Talmud Bavli · Massechet Eruvin · Perek Bet (Osin Passin)
חֲכָמִים הֵמָּה לְהָרַע

As objeções a Rava sobre a cerca de caniços; a istratia de um rei; Yeshayahu à porta de Chizkiya; o morador que esqueceu o eruv

Eruvin 26a — Perek Bet (Osin Passin) · guemará sobre a quarta mishná do perek · a guemará prossegue em 26b

Rava arranca a cerca de caniços que Rav Huna bar Chinana fizera no pomar do Reish Galuta, e Rav Pappa e Rav Huna, filho de Rav Yehoshua, recolhem os caniços. No dia seguinte vêm as objeções: a cidade nova, que foi cercada e por fim habitada; as divisórias dos construtores, feitas para recato; a divisória feita para depositar, como as da vala dos bois de Machoza. O Reish Galuta lhes aplica o versículo “sábios para fazer o mal, e para fazer o bem não sabem”. A guemará volta à Mishná: Rabi Ilai e Chananya divergem sobre a medida da istratia de um rei, e ambos se apoiam no “pátio do meio” de Melachim II 20:4, onde Yeshayahu estabeleceu uma yeshivá à porta de Chizkiya enfermo. Por fim, a guemará objeta às palavras de Rabi Ilai sobre o morador do pátio que esqueceu o eruv, e Rav Sheshet começa a responder.

Os caniços arrancados · שַׁלְפִינְהוּ

932E os arrancou
A guemará
שַׁלְפִינְהוּ. אֲזַל רַב פָּפָּא וְרַב הוּנָא בְּרֵיהּ דְּרַב יְהוֹשֻׁעַ, נַקְטִינְהוּ מִבָּתְרֵיהּ.

Rava, porém, foi e os arrancou, pois não concordava com esse arranjo. Rav Pappa e Rav Huna, filho de Rav Yehoshua, foram e os recolheram atrás dele, para que Rav Huna bar Chinana não voltasse a armá-los.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “shalfinhu”
שלפינהו - דלא ס"ל הא תקנתא:

“Arrancou-os” — pois não concordava com este arranjo.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “naktinhu mibatreih”
נקטינהו מבתריה - שלא יחזור רב הונא ויתקנם:

“Recolheram-nos atrás dele” — para que Rav Huna bar Chinana não voltasse e os consertasse.

Nota

A frase começa no fim de Eruvin 25b (bloco 931): “Rav Huna bar Chinana foi e fez uma cerca de caniço junto a caniço… Rava, porém, foi”, e continua aqui: “e os arrancou”.

As objeções a Rava · אֵיתִיבֵיהּ רָבִינָא לְרָבָא

933A objeção de Ravina: a cidade nova
A guemará
לִמְחַר אֵיתִיבֵיהּ רָבִינָא לְרָבָא: עִיר חֲדָשָׁה מוֹדְדִין לָהּ מִיְּשִׁיבָתָהּ, וִישָׁנָה מֵחוֹמָתָהּ.

No dia seguinte, no Shabat, Ravina objetou a Rava a partir de uma baraita: Quanto a uma cidade nova, mede-se o seu limite de Shabat a partir da sua parte habitada; e quanto a uma cidade velha, mede-se a partir da sua muralha, ainda que não esteja habitada até a muralha.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “eitiveih”
איתיביה - לסיועיה דשפיר עבד:

“Objetou-lhe” — para apoiá-lo, mostrando que agira bem.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ir chadashá modedin lah mishivatah”
עיר חדשה מודדין לה מישיבתה - אם מוקפת חומה ואינה מיושבת כולה כשבא למדוד תחומיה לא ימדוד לה מן החומה אלא מן הבתים דחומתה לאו חומה היא לשוויה כולה כד' אמות הואיל וישיבתה חדשה שקדמה חומתה לישיבתה אבל ישנה שישובה ישנה וקדם לחומתה מודדין לה מחומתה:

“Uma cidade nova, mede-se a partir da sua parte habitada” — se é cercada por muralha e não está toda habitada, quando se vem medir a partir dela os seus limites de Shabat, não se mede a partir da muralha, mas a partir das casas; pois a sua muralha não é considerada muralha para fazer de toda ela como quatro amot, visto que a sua habitação é mais nova, isto é, a sua muralha precedeu a sua habitação. Mas a cidade velha, cuja habitação é antiga e precedeu a sua muralha, mede-se a partir da sua muralha.

