Talmud Bavli · Massechet Eruvin · Perek Guimel (BaKol Mearvin)
בְּשֶׁל סוֹפְרִים — חֲזָקָה

O enviado nas leis dos escribas; o omer, a mulher que põe o dinheiro no shofar e os figos da figueira; o chaver e o am haaretz

Eruvin 32a — Perek Guimel (BaKol Mearvin, Eruvin 26b:17-41b:5) · guemará da mishná de quem envia o seu eruv (Eruvin 3:2, segunda parte) · continua de Eruvin 31b; a guemará continua em Eruvin 32b

O daf completa a palavra de Rav Nachman: nas leis da Torá não há presunção de que o enviado cumpre a sua missão, mas nas leis dos escribas há; e Rav Sheshet diz que há presunção num caso e no outro. Rav Sheshet traz provas: os distantes de Jerusalém comem do grão novo a partir do meio-dia, confiando que o omer foi oferecido; a mulher que deve oferendas põe o dinheiro no shofar do Templo e come dos alimentos consagrados à noite; e, numa baraita, quem colhe figos da figueira de outro dizima-os como certos ou como demai, conforme o caso, em que Rabi e Rabban Shimon ben Gamliel discordam sobre o chaver. Rav Nachman responde que se trata de presunções do beit din, do beit din dos kohanim, segundo Rav Shemaya, e do chaver, segundo Rav Chanina Chozaa. A guemará volta então à baraita e pergunta a quem falou o am haaretz; Ravina responde que a parte final trata de um chaver que falou a um am haaretz enquanto outro chaver o ouvia. O texto continua em Eruvin 32b.

Nas leis dos escribas · בְּשֶׁל סוֹפְרִים

1144Nas leis dos escribas, há chazaká
Rav Nachman e Rav Sheshet
בְּשֶׁל סוֹפְרִים — חֲזָקָה שָׁלִיחַ עוֹשֶׂה שְׁלִיחוּתוֹ. וְרַב שֵׁשֶׁת אָמַר: אֶחָד זֶה וְאֶחָד זֶה — חֲזָקָה שָׁלִיחַ עוֹשֶׂה שְׁלִיחוּתוֹ.

Mas nas leis dos escribas há chazaká de que o enviado cumpre a sua missão. E Rav Sheshet discordou e disse: Tanto nesta, a lei da Torá, quanto naquela, a lei dos escribas, há chazaká de que o enviado cumpre a sua missão.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Beshel sofrim”
בשל סופרים - סמכינן אחזקת שליח דאי נמי לא עביד לא חמיר איסורא כגון עירובי תחומין:

“Nas dos escribas” — apoiamo-nos na chazaká do enviado, pois, mesmo que ele não a cumpra, a proibição não é grave, como no caso dos eruvei techumin.

Nota

O texto continua a frase de Rav Nachman do fim de Eruvin 31b (bloco 1143): nas leis da Torá não há chazaká de que o enviado cumpre a sua missão, mas nas leis dos escribas, isto é, nas rabínicas, há. O exemplo do Rashi, os eruvei techumin, é o da mishná de quem envia o seu eruv (bloco 1137), que o Rashi trata aqui como lei rabínica.

A prova do omer · מִשֶּׁקָּרַב הָעוֹמֶר

1145De onde digo isso?
Rav Sheshet
אָמַר רַב שֵׁשֶׁת: מְנָא אָמֵינָא לַהּ, דִּתְנַן: מִשֶּׁקָּרַב הָעוֹמֶר, הוּתַּר הֶחָדָשׁ מִיָּד.

Rav Sheshet disse: De onde digo isso? Pois aprendemos numa mishná: Desde que foi oferecido o omer (a oferenda do primeiro feixe de cevada, no segundo dia de Pessach), o grão novo é permitido imediatamente.

Nota

A mishná citada é Mishná Menachot 10:5, “Desde que foi oferecido o omer, o novo é permitido imediatamente”, e a referência confere. A proibição de comer do grão novo antes do omer está em Vayikrá 23:14: “E pão, grão tostado e espiga fresca não comereis até este mesmo dia, até que tragais a oferenda do vosso Deus”.

