Talmud Bavli · Massechet Eruvin · Perek Guimel (BaKol Mearvin)
אֵין לְמֵידִין מִן הַכְּלָלוֹת

O fim da primeira mishná do Perek Guimel; não se aprende das regras gerais, segundo Rabi Yochanan; as provas de Abaye e de Ravina; a água e o sal juntos, no eruv e no maaser

Eruvin 27a — Perek Guimel (BaKol Mearvin, Eruvin 26b:17-41b:5) · fim da primeira mishná (Eruvin 3:1) e início da guemará · a palavra de Rav Yossef prossegue em 27b

A mishná conclui a razão de Rabi Yehuda: faz-se eruv para o kohen até entre os sepulcros, porque ele pode separar-se por uma divisória, ir e comer. Abre-se a guemará com a palavra de Rabi Yochanan: não se aprende das regras gerais, mesmo no lugar em que se diz “exceto”. A guemará mostra que ele se referia à mishná dos preceitos positivos que dependem do tempo, dos quais as mulheres são isentas, e prova que a regra tem exceções: a matzá, a alegria da festa e o hakhel, de um lado; o estudo da Torá, frutificar e multiplicar-se e a redenção do primogênito, de outro. Abaye, ou Rabi Yirmeya, traz a prova da regra do zav, que omite o merkav, a parte de cima da sela; e Ravina, ou Rav Nachman, a da nossa mishná, que omite as trufas e os cogumelos. Sobre a água e o sal, Rabi Eliezer e Rabi Yossi bar Chanina ensinam que, juntos, são permitidos: um sobre o eruv, o outro sobre o maaser; Rabi Yitzchak traz a versão sobre o maaser, e a guemará objeta com o testemunho de Rabi Yehuda ben Gadish sobre o tzir. O daf termina quando Rav Yossef começa a responder.

O fim da mishná: o eruv do kohen entre os sepulcros · מִפְּנֵי שֶׁיָּכוֹל לָחוֹץ

967Porque pode separar-se, ir e comer
Mishná (conclusão)
מִפְּנֵי שֶׁיָּכוֹל לָחוֹץ, וְלֵילֵךְ וְלֶאֱכוֹל.

…porque pode separar-se, pondo uma divisória entre si e os sepulcros, e ir e comer ali o alimento do eruv, sem contrair impureza.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “lachotz”
לחוץ - לעשות מחיצה בינו ובין הקבר שלא יאהיל עליו וכגון בשידה תיבה ומגדל יכנס שם מבעוד יום בעגלות אם ירצה אלמא חזי ליה:

“Separar-se” — fazer uma divisória entre ele e o sepulcro, para que o sepulcro não lhe faça sombra, isto é, não fique sob o mesmo teto que ele, transmitindo-lhe a impureza do morto; como, por exemplo, se for numa shidá, teivá e migdal (caixa, arca e armário de madeira, que fazem divisória contra a impureza): entrará ali enquanto ainda é dia, em carroças, se quiser; portanto, o eruv é próprio para ele.

Nota

Esta é a conclusão da primeira mishná do Perek Guimel (Mishná Eruvin 3:1), iniciada em Eruvin 26b (blocos 963-966), com a razão de Rabi Yehuda. A Mishná avulsa traz “porque pode ir separado e comer” (מִפְּנֵי שֶׁיָּכוֹל לֵילֵךְ לָחוֹץ וְלֶאֱכֹל), em outra ordem, e diz “até no cemitério”, onde o Talmud diz “até entre os sepulcros”.

Não se aprende das regras gerais · אֵין לְמֵידִין מִן הַכְּלָלוֹת

968A palavra de Rabi Yochanan
A guemará
גְּמָ׳ אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: אֵין לְמֵידִין מִן הַכְּלָלוֹת, וַאֲפִילּוּ בִּמְקוֹם שֶׁנֶּאֱמַר בּוֹ חוּץ.