934Cercada e por fim habitada
A guemará
אֵיזוֹ הִיא חֲדָשָׁה וְאֵיזוֹ הִיא יְשָׁנָה? חֲדָשָׁה, שֶׁהוּקְּפָה וּלְבַסּוֹף יָשְׁבָה. יְשָׁנָה, יָשְׁבָה וּלְבַסּוֹף הוּקְּפָה. וְהַאי נָמֵי כְּהוּקְּפָה וּלְבַסּוֹף יָשְׁבָה דָּמֵי!

Qual é a cidade nova, e qual é a cidade velha? Nova é aquela que foi cercada por muralha e por fim habitada; velha é aquela que foi habitada e por fim cercada. E também este pomar é como uma cidade que foi cercada e por fim habitada, pois o pomar foi cercado antes, e o recinto do guarda foi feito agora; e por isso não se considera cercado para moradia!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “vehai nami”
והאי נמי - האי פרדס הרי הוקף ימים רבים והך השומירה נעשה עכשיו והיקף הפרדס לא אדעתא דהך דירה הוה ודמי כי הוקף ולבסוף ישב:

“E também este” — este pomar, eis que foi cercado há muitos dias, e este recinto do guarda foi feito agora; e o cercado do pomar não foi feito com vistas a esta moradia, e o pomar é como uma cidade que foi cercada e por fim habitada.

935A objeção de Rav Pappa: as divisórias dos construtores
A guemará
אֲמַר לֵיהּ רַב פָּפָּא לְרָבָא: וְהָאָמַר רַב אַסִּי מְחִיצוֹת אַדְרְכָלִין לָא שְׁמָהּ מְחִיצָה, אַלְמָא כֵּיוָן דְּלִצְנִיעוּתָא עֲבִידָא לַהּ — לָא הָוְיָא מְחִיצָה. הָכָא נָמֵי, כֵּיוָן דְּלִצְנִיעוּתָא עֲבִידָא — לָא הָוְיָא מְחִיצָה.

Rav Pappa disse a Rava, também para apoiá-lo: Mas não disse Rav Asi que as divisórias dos adrichalin (construtores, que as erguem para ter sombra) não se chamam divisória? Portanto, visto que foi feita para recato, não é considerada divisória. Aqui também, quanto à cerca de caniços de Rav Huna bar Chinana, visto que foi feita para recato, não é considerada divisória.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “amar leih Rav Pappa leRava”
א"ל רב פפא לרבא - לסיועיה:

“Rav Pappa disse a Rava” — disse-o para apoiá-lo.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “adrichalin”
אדרכלין - בנאים שעושים מחיצה לצל סביבותיהם כשבונים בחמה:

“Adrichalin” — construtores, que fazem ao seu redor uma divisória para ter sombra quando constroem sob o sol.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “keivan delitzniuta hi”
כיון דלצניעותא היא - ולמחר סתרי לה לאו כלום היא והא נמי לצניעותא דיום ולילה בעלמא היא דעבידא ולאו דירה היא:

“Visto que é para recato” — e no dia seguinte a desfazem, não é nada; e também esta cerca de caniços foi feita apenas para o recato de um dia e uma noite, e não é lugar de moradia.

Nota

O lema do Rashi (כיון דלצניעותא היא, “visto que é para recato”) difere levemente da redação da guemará (כֵּיוָן דְּלִצְנִיעוּתָא עֲבִידָא, “visto que foi feita para recato”), com o mesmo sentido.

936A objeção de Rav Huna, filho de Rav Yehoshua: a divisória para depositar
A guemará
וְאָמַר רַב הוּנָא בְּרֵיהּ דְּרַב יְהוֹשֻׁעַ לְרָבָא: וְהָאָמַר רַב הוּנָא: מְחִיצָה הָעֲשׂוּיָה לְנַחַת — לֹא שְׁמָהּ מְחִיצָה!

