A guemará conclui a resposta de Rav Sheshet: a mishná de Rabi Ilai é segundo Rabi Eliezer, e a do perek HaDar, segundo os Rabanan; quando se examina, para Rabi Eliezer quem anula o domínio do pátio anula também o da casa, e para os Rabanan, não. À objeção de que isso é óbvio, Rachava responde que ele e Rav Huna bar Chinana aplicaram a palavra aos cinco moradores de um pátio, um dos quais esqueceu o eruv: segundo Rabi Eliezer, não precisa anular em favor de cada um, e segundo os Rabanan, precisa; a baraita que o ensina é segundo Rabi Eliezer, e Rav Tavyomei atribui essa conclusão ao próprio Rav Sheshet. Rav Pappa pergunta a Abaye o que acontece se aquele que esqueceu declara expressamente o contrário da presunção, e a resposta é que, segundo ambos, uma vez que revelou a sua intenção, revelou-a. Reish Lakish explica o arkablin de Rabi Ilai como atzvata charuziyata. Encerra-se o Perek Bet com o hadran, e abre-se o Perek Guimel com a mishná: com todo alimento se faz eruv e shituf, exceto com a água e o sal; o dinheiro do maaser e o voto de abster-se de alimento; o eruv para o nazir com vinho e para o israelita com teruma, contra Sumchus; e o eruv para o kohen num beit haperas, e, segundo Rabi Yehuda, até entre os sepulcros.
…esta mishná, em que Rabi Ilai diz que a casa daquele que esqueceu o eruv é proibida somente a ele, é segundo Rabi Eliezer; e aquela mishná, que diz que a casa é proibida a ele e a eles, é segundo os Rabanan.
“A Mishná, Rabi Eliezer” — isto é, a nossa mishná é segundo Rabi Eliezer, como disse Rabi Ilai: “Ouvi de Rabi Eliezer”.
Esta é a continuação da resposta de Rav Sheshet, iniciada em Eruvin 26a (bloco 946). A mishná de Rabi Ilai é a Mishná Eruvin 2:6 (Eruvin 23a, bloco 840), e a outra é a Mishná Eruvin 6:3 (Eruvin 69b), que diz que a casa é proibida “para ele e para eles”.
Quando examinares a questão, dirás: segundo as palavras de Rabi Eliezer, quem anula em favor dos demais moradores o domínio do seu pátio anulou também o domínio da sua casa; e segundo os Rabanan, quem anula o domínio do seu pátio não anulou em favor deles o domínio da sua casa.
“Anulou o domínio da sua casa” — ainda que não tenha especificado expressamente o domínio da sua casa; pois certamente a Mishná trata do caso em que não especificou, pois, se tivesse especificado, Rabi Ilai não poderia dizer: “Busquei para mim um companheiro e não encontrei”, já que todos, também os Rabanan, concordam que a casa lhes é permitida.
A guemará objeta: Isto é óbvio! Pois é exatamente nisso que Rabi Eliezer e os Rabanan divergem.
“É óbvio” — que nisso Rabi Eliezer e os Rabanan divergem; e para que precisa Rav Sheshet dizer “quando examinares”?
Rachava disse: Eu e Rav Huna bar Chinana explicamos esta palavra: Ela não foi necessária senão para o caso de cinco pessoas que moram num mesmo pátio, e uma delas esqueceu e não participou do eruv (junção dos moradores do pátio) com as demais.
“Rachava disse: Eu e Rav Huna bar Chinana explicamos” — explicamos para que foi necessário este “quando examinares” de Rav Sheshet.
