Sefer HaIkkarim · Maamar IV · Capítulo 5

As três classes de ações humanas

מַאֲמָר ד, פֶּרֶק ה
Rabi Yosef Albo (séc. XV) · hebraico de domínio público (Sefaria) · tradução fiel PT-BR

As ações humanas não são todas forçadas (astrólogos), nem todas livres (filósofo), nem todas mistas — pois cada hipótese tem refutação. Restam três classes: as livres (onde cabe louvor, censura, recompensa), as forçadas (o decreto que opera mesmo sem nossa percepção) e as mistas. A confusão entre elas gera o debate de Jó e Elifaz sobre se tudo é destino ou retribuição.

§ 1 · A divisão lógica das ações

1 E é cabido que prossigamos a isto a fala sobre a livre-escolha bechirá. E dizemos que as ações humanas, não se livra o assunto nelas de uma divisão: ou que sejam todas forçadas muchrachot com força completa, ou todas de livre-escolha bechiriot com escolha completa, ou todas misturadas da necessidade e da escolha, ou algumas de livre-escolha e algumas forçadas e algumas misturadas da necessidade e da escolha.

הַפְּעֻלּוֹת הָאֱנוֹשִׁיּוֹת: אוֹ כֻּלָּן מֻכְרָחוֹת, אוֹ כֻּלָּן בְּחִירִיּוֹת, אוֹ כֻּלָּן מְעֹרָבוֹת, אוֹ מִקְצָתָן בְּחִירִיּוֹת וּמִקְצָתָן מֻכְרָחוֹת וּמִקְצָתָן מְעֹרָבוֹת.

§ 2 · Refutação: nem todas são forçadas

2 E dizer que sejam todas forçadas com força completa — como é conforme a opinião dos repartidores dos céus, dos videntes das estrelas — é uma opinião de manifesta nulidade, porque com isto se anula a natureza do possível, cuja existência se explicou a partir do sentido, e se arrancam todas as raízes da Torá em geral e em particular, como precedeu tudo isto. E ainda, pois o que os trouxe a isto foi o seu pensar que deste modo se mantém o conhecimento do Senhor, bendito seja, como verdadeiro sem nenhuma mudança — que, depois de que sabe o Senhor, bendito seja, o decretado sobre o homem pelo lado da constelação, e de que é impossível que seja de outro modo que não aquele decreto, eis que será o seu conhecimento verdadeiro, sem dúvida; pois, se fosse possível que saísse à existência o oposto do decretado pelo lado da constelação, mudar-se-ia o seu conhecimento do que era e não seria verdadeiro de um modo. E eis que, por este caminho, ainda não se livraram da mudança — pois não há dúvida de que o conhecimento da coisa antes de que saia ao ato não é igual ao conhecimento da coisa depois de que saiu ao ato; e, se viermos a comparar o seu conhecimento ao nosso conhecimento, já se pensaria que cai a mudança no seu conhecimento, bendito seja, por este lado, como cai no nosso conhecimento — senão que a verdade é que não o que comparar entre o seu conhecimento e o nosso conhecimento de modo algum, como escrevemos acima, pois o seu conhecimento não se muda de modo algum, depois de ser ele não-finito; e por causa disto é manifesto que esta opinião é impossível a sua subsistência de nenhum modo.

כֻּלָּן מֻכְרָחוֹת (הַחוֹזִים) — בָּטֵל, מְבַטֵּל הָאֶפְשָׁר וְהַתּוֹרָה. וְגַם לֹא נִמְלְטוּ מִן הַשִּׁנּוּי, אֶלָּא שֶׁאֵין לְהַקִּישׁ יְדִיעָתוֹ הַבִּלְתִּי בַּעֲלַת תַּכְלִית לִידִיעָתֵנוּ.

