A guemará explica as razões de Rav Acha e Ravina sobre carregar da cidade para a rechavá. Depois trata do karpef maior que beit sata’im que não foi cercado para moradia: plantar árvores nele não o reduz; uma coluna de quatro tefachim o reduz, e Rabba e Rava discordam sobre uma de três a quatro; o mesmo vale para uma divisória feita a essa distância da parede; e Rav Shimi ensina a discussão de modo mais leniente. Segue-se a divisória feita junto a um monte, e a discussão entre Rav Chisda e Rav Sheshet sobre fazer divisória sobre divisória, para o Shabat e para adquirir os bens de um guer que morreu sem herdeiros. Rabba bar bar Chana pergunta sobre divisórias de baixo engolidas pela terra; a guemará recorda o caso de quem lançou nabo nas fendas da terra de um guer, a baraita sobre a divisória feita no Shabat e a mulher que veio diante de Rav Nachman. Por fim, Rava e Rabi Zeira discordam sobre um karpef de três beit seá do qual um beit seá foi coberto, e a guemará compara a discussão com a de Rav e Shmuel sobre a achsadrá no campo.
A guemará explica as duas opiniões: Quem permite carregar da cidade para a rechavá e da rechavá para a cidade o faz porque não há moradores na própria rechavá, e um lugar sem moradores não proíbe carregar no domínio vizinho. E quem proíbe o faz porque às vezes há moradores nela, que proibiriam a cidade, e as pessoas viriam a carregar da rechavá para a cidade como de costume, mesmo quando isso for proibido.
“Pois não há nela moradores” — isto é, moradores que proibiriam os moradores do mavoi de carregar. Por isso, a rechavá é domínio dos moradores do mavoi; e os moradores do caminho de vinhedos não a proíbem, pois o caminho é como um pátio pequeno que se abriu por inteiro para um grande, em que o grande é permitido e o pequeno é proibido. E o caminho, não o reparamos com um lechi, por decreto, para que não digam que um lechi é eficaz para qualquer caminho comum.
A comparação do Rashi remete à Mishná Eruvin 9:2 (Eruvin 92a), onde se lê “um pátio grande que se abriu para um pequeno: o grande é permitido e o pequeno é proibido, pois ele é como a entrada do grande”; o Rashi descreve a mesma situação pelo lado inverso (“um pátio pequeno que se abriu para um grande”). O decreto citado no fim é a objeção de Rava em Eruvin 24b: “dirão que um lechi é eficaz para qualquer caminho de vinhedos”. O lema do Rashi (דלית בה דיורין) difere levemente da redação da guemará (דְּהָא לֵיכָּא דָּיוֹרִין), com o mesmo sentido.
Quanto a um karpef (cercado para depósito, atrás das casas) que tem mais que beit sata’im (área de semeadura de duas seás), que não foi cercado para moradia, e alguém veio reduzi-lo para que se possa carregar nele: se o reduziu com árvores, plantando-as numa parte dele, não é redução, pois é comum haver árvores num karpef, e elas não diminuem a sua área.
“Com árvores não é redução” — pois é costume de um karpef ter árvores dentro dele, e por causa delas o primeiro cercado não se anula.
Se construiu nele uma coluna de dez tefachim (palmos) de altura e quatro tefachim de largura, é redução, e, se assim o karpef ficou reduzido a beit sata’im, é permitido carregar nele. Se a coluna tem menos que três tefachim de largura, não é redução. Se tem de três até quatro, há discussão: Rabba disse: É redução; e Rava disse: Não é redução.
“Construiu nele uma coluna” — e mesmo que seja no meio do karpef; e com isso a sua área foi reduzida e ficou dentro de beit sata’im.
“Menos que três tefachim” — mesmo que, com isso, a área tenha sido reduzida até beit sata’im, a coluna é como se não existisse.
A guemará explica as duas opiniões: Rabba disse que é redução, pois a coluna sai da regra de lavud (junção de um vão menor que três palmos), e por isso tem existência própria. Rava disse que não é redução, pois, visto que não é um lugar de quatro tefachim, não é considerada significativa.
“Pois sai da regra de lavud” — isto é, pois a medida de três é considerada significativa em geral para sair da regra de lavud; por isso também aqui a coluna é considerada significativa e não se anula.
Se alguém se afastou quatro tefachim da parede do karpef e fez uma divisória para moradia, foi eficaz. Se se afastou menos que três, não foi eficaz, pois é como divisória sobre divisória. Se se afastou de três até quatro, Rabba disse: Foi eficaz; Rava disse: Não é eficaz.
