Talmud Bavli · Massechet Eruvin · Perek Bet (Osin Passin)
רְחָבָה מִצְוָתְךָ

Sobe escalando e desce escalando; os burganin e os passin dos poços; de Barnish à sinagoga de Daniel; a amplitude da Torá; os dois cestos de figos

Eruvin 21a — Perek Bet (Osin Passin) · continuação da guemará sobre a primeira mishná do perek · a guemará prossegue em 21b

A guemará conclui a baraita dos passin dos poços: a pessoa sobe escalando e desce escalando, e só os animais bebem com a água tirada dentro dos passin. Pergunta-se como isto se concilia com o ensino de Shmuel de que os passin só foram permitidos para poços de águas vivas, e examina-se o próprio texto da baraita, com a objeção de Rav Anan e a explicação de Abaye. Rav ensina, em duas versões, que a lei dos burganin, as cabanas de guarda fora da cidade, e a permissão dos passin dos poços não se aplicam na Babilônia nem fora da Terra de Israel; Rav Chisda pergunta a Mari, neto de Rav Yirmeya bar Abba, como caminha no Shabat de Barnish até a sinagoga de Daniel. Passa-se então à agadá: Mari bar Mar expõe que a amplitude da Torá foi dita por David, Iyov e Yechezkel, e explicada por Zecharya, cujo rolo que voa mostra que o mundo inteiro é uma parte em três mil e duzentas da Torá; e começa a exposição sobre os dois cestos de figos de Yirmeyahu.

Mas uma pessoa sobe escalando · מְטַפֵּס וְעוֹלֶה

738Sobe escalando e desce escalando
A guemará
מְטַפֵּס וְעוֹלֶה מְטַפֵּס וְיוֹרֵד.

…sobe escalando e desce escalando até a água do poço, e bebe ali; pois, para a pessoa, os passin não foram permitidos.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “metapes”
מטפס - אוחז בידיו ורגליו בכתלים ונכנס ויוצא מטפס קרפי"ר בלע"ז:

“Sobe escalando” — segura-se com as mãos e os pés nas paredes do poço, e assim entra e sai; “escalar” se diz em língua estrangeira krapir (no francês antigo).

Nota

Rashi registra a palavra em língua estrangeira (לַעַז) קרפי"ר; trata-se de um termo do francês antigo para “escalar”, que aqui se transcreve como krapir.

739Algo próprio para o ser humano
A guemará
אִינִי? וְהָאָמַר רַב יִצְחָק אָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר שְׁמוּאֵל: לֹא הוּתְּרוּ פַּסֵּי בֵירָאוֹת אֶלָּא לִבְאֵר מַיִם חַיִּים בִּלְבַד. וְאִי לִבְהֵמָה, מָה לִי חַיִּים מָה לִי מְכוּנָּסִין? בָּעִינַן מִידֵּי דַּחֲזֵי לְאָדָם.

A guemará objeta: Acaso é assim, que a permissão dos passin vale somente para o animal? Mas não disse Rav Yitzchak que Rav Yehuda disse que Shmuel disse: Os passin dos poços não foram permitidos senão para um poço de águas vivas, isto é, de nascente, somente? E, se a permissão é só para o animal, que me importa se são águas vivas, que me importa se são águas recolhidas? Também as águas recolhidas servem para o animal beber. A guemará responde: Exigimos algo que seja próprio para o ser humano beber, ainda que a permissão seja para o animal.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “midei dachazei leadam”
מידי דחזי לאדם - כיון דמים משוי להו מחיצה בעינן מים חשובין:

“Algo que seja próprio para o ser humano” — pois, já que é a água que os torna divisória, já que por causa dela os Sábios foram lenientes, exigimos águas importantes.

A baraita dos passin dos poços · גּוּפָא

740O próprio texto da baraita
A guemará
גּוּפָא: לֹא הוּתְּרוּ פַּסֵּי בֵירָאוֹת אֶלָּא לִבְהֵמָה בִּלְבַד, אֲבָל אָדָם מְטַפֵּס וְעוֹלֶה מְטַפֵּס וְיוֹרֵד. וְאִם הָיוּ רְחָבִין, אֲפִילּוּ לְאָדָם נָמֵי. וְלֹא יְמַלֵּא אָדָם מַיִם וְיִתֵּן לִפְנֵי בְהֶמְתּוֹ, אֲבָל מְמַלֵּא הוּא וְשׁוֹפֵךְ לִפְנֵי בְּהֵמָה וְשׁוֹתָה מֵאֵילֶיהָ.

