Talmud Bavli · Massechet Eruvin · Perek Bet (Osin Passin)
רֹאשָׁהּ וְרוּבָּהּ

E assim também no lagar; a vaca que bebe com a cabeça e a maior parte do corpo dentro; o camelo cevado à força; os passin dos poços

Eruvin 20b — Perek Bet (Osin Passin) · continuação da guemará sobre a primeira mishná do perek · a guemará prossegue em 21a

A guemará completa a citação da mishná sobre quem bebe entre o domínio público e o domínio privado: “e assim também no lagar”. Pergunta-se então se a vaca que bebe precisa ter a cabeça e a maior parte do corpo dentro, distinguindo entre quem segura só o recipiente e quem segura também o animal; a prova da mishná dos passin é rejeitada, e a baraita que proíbe encher água e pô-la diante do animal é explicada por Abaye como o caso da manjedoura no domínio público, com um decreto cuja razão se discute à luz do ensino de Rabi Yochanan sobre quem remove objetos de canto a canto. A mesma discussão é trazida numa segunda versão. Seguem-se as baraitot do camelo e do animal cevados à força, com a resposta de Rav Sheshet de que o camelo é diferente, por ter o pescoço longo, e, por fim, o ensino de Rabi Yitzchak, filho de Adda: os passin dos poços só foram permitidos para os peregrinos, isto é, para os seus animais.

A mishná do lagar · וְכֵן בַּגַּת

716E assim também no lagar
A guemará
וְכֵן בַּגַּת.

E a mesma mishná prossegue: “E assim também no lagar” (Mishná Eruvin 10:6), isto é, quanto ao dízimo: enquanto a pessoa tem a cabeça e a maior parte do corpo dentro do lagar, pode beber do vinho sem separar o dízimo, pois esse beber é considerado ocasional.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “vechen bagat”
וכן בגת - מפרש בפ' בתרא (עירובין דף צט:) לענין מעשר דכל כמה שהוא בגת שותין בלא מעשר על הגת אבל להוציא מן הגת שתיית קבע הוא ועל הגת אפי' מוזגו בחמין דהויא לה קבע לא חשיב ליה קבע התם:

“E assim também no lagar” — explica-se no último capítulo (Eruvin 99b) que se refere ao dízimo: pois, enquanto o vinho está no lagar, bebe-se junto ao lagar sem separar o dízimo; mas levá-lo para fora do lagar é um beber fixo, que obriga ao dízimo. E junto ao lagar, mesmo que o misture com água quente, o que em outro lugar o tornaria fixo, ali não é considerado fixo.

A vaca que bebe: a cabeça e a maior parte do corpo · גַּבֵּי פָּרָה

717E quanto a uma vaca?
A guemará
גַּבֵּי אָדָם — הָא אָמַר דְּבָעֵי רֹאשׁוֹ וְרוּבּוֹ. גַּבֵּי פָּרָה — מִי בָּעִינַן לַהּ רֹאשָׁהּ וְרוּבָּהּ אוֹ לָא?

A guemará esclarece: Quanto a uma pessoa, eis que a mishná disse que é necessário que tenha a cabeça e a maior parte do corpo dentro do domínio de onde bebe. Quanto a uma vaca que está num domínio e bebe de outro, acaso exigimos dela que tenha a cabeça e a maior parte do corpo dentro, ou não?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “gabei behemá”
גבי בהמה - המשקה בהמתו ברה"י והיא עומדת ברה"ר מהו:

“Quanto a um animal” — quem dá de beber ao seu animal no domínio privado, estando ele no domínio público, qual é a lei?

718Quando segura o recipiente e a vaca
A guemará
כֹּל הֵיכָא דְּקָא נָקֵיט מָנָא וְלָא נָקֵיט לַהּ — לָא תִּיבְּעֵי לָךְ דְּבָעֵי רֹאשָׁהּ וְרוּבָּהּ מִלְּגָיו. כִּי תִּבְּעֵי לָךְ — הֵיכָא דְּנָקֵיט מָנָא וְנָקֵיט לַהּ, מַאי?

