Talmud Bavli · Massechet Eruvin · Perek Guimel (BaKol Mearvin)
יָנוֹקָא דְּבֵי רַב

O chaziz de horta; Rabi Zeira e o menino da casa do mestre; as kafniyot e o kor; a bênção sobre o kor; com quanto se faz eruv de verduras

Eruvin 28b — Perek Guimel (BaKol Mearvin, Eruvin 26b:17-41b:5) · guemará da primeira mishná (Eruvin 3:1) · a resposta sobre as beterrabas cruas vem em 29a

O daf começa completando a resposta que 28a deixou em aberto: quando Rav disse que se faz eruv com o chaziz, referia-se ao chaziz que cresce na horta. Rabi Yochanan explica para que serve a semente de gargir. Rabi Zeira, cansado do estudo, senta-se à entrada da casa de estudo e pergunta a um menino o que aprendeu: a bênção do kshut é “que cria o fruto da terra”, e a do chaziz, “que tudo foi feito pela Sua palavra”; a lei é como o menino. A guemará discute as kafniyot, que segundo uma baraita contraem impureza de alimentos, e o kor, o miolo da palmeira; traz a palavra de Rabi Yochanan sobre as amêndoas amargas, que podem ser adoçadas pelo fogo, e a discussão de Rav Yehuda e Shmuel sobre a bênção do kor. Por fim, as medidas: um punhado de kshut, um feixe de chaziz, a verdura do kilya, as favas frescas; o daf termina com a objeção de Rav Chisda contra o eruv com beterrabas cruas.

O chaziz de horta e a semente de gargir · בִּדְגִנּוּנְיָיתָא

1014O chaziz que cresce na horta
A guemará
בִּדְגִנּוּנְיָיתָא.

…referia-se ao chaziz que cresce na horta, que todos comem.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Bidgnuniyata”
בדגנונייתא - בחזיז שגדל בגינה דכולי עלמא אכלי להו:

“Bidgnuniyata” — refere-se ao chaziz que cresce na horta, que todos comem.

Nota

A frase completa a resposta que o daf anterior deixou em aberto (Eruvin 28a, bloco 1013): “Quando Rav disse que se faz eruv com o chaziz, …”. Seguimos o Rashi, para quem dagnuniyata é o chaziz cultivado na horta, que todos comem; Steinsaltz traduz de modo semelhante: “a variedade de horta, que se come comumente”.

1015Para que serve a semente de gargir?
A guemará
זֶרַע גַּרְגִּיר. לְמַאי חֲזֵי? אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: שֶׁכֵּן רִאשׁוֹנִים שֶׁלֹּא הָיָה לָהֶן פִּלְפְּלִין, שׁוֹחֲקִין אוֹתוֹ וּמַטְבִּילִין בּוֹ אֶת הַצָּלִי.

A guemará pergunta sobre a semente de gargir (rúcula), mencionada na baraita citada acima: Para que é própria, se em geral só se comem as suas folhas? Disse Rabi Yochanan: Porque os primeiros, as gerações antigas, que não tinham pimenta, moíam-na e mergulhavam nela o assado; por isso também a semente de gargir é considerada comestível.

Nota

A semente de gargir é mencionada na baraita citada no fim de Eruvin 28a (bloco 1012), segundo a qual o gargir se dizima como semente e como verdura.

Rabi Zeira e o menino da casa do mestre · יָנוֹקָא דְּבֵי רַב

1016Rabi Zeira à entrada da casa de estudo
A guemará
רַבִּי זֵירָא כִּי הֲוָה חֲלִישׁ מִגִּרְסֵיהּ, הֲוָה אָזֵיל וְיָתֵיב אַפִּיתְחָא דְּרַב יְהוּדָה בַּר אַמֵּי, אָמַר: כִּי נָפְקִי וְעָיְילִי רַבָּנַן — אֵיקוּם מִקַּמַּיְיהוּ וַאֲקַבֵּל בְּהוּ אַגְרָא.

Conta a guemará: Rabi Zeira, quando estava cansado do seu estudo, ia e sentava-se à entrada da casa de estudo de Rav Yehuda bar Ami, e dizia: Quando os sábios saírem e entrarem, levantar-me-ei diante deles e receberei por eles a recompensa, pois honrar os sábios da Torá é uma mitsvá; assim, sem forças para estudar, descansava cumprindo outra mitsvá.

