Todos confessam a existência dos anjos, mas divergem sobre o seu número. Os filósofos limitam-nos a dez (intelectos das esferas, distintos só como causa e efeito). Albo, fiel à Torá — que fala de anjos inumeráveis, reais e enviados aos homens —, propõe que os intelectos separados se distinguem pelas suas apreensões, o que permite uma multidão sem fim, sem causa-efeito.
1 Na existência dos anjos malachim há controvérsia entre os filósofos e os sábios da Torá. E isto é assim porque, conquanto todos confessem a sua existência, eis que divergem na sua quididade mahut. Pois os filósofos dizem que, visto que a sua essência é um intelecto simples, é impossível que se conceba a multiplicidade neles, pois não se acha a multiplicidade nas coisas concordes na forma a não ser do lado da matéria hiyuli — já que a multiplicidade em toda coisa é do lado da matéria, e a unidade é do lado da forma, e por isso a unidade é mais nobre que a dualidade; e, porque os anjos, que são os intelectos separados, não são dotados de matéria, não se concebe de modo algum em que haveria a diferença entre eles, exceto se um for causa e um efeito. E conforme isto dizem que o número dos intelectos separados é dez, como o número das esferas, que são nove, ou dez com a matéria de tudo o que está sob a esfera lunar, como dissemos no capítulo anterior.
בִּמְצִיאוּת הַמַּלְאָכִים יֵשׁ מַחֲלֹקֶת. הַפִילוֹסוֹפִים יֹאמְרוּ כִּי אַחַר שֶׁעַצְמוּתָם שֵׂכֶל פָּשׁוּט אִי אֶפְשָׁר שֶׁיְּצֻיַּר הָרִבּוּי בָּהֶם, כִּי הָרִבּוּי מִצַּד הַחֹמֶר וְהָאַחְדוּת מִצַּד הַצּוּרָה. וְלֹא יְצֻיַּר בָּהֶם חִלּוּף אֶלָּא כְּשֶׁיִּהְיֶה הָאֶחָד עִלָּה וְהָאֶחָד עָלוּל.
2 E uma casta dos adeptos da Torá que seguiram esta opinião dizem que o número dos anjos é como o número das esferas que se movem com movimentos diferentes, pois cada uma delas tem um motor intelectivo particular que a move no seu movimento particular; e, porque o número das esferas que é necessário estabelecer a fim de que por elas se completem todos os movimentos visíveis dos astros são quarenta e nove ou cinquenta, será o número dos anjos quarenta e nove ou cinquenta, como o número dos motores. E dizem que esta é a opinião dos nossos mestres, de abençoada memória, que disseram "cinquenta portões do discernimento chamishim shaarei biná foram criados no mundo, e todos foram entregues a Moisés exceto um, como se disse 'e o fizeste pouco menor que D'us' (Salmos 8:6)"; e chamam-nos "portões do discernimento" porque cada um deles é uma apreensão particular por si mesma.
וְכַת מִבַּעֲלֵי הַתּוֹרָה יֹאמְרוּ כִּי מִסְפַּר הַמַּלְאָכִים כְּמִסְפַּר הַגַּלְגַּלִּים, שֶׁהֵם מ״ט אוֹ נ׳ כְּמִסְפַּר הַמְּנִיעִים. ״חֲמִשִּׁים שַׁעֲרֵי בִינָה נִבְרְאוּ בָּעוֹלָם וְכֻלָּם נִמְסְרוּ לְמֹשֶׁה חוּץ מֵאַחַת״.
3 E tudo isto diverge da opinião da Torá, pois precisariam dizer que os anjos enviados aos filhos do homem são assuntos imaginários, não coisas verdadeiras em si mesmas; e a Escritura diz que há uma multiplicidade de anjos existentes em si mesmos, sem que necessariamente sejam enviados aos filhos do homem — como explicaram os nossos mestres, de abençoada memória, sobre o versículo "a carruagem de D'us são duas miríades, milhares de anjos" (Salmos 68:18), e sobre o versículo "mil milhares o serviam" (Daniel 7:10); e diz que há anjos existentes que são enviados aos filhos do homem, como se disse "pois os seus anjos ordenará a teu respeito, a fim de guardar-te em todos os teus caminhos" (Salmos 91:11), e "e o homem Gabriel, que eu vira na visão no princípio, vindo em voo rápido, tocou-me cerca da hora da oferta da tarde" (Daniel 9:21), e ali está escrito "e não há nenhum que se fortaleça comigo nestas coisas senão Miguel, vosso príncipe" (Daniel 10:21) — tudo o que indica que há anjos existentes em si mesmos e enviados aos filhos do homem; e esta opinião é acordada por todos os adeptos das religiões.