A guemará precisa a pergunta: Em todo caso em que a pessoa segura o recipiente em que a vaca bebe e não a segura, não precisas perguntar, pois certamente é necessário que tenha a cabeça e a maior parte do corpo dentro, porque ela poderia recuar e arrastar o recipiente consigo. Quando hás de perguntar? No caso em que segura o recipiente e também a segura: qual é a lei?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “heicha denakit mana”
היכא דנקיט מנא - שהיא שותה בו:

“Em que segura o recipiente” — no qual ela bebe.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “velo nakit”
ולא נקיט - לצוארה באפסר שלא תוכל לעקם ראשה בחוץ:

“E não segura” — o pescoço dela pelo cabresto, de modo que ela não possa virar a cabeça para fora.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “lo tibaei lach”
לא תיבעי לך - דודאי חיישינן שמא תעקם את ראשה ותוליך את הכלי אחריה:

“Não precisas perguntar” — pois certamente tememos que ela vire a cabeça e leve o recipiente atrás de si para o outro domínio.

719Já o aprendestes na mishná
A guemará
אֲמַר לֵיהּ, תְּנֵיתוּהָ: וּבִלְבַד שֶׁתְּהֵא הַפָּרָה רֹאשָׁהּ וְרוּבָּהּ מִבִּפְנִים וְשׁוֹתָה. מַאי לָאו, דְּנָקֵיט לַהּ וְנָקֵיט מָנָא? לָא, דְּנָקֵיט מָנָא וְלָא נָקֵיט לַהּ.

Disse-lhe: Já o aprendestes na mishná: É permitido aproximar as tábuas do poço, “contanto que a vaca possa ficar com a cabeça e a maior parte do corpo dentro e beber” (Mishná Eruvin 2:2). Acaso não se refere também ao caso em que a segura e segura o recipiente? A guemará rejeita: Não, refere-se ao caso em que segura o recipiente e não a segura.

720Encher e pôr diante do animal
A guemará
וְכִי נָקֵיט מָנָא וְלָא נָקֵיט לַהּ, מִי שְׁרֵי? וְהָתַנְיָא: לֹא יְמַלֵּא אָדָם מַיִם וְיִתֵּן בְּשַׁבָּת לִפְנֵי בְהֶמְתּוֹ, אֲבָל מְמַלֵּא הוּא וְשׁוֹפֵךְ, וְהִיא שׁוֹתָה מֵאֵילֶיהָ!

A guemará objeta: E quando segura o recipiente e não a segura, acaso é permitido dar-lhe de beber assim? Mas não foi ensinado numa baraita: “Uma pessoa não deve encher um balde de água e pô-lo no Shabat diante do seu animal; mas enche e derrama a água num cocho, e ele bebe por si mesmo”? Vê-se, pois, que é proibido quando não segura o animal.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “vechi lo nakit lah mi sharei”
וכי לא נקיט לה מי שרי - לאחוז הכלי בפסי ביראות ואע"ג דעשויין כתיקנן שהפרה ראשה ורובה בפנים:

“E quando não a segura, acaso é permitido” — segurar o recipiente nos passin dos poços, mesmo que estejam feitos conforme a regra, de modo que a vaca tenha a cabeça e a maior parte do corpo dentro?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “lo yemalle adam mayim”
לא ימלא אדם מים ויתן לפני בהמתו - ויאחוז הכלי בידו בעוד שהיא שותה ולקמן בברייתא בשמעתין היא גבי פסי ביראות ועל כרחך בדלא נקיט לה הוא דאי נקיט לה הוא ואפ"ה אסור למה הוצרכו ראשה ורובה בפנים אלא פשיטא בדלא נקיט לה ומתני' דשרי בדנקיט לה וקתני ראשה ורובה מבפנים:

“Uma pessoa não deve encher água e pôr diante do seu animal” — e segurar o recipiente na mão enquanto ele bebe. E esta baraita está adiante, numa baraita da nossa discussão, a respeito dos passin dos poços. E forçosamente se trata do caso em que não a segura; pois, se fosse no caso em que a segura e ainda assim fosse proibido, para que precisaram exigir a cabeça e a maior parte do corpo dentro? Antes, é evidente que se trata do caso em que não a segura; e a mishná, que permite, trata do caso em que a segura, e ensina que deve ter a cabeça e a maior parte do corpo dentro.