Voltando ao próprio texto da baraita citada acima: “Os passin dos poços não foram permitidos senão para o animal, somente; mas uma pessoa sobe escalando e desce escalando até a água. E, se os poços eram largos demais para escalar, são permitidos também para a pessoa. E uma pessoa não deve encher um balde de água e pô-lo diante do seu animal; mas enche o balde e derrama a água num cocho diante do animal, e ele bebe por si mesmo.”

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “im hayu rechavin”
אם היו רחבין - ואינו יכול לטפס מותר לו למלאות ולשתות:

“Se eram largos” — e a pessoa não pode escalar, é-lhe permitido encher o balde e beber dentro dos passin.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “veyiten lifnei behemto”
ויתן לפני בהמתו - הוא עצמו אינו מותר לאחוז הכלי לפניה:

“E pô-lo diante do seu animal” — ele mesmo não tem permissão de segurar o recipiente diante dela, enquanto ela bebe.

741Para que serviram os passin?
A guemará
מַתְקֵיף לַהּ רַב עָנָן: אִם כֵּן, מָה הוֹעִילוּ פַּסֵּי בֵירָאוֹת? מָה הוֹעִילוּ?! לְמַלּאוֹת מֵהֶן!

Rav Anan objeta a isto, à explicação da baraita: Se é assim, para que serviram os passin dos poços, se não se pode dar de beber ao animal com o balde? A guemará se espanta: Para que serviram?! Para encher água deles, o que sem os passin seria proibido!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ma hoilu”
מה הועילו - בתמיה הרי הועילו למלאות מן הבור שהוא רשות היחיד:

“Para que serviram” — é dito em tom de espanto: eis que serviram para encher água da cisterna, que é domínio privado, e levá-la para dentro dos passin.

742A cabeça e a maior parte da vaca
A guemará
אֶלָּא: מָה הוֹעִיל רֹאשָׁהּ וְרוּבָּהּ שֶׁל פָּרָה?

A guemará reformula a objeção de Rav Anan: Antes, a pergunta é esta: Para que serviu a exigência de que caibam a cabeça e a maior parte do corpo da vaca dentro dos passin, se, de qualquer modo, não se pode segurar o balde diante dela?

743A resposta de Abaye
A guemará
אָמַר אַבָּיֵי: הָכָא בְּמַאי עָסְקִינַן — בְּאֵיבוּס הָעוֹמֵד בִּרְשׁוּת הָרַבִּים גָּבוֹהַּ עֲשָׂרָה וְרוֹחַב אַרְבָּעָה וְרֹאשׁוֹ נִכְנָס לְבֵין הַפַּסִּין וְכוּ׳.

Disse Abaye: Aqui, com que lidamos? Não com um animal que está entre os passin, mas com uma manjedoura que está no domínio público, com dez tefachim de altura e quatro de largura, sendo portanto um domínio privado, e a sua extremidade entra entre os passin etc. Somente neste caso a baraita proíbe pôr o balde diante do animal, por um decreto: pois, se a manjedoura se danificar, a pessoa poderá vir a consertá-la e levar o balde consigo de um domínio para o outro; mas, fora deste caso, é permitido dar de beber ao animal de qualquer modo dentro dos passin.

Burganin e passin na Babilônia e fora da Terra de Israel · אֵין בּוּרְגָּנִין בְּבָבֶל

744Não há burganin na Babilônia
A guemará
אָמַר רַב יִרְמְיָה בַּר אַבָּא אָמַר רַב: אֵין בּוּרְגָּנִין בְּבָבֶל, וְלֹא פַּסֵּי בֵירָאוֹת בְּחוּץ לָאָרֶץ.

