Rambam · Introdução ao Perek Chelek

Parte II — como ler as palavras dos sábios

הַקְדָּמַת הָרַמְבַּ״ם — חֵלֶק ב׳
Introdução do Rambam ao Perek Chelek · Parte II — como ler as palavras dos sábios
רַמְבַּ״םComentário à Mishná · Introdução ao Perek Chelek (II)
§11
וממה שאתה צריך לדעת כי דברי חכמים ז״ל נחלקו בם בני אדם לשלשה כתות:
E algo que precisas saber: quanto às palavras dos sábios, de abençoada memória, as pessoas dividem-se em três grupos.
§12
הראשונה והוא רוב מה שראיתי ואשר ראיתי חבוריו ומה ששמעתי עליו הם מאמינים אותם על פשטם ואין סוברין בהם פירוש נסתר בשום פנים והנמנעות כלם הם אצלם מחויבות המציאות ואמנם עושין כן לפי שלא הבינו החכמה והם רחוקים מן התבונות ואין בהם מן השלמות כדי שיתעוררו מאליהם ולא מצאו מעורר שיעורר אותם סוברין שלא כוונו החכמים ז״ל בכל דבריהם הישרים והמתוקנים אלא מה שהבינו לפי דעתם מהם ושהם על פשוטם ואע״פ שהנראה מקצת דבריהם יש בהם מן הדבה והריחוק מן השכל עד שאילו סופר על פשוטו לעמי הארץ כל שכן לחכמים היו תמהים בהתבוננם בהם והם אומרים היאך יתכן שיהיה בעולם אדם שיחשוב בזה או שיאמין שהיא אמונה נכונה ק״ו שייטיב בעיניו וזו הכת עניי הדעת יש להצטער עליהם לסכלותם לפי שהם מכבדין ומנשאין החכמים כפי דעתם והם משפילים אותם בתכלית השפלות והם אינם מבינין זה
O primeiro — e é a maioria daqueles que vi, cujas obras vi e de quem ouvi falar — acredita nelas segundo o seu sentido literal, e não admite nelas, de modo algum, interpretação oculta; e todos os relatos impossíveis são, para eles, de existência necessária. Assim agem por não terem compreendido a sabedoria, por estarem longe das ciências e não terem em si a perfeição que os desperte por si mesmos, nem acharem quem os despertasse. Pensam que os sábios, em todas as suas palavras retas e bem ordenadas, não pretenderam senão aquilo que eles próprios entenderam, segundo o seu juízo, e que tudo é para tomar ao pé da letra — ainda que o sentido aparente de parte dessas palavras contenha o que é absurdo e afastamento da razão, a ponto de, se fossem narradas literalmente aos ignorantes — quanto mais aos sábios! —, estes se espantariam, dizendo: "como é possível haver no mundo quem pense ou creia que isto é crença correta, quanto mais que lhe pareça boa?" Sobre este grupo, de pobres de entendimento, há que se lamentar pela sua tolice: pois honram e exaltam os sábios conforme o seu próprio juízo, mas de fato os rebaixam ao extremo, sem o perceber.
וחי השם יתברך כי הכת הזה מאבדים הדרת התורה ומאפילים זהרה ומשימים תורת ה׳ בהפך המכוון בה לפי שהשם יתברך אמר בתורה התמימה אשר ישמעון את כל החוקים האלה ואמרו רק עם חכם ונבון הגוי הגדול הזה והכת הזאת מספרים משפטי דברי החכמים ז״ל מה שכששומעין אותו שאר האומות אומרים רק עם סכל ונבל הגוי הקטן הזה
Por D'us, este grupo destrói o esplendor da Torá e escurece o seu brilho, e faz da Torá de D'us o oposto do que ela pretende — pois D'us disse, na Torá perfeita, que as nações, ao ouvirem "todas estas leis", diriam "certamente este grande povo é gente sábia e perspicaz"; mas este grupo expõe os juízos das palavras dos sábios de tal modo que, ao ouvi-los, as demais nações dizem "certamente este pequeno povo é gente tola e vil".
Deuteronômio 4:6 אֲשֶׁר יִשְׁמְעוּן אֵת כׇּל הַחֻקִּים הָאֵלֶּה וְאָמְרוּ רַק עַם חָכָם וְנָבוֹן הַגּוֹי הַגָּדוֹל הַזֶּה "Quando ouvirem todas estas leis, dirão: certamente este grande povo é gente sábia e perspicaz." O Rambam inverte ironicamente o versículo: a leitura literal grosseira dos aggadot faz com que as nações digam o contrário — "gente tola e vil". Este é o dano moral que a ingenuidade hermenêutica causa: não apenas prejudica o leitor, mas difama a própria Torá perante o mundo.
