A guemará continua a tratar do karpef que se encheu de água. Ameimar ensina que a água é como plantações somente quando é própria para uso, isto é, para beber; e Rav Ashi acrescenta que isso vale somente quando a parte funda da água não ocupa mais que beit sata’im; mas a guemará rejeita essa limitação, pois a água é como uma pilha de frutas, que não anula a condição de moradia. Depois, a guemará conta o caso de uma rechavá em Pum Nahara, maior que beit sata’im e não cercada para moradia, aberta de um lado para o mavoi da cidade e do outro para um caminho de vinhedos que subia até a margem do rio. Abaye rejeita a divisória sobre a margem, porque não se faz divisória sobre divisória, e a tzurat hapetach, que os camelos derrubariam, e propõe um lechi na entrada do caminho; Rava objeta que diriam que um lechi basta para qualquer caminho de vinhedos e propõe um lechi na entrada da cidade. Por fim, carregar na cidade e na rechavá é permitido, e Rav Acha e Ravina discordam quanto a carregar de uma para a outra.
Ameimar disse: E isso vale somente quando a água é própria para uso, isto é, para beber, pois então serve às necessidades da moradia; mas, se não é própria para uso, não é como plantações, e é proibido carregar no karpef.
“Que é própria para uso” — isto é, para beber, pois não há moradia mais excelente que esta, onde há água para beber.
Rav Ashi disse: E, mesmo quando a água é própria para uso, não dissemos isso senão quando não há na sua profundidade mais que beit sata’im, isto é, quando a parte que tem dez tefachim (palmos) de profundidade não ocupa uma área maior que beit sata’im; mas, se há na sua profundidade mais que beit sata’im, é proibido carregar no karpef, pois ele já não é considerado cercado para moradia.
“Que não há na sua profundidade mais que beit sata’im” — isto é, que a profundidade da água não se estende, na largura, por mais que beit sata’im. E a profundidade exigida de uma água comum para anular o seu lugar da lei de terra firme é de dez tefachim, como dizemos no tratado Shabat (Shabat 100b): “E se havia um rekak (charco raso) de água” etc.; “quanto é um rekak de água? Menos de dez tefachim”. Assim, a água com menos de dez tefachim de profundidade conta como chão do karpef, e só a mais funda deixa de contar.
A referência do Rashi confere: a mishná citada está em Shabat 100b (Mishná Shabat 11:4), onde se lê “se havia um rekak de água e o domínio público passa por ele…” e “quanto é um rekak de água? Menos de dez tefachim”. A marca (דף ק:) entre parênteses no Rashi é indicação de editor e significa “folha 100b”.
A guemará comenta: E isso não é coisa certa, pois a água própria para beber é exatamente como no caso de uma pilha de frutas, que, por maior que seja, não anula do karpef a condição de lugar de moradia.
“Pilha de frutas” — uma pilha de frutas com dez tefachim de altura e com largura como a largura de um beit kor (área de semeadura de um kor, trinta vezes a de um beit seá): por causa dela, não se anula dali a condição de moradia; e a água própria para beber é como frutas. Outra versão: “Exatamente como no caso de uma karya de frutas” é uma cova funda onde se guardam frutas; pois, embora estejam muito fundas ali, tiram-se delas no Shabat, e o lugar continua servindo à moradia.
A sigla ל"א no Rashi (lishna acharina, “outra versão”) introduz uma segunda explicação de כַּרְיָא דְפֵירֵי: não uma pilha de frutas, mas uma cova onde se guardam frutas. O texto principal segue a primeira explicação do Rashi, que é também a de Steinsaltz.
Conta-se que houve aquela rechavá (área aberta e cercada) que estava em Pum Nahara, maior que beit sata’im e não cercada para moradia: um lado se abria para a cidade, isto é, para um mavoi (beco sem saída para o qual se abrem pátios) da cidade, e o outro lado se abria para um caminho de vinhedos; e o caminho de vinhedos subia até a margem do rio, que tem dez tefachim de altura e é considerada divisória.
“Aquela rechavá” — a sua área era maior que beit sata’im, e não foi cercada para moradia, e por isso era karmelit.
“Pum Nahara” — é o nome de um lugar, que significa “boca do rio”.
