O daf começa com a citação de Abaye que 27b deixou em aberto: quem comeu uma putita, um pequeno inseto da água, é açoitado com quatro séries de açoites; uma formiga, com cinco; uma vespa, com seis. Se os peixes fossem crescimentos do solo, a putita deveria acarretar também a proibição do réptil da terra; por isso Ravina diz que a diferença entre as duas baraitot são as aves, que, segundo uma delas, foram criadas do lodo. A guemará explica a razão de quem inclui e de quem exclui as aves pelas regras gerais e particulares. Depois, Rav ensina que se faz eruv com pafpuin, chalaglogot e gudgudaniyot, mas não com chaziz nem com kafniyot; a guemará discute as gudgudaniyot, nocivas para quem não tem filhos, e o chaziz, que Rav permitiu depois de vir à Babilônia. O daf termina quando a guemará começa a responder se a Babilônia é a maior parte do mundo.
Quem comeu uma putita (um pequeno inseto da água) é açoitado com quatro séries de açoites; quem comeu uma formiga é açoitado com cinco; quem comeu uma vespa é açoitado com seis. A objeção é esta: E, se for verdade que o que vive na água é crescimento do solo, também quem come a putita deveria ser açoitado por causa de “o sheretz que rasteja sobre a terra” (Vayikra 11:41)! Logo, os peixes não são crescimentos do solo.
“Putita” — um pequeno sheretz da água, que não tem o volume de uma azeitona; e, ainda assim, como é uma criatura inteira, comê-la é considerado comer, e é açoitado com quatro séries de açoites. Pois sobre o sheretz da água está escrito, segundo o Torat Kohanim: “Não torneis abomináveis as vossas almas com nenhum sheretz que rasteja, e não vos torneis impuros por eles” (Vayikra 11:43) — eis aqui duas proibições, e incluiu nelas tanto o sheretz da terra como o sheretz da água; e é açoitado por causa de “da sua carne não comereis” (Vayikra 11:11), e por causa de “e tudo o que não tem barbatana e escama não comereis” (Devarim 14:10).
“Formiga” — que é sheretz da terra: é açoitado com cinco séries: as duas que dissemos; e “tudo o que anda sobre o ventre, de todo sheretz que rasteja sobre a terra, não os comereis” (Vayikra 11:42) — eis três; “e todo sheretz que rasteja sobre a terra é abominação, não será comido” (Vayikra 11:41) — eis quatro; “e não vos torneis impuros com nenhum sheretz que se move sobre a terra” (Vayikra 11:44) — eis cinco; todas elas estão na parashá “E foi no oitavo dia” (Shemini).
“Vespa, é açoitado com seis” — pois é sheretz alado, e é açoitado por todas aquelas cinco, e acrescenta-se a elas “e todo sheretz alado é abominação, não será comido”, no Mishné Torá (Devarim). E o que está escrito em “Sereis santos” (Kedoshim), “e não torneis abomináveis as vossas almas com o animal, com a ave e com tudo o que rasteja” (Vayikra 20:25), não se conta, pois fala do animal doméstico, do animal selvagem e das aves grandes, e não dos sheratzim, que não estão escritos nele. A palavra sheretz é da expressão sheretz: coisa que se move sobre a terra e não se vê senão pelo seu correr e pelo seu rastejar, por causa da sua pequenez.
“E, se é assim” — que os peixes são crescimentos do solo, também quem come a putita deveria ser açoitado por causa do sheretz da terra. Assim lemos, e não lemos “deveria ser açoitado com cinco”, pois precisaria ser açoitado com sete: cinco do sheretz da terra e duas do sheretz da água.
A frase é a citação de Abaye que o daf anterior começou a trazer (“Mas eis que disse Abaye: …”, Eruvin 27b, bloco 999); a mesma palavra de Abaye está em Makkot 16b. Steinsaltz explica que a putita acumula duas proibições gerais sobre os répteis e duas próprias dos animais da água, e o Rashi enumera os versículos; a objeção é que, se os animais da água fossem crescimentos do solo, quem come a putita violaria também as proibições do réptil da terra.
