Talmud Bavli · Massechet Eruvin · Perek Guimel (BaKol Mearvin)
אֹהֶל זָרוּק

O eruv do adulto no Yom Kipur; Chananya e as roupas pretas e brancas; Sumchus e a terumá; a medida segundo cada pessoa; o beit haperas e a tenda que se move

Eruvin 30b — Perek Guimel (BaKol Mearvin, Eruvin 26b:17-41b:5) · guemará da primeira mishná (Eruvin 3:1) · continua de Eruvin 30a; a baraita de Rabi Yehuda continua em 31a

O daf começa completando a pergunta de Beit Hillel a Beit Shammai: assim como se faz eruv para o adulto no Yom Kipur, faz-se para o nazir com vinho e para o israelita com terumá; Beit Shammai distinguem, porque na véspera do Yom Kipur havia uma refeição apta enquanto ainda era dia. A guemará mostra que essa baraita não é conforme Chananya, para quem Beit Shammai só admitiam o eruv com a mudança da cama e dos utensílios, e atribui-lhe a baraita das roupas pretas e brancas. Discute por que Sumchus não discorda quanto ao vinho do nazir, mas discorda quanto à terumá, até concluir que ele segue os Rabanan, para quem o shevut vale também no crepúsculo. Rabi Zeira atribui a Sumchus a mishná das medidas que seguem cada pessoa, conciliada com Rabi Shimon ben Elazar sobre o glutão. Explica-se o eruv do kohen no beit haperas pelo sopro e pelo caminho pisado, e entre os sepulcros pela tenda que se move, objeto da disputa entre Rabi e Rabi Yossi, filho de Rabi Yehuda. O daf termina no meio de uma baraita de Rabi Yehuda.

O eruv do adulto no Yom Kipur · מְעָרְבִין לְגָדוֹל בְּיוֹם הַכִּפּוּרִים

1093Para um adulto no Yom Kipur
A guemará
שֶׁמְּעָרְבִין לְגָדוֹל בְּיוֹם הַכִּפּוּרִים!

…que se faz eruv para um adulto até no Yom Kipur, embora ele mesmo não possa comer no Yom Kipur? Isso não é senão porque o comer é permitido ao menor; assim também o vinho, que é permitido a outros, serve para o eruv do nazir.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Shemearvin legadol”
שמערבין לגדול - למי שהוא גדול שהביא שתי שערות שחייב בענוי ואע"ג דלמחר לא חזי ליה הואיל וחזי לקטן שאינו בר עונשין:

“Que se faz eruv para um adulto” — para quem é adulto, que já trouxe dois pelos de maturidade, que é obrigado na aflição do jejum; e, embora amanhã a comida não sirva para ele, faz-se eruv, uma vez que serve para um menor, que não está sujeito a punição.

Nota

A frase completa a pergunta de Beit Hillel a Beit Shammai que ficou interrompida no fim de Eruvin 30a (bloco 1092): “Não admitis…”. Os “dois pelos” são o sinal de maturidade física com que o menino passa a ser adulto para os preceitos.

1094Assim também para o nazir e para o israelita
A guemará
אָמְרוּ לָהֶן: אֲבָל! אָמְרוּ לָהֶן: כְּשֵׁם שֶׁמְּעָרְבִין לַגָּדוֹל בְּיוֹם הַכִּפּוּרִים, כֵּן מְעָרְבִין לַנָּזִיר בְּיַיִן וּלְיִשְׂרָאֵל בִּתְרוּמָה.

Beit Shammai disseram-lhes: Aval (é verdade)! Então Beit Hillel disseram-lhes: Assim como se faz eruv para o adulto no Yom Kipur, assim também se faz eruv para o nazir com vinho e para o israelita com terumá.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Aval”
אבל - אמת:

“Aval” — significa verdade.

1095Uma refeição apta enquanto ainda era dia
A guemará
וּבֵית שַׁמַּאי: הָתָם — אִיכָּא סְעוּדָה הָרְאוּיָה מִבְּעוֹד יוֹם, הָכָא — לֵיכָּא סְעוּדָה הָרְאוּיָה מִבְּעוֹד יוֹם.

E Beit Shammai, como distinguem entre os casos? Explica a guemará: Ali, no Yom Kipur, há uma refeição apta para ele enquanto ainda era dia, na véspera do Yom Kipur; aqui, no vinho do nazir e na terumá do israelita, não há uma refeição apta para eles enquanto ainda era dia, na sexta-feira.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Mibeod yom”
מבעוד יום - של ערב יום הכפורים:

“Enquanto ainda era dia” — o dia da véspera do Yom Kipur.

