A quarta raiz: D'us é removido das deficiências. Daí decorre, paradoxalmente, que muitos atributos positivos devem ser-lhe atribuídos — não só pelas ações, mas em si mesmo: pois, não podendo ter deficiência, deve ter o lado da perfeição. Albo mostra como atribuí-los pelo lado da perfeição, não da deficiência — até a "audição" e a "visão", mas não o paladar nem o tato.
1 Na explicação da quarta raiz, que dissemos ser a de que ele, bendito seja, é removido das deficiências. Quando examinamos os atributos com um exame muito fino e mais profundo, achamos que é da necessidade que se descreva o Nome, bendito seja, com muitos atributos — e não só do lado das suas ações apenas, pela razão que mencionamos no capítulo 8 deste discurso, mas também do lado de si mesmo, bendito seja.
2 E isto é assim porque a afirmação e a negação dividem o verdadeiro e o falso sempre em todas as coisas. E é claro que, no possível, o assunto não escapa de uma divisão: ou que ele, bendito seja, é sábio ou não-sábio, e assim capaz ou não-capaz, e querente ou não-querente; e é impossível que se verifique sobre ele que é não-sábio ou não-capaz, pois ele, bendito seja, é impossível que se ache nele deficiência alguma; e por isso é forçoso que se verifique sobre ele a outra parte, e que seja sábio, e capaz, e querente, e piedoso, e reto, e fiel; e assim é forçoso em todos os gêneros das perfeições que é cabido que se ache nele o lado da perfeição, visto que é impossível que se ache nele o lado da deficiência. E este é um assunto necessário em si mesmo, sem voltar-se às ações que decorrem dele, bendito seja — quando dizemos que é vivo porque a vida é influenciada dele, e sábio porque a sabedoria é influenciada dele, e assim nos demais atributos do cap. 8; mas aqui ele é vivo e sábio porque é impossível que seja morto nem ignorante. E, visto que os gêneros das perfeições são diferentes — pois o conhecimento é diferente do poder, e o poder diferente da vida, e a vida diferente da vontade e diferente da sabedoria —, é forçoso, então, que se achem nele muitos atributos diferentes; e, visto que deste lado é forçoso que se achem nele muitos atributos, e do que explicamos no capítulo 10 deste discurso é forçoso que não se ache nele atributo algum fora da sua essência — quem me dera saber de que modo se acham nele muitos atributos tais que não obriguem multiplicidade na sua essência!
הַחִיּוּב וְהַשְּׁלִילָה חוֹלְקִין הָאֱמֶת וְהַשֶּׁקֶר. וְאִי אֶפְשָׁר שֶׁיִּצְדַּק עָלָיו בִּלְתִּי חָכָם אוֹ בִּלְתִּי יָכוֹל, כִּי אִי אֶפְשָׁר שֶׁיִּמָּצֵא בּוֹ חִסָּרוֹן. וּמְחֻיָּב שֶׁיִּהְיֶה חָכָם וְיָכוֹל וְרוֹצֶה. וְאַחַר שֶׁמִּינֵי הַשְּׁלֵמֻיּוֹת מִתְחַלְּפִים, יְחֻיַּב שֶׁיִּמָּצְאוּ בּוֹ תְּאָרִים רַבִּים.
3 E digamos que os atributos que se atribuem a ele, bendito seja, são de dois gêneros: um gênero se lhe atribui do lado de ser ele necessário de existência e causa de todos os existentes — tal que é impossível que se conceba ser ele necessário de existência e causa de todos os existentes se não se acharem nele estes atributos —, como ser ele um, e eterno, e perpétuo, e sábio, e querente, e capaz, e além disto dos atributos que é da necessidade que se achem nele, bendito seja, por ser Ele quem faz existir todos os existentes; e outro gênero se lhe atribui do lado de que se imagina nele ser aquilo uma perfeição — como, se lhe atribuímos a riqueza, porque imaginamos nela ser uma perfeição para ele, como é uma perfeição para nós, do lado de que o oposto é uma deficiência; e como a audição e a visão, que lhe atribuímos porque são uma perfeição em nós, ainda que não se alcancem a nós senão por instrumentos corporais.
