Talmud Bavli · Massechet Eruvin · Perek Alef (Mavoi)
לֶחִי הָעוֹמֵד מֵאֵלָיו

O lechi que está por si mesmo; a sucá entre as árvores, o monte e a cavidade; divisória ou sinal visível; Rav e a tamareira; a quinta mishná: de tudo se fazem lechis

Eruvin 15a — continuação da guemará sobre a quarta mishná e início da quinta mishná · Perek Alef (Mavoi, Eruvin 2a:1-17b:14) · a mishná prossegue em 15b

A guemará traz a disputa de Abaye e Rava sobre o lechi que está por si mesmo, isto é, que não foi colocado ali para tornar permitido o mavoi: se não se apoiaram nele desde a véspera do Shabat, todos concordam que não é lechi; se se apoiaram, Abaye diz que é lechi, e Rava, que não é. A guemará supõe que a disputa vale também para as divisórias e traz provas: a sucá entre as árvores, a árvore, a cerca e a barreira de caniços julgadas como deyomad, e a árvore que pende sobre a terra, com a palavra de Rav Huna, filho de Rav Yehoshua, sobre a moradia cujo uso é para o ar, que só é permitida em beit sata’im. Como o monte e a cavidade da baraita existem desde sempre, a guemará conclui que quanto às divisórias todos concordam, e que a disputa é só sobre o lechi: para Abaye, o lechi vale como divisória; para Rava, como sinal visível, que precisa ser feito com as mãos. Seguem as provas das pedras que sobressaem da cerca e da parede recuada de Rabi Chiya, o caso de Rav, que não se apoiou na tamareira porque não se apoiaram nela desde ontem, e o balcão da casa de Bar Chavu, sobre o qual Abaye e Rava divergiram todos os seus anos. Começa a quinta mishná do perek: de tudo se fazem lechis, mesmo de um ser vivo, e Rabi Meir proíbe; e o ser vivo transmite impureza como golel.

O lechi que está por si mesmo · לֶחִי הָעוֹמֵד מֵאֵלָיו

467O lechi que está por si mesmo
Abaye e Rava
אִיתְּמַר: לֶחִי הָעוֹמֵד מֵאֵלָיו, אַבָּיֵי אָמַר: הָוֵי לֶחִי, רָבָא אָמַר: לָא הָוֵי לֶחִי.

Foi dito, numa disputa de amoraítas, a respeito de um lechi (poste lateral) que está por si mesmo, isto é, que não foi colocado ali para tornar permitido carregar no mavoi (beco sem saída para o qual se abrem pátios): Abaye disse: É um lechi válido. Rava disse: Não é um lechi válido.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ha’omed me’elav”
העומד מאליו - שלא הוקבע שם לשם תיקון מבוי דלא הזמינוהו לכך:

“Que está por si mesmo” — que não foi fixado ali para a correção do mavoi, pois não o destinaram para isso, e já estava ali por outro motivo.

468Quando se apoiaram nele desde ontem
A guemará
הֵיכָא דְּלָא סָמְכִינַן עֲלֵיהּ מֵאֶתְמוֹל, כּוּלֵּי עָלְמָא לָא פְּלִיגִי דְּלָא הָוֵי לֶחִי. כִּי פְּלִיגִי הֵיכָא דְּסָמְכִינַן עֲלֵיהּ מֵאֶתְמוֹל. אַבָּיֵי אָמַר: הָוֵי לֶחִי, דְּהָא סָמְכִינַן עֲלֵיהּ מֵאֶתְמוֹל. רָבָא אָמַר: לָא הָוֵי לֶחִי, כֵּיוָן דְּמֵעִיקָּרָא לָאו אַדַּעְתֵּיהּ דְּהָכִי עֲבִידִי, לָא הָוֵי לֶחִי.