1146Os distantes, a partir do meio-dia
Rav Sheshet
וְהָרְחוֹקִים מוּתָּרִים מֵחֲצוֹת הַיּוֹם וְאֵילָךְ. וְהָא חָדָשׁ דְּאוֹרָיְיתָא הוּא, וְקָתָנֵי: הָרְחוֹקִים מוּתָּרִין מֵחֲצוֹת הַיּוֹם וְאֵילָךְ. לָאו מִשּׁוּם חֲזָקָה שָׁלִיחַ עוֹשֶׂה שְׁלִיחוּתוֹ?

“E os distantes de Jerusalém são permitidos a comê-lo a partir do meio-dia em diante.” E eis que o grão novo é proibição da Torá, e mesmo assim a mishná ensina: Os distantes são permitidos a partir do meio-dia em diante. Não é porque há chazaká de que o enviado cumpre a sua missão, pois os kohanim do Templo são os enviados de todo o Israel?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Harechokin”
הרחוקין - מירושלים שאינן יודעין אם עדיין קרב העומר מותרין מחצות היום אלמא סמכינן אכהנים שהן שלוחינו ועבדי שליחותייהו ומקרבי ליה:

“Os distantes” — de Jerusalém, que não sabem se o omer já foi oferecido, são permitidos a partir do meio-dia; vê-se que nos apoiamos nos kohanim, que são os nossos enviados, e que cumprem a sua missão e o oferecem.

Nota

Na edição avulsa da Mishná (Menachot 10:5) lê-se “מֵחֲצוֹת הַיּוֹם וּלְהַלָּן”, onde a guemará diz “וְאֵילָךְ”; o sentido é o mesmo, “em diante”.

1147O beit din não é negligente
A guemará
וְרַב נַחְמָן? הָתָם כִּדְקָתָנֵי טַעְמָא — לְפִי שֶׁיּוֹדְעִין שֶׁאֵין בֵּית דִּין מִתְעַצְּלִין בּוֹ.

A guemará pergunta: E Rav Nachman, como responde a essa prova? Responde a guemará: Ali, confia-se nos enviados pela razão que se ensina explicitamente: Porque sabem que o beit din (o tribunal) não é negligente com ele, com o omer; mas não se pode dizer o mesmo de um enviado comum.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Hatam kedetani taama”
התם כדתני טעמא כו' - ואבי דינא סמכינן אבל אשליח בעלמא לא:

“Ali, como ensina a razão etc.” — e no beit din nos apoiamos, mas num enviado qualquer, não.

Nota

A razão “porque sabem que o beit din não é negligente com ele” não está na própria mishná; foi ensinada numa baraita, como palavra de Rabi Yehuda, na guemará de Menachot 68a: “Por que os distantes são permitidos a partir do meio-dia em diante? Porque sabem que o beit din não é negligente com ele”. A referência foi conferida no Sefaria.

1148O enviado é negligente
Rav Nachman
וְאִיכָּא דְּאָמְרִי, אָמַר רַב נַחְמָן: מְנָא אָמֵינָא לַהּ, דְּקָתָנֵי טַעְמָא לְפִי שֶׁיּוֹדְעִין שֶׁאֵין בֵּית דִּין מִתְעַצְּלִין בּוֹ. בֵּית דִּין הוּא דְּלָא מִתְעַצְּלִין בּוֹ — הָא שְׁלִיחַ מִתְעַצֵּל בּוֹ!

E há quem diga outra versão: Rav Nachman disse: De onde digo isso? Pois a baraita ensina a razão: Porque sabem que o beit din não é negligente com ele. O beit din é que não é negligente com ele; mas o enviado comum é negligente com ele, com o assunto que lhe foi confiado!

1149O beit din até o meio-dia, o enviado o dia inteiro
Rav Sheshet
וְרַב שֵׁשֶׁת אָמַר לָךְ: בֵּית דִּין עַד פַּלְגֵיהּ דְּיוֹמָא, שָׁלִיחַ כּוּלֵּי יוֹמָא.

E Rav Sheshet te diria: O beit din é presumido ter cumprido a sua missão até a metade do dia; o enviado comum, ao cabo do dia inteiro.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Shaliach kulei yoma”
שליח כולי יומא - נטריה ומכי מטא לאורתא סמכינן עליה דודאי לא עבר היום עד ששמר הבטחתו:

“O enviado, o dia inteiro” — espera-o, e, quando chega a noite, apoiamo-nos nele, pois certamente não passou o dia sem que ele cumprisse a sua promessa.