GUEMARÁ. Disse Rabi Yochanan: Não se aprende das regras gerais, isto é, quando uma mishná enuncia uma regra com a palavra “tudo”, não se deve entendê-la como regra sem exceções; e isso vale mesmo no lugar em que se diz nela “exceto”, pois ainda pode haver outras exceções, não mencionadas.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “guemará: ein lemedin min haklalot”
גמ' אין למידין מן הכללות - כל היכא דתנן כלל לא אמרינן דוקא הוא דאיכא כלל דלא דק במילתיה ואיכא מילי דליתנהו בההוא כלל כי הנך דאמרינן לקמן:

“GUEMARÁ. Não se aprende das regras gerais” — em todo lugar em que aprendemos numa mishná uma regra geral, não dizemos que ela é exata, pois há regra geral em que o tanna (sábio da Mishná) não foi preciso nas suas palavras, e há coisas que não estão naquela regra geral, exceções como estas que dizemos adiante.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “vaafilu bimkom sheneemar bo chutz”
ואפילו במקום שנאמר בו חוץ - מדבר פלוני דאיכא למימר מדאפקיה להאי וודאי דק בכלליה אפילו הכי לא ילפינן מיניה דדלמא שייר ולא אפיק כל מאי דבעי:

“E mesmo no lugar em que se diz nela ‘exceto’” — exceto tal coisa, caso em que se poderia dizer: visto que excluiu esta, certamente foi preciso na sua regra geral; mesmo assim, não aprendemos dela, pois talvez o tanna tenha deixado algo de fora e não tenha excluído tudo o que precisava excluir.

969A que mishná se referia?
A guemará
מִדְּקָאָמַר: אֲפִילּוּ בִּמְקוֹם שֶׁנֶּאֱמַר בּוֹ חוּץ, מִכְּלָל דְּלָאו הָכָא קָאֵי, הֵיכָא קָאֵי?

Pelo fato de Rabi Yochanan ter dito: “Mesmo no lugar em que se diz nela ‘exceto’”, conclui-se por inferência que não se referia aqui, à nossa mishná, que diz “exceto”. Então, a que mishná se referia?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “midekaamar”
מדקאמר - רבי יוחנן אפי' מכלל דכי אמרה למילתיה לאו הכא אמרה דהכא נאמר בו חוץ וממילתיה משמע דאכלל שלא נאמר בו חוץ אמרה ומש"ה אמר אפי' כלומר לא מיבעיא היכא דלא נאמר בו חוץ אלא אפי' במקום שנאמר בו חוץ:

“Pelo fato de ter dito” — Rabi Yochanan: “Mesmo”, conclui-se por inferência que, quando disse a sua palavra, não a disse aqui, pois aqui se diz nela “exceto”; e da sua palavra se entende que a disse sobre uma regra geral em que não se diz “exceto”, e por isso disse “mesmo”; isto é, não é preciso dizê-lo onde não se diz nela “exceto”, mas vale mesmo no lugar em que se diz nela “exceto”.

970Os preceitos que dependem do tempo
A guemará
הָתָם קָאֵי כׇּל מִצְוַת עֲשֵׂה שֶׁהַזְּמַן גְּרָמָא, אֲנָשִׁים חַיָּיבִין וְנָשִׁים פְּטוּרוֹת. וְשֶׁלֹּא הַזְּמַן גְּרָמָא, אֶחָד נָשִׁים וְאֶחָד אֲנָשִׁים חַיָּיבִין.

Referia-se à mishná de lá: Todo preceito positivo que o tempo causa, isto é, que se cumpre só num tempo determinado, os homens são obrigados a cumpri-lo e as mulheres são isentas; e todo preceito positivo que o tempo não causa, tanto as mulheres como os homens são obrigados a cumpri-lo.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “venashim peturot”
ונשים פטורות - בפרק קמא דקידושין (דף לד.) יליף טעמא:

“E as mulheres são isentas” — no primeiro perek de Kidushin (34a) a guemará deriva a razão, do preceito dos tefilin (filactérios), dos quais as mulheres são isentas.

Nota

A mishná citada é a Mishná Kidushin 1:7 (Kidushin 29a). A Mishná avulsa traz “tanto os homens como as mulheres” (אֶחָד אֲנָשִׁים וְאֶחָד נָשִׁים), na ordem inversa. A mesma discussão, com a palavra de Rabi Yochanan, aparece em Kidushin 34a, onde também se deriva a isenção das mulheres a partir dos tefilin, como indica o Rashi.

971Matzá, alegria e hakhel
A guemará
וּכְלָלָא הוּא דְּכׇל מִצְוַת עֲשֵׂה שֶׁהַזְּמַן גְּרָמָא נָשִׁים פְּטוּרוֹת? הֲרֵי מַצָּה שִׂמְחָה וְהַקְהֵל, דְּמִצְוַת עֲשֵׂה שֶׁהַזְּמַן גְּרָמָא הוּא, וְנָשִׁים חַיָּיבוֹת.

