As três causas da diversidade — forças, matérias, instrumentos — todas faltam em D'us, que é uno e simples. Logo a multiplicidade procede dele pelos intermediários. Albo discute a solução de Avicena, a crítica de al-Ghazali, refuta o dualismo de Mani (bem e mal de dois princípios), mostra que bem e mal vêm de um só princípio, e conclui — com Averróis — que tudo subsiste por ordem e vontade, prova da criação.
1 A diferença das ações e a sua multiplicidade se dá por uma de três causas: ou pela causa da diferença das forças que agem — como agimos com a força do desejo taavá o oposto do que agimos com a força da ira kaas; ou pela causa da diferença das matérias — como o fogo derrete o piche e endurece o sal; ou pela causa da diferença dos instrumentos — como o alfaiate cose com a agulha e corta com a tesoura. E a ação de D'us, bendito seja, é impossível que se multiplique por uma destas três causas, pois ele, bendito seja, é um e simples tal que não há nele multiplicidade de forças, e não há com ele matérias diferentes, nem multiplicidade de instrumentos, a fim de que se achasse a multiplicidade a partir dele. E não resta outra possibilidade senão que a multiplicidade decorra por outra coisa fora destas — e ela é por causa do intermediário ha'emtzai: e isto se dá quando se ordena dele primeiro um só, e daquele um outro, e daquele outro se acha um terceiro — do modo que escrevemos no capítulo 11 — até que se multipliquem os intermediários e se ache a multiplicidade por meio deles. E, se não for deste modo, dirão que não se concebe que se ache a multiplicidade na existência a partir do Nome, conquanto sendo ele um e simples, pois do Uno só se acha a partir dele uma só coisa.
הִתְחַלְּפוּת הַפְּעֻלּוֹת יִהְיֶה לְאַחַת מִשָּׁלֹשׁ סִבּוֹת: הִתְחַלֵּף הַכֹּחוֹת, אוֹ הַחֳמָרִים, אוֹ הַכֵּלִים. וּפֹעַל הָאֵל אִי אֶפְשָׁר שֶׁיִּתְרַבֶּה לְאַחַת מֵאֵלּוּ, כִּי הוּא אֶחָד פָּשׁוּט. וְלֹא יִשָּׁאֵר אֶלָּא שֶׁיִּמָּצֵא הָרִבּוּי מִפְּנֵי הָאֶמְצָעִי, שֶׁיְּסֻדַּר מִמֶּנּוּ אֶחָד, וּמֵאוֹתוֹ אַחֵר.
2 Mas já há dificuldade conforme este caminho, pois decorre que não se ache no mundo coisa alguma composta de partes separadas, mas que todos os existentes sejam "uns", e cada um deles efeito do outro que está acima dele, que é sua causa. E, visto que achamos no mundo o corpo, que é composto de matéria e forma, e o homem, composto de alma e corpo, e a existência de um deles não é causa do outro — pois, se fosse assim, não se acharia um deles sem o outro, mas a existência de ambos vem de outra causa fora deles —, fica anulado que a multiplicidade se ache deste modo apenas.
אֲבָל יִקְשֶׁה, כִּי יִתְחַיֵּב שֶׁלֹּא יִמָּצֵא דָּבָר מֻרְכָּב מִנִּפְרָדִים. וְאַחַר שֶׁאֲנַחְנוּ מוֹצְאִים הַגֶּשֶׁם מֻרְכָּב מֵחֹמֶר וְצוּרָה, וְהָאָדָם מִנֶּפֶשׁ וְגֶשֶׁם, וְאֵין מְצִיאוּת אֶחָד מֵהֶם סִבָּה לָאַחֵר, בֻּטַּל שֶׁיִּמָּצֵא הָרִבּוּי עַל זֶה הַדֶּרֶךְ.
3 Mas Avicena Ibn Sina e os posteriores dentre os filósofos ismaelitas abriram um caminho pelo qual se acha a multiplicidade a partir dos intermediários do modo que dissemos, ao dizerem que em cada um dos efeitos se acha alguma multiplicidade. E isto é assim porque a sua intelecção de si mesmo é diferente da sua intelecção da sua causa, e a sua intelecção de si mesmo e da sua causa é diferente do seu inteligir que é possível de existência no exame de si mesmo, visto que a sua existência está dependente de outro; e deste lado dizem que é possível que venha a multiplicidade — do modo que escrevemos no capítulo 11.