A mulher que põe o dinheiro no shofar · וְנוֹתֶנֶת בַּשּׁוֹפָר

1150O dinheiro no shofar
Rav Sheshet
אָמַר רַב שֵׁשֶׁת: מְנָא אָמֵינָא לַהּ, דְּתַנְיָא: הָאִשָּׁה שֶׁיֵּשׁ עָלֶיהָ לֵידָה אוֹ זִיבָה, מְבִיאָה מָעוֹת וְנוֹתֶנֶת בַּשּׁוֹפָר, וְטוֹבֶלֶת וְאוֹכֶלֶת בַּקֳּדָשִׁים לָעֶרֶב. מַאי טַעְמָא — לָאו מִשּׁוּם דְּאָמְרִינַן חֲזָקָה שָׁלִיחַ עוֹשֶׂה שְׁלִיחוּתוֹ.

Rav Sheshet disse: De onde digo isso? Pois foi ensinado numa baraita: A mulher sobre quem há a obrigação das oferendas do parto ou da zivá (fluxo de sangue fora do período) traz o dinheiro e o põe no shofar (a caixa de coleta do Templo, em forma de chifre), imerge no banho ritual e come dos alimentos consagrados à noite. Qual é a razão? Não é porque dizemos que há chazaká de que o enviado cumpre a sua missão, e os kohanim certamente compraram e ofereceram de dia os sacrifícios com o seu dinheiro?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Maot”
מעות - דמי שתי תורים:

“Dinheiro” — o valor de duas rolas.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Venotenet bashofar”
ונותנת בשופר - שכתוב עליו קינין ששם נותנין מעות קיני חובה כדתנן בשקלים (פ"ו משנה ה) י"ג שופרות כו':

“E o põe no shofar” — sobre o qual está escrito “kinin” (pares de aves), onde se põe o dinheiro dos pares de aves obrigatórios, como aprendemos em Shekalim (capítulo 6, mishná 5): Treze shofarot etc.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Vetovelet”
וטובלת - דתנן (חגיגה דף כא.) האונן והמחוסר כפורים צריכין טבילה לקודש:

“E imerge” — pois aprendemos (Chaguigá 21a): O onen (o enlutado antes do enterro) e o mechussar kippurim (a quem ainda falta a oferenda de expiação) precisam de imersão para o sagrado.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Veochelet bakodashim laerev”
ואוכלת בקדשים לערב - אלמא חזקה כהנים עושין שליחותן הואיל והדבר תלוי בהן שהנשים סומכות עליהן שלא יעבור היום עד שיקנו קינין בכל מעות שבאותו שופר ויקריבו כדי שלא יאכלו הנשים קדשים בטומאת הגוף שהוא בכרת:

“E come dos alimentos consagrados à noite” — vê-se que há chazaká de que os kohanim cumprem a sua missão, já que a coisa depende deles; pois as mulheres se apoiam neles e confiam que não passará o dia sem que comprem pares de aves com todo o dinheiro que está naquele shofar e os ofereçam, para que as mulheres não comam alimentos consagrados na impureza do corpo, que é punida com karet (extirpação).

Nota

As referências conferem. A parturiente traz um cordeiro e uma ave, ou, se não tem recursos, duas rolas ou dois pombinhos (Vayikrá 12:6-8); a zavá traz duas rolas ou dois pombinhos (Vayikrá 15:29). A Mishná Shekalim 6:5 enumera os treze shofarot que havia no Templo, entre eles o dos “kinin”, que são rolas. A mishná citada pelo Rashi como Chaguigá 21a é Mishná Chaguigá 3:3: “O onen e o mechussar kippurim precisam de imersão para o sagrado, mas não para a terumá”; o Rashi cita a sua primeira parte.

1151O beit din dos kohanim
A guemará
וְרַב נַחְמָן? הָתָם כִּדְרַב שְׁמַעְיָה, דְּאָמַר רַב שְׁמַעְיָה: חֲזָקָה אֵין בֵּית דִּין שֶׁל כֹּהֲנִים עוֹמְדִים מִשָּׁם עַד שֶׁיִּכְלוּ כׇּל מָעוֹת שֶׁבַּשּׁוֹפָר.

