּם וְנִפְחַת — נוֹטֵל מִמְּקוֹם הַפְּחָת, רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר: פּוֹחֵת וְנוֹטֵל לְכַתְּחִילָּה.

Rav e Shmuel, ambos, dizem: Aqui tratamos de um migdal de tijolos, que se pode desfazer, e a mishná é de Rabi Meir, que disse: Pode-se abrir uma brecha de antemão e pegar o que está dentro. Pois aprendemos numa mishná: Uma casa que alguém encheu de frutos, fechada, e que se rompeu, pode-se pegar os frutos pelo lugar da brecha. Rabi Meir diz: Pode-se até abrir uma brecha e pegar os frutos de antemão. Logo, segundo Rabi Meir, pode-se abrir uma brecha no migdal para pegar o eruv.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “shel levenim”
של לבנים - שנוח לסותרו וכדבעי לאוקומי באוירא דליבני סדורות זו ע"ג זו בלא טיט ביניהן דלאו סתירה היא:

“De tijolos” — que é fácil desfazê-lo, e isto conforme a guemará vai estabelecer adiante: num migdal feito de camadas de tijolos, dispostos uns sobre os outros, sem argamassa entre eles, pois desfazê-lo não é demolição.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “deRabi Meir”
דר"מ - במס' ביצה (לא:):

“De Rabi Meir” — a sua opinião está no tratado Beitzá (31b).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “venifchat”
ונפחת - מאיליו אפילו ביום טוב עצמו:

“E se rompeu” — por si mesma, mesmo no próprio Yom Tov.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “notel mimekom hapechat”
נוטל ממקום הפחת - ולא מיתסר משום מוקצה וסתמא כר"ש:

“Pega pelo lugar da brecha” — e os frutos não são proibidos por causa de muktze (o que foi posto de lado e não se destina ao uso no dia); e a mishná anônima segue Rabi Shimon.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “af pochet lechatchila”
אף פוחת לכתחילה - דמוקי לה באוירא דליבני דלאו סתירת אהל היא:

“Pode-se até abrir uma brecha de antemão” — pois a guemará a estabelece no caso de camadas de tijolos, o que não é demolição de um ohel (construção).

Nota

A mishná citada está em Beitzá 31b, como indica o Rashi (Mishná Beitzá 4:3 nas edições avulsas): “בַּיִת שֶׁהוּא מָלֵא פֵרוֹת, סָתוּם וְנִפְחַת, נוֹטֵל מִמְּקוֹם הַפְּחָת. רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר, אַף פּוֹחֵת לְכַתְּחִלָּה וְנוֹטֵל”. Aqui a guemará diz “שֶׁמִּילְּאָהוּ” (“que alguém encheu”) e “פּוֹחֵת וְנוֹטֵל לְכַתְּחִילָּה”, sem “אַף” (“até”), e no texto da mishná em Beitzá 31b falta a palavra “סָתוּם” (“fechada”); o lema do Rashi “אף פוחת לכתחילה” segue a formulação de Beitzá. A referência “(לא:)” entre parênteses no Rashi é marca do editor, mantida no hebraico e traduzida como “(31b)”. A explicação das camadas de tijolos é a de Shmuel, citada no bloco seguinte.

1209Camadas de tijolos
A guemará
וְהָאָמַר רַב נַחְמָן בַּר אַדָּא אָמַר שְׁמוּאֵל: בְּאַוֵּירָא דְלִיבְנֵי. הָכָא נָמֵי בַּאֲוֵירָא דְלִיבְנֵי.

A guemará pergunta: Mas não disse Rav Nachman bar Adda que Shmuel disse: Aquela mishná trata de camadas de tijolos, empilhados uns sobre os outros sem argamassa, e por isso abrir uma brecha não é demolir uma construção? A guemará responde: Aqui também, trata-se de um migdal feito de camadas de tijolos.

Nota

Em Beitzá 31b a mesma palavra é citada em nome de “רַב נְחוּמִי בַּר אַדָּא”, que disse em nome de Shmuel “בְּאַוֵּירָא דְלִיבְנֵי”; aqui o nome aparece como “רַב נַחְמָן בַּר אַדָּא”. A explicação das camadas de tijolos sem argamassa segue o Rashi (bloco 1208) e a tradução de referência.

1210No Yom Tov, e não no Shabat
A guemará e Rabi Zeira
וְהָא אָמַר רַבִּי זֵירָא: בְּיוֹם טוֹב אָמְרוּ, אֲבָל לֹא בְּשַׁבָּת! הָכָא נָמֵי בְּיוֹם טוֹב.