A guemará delimita a disputa: Onde não nos apoiamos nele desde ontem, isto é, desde a véspera do Shabat, todos concordam que não é um lechi válido. Quando divergem, é no caso em que nos apoiamos nele desde ontem. Abaye disse: É um lechi válido, pois nos apoiamos nele desde ontem. Rava disse: Não é um lechi válido; uma vez que desde o princípio não foi feito com essa intenção, não é um lechi válido.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “heicha dela samchinan aleh me’etmol”
היכא דלא סמכינן עליה מאתמול - שהיה שם לחי אחר ונפל בשבת:

“Onde não nos apoiamos nele desde ontem” — que havia ali outro lechi, e este caiu no Shabat, de modo que só então se quis contar com o que está por si mesmo.

469Também quanto à divisória?
A guemará
קָא סָלְקָא דַּעְתָּךְ כִּי הֵיכִי דִּפְלִיגִי בְּלֶחִי פְּלִיגִי נָמֵי בִּמְחִיצָה.

A guemará observa: Ocorre-te pensar que, assim como divergem quanto ao lechi, divergem também quanto à divisória, isto é, se uma divisória que não foi erguida para esse fim é considerada divisória.

Divisórias que não foram feitas para isso · שֶׁנְּטָעָן מִתְּחִילָּה לְכָךְ

470A sucá entre as árvores
A guemará
תָּא שְׁמַע: הָעוֹשֶׂה סוּכָּתוֹ בֵּין הָאִילָנוֹת וְאִילָנוֹת דְּפָנוֹת לָהּ — כְּשֵׁירָה. הָכָא בְּמַאי עָסְקִינַן, שֶׁנְּטָעָן מִתְּחִילָּה לְכָךְ. אִי הָכִי פְּשִׁיטָא! מַהוּ דְּתֵימָא: לִיגְזוֹר דִּילְמָא אָתֵי לְאִישְׁתַּמּוֹשֵׁי בְּאִילָן, קָא מַשְׁמַע לַן.

A guemará traz uma prova: Vem e ouve o que aprendemos numa mishná: “Quem faz a sua sucá entre as árvores, e as árvores lhe servem de paredes, ela é válida” (Mishná Sucá 2:4). Vê-se, pois, que as árvores valem como divisórias, ainda que não tenham sido plantadas para isso. A guemará responde: Aqui, de que tratamos? De um caso em que as plantou desde o princípio para isso. A guemará pergunta: Se é assim, é óbvio! A guemará responde: Poderias dizer: Decretemos a proibição, pois talvez venha a usar a árvore no dia de festa. Por isso nos ensina que não se fez esse decreto.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “le’ishtamushei be’ilan”
לאישתמושי באילן - ויעלה ויתלוש ביום טוב:

“Usar a árvore” — e subirá nela e arrancará algo no dia de festa.

471Julgado como deyomad
Baraita
תָּא שְׁמַע: הָיָה שָׁם אִילָן אוֹ גָּדֵר אוֹ חִיצַת הַקָּנִים — נִידּוֹן מִשּׁוּם דְּיוֹמָד!

A guemará traz outra prova: Vem e ouve o que se ensinou numa baraita (ensinamento dos tanaítas não incluído na Mishná): Se havia ali, junto ao poço, uma árvore, ou uma cerca, ou uma barreira de caniços, é julgado como deyomad (coluna angular dupla). Vê-se, pois, que também uma divisória que não foi feita para esse fim é válida.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “hayá sham”
היה שם - בפסי ביראות תניא בפרק שני:

“Se havia ali” — trata-se dos passei biraot (as tábuas em volta dos poços); ensina-se numa baraita no segundo perek.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “chitzat hakanim”
חיצת הקנים - קנים מחוברים. חיצת שהיו נטועים כסדר מחיצה:

“Uma barreira de caniços” — caniços unidos uns aos outros. Chama-se “barreira” porque estavam plantados em fila, à maneira de divisória.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “deyomad”
דיומד - מפרש בפ' שני דיו עמודין עמוד אחד נראה כשנים שעשאו כמרזב ונוטה אחד ממחיצותיו לדרום ואחד למערב דכי עביד ד' דיומדין לד' הפיאות יש לכל מחיצה ב' אמות עומד אמה מכאן ואמה מכאן:

“Deyomad” — explica-se no segundo perek: vem de “dyo amudin” (duas colunas), uma coluna que parece duas, que se fez como uma calha, e uma das suas paredes se inclina para o sul, e a outra, para o oeste. Pois, quando se fazem quatro deyomdin (colunas angulares duplas) para os quatro cantos, cada divisória tem duas amot em pé: uma amá de um lado e uma amá do outro.