A guemará pergunta: E Rav Nachman, como responde a essa prova? Responde a guemará: Ali, é como a palavra de Rav Shemaya, pois Rav Shemaya disse: Há chazaká de que o beit din dos kohanim não se levanta dali até que se gaste todo o dinheiro que está no shofar na compra dos sacrifícios.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “VeRav Nachman”
ורב נחמן - אמר לך הא נמי חזקה דבי דינא הוא:

“E Rav Nachman” — te diria: Também esta é uma chazaká do beit din, e não a de um enviado qualquer.

Os figos da figueira · צֵא וְלַקֵּט לְךָ תְּאֵנִים

1152Colhe para ti figos da minha figueira
Rav Sheshet
אָמַר רַב שֵׁשֶׁת: מְנָא אָמֵינָא לַהּ, דְּתַנְיָא: הָאוֹמֵר לַחֲבֵירוֹ ״צֵא וְלַקֵּט לְךָ תְּאֵנִים מִתְּאֵנָתִי״ — אוֹכֵל מֵהֶן עֲרַאי וּמְעַשְּׂרָן וַדַּאי. ״מַלֵּא לְךָ כַּלְכַּלָּה זֹה תְּאֵנִים מִתְּאֵנָתִי״ — אוֹכֵל מֵהֶן עֲרַאי וּמְעַשְּׂרָן דְּמַאי.

Rav Sheshet disse: De onde digo isso? Pois foi ensinado numa baraita: Quem diz ao seu companheiro: “Sai e colhe para ti figos da minha figueira”, o que colhe come deles arai (de modo eventual, sem fazer deles uma refeição fixa), e antes de os comer em refeição fixa os dizima como certamente não dizimados. Se lhe disse: “Enche para ti este cesto de figos da minha figueira”, come deles arai, e antes da refeição fixa os dizima como demai (produto de que não se sabe se foi dizimado).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Tzê velaket lecha teenim miteenati”
צא ולקט לך תאנים מתאנתי - ולא נתן מדה ללקיטתו:

“Sai e colhe para ti figos da minha figueira” — e não deu medida à sua colheita.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Ochel”
אוכל - המלקט מן הנלקטות:

“Come” — o que colhe, dos figos colhidos.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Arai”
עראי - בלא מעשר וכשבא לאכלן קבע מעשרן ודאי מעשרות ודאין תרומה גדולה וכל דיני הפרשה שאין ספק לומר שמא בעל הבית עישר עליהן ממקום אחר דהא לא ידע כמה ליקט:

“Eventual” — sem dízimo; e, quando vem comê-los em refeição fixa, dizima-os como certos: dízimos certos, terumá guedolá e todas as leis da separação, pois não há dúvida para dizer que talvez o dono da casa tenha dizimado por eles de outro lugar, já que não sabia quanto o outro colheu.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Aval amar lo male lecha kalkala zo”
אבל אמר לו מלא לך כלכלה זו - הואיל ונותן זה יודע כמה לוקט יש לומר שמא זה הנותן חושש שמא יסמוך עליו שיתן לו דבר היתר ומעשר עליהן ממקום אחר הילכך מלקט זה אוכל מהן עראי בלא מעשר וכשבא לאוכלן קבע אין צריך לעשרן ודאי אלא דמאי יפריש ויאכל הוא בעצמו המעשרות של לוי ושל עני כשאר לוקח פירות מעם הארץ שמחזיקן בספק מעושרין אף אלו ספק מעושרין הן ותורת דמאי עליהן:

“Mas se lhe disse: Enche para ti este cesto” — já que este que dá sabe quanto o outro colhe, pode-se dizer que talvez este que dá se preocupe que o outro se apoie nele, confiando que lhe dará coisa permitida, e dizime por eles de outro lugar; por isso, este que colhe come deles de modo eventual sem dízimo, e, quando vem comê-los em refeição fixa, não precisa dizimá-los como certos, mas como demai: separa os dízimos, e ele mesmo come os dízimos do levita e do pobre, como os outros que compram frutos de um am haaretz (quem não é rigoroso na observância dos dízimos), que os consideram em dúvida se foram dizimados; também estes estão em dúvida se foram dizimados, e a lei do demai se aplica a eles.