1017O que te ensinou o teu mestre?
A guemará
נְפַק אֲתָא יָנוֹקָא דְּבֵי רַב, אֲמַר לֵיהּ: מַאי אַגְמְרָךְ רַבָּךְ? אֲמַר לֵיהּ: כְּשׁוּת ״בּוֹרֵא פְּרִי הָאֲדָמָה״, חֲזִיז ״שֶׁהַכֹּל נִהְיֶה בִּדְבָרוֹ״. אֲמַר לֵיהּ: אַדְּרַבָּה, אִיפְּכָא מִיסְתַּבְּרָא, הַאי — מֵאַרְעָא קָא מִרַבֵּי, וְהַאי — מֵאַוֵּירָא קָא מִרַבֵּי.

Certa vez, saiu um menino da casa do mestre. Rabi Zeira disse-lhe: O que te ensinou o teu mestre hoje? Disse-lhe: Sobre o kshut (lúpulo), a bênção é “que cria o fruto da terra”; sobre o chaziz, “que tudo foi feito pela Sua palavra”. Rabi Zeira disse-lhe: Pelo contrário, o inverso é mais razoável: este, o chaziz, cresce da terra, e aquele, o kshut, cresce do ar; e convém recitar a bênção sobre cada um segundo a origem do seu sustento.

1018A lei é como o menino
A guemará
וְהִלְכְתָא כְּיָנוֹקָא דְּבֵי רַב. מַאי טַעְמָא: הַאי — גְּמַר פֵּירֵי, וְהַאי — לָאו גְּמַר פֵּירֵי. וּמַאי דְּקָאָמְרַתְּ: הַאי מֵאַרְעָא קָא רָבֵי, וְהַאי מֵאַוֵּירָא קָא רָבֵי — לָא הִיא. כְּשׁוּת נָמֵי מֵאַרְעָא קָא רָבֵי, דְּהָא קָא חָזֵינַן דְּקָטְלִינַן לַהּ לְהִיזְמְתָא וּמָיְיתָא כְּשׁוּתָא.

A guemará conclui: E a lei é como o menino da casa do mestre. Qual é a razão? Este, o kshut, é fruto acabado, e aquele, o chaziz, não é fruto acabado, e sobre o que não está acabado só se recita “que tudo foi feito pela Sua palavra”. E o que disseste, que este cresce da terra e aquele cresce do ar — não é assim: também o kshut cresce da terra, pois eis que vemos que, quando cortamos o espinheiro, o kshut morre.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Kshut”
כשות - גדל בהיזמי ואין לו שורש בקרקע אלא מהיזמי צמח:

“Kshut” — cresce nos espinheiros e não tem raiz na terra, mas brotou dos espinheiros.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Kshut gmar peri”
כשות גמר פרי - ונקרא פרי:

“O kshut é fruto acabado” — e por isso chama-se fruto.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Dekatli lehizmeta”
דקטלי להיזמתא - שקוצצין ההיזמי ומייתי כשותא אלמא אי לא ינקא מארעא לא רביא:

“Que cortam o espinheiro” — pois cortam os espinheiros, e o kshut morre; logo, se não sugasse da terra através deles, não cresceria.

Nota

Em Eruvin 28a (bloco 1010) seguimos o Rashi, que identifica o kshut com o lúpulo (humlin); Steinsaltz traduz por cuscuta (“dodder”). A descrição do Rashi aqui, uma planta sem raiz própria que cresce sobre os espinheiros, é a mesma que leva Steinsaltz a essa identificação.

As kafniyot e o kor · קוֹר וְכַפְנִיּוֹת

1019Não se faz eruv com kafniyot?
A guemará
וּבְכַפְנִיּוֹת אֵין מְעָרְבִין? וְהָתַנְיָא: קוֹר נִיקָּח בְּכֶסֶף מַעֲשֵׂר, וְאֵין מִטַּמֵּא טוּמְאַת אוֹכָלִין. וְכַפְנִיּוֹת נִקָּחוֹת בְּכֶסֶף מַעֲשֵׂר, וּמִטַּמְּאוֹת טוּמְאַת אוֹכָלִים.