A guemará pergunta: Mas não disse Rabi Zeira: Os Sábios disseram isso no Yom Tov, mas não no Shabat? Logo, não se pode aprender daquela mishná que é permitido abrir uma brecha no migdal no Shabat! A guemará responde: Aqui também, trata-se de Yom Tov, quando ele precisou de um eruv para o Yom Tov, e não para o Shabat.

Nota

A palavra de Rabi Zeira está em Beitzá 31b: “בְּיוֹם טוֹב אָמְרוּ, אֲבָל לֹא בְּשַׁבָּת”, e ali também uma baraita a ensina, nas palavras de Rabi Meir.

1211Que me importa cidade, que me importa campo?
A guemará
אִי הָכִי, הַיְינוּ דְּקָתָנֵי עֲלַהּ, רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר: אִם בָּעִיר אָבַד — עֵירוּבוֹ עֵירוּב, וְאִם בַּשָּׂדֶה אָבַד — אֵין עֵירוּבוֹ עֵירוּב. וְאִי בְּיוֹם טוֹב, מָה לִי עִיר מָה לִי שָׂדֶה?

A guemará objeta: Se é assim, que dizer daquilo que se ensinou sobre ela, na baraita: Rabi Eliezer diz: Se se perdeu, a chave, na cidade, o seu eruv é eruv válido, pois, se a encontrar, pode trazê-la pelos pátios, telhados e cercados; e, se se perdeu no campo, o seu eruv não é eruv válido. E, se a mishná trata de Yom Tov, que me importa se se perdeu na cidade, que me importa se se perdeu no campo? No Yom Tov não é proibido carregar do reshut hayachid para o reshut harabim, e, mesmo que a chave se tenha perdido no campo, o eruv deveria ser válido.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “im ba’ir avad”
אם בעיר אבד - המפתח:

“Se se perdeu na cidade” — a chave.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “eruvo eruv”
עירובו עירוב - דאי משכח ליה מצי מייתי ליה דרך חצירות וגגות וקרפיפות שכולן רשות אחת הן כר"ש:

“O seu eruv é eruv” — pois, se a encontrar, pode trazê-la por pátios, telhados e karpefot (cercados), que são todos um só domínio, segundo Rabi Shimon.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “veim basadé, ein eruvo eruv”
ואם בשדה אין עירובו עירוב - דאי נמי משכח ליה לא מצי לאיתויי ליה וג' מחלוקות בדבר לת"ק בין בעיר בין בשדה עירובו עירוב דמצי סתר ליה ולר' אליעזר דמתני' בין בעיר בין בשדה אין עירובו עירוב דמיסתר לא מצי סתר ולית ליה דר"מ ואיתויי נמי לא מצי אי הוה משכח ליה דלית ליה דר"ש דגגות וקרפיפות רשות אחת הן ור' אליעזר דברייתא סבר לה כרבי שמעון אי נמי ר' אליעזר דמתניתין לא איירי אלא בשדה והוא ניהו רבי אליעזר דברייתא:

“E, se no campo, o seu eruv não é eruv” — pois, mesmo que a encontre, não pode trazê-la. E há três opiniões sobre o assunto: segundo o tanna kamma (o primeiro tanaíta, anônimo), quer na cidade, quer no campo, o seu eruv é eruv, pois pode desfazê-lo, o migdal; segundo Rabi Eliezer da mishná, quer na cidade, quer no campo, o seu eruv não é eruv, pois desfazê-lo ele não pode, já que não sustenta a opinião de Rabi Meir; e trazê-la, a chave, também não pode, se a encontrasse, pois não sustenta a opinião de Rabi Shimon, de que telhados e karpefot são um só domínio; e Rabi Eliezer da baraita pensa como Rabi Shimon. Ou, alternativamente, Rabi Eliezer da mishná não trata senão do campo, e ele é o mesmo Rabi Eliezer da baraita.

Nota

A frase citada está na Tosefta Eruvin 2:11 (numeração do Sefaria), que traz a mishná do eruv posto no migdal cuja chave se perdeu e, em seguida, as palavras de Rabi Eliezer sobre a chave perdida na cidade ou no campo; o Rashi a chama de baraita. A tradução de referência explica que na cidade se pode levar a chave por pátios que fizeram eruv entre si ou coisa semelhante, e que o campo é karmelit; o texto segue o Rashi, segundo o qual a chave é trazida por pátios, telhados e cercados, que são um só domínio segundo Rabi Shimon (Mishná Eruvin 9:1: “רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, אֶחָד גַּגּוֹת וְאֶחָד חֲצֵרוֹת וְאֶחָד קַרְפֵּיפוֹת, רְשׁוּת אֶחָד”). A opinião de Rabi Meir é a da mishná citada no bloco 1208. A pergunta fica em aberto neste daf; a guemará continua em Eruvin 35a.