O Torat Kohanim é o Sifra, o midrash halachico sobre Vayikra. No terceiro Rashi, a frase “e todo sheretz alado é abominação, não será comido” não se encontra assim no Mishné Torá: Devarim 14:19 diz “e todo sheretz alado é impuro para vós, não serão comidos”, e Vayikra 11:20 diz “todo sheretz alado que anda sobre quatro é abominação para vós”; mantivemos a formulação do Rashi. Na explicação do nome sheretz, o texto do Sefaria repete a mesma palavra (שרץ לשון שרץ); a continuação, “pelo seu correr” (שירוצו), indica que o Rashi liga a palavra ao verbo correr.
Antes, disse Ravina: Há entre elas a diferença quanto às aves. Para quem disse “fruto de fruto e crescimentos do solo”, estas aves também são crescimentos do solo, e se compram com o dinheiro do maaser; para quem disse “filho dos filhos da terra”, estas aves foram criadas do lodo, e não da terra, e por isso não se compram com ele.
Que as aves foram criadas do lodo é dito em Chullin 27b (“a ave, que foi criada do lodo”). Para a segunda baraita, “filho dos filhos da terra”, as aves ficam excluídas, como os peixes, que foram criados da água.
A guemará pergunta: Quem inclui as aves, qual é a sua razão? E quem exclui as aves, qual é a sua razão?
Quem inclui as aves entende que, numa regra geral, particular e regra geral, a última regra geral é a determinante; e assim é como um particular e uma regra geral, em que a regra geral se torna um acréscimo ao particular, e se incluem todas as coisas. E a primeira regra geral serve para excluir tudo o que não se assemelha a ele, ao particular, em dois aspectos, isto é, o que não é fruto de fruto nem crescimento do solo.
“Qual é a razão: quem inclui as aves entende” — que, em todo lugar em que há regra geral, particular e regra geral, a última regra geral é a principal, e é a ela que seguimos.
“E é como particular e regra geral, e a regra geral se torna um acréscimo ao particular, e inclui todas as coisas” — e a primeira regra geral, que vem para excluir e dizer que se interpreta pela regra de regra geral e particular, em que não há na regra geral senão o que está no particular, e que não incluamos nada, não é a ela que seguimos. Porém, serve um pouco para dizer que, quando a última regra geral inclui, não inclui todas as coisas, mas só o que é à semelhança do particular, o que se assemelha a ele em dois aspectos: que seja fruto de fruto e crescimento do solo. E incluem-se também as aves por esta regra, e ela serve para excluir os peixes, que não se assemelham a ele senão num só aspecto, em ser fruto de fruto.
No fim do segundo Rashi, os peixes são excluídos por não serem crescimento do solo: o Rashi segue a conclusão da guemará, que rejeitou a palavra de Abaye.
E quem exclui as aves entende que a primeira regra geral é a determinante; e assim é como uma regra geral e um particular, em que não há na regra geral senão o que está no particular: estas coisas, especificadas no versículo, sim, compram-se; outra coisa, não. E a última regra geral serve para incluir tudo o que se assemelha a ele, ao particular, em três aspectos: fruto de fruto, crescimento do solo e filho dos filhos da terra, o que exclui as aves.
“E quem exclui as aves entende” — que, em todo lugar em que há regra geral e particular, a primeira regra geral é a determinante, e não há na regra geral senão o que está no particular, e ela exclui todas as coisas, mesmo o que se assemelha a ele, ao particular. E o versículo escreveu depois a última regra geral para tirar, em parte, da restrição da primeira regra geral, e trazer ao menos algo que se assemelhe ao particular em todos os três aspectos: que seja fruto de fruto, crescimento do solo e filho dos filhos da terra.
Disse Rav Yehuda em nome de Rav Shmuel bar Shilat, em nome de Rav: Faz-se eruv com verduras baratas e sem importância, como pafpuin (uma espécie de verdura), chalaglogot (beldroega) e gudgudaniyot (uma espécie de trevo); mas não com chaziz (cereal ainda verde) nem com kafniyot (tâmaras que não amadureceram).
“Pafpuin” — verduras que chamam kakulei em língua aramaica, yotlish em laaz (francês antigo).
“Chalaglogot” — pulpier (beldroega) em laaz.
“Gudgudaniyot” — aliendra em laaz.
“Chaziz” — a forragem do cereal, quando ainda está verde, que se corta e se come.
“Kafniyot” — tâmaras ruins, que não amadureceram tudo o que precisavam.
As identificações das verduras seguem o Rashi e Steinsaltz. Steinsaltz traduz pafpuin por agrião; o Rashi diz apenas que são verduras chamadas kakulei em aramaico e yotlish em laaz. As palavras em laaz do Rashi (yotlish, pulpier, aliendra) são transcritas tal como estão no Sefaria; pulpier corresponde ao francês antigo para beldroega.