Assim lemos: “Não foi necessária senão para cinco que moram num pátio” etc. — que Rav Sheshet nos ensina a prestar atenção para entender a razão da divergência deles, de Rabi Eliezer e dos Rabanan, e a aprender dela outra coisa: que, segundo Rabi Eliezer, quem anula, anula com olho generoso, sem reservar nada para si, e não dizemos: quanto ao pátio, que revelou, revelou; quanto à casa, que não revelou, não revelou. E aprendamos dela que, onde anulou em favor de um deles, anulou em favor de todos eles, e não dizemos: a quem revelou expressamente, revelou; a quem não revelou, não revelou. E, segundo os Rabanan, precisa anular em favor de cada um; assim como, quanto à casa, entendem que o que não especificou não anulou, aqui também, em favor de quem não especificou não anulou, e todos são proibidos de carregar no pátio. Pois, ainda que este, em favor de quem anulou, tenha feito eruv com o seu companheiro, os demais moradores, quando fez o eruv, ontem, na véspera do Shabat, não fez o eruv com a intenção de incluir aquela parte, pois naquela hora ela, a parte do que esqueceu, não era dele. E semelhante a isso foi ensinado no perek HaDar (adiante, Eruvin 70b): Quanto a um homem de fora, do mercado, que morreu e tinha uma casa no pátio, e deixou o seu domínio para um dos moradores do pátio enquanto ainda era dia, isto é, antes que fizessem o eruv, pois, quando este fez o eruv, fê-lo também com a intenção de incluir aquela parte, ele não proíbe os moradores; se o deixou depois que escureceu, eis que proíbe a todos.
A baraita citada pelo Rashi está em Eruvin 70b, no perek HaDar (o sexto do tratado), com a redação: “E alguém do mercado que morreu e deixou o seu domínio para um dos moradores do pátio: enquanto ainda é dia, não proíbe; depois que escurece, proíbe”. As palavras “e tinha uma casa no pátio” e a explicação “isto é, antes que fizessem o eruv” são do próprio Rashi. A abreviatura ה״ג, no início do comentário, significa “assim lemos”.
Segundo as palavras de Rabi Eliezer, quando aquele que esqueceu anula o seu domínio, não precisa anulá-lo expressamente em favor de cada um dos moradores, pois quem anula, anula com generosidade, e, ao anular em favor de um, anula em favor de todos.
Segundo os Rabanan, quando aquele que esqueceu anula o seu domínio, precisa anulá-lo expressamente em favor de cada um dos moradores, pois não se presume que tenha anulado senão o que especificou.
A guemará pergunta: Segundo a opinião de quem vai isto que foi ensinado numa baraita: Quanto a cinco pessoas que moram num mesmo pátio, e uma delas esqueceu e não participou do eruv, quando ela anula o seu domínio, não precisa anular o domínio em favor de cada um dos demais moradores. Segundo quem é? Segundo Rabi Eliezer.
Rav Kahana ensina assim, como foi dito acima, que Rachava e Rav Huna bar Chinana aplicaram a palavra de Rav Sheshet a este caso. Rav Tavyomei ensina assim: Segundo a opinião de quem vai isto que foi ensinado numa baraita: Quanto a cinco pessoas que moram num mesmo pátio, e uma delas esqueceu e não participou do eruv, quando ela anula o seu domínio, não precisa anular o domínio em favor de cada um dos demais moradores; segundo quem é? Rav Huna bar Yehuda disse que Rav Sheshet disse: Segundo quem? Segundo Rabi Eliezer.
“Rav Kahana ensina assim” — que este “quando examinares” de Rav Sheshet foi dito sobre a Mishná, e foram Rachava e Rav Huna que o explicaram, dizendo que veio para nos ensinar a partir dele a lei dos cinco que fizeram eruv no pátio etc.
“E Rav Tavyomei ensina” — que Rav Sheshet o disse expressamente sobre ela, sobre a baraita.
“Segundo Rabi Eliezer” — que diz: quem anula, anula com olho generoso, e por isso anula em favor de todos.
Rav Pappa disse a Abaye: Segundo Rabi Eliezer, se aquele que esqueceu o eruv disse expressamente: Não anulo o domínio da minha casa; e segundo os Rabanan, se disse: Anulo também o domínio da minha casa, o que é a lei?
“Segundo Rabi Eliezer” — que diz que, sem especificar, quem anula o pátio anulou o domínio da sua casa.
“Se disse” — expressamente: Não anulo, quanto ao domínio da sua casa: acaso a sua casa é permitida a eles, aos demais moradores, ou não?
“E segundo os Rabanan” — que dizem que, sem especificar, não anulou o domínio da sua casa: se disse expressamente: Anulo em vosso favor também o domínio da minha casa, acaso anula ou não?