E é acaso regra sem exceção que de todo preceito positivo que o tempo causa as mulheres são isentas? Eis que há a matzá (o pão ázimo de Pessach), a alegria da festa e o hakhel (a assembleia de todo o povo no Templo, em Sucot, depois do ano sabático), que são preceito positivo que o tempo causa, e as mulheres são obrigadas a cumpri-los!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “matzá”
מצה - לילה הראשונה חובת עשה היא בערב תאכלו מצות (שמות י״ב:י״ח) ושאר כל הימים אם רצה להסתפק בבשר בלא לחם אין חובה עליו לאכול:

“Matzá” — na primeira noite de Pessach é obrigação de preceito positivo, como está escrito: “À tarde comereis matzot” (Shemot 12:18); e em todos os demais dias, se quiser satisfazer-se com carne sem pão, não há obrigação sobre ele de comer matzá.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “simchá”
שמחה - ושמחת אתה וביתך (דברים י״ד:כ״ו) הרי נשים במשמע ומצה נמי חובה לנשים במס' פסחים (דף מג.) מהיקישא דלא תאכל עליו חמץ שבעת ימים תאכל עליו מצות כל שישנו בבל תאכל חמץ ישנו בקום אכול מצה ונשים ישנן בבל תאכל חמץ דכל מצות לא תעשה נשים מוזהרות כאנשים בפ"ק דקידושין (דף כט.):

“Alegria” — como está escrito: “E te alegrarás, tu e a tua casa” (Devarim 14:26); eis que as mulheres estão incluídas no sentido do versículo. E a matzá também é obrigação para as mulheres, como se ensina no tratado Pessachim (43a), pela comparação do versículo: “Não comerás com ele chametz (fermentado); sete dias comerás com ele matzot” (Devarim 16:3): todo aquele que está sujeito à proibição “não comerás chametz” está sujeito ao preceito “levanta-te, come matzá”; e as mulheres estão sujeitas à proibição “não comerás chametz”, pois em todos os preceitos negativos as mulheres são advertidas como os homens, como se ensina no primeiro perek de Kidushin (29a).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “hakhel”
הקהל - במועד שנת השמטה בחג הסוכות המלך עומד על בימה וקורא לפניהן מצות משנה תורה כדאיתא בסוטה (דף מא.) וכתיב האנשים והנשים והטף:

“Hakhel” — no tempo determinado do ano da shemitá (ano sabático), na festa de Sucot, o rei fica sobre uma plataforma e lê diante deles os preceitos de Mishnê Torá (o livro de Devarim), como consta em Sotá (41a); e está escrito: “Os homens, e as mulheres, e as crianças” (Devarim 31:12).

Nota

O Rashi remete a Pessachim 43a; no Sefaria, a comparação entre “não comerás chametz” e “comerás matzot”, aplicada às mulheres, está em Pessachim 43b. O versículo da comparação, que o Rashi cita sem indicar, é Devarim 16:3. O Rashi diz que o rei “fica” sobre a plataforma; a mishná de Sotá 41a diz que ele se senta sobre ela.

972Torá, frutificar e redenção do primogênito
A guemará
וְכׇל מִצְוַת עֲשֵׂה שֶׁלֹּא הַזְּמַן גְּרָמָא נָשִׁים חַיָּיבוֹת? הֲרֵי תַּלְמוּד תּוֹרָה, פְּרִיָּה וּרְבִיָּה, וּפִדְיוֹן הַבֵּן, דְּמִצְוַת עֲשֵׂה שֶׁלֹּא הַזְּמַן גְּרָמָא וְנָשִׁים פְּטוּרוֹת. אֶלָּא אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: אֵין לְמֵידִין מִן הַכְּלָלוֹת וַאֲפִילּוּ בִּמְקוֹם שֶׁנֶּאֱמַר בּוֹ חוּץ.

