Sefer HaIkkarim · Maamar III · Capítulo 4

Por que o homem precisa de obras para a sua perfeição

מַאֲמָר ג, פֶּרֶק ד
Rabi Yosef Albo (séc. XV) · hebraico de domínio público (Sefaria) · tradução fiel PT-BR

Cada ser alcança a perfeição própria conforme o seu grau — uns sem esforço, outros com muito. Os seres incorpóreos a têm em ato sempre; as esferas, por terem matéria, só pelo movimento; e quanto mais distante uma esfera da nobreza, mais movimentos precisa. O homem, de matéria mais densa, precisa de muitas obras. E a perfeição da alma vem só do composto de ação física com concepção intelectual.

§ 1–2 · Os graus de esforço para alcançar a perfeição

1 Todo existente, conforme o grau da sua natureza, mais lhe é fácil adquirir a excelência e a perfeição que lhe é cabida, seja de qual espécie for. E isto é manifesto e patente na investigação das espécies das perfeições próprias da espécie do homem.

2 Pois nós vemos que os homens que são perfeitos da criação e fortes de natureza alcançam a perfeição da saúde sem nenhum trabalho e nenhuma ação, mas a saúde se acha entrelaçada neles em ato sempre. E há homens nos quais a saúde se entrelaça com um entrelaçamento forte, mas precisam fazer alguma ação ou algum passeio a fim de que se conserve neles a saúde. E há homens nos quais a saúde não se entrelaça com um entrelaçamento forte, e precisam fazer muitas ações e um esforço forte a fim de que se conserve neles a saúde — mas, com o esforço forte, já chega neles a saúde perfeita. E há homens que são tão maus de têmpera que, mesmo se se esforçarem com todo o esforço do mundo, é impossível para eles alcançar a saúde perfeita — mas já alcançam coisa semelhante à saúde com uma só ação ou com poucas ações; e isto é que já alcançam conservar-se, com a sua má têmpera, com poucas ações, de modo que a doença não aumente neles, não mais do que isto. E assim se acha este assunto na diversidade dos graus na perfeição da sabedoria ou na perfeição da riqueza: pois há quem adquire a sabedoria ou a riqueza com pouco trabalho, e há quem as adquire com grande trabalho, e há quem não as adquire com todo o trabalho do mundo — mas já alcança, com o trabalho, algum grau nelas.

כָּל נִמְצָא כְּפִי מַדְרֵגַת טִבְעוֹ יֵקַל עָלָיו לִקְנוֹת הַשְּׁלֵמוּת הָרָאוּי לוֹ. יֵשׁ מִי שֶׁיִּקְנֶה הַבְּרִיאוּת אוֹ הַחָכְמָה בְּעָמָל מוּעָט, וְיֵשׁ בְּעָמָל גָּדוֹל, וְיֵשׁ שֶׁלֹּא יִקְנֵם עִם כָּל עָמָל שֶׁבָּעוֹלָם.

§ 3 · A escala dos seres: da Causa Primeira às esferas

3 E deste modo se acha o assunto em todos os existentes, na perfeição própria de cada um deles conforme a sua natureza. E isto é: que a Causa Primeira, por ser ela suficiente em si mesma para que se ache nela sempre em ato a perfeição que se individuou nela conforme o seu grau, não precisa fazer nenhuma ação, nem em si mesma nem em outro, a fim de adquirir por meio dela nenhuma perfeição. E as inteligências separadas, por serem limpas de matéria, acha-se nelas a perfeição que se individuou nelas conforme a sua natureza em ato sempre, e não precisam fazer nenhuma ação em si mesmas a fim de alcançar a sua perfeição, senão a moção com que movem a outro — quero dizer, as esferas. Mas as esferas, com o facto de serem possuidoras de alma intelectiva conforme o consenso de todos os sábios, eis que, por serem possuidoras de matéria, não lhes bastou adquirir a perfeição própria delas conforme a sua natureza se não quando fazem elas alguma ação em si mesmas; e esta ação é o movimento, pois é na ação do mover-se em geral que alcança a sua alma intelectiva a sua perfeição — que, por ser a sua morada num corpo, ela precisa de uma ação corporal a fim de alcançar a perfeição que se individuou nela conforme a sua natureza. E, com tudo isto, já diferem as esferas umas das outras naquela ação: pois o que é, dentre as esferas, mais nobre e mais perfeito no grau — como a esfera diurna —, basta-lhe uma só ação simples para a obtenção do grau que se individuou nela conforme a sua natureza, e esta ação é o movimento diurno, que é um movimento simples; e a esfera das estrelas, por estar distante do grau e da aquisição da perfeição da esfera diurna, não lhe basta um só movimento, e precisou de dois movimentos — que são o movimento diurno e o movimento próprio dela; e as demais esferas, cada uma e uma, conforme a sua distância do grau, precisa de uma multiplicidade de ações a fim de alcançar a sua perfeição própria; e por causa disto acham-se as esferas diferentes nos movimentos, e acham-se para uma delas uma multiplicidade de movimentos mais do que para outra, conforme a sua distância da obtenção da perfeição — até que se acha que a alguns planetas, e em especial à lua, se acham para ela muitos movimentos diferentes; e isto é que, pela grande distância dela do grau, precisou dela de uma multiplicidade de ações mais do que das demais esferas, a fim de que, por meio da multiplicidade dos movimentos, adquira a lua a perfeição que se individuou nela conforme a sua natureza. E isto é coisa com que concordou o Filósofo no capítulo terceiro do segundo Maamar do livro Dos Céus e do Mundo.

