A guemará completa a citação da mishná sobre quem bebe entre o domínio público e o domínio privado: “e assim também no lagar”. Pergunta-se então se a vaca que bebe precisa ter a cabeça e a maior parte do corpo dentro, distinguindo entre quem segura só o recipiente e quem segura também o animal; a prova da mishná dos passin é rejeitada, e a baraita que proíbe encher água e pô-la diante do animal é explicada por Abaye como o caso da manjedoura no domínio público, com um decreto cuja razão se discute à luz do ensino de Rabi Yochanan sobre quem remove objetos de canto a canto. A mesma discussão é trazida numa segunda versão. Seguem-se as baraitot do camelo e do animal cevados à força, com a resposta de Rav Sheshet de que o camelo é diferente, por ter o pescoço longo, e, por fim, o ensino de Rabi Yitzchak, filho de Adda: os passin dos poços só foram permitidos para os peregrinos, isto é, para os seus animais.
E a mesma mishná prossegue: “E assim também no lagar” (Mishná Eruvin 10:6), isto é, quanto ao dízimo: enquanto a pessoa tem a cabeça e a maior parte do corpo dentro do lagar, pode beber do vinho sem separar o dízimo, pois esse beber é considerado ocasional.
“E assim também no lagar” — explica-se no último capítulo (Eruvin 99b) que se refere ao dízimo: pois, enquanto o vinho está no lagar, bebe-se junto ao lagar sem separar o dízimo; mas levá-lo para fora do lagar é um beber fixo, que obriga ao dízimo. E junto ao lagar, mesmo que o misture com água quente, o que em outro lugar o tornaria fixo, ali não é considerado fixo.
A guemará esclarece: Quanto a uma pessoa, eis que a mishná disse que é necessário que tenha a cabeça e a maior parte do corpo dentro do domínio de onde bebe. Quanto a uma vaca que está num domínio e bebe de outro, acaso exigimos dela que tenha a cabeça e a maior parte do corpo dentro, ou não?
“Quanto a um animal” — quem dá de beber ao seu animal no domínio privado, estando ele no domínio público, qual é a lei?
A guemará precisa a pergunta: Em todo caso em que a pessoa segura o recipiente em que a vaca bebe e não a segura, não precisas perguntar, pois certamente é necessário que tenha a cabeça e a maior parte do corpo dentro, porque ela poderia recuar e arrastar o recipiente consigo. Quando hás de perguntar? No caso em que segura o recipiente e também a segura: qual é a lei?
“Em que segura o recipiente” — no qual ela bebe.
“E não segura” — o pescoço dela pelo cabresto, de modo que ela não possa virar a cabeça para fora.
“Não precisas perguntar” — pois certamente tememos que ela vire a cabeça e leve o recipiente atrás de si para o outro domínio.
Disse-lhe: Já o aprendestes na mishná: É permitido aproximar as tábuas do poço, “contanto que a vaca possa ficar com a cabeça e a maior parte do corpo dentro e beber” (Mishná Eruvin 2:2). Acaso não se refere também ao caso em que a segura e segura o recipiente? A guemará rejeita: Não, refere-se ao caso em que segura o recipiente e não a segura.
A guemará objeta: E quando segura o recipiente e não a segura, acaso é permitido dar-lhe de beber assim? Mas não foi ensinado numa baraita: “Uma pessoa não deve encher um balde de água e pô-lo no Shabat diante do seu animal; mas enche e derrama a água num cocho, e ele bebe por si mesmo”? Vê-se, pois, que é proibido quando não segura o animal.
“E quando não a segura, acaso é permitido” — segurar o recipiente nos passin dos poços, mesmo que estejam feitos conforme a regra, de modo que a vaca tenha a cabeça e a maior parte do corpo dentro?
“Uma pessoa não deve encher água e pôr diante do seu animal” — e segurar o recipiente na mão enquanto ele bebe. E esta baraita está adiante, numa baraita da nossa discussão, a respeito dos passin dos poços. E forçosamente se trata do caso em que não a segura; pois, se fosse no caso em que a segura e ainda assim fosse proibido, para que precisaram exigir a cabeça e a maior parte do corpo dentro? Antes, é evidente que se trata do caso em que não a segura; e a mishná, que permite, trata do caso em que a segura, e ensina que deve ter a cabeça e a maior parte do corpo dentro.
A guemará refuta: Eis que foi dito a respeito dela: Disse Abaye: Aqui tratamos de uma manjedoura que está no domínio público, com dez tefachim de altura e quatro de largura, sendo portanto um domínio privado, e uma das suas extremidades entra entre os passin, enquanto o animal está numa casa cujas janelas se abrem para o domínio público.