4 E já bateu Abu Hamid al-Ghazali sobre o alto desta opinião, e disse que estas não são senão considerações intelectuais bechinot sichliyot, não assuntos separados tais que decorram deles existentes separados; e, se do lado destas considerações fosse possível que se achasse a multiplicidade, não se precisaria de muitos efeitos, pois já se conceberia que se achasse a multiplicidade a partir da Causa Primeira sem eles — já que o assunto de ser ela aquela que conhece a si mesma é diferente da necessidade de existência que há nela, e diferente de ser ela a que sabe que é princípio para outro; e, assim como estas considerações estão nela de modo tal que não obrigam multiplicidade, que impede que não estejam assim nos efeitos a partir dela? E volta a pergunta no seu mesmo ser: de onde veio a multiplicidade?
וְאַבְּן סִינָא חָתַר דֶּרֶךְ שֶׁבְּכָל אֶחָד מִן הָעֲלוּלִים יִמָּצֵא רִבּוּי מָה, מִצַּד הַשְׂכָּלָתוֹ אֶת עַצְמוֹ וְאֶת עִלָּתוֹ. וְהִכָּה אַבּוּחָמֵד עַל קָדְקֹד זֹאת הַסְּבָרָא, וְאָמַר כִּי אֵינָם אֶלָּא בְּחִינוֹת שִׂכְלִיּוֹת. וְתָשׁוּב הַשְּׁאֵלָה בְּעֵינָהּ מֵאַיִן בָּא הָרִבּוּי.
5 Mas a verdade é que estas considerações não obrigam multiplicidade de modo algum, nem no Princípio Primeiro nem nos efeitos que dele decorrem, a fim de que se influenciem deles os existentes diferentes. E, se é assim, como, então, se acha a multiplicidade a partir do Uno simples? E por causa disto houve dentre os antigos quem pensou que os princípios primeiros são dois, um para o bem e um para o mal, pois diziam "Acaso da boca do Altíssimo não saem as más coisas e o bem?" (Lamentações 3:38), quer dizer, que é impossível que os princípios dos opostos sejam um só; e, porque os opostos universais que abrangem todos os gêneros dos opostos são o bem e o mal, dizem que os princípios são dois — um, o princípio do bem, e um, o princípio do mal. E esta era a opinião de um homem cujo nome era Mani Mani, e por isso se chamaram os que seguiram a sua opinião "hereges" minim — assim como se chamaram os que seguiram a opinião do filósofo Epicuro, que pensava que o mundo não tem condutor e nega a existência de D'us, "epicuristas".
וְהָיָה בַּקַּדְמוֹנִים מִי שֶׁחָשַׁב שֶׁהַהַתְחָלוֹת שְׁתַּיִם, אַחַת לַטּוֹב וְאַחַת לָרַע, ״מִפִּי עֶלְיוֹן לֹא תֵצֵא הָרָעוֹת וְהַטּוֹב״. וְזֶה הָיָה דַּעַת אִישׁ אֶחָד שְׁמוֹ מָאנִי, וְעַל כֵּן נִקְרְאוּ הַנִּמְשָׁכִים אַחֲרָיו מִינִים.
6 E já divergiram os sábios desta opinião por muitos lados, e o mais próprio e mais claro deles, conforme a intenção deste livro, é que, quando se examinam os existentes, vemos que todos eles, no seu conjunto, chegam a um só fim — que é a ordenação que se acha no mundo, como a ordenação que se acha num acampamento por causa do general do exército, e a ordenação que se acha nas cidades por causa dos condutores das cidades; pois, com o facto de a multiplicidade achar-se neles por muitos lados — de muitos ofícios e muitas ações diferentes e muitas chefias diferentes —, visto que todos tendem a um só fim, que é a permanência e a ordenação da cidade ou do acampamento de modo unificado, assim dizemos que, na verdade, o mundo se acha nesta descrição — na existência do bem e do mal — por causa da existência do bem em toda a existência no seu conjunto, e o mal não é visado com uma intenção primeira, mas, na verdade, se renova por acidente bemikreh, como o castigo ou a correção que chega do pai ao filho, pois é um mal que chega por causa do bem, não com a intenção primeira. E isto é assim porque, visto que há na existência coisas boas, é impossível que se achem sem que se ache nelas um mal pouco misturado — como a existência do homem, que é composto de uma alma falante e de uma alma animal, que são a inclinação ao bem yetzer tov e a inclinação ao mal yetzer hara; e foi posta nele a inclinação ao bem para a sobrevivência do indivíduo no que é possível, que é a sobrevivência da alma, e a inclinação ao mal foi posta para a sobrevivência da espécie, tal que é impossível que se ache o homem sem ela; decretou a sabedoria suprema que é cabido que se ache o bem que é muito, ainda que se misture nele mal que é pouco — pois a razão concede que a existência do bem muito com o mal pouco é mais escolhida que a privação do bem muito por causa do mal pouco.
