Sefer HaIkkarim · Maamar IV · Capítulo 33

Como o galardão e o castigo alcançam a alma

מַאֲמָר ד, פֶּרֶק לג
Rabi Yosef Albo (séc. XV) · hebraico de domínio público (Sefaria) · tradução fiel PT-BR

Como se concebe o galardão e o castigo da alma separada do corpo? A intenção do serviço persiste após a morte e adere aos intelectos separados que servem a D'us — num grau incomparavelmente maior, como a luz do planeta Vênus diante do sol. A apreensão desta vida é como o sonho; o deleite é "ver na vigília" o que se sonhou. O "vinho preservado em suas uvas". E o castigo: a alma do ímpio, com dois desejos opostos sem meio de satisfazê-los, sofre pior que o fogo — confinada a um lugar (gehinom) para receber a pena.

§ 1 · Pela primeira opinião: galardão de corpo e alma juntos

1 E o que é cabido que esclareçamos agora é como se imagina a chegada do galardão ou do castigo no mundo vindouro conforme as duas opiniões que escrevemos. E dizemos que quem diz que o cerne do galardão no mundo vindouro é para o corpo e para a alma juntamente — eis que, depois de que ele crê que a alma humana não tem a sua morada e a sua existência senão no corpo, e de que era o corpo um instrumento à alma para dar a ela a existência para fazer a vontade do seu Criador, eis que é dos juízos de D'us, os retos, que se pague ao corpo a recompensa do seu labor e do seu trabalho com que trabalhou no serviço do Senhor com a alma juntamente; e eis que a sua recompensa se dá quando for o homem completo permanente com corpo e alma após a ressurreição dos mortos; e dizem que isto será quando purificar o Senhor a matéria do corpo como a matéria das esferas ou das estrelas, e se manterá o corpo com a alma com uma manutenção eterna como a do manter-se das estrelas, que são viventes inteligentes com corpo e alma.

(הַדַּעַת הָרִאשׁוֹן) הַשָּׂכָר לַגּוּף וְלַנֶּפֶשׁ יַחַד — שֶׁיְּזַכֵּךְ הַשֵּׁם חֹמֶר הַגּוּף כְּחֹמֶר הַגַּלְגַּלִּים, וְיִתְקַיֵּם קִיּוּם נִצְחִי כַּכּוֹכָבִים.

§ 2 · O castigo eterno pela mesma opinião (Jó sobre o gehinom)

2 E, se o galardão é por este caminho como dizem os donos desta opinião, já se entenderá que seja o castigo eterno também por este caminho, ao inovar o Senhor, bendito seja, no corpo uma disposição tóar forte para receber e para suportar os castigos do gehinom guehinom, como disse Jó, a aludir sobre o gehinom: "uma terra de escuridão eifatá, como a treva ofel sombra de morte e sem ordens, e que se ilumina vatofa como a treva" (Jó 10:22) — diz que ele é como a sombra da morte e não como a morte mesma; e isto a fim de que reste nos ímpios a força de receber o castigo, pois, se fosse como a morte mesma, se consumiriam e não sentiriam depois o castigo.

וְהָעֹנֶשׁ נִצְחִי — תֹּאַר חָזָק לְקַבֵּל עָנְשֵׁי גֵיהִנֹּם. ״אֶרֶץ עֵיפָתָה כְּמוֹ אֹפֶל צַלְמָוֶת... וַתֹּפַע כְּמוֹ אֹפֶל״ — כְּצֵל הַמָּוֶת וְלֹא כַּמָּוֶת, שֶׁיִּשָּׁאֵר כֹּחַ לְקַבֵּל.

