Rambam · Introdução ao Perek Chelek

Parte IV — os Treze Princípios da Fé

הַקְדָּמַת הָרַמְבַּ״ם — שְׁלֹשָׁה עָשָׂר עִקָּרִים
Introdução do Rambam ao Perek Chelek · Parte IV — os Treze Princípios da Fé
הַיְסוֹדוֹתOs Treze Princípios (Sheloshá Asar Ikarim)
א
היסוד הראשון להאמין מציאות הבורא יתברך והוא שיש שם נמצא שלם בכל דרכי המציאות הוא עילת מציאות הנמצאים כלם בו קיום מציאותם וממנו קיומם ואל יעלה על הלב העדר מציאותו כי בהעדר מציאותו נתבטל מציאות כל הנמצאים ולא נשאר נמצא שיתקיים מציאותו ואם נעלה על לבנו העדר הנמצאים כלם זולתו לא יתבטל מציאות הש״י ולא יגרע ואין האחדות והאדנות אלא לו לבד הש״י שמו כי הוא מסתפק במציאותו ודי לו בעצמו ואין צריך במציאות זולתו וכל מה שזולתו מן המלאכים וגופי הגלגלים ומה שיש בתוכם ומה שיש למטה מהם הכל צריכין במציאותם אליו וזה היסוד הראשון מורה עליו דבור אנכי ה׳ אלהיך:
O primeiro fundamento: crer na existência do Criador, bendito seja. Isto é, que há um Ser perfeito em todos os modos da existência; Ele é a causa da existência de todos os entes, nele está a subsistência da existência deles, e dele vem o seu existir. Não suba ao coração a inexistência dele, pois, na sua inexistência, anula-se a existência de todos os entes, e não restaria ente cuja existência subsistisse. Mas, se subisse ao nosso coração a inexistência de todos os entes além dele, a existência de D'us não se anularia nem diminuiria — pois a unidade e a soberania pertencem só a Ele; Ele basta-Se na sua existência, é suficiente em Si mesmo e não necessita da existência de outro; e tudo o que é além dele — anjos, corpos das esferas e o que há neles e abaixo deles — tudo dele necessita para existir. Este fundamento é indicado pela palavra: "Eu sou o Eterno, teu D'us".
Êxodo 20:2 אָנֹכִי ה׳ אֱלֹהֶיךָ אֲשֶׁר הוֹצֵאתִיךָ מֵאֶרֶץ מִצְרַיִם "Eu sou o Eterno, teu D'us, que te tirei da terra do Egito." O Rambam conta este versículo como o primeiro preceito positivo da Torá (Mishnê Torá, Hilchot Yesodei HaTorá 1:1–6): o dever de saber que existe um Ser primeiro que deu existência a tudo. Não é fé cega — é conhecimento racional da existência necessária.
ב
היסוד השני יחוד הש״י כלומר שנאמין שזה שהוא סבת הכל אחד ואינו כאחד הזוג ולא כאחד המין ולא כאיש האחד שנחלק לאחדים רבים ולא אחד כמו הגוף הפשוט האחד במנין שמקבל החלוק לאין סוף אבל הוא הש״י אחד באחדות שאין כמותה אחדות וזה היסוד השני מורה עליו מה שנאמר שמע ישראל ה׳ אלהינו ה׳ אחד:
O segundo fundamento: a unidade de D'us. Isto é, que creiamos que este, que é a causa de tudo, é um — e não como um membro de um par, nem como um exemplar de uma espécie, nem como um indivíduo que se divide em muitas partes, nem como um corpo simples, uno em número, que admite divisão ao infinito; mas Ele é uno numa unidade tal que não há unidade outra como a sua. Este fundamento é indicado pelo que está dito: "Ouve, Israel, o Eterno é nosso D'us, o Eterno é um".
Deuteronômio 6:4 שְׁמַע יִשְׂרָאֵל ה׳ אֱלֹהֵינוּ ה׳ אֶחָד "Ouve, Israel: o Eterno é nosso D'us, o Eterno é um." O Rambam distingue quatro modos de "unidade" que não se aplicam a D'us: par (dois que formam um), espécie (um exemplar de muitos), indivíduo divisível (corpo composto) e número simples (admite divisão). A unidade de D'us é absoluta, sem gênero nem espécie. Cf. Guia dos Perplexos I:51–58.