Chananya e a opinião de Beit Shammai · כׇּל עַצְמָן שֶׁל בֵּית שַׁמַּאי

1096Não conforme Chananya
A guemará
כְּמַאן? דְּלָא כַּחֲנַנְיָה. דְּתַנְיָא, חֲנַנְיָה אוֹמֵר: כׇּל עַצְמָן שֶׁל בֵּית שַׁמַּאי לֹא הָיוּ מוֹדִים בְּעֵירוּב עַד שֶׁיּוֹצִיא מִטָּתוֹ וְכׇל כְּלֵי תַּשְׁמִישָׁיו לְשָׁם.

A guemará pergunta: Conforme quem foi ensinada toda essa baraita? Responde: Não conforme Chananya. Pois foi ensinado numa baraita: Chananya diz: Em toda a sua essência, Beit Shammai não admitiam o eruv feito com comida, até que a pessoa leve a sua cama e todos os seus utensílios de uso para lá, isto é, até que mude de fato a sua residência para o novo lugar.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Kemaan? Dela keChananya”
כמאן דלא כחנניה - הא מתני' דמשמע שהיו בית שמאי מודין בעירוב דלא כחנניה:

“Conforme quem? Não conforme Chananya” — este ensinamento, do qual se depreende que Beit Shammai admitiam o eruv, não é conforme Chananya.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Kol kelei tashmishav”
כל כלי תשמישו - משמע דאי לא אפיק כל צרכי תשמיש לא הוי עירוב לדידיה:

“Todos os seus utensílios de uso” — dá a entender que, se não levou todas as coisas necessárias ao seu uso, não é eruv segundo ele.

Nota

O Rashi chama de מתני׳ o ensinamento de que se depreende que Beit Shammai admitiam o eruv; trata-se da baraita da discussão entre Beit Shammai e Beit Hillel citada no fim de Eruvin 30a, como entende Steinsaltz (“toda essa baraita”). Segundo Chananya, para Beit Shammai não há eruv de techumin feito com comida: só a mudança efetiva da residência estabelece o lugar de repouso do Shabat.

1097Com roupas pretas, com roupas brancas
A guemará
כְּמַאן אָזְלָא הָא דְּתַנְיָא: עֵירַב בִּשְׁחוֹרִים לֹא יֵצֵא בִּלְבָנִים, בִּלְבָנִים לֹא יֵצֵא בִּשְׁחוֹרִים. כְּמַאן? אָמַר רַב נַחְמָן בַּר יִצְחָק: חֲנַנְיָה הִיא, וְאַלִּיבָּא דְּבֵית שַׁמַּאי.

A guemará pergunta: Conforme quem vai isto que foi ensinado numa baraita: Se alguém fez eruv com roupas pretas, isto é, estava vestido de preto quando o Shabat começou, não sairá com roupas brancas; se fez eruv com brancas, não sairá com pretas? Conforme quem? Disse Rav Nachman bar Yitzchak: É a opinião de Chananya, e segundo Beit Shammai.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Erav beshechorim”
עירב בשחורים - היה לבוש שחורים והלך וישב בסוף אלפים אמה עד שקנה שם שביתה שקידש עליו היום וחזר לביתו:

“Fez eruv com roupas pretas” — estava vestido de preto, e foi e sentou-se no fim das dois mil amot até que adquiriu ali o seu lugar de repouso, quando o dia se santificou sobre ele, e depois voltou para a sua casa.

1098Assim diz a baraita
A guemará
וְלַחֲנַנְיָה, בִּשְׁחוֹרִים הוּא דְּלֹא יֵצֵא, הָא בִּלְבָנִים יֵצֵא? הָאָמַר עַד שֶׁיּוֹצִיא מִטָּתוֹ וּכְלֵי תַּשְׁמִישָׁיו לְשָׁם! הָכִי קָאָמַר: עֵירַב בִּלְבָנִים וְהוּצְרַךְ לִשְׁחוֹרִים, אַף בִּלְבָנִים לֹא יֵצֵא. כְּמַאן? אָמַר רַב נַחְמָן בַּר יִצְחָק: חֲנַנְיָה הִיא, וְאַלִּיבָּא דְּבֵית שַׁמַּאי.