הַסִּבָּה הָרִאשׁוֹנָה — מַסְפֶּקֶת בְּעַצְמָהּ. הַשְּׂכָלִים הַנִּבְדָּלִים — שְׁלֵמוּתָם בְּפֹעַל תָּמִיד. הַגַּלְגַּלִּים, בַּעֲלֵי חֹמֶר, לֹא יַשִּׂיגוּ שְׁלֵמוּתָם אֶלָּא בַּתְּנוּעָה; וְכָל שֶׁרָחוֹק מֵהַמַּעֲלָה (כְּמוֹ הַיָּרֵחַ) יִצְטָרֵךְ רִבּוּי תְּנוּעוֹת.

§ 4 · O homem, matéria mais densa, precisa de mais ações

4 E isto é do que indica que nenhum possuidor de matéria alcança a sua perfeição própria à sua alma conforme a sua natureza senão na feitura de ações corporais realizadas por meio do corpo. E por isso é de necessidade das esferas que se movam, a fim de alcançarem a sua perfeição própria às suas almas por serem elas força num corpo. E decorre disto que o homem, por ser possuidor de matéria mais espessa e mais turva do que a matéria das esferas, precisa por força de uma multiplicidade de ações mais do que elas, a fim de que, por meio da multiplicidade das ações, se alcance a perfeição que se individuou nele conforme a sua natureza — que é a perfeição da sua alma intelectiva. Pois, se fosse possível que a alcançasse pela inteligência apenas, sem as ações, com muito mais razão seriam mais cabidas nisto as esferas, e não precisariam mover-se e fazer ação corporal para adquirir a sua perfeição; senão que é impossível a nenhum possuidor de matéria alcançar nenhuma perfeição sem ação corporal.

אֵין שׁוּם בַּעַל חֹמֶר מַשִּׂיג שְׁלֵמוּתוֹ זוּלָתִי בִּפְעוּלוֹת גַּשְׁמִיּוֹת. וְהָאָדָם, בַּעַל חֹמֶר עָב יוֹתֵר מֵהַגַּלְגַּלִּים, יִצְטָרֵךְ בְּהֶכְרֵחַ אֶל רִבּוּי הַפְּעוּלוֹת יוֹתֵר מֵהֶם.

§ 5 · Os animais e a permanência da espécie; o homem e o indivíduo

5 E, contudo, os viventes não-racionais, por estarem eles muito mais distantes do grau próprio dos possuidores de alma intelectiva, e porque não era possível para eles, conforme a sua natureza, adquirir a permanência individual, por serem privados de intelecto — foi posto para eles algum tipo de permanência semelhante à permanência dos demais possuidores de alma, que é a permanência específica, e alcança-se isto com uma só ação ou com poucas ações, por ser aquela perfeição muito distante da perfeição que nos demais possuidores de alma, que é a permanência individual. Mas o homem, porque lhe era possível a permanência no indivíduo pelo lado da sua alma intelectiva, como se dá nas esferas, e porque estava muito distante do grau delas, foram-lhe postas a multiplicidade das ações diferentes, a fim de que, por meio da multiplicidade das ações, repare o que lhe falta e alcance um grau do gênero do grau que alcançam as esferas com uma só ação ou com poucas ações.

הַבַּעֲלֵי חַיִּים — קִיּוּם מִינִי בִּפְעֻלָּה מוּעֶטֶת. הָאָדָם, שֶׁאֶפְשָׁר לוֹ הַקִּיּוּם הָאִישִׁי מִצַּד נַפְשׁוֹ הַמַּשְׂכֶּלֶת, הוּשְׂמוּ לוֹ רִבּוּי הַפְּעוּלוֹת לְתַקֵּן מַה שֶּׁחָסֵר לוֹ.