§ 3 · Refutação: nem todas são livres

3 E, contudo, dizer que sejam todas as ações humanas de livre-escolha com escolha completa e que o esforço seja proveitoso em todas elas — como decreta a natureza do possível e como é a opinião do filósofo — é uma opinião de manifesta nulidade também, depois de que nós vemos pelo sentido muitas vezes que o homem se esforça por alcançar alguma coisa e faz todas as preparações que é possível que se façam para alcançar aquele fim, e não não chega aquele fim, mas que aquelas preparações que fez são causas para a chegada do oposto — como se vê isto nos irmãos de José, que se esforçaram por anular de sobre eles os sonhos que ele sonhara para eles, e pensaram em anulá-los ao fazerem o seu oposto, ao vendê-lo como servo eterno, de modo que não lhe fosse possível dominar sobre eles de modo algum, e aqueles esforços que fizeram para anular o decretado foram eles as que foram causas para a chegada do domínio sobre eles; e assim Adoniá, que se esforçou por alcançar a realeza ao estarem os ministros e os servos do rei a amá-lo e a obedecer-lhe, e aquele esforço mesmo foi causa para que não o alcançasse, pois se irou Davi quando o ouviu e fez reinar Salomão, seu filho, em sua própria vida; e assim muitas vezes chega ao homem algum bem sem esforço de modo algum — acaso não vês Saul, que alcançou a realeza sem esforço que lhe precedesse nisso de modo algum? E tudo isto é do que indica que não são todas as ações humanas de livre-escolha com escolha completa.

כֻּלָּן בְּחִירִיּוֹת (הַפִילוֹסוֹף) — בָּטֵל: אֲחֵי יוֹסֵף שֶׁהִשְׁתַּדְּלוּ לְבַטֵּל הַחֲלוֹם וְגָרְמוּ הַמֶּמְשָׁלָה; אֲדוֹנִיָּה; וְשָׁאוּל הִשִּׂיג מַלְכוּת בְּלֹא הִשְׁתַּדְּלוּת.

§ 4 · Refutação: nem todas são mistas; restam as três classes

4 E dizer também que sejam todas as ações humanas misturadas da necessidade e da escolha é impossível; pois, se fosse assim, não haveria aqui ações tais que fosse cabido que se louvasse o homem ou que se censurasse sobre elas — pois as ações pelas quais se louva o homem ou se censura são as ações nas quais não há nelas o lado da necessidade de modo algum; e, se fossem misturadas da necessidade e da escolha, não seria cabido que se louvasse o homem se são boas nem que se censurasse se são más, e a desculpa cairia em toda coisa, e não haveria aqui uma ação tal que se censurasse o homem sobre ela em absoluto se é má nem que se louvasse sobre ela se é boa. E, depois de que é impossível que sejam todas as ações humanas por via de necessidade, nem todas por via de escolha, nem todas misturadas da necessidade e da escolha, não restou senão que sejam algumas de livre-escolha e algumas forçadas e algumas misturadas da necessidade e da escolha; e é cabido que expliquemos agora cada espécie e espécie destas espécies nas ações humanas.

כֻּלָּן מְעֹרָבוֹת — אִי אֶפְשָׁר, שֶׁאָז לֹא יִשְׁתַּבַּח אָדָם וְלֹא יִתְגַּנֶּה. נִשְׁאַר: מִקְצָתָן בְּחִירִיּוֹת, מֻכְרָחוֹת, מְעֹרָבוֹת.

§ 5 · As ações livres

5 E dizemos: quanto às ações de livre-escolha com escolha completa, eis que elas são aquelas nas quais a natureza do possível está guardada, e elas são as nas quais cai a diligência e o esforço, e sobre as quais se louva o homem ou se censura; e nestas ações cai a advertência e a ordem, e sobre elas se recebe a recompensa e o castigo, depois de que o princípio destas ações está nele depende dele —, e não há ali constrangimento nem outro impedimento de modo algum.

הַבְּחִירִיּוֹת — שֶׁטֶּבַע הָאֶפְשָׁר שָׁמוּר בָּהֶן, בָּהֶן הַחֲרִיצוּת וְהַשָּׂכָר וְהָעֹנֶשׁ, שֶׁהַתְחָלָתָן אֵלָיו וְאֵין מֵעִיק.