A guemará examina a parte seguinte da palavra de Rav: E com kafniyot (tâmaras que não amadureceram) não se faz eruv? Mas eis que foi ensinado numa baraita: O kor (o miolo tenro e comestível da palmeira) é comprado com o dinheiro do maaser, mas não contrai impureza de alimentos, pois não é propriamente alimento, mas parte da própria árvore; e as kafniyot são compradas com o dinheiro do maaser e também contraem impureza de alimentos!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Kor”
קור - דבר רך הנוסף על הדקל בכל שנה וקודם שיגיעו ימות הגשמים ויתקשה ויעשה עץ קרי ליה קור וטוב למאכל הוא:

“Kor” — uma coisa tenra que se acrescenta à palmeira a cada ano; e, antes que cheguem os dias das chuvas e ela endureça e se torne madeira, chamam-na kor, e é boa para comer.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Nilkach bechesef maaser”
ניקח בכסף מעשר - דפרי מפרי וגדולי קרקע הוא:

“É comprado com o dinheiro do maaser” — pois é fruto que provém de fruto e crescimento do solo.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Veeino mitamei tumat ochalin”
ואינו מטמא טומאת אוכלין - ואפילו חישב. עליו להאכילו דלאו אוכל הוא:

“E não contrai impureza de alimentos” — e mesmo se pensou em dá-lo como alimento, pois o kor não é alimento.

Nota

“Fruto de fruto e crescimento do solo” são os critérios, deduzidos em Eruvin 27b, para o que se pode comprar com o dinheiro do maaser.

1020Rabi Yehuda: o kor é como madeira
A guemará
רָבֵי יְהוּדָה אוֹמֵר: קוֹר הֲרֵי הוּא כְּעֵץ לְכׇל דְּבָרָיו — אֶלָּא שֶׁנִּיקָּח בְּכֶסֶף מַעֲשֵׂר, וְכַפְנִיּוֹת הֲרֵי הֵן כִּפְרִי לְכׇל דִּבְרֵיהֶם — אֶלָּא שֶׁפְּטוּרוֹת מִן הַמַּעֲשֵׂר.

Rabi Yehuda diz: O kor é como madeira em todas as suas leis, exceto que é comprado com o dinheiro do maaser, por ser comestível; e as kafniyot são como fruto em todas as suas leis, exceto que são isentas do maaser, porque ainda não amadureceram.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Kor harei hu keetz”
קור הרי הוא כעץ כו' - לקמן פריך היינו ת"ק: אלא שפטורות מן המעשר דלא נגמרה מלאכתן ולתנא קמא חייבות דלכל מילי פירות נינהו ומדקתני מטמאות טומאת אוכלים אלמא אוכל נינהו:

“O kor é como madeira etc.” — adiante a guemará objeta: É o mesmo que diz o primeiro tanaíta! “Exceto que são isentas do maaser” — pois o seu amadurecimento não se completou; e, para o primeiro tanaíta, são obrigadas, pois em todas as coisas são frutos; e, já que ensina que contraem impureza de alimentos, vê-se que são alimento.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Ela shepturot min hamaaser”
אלא שפטורות מן המעשר - דלא נגמרה מלאכתן ולתנא קמא חייבות דלכל מילי פירות נינהו ומדקתני מטמאות טומאת אוכלים אלמא אוכל נינהו:

“Exceto que são isentas do maaser” — pois o seu amadurecimento não se completou; e, para o primeiro tanaíta, são obrigadas, pois em todas as coisas são frutos; e, já que ensina que contraem impureza de alimentos, vê-se que são alimento.

Nota

No Sefaria, o primeiro comentário do Rashi a este segmento traz também, por inteiro, o texto do segundo; mantivemos os dois tal como estão. A objeção “É o mesmo que diz o primeiro tanaíta” vem no bloco 1026.

1021Palmeiras que nunca amadurecem
A guemará
הָתָם, בִּדְנִיסְחָנֵי.