§ 3 · Pela opinião de Maimônides: a intenção persiste após a morte

3 E, contudo, se o galardão é para a alma e não para o corpo de modo algum, como a opinião do Rambam, de abençoada memória, se precisa de esclarecimento de como se imagina a chegada do castigo à alma separada da matéria; e isto se entenderá com a imaginação tziur do galardão. E a sua imaginação do galardão é por este caminho: que a alma, no seu separar-se do corpo após a morte, estará a ansiar e a desejar o que está na sua natureza pelo lado da intelecção que nela de servir o Senhor —, e se inclinará também ao que se habituou ao estar no corpo; e por isso o homem no] qual todos os seus atos são para o nome dos céus e para servir o Criador na feitura dos seus mandamentos, e a sua intenção é a de fazer a sua vontade conforme lhe alcançou a mão ao estar em vida — eis que aquela intenção mesma não se separa da alma após a morte e não a abandona, até que se adira aos intelectos separados que servem o Senhor, bendito seja, conforme o modelo daquela intenção mesma; senão que aquela intenção neles é num grau maior do que o primeiro, até o ponto de que quase ela é não-comparável a ela, ainda que sejam de uma espécie só.

(דַּעַת הָרַמְבַּ״ם) הַנֶּפֶשׁ תִּהְיֶה מִשְׁתּוֹקֶקֶת לְמַה שֶּׁבְּטִבְעָהּ — לַעֲבֹד הַשֵּׁם. אוֹתָהּ כַּוָּנָה לֹא תִפָּרֵד מֵהַנֶּפֶשׁ, עַד שֶׁתִּדְבַּק בַּשְּׂכָלִים הַנִּבְדָּלִים.

§ 4 · A analogia da luz de Vênus e da luz do sol

4 E isto é o que comparou Salomão a relação destas duas intenções, a uma à outra, à relação da luz do brilho noga — Vênus que ilumina antes do subir da aurora à luz do sol; disse "e a vereda dos justos é como a luz do brilho noga, a ir e a iluminar até o estabelecer-se do dia" (Provérbios 4:18) — quer dizer que, assim como o astro Vênus noga, quando está na distância a mais distante do amanhecer, ele sobe antes da manhã e ilumina a noite e não se move de iluminar sempre toda a manhã até que se fortaleça a luz do sol e seja o dia no seu estabelecer-se — e isto é "a ir e a iluminar até o estabelecer-se do dia" —, assim o caminho dos justos e a sua intenção no serviço do Criador nas suas vidas é um caminho estabelecido reto, que põe diante deles a treva como luz, como a luz do brilho que ilumina a noite, e não se retira de iluminar diante deles até o dia da morte, quando os deposita numa luz grande, espiritual, semelhante à luz que se chama "estabelecer-se do dia", que é não-comparável com a luz primeira de modo algum, ainda que ambas sejam de uma espécie só, como a luz do brilho é não-comparável com a luz do sol que produz o estabelecer-se do dia, ainda que ambas sejam da espécie da luz; e por isso a alma, quando se separar do corpo, se for sábia e a entender as coisas separadas da matéria e os assuntos divinos na sua verdade, se deleitará com um deleite maravilhoso ao ver que se coadunam as opiniões que entendeu com os assuntos divinos mesmos.

״וְאֹרַח צַדִּיקִים כְּאוֹר נֹגַהּ הוֹלֵךְ וָאוֹר עַד נְכוֹן הַיּוֹם״ — אוֹר נֹגַהּ בִּלְתִּי נֶעֱרָךְ עִם אוֹר הַשֶּׁמֶשׁ, אַף שֶׁשְּׁנֵיהֶם מִמִּין הָאוֹר.