ג
היסוד השלישי שלילת הגשמות ממנו וזה שנאמין כי האחד הזה שזכרנו אינו גוף ולא כח בגוף ולא ישיגוהו מאורעות הגופים כמו התנועה והמנוחה והמשכן לא מצד עצמות ולא במקרה ולכן שללו ממנו החכמים ז״ל החבור והפירוד ואמרו אין למעלה לא ישיבה ולא עמידה לא עורף ולא עפוי כלומר לא פירוד ולא עורף והוא חבור והוא עפוי מלשון ועפו בכתף פלשתים כלומר ידחפו אותם בכתף להתחברם בהם ואמר הנביא ואל מי תדמיוני ואשוה יאמר קדוש אילו היה גוף היה דומה לגופים וכל מה שבא בכתבי הקדש שמתארים אותו בתארי הגופות כמו ההליכה והעמידה והישיבה והדבור וכיוצא בזה הכל דרך השאלה וכן אמרו ז״ל דברה תורה כלשון בני אדם וכבר דברו החכמים בזה הענין הרבה והיסוד השלישי הזה הוא מורה עליו מה שנאמר כי לא ראיתם כל תמונה כלומר לא השגתם אותו בעל תמונה לפי שהוא כמו שזכרנו אינו גוף ולא כח בגוף:
O terceiro fundamento: a negação da corporeidade. Isto é, que creiamos que este Um não é corpo nem força num corpo, e não O alcançam os acidentes dos corpos — como o movimento, o repouso e o lugar —, nem por essência nem por acidente. Por isso os sábios negaram dele a junção e a separação, dizendo (Chaguigá 15a): "no alto não há sentar-se nem ficar de pé, nem nuca nem fadiga" — quer dizer, nem separação nem junção. E disse o profeta (Isaías 40:25): "a quem Me comparareis, para que Lhe seja igual?, diz o Santo" — se fosse corpo, seria semelhante aos corpos. E tudo o que vem nos escritos sagrados descrevendo-O com atributos corpóreos — o andar, o ficar de pé, o sentar, o falar e afins — é tudo por empréstimo (metáfora); e assim disseram (Berachot 31b): "a Torá falou na linguagem dos homens". Este fundamento é indicado pelo que está dito (Deuteronômio 4:15): "pois não vistes figura alguma" — quer dizer, não O apreendestes como possuidor de figura, pois Ele não é corpo nem força num corpo.
Chaguigá 15a אֵין לְמַעְלָה לֹא יְשִׁיבָה וְלֹא עֲמִידָה, לֹא עֹרֶף וְלֹא עִפּוּי "No alto não há sentar-se nem ficar de pé, nem nuca nem fadiga." Berachot 31bדִּבְּרָה תּוֹרָה כִּלְשׁוֹן בְּנֵי אָדָם — "a Torá falou na linguagem dos homens". Este princípio hermenêutico é a base de toda a teologia negativa do Rambam: os antropomorfismos bíblicos são metáforas para a compreensão humana. No Guia dos Perplexos I:1–49, dedica dezenas de capítulos a explicar cada um destes "atributos" como empréstimos linguísticos.
ד
היסוד הרביעי הקדמות והוא שנאמין כי זה האחד האמור הוא קדמון בהחלט וכל נמצא זולתו בלתי קדמון בערכו אליו והראיות על זה בכתבי הקדש רבות והיסוד הרביעי הזה מורה עליו מה שנא׳ מעונה אלהי קדם:
O quarto fundamento: a precedência. Isto é, que creiamos que este Um é absolutamente primordial (kadmon), e todo ente além dele não é primordial em relação a ele. As provas disto nos escritos sagrados são muitas. Este fundamento é indicado pelo que está dito: "morada é o D'us primordial".
Deuteronômio 33:27 מְעֹנָה אֱלֹהֵי קֶדֶם "Morada é o D'us primordial." Mishnê Torá, Hilchot Yesodei HaTorá 1:5: "Este D'us é primordial, e tudo o que existe — o céu, a terra e o que há entre eles — não existe senão pela verdade da Sua existência."
ה
היסוד החמישי שהוא יתברך הוא הראוי לעבדו ולגדלו ולהודיעו גדולתו ולעשות מצותיו ושלא יעשו כזה למי שהוא תחתיו במציאות מן המלאכים והכוכבים והגלגלים והיסודות ומה שהורכב מהם לפי שכולם מוטבעים ועל פעולתם אין משפט ולא בחירה אלא לו לבדו הש״י וכן אין ראוי לעבדם כדי להיותם אמצעים לקרבם אליו אלא אליו בלבד יכוונו המחשבות ויניחו כל מה שזולתו וזה היסוד החמישי הוא שהזהיר על ע״ז ורוב התורה מזהרת עליו:
O quinto fundamento: que só a Ele convém servir. A Ele se deve servir, engrandecer, dar a conhecer a sua grandeza e cumprir os seus preceitos — e não se faça assim a quem está abaixo dele na existência (anjos, astros, esferas, elementos e o que deles se compõe), pois todos são seres de natureza determinada, e sobre a sua ação não há juízo nem escolha, senão só a Ele. Tampouco convém servi-los como intermediários que supostamente aproximem de D'us; antes, só a Ele se dirijam os pensamentos, pondo-se de lado tudo o mais. Este fundamento é o que adverte contra a idolatria — e a maior parte da Torá adverte sobre isto.