E acaso em todo preceito positivo que o tempo não causa as mulheres são obrigadas? Eis que há o estudo da Torá, o preceito de frutificar e multiplicar-se e a redenção do filho primogênito, que são preceito positivo que o tempo não causa, e as mulheres são isentas deles! Antes, disse Rabi Yochanan: Não se aprende das regras gerais, mesmo no lugar em que se diz nela “exceto”, pois sempre é possível que haja outras exceções à regra.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “talmud Torá”
תלמוד תורה - נשים פטורות דכתיב ולמדתם אותם את בניכם ולא בנותיכם:

“Estudo da Torá” — as mulheres são isentas, pois está escrito: “E as ensinareis a vossos filhos” (Devarim 11:19), e não a vossas filhas.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “periá urviá”
פריה ורביה - דכתיב פרו ורבו ומלאו וכבשוה איש דרכו לכבוש ואין אשה דרכה לכבוש (יבמות דף סה:):

“Frutificar e multiplicar-se” — pois está escrito: “Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra e subjugai-a” (Bereshit 1:28): o homem tem por costume subjugar, e a mulher não tem por costume subjugar (Yevamot 65b).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “pidyon”
פדיון - בנו הבכור חובה על האב ולא על האם בקידושין (דף כט.) שמעינן לה מדכתיב תפדה קרי ביה תפדה כל שחייב ליפדות חייב לפדות את בנו ואשה אינה בכלל פדיון עצמה דכתיב (שמות י״ג:ט״ו) בכור בניך תפדה ולא בנותיך אינה נמי במצות פדיון בנה הבכור:

“Redenção” — do seu filho primogênito é obrigação do pai, e não da mãe; em Kidushin (29a) o aprendemos do que está escrito: “tifdê” (redimirás); lê-o também “tipadê” (serás redimido): todo aquele que é obrigado a ser redimido é obrigado a redimir o seu filho; e a mulher não está incluída na redenção de si mesma, pois está escrito: “O primogênito de teus filhos redimirás” (Shemot 34:20), e não de tuas filhas; por isso, ela também não está no preceito da redenção do seu filho primogênito.

Nota

No Rashi sobre “frutificar”, o versículo é abreviado: Bereshit 1:28 diz “e enchei a terra e subjugai-a”, e a discussão sobre quem tem por costume subjugar está em Yevamot 65b. No Rashi sobre a redenção, a edição do Sefaria indica Shemot 13:15, que diz “e todo primogênito de meus filhos redimirei”; as palavras citadas, “o primogênito de teus filhos redimirás”, estão em Shemot 34:20 (e, de forma próxima, em Shemot 13:13), e é este o versículo que Kidushin 29a cita para excluir as filhas. Por isso indicamos Shemot 34:20 na tradução.

As provas de Abaye e de Ravina · אַף אֲנַן נָמֵי תְּנֵינָא

973A prova de Abaye: a regra do zav
A guemará
אָמַר אַבָּיֵי, וְאִיתֵּימָא רַבִּי יִרְמְיָה: אַף אֲנַן נָמֵי תְּנֵינָא, עוֹד כְּלָל אַחֵר אָמְרוּ: כׇּל שֶׁנִּישָּׂא עַל גַּבֵּי הַזָּב — טָמֵא, וְכֹל שֶׁהַזָּב נִישָּׂא עָלָיו — טָהוֹר, חוּץ מִן הָרָאוּי לְמִשְׁכָּב וּמוֹשָׁב, וְהָאָדָם. וְתוּ לֵיכָּא? וְהָא אִיכָּא מֶרְכָּב?!

Disse Abaye, e alguns dizem que foi Rabi Yirmeya: Também nós aprendemos uma prova numa mishná: Disseram ainda outra regra geral: Tudo o que é carregado sobre o zav (homem com fluxo impuro) é impuro; e tudo aquilo sobre o qual o zav é carregado é puro, exceto aquilo que é próprio para deitar e sentar, e o ser humano, que se tornam impuros quando o zav é carregado sobre eles. E não há mais nada? Mas eis que há o merkav (o objeto sobre o qual se monta, que se torna impuro, como está explícito na própria Torá)!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “kol shenisá al gabei hazav”
כל שנישא על גבי הזב - עליונו של זב דכתיב (ויקרא ט״ו:י׳) בכל אשר יהיה תחתיו ואמר בפרק בנות כותים (נדה דף לג.) מאי תחתיו אי נימא תחתיו דזב היינו משכב אלא בכל אשר יהיה הזב תחתיו והיינו עליונו של זב:

“Tudo o que é carregado sobre o zav” — trata-se do que está acima do zav, pois está escrito (Vayikra 15:10): “Em tudo o que estiver debaixo dele”; e disse a guemará no perek Benot Kutim (Nidá 33a): Que é “debaixo dele”? Se dissermos: debaixo do zav, isso é o mishkav (o leito, já mencionado em outro versículo); antes, o sentido é: em tudo aquilo debaixo do qual o zav estiver; e isso é o que está acima do zav.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “chutz min harauy lemishkav umoshav”
חוץ מן הראוי למשכב ומושב - אבל שאינו ראוי טהור כדאמר בחומר בקודש (חגיגה דף כג:) יכול כפה סאה וישב עליה יהא טמא תלמוד לומר והיושב על הכלי אשר ישב עליו מי שמיוחד לישיבה יצא זה שאינו מיוחד לישיבה שאומרים עמוד ונעשה מלאכתנו:

“Exceto aquilo que é próprio para deitar e sentar” — mas o que não é próprio é puro, como se diz no perek Chomer BaKodesh (Chaguigá 23b): Poder-se-ia pensar que, se alguém virou de boca para baixo uma seá (vasilha de medir cereais) e sentou-se sobre ela, ela seria impura; por isso o ensino diz: “E quem se sentar sobre o objeto em que se sentou” (Vayikra 15:6): aquilo que é destinado a sentar; exclui-se este, que não é destinado a sentar, pois lhe dizem: Levanta-te, e façamos o nosso trabalho.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “vehaadam”
והאדם - דכתיב והנושא אותם אף הזב במשמע אותם:

“E o ser humano” — pois está escrito: “E quem os carregar” (Vayikra 15:10): também o zav está incluído no sentido de “os”, e assim o ser humano que carrega o zav se torna impuro.

Nota

A mishná citada é a Mishná Zavim 5:2. A Mishná avulsa traz “tudo o que é carregado” (כֹּל הַנִּשָּׂא) e “para deitar e para sentar” (לְמִשְׁכָּב וּלְמוֹשָׁב), com o mesmo sentido. No Rashi, o versículo Vayikra 15:6 diz “o objeto em que se sentou o zav”; o Rashi cita-o sem a última palavra.

974A parte de cima da sela
A guemará
מֶרְכָּב הֵיכִי דָמֵי? אִי דְּיָתֵיב עֲלֵיהּ — הַיְינוּ מוֹשָׁב. אֲנַן הָכִי קָאָמְרִינַן: הָא אִיכָּא גַּבָּא דְאוּכָּפָא, דְּתַנְיָא: הָאוּכָּף — טָמֵא מוֹשָׁב, וְהַתְּפוּס — טָמֵא מֶרְכָּב. אֶלָּא שְׁמַע מִינַּהּ אֵין לְמֵידִין מִן הַכְּלָלוֹת וַאֲפִילּוּ בִּמְקוֹם שֶׁנֶּאֱמַר בּוֹ חוּץ.

A guemará pergunta: O merkav, como é o caso? Se ele se senta sobre ele, isso é o moshav (o assento, já incluído na regra)! A guemará responde: Nós dizemos assim: Eis que há a parte de cima da sela, que se torna impura como merkav, e não como assento comum, como foi ensinado numa baraita (ensino tanaítico não incluído na Mishná): A sela sobre a qual se sentou o zav é impura como assento, e o tefus (a peça da frente da sela, em que o cavaleiro se segura) é impuro como merkav. Antes, conclui-se disto que não se aprende das regras gerais, mesmo no lugar em que se diz nela “exceto”.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “tefus”
תפוס - דאוכף ארצו"ן בלעז שכשרוכב תופס באותו עץ שנקרא ארצו"ן ולהכי מטמא משום מרכב:

“O tefus” — da sela; chama-se arçon (arção) em laaz (francês antigo): pois, quando monta, o cavaleiro segura-se naquela madeira que se chama arçon; e por isso se torna impuro como merkav.

Nota

Steinsaltz identifica esta baraita como Tosefta; não a localizamos com esta formulação na Tosefta do Sefaria. A Mishná Kelim 23:2 enumera outros objetos que são impuros como merkav.