§ 5 · A analogia do sonho e da vigília

5 Pois a intelecção que a alma entende ao estar em vida, o seu assunto é como o assunto do sonho chalom; e, assim como o deleite do sonho é coisa que fatiga e enche frustra o homem, se não se coadunar com ele a realidade, assim os inteligíveis da alma a afligem após a morte quando não se coadunar com eles a realidade, e, se se coadunar a realidade com eles — e isto ao serem eles verdadeiros —, se deleitará a alma com um deleite maravilhoso; pois, assim como, quando sonha o faminto e eis que está a comer, ou o sedento e eis que está a beber, e se desperta e eis que vazia está a sua alma (cf. Isaías 29:8), se aflige com uma aflição grande, e, quando se desperta e acha diante de si uma fonte de jardins e bebe, e uma mesa posta e sobre ela todas as espécies de iguarias, e come e se sacia e se deleita, deleita-se com um deleite maravilhoso ao estar a comer e a beber em ato, até o ponto de que não como comparar erech o deleite da comida e da bebida no sonho, que é na imaginação apenas, com aquele deleite que se dá em ato — assim se deleitará a alma ao alcançar em ato no mundo espiritual o que entendeu e alcançou no mundo este, que é semelhante à apreensão do sonho; até o ponto de que se diz, pelo caminho da imaginação e do entendimento figurado, que a relação da apreensão do intelecto no mundo este à apreensão da alma no mundo vindouro é como a relação do sonho à vigília yekitzá. E por isso o que comparou a Escritura a apreensão da volta de Sião, apreendida pela boca dos profetas, com ser ela verdadeira tal que não como duvidar nela, ao sonho, e disse "no voltar o Senhor a volta de Sião, fomos como sonhadores cholmim" (Salmos 126:1) — quer dizer: saberemos e reconheceremos que estávamos na nossa apreensão daquele assunto pela boca dos profetas como sonhadores, pois não havia como comparar o que apreendemos pela boca dos profetas com o que se verá em ato senão como a relação do sonho à vigília; e por isso, quando se vir a coisa em ato, nos alegraremos com uma alegria completa, e então "se encherá de riso a nossa boca" (Salmos 126:2). E assim também, se for a alma, ao estar em vida, com toda a sua intenção a servir o Senhor e a guardar os seus mandamentos e a perseguir a caridade e a bondade, se deleitará com um deleite maravilhoso no mundo das almas ao ver que os anjos e as formas superiores a sua subsistência e a sua perfeição é sobre este caminho apenas, quer dizer pelo lado do obedecer e do submeter-se para fazer a vontade do Senhor, bendito seja, como esclarecemos no capítulo cinco do Maamar terceiro.

הַהַשְׂכָּלָה בַּחַיִּים כְּעִנְיַן הַחֲלוֹם, וְהַתַּעֲנוּג בָּעוֹלָם הַבָּא כַּיְקִיצָה. ״בְּשׁוּב ה׳ אֶת שִׁיבַת צִיּוֹן הָיִינוּ כְּחֹלְמִים״. יַחַס הַשָּׂגַת הַשֵּׂכֶל אֶל הַהֹוֶה בְּפֹעַל כְּיַחַס הַחֲלוֹם אֶל הַיְקִיצָה.

§ 6 · A parábola do rei distante e do servo fiel pela fama

6 E isto é como um homem a quem se conta que há um rei grande nas cidades do mar, temível muitíssimo, que ama a caridade e a bondade e de que não vem perante ele um lisonjeiro, e que tem para ele tantos e tantos servidores, todos a estar no alto do mundo e a deleitar-se no relato dos louvores do seu rei e a fazer a sua vontade com um temor grande, e que o fim de todos os homens é o de estar diante daquele rei e de dar-lhe um cômputo de todos os atos que fizerem; e, sobre a base deste ouvir shemu'á, se encheu o coração daquele homem que ouve de vontade de andar nos caminhos da retidão e de servir o serviço daquele rei, e se esforçou a saber os atos que faz aquele rei e as coisas desejadas a ele, e trabalhou a fazer a sua vontade com todo o esforço da sua força; e, ao fim dos dias, quando chegou o seu tempo de ir à casa do rei e de estar diante dele e de receber contemplar a sua face, se alegrará e se regozijará e se deleitará com um deleite maravilhoso ao ver o esplendor da realeza do rei e o precioso da glória da sua grandeza, e ao ver os seus servidores a se postarem diante dele pelo modo que se lhe contou; e o rei se alegrará e se regozijará ao seu encontro, depois de ser ele conhecedor de que aquele homem servia por amor sobre a base do ouvir apenas —, que isto, sem dúvida, é cabido de recompensa maior do que quem reconhecia e conhecia o rei de antes; e por isso o aproximará o rei a si, pelo lado de ser ele um amante da caridade e da bondade, e pelo lado da retidão divina, como esclarecemos no capítulo quinze do Maamar segundo.