Contra toda forma de intermediação. O Rambam nega não apenas a idolatria grosseira, mas também o culto a intermediários celestiais "para aproximar-se de D'us". Em Mishnê Torá, Hilchot Avodá Zará 1:1–2, descreve como a idolatria começou historicamente: a geração de Enosh sabia que D'us criara os astros, e raciocinou que convinha honrá-los como servos do Rei — daí a perversão. O quinto princípio é a refutação desse erro originário.
ו
היסוד הששי הנבואה והוא שידע אדם שזה מין האדם ימצא בהם בעלי טבעים ממדות מעולות מאד ושלימות גדולה ונפשותיהן נכונות עד שהן מקבלות צורת השכל אחר כן ידבק אותו השכל האנושי בשכל הפועל ונאצל ממנו עליו אצילות נכבד ואלה הם הנביאים וזו היא הנבואה וזהו ענינה וביאור יסוד זה על בוריו יארך מאד ואין כונתנו להביא מופת על כל יסוד מהם וביאור מציאות השגתו לפי שזה הוא כלל החכמה כלם אבל אזכרה דרך ספור בלבד ומקראי התורה מעידים על נבואת נביאים הרבה:
O sexto fundamento: a profecia. Que a pessoa saiba que, nesta espécie humana, há indivíduos de naturezas muito elevadas e de grande perfeição, cujas almas estão dispostas a receber a forma do intelecto; depois, esse intelecto humano une-se ao Intelecto Agente, e dele emana sobre ele uma emanação nobre — e estes são os profetas, e isto é a profecia. A explicação cabal deste fundamento seria longuíssima, e não é nossa intenção demonstrar cada fundamento; mencioná-lo-ei apenas por via de relato. E os versículos da Torá testemunham a profecia de muitos profetas.
Profecia como processo natural-intelectual. O Rambam define a profecia em termos filosóficos: é a emanação do Intelecto Agente (Sekhel HaPoel) sobre um intelecto humano preparado — alguém que aperfeiçoou as faculdades intelectuais e morais ao máximo. Não é arbitrário: qualquer pessoa com perfeição suficiente poderia, em princípio, alcançá-la (a menos que D'us ativamente impeça). Desenvolvido em Guia dos Perplexos II:32–48.
ז
היסוד השביעי נבואת משה רבינו ע״ה והוא שנאמין כי הוא אביהם של כל הנביאים אשר היו מלפניו ואשר קמו מאחריו כלם הם תחתיו במעלה והוא היה הנבחר מכל מין האדם אשר השיג מידיעתו יתברך יותר מכל מה שהשיג או ישיג שום אדם שנמצא או שימצא וכי הוא ע״ה הגיע התעלותו מן האנושות עד המעלה המלאכותית ונכלל במעלת המלאכים לא נשאר מסך שלא קרעו ונכנס ממנו ולא מנעו מונע גופני ולא נתערב לו שום חסרון בין רב למעט ונתבטלו ממנו הכחות הדמיונות והחושיות והשגותיו ונבדל כח המתעורר המשתוקק ונשאר שכל בלבד ועל הענין הזה נאמר עליו שהיה מדבר עם הש״י בלא אמצעיות מן המלאכים.
O sétimo fundamento: a profecia de Moisés, nosso mestre. Que creiamos que ele é o pai de todos os profetas — dos anteriores e dos posteriores —, todos abaixo dele em nível. Foi o escolhido de toda a espécie humana, que alcançou do conhecimento de D'us mais do que qualquer homem que existiu ou existirá; elevou-se da condição humana até o nível angélico: não restou véu que não rasgasse, nem o impediu impedimento corpóreo, nem se lhe misturou deficiência alguma; anularam-se nele as forças imaginativa e sensitiva, restando o intelecto apenas — por isso se disse que falava com D'us sem intermediação de anjos.