A guemará pergunta: E, segundo Chananya, é só com roupas pretas que não sairá, mas com brancas sairá? Eis que ele disse que, segundo Beit Shammai, não há eruv até que a pessoa leve a sua cama e os seus utensílios de uso para lá! Responde a guemará: Assim diz a baraita: Se alguém fez eruv com roupas brancas e precisou de pretas, que não tinha consigo, nem mesmo com as brancas sairá. Conforme quem? Disse Rav Nachman bar Yitzchak: É a opinião de Chananya, e segundo Beit Shammai.

Sumchus e a terumá · סוֹמְכוֹס אוֹמֵר בְּחוּלִּין

1099Sumchus diz: com chulin
A guemará
סוֹמְכוֹס אוֹמֵר בְּחוּלִּין. וְאִילּוּ לַנָּזִיר בְּיַיִן לָא פְּלִיג, מַאי טַעְמָא — אֶפְשָׁר דְּמִתְּשִׁיל אַנְּזִירוּתֵיהּ.

Aprendemos na mishná: “Sumchus diz: com chulin (alimento não consagrado)”, e não com terumá. Observa a guemará: Mas, quanto ao eruv para o nazir com vinho, Sumchus não discorda. Qual é a razão? Porque é possível que o nazir peça a um sábio a anulação do seu nazirato, e então ele mesmo poderá beber o vinho.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Demitshil anezirutei”
דמיתשיל אנזירותיה - ישאל לחכם ויתיר לו נדרו ויהא יין ראוי לו:

“Que peça a anulação do seu nazirato” — pedirá a um sábio, e este lhe desfará o seu voto, e o vinho será apto para ele.

Nota

A frase citada não é uma nova mishná: a guemará cita a primeira mishná do Perek Guimel (Mishná Eruvin 3:1), dada em Eruvin 26b (bloco 965).

1100Pedir a anulação da terumá
A guemará
אִי הָכִי, תְּרוּמָה נָמֵי אֶפְשָׁר דְּמִיתְּשִׁיל עִילָּוָיהּ? אִי מִתְּשִׁיל עֲלַהּ — הָדְרָא לְטִיבְלָא.

A guemará pergunta: Se é assim, no caso da terumá também é possível que peça a um sábio a anulação sobre ela, pois a terumá é consagrada pela palavra de quem a separa! Responde: Se pedir a anulação sobre ela, a produção volta a ser tevel (produto do qual ainda não se separaram a terumá e os dízimos), e continua proibida para ele.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Mitshil alah”
מיתשיל עליה - ויפתח בחרטה לא נתכוונתי לכך ותנן (נזיר דף לא.) הקדש טעות אינו הקדש:

“Pede a anulação sobre ela” — e abre o pedido com o arrependimento: “Não tive essa intenção”; e aprendemos na mishná (Nazir 31a): Consagração por engano não é consagração.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Hadra letivla”
הדרא לטבלא - וטבל לא חזי:

“Volta a ser tevel” — e o tevel não é apto para comer.

Nota

A referência do Rashi confere: a mishná sobre a consagração por engano (Mishná Nazir 5:1) começa em Nazir 30b com a opinião de Beit Shammai, “consagração por engano é consagração”, e a resposta de Beit Hillel, “não é consagração”, está em Nazir 31a. O Rashi cita a regra segundo Beit Hillel, que é a halachá.

1101Separar de outro lugar
A guemará
וְלַיפְרוֹשׁ עֲלַהּ מִמָּקוֹם אַחֵר? לָא נֶחְשְׁדוּ חֲבֵירִים לִתְרוֹם שֶׁלֹּא מִן הַמּוּקָּף.

A guemará pergunta: Que separe terumá por ela de outro lugar, e assim a torne permitida! Responde: Os chaverim (os que se dedicam à observância precisa dos preceitos) não são suspeitos de separar terumá de produto que não está junto do produto que vem isentar, pois isso é proibido de antemão.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Velifrosh aleha mimakom acher”
וליפרוש עליה ממקום אחר - לבתר דמתשיל עלה והדרא לטבלא בין השמשות בשעת קניית עירוב מצי למימר פירות שיש לי בביתי יהו תרומה על זו ואשתכח דאית ליה תקנתא דתחזי ליה:

“Que separe por ela de outro lugar” — depois que pediu a anulação sobre ela e voltou a ser tevel, no crepúsculo, na hora da aquisição do eruv, pode dizer: “Os frutos que tenho na minha casa sejam terumá por esta”; e assim se acha que tem remédio, para que a comida seja apta para ele.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Mukaf”
מוקף - סמוך כמו מקיפין בבועי (חולין מו:). שסומכים זו לזו ורואין אם דומות זו לזו וכמו מקפת וקורא לה שם דמסכת נדה בפרק בתרא (דף עא:):

“Mukaf” — junto; como em “Não se comparam bolhas” (Chulin 46b), isto é, que as aproximam umas das outras e veem se são semelhantes umas às outras; e como em “Ela separa do produto junto e lhe dá o nome de terumá”, da massechet Nidá, no último perek (Nidá 71b).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Shelo min hamukaf”
שלא מן המוקף - מדבר שאינו סמוך לו באותו כלי דליהוי מיניה וביה:

“De produto que não está junto” — de coisa que não está junto dele no mesmo recipiente, de modo que a separação seja dele mesmo e nele mesmo.

Nota

As duas referências do Rashi conferem: em Chulin 46b, Amemar diz em nome de Rava que não se comparam as bolhas de um pulmão com as de outro, aproximando-os; e em Nidá 71b, no último perek do tratado, a mishná ensina que a mulher separa a chalá “do produto junto e lhe dá o nome”, e a guemará explica: “É preceito separar a terumá do produto junto”.

1102Separar dela mesma
A guemará
וְלַפְרוֹשׁ עֲלַהּ מִינֵּיהּ וּבֵיהּ! דְּלֵית בַּהּ שִׁיעוּרָא.

A guemará pergunta: Que separe terumá por ela dela mesma e nela mesma, e o resto fique permitido! Responde: Trata-se do caso em que não há nela a medida, pois, depois de separada a terumá, restaria menos que o alimento de duas refeições.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Delet leh shiura”
דלית ליה שיעורא - שמזון ב' סעודות מצומצמות הניח ואי מפריש תרומה מיניה כל דהו בצר ליה שיעור עירוב:

“Em que não há nela a medida” — pois deixou como eruv alimento de duas refeições exatas; e, se separar dele terumá, por pouca que seja, falta-lhe a medida do eruv.

Nota

No hebraico do Rashi, o lema aparece como דלית ליה שיעורא, “em que não há nele a medida”, ao passo que o texto da guemará diz דְּלֵית בַּהּ שִׁיעוּרָא, “em que não há nela a medida”; o sentido é o mesmo.

1103Sumchus segue os Rabanan
A guemará
וּמַאי פַּסְקָא? אֶלָּא, סוֹמְכוֹס סָבַר לַהּ כְּרַבָּנַן דְּאָמְרִי: כׇּל דָּבָר שֶׁהוּא מִשּׁוּם שְׁבוּת גָּזְרוּ עָלָיו בֵּין הַשְּׁמָשׁוֹת.

A guemará pergunta: E o que o determina, que a mishná fale só deste caso singular? Antes, diga-se assim: Sumchus pensa como os Rabanan, que dizem: Toda coisa que é proibida por causa de shevut (proibição rabínica do Shabat), decretaram sobre ela também no crepúsculo. E separar terumá é shevut; portanto, no crepúsculo, quando o eruv entra em vigor, não é possível torná-la permitida ao israelita.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Umai paska”
ומאי פסקא - בתמיה כלומר מאי האי תירוצא וכי פסקא תנא למילתיה דאין אדם נותן עירובו אלא בצמצום דנקט סתם במילתיה הכי:

“E o que determina?” — em tom de espanto; isto é, que resposta é esta? E acaso o tanna determinou a sua palavra, que a pessoa não põe o seu eruv senão na medida exata, para que a dissesse assim, sem especificar?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Savar lah keRabanan”
סבר לה כרבנן - דפליגי עליה דרבי לקמן (עירובין דף לד:):

“Pensa como os Rabanan” — que discordam de Rabi, adiante (Eruvin 34b).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Gazru alav bein hashmashot”
גזרו עליו בין השמשות - כבשבת עצמה והגבהת תרומה שבות היא וכיון דמעיקרא לא תקנה ובעית למימר אי בעי הוי חזי לההוא שעתא דמתשיל עלה כל מקום שהיא והדרה לטבלא והדר אמר תרומתה בצפון שבה ומעשר ראשון בדרומה וכן כולם אם כן מתקן ליה בין השמשות וקעבר אשבות וקניית עירוב כשזה נכנס וזה יוצא:

“Decretaram sobre ela no crepúsculo” — como no próprio Shabat; e levantar a terumá é shevut. E, uma vez que de início não a corrigiu, e queres dizer que, se quisesse, ela seria apta para ele naquela hora, pois pediria a anulação sobre ela, onde quer que esteja, e voltaria a ser tevel, e então diria: “A sua terumá esteja no seu lado norte, e o primeiro dízimo no seu lado sul”, e assim todos os demais; se é assim, corrige-a no crepúsculo e transgride um shevut; e a aquisição do eruv dá-se quando este dia entra e aquele sai.