כְּאָדָם שֶׁסּוּפַר לוֹ עַל מֶלֶךְ גָּדוֹל... וְעָבַד מֵאַהֲבָה עַל פִּי הַשְּׁמוּעָה; וּכְשֶׁבָּא לִפְנֵי הַמֶּלֶךְ — יִתְעַנֵּג, וְהַמֶּלֶךְ יְקָרְבֶנּוּ.

§ 7 · O grau dos que creem pela tradição (os "justos", não os "sábios")

7 E este é o grau dos crentes sobre a base do ouvir e da tradição kabalá, e estes são os justos tzadikim que se arrastam após a tradição, sobre os quais disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "o mundo vindouro não há nele nem comida nem bebida, mas que os justos estão sentados e as suas coroas estão nas suas cabeças e se deleitam do brilho da Presença"; e por isso disseram "justos" e não disseram "sábios chachamim", para aludir sobre os crentes como escrevi; e disseram "e se deleitam do brilho da Presença ziv ha-Shechiná", para aludir que, assim como o homem se deleita das centelhas da luz que saem do sol, que fazem sair a sua vista da potência ao ato, quando for limpa a vista, assim se deleitará no mundo espiritual, quando for limpo dos pensamentos e das intenções, com os raios da luz intelectual que chegam a ele em ato, que se chamam "o brilho da Presença"; e não há força no dono de corpo de imaginar aquele deleite, e mesmo os profetas não puderam imaginá-lo, como disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "todos os profetas, todos eles, não profetizaram senão para os dias do Messias, mas para o mundo vindouro 'olho não viu, D'us, exceto tu o que Ele fará' (Isaías 64:3)" — quiseram nisto que, porque os deleites que estão nos dias do Messias serão para o corpo e para a alma juntos, é possível que se alcancem as imagens da sua suavidade no olho, quer dizer no sentido; mas o mundo vindouro, que é uma coisa espiritual simples, não se alcança a sua imagem por intermédio das faculdades corpóreas, e o que apreenderam dele os profetas não é senão o que ele é um deleite e um prazer espiritual apenas, e não outra coisa senão isto.

״צַדִּיקִים יוֹשְׁבִין וְנֶהֱנִין מִזִּיו הַשְּׁכִינָה״ — ״צַדִּיקִים״ וְלֹא ״חֲכָמִים״, רֶמֶז לַמַּאֲמִינִים. ״כָּל הַנְּבִיאִים לֹא נִתְנַבְּאוּ אֶלָּא לִימוֹת הַמָּשִׁיחַ... עַיִן לֹא רָאָתָה״.

§ 8 · O "vinho preservado em suas uvas"

8 E por isso o denominaram os nossos mestres, de abençoada memória, "o vinho preservado meshumar nas suas uvas", como disseram: "que é 'o olho não viu, D'us, exceto tu'? disse Rabi Yehoshua ben Levi: este é o vinho preservado nas suas uvas desde os seis dias da criação". E o esclarecer disto é que, assim como aquele que come as uvas se deleita no seu comê-las, e, se não viu vinho nos seus dias, não poderá avaliar que saia das uvas uma coisa mais suave e mais deleitosa e proveitosa do que elas, e aquele que lhe disser que alcançará no serviço da videira um deleite mais maravilhoso do que o comer das uvas se espantará disto e não acreditará que seja assim, mas, quando o fizerem beber do vinho, reconhecerá e saberá que o vinho que sai das uvas é mais louvado e mais suave e mais proveitoso do que as uvas, e se espantará de como saiu uma coisa tão extraordinária no deleite como esta das uvas — assim a alma não poderá avaliar que na feitura dos mandamentos alcançará o deleite espiritual que se alcança até que se separe do corpo, e então reconhecerá e saberá como aquele deleite se alcança na feitura dos mandamentos, como se alcança o vinho no serviço da vinha, e de que ele está reunido na disposição que chega da feitura dos mandamentos, como o vinho que está reunido nas uvas que se alcançam no serviço da vinha; e por isso se chamou "o vinho preservado nas suas uvas", para dizer que, assim como não semelhança entre o deleite das uvas e o deleite do vinho, assim não semelhança entre os deleites do mundo este e os deleites do mundo vindouro; e por isso se chamou "gan eden de cima", para indicar que a alma não poderá avaliar o deleite da coisa espiritual que está em cima ao estar ela neste mundo inferior.