E Rav Huna, filho de Rav Yehoshua, disse a Rava: Mas não disse Rav Huna: Uma divisória feita lenachat (para depositar, isto é, não para morar ali, mas para guardar o que se deixa junto dela) não se chama divisória?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “lenachat”
לנחת - שלא לדור שם אלא להשתמר מה שיניחו שם:

“Para depositar” — isto é, não para morar ali, mas para guardar o que se deixar ali.

937A vala dos bois de Machoza
A guemará
דְּהָא רַבָּה בַּר אֲבוּהּ מְעָרֵב לַהּ לְכוּלַּהּ מָחוֹזָא עַרְסְיָיתָא עַרְסְיָיתָא מִשּׁוּם פֵּירָא דְּבֵי תוֹרֵי. וְהָא פֵּירָא דְּבֵי תוֹרֵי כִּמְחִיצָה הָעֲשׂוּיָה לְנַחַת דָּמְיָא.

Pois eis que Rabba bar Avuh fazia o eruv para toda Machoza arsayata arsayata (bairro por bairro, e não para a cidade inteira de uma vez), por causa da peira (vala) dos bois, junto à qual havia divisórias. E eis que as divisórias da vala dos bois são como uma divisória feita para depositar, e por isso não as considerava divisória; assim também a cerca de caniços de Rav Huna bar Chinana não é divisória.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “arsayata”
ערסייתא - שכונות שכונות לבד ובכל שכונה היו מבואות הרבה ולא התיר את העיר כולה ביחד ואע"פ שהיתה עיר קטנה שאין נכנסין בה ששים ריבוא ותנן לקמן (עירובין דף נט.) עיר של יחיד מערבין את כולה והיינו של יחיד שאינה דומה לדגלי מדבר של ששים ריבוא:

“Arsayata” — bairros, cada um à parte; e em cada bairro havia muitos mavoi, e Rabba bar Avuh não permitiu a cidade inteira junta, ainda que fosse uma cidade pequena, na qual não entram seiscentos mil habitantes, e aprendemos adiante (Eruvin 59a): “Uma cidade de um indivíduo, faz-se o eruv para toda ela”; e é isto o que se chama “de um indivíduo”: aquela que não se assemelha aos estandartes do deserto, de seiscentos mil.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “mishum peira devei torei”
משום פירא דבי תורי - שוחה עמוקה היתה בין שכונה לשכונה ושם היו מניחין גרעיני תמרים לאכול השוורים והעיר אין לה חומה ומבואות של (בין) [בתי] השכונות מפולשים ועשו מחיצות לראשי המבואות לכל צד שחוץ לעיר להשתמר הגרעינין ולא חשיב ליה מחיצה לצרף את המבואות ולעשות העיר אחת ואע"פ שמחיצה של קיימא היתה:

“Por causa da vala dos bois” — havia uma vala profunda entre um bairro e outro, e ali punham caroços de tâmaras para os bois comerem; e a cidade inteira não tinha muralha, e os mavoi das casas dos bairros eram abertos de ponta a ponta; e fizeram divisórias nas extremidades dos mavoi, de cada lado que dá para fora da cidade, para que os caroços fossem guardados ali; e Rabba bar Avuh não as considerou divisória para unir os mavoi e fazer da cidade uma só, ainda que fosse uma divisória permanente.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “peira”
פירא - שוחה כמו פירא דכוורי במס' תענית (דף כד.) והך מחיצה דרב הונא כעשויה לנחת דמיא שאינה נעשית לדירה תמיד לצאת ולבא בה:

“Peira” — uma vala, como “a peira dos peixes” no tratado Taanit (24a). E esta divisória de Rav Huna bar Chinana é como uma divisória feita para depositar, pois não foi feita para moradia permanente, para sair e entrar nela.