ואחזור לכוונת זה היסוד השביעי ואומר שנבואת משה רבינו ע״ה נבדלת מנבואת כל הנביאים בארבעה דברים. הראשון כי איזה נביא שהיה לא דבר לו הש״י אלא על ידי אמצעי ומשה בלא אמצעי שנאמר פה אל פה אדבר בו. והענין השני כי כל נביא לא תבא לו הנבואה אלא כשהוא ישן בחלום הלילה בחזיון לילה או ביום אחר שתפול תרדמה על האדם בענין שנתבטלו ממנו כל הרגשותיו ונשאר מחשבתו פנויה כענין חלום וענין זה נקרא מחזה ומראה ועליו נאמר במראות אלהים ומשה יבא אליו הדבור ביום והוא עומד בין שני הכרובים כמו שיעידו הש״י ונועדתי לך שם. הענין השלישי כי הנביא כשתבא אליו הנבואה ואע״פ שהוא במראה וע״י מלאך יחלשו כחותיו ויתקלקל בניינו ויגיע לו מורא גדול מאד כמעט שתצא רוחו ממנו כמו שאמר בדניאל כשדבר גבריאל עמו במראה אמר ולא נשאר בי כח והודי נהפך עלי למשחית ולא עצרתי כח ומשה ע״ה לא היה כן אבל יבא אליו הדבור ולא ישיגוהו רתת ורעדה בשום פנים כמו שנאמר ודבר ה׳ אל משה פנים אל פנים כאשר ידבר איש אל רעהו. והענין הרביעי כי כל הנביאים לא תנוח עליהם רוח הנבואה ברצונם אלא ברצון הש״י ומשה רבינו ע״ה בכל עת שירצה אומר עמדו ואשמעה מה יצוה ה׳ לכם ואמרו חז״ל אהרן בבל יבא ואין משה בבל יבא:
E a profecia de Moisés distingue-se da dos demais profetas em quatro coisas. A primeira: a qualquer outro profeta D'us só falava por um intermediário, mas a Moisés sem intermediário, como está dito: "boca a boca falarei com ele" (Números 12:8). A segunda: a todo profeta a profecia só vem durante o sono — "em sonho de noite", "em visão noturna" — ou de dia, após cair sobre ele um torpor em que se anulam as sensações; e isto se chama "visão" (machazé u-mar'eh). Mas a Moisés vinha a fala de dia, estando de pé entre os dois querubins, como está dito: "e ali Me encontrarei contigo" (Êxodo 25:22). A terceira: ao profeta, quando lhe vem a profecia — ainda que em visão e por anjo —, enfraquecem-se as forças e sobrevém-lhe temor grandíssimo, quase saindo dele o espírito, como em Daniel (10:8): "não restou em mim força". Mas Moisés não era assim — vinha-lhe a fala sem tremor algum, como está dito: "e o Eterno falava a Moisés face a face, como fala um homem ao seu companheiro" (Êxodo 33:11). A quarta: sobre os demais profetas o espírito da profecia não repousa por sua vontade, mas pela vontade de D'us. Mas Moisés, a toda hora que queria, dizia: "esperai, e ouvirei o que o Eterno vos ordenará" (Números 9:8); e disseram os sábios: "Aarão está no 'não entre a todo tempo', mas Moisés não está no 'não entre'".
Números 12:6–8 אִם יִהְיֶה נְבִיאֲכֶם ה׳ בַּמַּרְאָה אֵלָיו אֶתְוַדָּע בַּחֲלוֹם אֲדַבֶּר בּוֹ. לֹא כֵן עַבְדִּי מֹשֶׁה … פֶּה אֶל פֶּה אֲדַבֶּר בּוֹ וּמַרְאֶה וְלֹא בְחִידֹת "Se houver entre vós profeta, em visão a ele Me farei conhecido, em sonho falarei com ele. Não é assim o meu servo Moisés … boca a boca falarei com ele, em visão e não em enigmas." Êxodo 33:11 וְדִבֶּר ה׳ אֶל מֹשֶׁה פָּנִים אֶל פָּנִים כַּאֲשֶׁר יְדַבֵּר אִישׁ אֶל רֵעֵהוּ "E o Eterno falava a Moisés face a face, como fala um homem ao seu companheiro." As quatro distinções são codificadas em Mishnê Torá, Hilchot Yesodei HaTorá 7:6. A singularidade de Moisés fundamenta o oitavo princípio: só quem recebeu a profecia neste grau máximo pôde ser portador da Torá definitiva.