Nota

No demai separa-se a terumat maaser e o maaser sheni, mas o maaser rishon e o maaser ani, que se dão ao levita e ao pobre, ficam com o dono, pois quem reclama algo de outro deve trazer a prova; por isso o Rashi diz que ele mesmo come os dízimos do levita e do pobre.

1153Rabi e Rabban Shimon ben Gamliel
A baraita
בַּמֶּה דְּבָרִים אֲמוּרִים — בְּעַם הָאָרֶץ, אֲבָל בְּחָבֵר — אוֹכֵל וְאֵינוֹ צָרִיךְ לְעַשֵּׂר, דִּבְרֵי רַבִּי. רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר: בַּמֶּה דְּבָרִים אֲמוּרִים — בְּעַם הָאָרֶץ, אֲבָל בְּחָבֵר — אֵינוֹ אוֹכֵל עַד שֶׁיְּעַשֵּׂר, לְפִי שֶׁלֹּא נֶחְשְׁדוּ חֲבֵרִים לִתְרוֹם שֶׁלֹּא מִן הַמּוּקָּף.

Em que caso foram ditas estas palavras? Quando o dono é um am haaretz; mas, quando é um chaver (quem se comprometeu com a observância precisa dos dízimos e da pureza), o que colhe come e não precisa dizimar, nem sequer como demai; estas são palavras de Rabi. Rabban Shimon ben Gamliel diz: Em que caso foram ditas estas palavras? Quando o dono é um am haaretz; mas, quando é um chaver, o que colhe não come até que os dizime, porque os chaverim não são suspeitos de separar a terumá não do mukaf (do produto adjacente àquele que se quer isentar).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Bameh devarim amurim”
בד"א - דספק הן ודמאי מיהא בעי לאפרושי:

“Em que caso foram ditas estas palavras” — que são figos em dúvida, e é preciso separar ao menos como demai.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Beam haaretz”
בעם הארץ - שהנותן עם הארץ הוא ואינו חושש בלפני עור:

“Com um am haaretz” — pois quem dá é am haaretz e não se preocupa com a proibição de “diante do cego”.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Aval bechaver”
אבל בחבר - ודאי מעושרין הן ואין צריך לעשרן אפילו דמאי:

“Mas com um chaver” — certamente são dizimados, e não é preciso dizimá-los nem sequer como demai.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Rabban Shimon ben Gamliel omer bameh devarim amurim”
רשב"ג אומר בד"א - דסגי בדמאי בזמן שהנותן עם הארץ וחשוד לתרום שלא מן המוקף:

“Rabban Shimon ben Gamliel diz: Em que caso foram ditas estas palavras” — que basta dizimá-los como demai: quando quem dá é am haaretz e suspeito de separar a terumá não do mukaf.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Aval”
אבל - היה הנותן חבר לא יאכל קבע הלוקט עד שיעשרם מעשרות ודאי: רבי בנו של רשב"ג הוה:

“Mas” — se quem dá era chaver, o que colhe não come em refeição fixa até que os dizime com dízimos certos. Rabi era filho de Rabban Shimon ben Gamliel.

Nota

“Diante do cego” remete a Vayikrá 19:14, “e diante do cego não porás tropeço”, que proíbe levar outro a transgredir; a referência confere. Rabi é Rabi Yehuda HaNassi, como diz o próprio Rashi, filho de Rabban Shimon ben Gamliel. Nas palavras de Rabban Shimon ben Gamliel, os figos foram colhidos e levados, e já não estão junto aos outros frutos do dono; como o chaver não separa a terumá de produto que não está adjacente, certamente não a separou por estes.

1154As minhas palavras parecem mais corretas
Rabi
אָמַר רַבִּי: נִרְאִין דְּבָרַי מִדִּבְרֵי אַבָּא. מוּטָב שֶׁיֵּחָשְׁדוּ חֲבֵרִים לִתְרוֹם שֶׁלֹּא מִן הַמּוּקָּף, וְלֹא יַאֲכִילוּ לְעַמֵּי הָאָרֶץ טְבָלִים.

Rabi disse: As minhas palavras parecem mais corretas que as palavras do meu pai: é melhor que os chaverim sejam suspeitos de separar a terumá não do mukaf, e não que deem de comer tevel (produto do qual ainda não se separaram a terumá e os dízimos) aos amei haaretz.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Veal yaachilu leamei haaretz tevalim”
ואל יאכילו לעמי הארץ טבלים - לקמן מפרש הי ניהו עם הארץ:

“E não deem de comer tevel aos amei haaretz” — adiante se explica quem é esse am haaretz.