721A manjedoura no domínio público
A guemará
הָא אִתְּמַר עֲלַהּ: אָמַר אַבָּיֵי, הָכָא בְּאֵבוּס הָעוֹמֵד בִּרְשׁוּת הָרַבִּים גָּבוֹהַּ עֲשָׂרָה טְפָחִים וְרוֹחַב אַרְבָּעָה, וְרֹאשׁוֹ אֶחָד נִכְנָס לְבֵין הַפַּסִּין.

A guemará refuta: Eis que foi dito a respeito dela: Disse Abaye: Aqui tratamos de uma manjedoura que está no domínio público, com dez tefachim de altura e quatro de largura, sendo portanto um domínio privado, e uma das suas extremidades entra entre os passin, enquanto o animal está numa casa cujas janelas se abrem para o domínio público.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ha itmar alah”
הא איתמר עלה כו' - כלומר כי בעינן ראשה ורובה בדלא נקיט לה וכי הוי ראשה ורובה שרי וברייתא דקתני לא ימלא ויתן הוא עצמו לבהמתו הא תרצה אביי לקמן דלאו בבהמה העומדת ברה"ר וראשה ורובה בין הפסין עסקינן אלא בבהמה העומדת בבית וחלונות פתוחות לה לרה"ר ואיבוס מתוקן לה לפניה ברה"ר גבוה י' ורחב ד' דהוי רה"י ונותן לה שם תבן ומספוא מרה"י וראש האיבוס נכנס לבין הפסין ואשמעינן דלא ימלא מן הבור ויגביה הדלי על ראש האיבוס וילך דרך רה"ר ויטלטל הדלי על האיבוס לפני בהמה ואע"ג דקיי"ל עומד אדם ברה"ר ומטלטל ברה"י בהמוצא תפילין (לקמן עירובין ד' צח:). הכא אסור:

“Eis que foi dito a respeito dela etc.” — isto é: quando exigimos a cabeça e a maior parte do corpo dentro, é no caso em que não a segura; e, quando tem a cabeça e a maior parte do corpo dentro, é permitido. E a baraita que ensina “não deve encher e pôr” ele mesmo diante do seu animal, eis que Abaye a explicou adiante: que não tratamos de um animal que está no domínio público com a cabeça e a maior parte do corpo entre os passin, mas sim de um animal que está numa casa, com janelas abertas para o domínio público, e uma manjedoura preparada para ele à sua frente no domínio público, com dez tefachim de altura e quatro de largura, que é domínio privado; e a pessoa põe ali palha e forragem para ele, a partir do domínio privado da casa; e a extremidade da manjedoura entra entre os passin. E a baraita nos ensina que não deve encher água da cisterna, erguer o balde sobre a extremidade da manjedoura, ir pelo domínio público e mover o balde sobre a manjedoura até diante do animal. E, embora estabeleçamos a regra de que “uma pessoa fica no domínio público e move objetos no domínio privado”, no capítulo Hamotzi Tefilin (adiante, Eruvin 98b), aqui é proibido.

722Um decreto: talvez veja a manjedoura danificada
A guemará
גְּזֵרָה דִּילְמָא חָזֵי לֵיהּ לְאֵבוּס דִּמְקַלְקַל וְאָתֵי לְתַקּוֹנֵיהּ, וְדָרֵא לֵיהּ לְדַוְולָא בַּהֲדֵיהּ, וְקָא מַפֵּיק מֵרְשׁוּת הַיָּחִיד לִרְשׁוּת הָרַבִּים.

