Feito o pecado, como o arrependimento e a confissão o desfazem? Não restituem a vítima nem o Shabat profanado — como reconstruir uma casa "com palavras". A resposta: louvor e censura recaem só sobre o ato voluntário; o feito por coação ou erro não se imputa. E a ação define-se pela vontade de mantê-la: quem se arrepende de verdade revela que o ato primeiro foi "em erro e sem conhecimento". Daí a teshuvá o torna como não-feito — e por graça se conta por mérito.
1 Ocorre no assunto da teshuvá uma dúvida grande, conforme o que se estabeleceu do seu assunto, e ela é esta: que, depois de que se fez a transgressão em ato, que aproveitará a teshuvá com o arrependimento e com a confissão? E acaso aquele que mata uma alma ou que profana o Shabat e se voltou em teshuvá com a sua boca e com o seu coração, como dissemos — acaso volta a alma do assassinado a ele com a confissão e o arrependimento, ou o Shabat profanado — acaso volta a ser guardado nisto? E eis que isto se assemelha a quem desmancha a casa em ato e volta e a edifica com a sua boca, pois não se edificará jamais com a abundância das palavras no "senta-te e não faças"; e, sendo assim, como é possível que baste uma teshuvá como esta para depurar e para branquear o pecado que se fez em ato? E esta coisa precisa de esclarecimento de qual lado é possível que aproveite a teshuvá ao dono de teshuvá.
אַחַר שֶׁנַּעֲשֵׂית הָעֲבֵרָה בְּפֹעַל, מַה תּוֹעִיל הַתְּשׁוּבָה? הַתָּשׁוּב נֶפֶשׁ הַנִּרְצָח אֵלָיו בְּוִדּוּי? כְּמִי שֶׁסָּתַר הַבַּיִת וְחוֹזֵר וּבוֹנֶה אוֹתוֹ בְּפִיו.
2 E dizemos que as ações humanas sobre as quais se louva o homem ou se censura, eis que elas são as ações voluntárias retzoniot que se fazem com livre-escolha; e isto é quando o que as faz está a saber, no tempo da sua feitura, que ele faz aquela ação e a quer na sua feitura e a escolhe sobre a sua oposta. E por isso se desculpam os ébrios shikorim sobre as ações que fazem no tempo da embriaguez a dizer que as fizeram sem conhecimento, ainda que as façam com vontade e com livre-escolha. E assim não dizemos que se censure o homem sobre as ações que se fazem sem a sua vontade, mesmo se se tenham feito com o seu conhecimento e com a sua livre-escolha — quer dizer, que ele sabe no tempo em que faz aquela ação e escolhe a sua feitura mais do que o suportar o castigo com que o castigam se não a fizer —; mas, depois de que não se faz com a sua vontade, mas pela necessidade da coação ones, não se censura sobre ela. Sendo assim, a ação pela qual se louva o homem, se ela é boa, ou se censura, se ela é má, é a ação que sabe o homem no tempo da sua feitura que ele a faz, e a escolhe sobre a sua oposta, e a quer na sua feitura; e as ações sobre as quais não recai sobre elas o nome do louvor ou da censura de modo algum são as ações da coação completa ones gamur, e elas são as ações que aquele que as faz não está a saber, nem a querer aquela ação no ato, nem a escolhê-la sobre a sua oposta — como um homem que lança uma pedra e tirou o seu companheiro a cabeça e a recebeu e morreu, que este que fez a ação não soube a ação na sua feitura nem ele a escolhe sobre a sua oposta nem a quer; e este é a coação completa, sobre a qual não recai sobre ela o louvor e a censura; e por isso não obrigou a Torá o exílio ao assassino por coação por este caminho, mas ao assassino por inadvertência shgagá, que há nele um lado misto da coação e da vontade.
הַפְּעֻלּוֹת שֶׁעֲלֵיהֶן יְשֻׁבַּח אוֹ יְגֻנֶּה — הָרְצוֹנִיּוֹת הַנַּעֲשׂוֹת בִּבְחִירָה. הַשִּׁכּוֹרִים מִתְנַצְּלִים שֶׁעֲשָׂאוּם בְּלֹא יְדִיעָה. הָאֹנֶס הַגָּמוּר — אֵין עָלָיו שֶׁבַח וּגְנוּת.
3 E as ações misturadas da coação e da vontade, que são as intermediárias entre estas duas espécies que mencionamos, são uma coisa difícil de saber se é cabido que se atribuam à coação ou à vontade, ou se há delas as que é cabido que se atribuam à coação e delas as que é cabido que se atribuam à vontade; que o homem que faz uma coisa feia por temor de homens donos de braço poderosos, para que não o agridam, eis que se vê que isto é da categoria da coação e que aquela coisa se fez por necessidade; senão que, se houver aqui uma coisa cabida de se suportar por causa dela toda aflição e todo labor antes de que lance o homem a sua mão a fazê-la, eis que é cabido que entrem estas ações, quando se fizerem por este caminho, na categoria da vontade; e, se forem todas as ações do que não é cabido que se suporte por causa delas um labor grande e uma aflição forte, eis que entram estas na categoria da coação.