A guemará responde: Ali, a baraita trata das kafniyot de nischanei (palmeiras cujos frutos nunca amadurecem), que por isso são fruto completo mesmo verdes; mas Rav falava das kafniyot de palmeiras que chegam a amadurecer.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Hatam”
התם - דקתני מטמאות:

“Ali” — onde ensina que contraem impureza.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Bedinischanei”
בדניסחני - דקלים זכרים שעושין כפניות ואינם נעשים תמרים לעולם וכפניות הוא גמר פירן ולוקטים אותן בניסן והנהו אוכלא נינהו וכי קאמר רב בדקלים נקיבות שכפניות שלהן נעשים תמרים הלכך אכתי לא גמר פרי הוא:

“De nischanei” — palmeiras machos, que produzem kafniyot e nunca se tornam tâmaras; e as kafniyot são o fruto acabado delas, e colhem-nas em Nissan, e essas são alimento. E, quando Rav disse que não se faz eruv com elas, referia-se a palmeiras fêmeas, cujas kafniyot se tornam tâmaras; por isso ainda não são fruto acabado.

1022Os pagei de Beityoni
A guemará
אִי הָכִי, בְּהָא לֵימָא רַבִּי יְהוּדָה פְּטוּרוֹת מִן הַמַּעֲשֵׂר? וְהָתַנְיָא, אָמַר רַבִּי יְהוּדָה: לֹא הוּזְכְּרוּ פַּגֵּי בֵיתְיוֹנֵי אֶלָּא לְעִנְיַן מַעֲשֵׂר בִּלְבַד. פַּגֵּי בֵיתְיוֹנֵי וַאֲהִינֵי דְטוֹבִינָא חַיָּיבִין בְּמַעֲשֵׂר.

A guemará pergunta: Se é assim, a respeito destas diria Rabi Yehuda que são isentas do maaser? Mas eis que foi ensinado numa baraita: Disse Rabi Yehuda: Os pagei (figos verdes) de Beityoni só foram mencionados a respeito do maaser, pois foi ensinado: Os pagei de Beityoni e as ahinei (tâmaras verdes) de Tuvina são obrigados ao maaser, embora nunca amadureçam, pois são fruto completo em tudo!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Lo huzkeru”
לא הוזכרו וכו' - בתוספתא דשביעית (פ"ז) היא ומייתי בגמרא דפסחים בפרק מקום שנהגו אוכלים בתאנים עד שיכלו פגי ביתוני רבי יהודה אומר כו':

“Não foram mencionados etc.” — está na Tosefta de Sheviit (capítulo 7), e a guemará a traz na guemará de Pessachim, no capítulo Makom Shenahagu: “Come-se dos figos até que acabem os pagei de Beityoni; Rabi Yehuda diz etc.”

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Beityoni”
ביתוני - מקום:

“Beityoni” — nome de um lugar.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Pagei”
פגי - תאנים הן שלא נתבשלו:

“Pagei” — são figos que ainda não amadureceram.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Ahinei”
אהיני - הן כפניות והנך דטובינא כולם זכרים הן ומשום הכי חייבין במעשר דגמר פירא. הוא וכל שכן דגמר פירא הוא לשאר מילי:

“Ahinei” — são kafniyot; e estas de Tuvina são todas de palmeiras machos, e por isso são obrigadas ao maaser, pois são fruto acabado; e, com mais razão, são fruto acabado para as demais coisas.

Nota

A palavra de Rabi Yehuda está na Tosefta Sheviit 7:11 (numeração do Sefaria), com a grafia “pagei Beit Oni”, e é trazida em Pessachim 53a, no capítulo Makom Shenahagu, com a grafia “pagei Beit Hini”. O Rashi cita o começo da frase de memória: em Pessachim 53a lê-se “come-se dos figos secos (גרוגרות)”, e na Tosefta, “come-se da figueira”.

1023A impureza de alimentos é diferente
A guemará
אֶלָּא לְעוֹלָם לָאו בְּנִיסְחָנֵי, וּלְעִנְיַן טוּמְאַת אוֹכָלִין שָׁאנֵי, כִּדְאָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: הוֹאִיל וְרָאוּי לְמַתְּקָן עַל יְדֵי הָאוּר, הָכָא נָמֵי: הוֹאִיל וְיָכוֹל לְמַתְּקָן עַל יְדֵי הָאוּר.