A proibição é um decreto, para que não aconteça que talvez ele veja que a manjedoura está danificada do lado do domínio público, e venha consertá-la, e leve o balde consigo, e assim tire um objeto do domínio privado para o domínio público. Por isso deve derramar a água na manjedoura, e ela chega ao animal por si mesma.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “dilma”
דילמא - כי בעי לאנוחי דלי על ראש האיבוס חזי ליה לאיבוס דמקלקל בראשו שברה"ר ומינשי ודרי ליה לדווליה בהדיה ואזיל לתקוניה וקא מפיק מבין הפסין לר"ה הלכך לא יניחנו ויטלטלנו אלא שופך על האיבוס והמים הולכין עד הבהמה מאליהן:

“Talvez” — quando quer pousar o balde sobre a extremidade da manjedoura, vê que a manjedoura está danificada na sua extremidade que está no domínio público, e esquece-se, e leva o seu balde consigo, e vai consertá-la, e assim tira o balde da área entre os passin para o domínio público. Por isso, não deve pousá-lo e movê-lo, mas derrama a água sobre a manjedoura, e a água vai até o animal por si mesma.

723Quem remove objetos de canto a canto
A guemará
וְכִי הַאי גַּוְונָא מִי מִיחַיַּיב? וְהָאָמַר רַב סָפְרָא אָמַר רַבִּי אַמֵּי אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: הַמְפַנֶּה חֲפָצָיו מִזָּוִית לְזָוִית, וְנִמְלַךְ עֲלֵיהֶן וְהוֹצִיאָן — פָּטוּר, שֶׁלֹּא הָיְתָה עֲקִירָה מִשָּׁעָה רִאשׁוֹנָה לְכָךְ.

A guemará pergunta: E num caso como este, acaso ele é culpado, para que seja preciso decretar? Mas não disse Rav Safra que disse Rabi Ami que disse Rabi Yochanan: Quem remove os seus objetos de um canto para outro canto da casa, e mudou de ideia a respeito deles enquanto os carregava, e os tirou para o domínio público, é isento, porque o levantamento, desde o primeiro momento, não foi para isso? Também aqui, ao erguer o balde, não pretendia levá-lo ao domínio público, e não há razão para tal decreto.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “vechi hai gavna mi michayav”
וכי האי גוונא מי מיחייב - כי עקר מרה"י אדעתא לאנוחיה ברה"י ואינשי ואפקיה לרה"ר מי מיחייב מדאורייתא דליגזור רבנן בדלא אפקיה משום דלא ליתי להכי:

“E num caso como este, acaso é culpado” — quando levantou o objeto no domínio privado com a intenção de pousá-lo no domínio privado, e se esqueceu e o tirou para o domínio público, acaso é culpado pela Torá, para que os Sábios decretem proibição quando não o tirou, a fim de que não chegue a isso?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “shelo haytá akirá”
שלא היתה עקירה כו' - ובשבת מלאכת מחשבת אסרה תורה שנתכוין לכך אלא ששגג בשבת כסבור שהיום חול או מלאכה זו מותרת אבל כי לא נתכוין פטור מחטאת וכיון דאי נמי אתי לידי כך ליכא חיובא דאורייתא לא איבעי לן למיגזר היתירא משום הא:

“Porque o levantamento não foi etc.” — e no Shabat a Torá proibiu apenas a melechet machashevet (trabalho com intenção): que tenha tido a intenção para isso, só que errou quanto ao Shabat, pensando que hoje é dia comum, ou que este trabalho é permitido; mas, quando não teve a intenção, é isento de uma oferta chatat (de pecado). E, uma vez que, mesmo que chegue a isso, não há culpa pela Torá, não devemos decretar proibição sobre algo permitido por causa disso.

724Ao trazer o balde de volta
A guemará
אֶלָּא: זִמְנִין דִּמְתַקֵּן לֵיהּ וַהֲדַר מְעַיֵּיל לֵיהּ, וְקָא מְעַיֵּיל מֵרְשׁוּת הָרַבִּים לִרְשׁוּת הַיָּחִיד.