וְהַיּוֹתֵר מְבֹאָר, שֶׁכְּשֶׁיְּעֻיְּנוּ הַנִּמְצָאוֹת נִרְאֶה שֶׁכֻּלָּם יַגִּיעוּ לְתַכְלִית אַחַת, וְהָרַע אֵינוֹ מְכֻוָּן כַּוָּנָה רִאשׁוֹנָה אֲבָל יִתְחַדֵּשׁ בְּמִקְרֶה. כְּמוֹ הָאָדָם הַמֻּרְכָּב מִיֵּצֶר טוֹב וְיֵצֶר הָרַע, וְגָזְרָה הַחָכְמָה שֶׁמְּצִיאוּת הַטּוֹב הָרַב עִם הָרַע הַמּוּעָט יוֹתֵר נִבְחָר.
7 E por isso não decorre, da existência do bem e do mal, que sejam de princípios diferentes; pois já se acha, de um só princípio, o bem do lado de si mesmo e o mal por acidente — como o fogo, do qual decorre o bem a toda a existência inferior na geração de todas as gerações, e já chega dele o mal às vezes, a saber que queima a veste do homem piedoso por acidente.
8 E assim há coisas que, ainda que sejam más em si mesmas, são postas por causa do bem que é possível que decorra delas — como os castigos que põem os que estabelecem as boas convenções, pois, ainda que sejam males em si mesmos, foram postos por causa do bem universal que decorre para o conjunto da nação ou da cidade, a fim de que se encaminhem os homens em direção à felicidade e se unam uns aos outros com uma união completa, e se complete a reunião política nas espécies dos homens diferentes — como o corpo único, em que se acham membros diferentes e partes dotadas de chefias diferentes e qualidades opostas umas às outras, e todas tendem a um só fim, que é a permanência do corpo e a sua união; e acham-se nele coisas prejudiciais ao corpo, por causa da necessidade da matéria, tais que é impossível sem elas.
וְלָזֶה לֹא יִתְחַיֵּב מִמְּצִיאוּת הַטּוֹב וְהָרַע שֶׁיִּהְיוּ מֵהַתְחָלוֹת מִתְחַלְּפוֹת, כִּי כְּבָר יִמָּצֵא מֵהַתְחָלָה אַחַת הַטּוֹב מִצַּד עַצְמוֹ וְהָרַע בְּמִקְרֶה, כְּמוֹ הָאֵשׁ. וְכֵן הָעֳנָשִׁים, אַף עַל פִּי שֶׁהֵם רָעוֹת בְּעַצְמָן, הֻנְּחוּ בַּעֲבוּר הַטּוֹב הַכּוֹלֵל.
9 E por isso concordaram os primeiros filósofos, como diz Ibn Rushd Averróis, que o Princípio é um, com unidade absoluta, e que dele se ordenaram, com uma primeira ordenação, todos os existentes mutáveis e diferentes, para um só fim — que é a permanência de toda a existência e a sua conexão, uns aos outros, até que se una a existência com uma união absoluta; como o chefe na cidade nomeia alguns homens a fim de fazer algum ofício e não outro, para que aquele ofício seja mais perfeito, e nomeia outros a fim de fazer outro ofício e não outro, e assim em todos os ofícios diferentes — e deste modo faz alguns costureiros, e alguns tecelões, e alguns construtores, e completam-se deste modo todos os ofícios necessários à cidade, até que se complete com isto o conserto da cidade; e é toda a multiplicidade dos ofícios influenciada do primeiro chefe, conquanto sendo ele um com unidade absoluta.