Disse Rav Yirmeya bar Abba que Rav disse: Não há burganin (cabanas de guarda) na Babilônia, nem passin dos poços fora da Terra de Israel. Isto é: a lei das cabanas de guarda que estão fora da cidade, pela qual elas são contadas com a cidade e o techum do Shabat se mede a partir delas, não se aplica na Babilônia; e a permissão dos passin dos poços não se aplica fora da Terra de Israel.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ein burganin beBavel”
אין בורגנין בבבל - דאמר בכיצד מעברין (לקמן עירובין ד' נה:) אם היו בורגנין חוץ לעיר בתוך ע' אמה ושירים מתעברין עמה ומודדין תחום העיר משם ולהלן ומה הן בורגנין סוכות שעושין שומרי העיר ואינו דבר קבוע וקאמר ר' ירמיה דהנך בורגנין אין בבבל כלו' ואין מתעברין עם העיר דבבבל איכא בידקי דמיא ושטפי להו הלכך לא חשיבי מידי:

“Não há burganin na Babilônia” — pois a guemará diz no capítulo Keitzad Meabrin (adiante, Eruvin 55b): Se havia burganin fora da cidade, dentro de setenta amot e um resto dela, eles são incorporados a ela, e mede-se o techum do Shabat da cidade dali em diante. E o que são burganin? Cabanas que fazem os guardas da cidade, e isto não é coisa fixa. E diz Rav Yirmeya que estes burganin não existem na Babilônia, isto é, não são incorporados à cidade para medir o techum, pois na Babilônia há inundações de água que os arrastam; por isso não são considerados coisa alguma.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “bechutza laaretz”
בחוצה לארץ - בשאר ארצות לבד מבבל:

“Fora da Terra” — isto é, nas demais terras, exceto a Babilônia, que é mencionada à parte.

745As inundações e as academias
A guemará
בּוּרְגָּנִין בְּבָבֶל לָא — דִּשְׁכִיחִי בִּידְקֵי, פַּסֵּי בֵירָאוֹת בְּחוּץ לָאָרֶץ לָא — דְּלָא שְׁכִיחִי מְתִיבָתָא. אֲבָל אִיפְּכָא עָבְדִינַן.

A guemará explica: Burganin na Babilônia, não se aplicam, porque são frequentes as inundações, que arrastam as cabanas, e por isso não são consideradas moradias; passin dos poços fora da Terra de Israel, não se aplicam, porque não são frequentes as academias de Torá, e a permissão só foi dada aos que viajam por motivo de mitzvá. Mas fazemos o contrário: aplicamos a lei dos burganin fora da Terra de Israel, e a permissão dos passin dos poços na Babilônia.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “dela shechichei metivata”
דלא שכיחי מתיבתא - להיות תלמידים הולכים מעיר לעיר ללמוד תורה ופסי ביראות לא הותרו אלא לעולי רגלים ולכיוצא בהן שהולכין לדבר מצוה:

“Porque não são frequentes as academias” — isto é, não é comum haver alunos que vão de cidade em cidade para estudar Torá; e os passin dos poços só foram permitidos aos peregrinos e aos que são como eles, que vão de lugar em lugar por motivo de mitzvá.

746Há quem diga: nem na Babilônia nem fora da Terra
A guemará
אִיכָּא דְּאָמְרִי, אָמַר רַב יִרְמְיָה בַּר אַבָּא אָמַר רַב: אֵין בּוּרְגָּנִין וּפַסֵּי בֵירָאוֹת, לֹא בְּבָבֶל וְלֹא בַּחוּץ לָאָרֶץ. בּוּרְגָּנִין בְּבָבֶל לֹא — דִּשְׁכִיחִי בִּידְקֵי, בְּחוּץ לָאָרֶץ נָמֵי לָא — דִּשְׁכִיחִי גַּנָּבֵי.

Há quem diga que assim disse Rav Yirmeya bar Abba que Rav disse: Não há burganin nem passin dos poços, nem na Babilônia nem fora da Terra de Israel. A guemará explica: Burganin na Babilônia, não se aplicam, porque são frequentes as inundações; fora da Terra de Israel também não, porque são frequentes os ladrões, que furtam das cabanas, de modo que não são consideradas moradias.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “dishchichei ganavei”
דשכיחי גנבי - דגנבי להו הלכך לא חשיבי להיות בתים:

“Porque são frequentes os ladrões” — que os furtam; por isso as cabanas não são considerados como casas.

747Onde a água é frequente
A guemará
פַּסֵּי בֵירָאוֹת בְּבָבֶל לָא — דִּשְׁכִיחִי מַיָּא. בְּחוּץ לָאָרֶץ נָמֵי לָא — דְּלָא שְׁכִיחִי מְתִיבָתָא.