§ 6–7 · As ações forçadas; o bem oculto da pedra e do navio

6 E, contudo, as ações forçadas com força completa, eis que elas são as decretadas — seja pelo lado da constelação, seja pela providência do Senhor, bendito seja, como virá —, e nestas coisas não à escolha humana nenhuma capacidade sobre elas de modo algum, mas o esforço nelas é vão e nulo, porque não foram postas estas coisas à sua escolha, sejam elas boas ou más. E isto é: que, mesmo que haja à escolha a capacidade de anular o decretado, eis que por uma rebeldia que precedeu ao homem ou aos seus pais, às vezes se retém dele algum bem que era cabido que chegasse pelo lado do seu esforço e da sua diligência; ou por um mérito que precedeu a ele ou aos seus pais, chega a ele algum bem sem esforço de modo algum. E é possível também que seja aquele bem ou aquele mal chegando pelo lado da constelação — quando não houver ali um pecado que cause ao retirar daquele bem dele, ou quando não houver para ele um mérito suficiente para retirar dele aquele mal decretado pela constelação; e chega ao homem aquele bem de modo que não o estima não o percebe de modo algum — como aquele que queria ir por um caminho e bateu o seu pé numa pedra e se absteve de ir por aquele caminho, ou aquele que queria entrar num navio e lhe saltou sobre ele uma doença e se absteve de entrar naquele navio, e caíram salteadores sobre os que andavam por aquele caminho e os mataram, e assim o navio se afundou no mar; e a coisa é manifesta de que o facto de não lhe ter subido na mão o seu esforço de modo algum de ir por aquele caminho ou de entrar naquele navio foi para o bem dele, para salvá-lo do seu mal — dos salteadores ou do afundamento do navio — por algum mérito que lhe precedeu.

7 E coisa semelhante a isto disseram os nossos mestres, de abençoada memória, no tratado Nidá, capítulo "HaMapelet", sobre o versículo "louvar-te-ei, Senhor, pois te iraste comigo" etc. (Isaías 12:1): "de que fala a Escritura? De dois homens que saíram para o comércio; a um se lhe enterrou um espinho no pé, começou a blasfemar e a amaldiçoar; passados dias, ouviu que se afundara o seu navio no mar, começou a agradecer e a louvar; por isso se disse 'voltou yashov a tua ira e me consolaste'". E isto é o que disse Rabi Eleazar: "que é o que está escrito 'o que faz maravilhas sozinho' (Salmos 72:18)? — mesmo o dono do milagre não reconhece o seu próprio milagre" etc. E por este mesmo caminho chega ao homem um mal que não estimava, sem que faça ações cabidas de que decorra delas aquele mal. E é manifesto que aquele bem ou aquele mal e o que se lhe assemelha chega pelo lado do decreto guezerá, sem escolha de modo algum.

הַמֻּכְרָחוֹת — הַנִּגְזָרוֹת, מַזָּל אוֹ הַשְׁגָּחָה. ״בִּשְׁנֵי בְּנֵי אָדָם שֶׁיָּצְאוּ לִסְחוֹרָה... אֲפִלּוּ בַּעַל הַנֵּס אֵינוֹ מַכִּיר בְּנִסּוֹ״.

§ 8 · As ações mistas: a maioria da retribuição

8 E as ações misturadas da necessidade — quer dizer, do decreto — e da escolha, eis que elas são como aquele que cava um alicerce e acha um tesouro, ou aquele que semeia colheita e prospera nela — pois é manifesto que, se não se esforçasse na cavadura daquele alicerce ou na semeadura da colheita, não acharia um tesouro nem prosperaria na colheita; e é manifesto que estas são misturadas da necessidade e da escolha. E às vezes chega ao homem algum bem no seu esforço, e este lhe retém a obtenção de um bem maior; como aquele que se esforçava por comprar trigo, com que ganharia nele em pouco tempo um ganho grande, e, porque não era aquele homem cabido de um ganho tão grande como aquele, preparou-lhe o Senhor, bendito seja, ao ir ele comprar o trigo, vestes belas que as comprou com o dinheiro com que lhe era cabido tomar o trigo, e não ganhou nelas nada ou ganhou nelas uma coisa escassa; ou o oposto — pois, porque não ganharia nos trigos senão uma coisa escassa, preparou-lhe o Senhor vestes com que ganharia nelas um ganho grande — conforme os méritos que lhe precederam ou as coisas decretadas sobre ele do ganho ou da perda. E a maioria das ações do homem que vêm da providência do Senhor sobre o homem pelo caminho da recompensa e do castigo vêm deste modo — quer dizer, misturadas do decreto, que é a necessidade, e da escolha.