10 Assim D'us, bendito seja, conquanto sendo um com unidade absoluta, decorre dele a multiplicidade, e isto não obriga multiplicidade na sua essência. E dizem que a premissa que diz que "do uno só se ordena um" é erística nitzuchit, dialética, e na verdade só é verdadeira no agente particular examinado, mas no Nome, bendito seja, que é o agente universal absoluto — até que o nome "agente" se diz sobre ele e sobre outro por homonímia do nome, pois ele não se particulariza numa ação em vez de outra ação, já que a sua relação para com todas as ações é igual —, diz-se que, na verdade, ele age a multiplicidade das ações particulares diferentes por causa da unidade absoluta, e isto a fim de que se conectem todas as partes da existência umas às outras e que tudo seja um, e a fim de que se achem todos os existentes muitos para um só fim apenas, que é a permanência da existência — como a alma falante que há no homem, conquanto sendo una, age ações diferentes para um só fim, que é a permanência do homem. E deste modo não se ordena dele, bendito seja, senão uma só ação, que é a ordenação universal, e acham-se nela muitos assuntos a fim de conectar todas as partes da existência uma à outra.
וְהִסְכִּימוּ קַדְמוֹנֵי הַפִילוֹסוֹפִים שֶׁהַהַתְחָלָה אַחַת אַחְדוּת גְּמוּרָה, וּמִמֶּנָּה סֻדְּרוּ כָּל הַנִּמְצָאוֹת לְתַכְלִית אַחַת. וְהַהַקְדָּמָה ״מֵאֶחָד לֹא יְסֻדַּר אֶלָּא אֶחָד״ הִיא נִצּוּחִית. וְלֹא יְסֻדַּר מִמֶּנּוּ אֶלָּא פֹּעַל אֶחָד שֶׁהוּא הַסִּדּוּר הַכּוֹלֵל.
11 E dizem que, ainda que os existentes simples tais que não têm dependência da matéria sejam todos causa uns dos outros e subam a uma só causa simples, eis que a multiplicidade dos corpos, na verdade, se acha a partir da multiplicidade destes princípios, a fim de conectar todas as partes da existência uma à outra; pois, se não se achasse esta multiplicidade, a existência seria deficiente e não chegaria dela o fim único e perfeito que dela chega agora; e por causa disto se acha nas esferas a diferença dos movimentos por causa da diferença dos seus princípios, e acha-se em todas o movimento que abrange tudo, que é o movimento diário, para indicar que o seu princípio é um, e que todas sobem a uma só causa, e que toda a diferença dos seus movimentos é para um só fim.
12 Disse Ibn Rushd Averróis que D'us ordenou aos princípios que ordenassem às esferas que se movessem com estes movimentos, e que, pela ordem do Ordenador, subsistiram os céus e a terra — como, pela ordem do primeiro rei na cidade, subsistiram os comandados ordenados por aquele que o rei pôs governante sobre algum assunto dos assuntos da cidade e sobre os que estão nela das espécies dos homens. E esta ordem e crença é a raiz shoresh na ordem e na crença que se impuseram sobre o homem por ser animal vivente falante; este é o teor das palavras de Ibn Rushd nisto, no Livro da Destruição da Destruição.
13 E eis que vês que, após todas estas palavras, Averróis foi forçado a confessar que a permanência dos céus e da terra é por via da ordem e da advertência tzivui ve'azhará, não por via da necessidade; pois nunca se concebeu a existência da coisa material a partir do intelecto limpo de matéria, simples no extremo da simplicidade, por via da necessidade, senão por via da ordem; e isto indica a criação chidush por força — quer dizer, que o mundo se acha e subsiste pela vontade de um querente, como escrevemos no capítulo 3 deste discurso; e é como se a natureza da verdade o forçasse a confessar isto.
אָמַר אַבְּן רֻשְׁד שֶׁהָאֵל צִוָּה אֶל הַהַתְחָלוֹת שֶׁיְּצַוּוּ אֶל הַגַּלְגַּלִּים, וּבְמִצְוַת הַמְצַוֶּה עָמְדוּ הַשָּׁמַיִם וְהָאָרֶץ. וְהֻצְרַךְ לְהוֹדוֹת כִּי קִיּוּם הַשָּׁמַיִם הוּא עַל צַד הַמִּצְוָה לֹא עַל צַד הַחִיּוּב, וְזֶה יוֹרֶה עַל הַחִדּוּשׁ בְּהֶכְרֵחַ.