Nota

Na edição de Vilna, Rashi acompanha o comentário sobre o deyomad com um pequeno desenho da coluna angular, que aqui não se reproduz.

472Caniço a caniço, menos de três
A guemará
הָכָא נָמֵי, בְּמַאי עָסְקִינַן — שֶׁעֲשָׂאָן מִתְּחִילָּה לְכָךְ. אִי הָכִי מַאי קָא מַשְׁמַע לַן? [קָא מַשְׁמַע לַן], חִיצַת הַקָּנִים קָנֶה קָנֶה פָּחוֹת מִשְּׁלֹשָׁה טְפָחִים, כְּדִבְעָא מִינֵּיהּ אַבָּיֵי מֵרַבָּה.

A guemará rejeita a prova: Aqui também, de que tratamos? De um caso em que os fez desde o princípio para isso. A guemará pergunta: Se é assim, o que nos ensina? A guemará responde: Nos ensina que uma barreira de caniços, em que de um caniço a outro caniço há menos de três tefachim (palmos), é uma divisória válida, conforme Abaye perguntou a Rabba, e a baraita resolve a sua dúvida.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “kidva’a minei”
כדבעא מיניה - בפרק שני:

“Conforme Abaye perguntou” — no segundo perek deste tratado.

473A árvore que pende sobre a terra
A guemará
תָּא שְׁמַע: אִילָן הַמֵּסֵיךְ עַל הָאָרֶץ, אִם אֵין נוֹפוֹ גָּבוֹהַּ מִן הָאָרֶץ שְׁלֹשָׁה טְפָחִים — מְטַלְטְלִין תַּחְתָּיו. הָכָא נָמֵי, בְּמַאי עָסְקִינַן — שֶׁנְּטָעוֹ מִתְּחִילָּה לְכָךְ.

A guemará traz outra prova: Vem e ouve o que aprendemos numa mishná: “Uma árvore que pende sobre a terra, se a sua copa não está três tefachim acima do chão, carrega-se debaixo dela” (Mishná Eruvin 10:8), pois os ramos formam divisórias ao seu redor. A guemará responde: Aqui também, de que tratamos? De um caso em que a plantou desde o princípio para isso.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “hamesich”
המסיך - נופו נוטה סמוך לארץ ראש הנוף בפחות מג' לקרקע ועיקרו במקום שמחובר לאילן גבוה עשרה:

“Que pende” — a sua copa se inclina junto à terra: a ponta da copa está a menos de três tefachim do chão, e a sua base, no lugar em que se liga à árvore, está a dez tefachim de altura.

474Só em beit sata’im
A guemará
אִי הָכִי, לִיטַלְטֵל בְּכוּלּוֹ! אַלְּמָה אָמַר רַב הוּנָא בְּרֵיהּ דְּרַב יְהוֹשֻׁעַ: אֵין מְטַלְטְלִין בּוֹ אֶלָּא בֵּית סָאתַיִם.

A guemará pergunta: Se é assim, que se possa carregar em toda ela, qualquer que seja o tamanho da área! Por que, então, Rav Huna, filho de Rav Yehoshua, disse: Não se carrega nela, a não ser numa área de beit sata’im (área de semeadura de duas seá, cinco mil amot quadradas)?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ein metaltelin bo”
אין מטלטלין בו - אם היה היקפו יותר מבית סאתים כחצר המשכן ושיעור זה נתנו חכמים לכל היקף המתוקן ואינו מתוקן כל צרכו כגון למחיצה שאין בה שתי וערב בהאי פירקא (ד' טז:) ולהיקף שלא הוקף לדירה בפ' שני (ד' כד.) והכא נמי אי בעומד מאליו מוקמת לה שפיר כו' הואיל ולאו להכי עבידא יהבו ביה רבנן האי שיעורא:

“Não se carrega nela” — se o seu perímetro era maior que beit sata’im, que é a área do pátio do Mishkan. E esta medida os Sábios deram a todo cercado que está corrigido, mas não está corrigido em tudo o que precisa: como para a divisória que não tem urdidura e trama, neste perek (abaixo, 16b), e para o cercado que não foi cercado para moradia, no segundo perek (abaixo, 24a). E aqui também, se a estabeleces no caso da árvore que está por si mesma, está bem etc.: já que não foi feita para isso, os Sábios lhe deram esta medida.