Nota

A citação do Rashi abrevia a Mishná Eruvin 5:6 (Eruvin 59a), que diz: “Uma cidade de um indivíduo que se tornou de muitos, faz-se o eruv para toda ela.” No segundo comentário, a edição de Vilna traz as marcas de editor (בין) [בתי]: a palavra entre parênteses deve ser apagada e a entre colchetes, lida em seu lugar; traduziu-se segundo a correção (“os mavoi das casas dos bairros”). Nesse mesmo comentário, a edição impressa traz um desenho da vala entre os bairros e das divisórias nas extremidades dos mavoi; o desenho foi omitido aqui, e o texto do Rashi foi mantido por inteiro. Em Taanit 24a, “uma peira de peixes” é o tanque de peixes do mestre de crianças, de que se fala ali.

O versículo do Reish Galuta · חֲכָמִים הֵמָּה לְהָרַע

938“Sábios para fazer o mal”
A guemará
קָרֵי עֲלַיְיהוּ רֵישׁ גָּלוּתָא: ״חֲכָמִים הֵמָּה לְהָרַע וּלְהֵיטִיב לֹא יָדָעוּ״.

O Reish Galuta (o Exilarca) recitou a respeito deles, dos Sábios que desfizeram o arranjo de Rav Huna bar Chinana e agora mostravam que é proibido carregar no pomar: “Sábios são eles para fazer o mal, e para fazer o bem não sabem” (Yirmeyahu 4:22), isto é, sabem proibir, mas não sabem permitir.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “lehara”
להרע - לאסור ובתשובת הגאונים מצאתיה בלשון אחר וישר בעיני מאד ההוא בוסתנא קרפף יותר מבית סאתים שלא הוקף לדירה הוה ואבוורנקא כמין אכסדרה או קובה שבונין המלכים בתוך פרדס שלהן ועומד באמצע פרדס ולא הוצרך ריש גלותא אלא לטלטל מפתח בוסתנא שהיה אצל הבית עד האבוורנקא ועבד רב הונא בר חיננא כמין שביל מן הפתח עד האבוורנקא גדר מכאן וגדר מכאן בקנה קנה פחות מג' להפסיק בין הדרך לבוסתנא ויטלטל באותו שביל ורבא כי שלפינהו לא לאסור אלא להקל עליו דס"ל דשרי לטלטולי בכולה בוסתנא דכיון דבנה ליה אבוורנקא בבוסתנא שויה לכולה בוסתנא חצר לאבוורנקא והוי מוקף לדירה ואתו תלמידי דרבא רב פפא ורב הונא בריה דרב יהושע נקטינהו דלא ליהדר רב הונא בר חיננא וליתקנינהו וההיא שעתא לא אדכור להו דלאו שפיר עביד דשלפינהו ולמחר אדכור ואותבוה כדאמר למחר איתיביה רבינא לרבא עיר חדשה כו' והאי בוסתנא נמי כהוקף ולבסוף ישב דמי שקודם נטיעתו מקיפין אותו ולאחר שגדל האילן עשו האבוורנקא סביב הלכך שפיר עבד רב הונא בר חיננא ורב פפא אותביה ממחיצת אדרכלין דהא מחיצה דאבוורנקא נמי לצניעות עבידא וכן לנחת להשתמש להניח בה טליתותיהן ולבושיהן שפושטים שם ושאר כלי תשמישם קרי עלייהו על רב פפא ורב הונא בריה דרב יהושע שלא נזכרו אתמול וסתרו תיקונו של רב הונא בר חיננא ועכשיו נעשו חכמים לאסור עליו ולהיטיב לא ידעו אתמול וכן עיקר:

“Para fazer o mal” — para proibir. E numa responsa dos Gueonim encontrei esta passagem de outra maneira, e é muito correta aos meus olhos: aquele pomar era como um karpef maior que beit sata’im, que não fora cercado para moradia; e a palavra abvarneka designa uma espécie de achsadrá ou cúpula que os reis constroem dentro do seu pomar, e que fica no meio do pomar. E o Reish Galuta não precisava senão carregar objetos desde a entrada do pomar, que ficava junto à casa, até a abvarneka; e Rav Huna bar Chinana fez uma espécie de caminho, da entrada até a abvarneka, com uma cerca de um lado e uma cerca do outro, de caniço junto a caniço, com menos de três tefachim entre eles, para separar o caminho do pomar, e o Reish Galuta carregaria os seus objetos por aquele caminho. E Rava, quando os arrancou, não o fez para proibir, mas para ser leniente com ele, pois Rava pensava que é permitido carregar em todo o pomar: visto que o Reish Galuta construiu para si uma abvarneka no pomar, fez de todo o pomar um pátio para a abvarneka, e todo ele é um lugar cercado para moradia. E vieram os discípulos de Rava, Rav Pappa e Rav Huna, filho de Rav Yehoshua, e os recolheram, para que Rav Huna bar Chinana não voltasse e os consertasse. E naquela hora não se lembraram de que Rava não agira bem ao arrancá-los; e no dia seguinte se lembraram disso e lhe objetaram, como diz: “No dia seguinte, Ravina objetou a Rava: Uma cidade nova” etc.; e também este pomar é como um lugar que foi cercado e por fim habitado, pois antes de plantá-lo já o cercam, e depois que a árvore cresceu fizeram a abvarneka ao redor dela. Por isso, Rav Huna bar Chinana agiu bem ao fazer o caminho cercado. E Rav Pappa lhe objetou a partir da regra da divisória dos construtores, pois a divisória ao redor da abvarneka também foi feita para recato, e também foi feita para depositar: para usá-la, para deixar nela os seus mantos e as suas roupas, que tiram ali, e os demais utensílios do seu uso. “Recitou a respeito deles” — a respeito de Rav Pappa e de Rav Huna, filho de Rav Yehoshua, que não se lembraram ontem e desfizeram o arranjo de Rav Huna bar Chinana, e agora, no dia seguinte, se fizeram sábios para lhe proibir o pomar, e “para fazer o bem” não souberam ontem. E esta é a explicação principal.

Nota

O texto desta página segue os comentários do Rashi às palavras da guemará (blocos 932 a 937): Rava arrancou os caniços porque não aceitava o arranjo de Rav Huna bar Chinana, e Ravina, Rav Pappa e Rav Huna, filho de Rav Yehoshua, vieram em apoio a Rava, mostrando que o pomar continuava proibido. Neste último comentário, porém, o Rashi traz a explicação de uma responsa dos Gueonim e a declara principal: a abvarneka é um pavilhão no meio do pomar; Rava arrancou os caniços para ser leniente, por considerar todo o pomar como pátio do pavilhão; e as objeções do dia seguinte mostraram que Rava se enganara e que Rav Huna bar Chinana agira bem. É esta também a leitura da tradução de referência do Sefaria (Steinsaltz). O versículo citado é Yirmeyahu 4:22.

Rabi Ilai e Chananya: a corte do rei · כְּאִסְטְרַטְיָא שֶׁל מֶלֶךְ

939Mesmo um beit kor
A guemará
אָמַר רַבִּי אִלְעַאי, שָׁמַעְתִּי מֵרַבִּי אֱלִיעֶזֶר: וַאֲפִילּוּ בֵּית כּוֹר. מַתְנִיתִין דְּלָא כַּחֲנַנְיָה. דְּתַנְיָא, חֲנַנְיָה אוֹמֵר: וַאֲפִילּוּ הִיא אַרְבָּעִים סְאָה כְּאִסְטְרַטְיָא שֶׁל מֶלֶךְ.

Rabi Ilai disse: Ouvi de Rabi Eliezer que se pode carregar num jardim ou karpef mesmo que tenha um beit kor (área de semeadura de um kor, trinta vezes a de um beit seá). A guemará observa: A nossa Mishná não é conforme Chananya, que permite um espaço ainda maior. Pois foi ensinado numa baraita: Chananya diz: E mesmo que seja de quarenta seá, como a istratia (praça) de um rei.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ke’istratia shel melachim”
כאיסטרטיא של מלכים - רחבה שאחורי פלטין ושם היו מטיילים תמיד אלמא איכא דירה בהכי:

“Como a istratia dos reis” — uma praça que fica atrás do palácio, e ali os reis passeavam sempre; portanto, há moradia em um espaço assim.