Nota

A referência do Rashi confere: em Eruvin 34b, a guemará atribui a Rabi a regra “Toda coisa que é por causa de shevut, não decretaram sobre ela no crepúsculo”, e aos Rabanan a regra contrária, “decretaram sobre ela no crepúsculo”.

A medida segundo cada pessoa · הַכֹּל לְפִי מַה שֶּׁהוּא אָדָם

1104Tudo segundo o que é a pessoa
A guemará
כְּמַאן אָזְלָא הָא דִּתְנַן: יֵשׁ שֶׁאָמְרוּ הַכֹּל לְפִי מַה שֶּׁהוּא אָדָם. מְלֹא קוּמְצוֹ מִנְחָה, וּמְלֹא חׇפְנָיו קְטֹרֶת, וְהַשּׁוֹתֶה מְלֹא לוּגְמָיו בְּיוֹם הַכִּפּוּרִים, וּבִמְזוֹן שְׁתֵּי סְעוּדוֹת לְעֵירוּב. כְּמַאן? אָמַר רַבִּי זֵירָא: סוֹמְכוֹס הִיא, דְּאָמַר: מַאי דַּחֲזֵי לֵיהּ בָּעִינַן.

A guemará pergunta: Conforme quem vai isto que aprendemos na mishná: Há coisas em que disseram que a medida é toda segundo o que é a pessoa: o punhado cheio que o kohen tira da oferta de farinha, e as mãos cheias de incenso que o kohen gadol oferece no Yom Kipur, e quem bebe o seu bochecho cheio no Yom Kipur, e o alimento de duas refeições para o eruv. Conforme quem? Disse Rabi Zeira: É a opinião de Sumchus, que disse: Precisamos do que é apto para ele, para a pessoa em particular, e não de uma medida fixa.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Yesh sheameru”
יש שאמרו - יש דברים שאמרו שיעורן. לפי מה שהוא אדם ואין שיעורן שוה בכל:

“Há coisas em que disseram” — há coisas cuja medida disseram que é segundo o que é a pessoa, e a sua medida não é igual em todos.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Melo chofnav ketoret”
מלא חפניו קטרת - ביום הכיפורים:

“As mãos cheias de incenso” — no Yom Kipur.

Nota

A mishná citada é Mishná Kelim 17:11, onde a formulação é um pouco diferente: “Há os que disseram: tudo segundo o que é a pessoa: quem tira o punhado da oferta de farinha, e quem toma as mãos cheias de incenso, e quem bebe como o seu bochecho cheio no Yom Kipur, e como o alimento de duas refeições para o eruv”.

1105O doente, o velho e o glutão
A guemará
לֵימָא פְּלִיגָא אַדְּרַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן אֶלְעָזָר, דְּתַנְיָא, רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן אֶלְעָזָר אוֹמֵר: מְעָרְבִין לְחוֹלֶה וּלְזָקֵן כְּדֵי מְזוֹנוֹ, וּלְרַעַבְתָן בִּסְעוּדָה בֵּינוֹנִית שֶׁל כׇּל אָדָם!

A guemará sugere: Digamos que esta mishná discorda de Rabi Shimon ben Elazar, pois foi ensinado numa baraita: Rabi Shimon ben Elazar diz: Faz-se eruv para o doente e para o velho com o bastante para o seu alimento, ainda que seja menos que o comum; e, para o glutão, com uma refeição média de toda pessoa, e não pelo que ele come!

Nota

A mesma baraita de Rabi Shimon ben Elazar foi citada em Eruvin 30a (bloco 1073).

1106Interpreta-a do doente e do velho
A guemará
תַּרְגּוּמָא, אַחוֹלֶה וְזָקֵן. אֲבָל רַעַבְתָן, בָּטְלָה דַּעְתּוֹ אֵצֶל כׇּל אָדָם.