Nota

O lema do Rashi diz “ואל יאכילו” e “טבלים”, como a guemará cita a baraita no bloco 1158, onde aqui o texto diz “וְלֹא יַאֲכִילוּ”; o sentido é o mesmo. A explicação anunciada pelo Rashi vem nos blocos 1158 e 1159.

1155Segundo todos, o enviado cumpre a sua missão
A guemará
עַד כָּאן לָא פְּלִיגִי אֶלָּא דְּמָר סָבַר: נֶחְשְׁדוּ, וּמָר סָבַר: לֹא נֶחְשְׁדוּ. אֲבָל כּוּלֵּי עָלְמָא: חֲזָקָה שָׁלִיחַ עוֹשֶׂה שְׁלִיחוּתוֹ.

A guemará conclui: Até aqui, os tannaim não discordam senão em que um Mestre, Rabi, sustenta: os chaverim são suspeitos disso; e um Mestre, Rabban Shimon ben Gamliel, sustenta: não são suspeitos. Mas, segundo todos, há chazaká de que o enviado cumpre a sua missão, e o dono, que é como um enviado para dizimar o que dá, merece confiança.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Lo nechshedu”
לא נחשדו - לתרום שלא מן המוקף הא לאו הכי ודאי הוה סמכינן על בעל הבית זה שהוא שליח על כך שמוטל עליו לעשר מה שהוא נותן ואל יאכיל איסור לעם הארץ:

“Não são suspeitos” — de separar a terumá não do mukaf; se não fosse assim, certamente nos apoiaríamos neste dono da casa, que é enviado para isso, pois lhe incumbe dizimar o que dá e não dar de comer coisa proibida ao am haaretz.

1156O chaver não deixa sair o que não está corrigido
A guemará
וְרַב נַחְמָן, הָתָם כִּדְרַב חֲנִינָא חוֹזָאָה, דְּאָמַר רַב חֲנִינָא חוֹזָאָה: חֲזָקָה הוּא עַל חָבֵר שֶׁאֵינוֹ מוֹצִיא דָּבָר שֶׁאֵינוֹ מְתוּקָּן מִתַּחַת יָדוֹ.

E Rav Nachman poderia responder: Ali, é como a palavra de Rav Chanina Chozaa, pois Rav Chanina Chozaa disse: Há chazaká a respeito do chaver de que ele não deixa sair de sob a sua mão coisa que não está corrigida, isto é, dizimada; e não se trata da chazaká do enviado.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Mitachat yado”
מתחת ידו - דהואיל ופירי דידיה הוא עליה דידיה רמי וחייש ללפני עור אבל שליח דקביל עליה מחבירו איכא למימר דמייאש ולא עביד דסבר ההוא לא סמיך עלי:

“De sob a sua mão” — pois, já que o fruto é seu, sobre ele recai a responsabilidade, e preocupa-se com a proibição de “diante do cego”; mas, quanto a um enviado que o aceitou a pedido do seu companheiro, pode-se dizer que desiste e não o faz, pois pensa: Aquele não se apoia em mim.

A quem falou o am haaretz · וְחָבֵר אַחֵר שׁוֹמְעוֹ

1157O Mestre disse
A guemará
אָמַר מָר: בַּמֶּה דְּבָרִים אֲמוּרִים — בְּעַם הָאָרֶץ, אֲבָל בְּחָבֵר — אוֹכֵל וְאֵינוֹ צָרִיךְ לְעַשֵּׂר, דִּבְרֵי רַבִּי.

A guemará volta agora à própria baraita. O Mestre disse na baraita: Em que caso foram ditas estas palavras? Quando se trata de um am haaretz; mas, quando se trata de um chaver, o que colhe come e não precisa dizimar; estas são palavras de Rabi.