A guemará pergunta: E com gudgudaniyot acaso se faz eruv? Mas eis que foi ensinado numa baraita: Gudgudaniyot — os que têm muitos filhos, comam-nas; os que não têm filhos não as comam, pois diminuem a semente; e, se endureceram a ponto de dar semente, mesmo os que têm muitos filhos não as comam! Como, então, se faz eruv com elas?
“Gudgudaniyot” — diminuem a semente.
“E, se endureceram” — os talos, ficando duros como madeira, pois já cresceu neles a sua semente: os talos são nocivos para toda pessoa.
A guemará responde: Interpreta-a, a palavra de Rav, como referente às que não endureceram a ponto de dar semente, e a quem tem muitos filhos, para quem são próprias para comer.
“Interpreta-a” — esta palavra que disse Rav, “faz-se eruv”, refere-se às que não endureceram; e este que faz eruv com elas tem filhos, pois então elas são próprias para ele.
E, se quiseres, dize: Na verdade, faz-se eruv com elas mesmo para os que não têm filhos, pois são próprias para os que têm muitos filhos. Acaso não aprendemos na mishná (Eruvin 3:1): “Faz-se eruv para o nazir com vinho, e para o israelita com terumá”? Portanto, ainda que o alimento não seja próprio para este, faz-se eruv com ele porque é próprio para aquele. Também aqui, ainda que a gudgudaniyot não seja própria para este, faz-se eruv com ela porque é própria para aquele.
A mishná citada é a primeira do Perek Guimel (Eruvin 3:1): “Faz-se eruv para o nazir com vinho, e para o israelita com terumá”. O nazir não pode beber vinho, e o israelita não pode comer terumá, mas o alimento é próprio para outras pessoas.
E, se quiseres, dize: Quando Rav disse que se faz eruv com gudgudaniyot, referia-se às handekokei da Média, que são de qualidade superior e não fazem mal.
“Handekokei da Média” — as gudgudaniyot que há na Média são boas.
A guemará trata da continuação da palavra de Rav: E com chaziz não se faz eruv? Mas eis que disse Rav Yehuda, disse Rav: kshut (lúpulo) e chaziz — faz-se eruv com eles, e recita-se sobre eles a bênção “que cria o fruto da terra”!
“Kshut” — humlin (lúpulo). Na Babilônia comem o chaziz; e, quando Rav veio à Babilônia e viu que o comiam, disse: “Faz-se eruv”; e, no início, disse que não se faz eruv.
Steinsaltz traduz kshut por cuscuta (“dodder”); seguimos o Rashi, que o identifica com humlin, o lúpulo. A segunda parte deste Rashi (“Na Babilônia comem o chaziz…”) explica a resposta do bloco seguinte; o Sefaria a liga a este segmento.
A guemará responde: Não é difícil: esta palavra, de que não se faz eruv com chaziz, foi dita antes de Rav vir à Babilônia; esta outra, de que se faz eruv com ele, foi dita depois de Rav vir à Babilônia e ver que lá se comia o chaziz.
A guemará pergunta: E acaso a Babilônia é a maior parte do mundo, para que a lei se estabeleça segundo o seu costume? Mas eis que foi ensinado numa baraita: A fava, a cevada e o feno-grego que alguém semeou para usar como verdura — a sua intenção é anulada diante de todas as pessoas, pois a maioria não age assim. Por isso, as suas sementes são obrigadas ao maaser, e a sua verdura é isenta. O shachalayim (agrião) e o gargir (rúcula) que alguém semeou para usar como verdura dizimam-se como verdura e como semente; se os semeou para semente, dizimam-se como semente e como verdura, pois se comem de ambos os modos.
“Para verdura” — para comê-los no seu estado de verdura.
“As suas sementes são obrigadas” — ao maaser, embora não as tenha semeado de início para isso.
“E a sua verdura é isenta” — pois não é coisa alguma.
“Shachalayim” — kreshon (agrião).
“O gargir” — oruga (rúcula), que se come tanto como semente quanto como verdura.
Compare a Mishná Maasrot 4:5, segundo a qual só o shachalayim e o gargir se dizimam como semente e como verdura.
A guemará responde: Quando Rav disse que se faz eruv com o chaziz, …
“Quando Rav disse” — que se faz eruv com eles.