14 E o que se eleva a nós é — seja conforme a opinião de Avicena e do Rambam, de abençoada memória, seja conforme a opinião de Ibn Rushd que escreveu em nome dos primeiros filósofos — que a multiplicidade das coisas que se acham no mundo é do lado dos intermediários, não do lado de que se ache multiplicidade no Princípio Primeiro de modo algum, pois a sua unidade é uma unidade simples no extremo da simplicidade. E por isso é que nos ordenou na Escritura "Ouve, Israel, o Senhor é nosso D'us, o Senhor é um" (Deuteronômio 6:4) — quer dizer, que creiamos que, com o facto de ele ser nosso D'us, quer dizer, a causa da multiplicidade, eis que ele é um com unidade absoluta. E isto basta na compreensão da raiz da unidade e do que dela pende, dos assuntos, de modo que não obriguem multiplicidade na essência de D'us, bendito seja. E comecemos agora a falar na segunda raiz, que é a de que não é corpo nem força num corpo.
וְהָעוֹלֶה בְּיָדֵינוּ, שֶׁרִבּוּי הַדְּבָרִים הוּא מִצַּד הָאֶמְצָעִיִּים, לֹא מִצַּד שֶׁיִּמָּצֵא רִבּוּי בְּהַתְחָלָה רִאשׁוֹנָה. וְלָזֶה צִוָּנוּ ״שְׁמַע יִשְׂרָאֵל ה׳ אֱלֹהֵינוּ ה׳ אֶחָד״. וְנַתְחִיל עַתָּה לְדַבֵּר בַּשֹּׁרֶשׁ הַשֵּׁנִי שֶׁהוּא שֶׁאֵינוֹ גּוּף.
Albo retoma o problema dos caps. 11–12 e o leva à conclusão. A diversidade das ações tem três causas possíveis — variedade de forças, de matérias, de instrumentos — e nenhuma cabe em D'us, que é simples. Resta a explicação pelos intermediários: a cadeia de efeitos que multiplica gradualmente. Mas há uma objeção séria: no mundo existem compostos (corpo = matéria + forma; homem = alma + corpo) cujas partes não são causa uma da outra — o que o mero esquema de emanação linear não explica.
Albo arbitra o grande debate islâmico. Avicena tenta gerar a multiplicidade pondo no primeiro efeito uma tríplice "consideração" (inteligir-se, inteligir a causa, saber-se possível). Al-Ghazali (Abu Hamid) demole isso: são meras distinções mentais, não realidades que gerem seres — e, se bastassem, a própria Causa Primeira já teria multiplicidade, e a pergunta "de onde vem o múltiplo?" recomeça. Albo concorda: as considerações não geram multiplicidade real.
Esse impasse levou alguns à heresia dualista — dois princípios, um do bem e um do mal (a doutrina de Mani, donde "maniqueus"/minim, como "epicuristas" de Epicuro), apoiada numa leitura de Lamentações 3:38. Albo refuta: todos os existentes convergem para um só fim (a ordem do cosmos), como um exército sob um general. O mal não tem princípio próprio — é acidental (bemikreh), efeito colateral do bem, como o fogo que aquece o mundo mas queima a veste do justo, ou o castigo paterno que é mal a serviço do bem. "A sabedoria suprema decretou que o muito bem com pouco mal é preferível à ausência do bem por causa do pouco mal."
A síntese vem de Averróis: o Princípio é absolutamente um, e dele tudo se ordena para um só fim, como um governante distribui ofícios sem deixar de ser um. A máxima "do uno só procede o uno" é erística — vale para agentes particulares, não para o Agente universal. Mas o lance decisivo é o que Albo extrai contra o próprio Averróis: este foi forçado a admitir que os céus subsistem "por ordem e advertência" (tzivui), não por necessidade — pois jamais o material procede do imaterial por pura necessidade. Ora, isso é confessar a criação (chidush): o mundo subsiste pela vontade de D'us (cap. 3). "Como se a natureza da verdade o forçasse a confessar." Assim Albo encerra a raiz da unidade — toda a multiplicidade vem dos intermediários, jamais da Fonte — e o Shemá sela: Ele é causa do múltiplo e absolutamente Um.