הַתְּאָרִים שְׁנֵי מִינִים: מִין יְיֻחַס מִצַּד הֱיוֹתוֹ מְחֻיַּב הַמְּצִיאוּת וְעִלַּת כָּל הַנִּמְצָאִים (כְּמוֹ אֶחָד, חָכָם, רוֹצֶה, יָכוֹל); וּמִין מִצַּד שֶׁנִּדְמֶה בּוֹ הֱיוֹתוֹ שְׁלֵמוּת (כְּמוֹ הַשְּׁמִיעָה וְהָרְאוּת).
4 E todo atributo pelo qual se descreve algum descrito tem nele duas considerações: a primeira, do lado da perfeição que há naquele atributo; e a segunda, do lado da deficiência que é necessária àquele atributo; e é como se o atributo, conforme isto, fosse composto de dois assuntos com uma composição intelectual — o assunto um é perfeição e o outro é deficiência. Pois a sabedoria, quando a afirmamos do sujeito, eis que ela do lado de si mesma é perfeição para o sujeito; e do lado de ser ela adquirida ao sujeito e de ser acidental nele, decorre disto uma deficiência ao sujeito, a saber que ela é não-essencial a ele e obriga multiplicidade nele.
5 E, quando atribuímos a sabedoria a ele, bendito seja, eis que a atribuímos a ele do lado em que é perfeição, não do lado em que há nela deficiência; pois a deficiência que se acha naquela perfeição é quando examinamos a sabedoria em relação a nós, a saber que ela é adquirida a nós das conclusões tiradas das premissas, uma conclusão após outra conclusão, e por isso é uma coisa renovada em nós e um atributo acrescentado à nossa essência; e, quando lhe atribuímos o conhecimento, não o atribuímos a ele no sentido de que é adquirido das premissas, nem no sentido de que é renovado nele do modo como é renovado em nós, mas no sentido de que se acha nele do lado de si mesmo — do modo como os primeiros inteligíveis se acham no homem, sem aprendizado e ensino, e de modo mais perfeito. E a intenção, quando lhe atribuímos a sabedoria, é dizer que aquela perfeição se acha nele sem nenhuma deficiência, exceto que nós não medimos o modo da apreensão da sabedoria senão como o modo pelo qual o homem a apreende. E assim dizemos no atributo do poder e no atributo da vontade e além disto dos atributos — que, na verdade, se lhe atribuem do lado da perfeição ligada àquele atributo, não do lado da deficiência ligada àquele atributo.
כָּל תֹּאַר יֵשׁ בּוֹ שְׁתֵּי בְּחִינוֹת: מִצַּד הַשְּׁלֵמוּת, וּמִצַּד הַחִסָּרוֹן. וּכְשֶׁנְּיַחֵס הַחָכְמָה אֵלָיו, נְיַחֲסֶנָּה מִן הַצַּד שֶׁהִיא שְׁלֵמוּת, לֹא מִן הַצַּד שֶׁיֵּשׁ בָּהּ מִן הַחִסָּרוֹן, שֶׁהִיא נִקְנֵית. אֲבָל בּוֹ נִמְצֵאת מִצַּד עַצְמוֹ, כְּמוֹ הַמּוּשְׂכָּלוֹת הָרִאשׁוֹנוֹת.
6 E por este modo podemos atribuir a ele até os atributos que são do segundo gênero, que são apreensões corporais — como atribuímos a ele o "cheirar" harachá, que é uma apreensão sensível, conforme o seu dizer "e cheirou o Senhor o aroma agradável" (Gênesis 8:21); e não a atribuímos a ele, sem dúvida, do lado de que é uma apreensão corporal, mas do lado da perfeição ligada a ela, que é a aceitação do sacrifício com vontade da parte do que o oferece com a intenção cabida — não a recepção do prazer, que é o lado da deficiência.
7 E é este o dito do profeta "pois não falei com os vossos pais nem os ordenei, no dia em que os tirei da terra do Egito, sobre assuntos de holocausto e sacrifício; mas esta coisa lhes ordenei, dizendo: ouvi a minha voz" (Jeremias 7:22-23) — eis que explicou que a intenção da ordem da feitura do sacrifício era a fim de que se submetesse o coração do pecador a fim de retornar ao Nome e ouvir a sua voz, e não do lado do prazer sensível que lhe chega, D'us nos livre, conforme as palavras da Escritura "acaso como carne de touros, e sangue de bodes beberei? Sacrifica a D'us louvor" etc., "e invoca-me no dia da angústia" etc. (Salmos 50:13-15) — tudo isto é prova de que a intenção da ordem da feitura dos sacrifícios era dirigir o coração do pecador ao serviço do Nome apenas.