ורוב מה שעושין זה הדרשנים שהן מפרשין ומודיעין להמון העם מה שאינם יודעין ומי יתן אחר שלא ידעו ולא הבינו שיהיו שותקין כמו שאמר מי יתן החרש תחרישון ותהי להם לחכמה או שיהיו אומרים אין אנו מבינים כוונת החכמים בזה המאמר ולא היאך יתפרש אבל הם מחשבים שהם מבינים אותו ומשתדלים להודיעו לפרש לעם מה שהבינו הם עצמם כפי דעתם החלושה לא מה שאמרו חכמים ודורשין בראשי העם דרשות ממסכת ברכות ופרק חלק וזולתם על פשטם מלה במלה:
E quem mais faz isto são os pregadores (darshanim), que interpretam e ensinam à multidão o que eles mesmos não sabem. Oxalá, já que não sabiam nem compreendiam, ficassem calados — como se disse: "quem dera ficásseis de todo em silêncio, e isso vos seria por sabedoria" —, ou dissessem: "não compreendemos a intenção dos sábios neste dito, nem como se há de interpretar". Mas imaginam que o compreendem, e empenham-se em divulgá-lo, expondo ao povo o que eles próprios entenderam segundo o seu débil juízo — não o que os sábios disseram — e pregam ao povo textos do tratado Berachot e do capítulo Chelek e de outros, ao pé da letra, palavra por palavra.
Jó 13:5 מִי יִתֵּן הַחֲרֵשׁ תַּחֲרִישׁוּן וּתְהִי לָכֶם לְחׇכְמָה "Quem dera ficásseis de todo em silêncio — e isso vos seria por sabedoria." O Rambam aplica à pregação literal o reproche de Jó a seus consoladores: melhor calar do que ensinar o que não se entende. Nota-se que ele menciona especificamente "tratado Berachot" e "Perek Chelek" — exatamente os textos que contêm as aggadot mais fantásticas, e que portanto mais exigem leitura figurativa.
§13
והכת השניה הם רבים ג״כ והם אותם שראו דברי החכמים או שמעום והבינו אותם כפי פשוטו וחשבו שלא כוונו חכמים בו זולתי מה שמורה עליו פשט הדבר והם באים לסכל אותם ולגנותם ומוציאין דבה על מה שאין בו דבה וילעגו על דברי חכמים ושכלם יותר זך מהם ושהם ע״ה נפתים גרועי השכל סכלים בכלל המציאות עד שלא היו משיגים דבר חכמה בשום פנים ורוב הנכשלים בזה השבוש המתיחסים לחכמת הרפואות והמהבילים בגזרת הכוכבים לפי שהם במחשבתם נבונים וחכמים בעיניהם ומחודדים ופילוסופים וכמה הם רחוקים מן האנושית אצל אותם שהם חכמים ופילוסופים על האמת אבל הם סכלים יותר מן הכת הראשונה והרבה מהם פתיות והוא כת ארורה לפי שהם משיבים על אנשים גדולים ונשיאים אשר נתבררה חכמתם לחכמים ואלו הפתאים אילו היה עמלם בחכמות עד שיהיו יודעים היאך ראוי לסדר ולכתוב הדברים בחכמת האלהות והדומה להן מן הדברים אצל ההמון ואצל החכמים ויבינו החלק המעשיי מן הפילוסופיא אז היו מבינים אם החכמים ז״ל חכמים אם לא והיה מתבאר להם ענין דבריהם:
O segundo grupo — também são muitos — são os que viram as palavras dos sábios, ou as ouviram, e as entenderam segundo o sentido literal, pensando que os sábios não pretenderam senão o que esse sentido indica; e por isso vêm a tê-las por tolice, a denegri-las e a difamar o que não merece difamação, e escarnecem das palavras dos sábios, achando o próprio intelecto mais límpido que o deles, e que aqueles eram simplórios, de juízo deficiente, tolos quanto à realidade inteira, a ponto de não alcançarem coisa alguma de sabedoria. A maioria dos que tropeçam neste erro são os que se dizem da arte da medicina e os que desvariam com a astrologia — pois, em seu pensar, são entendidos e sábios a seus próprios olhos, agudos e filósofos; e quão longe estão da verdadeira humanidade, ante os que são sábios e filósofos de verdade! São mais tolos que o primeiro grupo, e muitos deles pura simploriedade. É um grupo amaldiçoado, pois respondem com desdém a homens grandes e mestres da Torá, cuja sabedoria se comprovou aos verdadeiros sábios. Se estes simplórios se tivessem esforçado nas ciências, até saberem como convém ordenar e escrever as coisas na ciência divina e afins — perante a multidão e perante os sábios — e compreendessem a parte prática da filosofia, então entenderiam se os sábios eram de fato sábios, e se lhes esclareceria o sentido das suas palavras.
