A guemará conclui a objeção de Rav bar Shaba: se “já que se pode” bastasse, por que a mishná exige levar o eruv até o lugar, se poderia levá-lo? Rabi Zeira responde que é um decreto por causa do Yom Tov que cai depois do Shabat, quando o eruv não pode ser levado no próprio dia. Rav bar Shaba objeta a partir da baraita de quem pretende estabelecer a sua morada no reshut harabim e põe o eruv num muro, ou no topo de um pombal ou de um migdal: abaixo de dez tefachim, no migdal, o eruv não é válido; e por que não dizer “já que se pode incliná-lo”? Rabi Yirmeya responde que se trata de um migdal pregado ao muro; Rava, que se trata de um migdal muito comprido, cujo topo, inclinado, sairia das quatro amot. A guemará pergunta por que não trazer o eruv com uma janela e uma corda, e responde que não há. Por fim, passa à frase da mishná sobre o eruv posto numa cova e pergunta onde a cova está situada. O texto continua em Eruvin 34b.
A objeção prossegue: Por que é preciso levar de fato o eruv ao lugar onde se quer estabelecer a morada? Digamos: já que, se quisesse levá-lo até lá, poderia levá-lo, embora não o tenha levado, é como quem o levou, assim como Rabi Yirmeya disse do cesto: “já que se pode incliná-lo”!
O daf começa no meio da objeção iniciada no fim de Eruvin 33b, depois da citação da mishná do eruv para o Yom Tov e o Shabat; o Rashi de 33b (sobre “E pega-o e vai embora”) explica a objeção de Rav bar Shaba exatamente com este raciocínio. A tradução de referência acrescenta que, por não se usar aqui esse raciocínio, a mera possibilidade não basta.
Rabi Zeira disse: A exigência de levar de fato o eruv até o lugar é um decreto por causa de um Yom Tov que cai depois do Shabat; pois então é preciso levar o eruv antes do Shabat, já que no Shabat não se pode levá-lo, e ali não se pode dizer “se quisesse levá-lo, poderia”; por isso os Sábios decretaram que em todos os casos é preciso levá-lo de fato, para que não se venha a confiar nisso também no Yom Tov que cai depois do Shabat.
“Rabi Zeira disse” — aquilo que os Rabanan exigiram de todos os que fazem eruv, isto é, levar o seu eruv até o lugar da sua morada, é um decreto por causa do Yom Tov que cai depois do Shabat; pois, se quisesse levá-lo no Shabat, para fazer eruv para o dia seguinte, não poderia levá-lo, pois é Shabat, e precisa levá-lo já na véspera do Shabat. E, se dissesses que em geral o deixemos na sua casa por causa do raciocínio de “já que”, assim também ali ele viria a se apoiar nisso e sairia além do limite com base no seu eruv de morada no Yom Tov depois do Shabat; e ali nem sequer “já que” há, pois no Shabat não poderia levá-lo.
Rav bar Shaba objetou-lhe a partir de outra baraita: Se alguém pretendeu estabelecer a sua morada de Shabat no reshut harabim, e pôs o seu eruv num muro, fora das quatro amot do seu lugar: se o pôs abaixo de dez tefachim, o seu eruv é eruv válido; se o pôs acima de dez tefachim, o seu eruv não é eruv válido, pois ele está no reshut harabim e o seu eruv no reshut hayachid. Se pretendeu estabelecer a sua morada no topo de um pombal ou no topo de um migdal (armário alto, em forma de torre), e pôs o eruv dentro dele acima de dez tefachim, o seu eruv é eruv válido, pois ele e o seu eruv estão no reshut hayachid; se o pôs abaixo de dez tefachim, num lugar que é karmelit (domínio intermediário), o seu eruv não é eruv válido, pois não pode levá-lo dali até o lugar da sua morada.
“E pôs o seu eruv num muro” — a baraita fala de um muro próximo ao lugar da sua morada, mas fora das quatro amot, conforme estabelecemos a respeito da árvore; pois, se fosse dentro das quatro amot, mesmo acima de dez tefachim o seu eruv também seria eruv válido, pois já foi dito: quem põe o seu eruv tem quatro amot.
“Abaixo de dez, o seu eruv é eruv” — embora o seu eruv esteja fora das suas quatro amot, pode ir pegá-lo e trazê-lo aos poucos, menos de quatro amot de cada vez; pois mesmo no Shabat isso, num caso assim, não é proibido senão por causa de shevut (proibição rabínica do Shabat) dos Rabanan, e aqui, que é o crepúsculo, hora em que o eruv adquire a morada, os Sábios não decretaram.