A guemará responde: Antes, o decreto se deve a que às vezes ele a conserta, a manjedoura, e depois traz o balde de volta para dentro, e assim introduz um objeto do domínio público para o domínio privado, e desta vez o levantou desde o início com essa intenção.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “vahadar meayel lei”
והדר מעייל ליה - לדוולא לאיבוס לבתר דתקניה וקא עקר ליה מר"ה אדעתא לאנוחי ברה"י:

“E depois o traz de volta para dentro” — o balde, para a manjedoura, depois de tê-la consertado; e o levanta no domínio público com a intenção de pousá-lo no domínio privado.

Outra versão da discussão · אִיכָּא דְּאָמְרִי

725Basta a cabeça e a maior parte?
A guemará
אִיכָּא דְּאָמְרִי: גַּבֵּי אָדָם הָא קָאָמְרִינַן דְּסַגִּי לֵיהּ בְּרֹאשׁוֹ וְרוּבּוֹ. גַּבֵּי פָרָה מִי סַגִּי לַהּ בְּרֹאשָׁהּ וְרוּבָּהּ, אוֹ לָא?

Há os que dizem outra versão desta discussão: Quanto a uma pessoa, eis que dissemos que lhe basta ter a cabeça e a maior parte do corpo dentro do domínio de onde bebe. Quanto a uma vaca, acaso lhe basta ter a cabeça e a maior parte do corpo dentro, ou não, e talvez seja preciso que esteja inteira ali?

726Quando segura o recipiente mas não a vaca
A guemará
הֵיכָא דְּנָקֵיט מָנָא וְנָקֵיט לַהּ — לָא תִּיבְּעֵי לָךְ דְּסַגִּי לַהּ בְּרֹאשָׁהּ וְרוּבָּהּ, אֶלָּא כִּי תִּיבְּעֵי לָךְ דְּנָקֵיט מָנָא וְלָא נָקֵיט לַהּ, מַאי?

A guemará precisa a pergunta: No caso em que segura o recipiente e também a segura, não precisas perguntar, pois certamente lhe basta ter a cabeça e a maior parte do corpo dentro. Mas quando hás de perguntar? No caso em que segura o recipiente e não a segura: qual é a lei?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “lo tibaei lach desagi”
לא תיבעי לך דסגי בראשה ורובה - דהא מתני' היא בדנקיט מנא דאי לאו דנקיט מנא קמיה למה הצריכו ראשה ורובה בפנים אבל הא מספקא לן דדילמא מתני' בדנקיט לה הוא:

“Não precisas perguntar, pois lhe basta a cabeça e a maior parte do corpo” — pois a mishná trata do caso em que segura o recipiente; pois, se não segurasse o recipiente diante dela, para que exigiriam a cabeça e a maior parte do corpo dentro? Mas isto nos é duvidoso: pois talvez a mishná trate do caso em que também a segura.

727Já o aprendestes na mishná
A guemará
אֲמַר לֵיהּ, תְּנֵיתוּהָ: וּבִלְבַד שֶׁתְּהֵא פָּרָה רֹאשָׁהּ וְרוּבָּהּ מִבִּפְנִים וְשׁוֹתָה. מַאי לָאו דְּנָקֵיט מָנָא וְלָא נָקֵיט לַהּ: לָא, דְּנָקֵיט מָנָא וְנָקֵיט לַהּ.

Disse-lhe: Já o aprendestes na mishná: É permitido aproximar as tábuas do poço, “contanto que a vaca possa ficar com a cabeça e a maior parte do corpo dentro e beber” (Mishná Eruvin 2:2). Acaso não se refere também ao caso em que segura o recipiente e não a segura? A guemará rejeita: Não, refere-se ao caso em que segura o recipiente e também a segura.