475Moradia cujo uso é para o ar de fora
A guemará
מִשּׁוּם דְּהָוֵי דִּירָה שֶׁתַּשְׁמִישָׁהּ לַאֲוִיר, וְכׇל דִּירָה שֶׁתַּשְׁמִישָׁהּ לַאֲוִיר, אֵין מְטַלְטְלִין בָּהּ אֶלָּא בֵּית סָאתַיִם.

A guemará responde: A razão é porque é uma moradia cujo uso é para o ar de fora, pois serve aos guardas que vigiam os campos ao redor; e toda moradia cujo uso é para o ar de fora, não se carrega nela, a não ser numa área de beit sata’im.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “mishum dehavei dirá shetashmishah la’avir”
משום דהוי דירה שתשמישה לאויר - לעולם שנטעו מתחילה לכך והיקף לדירה הוא אבל דירה זו אינה עשויה לצורך תוכה אלא לצורך אויר שחוצה לה לדור שם שומרי השדות ועשויי' להציל מן החמה ואין מטלטלין בדירה זו אלא בית סאתים כדתניא בפ' שני (ד' כב.) כלל אמר ר"ש בן אלעזר כל אויר שתשמישו לדירה כגון דיר וסהר ומוקצה וחצר ואפילו י' כורים מותר וכל דירה שתשמישה לאויר כגון בורגנין שבשדות בית סאתים מותר יותר מבית סאתים אסור דלאו דירה הוא דעל כרחו הוא דר שם:

“Porque é uma moradia cujo uso é para o ar” — na verdade, trata-se de um caso em que a plantou desde o princípio para isso, e é um cercado para moradia. Mas esta moradia não é feita para a necessidade do seu interior, e sim para a necessidade do ar que está fora dela, para que morem ali os guardas dos campos, e é feita para proteger do sol. E não se carrega nesta moradia, a não ser numa área de beit sata’im, como se ensina numa baraita no segundo perek (abaixo, 22a): “Rabi Shimon ben Elazar disse uma regra: Todo ar cujo uso é para a moradia, como um curral, um redil, um quintal e um pátio, mesmo de dez kor, é permitido carregar nele; e toda moradia cujo uso é para o ar, como as torres de vigia que há nos campos, se tem beit sata’im, é permitido; mais que beit sata’im, é proibido.” Pois não é verdadeira moradia, já que o guarda mora ali contra a sua vontade, só por causa da vigilância.

476O monte, a cavidade e as espigas
Baraita
תָּא שְׁמַע: שָׁבַת בְּתֵל שֶׁהוּא גָּבוֹהַּ עֲשָׂרָה וְהוּא מֵאַרְבַּע אַמּוֹת וְעַד בֵּית סָאתַיִם, וְכֵן בְּנֶקַע שֶׁהוּא עָמוֹק עֲשָׂרָה, וְהוּא מֵאַרְבַּע אַמּוֹת וְעַד בֵּית סָאתַיִם, וְקָמָה קְצוּרָה וְשִׁיבּוֹלוֹת מַקִּיפוֹת אוֹתָהּ — מְהַלֵּךְ אֶת כּוּלָּהּ וְחוּצָה לָהּ אַלְפַּיִם אַמָּה.