״יַיִן הַמְשֻׁמָּר בַּעֲנָבָיו מִשֵּׁשֶׁת יְמֵי בְרֵאשִׁית״ — אֵין דִּמְיוֹן בֵּין תַּעֲנוּג הָעֲנָבִים לְתַעֲנוּג הַיַּיִן, כָּךְ אֵין דִּמְיוֹן בֵּין תַּעֲנוּגֵי הָעוֹלָם הַזֶּה לַבָּא.

§ 9 · O castigo da alma: os dois desejos opostos

9 E o assunto da aflição e do castigo para a alma é que, quando o homem na sua vida estava a perseguir após os desejos e as coisas corpóreas, e se separou a sua alma do fazer a vontade do Senhor, bendito seja, e habituou os seus atos conforme a natureza do corpo, que é o oposto da sua natureza da alma, eis que ela, quando se separar do corpo, ansiará por aquelas coisas nas quais se habituou e se inclinará a elas, e ela não tem para ela instrumentos kelim para alcançá-las; e pelo lado da sua natureza se inclinará a aderir-se às formas superiores e às coisas separadas da matéria e se desejará por elas, e ela não tem para ela princípios e aprendizado e hábito no serviço do Senhor, bendito seja, pois é impossível que alcance aquele deleite quem não habituou a sua alma nisso e não preparou a si mesmo para isto, como disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "não dá o Santo, bendito seja, a sabedoria senão a quem há nele sabedoria, conforme se diz 'Ele dá sabedoria aos sábios' (Daniel 2:21)"; e por isso estará a alma a desejar pelos dois lados juntamente — o lado de cima maalá e o lado de baixo matá —, o um pelo lado da sua natureza, e o outro pelo lado do hábito e do costume; e ela não tem instrumentos com os quais alcance o lado de baixo, nem preparação com a qual alcance o lado de cima; e nisto há para ela uma aflição que faz doer mais do que toda aflição que há no mundo e mais de todas as espécies da separação da junção peruk chibur — mais do que a queima do fogo, e mais do que a aflição do frio e do gelo terrível, e mais do que a pancada das facas e das espadas e da mordida das serpentes e dos escorpiões.

הַנֶּפֶשׁ הָרְשָׁעָה תִּכְסֹף לַשְּׁנֵי צְדָדִין: מַעֲלָה (מִצַּד טִבְעָהּ) וּמַטָּה (מִצַּד הַהֶרְגֵּל), וְאֵין לָהּ כֵּלִים לְמַטָּה וְלֹא הֲכָנָה לְמַעֲלָה — צַעַר מַכְאִיב יוֹתֵר מִכָּל צַעַר.

§ 10 · Por que esse sofrimento é o pior (a parábola da queimadura)

10 Pois, assim como se aflige o homem muito quando se queima no fogo — e não é aquela aflição para o corpo, mas para a alma, e não pelo lado de que domine nela o fogo, pois não o fogo a dominar numa coisa espiritual, mas, do facto de que a faculdade vital koach chiyoni é uma faculdade no corpo e reside nele ao estarem as suas partes aderidas umas às outras, e, quando sentir a alma a separação das partes do corpo umas das outras por meio do fogo ou do frio ou por meio da espada ou outra coisa que não isto das espécies da separação da junção, e sentir a aflição da faculdade vital, que se aflige no separar-se das partes do corpo que lhe são morada e se preocupa sobre a sua perda, depois de que a sua subsistência está pendente da adesão das suas partes, se aflige então a alma sobre a aflição da faculdade vital, que lhe é morada, e se preocupa sobre a separação da sua junção dela — assim a alma mesma, depois de que se separou do corpo, ao estar ela a se estender para os dois lados opostos que dissemos — o lado de cima pelo lado da sua natureza e o lado de baixo pelo lado do hábito —, se aflige com uma aflição extraordinária, como se as suas partes se separassem umas das outras; e, ainda que ela não tenha partes, se diz assim pelo caminho do dar o entendimento figurado, para dizer que há para ela dois desejos opostos e não há nela a capacidade de se estender a um deles apenas; e isto é o que disseram os nossos mestres, de abençoada memória, no tratado Shabat, no capítulo "Sho'el": "foi ensinado Rabi Eliezer diz: as almas dos justos estão guardadas sob o trono da glória, conforme se diz 'e será a alma do meu senhor amarrada no feixe da vida com o Senhor teu D'us' (I Samuel 25:29); e as dos ímpios — um anjo está deno fim do mundo e outro anjo no seu outro fim, e a arremessam mekalin desta para aquela, conforme se diz 'e a alma dos teus inimigos Ele a arremessará no côncavo da funda kaf ha-kela' (I Samuel 25:29)" — e isto para aludir sobre os dois desejos opostos que ela tem; e a dos justos, que não têm para eles um desejo ao lado de baixo, se adere imediatamente ao que está na sua natureza, que é o residir sob o trono da glória; e, assim como o deleite é acima de todos os deleites que é possível que se imaginem, como dissemos acima, assim a aflição é maior do que toda aflição que é possível que se imagine.