Passin dos poços na Babilônia, não se aplicam, porque a água é frequente ali, pois há muitos rios e canais, e os poços não são essenciais; fora da Terra de Israel também não, porque não são frequentes as academias de Torá.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “dishchichei maya”
דשכיחי מיא - ולא הותרו פסי ביראות אלא למקום שצריכין מי גשמים לכנסן ולשתות מהן דאיכא דוחק:

“Porque a água é frequente” — e os passin dos poços só foram permitidos para um lugar onde se precisa recolher águas de chuva em poços e beber delas, onde há escassez de água.

De Barnish à sinagoga de Daniel · בֵּי כְנִישְׁתָּא דְּדָנִיֵּאל

748Em que vos apoiais?
A guemará
אֲמַר לֵיהּ רַב חִסְדָּא לְמָרִי בְּרֵיהּ דְּרַב הוּנָא בְּרֵיהּ דְּרַב יִרְמְיָה בַּר אַבָּא: אָמְרִי אָתֵיתוּ מִבַּרְנִשׁ לְבֵי כְנִישְׁתָּא דְּדָנִיֵּאל דַּהֲוָה תְּלָתָא פַּרְסֵי בְּשַׁבְּתָא, אַמַּאי סָמְכִיתוּ — אַבּוּרְגָּנִין? הָא אָמַר אֲבוּהּ דַּאֲבוּהּ מִשְּׁמֵיהּ דְּרַב: אֵין בּוּרְגָּנִין בְּבָבֶל!

Disse Rav Chisda a Mari, filho de Rav Huna, filho de Rav Yirmeya bar Abba: Dizem que vindes de Barnish à sinagoga de Daniel, que fica a três parsaot de distância, no Shabat. Em que vos apoiais para caminhar tanto? Nos burganin que há nos arredores da cidade, que estenderiam o techum até a sinagoga? Eis que disse o pai do seu pai, Rav Yirmeya bar Abba, em nome de Rav: Não há burganin na Babilônia!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “amrei dekatitu miBarnish”
אמרי דקאתיתו מברנש לבי כנישתא דדניאל - שמעתי שאומרי' עליכם שאתם באין מברניש לבי כנישתא דדניאל בשבת מקום היה בבבל ששם היה מתפלל דניאל דכתיב וכוין פתיחן ליה בעיליתיה:

“Dizem que vindes de Barnish à sinagoga de Daniel” — ouvi que dizem de vós que vindes de Barnish à sinagoga de Daniel no Shabat. Era um lugar na Babilônia onde Daniel orava voltado para Jerusalém, como está escrito: “E tinha janelas abertas no seu quarto de cima” (Daniel 6:11).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “amai kasamchitu aburganin”
אמאי קא סמכיתו אבורגנין - שיש בורגנין משבעים אמה לשבעים אמה:

“Em que vos apoiais? Nos burganin?” — pois há burganin de setenta amot em setenta amot ao longo do caminho.

749As ruínas das cidades
A guemará
נָפֵק וְאַחְוִי לֵיהּ הָנְהוּ מָתָווֹתָא, דְּמִבַּלְעָן בְּשִׁבְעִים אַמָּה וְשִׁירַיִים.

Mari saiu e mostrou-lhe no caminho certas ruínas de cidades, que se incorporavam umas às outras por estarem dentro de setenta amot e um resto umas das outras; era nelas, e não nos burganin, que se apoiava para caminhar toda a distância.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “matavata”
מתוותא - עיירות חריבות ונשארו שם מחיצות מן הבתים ואמרי' התם בפ' כיצד מעברין (עירובין נה:) נפש שלא נפרצה דהיינו מצבת קבר מתעברת עם העיר ואע"פ שאינה בית ממש:

“Ruínas” — cidades destruídas, e ficaram ali paredes das casas, e por isso são contadas com a cidade; e dizemos ali, no capítulo Keitzad Meabrin (Eruvin 55b): Um nefesh (monumento) que não foi rompido, isto é, uma lápide sobre um túmulo, é incorporado à cidade, embora não seja propriamente uma casa.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “beshivim amá vesheyarayim”
בשבעים אמה ושירים - שני שלישי אמה דהוא שיעור בית סאתים כחצר המשכן כדאמרי' לקמן (עירובין ד' נז.) נותנין קרפף לעיר דכל שבעים אמה ושירים סמוך לעיר הוי עיר:

“Dentro de setenta amot e um resto” — o resto são dois terços de amá, que é a medida de beit seatayim (área de duas seá), como o pátio do Tabernáculo, que media cem por cinquenta amot, conforme dizemos adiante (Eruvin 57a): “Dá-se um karpef (cercado) à cidade”; pois toda área de setenta amot e um resto junto à cidade é considerada cidade.

