O "riso" (sechok) é um nome homônimo: diz-se da alegria (como Abraão "riu" = alegrou-se) e do escárnio (como "o que habita nos céus rirá"). Atribui-se a D'us no segundo sentido, quando os homens dizem o que não cabe ao homem dizer — uma rebeldia tão absurda que merece escárnio.
1 O "riso" sechok é um nome homônimo shem meshutaf: diz-se da alegria, como "e caiu Abraão sobre a sua face e riu" (Gênesis 17:17), cuja interpretação é "e alegrou-se", como traduziu Onkelos "e exultou".
2 E diz-se do escárnio laag, como "objeto de riso para o meu companheiro eu sou" (Jó 12:4); e às vezes vêm o riso e o escárnio juntos sobre uma mesma coisa, e o seu assunto é o assunto dos nomes sinônimos, como "o que habita nos céus rirá; o Senhor escarnecerá deles" (Salmos 2:4) — pois o riso decorre ao homem por via de escárnio daquilo de que é cabido escarnecer; e isto se dá quando um homem mede em outro alguma deficiência nas suas palavras ou nas suas obras, e vê ou sente em si mesmo uma vantagem em que ele não tropeça naquilo em que tropeçou o seu companheiro na ação ou na fala, e por isso se renova o riso, por via de escárnio, quando vê o seu companheiro a não fazer ou não dizer o que é cabido conforme a regra humana ou conforme o seu grau.
הַשְּׂחוֹק שֵׁם מְשֻׁתָּף: יֵאָמֵר עַל הַשִּׂמְחָה, כְּמוֹ ״וַיִּצְחָק״ שֶׁתִּרְגֵּם אֻנְקְלוֹס ״וַחֲדִי״; וְיֵאָמֵר עַל הַלַּעַג, ״יוֹשֵׁב בַּשָּׁמַיִם יִשְׂחָק ה׳ יִלְעַג לָמוֹ״. כִּי הַשְּׂחוֹק יִמָּשֵׁךְ עַל צַד הַלַּעַג מִמַּה שֶּׁרָאוּי לְהַלְעִיג עָלָיו.
3 E por causa disto se atribui a ele, bendito seja, o riso e o escárnio, conforme o seu dizer "o que habita nos céus rirá; o Senhor escarnecerá deles" — e isto é porque os vê a dizer "rompamos as suas cadeias" etc. (Salmos 2:3), que são coisas que não é da regra do homem dizê-las, como disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "Por que se justapôs a parashá de Absalão à parashá de Gog e Magog? Que, se te disser um homem 'porventura há um servo que se rebela contra o seu senhor?', dize-lhe: 'porventura há um filho que se rebela contra o seu pai? Mas houve — isto também houve.'" Do que se vê das suas palavras que esta é uma coisa estranha na regra do homem, até que é cabido escarnecer do que a diz; e por este modo se atribui o riso ao Nome ou ao homem.
וּבַעֲבוּר זֶה יְיֻחַס אֵלָיו הַשְּׂחוֹק וְהַלַּעַג, ״יוֹשֵׁב בַּשָּׁמַיִם יִשְׂחָק״, לְפִי שֶׁרוֹאֶה אוֹתָם אוֹמְרִים ״נְנַתְּקָה אֶת מוֹסְרוֹתֵימוֹ״, שֶׁהֵם דְּבָרִים שֶׁאֵין מֵחֹק הָאָדָם לְאָמְרָם.
4 E às vezes acontece ao homem o riso quando engana o seu companheiro numa coisa em que cabia ao companheiro acautelar-se e não se acautelou; e conforme isto será a causa do riso, em todo lugar, por causa de o homem que ri medir em si mesmo uma vantagem de conhecimento sobre o outro, ao ver o seu companheiro a tropeçar em alguma coisa de ignorância, ou de estultície, ou de falta de conhecimento. E o que disseram os sábios da investigação, a saber que o homem ri por uma propriedade segulá — quer dizer, que a causa do riso não é conhecida —, a intenção é dizer que a causa dos movimentos que o homem faz na hora do riso está oculta — por que decorrem ao riso e à alegria quando o homem ri aqueles movimentos; e assim por que decorre o riso ao tocar nas axilas e ao apalpar lugares particulares do corpo. Mas a causa do riso que vem ao homem por via de escárnio já é conhecida, do modo que explicamos no "o que habita nos céus rirá".
וּפְעָמִים יִקְרֶה הַשְּׂחוֹק כְּשֶׁמְּרַמֶּה אֶת חֲבֵרוֹ. וְסִבַּת הַשְּׂחוֹק מִפְּנֵי הֱיוֹת הַשּׂוֹחֵק מְשַׁעֵר בְּעַצְמוֹ יִתְרוֹן דַּעַת עַל הָאַחֵר. וּמַה שֶּׁאָמְרוּ שֶׁאָדָם שׂוֹחֵק בִּסְגֻלָּה, הַכַּוָּנָה שֶׁסִּבַּת הַתְּנוּעוֹת נֶעֱלֶמֶת, אֲבָל סִבַּת הַשְּׂחוֹק עַל צַד הַלַּעַג יְדוּעָה.
Breve mas elegante, este capítulo aplica o método dos anteriores a um caso específico: o "riso" atribuído a D'us ("o que habita nos céus rirá", Sl 2:4). A chave é que sechok é homônimo — tem dois sentidos distintos: alegria (Abraão "riu", isto é, alegrou-se, ao ouvir a promessa de Isaque — daí o nome Yitzchak) e escárnio (Jó "objeto de riso").
Quando atribuído a D'us, é no sentido de escárnio — e Albo analisa o que torna algo risível: alguém ri quando percebe no outro uma deficiência, um tropeço, uma falha que ele próprio não cometeria. D'us "ri" dos reis que dizem "rompamos as suas cadeias" porque essa rebeldia contra o Criador é tão absurda quanto um filho rebelar-se contra o pai (o midrash sobre Absalão e Gog-Magog). É o riso diante do contra-senso de a criatura desafiar o seu Fazedor.
O toque final é curiosamente científico. Albo distingue dois aspectos do riso. A causa psicológica do riso de escárnio é conhecida: a percepção de uma "vantagem de conhecimento" sobre quem tropeça em ignorância. Mas a causa fisiológica — por que certos movimentos corporais acompanham o riso, ou por que rimos ao sermos tocados nas axilas (as cócegas!) — essa permanece "oculta", uma "propriedade" (segulá) inexplicada. Albo, fiel ao seu rigor, separa o que a razão alcança do que ela ainda não explica — mesmo num detalhe tão humano. E o ponto teológico permanece: o "riso" de D'us, como toda emoção que se lhe atribui, descreve a Sua relação com o absurdo humano, não um afeto real n'Ele.