הַפְּעֻלּוֹת הַמְעֹרָבוֹת — קָשֶׁה לָדַעַת אִם לָאֹנֶס אוֹ לָרָצוֹן. הָעוֹשֶׂה מִיִּרְאַת אֲנָשִׁים — אִם רָאוּי לִסְבֹּל צַעַר טֶרֶם יַעֲשֶׂנּוּ, מִסּוּג הָרָצוֹן.
4 Mas, quando se olhar bem, se verá que é cabido que haja aqui ações tais que é cabido de se suportar por causa delas todo sofrimento que há no mundo antes de que se as faça, e estas — mais é cabido que se atribua a sua feitura à vontade do que se atribua à coação, porque a coisa que a faz o homem e, no tempo em que a faz, a escolhe sobre a sua oposta — mais é cabido que se atribua a sua feitura à vontade do que se atribua à coação; e por isso se censura o homem quando não suporta um labor grande ou uma aflição extraordinária antes de que levante a sua mão a tocar no seu pai ou a rebelar-se no seu rei e no seu D'us; e há ações tais que não é cabido ao homem que suporte por causa delas uma aflição grande e um labor extraordinário.
יֵשׁ פְּעֻלּוֹת שֶׁרָאוּי לִסְבֹּל כָּל צַעַר טֶרֶם יַעֲשֶׂה אוֹתָן — יִגֻּנֶּה כְּשֶׁלֹּא יִסְבֹּל טֹרַח גָּדוֹל טֶרֶם יִגַּע בְּאָבִיו אוֹ לִמְרֹד בְּמַלְכּוֹ וּבֵאלֹהָיו.
5 E por isso se vê que a definição delimitação das ações voluntárias é por este caminho: que a coisa que a faz o homem e, no tempo em que a faz, a escolhe sobre a sua oposta e a quer, e, depois de que se fez, ele quer a sua permanência kiyum — quer dizer, que ele deseja e quer que ela esteja feita —, eis que esta é cabido que se atribua à vontade, ainda que haja no seu princípio um pouco de coação, como o que ocorre aos que descem ao mar, que lançam a sua mercadoria ao mar no tempo em que vem um vento de tempestade que eleva as suas ondas; pois, ainda que não haja nenhum homem que lance a sua mercadoria ao mar com vontade e isso se assemelhe à coação, eis que, pelo lado de que a escolhem sobre a aflição e o perigo de si mesmos, é cabido que se atribua à vontade, porque mesmo depois de que saíram à terra seca eles querem aquela ação e desejam que ela esteja feita assim, porque isto foi a causa para a salvação de si mesmos; e por isso é cabido que sejam estas ações da categoria da vontade e não da categoria da coação. E, contudo, se, depois de que saíram à terra seca, não quisessem isto, mas que escolhessem e desejassem o seu oposto, é cabido que se atribua à coação, depois de que não querem a permanência daquela ação; mas se vê que, depois de que não há homem que não escolha — sempre — a lançar a sua mercadoria ao mar a fim de salvar a sua alma da morte, é cabido que atribuamos isto à vontade no lançar a mercadoria, depois de que ele quer a sua permanência sempre. E disto se obriga que toda coisa que se fez com vontade no tempo da sua feitura, e, depois de que se fez aquela ação, ele não quer a sua permanência e ele deseja que não esteja feita — ainda que no seu princípio se tenha feito com vontade ou que tenha havido nela alguma vontade —, não é cabido que se atribua à vontade, mas à coação e ao erro taut; e, contudo, se, depois de que se fez aquela ação, ele quer e escolhe aquela ação e deseja nela que ela esteja feita assim, ainda que tenha havido no seu princípio um pouco de coação, é cabido que se atribua à vontade.
הַדָּבָר שֶׁאַחַר שֶׁנַּעֲשָׂה הוּא רוֹצֶה בְּקִיּוּמוֹ — לָרָצוֹן, אַף שֶׁבִּתְחִלָּתוֹ קְצָת אֹנֶס (כְּמַשְׁלִיכֵי סְחוֹרָה בַּיָּם). וְאִם אֵינוֹ רוֹצֶה בְּקִיּוּמוֹ — לָאֹנֶס וְטָעוּת.