״נַפְשׁוֹת הַצַּדִּיקִים גְּנוּזוֹת תַּחַת כִּסֵּא הַכָּבוֹד... וְשֶׁל רְשָׁעִים... מְקַלְּעִין אוֹתָהּ... וְאֵת נֶפֶשׁ אוֹיְבֶיךָ יְקַלְּעֶנָּה בְּתוֹךְ כַּף הַקֶּלַע״ — שְׁתֵּי תְשׁוּקוֹת הֲפָכִיּוֹת.

§ 11 · A alma confinada a um lugar para receber a pena (Antonino e Rabi)

11 E já se esclareceu no capítulo dezessete do Maamar segundo que a alma, ainda que não esteja num lugar pelo lado de que não é um corpo, já a delimita o lado tzad a fim de que receba aflição, assim como a delimita o corpo, ainda que não esteja num lugar; e isto é o que disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "disse-lhe Antonino a Rabi: 'é possível ao corpo e à alma se eximirem do juízo? o corpo diz: a alma pecou, pois desde o dia em que se separou de mim, eis que eu sou como uma pedra lançada no túmulo; e a alma diz: o corpo pecou, pois, desde o dia em que me separei dele, eis que eu sou como um pássaro a voar no ar'; disse-lhe: 'contar-te-ei uma parábola a que a coisa se assemelha? a um rei de carne e sangue' etc.; também o Santo, bendito seja, traz a alma e a arremessa no corpo e os julga como um, conforme se diz 'Ele chamará aos céus de cima e à terra para julgar o seu povo amo' (Salmos 50:4): 'aos céus de cima' — esta é a alma; 'e à terra para julgar o seu povo' — este é o corpo'" etc.

״אָמַר לוֹ אַנְטוֹנִינוּס לְרַבִּי: יְכוֹלִין גּוּף וּנְשָׁמָה לִפְטֹר עַצְמָן מִן הַדִּין?... אַף הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא מֵבִיא אֶת הַנְּשָׁמָה וְזוֹרְקָהּ בַּגּוּף וְדָן אוֹתָם כְּאֶחָד״.

§ 12 · O sentido: o "corpo" é o lugar (gehinom) que delimita a alma

12 O que me parece nisto é que a sua intenção é a de dizer que, ainda que a alma seja uma coisa espiritual que não se apreende num lugar, o Senhor, bendito seja, a delimita num lugar — e ele é o que se chamou "corpo" — a fim de que receba aflição e castigo sobre os seus atos; e aquele lugar se chama "gehinom"; e o chamaram "corpo" para dizer que, assim como o corpo delimita um lugar à alma — pois, ainda que ela não esteja num lugar, depois de que não está fora do corpo ela está delimitada no corpo por via de necessidade —, assim o lugar do gehinom, que se chamou "corpo", delimitará a alma a fim de que receba nele o seu castigo.

הַשֵּׁם יַגְבִּילָהּ בְּמָקוֹם (שֶׁקְּרָאוֹ ״גּוּף״) כְּדֵי שֶׁתְּקַבֵּל צַעַר, וְהוּא הַנִּקְרָא גֵּיהִנֹּם.