Os dois erros simétricos. Ambos os grupos cometem o mesmo equívoco: leem a aggadá literalmente. O primeiro conclui que as coisas impossíveis devem ser verdadeiras; o segundo, que os sábios eram tolos. O Rambam é mais duro com o segundo — "grupo amaldiçoado" — porque ao menos o primeiro honra os sábios (ainda que os rebaixe sem saber). O segundo, ao zombar, ofende os grandes que a Torá produz. Note a referência a "médicos" e "astrólogos": o Rambam rejeitava a astrologia como pseudo-ciência (cf. sua Carta sobre a Astrologia à comunidade de Marselha).
§14
והכת השלישית והם חי השם מעטים עד מאד עד שאין ראוי לקרותם כת אלא כמו שיאמר לשמש מין ורק היא יחידה והם אותם בני אדם שנתברר אצלם גדולת החכמים ז״ל וטוב שכלם ממה שנמצא בכלל דבריהם מורים על ענינים אמתים למאד ואע״פ שהם מעטים ומפוזרים במקומות מחבוריהם הם מורים על שלמותם וכי הם השיגו האמת ושנתברר ג״כ אצלם מניעות הנמנע ומציאות המחויב להמצא וידעו כי הם ע״ה אינם מדברים התולים ונתאמת להם שדבריהם יש לו נגלה ונסתר וכי הם בכל מה שאומרים מן הדברים הנמנעים דברו בהם בדרך חידה ומשל כי הוא זה דרך החכמים הגדולים ולפיכך פתח ספרו גדול החכמים ואמר להבין משל ומליצה דברי חכמים וחידותם
O terceiro grupo — e, pela vida de D'us, são pouquíssimos, a ponto de não convir chamá-los "grupo", senão como se diz do sol que é uma "espécie", sendo ele único — são as pessoas a quem se tornou clara a grandeza dos sábios e a excelência do seu juízo, vendo que no conjunto das suas palavras há indicações de coisas sumamente verdadeiras; e, ainda que poucas e dispersas pelas suas obras, apontam para a sua perfeição e para que alcançaram a verdade. Tornou-se-lhes claro também a impossibilidade do impossível e a necessidade de existir do que deve existir; e souberam que aqueles não proferiam disparates, e que as suas palavras têm um sentido revelado e um sentido oculto, e que, em tudo o que dizem das coisas aparentemente impossíveis, falaram por via de enigma e parábola — pois este é o caminho dos grandes sábios. Por isso o maior dos sábios abriu o seu livro dizendo: "para entender provérbio e eloquência, as palavras dos sábios e os seus enigmas".
Provérbios 1:6 לְהָבִין מָשָׁל וּמְלִיצָה דִּבְרֵי חֲכָמִים וְחִידֹתָם "Para entender provérbio e eloquência, as palavras dos sábios e os seus enigmas." O Rambam faz de Salomão a prova escriturária de que a linguagem figurativa é o veículo natural dos sábios: o maior deles abriu a sua obra declarando que os ditos dos sábios são mashal (parábola) e chidá (enigma). Logo, lê-los literalmente é violar a intenção original.
וידוע הוא אצל בעל הלשון כי חידה הוא הדבר שהמכוון בו בנסתר לא בנגלה ממנו וכמו שאמר אחודה נא לכם חידה וגו׳ לפי שדברי החכמים כולם בדברים העליונים שהם התכלית אמנם הם חידה ומשל והיאך נאשימם על שמחברים החרמה על דרך משל ומדמים אותם בדברים הפחותים ההמוניים ואנו רואים החכם מכל האדם עשה זה ברוח הקדש ר״ל שלמה במשלי ושיר השירים ובמקצת קהלת ואיך יקשה עלינו לסבור פירוש על דבריהם ולהוציאם מפשטם כדי שיאות לשכל ויסכים עם האמת ועם היותם כתבי הקדש
E é sabido, entre os que dominam a língua, que "enigma" (chidá) é aquilo cuja intenção está no oculto, não no revelado — como em: "proporei a vós um enigma". Pois as palavras dos sábios, quando versam sobre as coisas elevadas que são o fim último, são enigma e parábola; e como os acusaríamos por exporem a sabedoria por via de parábola, comparando-a a coisas baixas e comuns? Vemos o mais sábio dos homens fazê-lo pelo espírito santo — quero dizer, Salomão, em Provérbios, no Cântico dos Cânticos e em parte de Eclesiastes. E por que nos seria difícil interpretar as palavras dos sábios, tirando-as do sentido literal para que se ajustem à razão e concordem com a verdade, sendo elas escritos sagrados?