A guemará responde: Antes, diga-se: na verdade, a baraita não trata de nischanei, mas de palmeiras que chegam a amadurecer; e, a respeito da impureza de alimentos, é diferente, e daí não se prova que sejam alimento para o eruv; como disse Rabi Yochanan em outro lugar: Uma vez que são próprias para serem adoçadas por meio do fogo, são consideradas alimento — aqui também: uma vez que se pode adoçá-las por meio do fogo, as kafniyot contraem impureza de alimentos; mas para o eruv é preciso alimento pronto para comer.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Veyachol lemataken”
ויכול למתקן - אף על פי שעכשיו בקטנותן מרין הן אבל לענין עירוב בעינן מידי דחזי בההיא שעתא והני הא לא מתקינהו ולענין מעשר משום דלא גמר פירא הוא:

“E se pode adoçá-las” — embora agora, na sua pequenez, sejam amargas. Mas, a respeito do eruv, precisamos de algo que seja próprio para comer naquela hora, e estas, eis que não as adoçou; e, a respeito do maaser, são isentas porque não são fruto acabado.

1024As amêndoas amargas e as doces
A guemará
וְהֵיכָא אִתְּמַר דְּרַבִּי יוֹחָנָן? אַהָא דְּתַנְיָא: שְׁקֵדִים הַמָּרִים — קְטַנִּים חַיָּיבִין, גְּדוֹלִים פְּטוּרִין. מְתוּקִים — גְּדוֹלִים חַיָּיבִין, קְטַנִּים פְּטוּרִין. רַבִּי שִׁמְעוֹן בְּרַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר מִשּׁוּם אָבִיו: זֶה וָזֶה, לִפְטוּר. וְאָמְרִי לַהּ: זֶה וָזֶה לְחִיּוּב. אָמַר רַבִּי אִילְעָא: הוֹרָה רַבִּי חֲנִינָא בְּצִיפּוֹרִי כְּדִבְרֵי הָאוֹמֵר זֶה וְזֶה לִפְטוּר.

A guemará pergunta: E onde foi dita esta palavra de Rabi Yochanan? A guemará responde: Sobre isto que foi ensinado numa baraita: As amêndoas amargas — as pequenas são obrigadas ao maaser, pois então se comem, e as grandes são isentas, pois já não se comem; as doces — as grandes são obrigadas, e as pequenas são isentas, pois ainda não amadureceram. Rabi Shimon, filho de Rabi Yossi, diz em nome do seu pai: Estas e aquelas, as amargas grandes e as pequenas, são para isenção. E há quem diga que disse em nome do seu pai: Estas e aquelas, para obrigação. Disse Rabi Ila: Rabi Chanina decidiu em Tzipori segundo as palavras de quem diz: Estas e aquelas, para isenção.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Ketanim chayavin”
קטנים חייבין - משום שהוא גמר פרי שלהן שכשגדלין נעשין מרים:

“As pequenas são obrigadas” — porque esse é o estado de fruto acabado delas, pois, quando crescem, tornam-se amargas.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Ugdolim peturin”
וגדולים פטורין - ממעשר דלאו אוכל נינהו:

“E as grandes são isentas” — do maaser, pois já não são alimento.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Metukim ketanim peturin”
מתוקין קטנים פטורין - דלא נגמרו:

“As doces, as pequenas são isentas” — pois ainda não se completaram.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Ze vaze liftor”
זה וזה לפטור - מרים בין גדולים ובין קטנים גדולים דלא אוכלא קטנים דלא פירא:

“Estas e aquelas, para isenção” — as amargas, tanto as grandes como as pequenas: as grandes, porque não são alimento; as pequenas, porque não são fruto acabado.

1025Para que são próprias?
A guemará
וּלְמַאן דְּאָמַר זֶה וָזֶה לְחִיּוּב, לְמַאי חֲזֵי? אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: הוֹאִיל וְרָאוּי לְמַתְּקָן עַל יְדֵי הָאוּר.

A guemará pergunta: E, para quem diz: Estas e aquelas, para obrigação, para que são próprias as amêndoas amargas grandes? Disse Rabi Yochanan: Uma vez que são próprias para serem adoçadas por meio do fogo, são consideradas alimento quanto ao maaser.

Rabi Yehuda e o primeiro tanaíta · הַיְינוּ תַּנָּא קַמָּא

1026É o mesmo que o primeiro tanaíta!
A guemará
אָמַר מָר, רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: קוֹר הֲרֵי הוּא כְּעֵץ לְכׇל דְּבָרָיו, אֶלָּא שֶׁנִּיקָּח בְּכֶסֶף מַעֲשֵׂר. הַיְינוּ תַּנָּא קַמָּא!