§ 6–7 · Só as obras devidas; o composto de ação e intelecto

6 E é manifesto que nem todas as ações dão perfeição à alma, senão aquelas que são conforme o que é cabido; e também é impossível que sejam aquelas ações as que dão perfeição à alma pelo lado de serem ações corporais apenas — pois, se fosse assim, todos os corpos que são possuidores de alma vital alcançariam aquela perfeição. E, por ser o homem possuidor de matéria, é impossível que alcance a perfeição humana pelo lado da inteligência apenas, sem ato, como explicámos isto a respeito das esferas — pois, por serem elas possuidoras de matéria, foi necessário que se achasse para elas alguma ação corporal, que é o movimento, a fim de que, por meio daquela ação, alcancem a perfeição anímica que se individuou nelas conforme a sua natureza.

7 E por isso decorre que a coisa que dá a perfeição a todo possuidor de matéria e possuidor de alma intelectiva seja um assunto composto de ação corporal e inteligência anímica. Pois a ação prática não dá a perfeição pelo lado de ser ela ação corporal apenas, mas pelo lado da inteligência anímica com que se inteligencia na sua feitura, como explicámos. E a ação feita sobre esta descrição — que é composta de ação corporal e inteligência anímica — é a que dá perfeição à alma; e elas são as ações que dissemos serem decorrentes da sua forma intelectual e influenciadas por ela — não a inteligência dos inteligíveis apenas, como pensaram nisto os que seguem após o Filósofo.

הַדָּבָר הַנּוֹתֵן הַשְּׁלֵמוּת הוּא עִנְיָן מֻרְכָּב מִפֹּעַל גּוּפִיִּי וְהַשְׂכָּלָה נַפְשִׁיִּית — לֹא הַשְׂכָּלַת הַמּוּשְׂכָּלוֹת בִּלְבַד כְּמוֹ שֶׁחָשְׁבוּ הַנִּמְשָׁכִים אַחֲרֵי הַפִילוֹסוֹף.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

O argumento cosmológico a favor da prática

Tendo derrubado no capítulo anterior a tese de que a perfeição é pura contemplação, Albo constrói aqui a alternativa positiva por meio de uma analogia cosmológica notável. A tese: todo possuidor de matéria só alcança a sua perfeição por meio de ação corporal. A prova vem da hierarquia do ser. A Causa Primeira é autossuficiente — não age para se aperfeiçoar. As inteligências separadas (imateriais) já têm a perfeição em ato. Mas as esferas celestes, embora dotadas de alma intelectiva, têm matéria — e por isso só atingem a sua perfeição movendo-se. O movimento é o "ato corporal" pelo qual a alma da esfera se realiza.

Quanto mais densa a matéria, mais ações

A graduação é o coração do argumento: a esfera mais nobre (a diurna) basta-se com um movimento simples; a das estrelas precisa de dois; e cada esfera, conforme a sua distância da nobreza, precisa de mais movimentos — até a Lua, a mais baixa e distante, que requer múltiplos movimentos complexos. Albo invoca aqui a astronomia de seu tempo (e cita o De Caelo de Aristóteles): a multiplicidade dos movimentos lunares prova que maior distância da perfeição exige mais atos. Ora — conclui — o homem tem matéria ainda "mais espessa e turva" que a das esferas. Logo precisa, por força, de muitas ações para alcançar a perfeição da sua alma intelectiva. Se a contemplação pura bastasse, as esferas — bem mais nobres — não precisariam mover-se.

Indivíduo versus espécie

Albo retoma a distinção do cap. 2: os animais, incapazes de permanência individual (não têm intelecto), recebem só a permanência da espécie, que se garante com poucas ações (procriar). O homem, porém, é capaz de permanência individual da alma — como as esferas — mas está muito abaixo do grau delas; por isso lhe foi dada "a multiplicidade das ações diferentes" para reparar essa distância. Eis a justificação metafísica dos mandamentos: as muitas mitzvot são os "muitos movimentos" pelos quais o homem material atinge o que a esfera atinge com um só.

A síntese: ação informada por intelecto

O fecho corrige tanto o filósofo quanto um possível mal-entendido. Não é a ação enquanto corporal que aperfeiçoa (senão todo animal vivo se aperfeiçoaria); nem é a contemplação sem ação (impossível para um ser material). A perfeição vem do composto: ação corporal informada por concepção intelectual — o ato feito com entendimento do seu sentido. São as obras "decorrentes da forma intelectual e por ela influenciadas". É exatamente a definição do mandamento bem cumprido: o gesto físico (acender, comer matzá, vestir tefilin) carregado da intenção e do conhecimento que lhe dão valor anímico. Contra "os que seguem o Filósofo", Albo estabelece que o caminho universal à perfeição — acessível a toda a espécie, como o cap. 3 exigia — é a Torá como sistema de ação-com-intelecto, e não o saber teórico de poucos.