וְכָל זֶה חוֹלֵק עַל דַּעַת הַתּוֹרָה, כִּי הַכָּתוּב אוֹמֵר שֶׁיֵּשׁ רִבּוּי מַלְאָכִים נִמְצָאִים בְּעַצְמָם, ״רֶכֶב אֱלֹהִים רִבֹּתַיִם אַלְפֵי שִׁנְאָן״, ״אֶלֶף אַלְפִין יְשַׁמְּשׁוּנֵיהּ״, וְשֶׁמִּשְׁתַּלְּחִים לִבְנֵי אָדָם, ״כִּי מַלְאָכָיו יְצַוֶּה לָּךְ״.
4 E por isso parece que a diferença entre os intelectos separados é do lado da diferença dos seus inteligíveis muskeleihem, conforme o que apreendem dos atributos da perfeição que há nele, bendito seja, sem que um seja causa e um efeito; e haveria ali "intelecto" como que sendo um gênero que abrange todos eles, e a diferença de cada um deles conforme a apreensão ou as apreensões que apreende. E isto não é do que obrigue multiplicidade na essência de algum deles. Pois as coisas — há dentre elas as que são compostas de gênero e diferença na existência, como o homem, que é composto de animalidade vivente e de fala, que são gênero e diferença existentes assim na existência, e por isso ele é composto por força; e há dentre elas as que são compostas de gênero e diferença só no enunciado bemaamar e não na existência, como a negrura, que é uma cor que condensa a visão — e a "cor" é o gênero, e o "condensar a visão" a sua diferença —, e isto não é do que obrigue multiplicidade na essência da negrura de modo algum, pois a negrura não é composta na existência de duas coisas de modo algum, senão só no enunciado.
וְעַל כֵּן נִרְאֶה שֶׁיִּהְיֶה הַהִתְחַלְּפוּת בֵּין הַשְּׂכָלִים מִצַּד הִתְחַלְּפוּת מֻשְׂכְּלֵיהֶם, כְּפִי מַה שֶּׁיַּשִּׂיגוּ מִתָּאֳרֵי הַשְּׁלֵמוּת אֲשֶׁר בּוֹ, מִזּוּלַת שֶׁיִּהְיֶה הָאֶחָד עִלָּה. וְיֵשׁ דְּבָרִים מֻרְכָּבִים מִסּוּג וְהֶבְדֵּל בְּמַאֲמָר בִּלְבַד וְלֹא בִּמְצִיאוּת, כַּשַּׁחֲרוּת.
5 E assim é o assunto nos intelectos separados, a saber que, ainda que sejam compostos no enunciado, isto não é do que obrigue multiplicidade na sua essência. Pois, assim como os adeptos daquela opinião confessam que já recai diferença entre os intelectos separados do lado da diferença das suas ações no mover as suas esferas com movimentos diferentes, ainda que não seja um causa e um efeito — assim diferem do lado da sua apreensão; pois todo o que apreende dos atributos da perfeição que há nele, bendito seja, um ou dois, difere daquele que apreende mais que isto, ou daquele que apreende outros inteligíveis dele, bendito seja, sem que isto obrigue multiplicidade alguma na essência de cada um deles de modo algum. E conforme a diferença dos seus inteligíveis, assim difere o seu poder e a sua ação no mundo; pois, assim como o chefe na cidade nomeia homens sobre alguma chefia conforme a sua perfeição e a sua apreensão, e outros sobre uma chefia maior conforme a grandeza da sua perfeição e da sua apreensão, assim o Nome, bendito seja, nomeia cada um dos anjos sobre um assunto particular conforme a sua apreensão e o seu poder; e por causa disto é que disseram os nossos mestres, de abençoada memória, "um só anjo não faz duas missões" — do que se vê que cada anjo tem uma missão e um poder particular conforme a sua apreensão; e assim dizem "o príncipe do fogo" e "o príncipe da água".