728Assim também é razoável
A guemará
וְהָכִי נָמֵי מִסְתַּבְּרָא, דְּאִי נָקֵיט מָנָא וְלָא נָקֵיט לַהּ, מִי שְׁרֵי? וְהָתַנְיָא: לֹא יְמַלֵּא אָדָם מַיִם וְיִתֵּן לִפְנֵי בְּהֶמְתּוֹ, אֲבָל מְמַלֵּא וְשׁוֹפֵךְ וְהִיא שׁוֹתָה מֵאֵילֶיהָ!

A guemará comenta: E assim também é razoável, pois, se segura o recipiente e não a segura, acaso é permitido dar-lhe de beber assim? Mas não foi ensinado numa baraita: “Uma pessoa não deve encher um balde de água e pô-lo diante do seu animal no Shabat; mas enche e derrama a água num cocho, e ele bebe por si mesmo”?

729A explicação de Abaye
A guemará
הָא אִיתְּמַר עֲלַהּ אָמַר אַבָּיֵי: הָכָא בְּאֵבוּס הָעוֹמֵד בִּרְשׁוּת הָרַבִּים גָּבוֹהַּ עֲשָׂרָה טְפָחִים וְרוֹחַב אַרְבָּעָה, וְרֹאשׁוֹ נִכְנָס לְבֵין הַפַּסִּין, דְּזִמְנִין דְּחָזֵי לֵיהּ לְאֵבוּס דִּמְקַלְקַל וְאָתֵי לְתַקּוֹנֵיהּ, וְדָרֵי לֵיהּ לְדַוְולָא בַּהֲדֵיהּ, וְקָא מַפֵּיק מֵרְשׁוּת הַיָּחִיד לִרְשׁוּת הָרַבִּים.

A guemará refuta: Eis que foi dito a respeito dela: Disse Abaye: Aqui tratamos de uma manjedoura que está no domínio público, com dez tefachim de altura e quatro de largura, sendo portanto um domínio privado, e a sua extremidade entra entre os passin, e o animal está do outro lado; e a proibição é um decreto, pois às vezes ele vê que a manjedoura está danificada, e vem consertá-la, e leva o balde consigo, e assim tira um objeto do domínio privado para o domínio público.

730Acaso seria culpado?
A guemará
וְכִי הַאי גַּוְונָא מִי מִיחַיַּיב? וְהָאָמַר רַב סָפְרָא אָמַר רַבִּי אַמֵּי אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: הַמְפַנֶּה חֲפָצָיו מִזָּוִית לְזָוִית וְנִמְלַךְ עֲלֵיהֶן וְהוֹצִיאָן — פָּטוּר, שֶׁלֹּא הָיְתָה עֲקִירָה מִשָּׁעָה רִאשׁוֹנָה לְכָךְ!

A guemará pergunta: E num caso como este, acaso ele é culpado? Mas não disse Rav Safra que disse Rabi Ami que disse Rabi Yochanan: Quem remove os seus objetos de um canto para outro canto da casa, e mudou de ideia a respeito deles enquanto os carregava, e os tirou para o domínio público, é isento, porque o levantamento, desde o primeiro momento, não foi para isso? Também aqui não haveria culpa, e não há razão para tal decreto.

731Ao trazer o balde de volta
A guemará
אֶלָּא: זִמְנִין דִּמְתַקֵּן לֵיהּ וַהֲדַר מְעַיֵּיל לֵיהּ, וְקָא מְעַיֵּיל לֵיהּ מֵרְשׁוּת הָרַבִּים לִרְשׁוּת הַיָּחִיד.

A guemará responde: Antes, o decreto se deve a que às vezes ele a conserta, a manjedoura, e depois traz o balde de volta para dentro, e assim o introduz do domínio público para o domínio privado. De todo modo, desta baraita não se traz prova.

O camelo cevado à força · אוֹבְסִין אוֹתוֹ מִבִּפְנִים

732O camelo cevado à força
A guemará
תָּא שְׁמַע: גָּמָל שֶׁרֹאשׁוֹ וְרוּבּוֹ מִבִּפְנִים אוֹבְסִין אוֹתוֹ מִבִּפְנִים, וְהָא אִיבּוּס כְּמַאן דְּנָקֵיט מָנָא וְנָקֵיט לַהּ דָּמְיָא, וְקָא בָּעִינַן רֹאשָׁהּ וְרוּבָּהּ!