הַמְעֹרָבוֹת — כְּחוֹפֵר וּמוֹצֵא מַטְמוֹן, אוֹ זוֹרֵעַ וּמַצְלִיחַ. רֹב פְּעֻלּוֹת הָאָדָם הַבָּאוֹת מֵהַשְׁגָּחָה בְּדֶרֶךְ שָׂכָר וָעֹנֶשׁ — מְעֹרָבוֹת מִגְּזֵרָה וּבְחִירָה.

§ 9 · A confusão entre as classes gera o erro

9 E, porque é uma coisa oculta dos homens que há das ações as que são pelo modo da necessidade, e há delas as que são pelo modo da escolha completa, e há delas misturadas da necessidade e da escolha, cai a confusão e a perplexidade nos assuntos dos filhos do homem — até que vêm alguns deles a pensar que todos os seus males estão no decreto e na necessidade e não na escolha de modo algum, e se desculpam sobre todas as suas ações corrompidas por estarem eles a pensar que tudo está no decreto; e alguns deles pensam que tudo está na escolha e que sobre todas as ações cai o louvor e a censura. E não está esta perplexidade no conjunto dos homens apenas, mas no conjunto dos homens da especulação também — pois há deles quem decreta que todos os bens do homem e os seus males estão no decreto e pelo modo da necessidade, e há quem decreta que tudo está na escolha, e há quem disse que as ações são misturadas da necessidade e da escolha.

נֶעֱלָם מֵהָאֲנָשִׁים שֶׁיֵּשׁ ג׳ מִינִים — וְיִפֹּל הַבִּלְבּוּל: יֵשׁ חוֹשֵׁב שֶׁהַכֹּל בִּגְזֵרָה וְיִתְנַצֵּל, וְיֵשׁ שֶׁהַכֹּל בִּבְחִירָה.

§ 10 · O debate de Jó e Elifaz

10 E se vê que a opinião de Jó era que todos os bens do homem e os seus males estão no decreto pelo lado da constelação, e por causa disto amaldiçoava o seu dia; e por isso o apanhou Elifaz na sua resposta primeira e disse-lhe que, se todos os bens e os males estivessem no decreto, estariam o justo e o ímpio também no decreto, e é impossível que digamos que seja o justo um justo pelo lado do decreto do Senhor; e isto é o que lhe disse "acaso o homem será mais justo do que D'us, ou será mais puro o varão do que o seu Fazedor?" (Jó 4:17) — quer dizer: acaso o homem é justo pelo lado do decreto do Senhor, ou puro pelo lado do decreto do seu Fazedor? E como é possível isto, se "eis que nos seus servos não confia" etc. (Jó 4:18) — quer dizer: e mesmo nos seus anjos e nos seus servos não põe neles um lado de permanência tal que não se mudem, quanto mais nos habitantes de casas de barro os homens, que se mudam sempre pelo lado da natureza dos elementos de que foram compostos —, de que não é cabido que ponha neles um lado de permanência tal que seja o homem por via de necessidade justo ou ímpio que não possa mudar-se da justiça ou da maldade pelo lado da sua escolha. E, depois de que a justiça ou a maldade estão na escolha do homem, eis que por força é que há aqui bens ou males que decorrem da escolha, e não como tu pensas de que tudo está no decreto; e por causa disto prosseguiu Elifaz a isto "pois ao tolo mata o desgosto, e ao simples mata a inveja" (Jó 5:2), para indicar que há aqui males que vêm sobre o homem pelo lado da sua escolha, como os males que decorrem do desgosto e da inveja. E, depois de que há aqui ações de livre-escolha e males que decorrem delas, eis que por força é que os males que vêm sobre o homem não pelo lado da sua escolha são os que vêm pelo modo do castigo; e por isso disse Elifaz no fim das suas palavras "eis que feliz é o homem a quem D'us repreende" etc. (Jó 5:17), "pois ele faz doer e venda" etc. (Jó 5:18).

אִיּוֹב חָשַׁב שֶׁהַכֹּל בִּגְזֵרָה מִפְּאַת הַמַּעֲרֶכֶת. אֱלִיפַז: ״הַאֱנוֹשׁ מֵאֱלוֹהַּ יִצְדָּק״ — הַצֶּדֶק בִּבְחִירָה, וְהָרָעוֹת שֶׁלֹּא בִּבְחִירָה — עַל צַד הָעֹנֶשׁ.