A guemará traz outra prova: Vem e ouve o que se ensinou numa baraita: Se alguém estabeleceu a sua morada de Shabat num monte que tem dez tefachim de altura, e ele mede de quatro amot até beit sata’im; e do mesmo modo numa cavidade que tem dez tefachim de profundidade, e ela mede de quatro amot até beit sata’im; e num campo de grão ceifado, e espigas ainda não ceifadas o cercam: anda por todo ele, e fora dele, duas mil amot. Vê-se, pois, que também uma divisória que não foi feita para esse fim é válida.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “shavat betel”
שבת בתל - קדש עליו היום וקנה שם שביתתו:

“Estabeleceu a sua morada de Shabat num monte” — o dia de Shabat se santificou sobre ele ali, e adquiriu ali a sua morada de Shabat.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “gavoha assará”
גבוה עשרה - דאמרינן גוד אסיק מחיצותיו כל סביבותיו והרי הוא מוקף:

“Que tem dez de altura” — pois dizemos gud asik (estende para cima) as suas divisórias, em todo o seu redor, e eis que está cercado.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “vechen neka”
וכן נקע - אחד מנקיקי הסלעים:

“E do mesmo modo uma cavidade” — uma das fendas das rochas.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “vehu me’arba amot ad beit sata’im”
והוא מד' אמות עד בית סאתים - הואיל ושבת באויר מחיצותיו נעשית ביתו וכולו כארבע אמותיו הוא הלכך מהלך את כולו וחוצה לו אלפים אמה אבל אי הוה טפי מבית סאתים אין מחיצותיו מועילות לו שהיקף שאינו עשוי לדירה אינו מועיל אלא לבית סאתים להכי נקט מארבע אמות ואילך דאם היה פחות מד' אמות מאי מהלך את כולו איכא ומחיצותיו מאי מהני בלאו מחיצה נמי מקום לכל אדם ד' אמות בפרק מי שהוציאוהו (לקמן עירובין ד' מא:):

“E ele mede de quatro amot até beit sata’im” — já que estabeleceu a sua morada de Shabat no ar das suas divisórias, este lugar se torna a sua casa, e todo ele é como as suas quatro amot. Por isso, anda por todo ele, e fora dele, duas mil amot. Mas, se fosse mais que beit sata’im, as suas divisórias não lhe serviriam, pois um cercado que não foi feito para moradia só serve para beit sata’im. Por isso a baraita mencionou “de quatro amot” em diante; pois, se fosse menos de quatro amot, que sentido haveria em “anda por todo ele”? E as suas divisórias, para que serviriam? Mesmo sem divisória, todo homem tem um lugar de quatro amot, como se ensina no perek Mi Shehotziuhu (abaixo, Eruvin 41b).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “veshibolot makifot otah”
ושיבולות מקיפות אותה - שהניח גבוליה סביב מלקצור ושבלים גבוהין י' עסקינן:

“E espigas o cercam” — que deixou as suas bordas ao redor sem ceifar, e tratamos de espigas de dez tefachim de altura.

477O monte e a cavidade existem desde sempre
A guemará
וְכִי תֵּימָא הָכָא נָמֵי שֶׁעָשָׂה מִתְּחִילָּה לְכָךְ, בִּשְׁלָמָא קָמָה לְחַיֵּי, אֶלָּא תֵּל וָנֶקַע — מַאי אִיכָּא לְמֵימַר?

E se disseres que aqui também se trata de um caso em que os fez desde o princípio para isso, há uma dificuldade: Está bem quanto ao grão em pé, que pode ter sido deixado para isso; mas quanto ao monte e à cavidade, o que há a dizer? Eles existem desde sempre, e não foram feitos para servir de divisórias.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “tel vaneka mai ika lemeimar”
תל ונקע מאי איכא למימר - מימות עולם הן:

“O monte e a cavidade, o que há a dizer?” — existem desde os dias do mundo.

Divisória ou sinal visível · לֶחִי מִשּׁוּם הֶיכֵּר

478Divisória ou sinal visível
A guemará
אֶלָּא: בִּמְחִיצוֹת כּוּלֵּי עָלְמָא לָא פְּלִיגִי דְּהָוְיָא מְחִיצָה, כִּי פְּלִיגִי — בְּלֶחִי. אַבָּיֵי לְטַעְמֵיהּ דְּאָמַר: לֶחִי מִשּׁוּם מְחִיצָה, וּמְחִיצָּה הָעֲשׂוּיָה מֵאֵלֶיהָ הָוְיָא מְחִיצָה. וְרָבָא לְטַעְמֵיהּ דְּאָמַר: לֶחִי מִשּׁוּם הֶיכֵּר, אִי עֲבִידָא בְּיָדַיִם הָוְיָא הֶיכֵּר, וְאִי לָא לָא הָוֵי הֶיכֵּר.