6 E se vê que isto é assim a partir do que disseram os nossos mestres, de abençoada memória, no tratado Nedarim "e a halachá lei é que se abre a anulação do voto com o arrependimento potechin be-charatá", e explicaram ali na Guemará "como é o caso? que se lhe diz: 'o teu coração estava sobre ti — estavas em ti?' ou 'já então te arrependeste?'" — e isto é do que indica que tudo vai conforme a permanência da vontade: que, se a vontade é permanente, o juramento shevuá é permanente, e, se não é a vontade permanente, eis que o juramento é como se ele fosse em erro, e o anulam, ainda que se tenha feito no princípio com vontade. E, conforme isto, o dono de teshuvá, quando se arrepende e decide conclui no seu coração que ele quer que a transgressão que se fez por meio dele não tivesse sido feita, e que, se vier à sua mão outra vez, não a fará — isto indica que a ação primeira se fez em erro e sem conhecimento e sem intelecto, como disse Aristóteles no livro das Medidas a Ética — que as ações do intelecto não recebem o arrependimento.
״וְהִלְכְתָא פּוֹתְחִין בַּחֲרָטָה... לִבָּךְ עָלָךְ אוֹ כְּדוּ תְּהֵית״ — הַכֹּל הוֹלֵךְ אַחַר קִיּוּם הָרָצוֹן. כְּאֲרִיסְטוֹ: פְּעֻלּוֹת הַשֵּׂכֶל לֹא יְקַבְּלוּ הַחֲרָטָה.
7 E isto é o que disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "qual é o caso do dono de teshuvá? como aquele a quem veio à mão uma coisa de nudez transgressão sexual uma vez primeira e uma segunda e se salvou dela" — demonstrou Rav Yehudá: "naquele mesmo capítulo período, com aquela mesma mulher, naquele mesmo lugar". Pois, quando vier aquela ação à sua mão com todas aquelas condições e ele subjugar a sua inclinação yetzer pelo amor do Senhor, bendito seja, e não voltar a fazê-la, isto indica que se arrependeu com um arrependimento completo e decidiu no seu coração que a ação que fez na primeira vez foi em erro e sem conhecimento e sem intelecto, depois de que se arrepende sobre ela; e não é cabido que se castigue o homem sobre uma transgressão como esta, assim como não é cabido que se censure sobre a ação que se fez em erro e sem conhecimento. E assim a ação boa — não se louva o homem sobre ela a não ser se se tiver feito com vontade no seu princípio e se, depois de que se fez, ele quiser a sua permanência — quer dizer, que queira que ela esteja feita e que não se arrependa sobre ela —; pois, se se arrepender sobre ela, perdeu a sua recompensa e não se lhe conta por justiça tzedaká.
״הֵיכִי דָּמֵי בַּעַל תְּשׁוּבָה? כְּגוֹן שֶׁבָּא לְיָדוֹ דְּבַר עֶרְוָה... וְנִצּוֹל הֵימֶנָּה... בְּאוֹתוֹ פֶּרֶק בְּאוֹתָהּ אִשָּׁה בְּאוֹתוֹ מָקוֹם״ — שֶׁנִּתְחָרֵט חֲרָטָה גְמוּרָה.
8 E esta é uma coisa que esclareceram-na os nossos mestres, de abençoada memória, no tratado Kidushin sobre o que se disse em Yechezkel "e, ao voltar-se o justo da sua justiça e fazer iniquidade avel, conforme toda a traição maal que traiu, morrerá" (cf. Ezequiel 18:24); e objetaram ali: "e que seja como um meio inocente e um meio culpado!" — pois pelos seus méritos passados não deveria morrer totalmente —; e responde: "disse Rav: trata-se daquele que se entristece arrepende sobre as primeiras — as boas ações". Eis que se vê que mesmo a ação boa não é cabido que se louve sobre ela ou que se receba sobre ela recompensa a não ser se ele quiser a sua permanência e se não se arrepender sobre ela; mas, se se arrepender sobre ela, eis que ele é como se não se tivesse feito, e não é cabido que receba sobre ela recompensa. E se esclareceu, conforme isto, que a transgressão sobre a qual se arrepende como é cabido e da qual ele não quer a permanência, eis que isto indica que não se fez aquela ação com vontade completa, e de que, se se tivesse deixado à sua vontade simples pura, não a faria, conforme o que a vontade decreta agora; e a prova é que veio a coisa desta transgressão à sua mão outra vez e se salvou dela, com o seu conhecimento e com a sua vontade e com a sua livre-escolha, ao estar a avaliar que aquela coisa é má aos olhos do Senhor e de que não é cabido ao homem que faça o que é mau aos olhos do Senhor, bendito seja — e esta é a teshuvá completa; e por este lado é que aproveita a teshuvá ao dono da transgressão, pois ela põe a transgressão como se não se tivesse feito em ato, e como se fosse uma coisa que se fez em erro e sem conhecimento; e nisto alcança a depuração das iniquidades, e — pelo lado da bondade — se lhe conta por justiça, e o ama o Senhor, bendito seja, por dádiva, como escrevemos acima.