A amplitude da Torá · רְחָבָה מִצְוָתְךָ מְאֹד

750David, Iyov, Yechezkel e Zecharya
A guemará
אָמַר רַב חִסְדָּא, דָּרֵישׁ מָרִי בַּר מָר: מַאי דִּכְתִיב ״לְכׇל תִּכְלָה רָאִיתִי קֵץ רְחָבָה מִצְוָתְךָ מְאֹד״, דָּבָר זֶה אֲמָרוֹ דָּוִד וְלֹא פֵּירְשׁוֹ, אֲמָרוֹ אִיּוֹב וְלֹא פֵּירְשׁוֹ, אֲמָרוֹ יְחֶזְקֵאל וְלֹא פֵּירְשׁוֹ, עַד שֶׁבָּא זְכַרְיָה בֶּן עִדּוֹ וּפֵירְשׁוֹ.

Disse Rav Chisda: Mari bar Mar expôs o versículo: O que é que está escrito: “Para todo término vi um limite; o Teu mandamento é amplo em extremo” (Tehilim 119:96)? Esta coisa, a amplitude da Torá, disse-a David, e não a explicou; disse-a Iyov, e também ele não a explicou; disse-a Yechezkel, e também ele não a explicou; até que veio Zecharya, filho de Iddo, e a explicou.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “lechol tichlá raiti ketz”
לכל תכלה ראיתי קץ - דסוף כל דבר יש קץ למצוא סופו אבל מצותך רחבה מאד ואין קץ לתכלה שלה:

“Para todo término vi um limite” — pois o fim de toda coisa tem um limite, de modo que se pode encontrar o seu fim; mas o Teu mandamento é muito amplo, e não há limite para o seu término.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “lo pershô”
לא פירשו - איזהו קץ שיעורה:

“E não a explicou” — isto é, não explicou qual é o limite da sua medida.

Nota

Steinsaltz acrescenta “filho de Berechya”, conforme Zecharya 1:1; o hebraico da guemará diz apenas “Zecharya, filho de Iddo”.

751David e Iyov
A guemará
אֲמָרוֹ דָּוִד וְלֹא פֵּירְשׁוֹ, דִּכְתִיב: ״לְכׇל תִּכְלָה רָאִיתִי קֵץ רְחָבָה מִצְוָתְךָ מְאֹד״. אֲמָרוֹ אִיּוֹב וְלֹא פֵּירְשׁוֹ, דִּכְתִיב: ״אֲרוּכָּה מֵאֶרֶץ מִדָּהּ וּרְחָבָה מִנִּי יָם״.

Mari bar Mar prossegue: Disse-a David, e não a explicou, como está escrito: “Para todo término vi um limite; o Teu mandamento é amplo em extremo”, isto é, disse que a Torá é muito ampla, mas não disse quanto. Disse-a Iyov, e também ele não a explicou, como está escrito: “Mais longa que a terra é a sua medida, e mais larga que o mar” (Iyov 11:9), mas também ele não disse quanto.

752O rolo de Yechezkel
A guemará
אֲמָרוֹ יְחֶזְקֵאל וְלֹא פֵּירְשׁוֹ, דִּכְתִיב: ״וַיִּפְרֹשׂ אוֹתָהּ לְפָנַי וְהִיא כְתוּבָה פָּנִים וְאָחוֹר וְכָתוּב אֵלֶיהָ קִינִים וָהֶגֶה וָהִי״.

Disse-a Yechezkel, e também ele não a explicou, como está escrito: “E estendeu-o, o rolo, diante de mim, e ele estava escrito por dentro e por fora; e nele estava escrito: lamentações, e melodia, e ai” (Yechezkel 2:10), mas tampouco disse qual era a medida do rolo.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “vayifros otah lefanai”
ויפרוש אותה לפני - מגילת תורה שבעל פה הראהו:

“E estendeu-o diante de mim” — o rolo da Torá Oral o Santo, bendito seja, lhe mostrou.