975A prova de Ravina: trufas e cogumelos
A guemará
אָמַר רָבִינָא, וְאִיתֵּימָא רַב נַחְמָן: אַף אֲנַן נָמֵי תְּנֵינָא: בַּכֹּל מְעָרְבִין וּמִשְׁתַּתְּפִין, חוּץ מִן הַמַּיִם וְהַמֶּלַח. וְתוּ לֵיכָּא? וְהָא אִיכָּא כְּמֵיהִין וּפִטְרִיּוֹת?! — אֶלָּא שְׁמַע מִינַּהּ: אֵין לְמֵידִין מִן הַכְּלָלוֹת וַאֲפִילּוּ בִּמְקוֹם שֶׁנֶּאֱמַר בּוֹ חוּץ.

Disse Ravina, e alguns dizem que foi Rav Nachman: Também nós aprendemos uma prova na nossa mishná: Com tudo se faz eruv e com tudo mishtatfin (faz-se o shituf), exceto com a água e o sal. E não há mais nada? Mas eis que há trufas e cogumelos, com que também não se faz eruv, pois não são considerados alimento! Antes, conclui-se disto que não se aprende das regras gerais, mesmo no lugar em que se diz nela “exceto”.

Nota

É a própria mishná deste perek (Mishná Eruvin 3:1; Eruvin 26b, bloco 963). A guemará cita “exceto com a água e o sal” (וְהַמֶּלַח), onde a mishná diz “e com o sal” (וּמִן הַמֶּלַח).

Água e sal juntos: o eruv e o maaser · מַיִם וּמֶלַח

976Um ensina sobre o eruv, outro sobre o maaser
A guemará
הַכֹּל נִיקָּח בְּכֶסֶף מַעֲשֵׂר כּוּ׳. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר וְרַבִּי יוֹסֵי בַּר חֲנִינָא, חַד מַתְנֵי אַעֵירוּב וְחַד מַתְנֵי אַמַּעֲשֵׂר.

“Tudo se compra com o dinheiro do maaser (o segundo dízimo)” etc. Rabi Eliezer e Rabi Yossi bar Chanina tinham a mesma tradição, mas um deles a ensina sobre o eruv e o outro a ensina sobre o maaser.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “chad matnei aeruv vechad matnei amaaser”
חד מתני אעירוב וחד מתני אמעשר - האי לא שנו דקאמרינן לקמן:

“Um a ensina sobre o eruv e o outro a ensina sobre o maaser” — isto é, este “não ensinaram” que dizemos adiante é o ensino que cada um deles aplica a um tema.

Nota

A guemará volta à segunda frase da mishná (Eruvin 26b, bloco 964): “E tudo se compra com o dinheiro do maaser, exceto a água e o sal”.

977A versão sobre o eruv
A guemará
חַד מַתְנֵי אַעֵירוּב: לֹא שָׁנוּ אֶלָּא מַיִם בִּפְנֵי עַצְמוֹ וּמֶלַח בִּפְנֵי עַצְמוֹ דְּאֵין מְעָרְבִין. אֲבָל בְּמַיִם וּמֶלַח — מְעָרְבִין.

Um deles a ensina sobre o eruv assim: Não ensinaram que não se faz eruv com eles senão no caso de água por si só e sal por si só; mas com água e sal juntos faz-se eruv.

978A versão sobre o maaser
A guemará
וְחַד מַתְנֵי אַמַּעֲשֵׂר: לֹא שָׁנוּ אֶלָּא מַיִם בִּפְנֵי עַצְמוֹ וּמֶלַח בִּפְנֵי עַצְמוֹ, דְּאֵין נִיקָּחִין. אֲבָל מַיִם וּמֶלַח — נִיקָּחִין בְּכֶסֶף מַעֲשֵׂר.

E o outro a ensina sobre o maaser assim: Não ensinaram que não se compram com o dinheiro do maaser senão no caso de água por si só e sal por si só; mas água e sal misturados compram-se com o dinheiro do maaser.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “mayim umelach”
מים ומלח - המעורבין מזון הן לטבל בהן פתו:

“Água e sal” — misturados, são alimento, para a pessoa mergulhar neles o seu pão.

979Precisamos de fruto
A guemará
מַאן דְּמַתְנֵי אַמַּעֲשֵׂר, כׇּל שֶׁכֵּן אַעֵירוּב. וּמַאן דְּמַתְנֵי אַעֵירוּב, אֲבָל אַמַּעֲשֵׂר לָא. מַאי טַעְמָא — פֵּירָא בָּעִינַן.