Responde a guemará: Interpreta-a como referente ao doente e ao velho; mas o glutão, a sua opinião se anula diante da opinião de toda pessoa, e por isso não se mede por ele.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Targuma”
תרגומא - להא דתלי שיעורא באדם עצמו אחולה וזקן ולקולא ולא ארעבתן ולחומרא דבטלה דעתו:

“Interpreta-a” — esta mishná, que faz a medida depender da própria pessoa, refere-se ao doente e ao velho, e para a leniência; e não ao glutão, e para o rigor, pois a opinião dele se anula.

O kohen no beit haperas e a tenda que se move · אֹהֶל זָרוּק

1107Soprar o beit haperas
A guemará
וְלַכֹּהֵן בְּבֵית הַפְּרָס. דְּאָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר שְׁמוּאֵל: מְנַפֵּחַ אָדָם בֵּית הַפְּרָס וְהוֹלֵךְ. רַבִּי יְהוּדָה בַּר אַמֵּי מִשְּׁמֵיהּ דְּרַב יְהוּדָה אָמַר: בֵּית הַפְּרָס שֶׁנִּידַּשׁ — טָהוֹר.

Aprendemos na mishná: “E faz-se eruv para o kohen num beit haperas (campo onde se arou um sepulcro)”. A razão é conforme disse Rav Yehuda, disse Shmuel: Uma pessoa sopra o pó do beit haperas diante de si e vai andando. Rabi Yehuda bar Ami disse em nome de Rav Yehuda: Um beit haperas que foi pisado pelos passantes é puro. Logo, a impureza do beit haperas é rigor dos sábios, e há modo de o kohen evitá-la; por isso pode pôr ali o seu eruv.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Menapeach adam beit haperas”
מנפח אדם בית הפרס - שדה שנחרש בה קבר דכולה ספיקא משום עצמות היא ועצמות בלא בשר אינו מטמא באהל וכשמנפח לפני רגליו אם יש שם עצם גדול נראה מאליו ועצם קטן נראה בנפיחה ואינו מסיטו ברגליו:

“Uma pessoa sopra o beit haperas” — é um campo em que se arou um sepulcro, que é todo impuro por dúvida, por causa dos ossos; e ossos sem carne não tornam impuro por tenda; e, quando sopra diante dos seus pés, se há ali um osso grande, ele se vê por si mesmo, e um osso pequeno se vê pelo sopro, e assim não o move com os seus pés.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Shenidash”
שנידש - בדריסת רגלי בני אדם:

“Que foi pisado” — pela passagem dos pés das pessoas.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Tahor”
טהור - שכבר נידשו עצמות שבו ונפחתו מכשעורה:

“É puro” — pois os ossos que havia nele já foram pisados e reduzidos a menos que o tamanho de um grão de cevada.

Nota

A frase citada não é uma nova mishná: é a continuação da Mishná Eruvin 3:1, dada em Eruvin 26b (bloco 966).

1108Uma tenda que se move
A guemará
רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: אַף בֵּית הַקְּבָרוֹת. תָּנָא: מִפְּנֵי שֶׁיָּכוֹל לָחוֹץ וְלֵילֵךְ בְּשִׁידָּה תֵּיבָה וּמִגְדָּל. קָא סָבַר: אֹהֶל זָרוּק שְׁמֵיהּ אֹהֶל.

Aprendemos na mishná: “Rabi Yehuda diz: até entre os sepulcros”. Foi ensinado numa baraita: É porque o kohen pode interpor-se entre si e a impureza e ir numa liteira, numa caixa ou num armário. Daí se vê que ele pensa: Um ohel zaruk (tenda que se move) chama-se ohel (tenda), e protege quem está dentro dele da impureza dos sepulcros.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Ohel zaruk”
אהל זרוק - אהל המיטלטל:

“Ohel zaruk” — é uma tenda que se transporta.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Shemei ohel”
שמיה אהל - וחוצץ בינו לבין הטומאה:

“Chama-se tenda” — e interpõe-se entre ele e a impureza.

Nota

A frase citada não é uma nova mishná: é o fim da Mishná Eruvin 3:1, dada em Eruvin 26b (bloco 966). Na mishná, as palavras de Rabi Yehuda trazem a razão: “porque pode ir, interpor-se e comer”; a baraita explica como o kohen se interpõe.