Nota

As palavras de Rabi Ilai são aqui citadas pela guemará a partir da Mishná Eruvin 2:6, já dada em Eruvin 23a (bloco 839); no texto do Talmud em 23a lê-se “Rabi Elazar”, e aqui, “Rabi Eliezer”, como nas edições avulsas da Mishná. “Quarenta seá” significa uma área de semeadura de quarenta seá, maior que um beit kor, que equivale a trinta beit seá. O lema do Rashi diz “dos reis” (של מלכים), e a guemará, “de um rei” (שֶׁל מֶלֶךְ).

940O pátio do meio
A guemará
אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: וּשְׁנֵיהֶם מִקְרָא אֶחָד דָּרְשׁוּ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְהִי יְשַׁעְיָהוּ לֹא יָצָא אֶל חָצֵר הַתִּיכוֹנָה״. כְּתִיב ״הָעִיר״ וְקָרֵינַן ״חָצֵר״ — מִכָּאן לָאִסְטְרַטְיָא שֶׁל מֶלֶךְ שֶׁהָיוּ כַּעֲיָירוֹת בֵּינוֹנִיּוֹת.

Rabi Yochanan disse: E ambos expuseram um mesmo versículo, como foi dito: “E aconteceu que Yeshayahu ainda não havia saído do pátio do meio” (Melachim II 20:4). Está escrito “a cidade”, e lemos “pátio”: daqui se aprende, quanto à istratia de um rei, que eram como cidades médias.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ushneihem”
ושניהן - ר' אלעאי וחנניה:

“E ambos” — isto é, Rabi Ilai e Chananya.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “hatichoná”
התיכונה - אחרי פלטין של חזקיה דאי חצר שלפני בתים הואי החיצונה הוה קרי לה ואע"ג דגדולה היא כעיר קרי לה חצר ולא הוקפה לדירה:

“Do meio” — atrás do palácio de Chizkiya; pois, se fosse o pátio que fica diante das casas, chamá-lo-ia “o exterior”; e, embora seja grande como uma cidade, chama-o “pátio”, e isso ainda que não tenha sido cercado para moradia.

Nota

No texto massorético de Melachim II 20:4 está escrito (ketiv) הָעִיר, “a cidade”, e lê-se (keri) חָצֵר, “pátio”; o versículo não traz a palavra אֶל (“para”), que aparece na citação da guemará. A tradução de referência do Sefaria (Steinsaltz) entende o versículo como “antes que Yeshayahu saísse do pátio do meio”.

941Beit kor ou quarenta seá
A guemará
בְּמַאי קָמִיפַּלְגִי? מָר סָבַר: עֲיָירוֹת בֵּינוֹנִיּוֹת הָוְיָין בֵּית כּוֹר. וּמָר סָבַר: אַרְבָּעִים סְאָה הָוְיָין.

Em que Rabi Ilai e Chananya divergem? Um mestre, Rabi Ilai, pensa: as cidades médias têm um beit kor; e o outro mestre, Chananya, pensa: têm quarenta seá.

Yeshayahu à porta de Chizkiya · וְהוֹשִׁיב יְשִׁיבָה עַל פִּתְחוֹ

942Uma yeshivá à porta de Chizkiya
A guemará
וִישַׁעְיָהוּ מַאי בָּעֵי הָתָם? אָמַר רַבָּה בַּר בַּר חָנָה אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: מְלַמֵּד שֶׁחָלָה חִזְקִיָּה, וְהָלַךְ יְשַׁעְיָהוּ וְהוֹשִׁיב יְשִׁיבָה עַל פִּתְחוֹ.

A guemará pergunta: E Yeshayahu, que fazia ali, no pátio do meio? Rabba bar bar Chana disse que Rabi Yochanan disse: Ensina que Chizkiya adoeceu, e Yeshayahu foi e estabeleceu uma yeshivá (academia de estudo da Torá) à sua entrada, para que o mérito do estudo o protegesse.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “mai ba’ei tam”
מאי בעי התם - ברחבה שאחורי פלטין שאינה לדרך יציאה:

“Que fazia ali” — isto é, na praça que fica atrás do palácio, que não é caminho de saída para quem deixa o palácio.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “lehoshiv yeshivá”
להושיב ישיבה - של תלמידים לעסוק בתורה על פתחו שלא יהא רשות למלאך המות ליכנס שם:

“Estabelecer uma yeshivá” — de discípulos, para se ocuparem da Torá ali, à sua entrada, para que o anjo da morte não tivesse permissão de entrar ali.