753Lamentações, melodia e ai
A guemará
״קִינִים״ — זוֹ פּוּרְעָנוּתָן שֶׁל צַדִּיקִים בָּעוֹלָם הַזֶּה, וְכֵן הוּא אוֹמֵר: ״קִינָה הִיא וְקוֹנְנוּהָ״. ״וָהֶגֶה״ — זוֹ מַתַּן שְׂכָרָן שֶׁל צַדִּיקִים לֶעָתִיד לָבֹא, וְכֵן הוּא אוֹמֵר: ״עֲלֵי הִגָּיוֹן בְּכִנּוֹר״. ״וָהִי״ — זוֹ הִיא פּוּרְעָנוּתָן שֶׁל רְשָׁעִים לֶעָתִיד לָבֹא, וְכֵן הוּא אוֹמֵר: ״הֹוָה עַל הֹוָה תָּבֹא״.

A guemará explica: “Lamentações” — este é o castigo dos justos neste mundo; e assim diz o versículo: “É uma lamentação, e a lamentarão” (Yechezkel 32:16). “E melodia” — esta é a outorga da recompensa dos justos no futuro vindouro; e assim diz o versículo: “Com a melodia na lira” (Tehilim 92:4), onde a mesma palavra exprime alegria. “E ai” — este é o castigo dos ímpios no futuro vindouro; e assim diz o versículo: “Calamidade sobre calamidade virá” (Yechezkel 7:26), pois hová (calamidade) é da mesma raiz que vahi (ai).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “vechen hu omer”
וכן הוא אומר - דקינים לשון פורענות הוא:

“E assim diz” — para mostrar que “lamentações” é expressão de castigo.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “vehegeh”
והגה - לשון שמחה:

“E melodia” — é expressão de alegria.

754O rolo que voa de Zecharya
A guemará
עַד שֶׁבָּא זְכַרְיָה בֶּן עִדּוֹ וּפֵירְשׁוֹ, דִּכְתִיב: ״וַיֹּאמֶר אֵלַי מָה אַתָּה רוֹאֶה וָאוֹמַר אֲנִי רוֹאֶה מְגִילָּה עָפָה אׇרְכָּהּ עֶשְׂרִים בָּאַמָּה וְרׇחְבָּהּ עֶשֶׂר בָּאַמָּה״. וְכִי פָּשְׁטַתְּ לַהּ, הָוְיָא לַהּ עֶשְׂרִין בְּעֶשְׂרִין. וּכְתִיב: ״הִיא כְתוּבָה פָּנִים וְאָחוֹר״, וְכִי קָלְפַתְּ לַהּ, כַּמָּה הָוְיָא לַהּ — אַרְבְּעִין בְּעֶשְׂרִין.

Até que veio Zecharya, filho de Iddo, e a explicou, dando a sua medida, como está escrito: “E disse-me: Que vês? E eu disse: Vejo um rolo que voa; o seu comprimento, vinte amot, e a sua largura, dez amot” (Zecharya 5:2). E, quando o desdobras, o rolo fica vinte por vinte amot, pois um rolo que voa está dobrado em duas faces iguais. E está escrito: “Ele estava escrito por dentro e por fora” (Yechezkel 2:10); e, quando separas as suas camadas, quanto fica? A sua área toda fica quarenta por vinte amot.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “esrim baamá”
עשרים באמה - אמה של הקדוש ברוך הוא:

“Vinte amot” — na amá do Santo, bendito seja.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “verochbah eser”
ורחבה עשר - כשהיא עפה היינו כפולה:

“E a sua largura, dez” — quando voa, isto é, quando está dobrado.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ki pashtat”
כי פשטת - לכפילתה הויא עשרים בעשרים:

“Quando o desdobras” — abrindo a sua dobra, fica vinte por vinte amot.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ki kalfat lah”
כי קלפת לה - דתשים קליפה זו בראש חבירתה שיהא כל כתיבה מצד אחד:

“Quando separas as camadas” — que ponhas esta camada na extremidade da outra, de modo que toda a escrita fique de um só lado.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “havya lah arbain”
הויא לה ארבעי' - אורך ברוחב כ':

“Fica quarenta” — amot de comprimento, por vinte de largura.