“Eis que foi dito a respeito dela etc.” — isto é: quando exigimos a cabeça e a maior parte do corpo dentro, é no caso em que não a segura; e, quando tem a cabeça e a maior parte do corpo dentro, é permitido. E a baraita que ensina “não deve encher e pôr” ele mesmo diante do seu animal, eis que Abaye a explicou adiante: que não tratamos de um animal que está no domínio público com a cabeça e a maior parte do corpo entre os passin, mas sim de um animal que está numa casa, com janelas abertas para o domínio público, e uma manjedoura preparada para ele à sua frente no domínio público, com dez tefachim de altura e quatro de largura, que é domínio privado; e a pessoa põe ali palha e forragem para ele, a partir do domínio privado da casa; e a extremidade da manjedoura entra entre os passin. E a baraita nos ensina que não deve encher água da cisterna, erguer o balde sobre a extremidade da manjedoura, ir pelo domínio público e mover o balde sobre a manjedoura até diante do animal. E, embora estabeleçamos a regra de que “uma pessoa fica no domínio público e move objetos no domínio privado”, no capítulo Hamotzi Tefilin (adiante, Eruvin 98b), aqui é proibido.
A proibição é um decreto, para que não aconteça que talvez ele veja que a manjedoura está danificada do lado do domínio público, e venha consertá-la, e leve o balde consigo, e assim tire um objeto do domínio privado para o domínio público. Por isso deve derramar a água na manjedoura, e ela chega ao animal por si mesma.
“Talvez” — quando quer pousar o balde sobre a extremidade da manjedoura, vê que a manjedoura está danificada na sua extremidade que está no domínio público, e esquece-se, e leva o seu balde consigo, e vai consertá-la, e assim tira o balde da área entre os passin para o domínio público. Por isso, não deve pousá-lo e movê-lo, mas derrama a água sobre a manjedoura, e a água vai até o animal por si mesma.
A guemará pergunta: E num caso como este, acaso ele é culpado, para que seja preciso decretar? Mas não disse Rav Safra que disse Rabi Ami que disse Rabi Yochanan: Quem remove os seus objetos de um canto para outro canto da casa, e mudou de ideia a respeito deles enquanto os carregava, e os tirou para o domínio público, é isento, porque o levantamento, desde o primeiro momento, não foi para isso? Também aqui, ao erguer o balde, não pretendia levá-lo ao domínio público, e não há razão para tal decreto.
“E num caso como este, acaso é culpado” — quando levantou o objeto no domínio privado com a intenção de pousá-lo no domínio privado, e se esqueceu e o tirou para o domínio público, acaso é culpado pela Torá, para que os Sábios decretem proibição quando não o tirou, a fim de que não chegue a isso?
“Porque o levantamento não foi etc.” — e no Shabat a Torá proibiu apenas a melechet machashevet (trabalho com intenção): que tenha tido a intenção para isso, só que errou quanto ao Shabat, pensando que hoje é dia comum, ou que este trabalho é permitido; mas, quando não teve a intenção, é isento de uma oferta chatat (de pecado). E, uma vez que, mesmo que chegue a isso, não há culpa pela Torá, não devemos decretar proibição sobre algo permitido por causa disso.
A guemará responde: Antes, o decreto se deve a que às vezes ele a conserta, a manjedoura, e depois traz o balde de volta para dentro, e assim introduz um objeto do domínio público para o domínio privado, e desta vez o levantou desde o início com essa intenção.
“E depois o traz de volta para dentro” — o balde, para a manjedoura, depois de tê-la consertado; e o levanta no domínio público com a intenção de pousá-lo no domínio privado.
Há os que dizem outra versão desta discussão: Quanto a uma pessoa, eis que dissemos que lhe basta ter a cabeça e a maior parte do corpo dentro do domínio de onde bebe. Quanto a uma vaca, acaso lhe basta ter a cabeça e a maior parte do corpo dentro, ou não, e talvez seja preciso que esteja inteira ali?
A guemará precisa a pergunta: No caso em que segura o recipiente e também a segura, não precisas perguntar, pois certamente lhe basta ter a cabeça e a maior parte do corpo dentro. Mas quando hás de perguntar? No caso em que segura o recipiente e não a segura: qual é a lei?
“Não precisas perguntar, pois lhe basta a cabeça e a maior parte do corpo” — pois a mishná trata do caso em que segura o recipiente; pois, se não segurasse o recipiente diante dela, para que exigiriam a cabeça e a maior parte do corpo dentro? Mas isto nos é duvidoso: pois talvez a mishná trate do caso em que também a segura.
Disse-lhe: Já o aprendestes na mishná: É permitido aproximar as tábuas do poço, “contanto que a vaca possa ficar com a cabeça e a maior parte do corpo dentro e beber” (Mishná Eruvin 2:2). Acaso não se refere também ao caso em que segura o recipiente e não a segura? A guemará rejeita: Não, refere-se ao caso em que segura o recipiente e também a segura.
A guemará comenta: E assim também é razoável, pois, se segura o recipiente e não a segura, acaso é permitido dar-lhe de beber assim? Mas não foi ensinado numa baraita: “Uma pessoa não deve encher um balde de água e pô-lo diante do seu animal no Shabat; mas enche e derrama a água num cocho, e ele bebe por si mesmo”?