§ 11 · A opinião dos justos: tudo é recompensa e castigo

11 E esta é a opinião dos justos dentre os homens da especulação — de que todos os males do homem e os seus bens são pelo modo do castigo e da recompensa, como a opinião de Elifaz e o oposto da opinião de Jó. E por isso achas que os nossos mestres, de abençoada memória, dizem sempre que todo mal que vem sobre o homem é pelo modo do castigo; disseram "a Rav Huná azedaram-se-lhe quatrocentos barris de vinho; disseram-lhe os rabinos: examine o mestre os seus atos; disse-lhes: acaso sou suspeito aos vossos olhos? disseram-lhe: e acaso é suspeito o Santo, bendito seja, de que faça juízo sem juízo? examinaram e acharam que ele não dava a parte da poda ao seu meeiro aris". Eis que Rav Huná pensava que o tornar-se o vinho vinagre era por má sorte ou pelo costume do mundo; e disseram-lhe os seus discípulos e os filhos da sua ieshivá que é impossível que seja isto senão pelo lado do castigo, pois um homem como ele é cabido que seja supervisionado em todos os particulares dos seus atos; e Rav Huná respondeu-lhes que não lhes era cabido suspeitar dele de que pecava; e, depois de que não pecava, eis que isto era pelo lado do acaso mikré; e eles responderam que, conforme a sua opinião de que tudo vem de D'us pelo modo do castigo e da recompensa —, seria mais cabido suspeitar dele do que lançar uma mácula nos juízos do Senhor; e em suma da coisa, se revelou o assunto de que isto era pelo lado do castigo, por um pecado que lhe precedeu no assunto do vinho, e, quando se removeu o pecado, se removeu o castigo. E assim achas em muitos lugares nos nossos mestres, de abençoada memória, a atribuírem todas as coisas que vêm sobre o homem ao lado do castigo, e não a outro lado.

״רַב הוּנָא תְּקִיפוּ לֵיהּ אַרְבַּע מְאָה דַּנֵּי חַמְרָא... מִי חֲשִׁיד קֻדְשָׁא בְּרִיךְ הוּא דְּעָבֵיד דִּינָא בְּלָא דִּינָא?״ — בָּדְקוּ וְאַשְׁכַּח שֶׁלֹּא נָתַן שְׁבִישְׁתָּא לְאֲרִיסֵיהּ.

§ 12 · A verdade: as três classes coexistem, mas não as distinguimos

12 E a verdade é como dissemos: que há coisas que é cabido que se atribuam ao castigo, e há coisas que é cabido que se atribuam à escolha, e há coisas misturadas da necessidade e da escolha; e não é cabido tomar prova de uma parte delas sobre a outra. E, porque não perceberam os investigadores este assunto e tomaram prova de uma parte sobre as demais partes, mergulharam em águas impetuosas e tiraram caco na sua mão — pois há quem se inclinou para o lado do decreto e da necessidade e negou a natureza do possível, e há quem se inclinou para o lado da escolha completa e negou o conhecimento do Senhor, bendito seja; e a verdade não é senão como escrevemos, de que as três partes se acham nas ações humanas, senão que não está na mão do homem a capacidade de discernir entre a uma parte e a outra, e de dentro disso vem ele a julgar de uma parte sobre a outra e clama com protesto korê tigar sobre os juízos do Senhor e os seus atos.

הָאֱמֶת — ג׳ הַחֲלָקִים נִמְצָאִים, וְאֵין לָקַחַת רְאָיָה מֵחֵלֶק עַל חֲבֵרוֹ. וְאֵין בְּיַד הָאָדָם לְהַבְחִין בֵּינֵיהֶם — וּמִתּוֹךְ כָּךְ קוֹרֵא תִּגָּר עַל מִשְׁפְּטֵי הַשֵּׁם.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

A divisão exaustiva

Tendo estabelecido que os astros influem mas não necessitam (cap. 4), Albo aborda diretamente a liberdade. Com método escolástico, monta uma divisão lógica exaustiva das ações humanas — ou todas forçadas, ou todas livres, ou todas mistas, ou algumas de cada — e elimina as três primeiras para estabelecer a quarta.