Juízes 14:12 — o enigma de Sansão: אָחוּדָה נָּא לָכֶם חִידָה "Proporei a vós um enigma." O Rambam usa esta ocorrência bíblica para definir o gênero chidá: uma declaração cujo sentido real está escondido sob o aparente. Assim como o enigma de Sansão não se resolvia pela superfície ("do que come saiu comida"), os ditos aggádicos não se resolvem pelo literal.
והם בעצמם סוברים בפסוקי המקרא ומוציאים אותם מפשוטם ומשימין אותם משל והוא האמת כמו שאנו מוציאים שאמרו בפירוש פסוק הוא הכה את שני אריאל מואב שהוא כלו משל וכן מה שנאמר והוא ירד והכה את הארי בתוך הבור משל וכן מה שנאמר מי ישקני מים מבור בית לחם ושאר הספור כלו משל וכן ספור איוב בכללו אמרו קצתם משל היה ולא פירש לאיזה דבר הושם זה המשל וכן מתי יחזקאל אמרו קצתם משל היה ורבים כאלה.
E eles próprios interpretam versículos da Escritura, tirando-os do literal e fazendo-os parábola — e isto é a verdade. Como vemos no que disseram ao interpretar o versículo "ele feriu os dois ariéis de Moab" — que é tudo parábola; e "desceu e feriu o leão dentro da cova" — parábola; e "quem me dera beber água do poço de Belém" — e toda a narrativa, parábola; e a história inteira de Jó: alguns disseram que era parábola, sem explicar para que fim foi posta; e sobre os mortos revividos de Ezequiel, alguns disseram que era parábola. E muitos casos como estes.
Fontes talmúdicas citadas:
Berachot 18b — sobre II Samuel 23:20: הוּא הִכָּה אֶת שְׁנֵי אֲרִיאֵל מוֹאָב ("ele feriu os dois ariéis de Moab") — a Guemará interpreta como parábola referente a feitos espirituais, não a combate literal.
Bava Kama 60b — sobre II Samuel 23:15–17: מִי יַשְׁקֵנִי מַיִם מִבֹּאר בֵּית לֶחֶם ("quem me dera beber água do poço de Belém") — a Guemará explica que Davi perguntava uma questão haláchica, não pedia água literal.
Bava Batra 15aאִיּוֹב לֹא הָיָה וְלֹא נִבְרָא אֶלָּא מָשָׁל הָיָה ("Jó não existiu nem foi criado; era parábola").
Sanhedrin 92b — sobre Ezequiel 37 (a visão dos ossos secos): מָשָׁל הָיָה — alguns sustentam que era parábola, não ressurreição literal.
ואם אתה המעיין מאחת השתי כתות הראשונות לא תשגיח בדברי ולא בשום דבר מזה הענין לפי שלא יהיה נאות לך שום דבר ממנו אבל יזיקך ותשנאהו והיאך יאתו המאכלין הקלים המעטים מכמותם הישרים באיכותם לאדם שהרגיל במאכלים הרעים אבל באמת הם מזיקים לו והוא שונא אותם הלא ידעת מה אמרו האנשים שהיו רגילים לאכול בצלים ושומים והדגים ונפשנו קצה וגו׳. ואם אתה מן הכת השלישית כשתראה דבר מדבריהם שהדעת מרחיק אותו תעמוד ותתבונן בו ודע שהוא חידה ומשל ותשכב עשוק הלב וטירוד הרעיון בחבורו ובסברתו ותחשוב למצא כוונת השכל ואמונת היושר כמו שנאמר למצוא דברי חפץ וכתוב יושר דברי אמת ואז תסתכל בספרי זה ויועיל לך בע״ה:
E se tu, ó leitor, és de um dos dois primeiros grupos, não dês atenção às minhas palavras nem a coisa alguma deste assunto — pois nada disto te convirá; antes te prejudicará e o odiarás. Como hão de convir alimentos leves, poucos em quantidade mas retos em qualidade, a quem se habituou a alimentos ruins? Na verdade lhe são nocivos, e ele os odeia — não sabes o que disseram os que estavam habituados a comer cebolas, alhos e peixe: "e a nossa alma tem fastio deste pão vil"? Mas, se és do terceiro grupo — quando vires um dito deles que a razão afasta, detém-te e pondera-o, e sabe que é enigma e parábola; deita-te com o coração ocupado e o pensamento absorto em compreendê-lo, procurando encontrar a intenção da razão e a crença reta — como está dito: "buscou achar palavras de deleite, e escrever com retidão, palavras de verdade". E então examina este meu livro, e ele te será de proveito, se D'us quiser.
Números 21:5 — a queixa dos israelitas no deserto: וְנַפְשֵׁנוּ קָצָה בַּלֶּחֶם הַקְּלֹקֵל "E a nossa alma tem fastio deste pão vil." O Rambam usa esta imagem com ironia: assim como os israelitas, acostumados a cebolas e alhos do Egito, rejeitaram o maná, quem se habituou à leitura literal rejeita a interpretação profunda — o "alimento leve e correto" da razão.