A guemará refuta: Eis que foi dito a respeito dela: Disse Abaye: Aqui tratamos de uma manjedoura que está no domínio público, com dez tefachim de altura e quatro de largura, sendo portanto um domínio privado, e a sua extremidade entra entre os passin, e o animal está do outro lado; e a proibição é um decreto, pois às vezes ele vê que a manjedoura está danificada, e vem consertá-la, e leva o balde consigo, e assim tira um objeto do domínio privado para o domínio público.
A guemará pergunta: E num caso como este, acaso ele é culpado? Mas não disse Rav Safra que disse Rabi Ami que disse Rabi Yochanan: Quem remove os seus objetos de um canto para outro canto da casa, e mudou de ideia a respeito deles enquanto os carregava, e os tirou para o domínio público, é isento, porque o levantamento, desde o primeiro momento, não foi para isso? Também aqui não haveria culpa, e não há razão para tal decreto.
A guemará responde: Antes, o decreto se deve a que às vezes ele a conserta, a manjedoura, e depois traz o balde de volta para dentro, e assim o introduz do domínio público para o domínio privado. De todo modo, desta baraita não se traz prova.
A guemará traz outra prova: Vem e ouve o que foi ensinado numa baraita: “Um camelo que tem a cabeça e a maior parte do corpo dentro do domínio privado — pode-se cevá-lo à força de dentro.” Ora, cevar à força é semelhante a quem segura o recipiente e também a segura, pois não se pode cevar um animal sem segurá-lo pelo pescoço, e ainda assim exigimos que tenha a cabeça e a maior parte do corpo dentro!
“Pode-se cevá-lo à força de dentro” — explica-se no capítulo Mi Shehechshich (Shabat 155b): que lhe enfia muita forragem à força pela garganta, mais do que a medida da sua comida, até que se forma como que uma manjedoura nas suas entranhas, quando o leva para o deserto e teme que não encontre alimento.
“Ora, cevar à força é como quem segura o recipiente e a segura” — pois, se não o segura pelo pescoço, não pode enfiar a comida; e ainda assim exige a cabeça e a maior parte do corpo dentro. E resolva-se assim a primeira dúvida, da primeira versão.
Disse Rav Acha, filho de Rav Huna, que disse Rav Sheshet: O camelo é diferente, uma vez que o seu pescoço é longo, e poderia estendê-lo para o domínio público, levando consigo o recipiente; mas, quanto aos outros animais, não há razão para tal rigor.
A guemará traz mais uma prova: Vem e ouve o que foi ensinado em outra baraita: “Um animal que tem a cabeça e a maior parte do corpo dentro do domínio privado — pode-se cevá-lo à força de dentro.” Ora, cevar à força é semelhante a quem segura o recipiente e também o segura, e ainda assim exigimos que tenha a cabeça e a maior parte do corpo dentro! A guemará refuta: O que é o “animal” que a baraita ensina? Também é um camelo.
O hebraico traz aqui אֵבוּס (“manjedoura”), e não אִיבּוּס (“cevar à força”), como no bloco 732; o contexto mostra que se trata do mesmo ato de cevar o animal à força, e assim o entende Steinsaltz.
A guemará objeta: Mas não foi ensinado numa baraita “animal”, e não foi ensinado na outra “camelo”? Isto indica que a lei vale não só para o camelo, mas também para os demais animais.
A guemará responde: Acaso foram ensinadas uma ao lado da outra?! Se estivessem juntas, não se usariam termos diferentes para a mesma lei; mas, vindo de fontes diferentes, um dos tannaim pode ter chamado o camelo pelo nome genérico de animal. Também foi ensinado assim numa baraita: Rabi Elazar proíbe isto no caso do camelo, uma vez que o seu pescoço é longo.
“Acaso as ensinou uma ao lado da outra” — para se dizer que quem ensinou “animal” não ensinou “camelo”? Não; e o que é “animal”? Camelo. Quanto às palavras itmar nami (também foi dito), não as lemos.
“O seu pescoço é longo” — e, embora a maior parte do seu corpo esteja dentro, se o camelo o dominar e estender o pescoço, chegará até o domínio público.
Rashi rejeita a leitura “também foi dito” (אִיתְּמַר נָמֵי); o texto que aqui se reproduz já traz “também foi ensinado assim” (תַּנְיָא נָמֵי הָכִי), conforme a sua leitura. O hebraico traz “Rabi Elazar”; a tradução de Steinsaltz lê “Rabi Eliezer”.
Disse Rabi Yitzchak, filho de Adda: Os passin dos poços não foram permitidos senão para os peregrinos que sobem a Jerusalém nas festas, somente. A guemará objeta: Mas não foi ensinado numa baraita: “Os passin dos poços não foram permitidos senão para o animal, somente”? A guemará responde: O que é “animal”? O animal dos peregrinos. Mas uma pessoa…
“O animal dos peregrinos” — mas a uma pessoa, mesmo aos peregrinos, não foi permitido tirar água e beber, pois pode entrar para dentro do cercado e beber.