“Um lado se abria para a cidade” — isto é, para o mavoi da cidade, que terminava nesta rechavá, de modo que a rechavá o proibia.
“Caminho de vinhedos” — havia moradores nele, e por isso precisava de reparo para que se pudesse carregar nele.
Abaye disse: Como faremos para permitir carregar em todos eles, já que a rechavá é karmelit (domínio intermediário, nem público nem privado), sem precisar abrir nela uma brecha de mais de dez amot e cercá-la de novo? Faremos para ele uma divisória sobre a margem do rio, de modo que o caminho de vinhedos fique cercado de todos os lados e seja como um acréscimo da rechavá? Não adianta, pois não se faz uma divisória sobre outra divisória, e a margem do rio já é uma divisória.
“Como faremos?” — para permitir todos eles, a rechavá, o mavoi e o caminho. Pois esta rechavá é karmelit e proíbe todo o mavoi e o caminho, que tem três divisórias e seria permitido por si, pois a margem do rio é uma divisória perfeita, já que a sua altura é de dez tefachim; mas a rechavá os proíbe, porque estão abertos, em toda a sua largura, para uma karmelit. E o que dizemos no primeiro perek (Eruvin 7a): “Se um mavoi terminava numa rechavá, não precisa de nada”, fala de uma rechavá cercada para moradia e na qual havia moradores, como se distingue ali entre o caso em que fizeram eruv (junção) e o caso em que não fizeram eruv; mas uma rechavá que é karmelit é proibida, como dizemos naquela mesma lição: “Vale de um lado e vale do outro” etc., onde o vale, que é karmelit, exige reparo.
“Como faremos?” — para permitir todos eles; pois os moradores da cidade queriam, de agora em diante, usá-la, e que ela fosse cercada para moradia e não fosse mais karmelit, e que ela fosse permitida junto com todos eles, para carregar de um para o outro. E dissemos acima que, se foi cercada e por fim abriu a entrada, não adianta; e esta rechavá estava cercada por um muro de pedras, e era difícil para eles abrir uma brecha de mais de dez amot e cercá-la para moradia, com a intenção de que os moradores do mavoi e do caminho a usassem de agora em diante, para que fosse como o caso em que se abriu a entrada e por fim se cercou, conforme a palavra de Shmuel.
“Faremos para ele uma divisória” — feita de caniços.
“Sobre a margem do rio” — isto é, que o caminho seja como um acréscimo à rechavá, de modo que a rechavá e o caminho sejam uma só coisa; e que esta divisória que fazemos no caminho, com a intenção de moradia, para que os moradores do caminho usem a rechavá de agora em diante, seja como se a fizéssemos na própria rechavá para moradia, o que é o caso em que se abriu a entrada e por fim se cercou.
“Não se faz uma divisória sobre outra divisória” — visto que a margem tem dez tefachim de altura, tudo o que se acrescenta sobre ela é apenas a elevação daquela mesma divisória; pois, se alguém elevasse toda a divisória da rechavá para moradia, não adiantaria, pois não seria um cercado novo, até que abrisse nela uma brecha que a proíbe e voltasse a cercá-la para moradia.
As referências do Rashi conferem: “Se um mavoi terminava numa rechavá, não precisa de nada” e “vale de um lado e vale do outro” estão em Eruvin 7a; a distinção entre o caso em que fizeram eruv e o caso em que não fizeram aparece na continuação da mesma discussão, em Eruvin 7b. A marca (ד' ז.) entre parênteses é indicação de editor e significa “folha 7a”. “Dissemos acima” e “conforme Shmuel” remetem a Eruvin 24a: a palavra de Rav Nachman de que, se foi cercada e por fim se abriu a entrada, não adianta, e a de Rav Nachman em nome de Shmuel sobre a brecha de mais de dez amot. No terceiro comentário, o Rashi do Sefaria traz להו, lido aqui como להוי (“que seja”).
E se fizermos para ele uma tzurat hapetach (forma de porta: dois postes verticais, um de cada lado, e uma viga horizontal sobre eles) na boca do caminho de vinhedos, que se abre para a rechavá? Também não adianta, pois os camelos que passam por ali para beber do rio virão e a derrubarão.