ח
היסוד השמיני היות התורה מן השמים והוא שנאמין כי כל התורה הזאת הנתונה ע״י משה רבינו ע״ה שהיא כולה מפי הגבורה כלומר שהגיעה אליו כולה מאת ה׳ יתברך בענין שנקרא על דרך השאלה דבור ואין ידוע היאך הגיע אלא הוא משה ע״ה שהגיע לו וכי הוא היה כמו סופר שקוראין לו והוא כותב כל מאורעות הימים הספורים והמצות ולפיכך נקרא מחוקק ואין הפרש בין ובני חם כוש ומצרים ושם אשתו מהטבאל ותמנע היתה פלגש ובין אנכי ה׳ אלהיך ושמע ישראל כי הכל מפי הגבורה והכל תורת ה׳ תמימה טהורה וקדושה אמת
O oitavo fundamento: ser a Torá vinda dos Céus. Que creiamos que toda esta Torá, dada por meio de Moisés, é toda "da boca da Onipotência" (mi-pi ha-Gevurá) — isto é, chegou a ele toda da parte de D'us, num modo que se chama, por empréstimo, "fala"; e Moisés era como um escriba a quem se dita, e que escreve tudo: as crónicas, as narrativas e os preceitos — por isso é chamado "legislador" (mechokek). E não há diferença entre "e os filhos de Cam: Cuxe e Mitsraim" ou "Timna era concubina" e "Eu sou o Eterno, teu D'us" e "Ouve, Israel" — pois tudo é da boca da Onipotência, e tudo é a Torá do Eterno, perfeita, pura, santa, verdadeira.
וזה שאומר שכמו אלה הפסוקים והספורים משה ספרם מדעתו הנה הוא אצל חכמינו ונביאינו כופר ומגלה פנים יותר מכל הכופרים לפי שחשב שיש בתורה לב וקליפה ושאלה דברי הימים והספורים אין תועלת בהם ושהם מאת משה רבינו ע״ה וזה ענין אין תורה מן השמים אמרו חכמים ז״ל הוא המאמין שכל התורה מפי הגבורה חוץ מן הפסוק זה שלא אמר הקב״ה אלא משה מפי עצמו וזה כי דבר ה׳ בזה הש״י ויתר ממאמר הכופרים אלא כל דבור ודבור מן התורה יש בהן חכמות ופלאים למי שמבין אותם ולא הושג תכלית חכמתם ארוכה מארץ מדה ורחבה מני ים
E quem diz que tais versículos e narrativas Moisés os disse de si mesmo é, para os nossos sábios e profetas, descrente (kofer) mais do que todos — pois imaginou que há na Torá um "miolo" e uma "casca" dispensável. E este é o sentido de "a Torá não é dos Céus" (Sanhedrin 99a): disseram que é descrente mesmo quem crê que toda a Torá é da boca da Onipotência, exceto um certo versículo, que não foi D'us quem o disse, mas Moisés de si mesmo. Antes, cada palavra da Torá encerra sabedorias e maravilhas para quem as entende, e não se alcançou o limite da sua sabedoria: "mais longa que a terra é a sua medida, e mais larga que o mar" (Jó 11:9).
וכמו כן פירש התורה המקובל ג״כ מפי הגבורה וזה שאנו עושים היום מתבנית הסוכה ולולב ושופר וציצית ותפילין וזולתם הוא בעצמו התבנית אשר אמר הש״י למשה והוא אמר לנו והוא נאמן בשליחותו והמאמר המורה על היסוד הזה הוא מה שנאמר ויאמר משה בזאת תדעון כי ה׳ שלחני לעשות כל המעשים האלה כי לא מלבי:
E também a interpretação tradicional da Torá é da boca da Onipotência: a forma da sucá, do lulav, do shofar, dos tsitsit e dos tefilin que hoje fazemos é exatamente a que D'us disse a Moisés, e que ele nos transmitiu, fiel na sua missão. O versículo que indica este fundamento é: "e disse Moisés: nisto sabereis que o Eterno me enviou para fazer todas estas obras, e que não foi do meu coração".
Sanhedrin 99a כִּי דְבַר ה׳ בָּזָה — זֶה הָאוֹמֵר אֵין תּוֹרָה מִן הַשָּׁמַיִם, אֲפִילוּ אָמַר כׇּל הַתּוֹרָה כֻּלָּהּ מִפִּי הַגְּבוּרָה חוּץ מִפָּסוּק זֶה שֶׁלֹּא אֲמָרוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא אֶלָּא מֹשֶׁה מִפִּי עַצְמוֹ "'Porque a palavra do Eterno desprezou' — este é o que diz que a Torá não é dos Céus; mesmo que diga que toda a Torá é da boca da Onipotência, exceto um versículo que Moisés disse de si mesmo." Números 16:28 בְּזֹאת תֵּדְעוּן כִּי ה׳ שְׁלָחַנִי לַעֲשׂוֹת אֵת כׇּל הַמַּעֲשִׂים הָאֵלֶּה כִּי לֹא מִלִּבִּי "Nisto sabereis que o Eterno me enviou para fazer todas estas obras, e que não foi do meu coração." O Rambam inclui aqui a Torá Oral: as formas práticas dos preceitos foram igualmente reveladas a Moisés. A autoridade da halakhá é a consequência direta deste princípio.