A guemará conclui: Antes, quanto às divisórias, todos concordam que é uma divisória válida, mesmo a que está por si mesma. Quando divergem, é quanto ao lechi. Abaye segue o seu raciocínio, pois disse: O lechi vale como divisória, e uma divisória feita por si mesma é uma divisória válida. E Rava segue o seu raciocínio, pois disse: O lechi vale como sinal visível; se foi feito com as mãos, para esse fim, é sinal visível, e se não, não é sinal visível.

479As pedras que sobressaem da cerca
Baraita
תָּא שְׁמַע: אַבְנֵי גָדֵר הַיּוֹצְאוֹת מִן הַגָּדֵר מוּבְדָּלוֹת זוֹ מִזּוֹ פָּחוֹת מִשְּׁלֹשָׁה, אֵין צָרִיךְ לֶחִי אַחֵר. שְׁלֹשָׁה — צָרִיךְ לֶחִי אַחֵר.

A guemará traz uma prova: Vem e ouve o que se ensinou numa baraita: Pedras de uma cerca que sobressaem da cerca, separadas uma da outra por menos de três tefachim: não é preciso outro lechi, pois as pedras se juntam e formam um lechi; se estão separadas por três, é preciso outro lechi. Vê-se, pois, que é um lechi válido, ainda que não tenha sido feito para isso.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “hayotze’ot min hagader”
היוצאות מן הגדר - זו למעלה מזו:

“Que sobressaem da cerca” — uma acima da outra.

480Para ligar a construção
A guemará
הָכָא נָמֵי שֶׁבְּנָאָן מִתְּחִילָּה לְכָךְ. אִי הָכִי, פְּשִׁיטָא! מַהוּ דְּתֵימָא לְמֵיסַר בִּנְיָינָא הוּא דַּעֲבִידָא. קָא מַשְׁמַע לַן.

A guemará rejeita a prova: Aqui também, trata-se de um caso em que as construiu desde o princípio para isso. A guemará pergunta: Se é assim, é óbvio! A guemará responde: Poderias dizer que foi para ligar a construção a outra que a cerca foi feita com pedras salientes; por isso nos ensina que é um lechi válido.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “lemeisar binyana”
למיסר בניינא - שאם ירצה לעשות מחיצה מכותל זה לכותל שכנגדו יתקשר באבנים הללו שכן דרך הבנאין לעשות ובענין אחר אינו יכול לדבק בנין חדש בבנין ישן:

“Para ligar a construção” — pois, se quiser fazer uma divisória desta parede até a parede que está diante dela, a nova divisória se ligará a estas pedras, pois assim os construtores costumam fazer; e de outro modo não é possível unir uma construção nova a uma construção velha.

481A parede recuada de um lado
Rabi Chiya
תָּא שְׁמַע, דְּתָנֵי רַבִּי חִיָּיא: כּוֹתֶל שֶׁצִּידּוֹ אֶחָד כָּנוּס מֵחֲבֵרוֹ, בֵּין שֶׁנִּרְאֶה מִבַּחוּץ וְשָׁוֶה מִבִּפְנִים, וּבֵין שֶׁנִּרְאֶה מִבִּפְנִים וְשָׁוֶה מִבַּחוּץ — נִדּוֹן מִשּׁוּם לֶחִי.

A guemará traz outra prova: Vem e ouve o que Rabi Chiya ensinou: Uma parede da qual um lado é recuado em relação ao outro, quer o recuo seja visível por fora e nivelado por dentro, quer seja visível por dentro e nivelado por fora, é julgada como lechi. Vê-se, pois, que é um lechi válido, ainda que não tenha sido feito para isso.