O lema do Rashi traz אם אמר (“se disse”), e a guemará, אִי אָמַר, com o mesmo sentido.
A guemará explica a dúvida: Acaso a razão de Rabi Eliezer é porque ele entende que quem anula o domínio do seu pátio anulou também o domínio da sua casa, por presunção; e este disse expressamente: Eu não anulo, e por isso a casa lhe permanece?
Ou talvez a razão de Rabi Eliezer seja porque as pessoas não costumam morar numa casa sem pátio, e por isso quem anula o domínio do seu pátio anula forçosamente o da sua casa; e, quando diz: Não anulo, não está em seu poder reter a casa; ainda que diga: Moro na minha casa, nada disse?
“Casa sem pátio” — isto é, visto que proibiu a si mesmo no seu pátio, que anulou em favor deles, não mora mais na casa.
“Não está em seu poder” — pois, visto que não tem pátio, a moradia da casa sozinha nada é para ele.
O lema do Rashi traz ביתא בלא חצר, em aramaico, onde a guemará diz בַיִת בְּלָא חָצֵר, com o mesmo sentido.
E segundo os Rabanan, se disse: Anulo também o domínio da minha casa, o que é a lei? Qual é a razão dos Rabanan? Acaso é porque entendem que quem anula o domínio do seu pátio não anulou o domínio da sua casa, por presunção; e este disse expressamente: Anulo, e por isso a casa lhes fica permitida?
Ou talvez a razão dos Rabanan seja porque ninguém costuma retirar-se inteiramente da casa e do pátio e ficar como um hóspede junto deles, dos vizinhos; e este, quando diz: Anulo, não está em seu poder o que diz, e a sua palavra é desconsiderada?
“E este, quando diz: Anulo” — a sua intenção se anula diante do costume de todas as pessoas, e não anulou senão o pátio.
Abaye lhe disse: Tanto segundo os Rabanan como segundo Rabi Eliezer, visto que revelou a sua intenção, revelou-a; e tudo segue o que ele disse expressamente.
A guemará cita a continuação da Mishná: E também ouvi dele, de Rabi Eliezer, que se cumpre a obrigação de comer ervas amargas com arkablin em Pessach. A guemará pergunta: O que é arkablin? Reish Lakish disse: atzvata charuziyata (fibras enfileiradas que envolvem a tamareira).
“Atzvata charzayta” — fibra grossa que cresce ao redor da tamareira, e se enrola e sobe por ela como as gavinhas das videiras. Charzayta: são fibras muito apertadas juntas, como fieiras de contas, e há nela sabor de maror (erva amarga).
A guemará cita a Mishná Eruvin 2:6 (Eruvin 23a, bloco 841), onde a palavra aparece como עַקְרַבְנִים (akravanim) nas edições avulsas da Mishná; o Talmud traz עַרְקַבָּלִין (arkablin). O lema do Rashi, אצוותא חרזייתא, difere levemente na grafia da guemará, אַצְווֹתָא חָרוּזְיָאתָא, com o mesmo sentido.
Voltaremos a ti, Osin Passin! Com esta fórmula tradicional se encerra o estudo de cada capítulo do Talmud: quem estuda promete voltar ao capítulo concluído, aqui o Perek Bet, chamado Osin Passin pelas palavras com que começa.
MISHNÁ. Com tudo o que é alimento se faz eruv (junção), tanto o eruv de pátios, para permitir carregar no Shabat no pátio comum a várias casas, como o eruv de limites, para estender a distância que se pode andar no Shabat; e com tudo mishtatfin (faz-se o shituf mevaot, a associação dos pátios abertos para um mesmo mavoi), exceto com a água e com o sal, pois não são alimento.
Com o hadran, encerra-se o Perek Bet (Osin Passin), que vai de 17b a 26b, e abre-se aqui o Perek Guimel (BaKol Mearvin), chamado pelas palavras com que começa esta mishná, a Mishná Eruvin 3:1. Ela trata do alimento com que se faz o eruv e o shituf: com todo alimento, exceto a água e o sal; compara-os ao dinheiro do maaser e ao voto de abster-se de alimento; e ensina que se faz eruv para o nazir com vinho e para o israelita com teruma, ou só com alimento comum, segundo Sumchus, e para o kohen num beit haperas, ou até entre os sepulcros, segundo Rabi Yehuda.