וּכְמוֹ שֶׁנְּיַחֵס אֵלָיו הָהֲרָחָה, ״וַיָּרַח ה׳ אֶת רֵיחַ הַנִּיחֹחַ״, מִצַּד הַשְּׁלֵמוּת — קַבָּלַת הַקָּרְבָּן בְּרָצוֹן. ״כִּי לֹא דִבַּרְתִּי... עַל דִּבְרֵי עוֹלָה וָזֶבַח״, אֶלָּא לְהַכְנִיעַ לֵב הַחוֹטֵא.
8 E por isso não lhe atribuímos o sentido do paladar e o sentido do tato — pois, ainda que sejam uma perfeição para nós do lado de que somos seres vivos corporais, a fim de aproximar o prazeroso e afastar o prejudicial, não há neles nenhuma perfeição espiritual que lhe atribuamos. E por isso a Escritura lhe atribuiu a audição, ao dizer "estejam os teus ouvidos atentos" etc. (Salmos 130:2), e lhe atribuiu a visão, "eis que o olho do Senhor está sobre os que o temem" (Salmos 33:18), "os olhos do Senhor percorrem toda a terra" (Zacarias 4:10) — porque o povo imagina que estes são uma perfeição espiritual; e por isso os atribuiu a ele, bendito seja, com o facto de não lhe atribuir o paladar e o tato; e esta é uma prova de que os atributos, na verdade, se lhe atribuem do lado da perfeição que há neles, não do lado da deficiência que há neles. E por isso dizemos que os atributos que se lhe atribuem, ainda que se achem em nós separados, é cabido que se compreendam nele, bendito seja, unificados mitachadim; pois nós, por apreendê-los ou adquiri-los um após o outro, compreendemo-los separados, e assim, por adquiri-los depois de que não estavam em nós, compreendemo-los como atributos acrescentados; mas nele, bendito seja, é cabido que os compreendamos unificados e não-adquiridos, de modo que não obriguem multiplicidade na sua essência e que isto seja uma deficiência para ele.
וְלָזֶה לֹא נְיַחֵס אֵלָיו חוּשׁ הַטַּעַם וְהַמִּשּׁוּשׁ, שֶׁאֵין בָּהֶם שְׁלֵמוּת רוּחָנִי. וְיִיחֵס אֵלָיו הַשְּׁמִיעָה וְהָרְאוּת. וְהַתְּאָרִים, אַף עַל פִּי שֶׁנִּמְצְאוּ בָּנוּ נִפְרָדִים, רָאוּי שֶׁיּוּבְנוּ בּוֹ מִתְאַחֲדִים.
9 E já explicamos que os atributos, na verdade, se lhe atribuem do lado da perfeição que há neles, não do lado da deficiência ligada a eles, por ser ele, bendito seja, removido das deficiências; e por causa disto pusemos a quarta raiz, a de que é removido das deficiências, a fim de afastar dele todos os atributos das deficiências — como a ignorância, e a pobreza, e o sono, e a fadiga e os que se lhe assemelham —, e a fim de incluir nela que todos os atributos das perfeições que se lhe atribuem ou que se acham nele, na verdade se atribuem ou se acham n'Ele do lado em que há neles perfeição, não do lado da deficiência que há neles ou que lhes decorre — como multiplicidade ou mudança, que são deficiência nele —, por ser ele, bendito seja, permanente sempre sobre um só modo e não-mutável.