1109Quem entra na terra dos povos
A guemará
וּבִפְלוּגְתָּא דְהָנֵי תַנָּאֵי, דְּתַנְיָא: הַנִּכְנָס לְאֶרֶץ הָעַמִּים בְּשִׁידָּה תֵּיבָה וּמִגְדָּל — רַבִּי מְטַמֵּא, רַבִּי יוֹסֵי בְּרַבִּי יְהוּדָה מְטַהֵר.

E o assunto está na disputa destes tannaim (sábios da época da Mishná), pois foi ensinado numa baraita: Quem entra na terra dos povos, isto é, fora da Terra de Israel, numa liteira, numa caixa ou num armário, Rabi, isto é, Rabi Yehuda HaNasi, o declara impuro; Rabi Yossi, filho de Rabi Yehuda, o declara puro.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Eretz haamim”
ארץ העמים - מטמאה באהל:

“A terra dos povos” — torna impuro por tenda.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Shidá”
שידה - מרכבת נשים עגלה עשויה כקופסא:

“Liteira” — é uma carruagem de mulheres, um carro feito como uma caixa.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Migdal”
מגדל - משטי"ר:

“Armário” — no francês antigo do Rashi, mestier.

Nota

A mesma baraita aparece em Gittin 8b e em Nazir 55a. O Rashi explica a palavra מגדל, “armário”, com um termo do francês antigo, transcrito em letras hebraicas (משטי״ר); traduzimos o hebraico como Steinsaltz, “armário”.

1110Em que discordam?
A guemará
בְּמַאי קָמִיפַּלְגִי? מָר סָבַר אֹהֶל זָרוּק לָאו שְׁמֵיהּ אֹהֶל, וּמָר סָבַר אֹהֶל זָרוּק שְׁמֵיהּ אֹהֶל.

Em que discordam? Um mestre, Rabi, pensa: Uma tenda que se move não se chama tenda, e quem está dentro dela se torna impuro com ela; e o outro mestre, Rabi Yossi, filho de Rabi Yehuda, pensa: Uma tenda que se move chama-se tenda, e protege quem está dentro dela.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Ohel zaruk lav shemei ohel”
אהל זרוק לאו שמיה אהל - וכל שאינו אהל אינו חוצץ:

“Uma tenda que se move não se chama tenda” — e tudo o que não é tenda não se interpõe.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Shemei ohel”
שמיה אוהל - וחוצץ ובגדולה עסקינן שמחזקת מ' סאה בלח שהם כוריים ביבש דאי קטנה כלי היא ומקבלת טומאה ולא חייצא ורבנן דמתני' כרבי סבירא להו ובין לרבי יהודה ובין לרבנן כסומכוס סבירא להו דאמר מידי דחזי ליה למיכליה בההיא שעתא בעינן:

“Chama-se tenda” — e interpõe-se; e tratamos de uma grande, que contém quarenta seá em líquido, que são dois kor em seco; pois, se é pequena, é um utensílio, e recebe impureza, e não se interpõe. E os Rabanan da nossa mishná pensam como Rabi; e, tanto segundo Rabi Yehuda como segundo os Rabanan, pensam como Sumchus, que disse: Precisamos de algo que seja apto para ele comer naquela hora.

Nota

A medida de quarenta seá em líquido, que são dois kor em seco, é a da Mishná Kelim 15:1: a liteira, a caixa e o armário que a contêm não recebem impureza, por serem grandes.

1111E o que foi ensinado: Rabi Yehuda diz
A guemará
וְהָא דְּתַנְיָא, רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר:

E aquilo que foi ensinado numa baraita: Rabi Yehuda diz…

Nota

O daf termina no meio da citação desta baraita de Rabi Yehuda, que continua em Eruvin 31a.

O daf termina aqui, no meio de uma citação: depois de completar a pergunta de Beit Hillel a Beit Shammai sobre o eruv do adulto no Yom Kipur e a distinção de Beit Shammai pela refeição apta enquanto ainda era dia, a guemará mostra que a baraita não é conforme Chananya e traz a baraita das roupas pretas e brancas; explica por que Sumchus não discorda quanto ao nazir, até concluir que ele segue os Rabanan sobre o shevut no crepúsculo; atribui a Sumchus a mishná das medidas segundo cada pessoa; e explica o eruv do kohen no beit haperas e entre os sepulcros pela tenda que se move, objeto da disputa entre Rabi e Rabi Yossi, filho de Rabi Yehuda. A baraita de Rabi Yehuda continua em Eruvin 31a.