ט
היסוד התשיעי הבטול והוא שזו תורת משה לא תבטל ולא תבוא תורה מאת הש״י זולתה ועליה אין להוסיף וממנה אין לגרוע לא בתורה שבכתב ולא בתורה שבעל פה שנאמר לא תוסיף עליו ולא תגרע ממנו וכבר בארנו מה שצריך לבאר ביסוד זה בפתיחת זה החבור:
O nono fundamento: a imutabilidade. Que esta Torá de Moisés não será abolida, nem virá outra Torá da parte de D'us além dela. A ela nada há a acrescentar, e dela nada a tirar — nem na Torá escrita nem na oral —, conforme está dito: "não acrescentarás a ela, nem dela tirarás". E já explicámos o que cumpre neste fundamento na abertura desta obra.
Deuteronômio 13:1 אֵת כׇּל הַדָּבָר אֲשֶׁר אָנֹכִי מְצַוֶּה אֶתְכֶם אֹתוֹ תִשְׁמְרוּ לַעֲשׂוֹת לֹא תֹסֵף עָלָיו וְלֹא תִגְרַע מִמֶּנּוּ "Tudo o que eu vos ordeno, guardai-o para cumprir; não acrescentarás a ele e dele não tirarás." Este princípio é a resposta do Rambam a qualquer reivindicação de revelação posterior ou de ab-rogação da lei mosaica. Codificado em Mishnê Torá, Hilchot Yesodei HaTorá 9:1.
י
היסוד העשירי כי הוא הש״י יודע מעשיהם של בני אדם ואינו מעלים עינו מהם לא כדעת מי שאמר עזב ה׳ את הארץ אלא כמו שנאמר גדול העצה ורב העליליה אשר עיניך פקוחות על כל דרכי בני אדם וירא ה׳ כי רבה רעת האדם בארץ ונאמר זעקת סדום ועמורה כי רבה זהו מורה על היסוד העשירי הזה:
O décimo fundamento: que Ele conhece os atos dos homens e não desvia deles o seu olhar — não como a opinião de quem disse "o Eterno abandonou a terra" (Ezequiel 8:12), mas como está dito: "grande em conselho e poderoso em ação, cujos olhos estão abertos sobre todos os caminhos dos homens" (Jeremias 32:19); e "viu o Eterno que era grande a maldade do homem na terra" (Gênesis 6:5); e "o clamor de Sodoma e Gomorra, porque se avolumou" (Gênesis 18:20). Isto indica este fundamento.
Jeremias 32:19 גְּדֹל הָעֵצָה וְרַב הָעֲלִילִיָּה אֲשֶׁר עֵינֶיךָ פְקֻחוֹת עַל כׇּל דַּרְכֵי בְּנֵי אָדָם "Grande em conselho e poderoso em ação, cujos olhos estão abertos sobre todos os caminhos dos homens." O Rambam refuta aqui o deísmo — a ideia de que D'us criou o mundo e o "abandonou". No Guia dos Perplexos III:17–18, ele distingue a providência individual (que se aplica aos seres humanos em proporção ao seu grau intelectual) da providência geral (sobre as espécies).
יא
היסוד אחד עשר כי הוא הש״י נותן שכר למי שעושה מצות התורה ויעניש למי שעובר על אזהרותיה וכי השכר הגדול העולם הבא והעונש החזק הכרת וכבר אמרנו בזה הענין מה שיספיק והמקרא המורה על היסוד הזה מה שנא׳ ועתה אם תשא חטאתם ואם אין מחני נא והשיב לו הש״י מי אשר חטא לי אמחנו מספרי ראיה שיודע העובר והחוטא לתת שכר לזה ועונש לזה:
O décimo-primeiro fundamento: que Ele dá recompensa a quem cumpre os preceitos da Torá e castiga quem transgride as suas advertências; e que a grande recompensa é o Mundo Vindouro, e o castigo severo é o karet. Já dissemos sobre isto o que basta. O versículo que indica este fundamento: "e agora, se perdoares o pecado deles; e, se não, risca-me" — e respondeu-lhe D'us: "quem pecou contra Mim, a esse riscarei do Meu livro" — prova de que Ele conhece o obediente e o pecador, para dar recompensa a um e castigo ao outro.
Êxodo 32:32–33 וְעַתָּה אִם תִּשָּׂא חַטָּאתָם וְאִם אַיִן מְחֵנִי נָא מִסִּפְרְךָ … מִי אֲשֶׁר חָטָא לִי אֶמְחֶנּוּ מִסִּפְרִי "Se perdoares o pecado deles…; e se não, risca-me do Teu livro. … Quem pecou contra Mim, a esse riscarei do Meu livro." Como explicado na Parte III, a recompensa última (Olam Habá) e o castigo último (karet/aniquilação da alma) são espirituais. Os bens materiais da Torá são meios instrumentais, não fins.