§ 13 · O castigo precisa de lugar, mas o galardão não

13 E observa atentamente nesta sentença deles, que não a disseram senão sobre o castigo e a aflição — pois não se imagina que chegue um castigo à alma senão ao estar ela delimitada num lugar —, mas não a disseram sobre o galardão e o deleite espiritual, pois isto já se imagina que o alcance a alma sem a delimitação de um lugar. E talvez este foi o lugar do erro para aqueles que disseram que é preciso que se purifiquem os corpos para o receber do galardão e que não há galardão para a alma sem o corpo — que pensaram que, assim como se mencionou a delimitação de um lugar para o juízo, que é o castigo, assim se precisa de a delimitação de um lugar para o receber do galardão; e não é assim, pois o castigo e o galardão para a alma apenas é são ambos da alma só, senão que se precisa da delimitação de um lugar para o receber do castigo, e não é assim no galardão, como esclarecemos.

הַמַּאֲמָר רַק עַל הָעֹנֶשׁ — שֶׁאֵין עֹנֶשׁ לַנֶּפֶשׁ אֶלָּא בִּהְיוֹתָהּ מֻגְבֶּלֶת בְּמָקוֹם; אֲבָל הַשָּׂכָר יְצֻיַּר בְּזוּלַת הַגְבָּלַת מָקוֹם — וְזֶה הָיָה מְקוֹם הַטָּעוּת.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

Como uma alma incorpórea pode ser recompensada ou punida

O capítulo enfrenta a questão mais difícil da escatologia maimonidiana: se o galardão e o castigo são da alma separada do corpo, como concebê-los? Comida, fogo, prazer físico — tudo isso exige um corpo. Albo primeiro despacha a posição da primeira escola (corpo+alma após a ressurreição): para ela, o galardão é simples — o corpo purificado "como a matéria das esferas" subsiste eternamente; e o castigo, simétrico — D'us cria no corpo "uma disposição forte para suportar o gehinom", de modo que o ímpio não se consuma e continue a sentir a pena (o gehinom de Jó 10:22, "como sombra da morte, não como a morte mesma"). Mas o foco do capítulo é a via de Maimônides, mais sutil.

A intenção que persiste e adere

A chave do galardão é a continuidade da intenção. A alma do servo fiel — "cujos atos foram todos para o nome dos céus" — leva consigo essa mesma intenção para além da morte; ela "não se separa da alma" e a conduz a "aderir-se aos intelectos separados que servem a D'us segundo o modelo dessa mesma intenção". A diferença é só de grau: a mesma espécie de serviço, mas num nível "quase incomparável". A imagem de Salomão (Pv 4:18) capta-o: a "vereda dos justos é como a luz de noga (Vênus)" que brilha na noite "até o estabelecer-se do dia" — e a luz de Vênus, embora da mesma espécie da luz solar, é incomparável a ela. O serviço terreno é a aurora; o galardão é o pleno dia.

O sonho e a vigília

A segunda grande analogia define a natureza do deleite. O conhecimento alcançado em vida "é como o sonho"; o deleite do além é ver na vigília o que se sonhou. O sonho do faminto que come e desperta "com a alma vazia" aflige; mas despertar e achar diante de si "fonte de jardins e mesa posta" — comer em ato — deleita incomparavelmente. Assim a alma, ao alcançar em ato no mundo espiritual o que entendera em potência nesta vida, deleita-se ao ver "que as opiniões que entendeu se coadunam com os assuntos divinos mesmos". (E há uma condição implícita e severa: se o que a alma "entendeu" for falso, não coincidirá com a realidade — e isso a aflige; o deleite supõe que tenha apreendido a verdade.) Albo ancora a imagem em Salmos 126:1 — "no voltar de Sião, fomos como sonhadores": mesmo a redenção profetizada, real e certa, é "sonho" diante de sua realização em ato.