“Acima de dez, não é eruv” — pois, se sair para fora das suas quatro amot, para pegá-lo, estará no reshut harabim, e não poderá pegá-lo do reshut hayachid e trazê-lo para si, pois ele está no reshut harabim e o seu eruv no reshut hayachid; e aqui não se pode dizer “é como se estivesse cheio”, pois o eruv está fora das suas quatro amot.
“Pretendeu estabelecer a sua morada no topo do migdal” — e ele, o migdal, é muito alto, e pôs o seu eruv dentro dele.
“Se o pôs acima de dez, o seu eruv é eruv” — e, embora não possa pegá-lo dali e trazê-lo ao lugar da sua morada, pois o levaria do reshut hayachid para o reshut hayachid através do espaço aéreo do reshut harabim, e está estabelecido para nós, a respeito de quem passa um objeto com a mão, que mesmo acima de dez tefachim é culpado, eis que o eruv é válido, pois pode descer e comê-lo no lugar onde o eruv está posto; pois, já que está acima de dez, é como se estivesse no próprio lugar da sua morada, pois tudo o que está acima de dez, até o firmamento, é um só domínio.
“Abaixo de dez” — por exemplo, se há no migdal andares, um acima do outro, e o pôs, o eruv, no andar que está abaixo de dez, que é karmelit.
“O seu eruv não é eruv” — pois ele não pode pegá-lo daquela karmelit e trazê-lo ao topo do migdal, onde estabelece a sua morada, por causa do espaço aéreo do reshut harabim, pois o levaria através do espaço aéreo do reshut harabim para o reshut hayachid; e, se descer até o eruv e comê-lo ali, sairá do lugar da sua morada; e nós precisamos de uma refeição apta para ser comida, ainda de dia, no seu lugar.
O texto diz apenas “אֵיתִיבֵיהּ”, “objetou-lhe”, sem nomear quem objeta; a tradução de referência atribui a nova objeção a Rav bar Shaba. A tradução de referência traduz “מִגְדָּל” por “armário grande”; o Rashi o descreve como muito alto, com andares um acima do outro. As remissões do Rashi conferem: “conforme estabelecemos a respeito da árvore” remete a Eruvin 32b, onde Rav Yitzchak, filho de Rav Mesharshiya, explica a mishná com uma árvore que se inclina para fora das quatro amot; “quem põe o seu eruv tem quatro amot” é de Rava, em Eruvin 32b; “é como se estivesse cheio” alude às palavras de Rava em Eruvin 32b, de que a cidade “é considerada como se estivesse cheia” (“כמאן דמליא דמיא”); a lei de quem passa um objeto com a mão acima de dez tefachim é discutida em Shabat 97a (“ילפינן זורק ממושיט”, “aprende-se o que lança a partir do que passa com a mão”). O princípio de que não se decretou sobre o shevut no crepúsculo é de Rabi, em Eruvin 32b.
A guemará pergunta: E por que o eruv não é válido? Também aqui digamos: já que pode incliná-lo, o migdal, e trazê-lo para dentro de dez tefachim do chão, de modo que o lugar da sua morada fique sobre o chão e ele possa pegar o eruv da karmelit, o eruv deveria ser válido! Rabi Yirmeya disse: Aqui tratamos de um migdal pregado ao muro, que não se pode inclinar.
“E por quê” — abaixo de dez não é eruv válido? Digamos: já que pode inclinar o migdal e derrubá-lo para baixo, e o lugar da sua morada, o topo do migdal, se encontrará deitado no chão, no reshut harabim, e então pegará o eruv da karmelit e o comerá no lugar da sua morada, pois não decretaram sobre o shevut no crepúsculo; pois forçosamente esta baraita é de Rabi, já que ensina na primeira parte: Se pôs o seu eruv no muro abaixo de dez, o seu eruv é eruv, embora ele esteja no reshut harabim e o seu eruv na karmelit.
“Num migdal pregado” — fixado com pregos no muro, e por isso não pode incliná-lo.
O texto segue o Rashi: inclinando o migdal, o lugar da morada fica no chão, no reshut harabim, e ele pega o eruv da karmelit, o que é só proibição rabínica, sobre a qual não se decretou no crepúsculo; segundo o Rashi, a baraita é necessariamente de Rabi, pois na primeira parte dá como válido o eruv posto no muro abaixo de dez. A tradução de referência explica que, inclinando o armário, ele e o seu eruv estariam num mesmo domínio.
Rava disse: Pode-se explicar de outro modo: Mesmo que digas que se trata de um migdal que não é pregado, aqui tratamos de um migdal comprido, muito mais que quatro amot, de modo que, se o inclinar um pouco, o seu topo vai para fora das quatro amot em que pretendeu estabelecer a sua morada.
“Num migdal comprido” — muito mais que quatro amot de comprimento.