יב
היסוד שנים עשר ימות המשיח והוא להאמין ולאמת שיבא ולא יחשב שיתאחר אם יתמהמה חכה לו ולא ישים לו זמן ולא יעשה לו סברות במקראות להוציא זמן ביאתו וחכמים אומרים תפח רוחן של מחשבי קצין ושיאמין שיהיה לו יתרון ומעלה וכבוד על כל המלכים שהיו מעולם כפי מה שנבאו עליו כל הנביאים ממשה רבינו ע״ה עד מלאכי ע״ה ומי שהסתפק בו או נתמעט אצלו מעלתו כפר בתורה שיעד בו בתורה בפירוש בפרשת בלעם ופרשת אתם נצבים ומכלל יסוד זה שאין מלך לישראל אלא מבית דוד ומזרע שלמה בלבד וכל החולק על המשפחה הזאת כפר בשם הש״י ובדברי נביאיו:
O décimo-segundo fundamento: os dias do Messias. Crer e ter por certo que ele virá, e não pensar que se atrasa: "se tardar, espera por ele" (Habacuc 2:3); não lhe fixar tempo nem fazer conjecturas nos versículos para deduzir o tempo da sua vinda — e os sábios dizem: "pereça o espírito dos que calculam os fins" (Sanhedrin 97b). E crer que ele terá eminência e honra sobre todos os reis que houve, conforme profetizaram sobre ele todos os profetas, de Moisés a Malaquias. Quem dele duvida ou lhe diminui o nível nega a Torá, que o promete explicitamente (na parashá de Bilam e em "Atem nitsavim"). E faz parte deste fundamento que não há rei para Israel senão da casa de Davi e da semente de Salomão; e todo o que disputa esta família nega o nome de D'us e as palavras dos seus profetas.
Habacuc 2:3 כִּי עוֹד חָזוֹן לַמּוֹעֵד … אִם יִתְמַהְמָהּ חַכֵּה לוֹ כִּי בֹא יָבֹא לֹא יְאַחֵר "Pois ainda a visão é para o tempo determinado … se tardar, espera por ele, pois certamente virá, não se atrasará." Sanhedrin 97b תִּפַּח רוּחָן שֶׁל מְחַשְּׁבֵי קִצִּין "Pereça o espírito dos que calculam os fins." O Rambam proíbe calcular a data da vinda do Messias. Na Parte III, já definiu a era messiânica como natural (não miraculosa). Este princípio exige fé na vinda, mas proíbe a especulação temporal — evitando o desespero quando previsões falham.
יג
היסוד שלשה עשר תחיית המתים וכבר בארנוה
O décimo-terceiro fundamento: a ressurreição dos mortos — e já a explicámos.
§30
וכאשר יאמין האדם אלה היסודות כלם ונתברר בה אמונתו בהם הוא נכנס בכלל ישראל ומצוה לאהבו ולרחם עליו ולנהוג עמו בכל מה שצוה הש״י איש לחבירו מן האהבה והאחוה ואפי׳ עשה מה שיכול מן העבירות מחמת התאוה והתגברות הטבע הגרוע הוא נענש כפי חטאיו אבל יש לו חלק לעוה״ב והוא מפושעי ישראל וכשנתקלקל לאדם יסוד מאלה היסודות הרי יצא מן הכלל וכפר בעיקר ונקרא מין ואפיקורוס וקוצץ בנטיעות ומצוה לשונאו ולאבדו ועליו נאמר הלא משנאך ה׳ אשנא.
E quando a pessoa crê em todos estes fundamentos, e a sua fé neles se firma, ela entra no conjunto de Israel (klal Yisrael), e é preceito amá-la, compadecer-se dela e tratá-la com todo o amor e fraternidade que D'us ordenou de um homem ao seu próximo; e, ainda que tenha cometido as transgressões que pôde, por desejo e domínio da natureza baixa, é castigada conforme os seus pecados, mas tem porção no Mundo Vindouro, e é dos "transgressores de Israel". Mas, quando se corrompe na pessoa um destes fundamentos, eis que ela saiu do conjunto, negou o essencial, e é chamada min, apikoros e "cortador das plantas" (kotzetz ba-netiyot); e é preceito odiá-la e destruí-la, e sobre ela está dito: "acaso não odeio, ó Eterno, os que Te odeiam?" (Salmos 139:21).