“Se se afastou da parede” — isto é, da parede do karpef, quatro tefachim, e fez ali uma divisória para moradia.
“Foi eficaz” — esta divisória, para ser um cercado novo; e é o caso em que se abriu a entrada e por fim se cercou, que é permitido.
“Menos que três, não foi eficaz” — pois é como divisória sobre divisória. E não fala do caso em que o karpef foi reduzido até beit sata’im, visto que não usou as palavras “é redução” e “não é redução”; pois, se tivesse sido reduzido, certamente seria redução, já que, mesmo se alguém acrescentasse à espessura das paredes até que o karpef fosse reduzido, estaria bem, como se diz adiante. Mas fala do caso de ser como “abriu a entrada e por fim se cercou”.
“Como se diz adiante” remete, nesta mesma página, ao caso de quem rebocou as paredes do karpef com barro até reduzi-lo (bloco 901). “Abriu a entrada e por fim se cercou” é a regra de Shmuel vista em Eruvin 24a: o cercado que se faz depois de já haver entrada, com intenção de moradia, conta como cercado para moradia.
A guemará explica as duas opiniões: Rabba disse: Foi eficaz, pois a nova divisória sai da regra de lavud. Rava disse: Não é eficaz, pois, visto que o espaço entre as duas não é um lugar de quatro tefachim, não é considerado significativo.
Rav Shimi ensinava essa discussão para a leniência, isto é: a partir de três tefachim, que já saem da regra de lavud, todos concordam que a coluna é redução e que a divisória vale para moradia, e eles discordam somente em menos de três. E há outra lição, à parte: Se alguém rebocou nele barro, engrossando as paredes até reduzir o karpef, e o reboco pode ficar de pé por si mesmo, é redução. Se não pode ficar de pé por si mesmo, Rabba disse: É redução; Rava disse: Não é redução.
“Ensinava para a leniência” — aquela discussão de acima; e dizia que, em três tefachim, que saem da regra de lavud, todos concordam que a coluna é redução e que a divisória é divisória para moradia, e não como quem apenas acrescenta à divisória antiga; e discordam em menos de três.
“Rebocou com barro” — e acrescentou à espessura das paredes até que o karpef foi reduzido. E isto não é Rabba bar Shimi quem o diz, mas é uma questão à parte.
“E pode ficar de pé” — o barro, por si mesmo, pois foi feito com tal espessura que, mesmo se fosse retirada a primeira parede, este poderia ficar de pé. “É redução” e “não é redução”: assim se lê aqui, e não “foi eficaz” e “não foi eficaz”.
O texto segue o Rashi: a versão leniente de Rav Shimi desloca a discussão de Rabba e Rava para menos de três tefachim, e o caso do reboco de barro é uma lição à parte. Steinsaltz (William Davidson, no Sefaria) lê de outro modo: entende que a própria discussão sobre o reboco é a versão leniente ensinada por Rav Shimi. No Rashi do Sefaria o nome aparece como רבה בר שימי, enquanto a guemará diz רַב שִׁימִי; pelo contexto, refere-se ao ensinamento de Rav Shimi mencionado logo antes. O lema do Rashi (טח בטיט) também difere levemente da guemará (טָח בּוֹ טִיט).
A guemará explica as duas opiniões: Rabba disse: É redução, pois agora, de todo modo, o reboco está de pé. Rava disse: Não é redução, pois, visto que não pode ficar de pé por si mesmo, não é nada.
Se alguém se afastou quatro tefachim do tel (monte) de dez tefachim de altura que está no karpef e fez uma divisória para moradia, foi eficaz.
“Se se afastou do monte” — que está no karpef; e do monte até a divisória antiga há muito mais que beit sata’im; e fez uma divisória para moradia junto ao monte, à distância de quatro tefachim, e ainda há mais que beit sata’im entre a divisória antiga e a nova; mas esta, ele a fez para moradia, e por isso é eficaz.
“Foi eficaz” — esta divisória, para ser um cercado novo; e é o caso em que se abriu a entrada e por fim se cercou, que é permitido.
O segundo comentário do Rashi aqui é idêntico, palavra por palavra, ao que o Sefaria liga ao bloco 899 (“Foi eficaz”); o Sefaria o repete junto a este segmento, e ele é mantido para não omitir nenhum comentário.
Se se afastou menos que três tefachim, ou fez a divisória na beira do monte, há discussão entre Rav Chisda e Rav Hamnuna: um disse: Foi eficaz; e o outro disse: Não foi eficaz.