MISHNÁ. “Com tudo se faz eruv”: eruvei chatzerot (eruvs de pátios) e eruvei techumin (de limites).
“E mishtatfin” — no mavoi.
“Exceto com a água e com o sal” — pois não são coisa de alimento; e a razão do eruv é porque se considera que a intenção e a moradia de uma pessoa estão no lugar do seu alimento; e, visto que todos os moradores do pátio deram a medida do seu alimento numa só casa, é como se todos morassem nela, e todos se tornaram um só domínio etc.; e assim também nos eruvei techumin quem deposita o eruv torna-se como quem se deitou ali ao entrar o Shabat, e dali tem duas mil amot para cada direção; por isso, precisamos, para o eruv, de coisa de alimento.
E tudo se compra com o dinheiro do maaser (o segundo dízimo, que se leva a Jerusalém e se gasta ali em alimento), exceto a água e o sal. Quem faz voto de abster-se do alimento é permitido no sal e na água, pois não são considerados alimento.
“Com o dinheiro do maaser” — que se gasta dentro de Jerusalém, quando o gasta para a sua alimentação, como está escrito (Devarim 14:26): “E darás o dinheiro por tudo o que a tua alma desejar”.
“Exceto a água e o sal” — na guemará se explica a razão: porque não são fruto de fruto, isto é, produto que cresce da terra.
O versículo citado pelo Rashi é Devarim 14:26. As palavras לצורך מאכלו (“para a sua alimentação”) estão entre colchetes na edição de Vilna, marca de editor que indica acréscimo ao texto; foram traduzidas, pois completam o sentido. A Mishná avulsa (Eruvin 3:1) traz “é permitido na água e no sal”, na ordem inversa.
Faz-se eruv de limites para o nazir (nazireu) com vinho, ainda que ele seja proibido de bebê-lo, e para o israelita com teruma (a porção consagrada aos kohanim), ainda que ele seja proibido de comê-la, pois são próprios para outros. Sumchus diz: Para o israelita, só se faz eruv com chulin (alimento não consagrado).
“Faz-se eruv para o nazir” — trata-se dos eruvei techumin.
“Com vinho” — e, ainda que não seja próprio para ele, é próprio para outros; e, visto que é alimento para outros, os Rabanan o permitiram para ele como eruv.
“E para o israelita com teruma” — pois ela é própria para o kohen, e por isso é alimento.
“Sumchus diz: com chulin” — mas não com teruma, pois precisamos de algo que seja próprio para ele, para aquele a quem se faz o eruv; e na guemará se explica por que razão Sumchus não diverge quanto ao vinho para o nazir.
E faz-se eruv para o kohen (sacerdote) num beit haperas (campo onde se arou um sepulcro, cuja terra é impura pela dúvida de fragmentos de ossos). Rabi Yehuda diz: Faz-se eruv para o kohen até entre os sepulcros…
“E para o kohen num beit haperas” — é ensino anônimo, e não é Sumchus quem o diz: deposita-se eruv para o kohen num beit haperas; ainda que precisemos que ele possa ir lá, tomá-lo e comê-lo ali — pois, se não pode ir lá, como adquire o lugar de repouso do Shabat naquele lugar, para que seja como se tivesse passado o Shabat ali? —, num beit haperas está bem, pois é dúvida de lei dos Rabanan, e é permitido entrar nele por meio de sopro, soprando o pó diante de si para descobrir os ossos.
A mishná prossegue em Eruvin 27a com a razão de Rabi Yehuda. A Mishná avulsa (Eruvin 3:1) traz “até no cemitério” (בְּבֵית הַקְּבָרוֹת), onde o Talmud traz “até entre os sepulcros” (בֵּין הַקְּבָרוֹת). O lema do Rashi traz ולכהן, e a guemará, וְלַכֹּהֵן, com o mesmo sentido.