Quem a ensina sobre o maaser, com mais razão a aplica ao eruv. E quem a ensina sobre o eruv, aplica-a só ao eruv, mas ao maaser, não. Qual é a razão? Para o maaser, precisamos de fruto, como diz a Torá, e água e sal, mesmo misturados, não são fruto.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “pera baeinan”
פירא בעינן - כדלקמן (עמוד ב') מכלל ופרט:

“Precisamos de fruto” — como se aprende adiante (27b), do klal uferat (regra geral e particular, uma das regras de interpretação da Torá).

Nota

O Rashi remete a Eruvin 27b, onde a guemará deriva do versículo do dinheiro do maaser (Devarim 14:26) que só se compra com ele fruto de fruto.

980Rabi Yitzchak e o testemunho sobre o tzir
A guemará
כִּי אֲתָא רַבִּי יִצְחָק, מַתְנֵי אַמַּעֲשֵׂר. מֵיתִיבִי: הֵעִיד רַבִּי יְהוּדָה בֶּן גָּדִישׁ לִפְנֵי רַבִּי אֱלִיעֶזֶר: שֶׁל בֵּית אַבָּא הָיוּ לוֹקְחִין צִיר בְּכֶסֶף מַעֲשֵׂר. אָמַר לוֹ: שֶׁמָּא לֹא שָׁמַעְתָּ אֶלָּא כְּשֶׁקִּרְבֵי דָגִים מְעוֹרָבִין בָּהֶן. וַאֲפִילּוּ רַבִּי יְהוּדָה בֶּן גָּדִישׁ לָא קָאָמַר אֶלָּא בְּצִיר, דְּשׁוּמְנָא דְפֵירָא הִיא, אֲבָל מַיִם וּמֶלַח — לֹא.

Quando veio Rabi Yitzchak da Terra de Israel para a Babilônia, ensinou esta tradição sobre o maaser. Objetam a partir de uma baraita: Testemunhou Rabi Yehuda ben Gadish diante de Rabi Eliezer: Os da casa de meu pai costumavam comprar tzir (salmoura de peixe) com o dinheiro do maaser. Disse-lhe o outro: Talvez não tenhas ouvido isso senão quando as entranhas dos peixes estavam misturadas nela, e por causa delas se pode comprá-la com o dinheiro do maaser. E mesmo Rabi Yehuda ben Gadish não o disse senão sobre o tzir, que é a gordura do fruto, isto é, contém um pouco da gordura do peixe, que se compra com o dinheiro do maaser; mas água e sal sozinhos, não!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ki ata Rabi Yitzchak matnei”
כי אתא ר' יצחק מתני - להאי לא שנו אמעשר:

“Quando veio Rabi Yitzchak, ensinou” — isto é, este “não ensinaram”, ele o ensinou sobre o maaser.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “deshumna defeira”
דשומנא דפירא - אפילו כשאין קרבי דגים מעורבים בו יש שם קצת משמנן עם המים ומלח:

“Que é a gordura do fruto” — mesmo quando não há entranhas de peixes misturadas nele, há ali um pouco da gordura deles com a água e o sal.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “aval mayim umelach”
אבל מים ומלח - דעלמא דלאו ציר הוא לא אמר:

“Mas água e sal” — comuns, que não são tzir, Rabi Yehuda ben Gadish não o disse.

Nota

A objeção é contra Rabi Yitzchak, que permite comprar com o dinheiro do maaser água e sal misturados. Não localizamos esta baraita com esta formulação na Tosefta do Sefaria.

981A resposta de Rav Yossef
A guemará
אָמַר רַב יוֹסֵף:

Em resposta a esta dificuldade, disse Rav Yossef: …

O daf termina aqui, no meio de uma frase: depois de concluir a primeira mishná do Perek Guimel com a razão de Rabi Yehuda sobre o eruv do kohen entre os sepulcros, a guemará traz a palavra de Rabi Yochanan, “não se aprende das regras gerais, mesmo no lugar em que se diz ‘exceto’”, com as provas da mishná dos preceitos que dependem do tempo, da regra do zav e da nossa mishná; e, sobre a água e o sal juntos, as versões de Rabi Eliezer e de Rabi Yossi bar Chanina, a de Rabi Yitzchak e a objeção do testemunho de Rabi Yehuda ben Gadish. A resposta de Rav Yossef prossegue em Eruvin 27b.