482Visível por fora e nivelado por dentro
A guemará
הָכָא נָמֵי שֶׁעֲשָׂאוֹ מִתְּחִילָּה לְכָךְ. אִי הָכִי, מַאי קָא מַשְׁמַע לַן? הָא קָא מַשְׁמַע לַן: נִרְאֶה מִבַּחוּץ וְשָׁוֶה מִבִּפְנִים — נִדּוֹן מִשּׁוּם לֶחִי.

A guemará responde: Aqui também, trata-se de um caso em que a fez desde o princípio para isso, para servir de lechi. A guemará pergunta: Se é assim, o que nos ensina? A guemará responde: Isto nos ensina: O que é visível por fora e nivelado por dentro é julgado como lechi, embora nem todos concordem com isso.

Rav e a tamareira · לִסְמוֹךְ אַדִּיקְלָא

483Acaso nos apoiamos nela desde ontem?
Rav e Rav Huna
תָּא שְׁמַע: דְּרַב הֲוָה יָתֵיב בְּהָהוּא מְבוֹאָה, הֲוָה יָתֵיב רַב הוּנָא קַמֵּיהּ. אֲמַר לֵיהּ לְשַׁמָּעֵיהּ: זִיל אַיְיתִי לִי כּוּזָא דְמַיָּא. עַד דַּאֲתָא, נְפַל לֶחְיָא. אַחְוִי לֵיהּ בִּידֵיהּ קָם אַדּוּכְתֵּיהּ. אֲמַר לֵיהּ רַב הוּנָא: לָא סָבַר לַהּ מָר לִסְמוֹךְ אַדִּיקְלָא? אָמַר: דָּמֵי הַאי מֵרַבָּנַן כְּמַאן דְּלָא פָּרְשִׁי אִינָשֵׁי שְׁמַעְתָּא, מִי סָמְכִינַן עֲלֵיהּ מֵאֶתְמוֹל?

A guemará traz outra prova: Vem e ouve: Pois Rav estava sentado num certo mavoi, e Rav Huna estava sentado diante dele. Rav disse ao seu servidor: Vai, traze-me um jarro de água. Enquanto ele vinha de volta, caiu o lechi da entrada do mavoi. Rav fez-lhe sinal com a mão, para que parasse, e o servidor ficou no seu lugar. Rav Huna disse-lhe: Não sustenta o mestre que se pode apoiar na tamareira que está na entrada do mavoi, como lechi? Rav disse: Este dentre os Sábios é como aquele a quem não explicaram a tradição dos Sábios. Acaso nos apoiamos nela desde ontem? Visto que não, não é permitido carregar no mavoi.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “lismoch adikla”
לסמוך אדיקלא - דקל היה עומד אצל פתח המבוי:

“Apoiar na tamareira” — uma tamareira estava junto à entrada do mavoi.

484Se nos apoiamos, é lechi
A guemará
טַעְמָא — דְּלָא סָמְכִינַן, הָא סָמְכִינַן — הָוֵי לֶחִי.

A guemará deduz da resposta de Rav: A razão de que a tamareira não serve é que não nos apoiamos nela desde ontem; mas, se nos apoiamos, é um lechi válido, ainda que não tenha sido feita para isso, conforme Abaye.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ha samchinan havei lechi”
הא סמכינן הוי לחי - אלמא הלכה כאביי:

“Mas, se nos apoiamos, é lechi” — logo, a halachá é conforme Abaye.

485O balcão da casa de Bar Chavu
A guemará
לֵימָא אַבָּיֵי וְרָבָא בִּדְלָא סָמְכִינַן עֲלֵיהּ פְּלִיגִי, הָא סָמְכִינַן עֲלֵיהּ — הָוֵה לֶחִי. לָא סָלְקָא דַּעְתָּךְ, דְּהָהוּא בַּרְקָא דַּהֲוָה בֵּי בַּר חָבוּ דַּהֲווֹ פְּלִיגִי בַּהּ אַבָּיֵי וְרָבָא כּוּלֵּי שְׁנַיְיהוּ.