As três refutações

Nem todas forçadas (a tese astrológica): anula o possível e a Torá; e, ironicamente, nem sequer salva a imutabilidade do conhecimento divino que pretendia proteger — pois "conhecer o futuro" e "conhecer o já-feito" não são iguais (a verdadeira solução é que o conhecimento infinito de D'us não se compara ao nosso, cap. 3). Nem todas livres (a tese do filósofo): a experiência mostra que o esforço às vezes produz o oposto — os irmãos de José venderam-no para anular o sonho do seu domínio e com isso realizaram-no; Adoniá buscou o trono e por isso o perdeu; Saul ganhou a realeza sem esforço algum. Nem todas mistas: se toda ação tivesse um componente de necessidade, não haveria ação plenamente louvável ou censurável — "a desculpa caberia em tudo", destruindo a responsabilidade moral. Resta: algumas livres, algumas forçadas, algumas mistas.

As três classes definidas

Livres (bechiriot): onde "a natureza do possível está guardada" — cabe esforço, louvor, censura, mandamento, recompensa e castigo, "pois o princípio depende dele, sem constrangimento". Forçadas (muchrachot): as decretadas, pela constelação ou pela providência, onde o esforço é "vão" — e Albo dá a elas uma leitura providencial profunda: o bem ou mal que chega "sem que o percebamos" pode ser retribuição por méritos ou culpas próprias ou dos pais. O exemplo é inesquecível: quem tropeça numa pedra e perde a viagem, e depois descobre que salteadores mataram os viajantes ou o navio afundou — o "fracasso" foi salvação por mérito oculto. Albo cita o midrash de Nidá: dois sócios saem ao comércio, um espeta um espinho no pé e blasfema; depois sabe que o navio (que perdeu) afundou, e passa a louvar — "voltou a tua ira e me consolaste"; e Rabi Eleazar: "nem o dono do milagre reconhece o seu milagre". Mistas (me'oravot): cavar o alicerce e achar o tesouro, semear e prosperar — o esforço é necessário, mas o resultado depende também do decreto. E "a maioria das ações que vêm da providência por recompensa e castigo são desta classe" — o homem que vai comprar trigo e acaba comprando roupas que (por mérito) lhe dão lucro maior, ou (por demérito) prejuízo.

A raiz da perplexidade humana

O ponto pastoral decisivo: como o homem não consegue distinguir a qual classe pertence cada evento, instala-se a confusão — uns acham que "tudo é destino" (e se desculpam de todos os seus males), outros que "tudo é escolha". E isso atinge até os filósofos: uns reduzem tudo ao decreto (negando o possível), outros tudo à escolha (negando a onisciência). Albo dramatiza o erro no debate de Jó e Elifaz: Jó pensava que "tudo está no decreto da constelação" (por isso amaldiçoa o seu dia); Elifaz refuta — se tudo fosse decreto, a justiça e a maldade também o seriam, e "ninguém é justo por decreto" (Jó 4:17: "será o homem mais justo que D'us?"); logo a virtude é escolha, e os males não causados pela escolha vêm "pelo modo do castigo" (Jó 5:17: "feliz o homem a quem D'us repreende"). Albo alinha-se a Elifaz como "a opinião dos justos", ilustrando com Rav Huná, cujos 400 barris de vinho azedaram: ele atribuía ao "acaso", mas os discípulos insistiram — "será D'us suspeito de fazer juízo sem juízo?" — e descobriu-se um pecado (não dar ao meeiro a sua parte da poda); removido o pecado, removido o castigo.

A síntese humilde

A conclusão é a tese central e a sua cautela: as três classes coexistem nas ações humanas — há o que se deve ao castigo, o que se deve à escolha, o que é misto —, e o erro de todos os investigadores foi "tomar prova de uma parte sobre a outra", inclinando-se a um extremo (e negando o possível ou a onisciência). A verdade é a coexistência das três. Mas — e aqui está a humildade característica de Albo — "não está na mão do homem discernir entre uma e outra". É justamente essa impossibilidade de classificar cada evento concreto que leva o homem a "clamar com protesto contra os juízos de D'us": ao tomar por injustiça um castigo merecido, ou por mérito um acaso, ou por destino o que era escolha. A lição é de confiança: o sistema é justo (escolha real, retribuição real, providência real), mas a leitura de cada caso particular escapa-nos — e a sabedoria está em não julgar os caminhos de D'us pelo que não podemos discernir. Prepara-se, assim, a teodiceia que o Maamar IV desenvolverá: por que sofrem os justos e prosperam os ímpios.