Salmos 139:21 הֲלוֹא מְשַׂנְאֶיךָ ה׳ אֶשְׂנָא "Acaso não odeio, ó Eterno, os que Te odeiam?" Note-se a simetria: quem crê nos treze princípios "entra no conjunto de Israel" e recebe amor fraternal — mesmo se pecador. Quem nega mesmo um dos treze "sai do conjunto". O critério de pertencimento, para o Rambam, é doutrinário e intelectual, não meramente ritual.
והנה הארכתי בדברים הרבה ויצאתי מענין חבורי אבל אני עשיתי זה לפי שראיתי בו תועלת באמונה לפי שאספתי בו דברים מועילים מפוזרים מספרים גדולים לכן דע אותם והצלח בהם וחוזר עליהם פעמים רבות והתבונן בהם התבוננות יפה ואם השיאך לבך ותחשב שהגיעו לך ענינו מפעם אחת או מעשרה הרי הש״י יודע שהשיאך על שקר ולכן לא תמהר בקריאתו כי אני לא חברתי כפי מה שנזדמן לי אלא לאחר עיון גדול והתבוננות ואחר שראיתי דעות ברורות אמיתיות וזולתי אמיתיות וידעתי מה שהוא ראוי להאמן מהם והבאתי ראיה בטענות וראיות על כל ענין וענין ומהש״י להפיקני רצוני ולהדריכני בדרך הטובה ואחזור לענין הפרק:
Eis que me alonguei e saí do tema da minha obra; mas fi-lo por ver nisso proveito para a fé, pois reuni aqui coisas úteis, dispersas em grandes livros. Conhece-as, prospera com elas, e volta a elas muitas vezes, ponderando-as bem; e, se o teu coração te iludir, pensando que lhes alcançaste o sentido numa só vez ou em dez, sabe que D'us sabe que te iludiu com falsidade. Por isso não te apresses na leitura, pois não as compus conforme me ocorreu, mas após grande exame e ponderação, depois de ver opiniões verdadeiras e não verdadeiras, e de saber o que delas convém crer, trazendo prova e argumento sobre cada assunto. E oro a D'us que me conceda o meu desejo e me guie pelo bom caminho. E volto ao tema do capítulo.
Os Treze Princípios na tradição. Estes são os Sheloshá Asar Ikarim, o credo que o Rambam formulou aqui e que entrou na liturgia como o Ani Maamin e o hino Yigdal. A sua arquitetura racional: os cinco primeiros são sobre D'us (existe, é uno, incorpóreo, eterno, e só a Ele se serve); os quatro seguintes, sobre a profecia e a Torá (a profecia, a singularidade de Moisés, a origem divina da Torá e a sua imutabilidade); os quatro últimos, sobre providência e destino (D'us conhece e julga, recompensa e pune, traz o Messias e ressuscita os mortos). É a tentativa mais influente de definir o que o judaísmo exige crer — e por que crer, para o Rambam, é um ato da razão.

עִיּוּן · comentário e fontes

Com os Treze Princípios o Rambam fecha a sua Introdução e funda algo novo: um credo para o judaísmo, articulado pela razão. Não é uma lista devocional — é uma sequência argumentada, que parte de D'us e desce até o destino da alma.

Mishnê Torá, Hilchot Yesodei HaTorá 1–10. Os dez primeiros capítulos dos Fundamentos da Torá codificam em linguagem haláchica o que os princípios 1–7 enunciam: a existência, unidade, incorporeidade, eternidade de D'us; a proibição da idolatria; a natureza da profecia e a singularidade de Moisés.

Guia dos Perplexos I:1–70. Sessenta e nove capítulos dedicados à teologia negativa — como compreender os atributos bíblicos sem atribuir corporeidade a D'us. É a exposição filosófica completa dos princípios 1–3.

Crescas, Or Hashem. R. Chasdai Crescas (séc. XIV) dedicou toda a sua obra a examinar criticamente os Treze Princípios. Argumentou que alguns não são "fundamentos" no sentido estrito (p.ex., a eternidade divina segue-se da existência necessária; a providência segue-se da onisciência) — e propôs uma redução a seis. O debate mostra que os Ikarim não foram aceitos sem contestação interna.

Albo, Sefer HaIkkarim. R. Yosef Albo (séc. XV) reduziu os fundamentos a três raízes (shorashim): existência de D'us, Torá dos Céus e recompensa/castigo. Para Albo, os demais derivam logicamente destes três. O seu sistema é mais econômico; o do Rambam, mais explícito — ambos operam na mesma tradição racionalista.

Encerrada a Introdução do Rambam, o estudo retorna às Mishnayot do capítulo — quem são os reis e as gerações "sem porção" — e às sugyot da Gemará sobre a ressurreição e os dias do Messias.