Nota

O versículo “Ele estava escrito por dentro e por fora” é de Yechezkel 2:10, citado acima; a guemará o aplica ao rolo de Zecharya.

755O mundo inteiro, uma parte em três mil e duzentas
A guemará
וּכְתִיב: ״מִי מָדַד בְּשׇׁעֳלוֹ מַיִם וְשָׁמַיִם בַּזֶּרֶת תִּכֵּן וְגוֹ׳״ — נִמְצָא כׇּל הָעוֹלָם כּוּלּוֹ אֶחָד מִשְּׁלֹשֶׁת אֲלָפִים וּמָאתַיִם בַּתּוֹרָה.

E está escrito: “Quem mediu as águas na concha da sua mão, e os céus com o palmo calculou” etc. (Yeshayahu 40:12). Se os céus, isto é, o mundo inteiro, medem um palmo por um palmo, e o palmo é meia amá, resulta que o mundo inteiro é uma parte de três mil e duzentas partes da Torá.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “veshamayim bazeret tikken”
ושמים בזרת תכן - מדת עולם חצי אמה על חצי אמה צא וחשוב כמה חצי אמה על חצי אמה יש במגילה ותמצא שלשת אלפים ומאתים כיצד עשה מעשרים אמה רוחב רצועות של רוחב חצי אמה הרי כאן ארבעים רצועות וכל אחת ארבעים אמה לאורכה של מגילה הרי אלף ושש מאות אמה אורך שהן שלשת אלפים ומאתים זרתות:

“E os céus com o palmo calculou” — a medida do mundo é meia amá por meia amá. Sai e calcula quantas vezes meia amá por meia amá há no rolo, e encontrarás três mil e duzentas. Como? Faz dos vinte amot de largura tiras com a largura de meia amá: eis aqui quarenta tiras, e cada uma tem quarenta amot, ao longo do comprimento do rolo; eis mil e seiscentas amot de comprimento, que são três mil e duzentos palmos de comprimento, isto é, três mil e duzentos quadrados de meia amá por meia amá.

Os dois cestos de figos · שְׁנֵי דּוּדָאֵי תְאֵנִים

756Os figos bons e os figos maus
A guemará
וְאָמַר רַב חִסְדָּא, דָּרֵישׁ מָרִי בַּר מָר, מַאי דִּכְתִיב: ״וְהִנֵּה שְׁנֵי דּוּדָאֵי תְאֵנִים מוּעָדִים לִפְנֵי הֵיכַל ה׳. הַדּוּד הָאֶחָד תְּאֵנִים טוֹבוֹת מְאֹד כִּתְאֵנֵי

E disse Rav Chisda: Mari bar Mar expôs: O que é que está escrito no livro de Yirmeyahu: “E eis dois cestos de figos postos diante do templo do Eterno; um cesto tinha figos muito bons, como os figos…”

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “dudaei teenim”
דודאי תאנים - סירות נחושת מלאות תאנים:

“Cestos de figos” — vasos de cobre cheios de figos.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “muadim”
מועדים - מוכנים:

“Postos” — preparados diante do templo.

Nota

A citação é de Yirmeyahu 24:1–2 e prossegue em Eruvin 21b. O hebraico da guemará traz הַדּוּד הָאֶחָד (“o cesto, o primeiro”), onde o texto massorético de Yirmeyahu 24:2 lê הַדּוּד אֶחָד (“um cesto”).

O daf termina aqui: a guemará conclui a baraita dos passin dos poços, segundo a qual a pessoa sobe escalando e desce escalando, examina-a à luz do ensino de Shmuel sobre as águas vivas, da objeção de Rav Anan e da explicação de Abaye; traz o ensino de Rav, em duas versões, sobre os burganin e os passin dos poços na Babilônia e fora da Terra de Israel, e a pergunta de Rav Chisda a Mari sobre o caminho de Barnish à sinagoga de Daniel; e passa à agadá de Mari bar Mar sobre a amplitude da Torá e o rolo que voa de Zecharya, começando a exposição sobre os dois cestos de figos. A guemará prossegue em Eruvin 21b.