A guemará traz outra prova: Vem e ouve o que foi ensinado numa baraita: “Um camelo que tem a cabeça e a maior parte do corpo dentro do domínio privado — pode-se cevá-lo à força de dentro.” Ora, cevar à força é semelhante a quem segura o recipiente e também a segura, pois não se pode cevar um animal sem segurá-lo pelo pescoço, e ainda assim exigimos que tenha a cabeça e a maior parte do corpo dentro!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ovsin otah mibifnim”
אובסין אותה מבפנים - מפרש בפ' מי שהחשיך (שבת ד' קנה:) שתוחב לה מספוא הרבה על כרחה בבית הבליעה יותר מכדי אכילתה עד שנעשה כאיבוס במעיה כשיוציא למדבר ומתיירא שלא תמצא מאכל:

“Pode-se cevá-lo à força de dentro” — explica-se no capítulo Mi Shehechshich (Shabat 155b): que lhe enfia muita forragem à força pela garganta, mais do que a medida da sua comida, até que se forma como que uma manjedoura nas suas entranhas, quando o leva para o deserto e teme que não encontre alimento.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “vehá ibus”
והא איבוס כמאן דנקיט מנא ונקיט לה הוא - שאם אינו אוחז בצוארו אינו יכול לתחוב וקא בעי ראשו ורובו ותיפשוט בעיא קמייתא דלישנא קמא:

“Ora, cevar à força é como quem segura o recipiente e a segura” — pois, se não o segura pelo pescoço, não pode enfiar a comida; e ainda assim exige a cabeça e a maior parte do corpo dentro. E resolva-se assim a primeira dúvida, da primeira versão.

733O camelo é diferente
A guemará
אָמַר רַב אַחָא בַּר רַב הוּנָא אָמַר רַב שֵׁשֶׁת: שָׁאנֵי גָּמָל, הוֹאִיל וְצַוָּארוֹ אָרוֹךְ.

Disse Rav Acha, filho de Rav Huna, que disse Rav Sheshet: O camelo é diferente, uma vez que o seu pescoço é longo, e poderia estendê-lo para o domínio público, levando consigo o recipiente; mas, quanto aos outros animais, não há razão para tal rigor.

734E o animal cevado à força?
A guemará
תָּא שְׁמַע: בְּהֵמָה שֶׁרֹאשָׁהּ וְרוּבָּהּ בִּפְנִים אוֹבְסִין אוֹתָהּ מִבִּפְנִים. וְהָא אֵבוּס כְּמַאן דְּנָקֵיט מָנָא וְנָקֵיט לַהּ, וְקָא בָּעִינַן רֹאשׁוֹ וְרוּבּוֹ! מַאי ׳בְּהֵמָה׳ נָמֵי דְּקָתָנֵי — גָּמָל.

A guemará traz mais uma prova: Vem e ouve o que foi ensinado em outra baraita: “Um animal que tem a cabeça e a maior parte do corpo dentro do domínio privado — pode-se cevá-lo à força de dentro.” Ora, cevar à força é semelhante a quem segura o recipiente e também o segura, e ainda assim exigimos que tenha a cabeça e a maior parte do corpo dentro! A guemará refuta: O que é o “animal” que a baraita ensina? Também é um camelo.

Nota

O hebraico traz aqui אֵבוּס (“manjedoura”), e não אִיבּוּס (“cevar à força”), como no bloco 732; o contexto mostra que se trata do mesmo ato de cevar o animal à força, e assim o entende Steinsaltz.

735“Animal” e “camelo”
A guemará
וְהָתַנְיָא ׳בְּהֵמָה׳ וְהָתַנְיָא ׳גָּמָל׳!

A guemará objeta: Mas não foi ensinado numa baraita “animal”, e não foi ensinado na outra “camelo”? Isto indica que a lei vale não só para o camelo, mas também para os demais animais.