Nota

O lema do Rashi (להושיב ישיבה, “estabelecer uma yeshivá”) difere levemente da redação da guemará (וְהוֹשִׁיב יְשִׁיבָה, “e estabeleceu uma yeshivá”), com o mesmo sentido.

943Não provocar o Satã
A guemará
מִכָּאן לְתַלְמִיד חָכָם שֶׁחָלָה, שֶׁמּוֹשִׁיבִין יְשִׁיבָה עַל פִּתְחוֹ. וְלָאו מִילְּתָא הִיא, דִּילְמָא אָתֵי לְאִיגָּרוֹיֵי בֵּיהּ שָׂטָן.

Daqui se aprende, quanto a um talmid chacham (sábio da Torá) que adoeceu, que se estabelece uma yeshivá à sua entrada. A guemará comenta: Mas isso não é coisa adequada, pois talvez isso venha a provocar contra ele o Satã.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “satan”
שטן - מלאך המות דכי חזי (דמינצו בהדי הדדי מיגרי בהו):

“O Satã” — isto é, o anjo da morte; pois, quando vê que os discípulos disputam uns com os outros, lança-se contra eles.

Nota

As palavras finais do Rashi, דמינצו בהדי הדדי מיגרי בהו (“disputam uns com os outros, lança-se contra eles”), estão entre parênteses na edição de Vilna, marca de editor que indica texto duvidoso ou acrescentado; foram traduzidas, pois completam o sentido da frase.

O morador que esqueceu o eruv · בֵּיתוֹ אָסוּר

944Ouvi dele também
A guemará
וְכֵן שָׁמַעְתִּי הֵימֶנּוּ: אַנְשֵׁי חָצֵר שֶׁשָּׁכַח אֶחָד וְלֹא עֵירַב — בֵּיתוֹ אָסוּר.

A guemará cita a continuação da Mishná: E também ouvi dele: Quanto aos moradores de um pátio, dos quais um esqueceu e não participou do eruv (junção dos moradores do pátio), e no Shabat cedeu aos demais a sua parte no pátio: a sua casa é proibida, isto é, a ele é proibido trazer objetos do pátio para dentro dela e levá-los dela para o pátio; mas aos demais moradores é permitido.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “anshei chatzer sheshachach echad mehen”
אנשי חצר ששכח אחד מהן כו' - ודאי מתני' בשביטל להן רשות שהיה לו בחצר מיירי דאי לא בטיל אף בחצר אסורים לטלטל מבתיהן שהבתים לכל אחד ואחד הן והחצר רשות כולן וחלקו אוסר עליהן ואשמעינן ר' אלעאי דהמבטל רשות חצירו רשות ביתו נמי ביטל ונעשה אורח אצלן לפיכך אף ביתו מותר להן אבל הוא אסור להכניס ולהוציא מביתו לחצר ואף על פי שהוא מותר להכניס ולהוציא מפתח בתיהן לחצר כדתנן בפרק הדר (עירובין דף סט:) ושלהן מותר לו ולהן כשאר כל אדם הנכנס לחצר חבירו ומותר לו להוציא מפתח חבירו לחצר. דהא רשותא דחד הוא והכא נמי כיון (דבטל הוא דירתו) מביתו (מיהא) אסור הוא להוציא ולא אמרינן כיון דביטל להו רשות ביתו הוי ביתו כבתיהן דבשלמא מבתיהן אם הוא מכניס ומוציא איכא למימר כאינש בעלמא הוא אבל מביתו חוזר ומחזיק ברשותו הוא ואוסר עליהם והם עליו כדתנן בפרק הדר מי שנתן רשותו והוציא בין בשוגג בין במזיד הרי זה אוסר:

“Moradores de um pátio, dos quais um esqueceu” etc. — certamente a Mishná trata de quando aquele que esqueceu lhes anulou o domínio que tinha no pátio; pois, se não anulou, também no pátio os demais são proibidos de carregar objetos das suas casas, pois as casas pertencem a cada um, e o pátio é domínio de todos, e a parte dele no pátio os proíbe. E Rabi Ilai nos ensina que quem anula em favor deles o domínio do seu pátio anulou também o domínio da sua casa, e tornou-se hóspede junto deles; por isso, também a sua casa é permitida a eles, para levar objetos dela para o pátio e do pátio para ela. Mas ele é proibido de trazer e levar objetos da sua casa para o pátio, ainda que lhe seja permitido trazer e levar objetos da entrada das casas deles para o pátio, como aprendemos no perek HaDar (Eruvin 69b): “E as deles são permitidas a ele e a eles”, como qualquer outra pessoa que entra no pátio do seu companheiro, a quem é permitido levar objetos da entrada da casa do seu companheiro para o pátio, pois é domínio de um só, o dono da casa. E aqui também, visto que ele anulou a sua moradia, da sua casa, ao menos, ele é proibido de levar objetos para fora; e não dizemos que, visto que lhes anulou o domínio da sua casa, a sua casa é como as casas deles. Pois, compreende-se que, quanto às casas deles, se ele traz e leva objetos, há que dizer que é como uma pessoa qualquer que entra no pátio alheio; mas, da sua casa, ele volta a tomar posse do seu domínio e os proíbe, e eles proíbem a ele, como aprendemos no perek HaDar: “Quem deu o seu domínio e levou algo para fora, seja por inadvertência, seja deliberadamente, eis que proíbe.”

Nota

As palavras de Rabi Ilai são aqui citadas pela guemará a partir da Mishná Eruvin 2:6, já dada em Eruvin 23a (bloco 840). O lema do Rashi traz “dos quais um esqueceu” (ששכח אחד מהן), como na Mishná; o texto da guemará aqui citado não traz “dos quais”. As duas citações do perek HaDar estão na Mishná Eruvin 6:3 (“e as deles são permitidas a ele e a eles”) e 6:4 (“quem deu o seu domínio e levou algo para fora… proíbe”, nas palavras de Rabi Meir), ambas em Eruvin 69b. As palavras דבטל הוא דירתו e מיהא estão entre parênteses na edição de Vilna, marca de editor que indica texto duvidoso; foram traduzidas, pois não alteram o sentido.

945A objeção da Mishná
A guemará
וְהָתְנַן: בֵּיתוֹ אָסוּר לְהוֹצִיא וּלְהַכְנִיס לוֹ וְלָהֶן?!

A guemará objeta: Mas não aprendemos numa Mishná: A sua casa é proibida de levar para fora e de trazer para dentro, para ele e para eles? Como, então, Rabi Ilai diz que é proibida só para ele?

Nota

A Mishná citada é Eruvin 6:3 (Eruvin 69b), cuja redação é: “a sua casa é proibida de trazer para dentro e de levar para fora, para ele e para eles”.

946Não é difícil
A guemará
אָמַר רַב הוּנָא בְּרֵיהּ דְּרַב יְהוֹשֻׁעַ אָמַר רַב שֵׁשֶׁת: לָא קַשְׁיָא,

Rav Huna, filho de Rav Yehoshua, disse que Rav Sheshet disse: Não é difícil…

Nota

O daf termina no meio da frase; a resposta de Rav Sheshet continua em Eruvin 26b.

O daf termina aqui, no meio de uma frase: Rava arranca os caniços que Rav Huna bar Chinana pusera no pomar do Reish Galuta, e Rav Pappa e Rav Huna, filho de Rav Yehoshua, os recolhem; no dia seguinte, Ravina objeta com a cidade nova, cercada e por fim habitada, Rav Pappa com as divisórias dos construtores e Rav Huna, filho de Rav Yehoshua, com a divisória feita para depositar e a vala dos bois de Machoza; o Reish Galuta lhes aplica o versículo “sábios para fazer o mal”. Segue-se a discussão de Rabi Ilai e Chananya sobre a medida da istratia de um rei, a partir do pátio do meio em Melachim II 20:4; a yeshivá que Yeshayahu estabeleceu à porta de Chizkiya; e a objeção da Mishná às palavras de Rabi Ilai sobre o morador que esqueceu o eruv, que Rav Sheshet começa a responder. A guemará prossegue em Eruvin 26b.