A guemará volta à baraita citada acima. Disse o mestre: Rabi Yehuda diz: O kor é como madeira em todas as suas leis, exceto que é comprado com o dinheiro do maaser. A guemará objeta: É o mesmo que diz o primeiro tanaíta!

1027Se o cozinhou e o fritou
A guemará
אָמַר אַבָּיֵי: שְׁלָקוֹ וְטִגְּנוֹ אִיכָּא בֵּינַיְיהוּ.

Disse Abaye: Quando alguém o cozinhou e o fritou, há diferença entre eles: segundo Rabi Yehuda, mesmo assim não contrai impureza de alimentos; segundo o primeiro tanaíta, contrai.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Shelako”
שלקו - מבושל הרבה:

“Cozinhou-o” — isto é, muito cozido.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Vetigno”
וטיגנו - בשמן פרי"ט בלע"ז לרבי יהודה אפי' שלקו וטיגנו אינו טמא ותנא קמא אם שלקו וטיגנו מטמא דלא אמרי הרי הוא כעץ:

“E fritou-o” — em azeite; frit em laaz. Para Rabi Yehuda, mesmo se o cozinhou e o fritou, não é impuro; e, para o primeiro tanaíta, se o cozinhou e o fritou, contrai impureza, pois eles não dizem: “É como madeira”.

Nota

A palavra em laaz do Rashi (פרי״ט) é transcrita como está no Sefaria; corresponde ao francês antigo para “frito”.

1028A objeção de Rava: o couro e a placenta
A guemará
מַתְקֵיף לַהּ רָבָא: מִי אִיכָּא לְמַאן דְּאָמַר שְׁלָקוֹ וְטִגְּנוֹ לָא? וְהָתַנְיָא: הָעוֹר וְהַשִּׁילְיָא אֵין מִטַּמְּאִין טוּמְאַת אוֹכָלִין. עוֹר שֶׁשְּׁלָקוֹ, וְשִׁילְיָא שֶׁחִישֵּׁב עָלֶיהָ — מִטַּמְּאִין טוּמְאַת אוֹכָלִין!

Rava objeta: Acaso há quem diga que, se o cozinhou e o fritou, não contrai impureza? Mas eis que foi ensinado numa baraita: O couro e a placenta de um animal não contraem impureza de alimentos; o couro que alguém cozinhou e a placenta sobre a qual pensou em comê-la contraem impureza de alimentos! Logo, também o kor cozido ou frito contrai impureza segundo todos.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Or sheshelako mitamei”
עור ששלקו מטמא - אבל במחשבה גרידתא לא:

“O couro que cozinhou contrai impureza” — mas com o mero pensamento de comê-lo, não.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Veshilya”
ושיליא - אפי' במחשבה גרידתא וכיון דמהניא שליקה לעור כ"ש לקור דחזי לאכילה מעיקרא:

“E a placenta” — mesmo com o mero pensamento contrai impureza. E, uma vez que o cozimento é eficaz para o couro, com mais razão para o kor, que é próprio para comer desde o início.

1029A diferença é a bênção
A guemará
אֶלָּא אָמַר רָבָא: אִיכָּא בֵּינַיְיהוּ בְּרָכָה. דְּאִתְּמַר: קוֹר — רַב יְהוּדָה אָמַר: ״בּוֹרֵא פְּרִי הָאֲדָמָה״, וּשְׁמוּאֵל אָמַר: ״שֶׁהַכֹּל נִהְיֶה בִּדְבָרוֹ״.

Antes, disse Rava: Há diferença entre eles quanto à bênção, pois foi dito: Sobre o kor, Rav Yehuda disse: Recita-se “que cria o fruto da terra”; e Shmuel disse: “que tudo foi feito pela Sua palavra”.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Beracha ika beinayhu”
ברכה איכא בינייהו - לתנא קמא בורא פרי האדמה לרבי יהודה שהכל דסופו להקשות:

“Há diferença entre eles quanto à bênção” — para o primeiro tanaíta, “que cria o fruto da terra”; para Rabi Yehuda, “que tudo foi feito pela Sua palavra”, pois acabará por endurecer.

Nota

A discussão entre Rav Yehuda e Shmuel sobre a bênção do kor, com a mesma conclusão, está também em Berachot 36a.