10 E é isto o que disse o salmista "ó D'us, não haja silêncio para ti; não te cales e não te aquietes, ó D'us" (Salmos 83:2) — quer dizer, visto que não há silêncio para ti, nem do lado do sono, nem do lado da ignorância, nem do lado da fadiga, pois não há em ti deficiência alguma nem recebes mudança alguma — se é assim, por que olhas para os traidores, e te calas enquanto o ímpio engole o mais justo que ele (Habacuque 1:13)? "Não te cales e não te aquietes, ó D'us." E pelo modo que explicamos é possível que se verifiquem nele, bendito seja, atributos positivos — aqueles tais que não há escapatória senão atribuí-los a ele, como vivo, e sábio, e querente, e capaz e os que se lhe assemelham —, pelo lado em que não obrigam nele deficiência alguma. E compreende isto muito bem, pois é um caminho reto e correto que escolheu a casta dos sábios da Torá, os primeiros e os posteriores; e é cabido apoiar-se nele — toma-o, e os teus olhos põe sobre ele.
וּבַעֲבוּר זֶה שַׂמְנוּ הַשֹּׁרֶשׁ הָרְבִיעִי שֶׁהוּא מְסֻלָּק מִן הַחֶסְרוֹנוֹת, לְסַלֵּק כָּל תָּאֳרֵי הַחֶסְרוֹנוֹת וְלִכְלֹל בּוֹ שֶׁכָּל תָּאֳרֵי הַשְּׁלֵמֻיּוֹת אָמְנָם יִמָּצְאוּ עַל צַד הַשְּׁלֵמוּת. וְהָבֵן זֶה מְאֹד, כִּי הוּא דֶּרֶךְ יָשָׁר וְנָכוֹן, קָחֶנּוּ וְעֵינֶיךָ שִׂים עָלָיו.
Aqui Albo dá o passo mais ousado da sua teologia. Maimônides tendia a reduzir todos os atributos a negações ou a ações. Albo discorda: a quarta raiz — D'us "removido das deficiências" — exige atributos positivos, e em si mesmo, não só nas ações. O argumento é lógico: pela lei do terceiro excluído, D'us é "sábio ou não-sábio". Ora, "não-sábio" seria deficiência, impossível n'Ele. Logo Ele é sábio — positivamente. E o mesmo para vivo, capaz, querente. Como esses são realmente distintos entre si (saber ≠ poder ≠ viver), parece haver multiplicidade — recolocando o velho problema.
A chave é a análise de cada atributo em duas faces: uma de perfeição, outra de deficiência. A sabedoria, em nós, é perfeição — mas adquirida (do raciocínio, conclusão após conclusão), acrescentada à essência, logo portadora de deficiência (multiplicidade, mutação). Quando atribuímos sabedoria a D'us, tomamos só a face da perfeição, despojada da deficiência: não como algo adquirido ou acrescentado, mas como inerente à sua essência — análogo a como os "primeiros inteligíveis" estão na mente sem aprendizado, só que infinitamente mais perfeito. Nós só não sabemos como é esse conhecer; concebemo-lo à nossa maneira.
O capítulo aplica isto com finura aos atributos "corporais". O "cheirar" de D'us ao sacrifício (Gn 8:21) não é prazer sensorial (face de deficiência) mas aceitação da oferta sincera (face de perfeição) — e Jeremias confirma que o propósito do sacrifício era submeter o coração do pecador, não dar prazer a D'us. E o critério explica por que a Escritura atribui a D'us audição e visão, mas nunca paladar e tato: estes dois últimos servem só ao corpo (aproximar o agradável, afastar o nocivo), sem nenhuma "perfeição espiritual" que se possa transferir a D'us; já ouvir e ver têm uma face espiritual (conhecer, supervisionar). A seletividade da própria Escritura prova a tese de Albo: os atributos são tomados pela face da perfeição.
A conclusão resolve a multiplicidade: os atributos que em nós são separados (porque os adquirimos um a um, no tempo) estão em D'us unificados (mitachadim) — uma só realidade simples que a nossa mente fragmentada só consegue apreender em pedaços. Assim a quarta raiz cumpre dupla função: remove os atributos de deficiência (ignorância, pobreza, sono, fadiga — "não há silêncio para ti", Sl 83) e inclui os de perfeição, tomados pela sua melhor face. Albo encerra recomendando esta via com calor incomum — "um caminho reto e correto, escolhido pelos sábios da Torá... toma-o, e põe nele os teus olhos" — sinal de que a vê como a sua contribuição própria, um meio-termo entre a via negativa de Maimônides e o antropomorfismo ingênuo.