“Menos que três, não foi eficaz” — pois é como divisória sobre divisória. E não fala do caso em que o karpef foi reduzido até beit sata’im, visto que não usou as palavras “é redução” e “não é redução”; pois, se tivesse sido reduzido, certamente seria redução, já que, mesmo se alguém acrescentasse à espessura das paredes até que o karpef fosse reduzido, estaria bem, como se diz adiante. Mas fala do caso de ser como “abriu a entrada e por fim se cercou”.
“E um disse: Foi eficaz” — pois entende que uma divisória sobre outra divisória é eficaz para ser um cercado para moradia.
O primeiro comentário do Rashi aqui é idêntico, palavra por palavra, ao terceiro comentário ligado ao bloco 899; o Sefaria o repete junto a este segmento, e ele é mantido para não omitir nenhum comentário.
A guemará sugere: Conclua-se que foi Rav Chisda quem disse que foi eficaz, pois foi dito: Quanto a quem faz uma divisória sobre outra divisória, Rav Chisda disse: No que diz respeito ao Shabat, foi eficaz.
Mas, quanto aos bens do guer (convertido) que morreu sem herdeiros, e cujos bens ficaram sem dono, quem fez assim uma divisória sobre outra não os adquiriu, pois isso não é ato de posse.
“Nos bens do guer” — que morreu e não tem herdeiros: isto não é chazaká (ato de tomada de posse) para adquirir; e, se outro veio e tomou posse deles, o último adquiriu.
E Rav Sheshet disse: Também no que diz respeito ao Shabat não foi eficaz. A guemará conclui: Conclua-se, de fato, que Rav Chisda é quem disse que foi eficaz.
“No Shabat” — por exemplo, quanto ao cercado para moradia, no caso em que, no início, havia uma divisória adequada, mas não foi cercada para moradia.
Rav Chisda disse: E Rav Sheshet concorda comigo que, se alguém fez uma divisória sobre o monte, e não junto dele, foi eficaz para carregar sobre o próprio monte.
Assim lemos: “Rav Sheshet concorda comigo que, se fez uma divisória sobre o monte”, e não lemos “na beira”. E assim se explica: embora Rav Sheshet discorde e diga que o karpef não fica permitido com isso, a razão é esta: que quem mora no karpef mora no espaço das divisórias de baixo; mas, se o monte tinha mais que beit sata’im e alguém fez divisórias ao redor sobre ele para usar o alto do monte, foi eficaz, pela razão que se explica a seguir.
Qual é a razão? Visto que quem está sobre o monte mora no espaço das divisórias de cima, são elas que lhe servem, e por isso são eficazes para carregar sobre o monte, embora não o sejam para o restante do karpef.
“Visto que” — e quem mora sobre o monte mora no espaço das divisórias de cima, e as de baixo não lhe servem em nada; por isso não é caso de divisória sobre divisória.
Rabba bar bar Chana perguntou: Se as divisórias de baixo foram engolidas pela terra, e as de cima permanecem, qual é a lei?
“Rabba perguntou” — segundo quem diz que não vale divisória sobre divisória: se as de baixo foram engolidas pela terra, pois o solo era mole e fofo, e a parede afundou de uma só vez no Shabat, e não caiu, mas foi engolida, e as de cima permanecem, qual é a lei?
O lema do Rashi diz apenas “Rabba perguntou” (בעי רבה), abreviando o nome que a guemará traz por inteiro: Rabba bar bar Chana.
A guemará pergunta: A respeito de quê se perguntou isso? Se foi a respeito dos bens do guer, isso é o mesmo que o ensinamento de Yirmeya Bira’a; pois Yirmeya Bira’a disse que Rav Yehuda disse: Quem lançou sementes de nabo nas fendas da terra de um guer falecido, e veio outro judeu e lavrou nela um pouco, o último adquiriu, e o primeiro não adquiriu.
“Se a respeito dos bens do guer” — pergunta-se: se nenhum outro se antecipou e tomou posse deles até que as de baixo foram engolidas, e resulta que ali só há as divisórias que este fez para si, então de agora em diante a terra está adquirida para ele?
“Que lançou nabo nas fendas” — plantou nabo numa cova que encontrou na terra do guer, e não a cavou ele mesmo; pois, se a tivesse cavado, com o primeiro golpe da enxada já teria adquirido.
Qual é a razão de o primeiro não adquirir? No momento em que lançou as sementes, a terra não foi melhorada; quando melhorou, com o crescimento dos nabos, melhorou por si mesma, e não por ação dele.
“Não foi melhorada” — e não é chazaká; e nós aprendemos: “Trancou, cercou ou abriu uma brecha, por mínima que seja” (Bava Batra 42a): isto é, algo que é eficaz para a terra é chazaká.