1030As razões de Rav Yehuda e de Shmuel
A guemará
רַב יְהוּדָה אָמַר: ״בּוֹרֵא פְּרִי הָאֲדָמָה״ — אוּכְלָא הוּא. וּשְׁמוּאֵל אָמַר: ״שֶׁהַכֹּל נִהְיֶה בִּדְבָרוֹ״ — כֵּיוָן שֶׁסּוֹפוֹ לְהַקְשׁוֹת, לָא מְבָרְכִינַן עִילָּוֵיהּ ״בּוֹרֵא פְּרִי הָאֲדָמָה״.

Rav Yehuda disse “que cria o fruto da terra”: é alimento, e por isso recita-se sobre ele a bênção dos frutos. E Shmuel disse “que tudo foi feito pela Sua palavra”: uma vez que acabará por endurecer e tornar-se como madeira, não recitamos sobre ele “que cria o fruto da terra”.

1031Shinnana, a tua opinião é razoável
A guemará
אֲמַר לֵיהּ שְׁמוּאֵל לְרַב יְהוּדָה: שִׁינָּנָא, כְּווֹתָיךְ מִסְתַּבְּרָא, דְּהָא צְנוֹן שֶׁסּוֹפוֹ לְהַקְשׁוֹת, וּמְבָרְכִינַן עֲלֵיהּ ״בּוֹרֵא פְּרִי הָאֲדָמָה״.

Disse Shmuel a Rav Yehuda: Shinnana (como Shmuel costumava chamá-lo), a tua opinião é razoável, pois eis que o rabanete acabará por endurecer, e mesmo assim recitamos sobre ele “que cria o fruto da terra”.

Nota

Shinnana é o modo como Shmuel se dirige a Rav Yehuda, seu discípulo, em várias passagens do Talmud; Steinsaltz deixa a palavra sem tradução.

1032Mas não é assim
A guemará
וְלָא הִיא, צְנוֹן נָטְעִי אִינָשֵׁי אַדַּעְתָּא דְפוּגְלָא, דִּיקְלָא — לָא נָטְעִי אִינָשֵׁי אַדַּעְתָּא דְקוֹרָא. וְאַף עַל גַּב דְּקַלְּסֵיהּ שְׁמוּאֵל לְרַב יְהוּדָה, הִלְכְתָא כְּווֹתֵיהּ דִּשְׁמוּאֵל.

A guemará comenta: Mas não é assim: o rabanete, as pessoas o plantam com a intenção do pugla (de comê-lo enquanto é tenro); a palmeira, as pessoas não a plantam com a intenção do kor, e por isso o kor não é o seu fruto. E, embora Shmuel tenha elogiado Rav Yehuda, a lei é como Shmuel.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Adaata depugla”
אדעתא דפוגלא - לאוכלו כשהוא רך:

“Com a intenção do pugla” — para comê-lo quando é tenro.

Com quanto se faz eruv de verduras · כִּמְלֹא הַיָּד

1033A palavra de Rav sobre kshut e chaziz
A guemará
גּוּפָא, אָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר רַב: כְּשׁוּת וַחֲזִיז מְעָרְבִין בָּהֶן, וּמְבָרְכִין עֲלֵיהֶם ״בּוֹרֵא פְּרִי הָאֲדָמָה״. כְּשׁוּת בְּכַמָּה? כִּדְאָמַר רַב יְחִיאֵל: כִּמְלֹא הַיָּד — הָכָא נָמֵי כִּמְלֹא הַיָּד.

Voltando ao próprio assunto: Disse Rav Yehuda, disse Rav: Kshut e chaziz — faz-se eruv com eles, e recita-se sobre eles “que cria o fruto da terra”. Kshut, com quanto se faz eruv? Como disse Rav Yechiel num caso semelhante: Um punhado cheio; aqui também, um punhado cheio.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Kshut bechama”
כשות בכמה - הויא לה מזון ב' סעודות דאמרינן לקמן (עירובין דף פ:) מזון שתי סעודות לעירוב:

“Kshut, com quanto” — para que seja alimento de duas refeições, pois dizemos adiante (Eruvin 80b): alimento de duas refeições para o eruv.

Nota

A medida de “alimento de duas refeições” aparece em Eruvin 80b, a propósito do eruv; a mishná que a fixa como medida do eruv é Eruvin 8:2 (Eruvin 82b).