Eclesiastes 12:10 בִּקֵּשׁ קֹהֶלֶת לִמְצֹא דִּבְרֵי חֵפֶץ וְכָתוּב יֹשֶׁר דִּבְרֵי אֱמֶת "Buscou o Kohelet achar palavras de deleite, e escrever com retidão, palavras de verdade."

עִיּוּן · comentário e fontes

Este é um dos textos fundadores da hermenêutica racionalista judaica. O Rambam separa quem lê a aggadá em três: os que tomam tudo ao pé da letra (e, querendo honrar os sábios, na verdade os ridicularizam); os que, lendo literalmente, zombam dos sábios; e o raro terceiro, que entende que as palavras difíceis dos sábios são enigma e parábola (chidá u-mashal), com um sentido oculto sob o aparente. O critério: o que a razão rejeita no sentido literal deve ser lido como metáfora.

Guia dos Perplexos, Introdução. O Rambam retorna à mesma tripartição com maior profundidade filosófica. Ali explica os sete gêneros de parábola nas Escrituras e nos ditos dos sábios, e formula a regra: nas parábolas, nem todo detalhe tem significado — apenas o sentido geral e a moral central. Tentar interpretar cada pormenor literal é tão errado quanto ignorar o conjunto.

Mishnê Torá, Hilchot Yesodei HaTorá 2:12. O Rambam aplica o princípio: quando os sábios descrevem os anjos com imagens corporais (asas, faces, fogo), falam por parábola — conforme o nível intelectual do ouvinte. A linguagem antropomórfica é pedagógica, não literal.

Ramban (Nachmanides), Torat HaAdam, Sha'ar HaGmul. O Ramban aceita que muitas aggadot são parábola, mas discorda do Rambam quanto ao grau: sustenta que a aggadá sobre o Gan Eden e o Geinom contém verdades mais literais do que o Rambam admite. O debate entre os dois — sobre onde termina a parábola e começa o literal — permanece central no pensamento judaico.

Com esta chave hermenêutica na mão, a Parte III revela a tese mais ousada do Rambam: o que é, de fato, o Olam Habá — uma felicidade da alma, não do corpo.