וְכֵן בַּשְּׂכָלִים הַנִּבְדָּלִים, אַף עַל פִּי שֶׁהֵם מֻרְכָּבִים בְּמַאֲמָר אֵין זֶה מְחַיֵּב רִבּוּי. וּכְפִי הִתְחַלֵּף מֻשְׂכְּלֵיהֶם כֵּן יִתְחַלֵּף כֹּחָם וּפְעֻלָּתָם. ״אֵין מַלְאָךְ אֶחָד עוֹשֶׂה שְׁתֵּי שְׁלִיחֻיּוֹת״, וְכֵן ״שַׂר שֶׁל אֵשׁ וְשַׂר שֶׁל מַיִם״.
6 E, visto que os atributos da perfeição que há nele, bendito seja, são muitos ou sem fim, como virá, foi forçoso que se achasse uma grande multiplicidade dos intelectos separados, conforme a diferença da sua apreensão dele, bendito seja, e conforme a diferença do poder dado a eles dele, bendito seja, a fim de agir com ele — sem que um seja causa e um efeito, conquanto sendo eles simples no extremo da simplicidade e conquanto sendo ele, bendito seja, um no extremo da unidade. E esta é uma opinião correta e verdadeira, concordante com a Torá e com a especulação, do modo que explicaremos no capítulo que vem depois deste.
וְאַחַר שֶׁהָיוּ תָּאֳרֵי הַשְּׁלֵמוּת אֲשֶׁר בּוֹ רַבִּים אוֹ בִּלְתִּי בַעֲלֵי תַכְלִית, חֻיַּב שֶׁיִּמָּצֵא רִבּוּי גָּדוֹל מֵהַשְּׂכָלִים הַנִּבְדָּלִים, מִזּוּלַת שֶׁיִּהְיֶה הָאֶחָד עִלָּה וְהָאֶחָד עָלוּל. וְזֶה דַּעַת נָכוֹן וַאֲמִתִּי מַסְכִּים לַתּוֹרָה וְלָעִיּוּן.
Albo expõe um conflito real. Os filósofos raciocinam: os anjos são intelectos puros, sem matéria; ora, a multiplicidade só vem da matéria (a unidade é da forma); logo, intelectos imateriais só podem diferir como causa e efeito. Daí concluem que há apenas dez intelectos (os das esferas). Alguns sábios judeus seguiram-nos, contando 49 ou 50 anjos (os motores de todas as esferas), e identificando-os aos "cinquenta portões do discernimento" do Talmud.
Mas isso colide com a Torá, observa Albo. A Escritura fala de anjos inumeráveis ("duas miríades, milhares", "mil milhares o serviam") e reais, enviados a homens (Gabriel a Daniel, Miguel "vosso príncipe", "os seus anjos ordenará a teu respeito"). Reduzir os anjos a dez forçaria a dizer que os anjos das narrativas bíblicas são "imaginários" — o que toda religião rejeita. A filosofia, neste ponto, não pode ditar a teologia.
A saída engenhosa: os intelectos separados diferem não como causa e efeito, mas pela apreensão (hasagá) — cada um capta um ou outro dos atributos de perfeição de D'us. "Intelecto" funciona como um gênero; a diferença de cada anjo é o que ele apreende. E — eis a sutileza — essa composição "gênero + diferença" é apenas conceitual (no enunciado), não real: como a "negrura" é "cor que condensa a visão" sem por isso ser composta de duas coisas reais. Assim os anjos diferem sem deixarem de ser simples.
A consequência é rica: como os atributos divinos são "muitos ou infinitos", pode haver uma multidão de anjos, cada um conforme o que capta de D'us — sem causa-efeito, mantendo intacta a unidade divina. E o poder de cada anjo corresponde à sua apreensão, como um governante nomeia funcionários conforme a competência de cada um. Daí os ditos rabínicos: "um anjo não faz duas missões", "o príncipe do fogo", "o príncipe da água". Albo conclui que esta é a posição "correta e verdadeira, concordante com a Torá e com a especulação" — mais um exemplo do seu método: aproveitar a filosofia onde ela ajuda, corrigi-la onde contradiz a revelação.