A guemará sugere: Digamos que Abaye e Rava divergem somente quando não nos apoiamos nele desde ontem, mas, se nos apoiamos nele, todos concordam que é um lechi válido? A guemará responde: Não te ocorra isso, pois sobre aquele barka (balcão) que havia na casa de Bar Chavu, em cuja coluna os moradores se apoiavam como lechi, Abaye e Rava divergiram todos os seus anos.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “leima bidla samchinan aleh pligi”
לימא בדלא סמכינן עליה פליגי - ואביי דשרי קשיא ליה האי עובדא דרב לא סמך אדיקלא ואנן קים לן הלכתא כאביי בלחי העומד מאליו:

“Digamos que divergem quando não nos apoiamos nele” — e então Abaye, que permite, tem dificuldade com este caso de Rav, que não se apoiou na tamareira; e nós temos estabelecido que a halachá é conforme Abaye no lechi que está por si mesmo.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “barka”
ברקא - יציע:

“Barka” — uma galeria.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “dahavá bei Bar Chavu”
דהוה בי בר חבו - והיה עמוד הסומך את היציע עומד בראש מבוי אחר:

“Que havia na casa de Bar Chavu” — e a coluna que sustentava a galeria estava na cabeceira de outro mavoi.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ve’ifligu bah kulei shnayhu”
ואפליגו בה כולי שנייהו - אביי שרי למיסמך עליה ורבא אסר אלמא בדסמכינן עליה פליגי והלכתא כאביי בהא דזו היא אחת מיע"ל קג"ם שהלכה כאביי:

“E divergiram sobre ele todos os seus anos” — Abaye permitia apoiar-se nela, e Rava proibia. Logo, divergem quando nos apoiamos nela. E a halachá é conforme Abaye nisto, pois esta é uma das questões indicadas pelo sinal “Ya’al Kegam”, em que a halachá é conforme Abaye.

A Mishná: de tudo se fazem lechis · מַתְנִיתִין

486De tudo se fazem lechis
Mishná
מַתְנִי׳ בַּכֹּל עוֹשִׂין לְחָיַיִן אֲפִילּוּ בְּדָבָר שֶׁיֵּשׁ בּוֹ רוּחַ חַיִּים, וְרַבִּי מֵאִיר אוֹסֵר. וּמְטַמֵּא מִשּׁוּם גּוֹלֵל,

MISHNÁ. De tudo se fazem lechis, mesmo de uma coisa em que há sopro de vida, isto é, de um animal vivo, desde que esteja bem preso à entrada do mavoi; e Rabi Meir proíbe usar um ser vivo como lechi. E também um ser vivo transmite impureza como golel (a pedra que cobre a sepultura)…

Nota — nova Mishná

Encerrada a guemará sobre a quarta mishná do perek, inicia-se aqui a quinta mishná, ainda dentro do Perek Alef (Mavoi), que se estende até 17b. Ela ensina que de tudo se fazem lechis, mesmo de um ser vivo, e trata da impureza do ser vivo usado como golel; a continuação da mishná está em Eruvin 15b.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “umetame mishum golel”
מתני' ומטמא משום גולל - אם עשאו גולל לקבר מטמא לעולם באהל כמת עצמו ואפי' ניטל משם דתניא בפ' בהמה המקשה (חולין עב.) כל אשר יגע על פני השדה לרבות גולל ודופק:

MISHNÁ. “E transmite impureza como golel” — se o fez golel de uma sepultura, transmite impureza para sempre, pela impureza da tenda, como o próprio morto, e mesmo depois de retirado dali, como se ensina numa baraita no perek Behemá Hamakshá (Chulin 72a): “‘Tudo o que tocar sobre a face do campo’ (Bamidbar 19:16) — para incluir o golel e o dofek (a pedra que sustenta o golel).”

O daf termina aqui, no meio da quinta mishná do perek: depois da disputa de Abaye e Rava sobre o lechi que está por si mesmo, das provas sobre as divisórias e da conclusão de que divergem só quanto ao lechi, como divisória ou como sinal visível, a mishná começa a ensinar que de tudo se fazem lechis, mesmo de um ser vivo, e que ele transmite impureza como golel. A mishná prossegue em Eruvin 15b.