736Acaso foram ensinadas lado a lado?
A guemará
מִידֵּי גַּבֵּי הֲדָדֵי תַּנְיָא?! תַּנְיָא נָמֵי הָכִי: רַבִּי אֶלְעָזָר אוֹסֵר בְּגָמָל, הוֹאִיל וְצַוָּארוֹ אָרוֹךְ.

A guemará responde: Acaso foram ensinadas uma ao lado da outra?! Se estivessem juntas, não se usariam termos diferentes para a mesma lei; mas, vindo de fontes diferentes, um dos tannaim pode ter chamado o camelo pelo nome genérico de animal. Também foi ensinado assim numa baraita: Rabi Elazar proíbe isto no caso do camelo, uma vez que o seu pescoço é longo.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “midei gabei hadadei”
מידי גבי הדדי תני להו - דתנא בהמה לא תנא גמל ומאי בהמה גמל: איתמר נמי לא גרסי':

“Acaso as ensinou uma ao lado da outra” — para se dizer que quem ensinou “animal” não ensinou “camelo”? Não; e o que é “animal”? Camelo. Quanto às palavras itmar nami (também foi dito), não as lemos.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “tzavaro aroch”
צוארו ארוך - ואע"ג דרוב גופו מבפנים אם יתקפנו ויעקר צוארו יגיע עד רשות הרבים:

“O seu pescoço é longo” — e, embora a maior parte do seu corpo esteja dentro, se o camelo o dominar e estender o pescoço, chegará até o domínio público.

Nota

Rashi rejeita a leitura “também foi dito” (אִיתְּמַר נָמֵי); o texto que aqui se reproduz já traz “também foi ensinado assim” (תַּנְיָא נָמֵי הָכִי), conforme a sua leitura. O hebraico traz “Rabi Elazar”; a tradução de Steinsaltz lê “Rabi Eliezer”.

Para quem foram permitidos os passin dos poços · לֹא הוּתְּרוּ פַּסֵּי בֵירָאוֹת

737Para quem foram permitidos os passin dos poços
A guemará
אָמַר רַבִּי יִצְחָק בַּר אַדָּא: לֹא הוּתְּרוּ פַּסֵּי בֵירָאוֹת אֶלָּא לְעוֹלֵי רְגָלִים בִּלְבַד. וְהָתַנְיָא: לֹא הוּתְּרוּ פַּסֵּי בֵירָאוֹת אֶלָּא לְגַבֵּי בְהֵמָה בִּלְבַד! מַאי בְּהֵמָה — בֶּהֱמַת עוֹלֵי רְגָלִים. אֲבָל אָדָם

Disse Rabi Yitzchak, filho de Adda: Os passin dos poços não foram permitidos senão para os peregrinos que sobem a Jerusalém nas festas, somente. A guemará objeta: Mas não foi ensinado numa baraita: “Os passin dos poços não foram permitidos senão para o animal, somente”? A guemará responde: O que é “animal”? O animal dos peregrinos. Mas uma pessoa…

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “behemat olei regalim”
בהמת עולי רגלים - אבל אדם אפי' עולי רגלים לא הותר לדלות ולשתות שיכול ליכנס לפנים ולשתות:

“O animal dos peregrinos” — mas a uma pessoa, mesmo aos peregrinos, não foi permitido tirar água e beber, pois pode entrar para dentro do cercado e beber.

O daf termina aqui: a guemará conclui a citação da mishná sobre quem bebe entre dois domínios, “e assim também no lagar”, e pergunta se a vaca que bebe precisa ter a cabeça e a maior parte do corpo dentro, em duas versões, discutindo a baraita do balde posto diante do animal, a explicação de Abaye sobre a manjedoura no domínio público e o ensino de Rabi Yochanan sobre quem remove objetos de canto a canto; seguem-se as baraitot do camelo e do animal cevados à força, e o ensino de Rabi Yitzchak, filho de Adda, sobre para quem foram permitidos os passin dos poços. A guemará prossegue em Eruvin 21a.