1158Que fazem ali os amei haaretz?
A guemará
הַאי עַם הָאָרֶץ, דְּקָאֲמַר לֵיהּ לְמַאן? אִילֵימָא דְּקָאָמַר לְעַם הָאָרֶץ חַבְרֵיהּ — מְעַשְּׂרָן דְּמַאי, מִי צָיֵית? אֶלָּא בְּעַם הָאָרֶץ דְּקָאֲמַר לֵיהּ לְחָבֵר. אֵימָא סֵיפָא: נִרְאִין דְּבָרַי מִדִּבְרֵי אַבָּא, מוּטָב שֶׁיֵּחָשְׁדוּ חֲבֵרִים לִתְרוֹם שֶׁלֹּא מִן הַמּוּקָּף וְאַל יַאֲכִילוּ לְעַמֵּי הָאָרֶץ טְבָלִין. עַמֵּי הָאָרֶץ מַאי בָּעֵי הָתָם?

A guemará pergunta: Esse am haaretz, a quem disse isso? Se dizes que disse isso ao seu companheiro am haaretz, como se ensina que os dizima como demai? Acaso ele obedece a isso? Antes, trata-se de um am haaretz que disse isso a um chaver. Diz então a parte final: As minhas palavras parecem mais corretas que as palavras do meu pai: é melhor que os chaverim sejam suspeitos de separar a terumá não do mukaf, e não deem de comer tevel aos amei haaretz. Se quem come é um chaver, que fazem ali os amei haaretz?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Mi tzayit lach”
מי ציית לך - לעשורי ספק הא עם הארץ חבריה מהימן ליה טפי מינך:

“Quem te obedece” — para dizimar por dúvida? O am haaretz confia mais no seu companheiro do que em ti.

Nota

O lema do Rashi diz “מי ציית לך” (“quem te obedece”), onde o texto da guemará diz apenas “מִי צָיֵית”; o sentido é o mesmo.

1159E outro chaver o ouve
Ravina
אָמַר רָבִינָא: רֵישָׁא — בְּעַם הָאָרֶץ שֶׁאָמַר לְחָבֵר, סֵיפָא — בְּחָבֵר שֶׁאָמַר לְעַם הָאָרֶץ, וְחָבֵר אַחֵר שׁוֹמְעוֹ. רַבִּי

Ravina disse: A parte inicial trata de um am haaretz que disse isso a um chaver; a parte final, de um chaver que disse isso a um am haaretz, e outro chaver o ouve, e a questão é se esse outro chaver pode comer dos figos. Rabi…

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Reisha detani measran demai”
רישא דקתני מעשרן דמאי בעם הארץ דקאמר ליה לחבר סיפא כו' - והכי קאמר במה דברים אמורים דלוקט צריך לעשרן דמאי בעם הארץ שאמר לו לחבר לקט דאיכא לספוקי אי עישר עלייהו האי בעל הבית אי לא אבל בחבר שאמר לעם הארץ לקט כלכלה זו וחבר אחר שמע ממנו אוכל ואינו צריך לעשר דמאי דודאי כיון דנותן חבר ולוקט עם הארץ חייש הנותן דלא ליכלינהו בטבלייהו ותורם אף שלא מן המוקף דמוטב יחשדו חברים וכו':

“A parte inicial, que ensina que os dizima como demai, trata de um am haaretz que disse a um chaver; a parte final etc.” — e assim diz: Em que caso foram ditas estas palavras, que o que colhe precisa dizimá-los como demai? Com um am haaretz que disse a um chaver: Colhe; pois há razão para duvidar se este dono da casa dizimou por eles ou não. Mas com um chaver que disse a um am haaretz: Colhe este cesto, e outro chaver o ouviu dele, esse outro come e não precisa dizimar como demai; pois certamente, já que quem dá é chaver e quem colhe é am haaretz, quem dá se preocupa para que o am haaretz não os coma no seu estado de tevel, e separa a terumá ainda que não do mukaf, pois “é melhor que os chaverim sejam suspeitos” etc.

Nota

No Sefaria, este comentário do Rashi está ligado ao segmento anterior (Eruvin 32a:15), mas o seu lema comenta a resposta de Ravina; por isso aparece aqui. O lema do Rashi diz “בעם הארץ דקאמר ליה לחבר”, onde Ravina diz “בְּעַם הָאָרֶץ שֶׁאָמַר לְחָבֵר”; o sentido é o mesmo. O daf termina no meio da frase, com a palavra “Rabi”: a guemará passa a explicar a discussão segundo esta leitura, e o texto continua em Eruvin 32b.