1034Chaziz, com quanto?
A guemará
חֲזִיז בְּכַמָּה? אָמַר רַבָּה בַּר טוֹבִיָּה בַּר יִצְחָק אָמַר רַב: כִּמְלֹא אוּזִילְתָּא דְאִיכָּרֵי.

E chaziz, com quanto se faz eruv? Disse Rabba bar Toviya bar Yitzchak, disse Rav: Um uzilta (feixe) cheio dos lavradores.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Uzilta”
אוזילתא - ווי"ל בלע"ז אגודות ירק שכורכין האיכרים:

“Uzilta” — vil em laaz: feixes de verdura que os lavradores amarram.

Nota

A palavra em laaz do Rashi (ווי״ל) é transcrita como está no Sefaria, sem identificação segura; o próprio Rashi explica o sentido: feixes de verdura.

1035A verdura do kilya
A guemará
אֲמַר רַב חִלְקִיָּה בַּר טוֹבִיָּה: מְעָרְבִין בְּקִלְיָא. בְּקִלְיָא סָלְקָא דַּעְתָּךְ?! אֶלָּא בְּיַרְקָא דְקִלְיָא, וְכַמָּה? אָמַר רַב יְחִיאֵל: כִּמְלֹא הַיָּד.

Disse Rav Chilkiya bar Toviya: Faz-se eruv com kilya. A guemará se espanta: Com o kilya mesmo, passa-te pela mente, se é duro como madeira?! Antes, diga-se: com a verdura do kilya, a parte que ainda é verde e se come. E quanto? Disse Rav Yechiel: Um punhado cheio.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Kilya”
קליא - קלח של עשב וקשה כעץ:

“Kilya” — talo de uma erva, e é duro como madeira, e não se come.

Nota

Seguimos o Rashi, para quem o kilya é o talo duro de uma erva. Steinsaltz traduz por salicórnia (“glasswort”) e explica a verdura do kilya como a erva de cujas cinzas se prepara o kilya, que se pode comer antes de ser queimada.

1036Rabi Yirmeya nas aldeias
A guemará
רַבִּי יִרְמְיָה נְפַק לְקִירְיָיתָא, בְּעוֹ מִינֵּיהּ: מַהוּ לְעָרֵב בְּפוֹלִין לַחִין? לָא הֲוָה בִּידֵיהּ. כִּי אֲתָא לְבֵי מִדְרְשָׁא, אֲמַרוּ לֵיהּ: הָכִי אָמַר רַבִּי יַנַּאי: מְעָרְבִין בְּפוֹלִין לַחִין. וְכַמָּה? אָמַר רַב יְחִיאֵל: כִּמְלֹא הַיָּד.

Conta a guemará: Rabi Yirmeya saiu para as aldeias; perguntaram-lhe: Qual é a lei quanto a fazer eruv com favas frescas? Não tinha a resposta em mão. Quando veio à casa de estudo, disseram-lhe: Assim disse Rabi Yannai: Faz-se eruv com favas frescas. E quanto? Disse Rav Yechiel: Um punhado cheio.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Lekiryata”
לקרייתא - כפרים לראות בתבואתו:

“Para as aldeias” — saiu para ver a sua colheita.

1037Beterrabas cruas
A guemará
אָמַר רַב הַמְנוּנָא: מְעָרְבִין בִּתְרָדִין חַיִּין. אִינִי? וְהָאָמַר רַב חִסְדָּא: סִילְקָא חַיָּיא קָטֵיל גַּבְרָא חַיָּיא!

Disse Rav Hamnuna: Faz-se eruv também com beterrabas cruas. A guemará objeta: É assim? Mas eis que disse Rav Chisda: Beterraba crua mata um homem vivo, isto é, sadio; como, então, seria própria para o eruv?!

Nota

A resposta a esta objeção vem em Eruvin 29a.

O daf termina aqui: depois do chaziz de horta e da semente de gargir, a guemará conta a história de Rabi Zeira e do menino da casa do mestre sobre a bênção do kshut e do chaziz; discute as kafniyot e o kor, as amêndoas amargas e a bênção sobre o kor, segundo Rav Yehuda e Shmuel; e traz as medidas do eruv de verduras. A resposta à objeção de Rav Chisda contra o eruv com beterrabas cruas vem em Eruvin 29a.