״בְּשׁוּב צַדִּיק מִצִּדְקָתוֹ וְעָשָׂה עָוֶל... יָמוּת... אָמַר רַב: בְּתוֹהֶא עַל הָרִאשׁוֹנוֹת״. הַתְּשׁוּבָה שָׂמָה הָעֲבֵרָה כְּאִלּוּ לֹא נַעֲשֵׂית, וְעַל צַד הַחֶסֶד תֵּחָשֵׁב לוֹ לִצְדָקָה.
Este capítulo enfrenta a objeção filosófica mais aguda contra a teshuvá: o pecado é um ato passado, e o passado é imutável. Quem matou não ressuscita a vítima com a confissão; quem profanou o Shabat não o "reguarda" com o arrependimento. "Como reconstruir uma casa demolida apenas com palavras?" Por que, então, mero arrependimento + confissão deveriam "depurar e branquear" um pecado já consumado em ato? A resposta de Albo é uma análise penetrante da natureza da ação voluntária.
O princípio de partida: louvor e censura — e, portanto, recompensa e castigo — só recaem sobre o ato voluntário (retzoni), feito com conhecimento e livre-escolha no momento de fazê-lo. O ébrio é desculpado pelo que faz sem consciência; o ones gamur (coação total) — como quem joga uma pedra e o outro põe a cabeça no caminho — não merece censura alguma, porque o agente "não soube, não quis, não escolheu". Por isso a Torá não exila o homicida por coação, mas só o shogeg (inadvertido), em que há "uma mistura de coação e vontade". As ações mistas — feitas por medo de poderosos, etc. — são as mais difíceis de classificar: dependem de se havia algo "pelo qual seria devido sofrer toda aflição antes de fazê-lo" (caso em que se imputam à vontade) ou não.
Aqui está o coração do capítulo, e uma das análises mais sofisticadas de toda a obra. Albo propõe que o caráter voluntário de um ato não se decide apenas no momento da execução, mas pela vontade de sua permanência (kiyum) — se, depois de feito, o agente ainda quer que tenha sido feito. O exemplo é perfeito: o mercador que, na tempestade, lança a carga ao mar. Ninguém faz isso "de bom grado" — parece coação. Mas, já em terra firme, ele continua a querer ter feito (salvou-lhe a vida); logo o ato é voluntário, apesar da "pequena coação" inicial. Inversamente: um ato feito com vontade no momento, mas do qual depois o agente se arrepende e deseja "que não tivesse sido feito", retroativamente revela-se como pertencente à coação e ao erro — "como se a vontade pura, deixada a si mesma, não o tivesse feito".
Albo ancora essa teoria na halachá da anulação de votos (Nedarim 21b): "abre-se com o arrependimento" (potechin be-charatá) — o sábio pergunta ao que fez o voto "estavas em ti? já te arrependeste do voto?". Se a vontade permanece, o voto vale; se não permanece, o voto "é como se fosse em erro" e se anula, embora feito originalmente com vontade. Ou seja: a tradição já reconhece que o arrependimento posterior redefine retroativamente a qualidade do ato. E Albo invoca Aristóteles (Ética a Nicômaco) para selar: "as ações do intelecto não admitem arrependimento" — o que se faz com pleno entendimento, não se lamenta; logo, lamentar prova que faltou pleno entendimento.
Daqui o capítulo ilumina a célebre definição talmúdica do penitente (Yomá 86b): o verdadeiro baal teshuvá é quem, "com a mesma mulher, no mesmo lugar, no mesmo período" (Rav Yehudá), enfrenta de novo a tentação e a vence por amor de D'us. Por quê essa prova específica? Porque vencer nas mesmas condições demonstra que o arrependimento é completo — que o agente realmente "decidiu no coração que o ato primeiro foi em erro e sem conhecimento". E o princípio é simétrico: assim como o arrependimento desfaz o pecado, também desfaz o mérito. O Talmud (Kidushin 40b) lê Ezequiel 18:24 ("ao voltar o justo da sua justiça... morrerá") como referente ao "que se entristece arrepende das primeiras boas ações": quem se arrepende do bem que fez "perde a sua recompensa, como se não tivesse feito". A simetria confirma a tese: em ambos os casos, é a vontade de permanência que determina o valor moral do ato. Assim se resolve o paradoxo: a teshuvá não "apaga o passado" magicamente — ela recategoriza o ato passado, revelando-o (pela mudança de vontade comprovada na prova) como tendo sido, na verdade, "em erro e sem conhecimento", e portanto não-imputável. Feito isso, a depuração das iniquidades segue por direito; e o mérito positivo que daí resulta — a recompensa eterna do penitente — vem, como o cap. 25 estabeleceu, "pelo lado da graça, contado por justiça, e D'us o ama por dádiva".