“Pois, quando o inclina” — o migdal, até que o seu topo fique abaixo de dez, o seu topo sai para fora de quatro amot do lugar onde o migdal estava inicialmente; e, quando pega o eruv e o leva até o topo do migdal e o come, verifica-se que ele não está nas quatro amot em que pretendeu estabelecer a sua morada.
A guemará pergunta: Como é o caso de que trata a baraita? Se há no migdal uma janela e há uma corda amarrada ao eruv, que o traga por meio da janela e da corda, pelo interior do migdal! A guemará responde: Trata-se de um caso em que não tem janela e corda.
“E, se há kavta e mitna” etc. — kavta é janela; mitna é corda. Isto é, se há uma abertura no topo do migdal, e há uma corda na sua mão, e ela está amarrada ao eruv, mesmo quando o eruv está na karmelit, abaixo de dez, que o traga até si pelo interior do migdal, pois é de karmelit para reshut hayachid, o que é só proibição rabínica. Outra explicação ouvi, e é a principal: “Pretendeu estabelecer a sua morada no topo do migdal ou no topo do pombal” se refere a “pôs o seu eruv no muro”, e a baraita ensina que agora é o inverso: que, se o pôs no muro acima de dez, o seu eruv é eruv válido, pois o migdal em que mora está junto ao muro, e pode trazê-lo até si, e não há interrupção entre eles, o migdal e o eruv; se o pôs abaixo de dez, por exemplo, no nono tefach, e os muitos apoiam os seus fardos sobre ele, e é reshut harabim, o seu eruv não é eruv válido, pois não pode trazê-lo do reshut harabim para o reshut hayachid. E por que o eruv não é válido? Digamos: já que pode inclinar o migdal do lugar da morada e trazê-lo para dentro do reshut harabim, de modo que o topo do migdal seja karmelit, pois é largo quatro e não é alto dez, e então poderia pegar o eruv! A resposta é: sai para fora das quatro amot: o topo do migdal se afasta do eruv quatro amot, e não pode pegá-lo e trazê-lo ao topo do migdal, e verifica-se que o transporta quatro amot no reshut harabim; ou, alternativamente, verifica-se que a sua morada se afasta das suas primeiras quatro amot, e esse não é o seu lugar de morada. Mitna é corda, kavta é janela: se há uma janela no migdal, defronte ao lugar onde está o eruv, e há uma corda pequena na sua mão, e ele amarrou a corda ao eruv ainda de dia, mesmo quando o eruv está no reshut harabim, abaixo de dez, e a outra ponta está no migdal, que o traga até si com a corda; pois, já que a sua amarra está na sua mão, não há senão proibição de shevut quando o traz do reshut harabim para o reshut hayachid, como aprendemos no início de Hamotze Tefilin: Se alguém estava lendo no topo do telhado e o livro rolou da sua mão, mesmo que tenha chegado ao próprio chão, enrola-o até si, pois não há nada que seja por causa de shevut que se mantenha diante dos escritos sagrados. Conclui-se que, onde a sua amarra está na sua mão, é mero shevut, e não proibição da Torá; e isso está de acordo com Rabi, que disse: Não decretaram sobre o shevut no crepúsculo.
O Rashi traz duas explicações. Na primeira, a janela fica no topo do migdal e a corda traz o eruv da karmelit, abaixo de dez, pelo interior do migdal. Na segunda, que ele ouviu e considera a principal, a parte do pombal e do migdal se refere ao eruv posto no muro, e a lei é a inversa: quem mora no topo do migdal junto ao muro tem o eruv válido acima de dez, e não abaixo de dez, onde o muro é reshut harabim; a corda amarrada ao eruv por uma janela defronte a ele faz que trazê-lo seja só shevut. Para isso o Rashi cita “o início de Hamotze Tefilin”: trata-se da Mishná Eruvin 10:3 (Eruvin 97b), a terceira do décimo perek; o Rashi junta a frase do primeiro Tana (“estava lendo no topo do telhado e o livro rolou da sua mão”) às palavras de Rabi Shimon (“mesmo no próprio chão, enrola-o até si”), e a mishná diz “שאין לך דבר משום שבות”, sem a palavra “שהוא”, que aparece na guemará em Eruvin 98a.
Aprendemos na mishná: Se o pôs numa cova, mesmo que seja funda cem amot etc., o seu eruv é eruv válido. A guemará pergunta: Esta cova, onde está situada? Se dizes que está situada no reshut hayachid…
A frase da mishná citada está na Mishná Eruvin 3:3: “נתנו בבור, אפילו עמוק מאה אמה, עירובו עירוב”, “se o pôs numa cova, mesmo funda cem amot, o seu eruv é eruv”. O daf termina no meio da pergunta da guemará, que continua em Eruvin 34b.