“Melhorou por si mesma” — e naquele momento não é ele que toma posse dela, mas é o nabo que vai melhorando a terra. E aqui também, visto que no momento em que tomou posse não era chazaká, quando depois passaram a ser divisórias, passaram a sê-lo por si mesmas, e não foi ele quem as fez.
As referências conferem. A citação do Rashi está na Mishná Bava Batra 3:3 (Bava Batra 42a), que diz “trancou, e cercou, e abriu uma brecha, por mínima que seja: isto é chazaká”, justamente a respeito de quem toma posse dos bens do guer; o Rashi cita sem o “e”. A marca (ב"ב דף מב.) entre parênteses é indicação de editor e significa “Bava Batra, folha 42a”. O ensinamento de Yirmeya Bira’a em nome de Rav Yehuda e a sua razão aparecem também em Bava Batra 53b–54a, onde ele é chamado Rav Yirmeya Bira’a.
Mas, se se perguntou quanto ao Shabat, é o caso de uma divisória feita no Shabat, pois antes as de cima não valiam como divisória e só passaram a valer quando as de baixo foram engolidas.
“Mas quanto ao Shabat” — a pergunta é se o karpef fica permitido pelas de cima, que até agora estavam anuladas.
E foi ensinado numa baraita (ensinamento dos tanaítas não incluído na Mishná): Toda divisória feita no Shabat, seja sem querer, seja de propósito, chama-se divisória, e assim também as de cima deveriam valer como divisórias.
A guemará objeta: Não foi dito a respeito dela que Rav Nachman disse: Não ensinaram que é divisória senão para lançar, isto é, como rigor, para que seja proibido lançar entre ela e o domínio público; mas carregar dentro dela é proibido?
“Para lançar” — isto é, para o rigor.
A guemará responde: Quando foi dita a palavra de Rav Nachman, foi dita sobre quem fez a divisória de propósito, e os Sábios o multaram; mas, se foi feita sem querer ou por si mesma, é permitido carregar.
A baraita “toda divisória feita no Shabat, seja sem querer, seja de propósito, chama-se divisória”, a objeção a partir de Rav Nachman e a resposta de que ele falou de quem a fez de propósito aparecem também em Shabat 101b, a respeito de barcos amarrados e de esteiras estendidas.
Houve aquela mulher que fez uma divisória sobre outra divisória nos bens de um guer falecido. Veio aquele homem e lavrou nela um pouco. O homem veio diante de Rav Nachman, e este estabeleceu-a na mão dele, confirmando-lhe a posse da terra. Ela veio e clamava diante dele. Rav Nachman disse-lhe: Que posso fazer por ti, se não tomaste posse como as pessoas tomam posse?
No hebraico, אֲתַא[י] traz entre colchetes uma letra acrescentada pelo editor: a leitura corrigida é אֲתַאי, forma feminina (“ela veio”), concordando com אִיהִי (“ela”).
Quanto a um karpef de três beit seá (área de semeadura de uma seá), e alguém cobriu com teto um beit seá dele: Rava disse: O espaço da sua cobertura o faz exceder beit sata’im, e é proibido carregar nele; e Rabi Zeira disse: O espaço da sua cobertura não o faz exceder, e é permitido carregar nele.
“E cobriu nele um beit seá” — com cobertura de telhado.
“O espaço da sua cobertura o faz exceder” — a seá coberta é contada junto com a outra parte, como se não a tivessem coberto, e ainda é mais que beit sata’im.
“O espaço da sua cobertura não o faz exceder” — pois dizemos que a borda do teto desce e fecha, e a parte coberta é como um lugar à parte.
A guemará sugere: Digamos que Rava e Rabi Zeira discordam na mesma discussão de Rav e Shmuel, pois foi dito: Quanto a uma achsadrá (varanda coberta, sem paredes completas) num campo aberto, que é karmelit, Rav disse: É permitido carregar em toda ela; e Shmuel disse: Não se carrega nela senão em um espaço de quatro amot (côvados).
“Achsadrá” — é uma construção coberta com um telhado plano, como os nossos andares de cima, e não inclinado; e esta é a cobertura de que se fala em todo o Talmud.
A discussão entre Rav e Shmuel sobre a achsadrá no campo é citada também em Eruvin 94b, com a mesma redação (lá: “não se carrega nela senão em quatro amot”).
A guemará explica: Rav disse: É permitido carregar em toda ela, porque dizemos que a borda do teto desce e fecha a achsadrá de todos os lados, e ela é como um domínio privado. E Shmuel disse: Não se carrega senão em quatro amot, porque não dizemos que a borda do teto desce e fecha.