“Faça-se para ele uma tzurat hapetach na boca do caminho de vinhedos” — a boca que se abre para a rechavá; pois, visto que é eficaz para o caminho, isto é, para que não fique aberto para a rechavá — pois, mesmo que estivesse aberto para o reshut harabim, ela lhe seria eficaz para carregar nele —, seja eficaz também para a rechavá, para que este acréscimo seja para ela um cercado para moradia.
“Virão os camelos” — os que vêm beber do rio, saindo da cidade pelo caminho do mavoi até a rechavá, e dali ao caminho e ao rio.
“E a derrubarão” — pois a entrada do caminho era estreita para eles, e agora a tzurat hapetach os aperta ainda mais.
Antes, Abaye disse: Faça-se um lechi (poste lateral) na entrada do caminho de vinhedos, a que se abre para a rechavá; pois, visto que é eficaz para o caminho de vinhedos, para que se possa carregar nele, já que não fica mais aberto para uma karmelit, é eficaz também para a rechavá, e vale para ela como um cercado para moradia que a torna permitida.
“Lechi” — um poste que está fincado no chão, e a sua espessura é mínima, e os camelos não esbarram nele, de modo que não o derrubarão.
“Pois, visto que é eficaz para o caminho” — para carregar nele, pois agora, com o lechi, não está aberto para uma karmelit.
“É eficaz também para a rechavá” — para ser para ela um cercado para moradia, e permiti-la para carregar nela. E sem o argumento do “visto que” não seria permitida; pois a entrada entre a rechavá e o caminho não tinha mais que dez amot, e, sendo entrada, não anulava a divisória; e, por mais que alguém a feche para moradia, não é nada, pois toda entrada é como um fechamento perfeito, e está como se estivesse fechada.
Disse-lhe Rava a Abaye: Se assim for, as pessoas dirão que um lechi é eficaz para qualquer caminho de vinhedos comum, embora os caminhos de vinhedos em geral sejam abertos nas duas pontas e não subam até a margem de um rio.
“Para qualquer caminho de vinhedos comum” — isto é, que não sobe até a margem do rio e é como um mavoi aberto nas duas pontas; e dirão que um mavoi aberto não precisa de reparo senão numa das suas pontas, como este caminho.
Antes, Rava disse: Fazemos para ele um lechi na entrada da cidade, isto é, na boca do mavoi da cidade que se abre para a rechavá; pois, visto que o lechi é eficaz para a cidade, para que se possa carregar no mavoi, é eficaz também para a rechavá, tornando permitido carregar nela.
“Pois, visto que é eficaz para a cidade” — para carregar no mavoi, como dizemos no primeiro perek (Eruvin 7a): “Seratya (estrada principal) de um lado e vale do outro: faz-se uma tzurat hapetach de um lado e um lechi ou korá (viga transversal) do outro”. E aqui também, façam na cabeça do mavoi que se abre para o reshut harabim (domínio público) uma tzurat hapetach; e este lechi, do lado da rechavá, o torna permitido, como o lechi ou a korá do outro lado.
A referência do Rashi confere com Eruvin 7a, onde se lê “faz-se uma tzurat hapetach de um lado e um lechi e korá do outro”; o Rashi cita “um lechi ou korá”. A marca (דף ז.) entre parênteses é indicação de editor e significa “folha 7a”.
Por isso, em resumo: carregar na própria cidade é permitido, por meio do lechi; carregar na própria rechavá é permitido. Quanto a carregar da cidade para a rechavá e da rechavá para a cidade, Rav Acha e Ravina discordam a respeito: um proíbe carregar de uma para a outra, e o outro permite.
“Carregar na própria cidade é permitido” — pois a permitimos com este lechi na entrada da rechavá. E, mesmo que ela e a rechavá se proíbam uma à outra, ambas são usadas cada uma por si, como dois pátios com uma entrada entre eles; e o mesmo vale para a própria rechavá.
Rav Acha e Ravina discordam apenas quanto a carregar da cidade para a rechavá e da rechavá para a cidade; segundo o Rashi, mesmo para quem proíbe, cada um dos dois lugares é permitido por si, como dois pátios ligados por uma entrada que não fizeram eruv entre si.