O servo pela fama e os "justos", não os "sábios"

A parábola do rei distante — o homem que, só pelo ouvir (shemu'á) da grandeza de um rei que ama caridade e detesta lisonja, se devota a servi-lo, e ao fim contempla sua glória em pessoa — eleva uma tese cara a Albo: quem serve pela fé/tradição (por amor, sem ter "conhecido" o rei) merece recompensa maior do que quem já o conhecia. Por isso o dito "no mundo vindouro os justos sentados... deleitam-se do brilho da Shechiná" diz "justos" (tzadikim) e não "sábios" (chachamim) — aludindo aos crentes. É a continuação do anti-intelectualismo do cap. 29: o céu é dos que servem, não necessariamente dos que especulam. E o "brilho da Shechiná" é o deleite da luz intelectual recebida quando a alma está "limpa de pensamentos e intenções" — deleite que "nem os profetas puderam imaginar" ("olho não viu, D'us, exceto tu", Is 64:3, pois os profetas só profetizaram "para os dias do Messias", corpóreos e imagináveis, não para o mundo vindouro, espiritual puro).

O vinho nas uvas

A imagem mais bela do capítulo é o "vinho preservado em suas uvas desde os seis dias da criação" (R. Yehoshua ben Levi, Berachot 34b). Quem só conhece uvas não imagina que delas saia algo "mais suave e deleitoso" — o vinho; e se lhe dissessem que o "serviço da vinha" produz prazer maior que comer uvas, não acreditaria, até provar. Assim a alma não pode avaliar, em vida, o deleite espiritual que a observância dos mandamentos produz — "está reunido na disposição que vem da feitura dos mandamentos, como o vinho está reunido nas uvas". Só após separar-se do corpo "reconhecerá como aquele deleite se alcança na feitura dos mandamentos, como o vinho se alcança no serviço da vinha". E como "não há semelhança entre o deleite das uvas e o do vinho, assim não há semelhança entre os deleites deste mundo e do vindouro" — daí o "gan eden de cima", impensável daqui.

O castigo: o dilaceramento dos desejos opostos

O castigo da alma é construído por simetria invertida do galardão. A alma do ímpio, que em vida "perseguiu os desejos corpóreos contra a sua própria natureza", fica após a morte dilacerada por dois desejos opostos e insatisfazíveis: por hábito, anseia pelas coisas corpóreas — mas não tem mais instrumentos (o corpo) para alcançá-las; por natureza, anseia aderir às formas superiores — mas não tem preparação (não habituou a alma ao serviço) para alcançá-las. Esse impasse é "aflição que dói mais que toda aflição do mundo, mais que a queima do fogo". Albo explica por que a queimadura física dói tanto (a alma sofre ao sentir a "separação das partes do corpo" que é morada da força vital) — e a alma do ímpio sofre como se suas próprias "partes se separassem", embora não tenha partes: a metáfora dos dois desejos que a "puxam" para extremos opostos. O Talmud (Shabat 152b): as almas dos justos "guardadas sob o trono da glória", as dos ímpios "arremessadas de um anjo a outro, na funda" (I Sm 25:29) — os dois desejos em conflito. O justo, sem desejo "para baixo", adere imediatamente à sua natureza.

O lugar do castigo — e a refutação final

A última peça resolve um problema técnico e, de quebra, dá o golpe final no debate dos caps. 30–31. Como punir uma alma incorpórea, que não está "num lugar"? Albo (remetendo ao Maamar II) responde: D'us a delimita a um "lugar" — chamado gehinom, e metaforicamente "corpo" (no diálogo de Antonino e Rabi, Sanhedrin 91b: D'us "lança a alma no corpo e os julga como um") — pois "não se imagina castigo a uma alma senão estando ela delimitada". E aqui o detalhe decisivo: esse princípio foi dito só sobre o castigo, nunca sobre o galardão. O deleite a alma o alcança sem delimitação de lugar; só a pena requer um "lugar". E — conclui Albo triunfante — "talvez este foi o lugar do erro" dos que sustentaram (cap. 30, a escola de Nachmânides) que "é preciso purificar os corpos para receber o galardão": confundiram, projetando sobre a recompensa a necessidade de "lugar/corpo" que vale apenas para o castigo. Tanto a recompensa quanto o castigo são da alma só — mas só o castigo precisa de um lugar. A assimetria sela a vitória da posição maimonidiana.