Um atributo que descreve algo por suas ações não obriga multiplicidade na essência do agente — pois de um único agente podem decorrer muitas ações diversas. O fogo, por um só poder (o calor), faz coisas opostas; a alma humana, una, produz ações naturais e voluntárias. Assim D'us pode ser descrito por muitos atributos sem que isso quebre a sua unidade.
1 Do que é claro com pouca especulação é que o atributo toar pelo qual a coisa se descreve do lado das suas ações não obriga multiplicidade na essência do agente de modo algum, pois já é possível que decorram de um único agente muitas ações diferentes; e isto é claro nos dois gêneros dos agentes, seja no agente por natureza, seja no agente por vontade.
הַתֹּאַר שֶׁיְּתֹאַר בּוֹ הַדָּבָר מִצַּד פְּעֻלּוֹתָיו לֹא יְחַיֵּב רִבּוּי בְּעַצְמוּת הַפּוֹעֵל כְּלָל, כִּי אֶפְשָׁר שֶׁיִּמָּשְׁכוּ מִן הַפּוֹעֵל הָאֶחָד פְּעֻלּוֹת רַבּוֹת מִתְחַלְּפוֹת, בִּשְׁנֵי מִינֵי הַפּוֹעֲלִים.
2 No agente por natureza, como o fogo: pois ele derrete algumas coisas e coagula algumas, e cozinha, e queima, e enegrece, e embranquece; e quem não conhece a natureza do fogo pensará que há nele seis forças diferentes, das quais saíram estes seis assuntos diferentes que dissemos — pois acha nele um assunto pelo qual cozinha, e um assunto pelo qual queima, e um assunto pelo qual enegrece, e um assunto pelo qual age o oposto do enegrecer, que é embranquecer a coisa; e acha nele um assunto pelo qual derrete, e outro assunto pelo qual age o oposto e coagula — pois dirá que é impossível que se achem os opostos a partir de um único agente. Mas quem conhece a natureza do fogo compreenderá que, por uma única força que há nele — que é o calor chom —, o fogo age todas estas coisas, e as ações diferem do lado da diferença dos receptores mekablim, sem que isto obrigue multiplicidade na essência do fogo.
בְּפוֹעֵל בְּטֶבַע כְּמוֹ הָאֵשׁ, כִּי הִיא תַּתִּיךְ קְצָת הַדְּבָרִים וְתַקְפִּיא קְצָתָם וּתְבַשֵּׁל וְתִשְׂרֹף וְתַשְׁחִיר וְתַלְבִּין. וּמִי שֶׁיֵּדַע טֶבַע הָאֵשׁ יָבִין כִּי בְּכֹחַ אֶחָד שֶׁהוּא הַחֹם יִפְעַל כָּל אֵלּוּ, וְיִתְחַלְּפוּ הַפְּעֻלּוֹת מִצַּד הַמְקַבְּלִים.
3 E coisa como ela mesma se acha no agente por vontade; pois a força falante koach hamedaber que há no homem, aquela que age por vontade, conquanto sendo una, age ações diferentes: pois por ela o homem adquire as ciências e os ofícios, e conduz as cidades, e rasga e cose, e destrói e constrói, e coisas como estas, muitas, dentre ações opostas ou diferentes — conquanto sendo ela una e simples, pois não há quem diga que a força falante que há no homem seja composta. E assim a alma humana em geral: decorrem dela ações naturais diferentes — como a nutrição, e o crescimento, e a sensação — e ações voluntárias — como as ações da força motriz e da força falante; e não se achou dentre os filósofos quem dissesse que a alma humana é composta. Mas, porque se acha a ação do crescimento por si mesma no vegetal, e a ação da sensação no animal vivente, e a ação da intelecção por si mesma nos intelectos separados, isto leva a pensar que a alma humana é composta — como escreveram alguns dos médicos, a saber que no homem há três almas; e não é assim, pois a alma humana é una, e decorrem dela ações diferentes.
וּבְעַצְמוֹ יִמָּצֵא בְּפוֹעֵל בְּרָצוֹן, כִּי הַכֹּחַ הַמְדַבֵּר שֶׁבָּאָדָם עִם הֱיוֹתוֹ אֶחָד יִפְעַל פְּעֻלּוֹת מִתְחַלְּפוֹת, כִּי בּוֹ יִקְנֶה הַחָכְמוֹת וְיַנְהִיג הַמְּדִינוֹת וְיִקְרַע וְיִתְפֹּר. וְהַנֶּפֶשׁ הָאֱנוֹשִׁית אַחַת, יִמָּשְׁכוּ מִמֶּנָּה פְּעֻלּוֹת מִתְחַלְּפוֹת.
4 E esta coisa explicou-a o Rambam, de abençoada memória, na abertura do Comentário a Pirkei Avot, e trouxe um exemplo a isto de três lugares escuros: num acendeu-se a lâmpada e iluminou, e num brilhou a luz da lua e iluminou, e num brilhou o sol e iluminou; a saber que, ainda que em cada um destes lugares se ache a luz, que é a coisa que faz sair a visão do potencial ao ato, e que o nome "luz" se diz sobre eles por concordância e sem anterioridade nem posterioridade — de todo modo, visto que as suas causas não são iguais, são diferentes no exame das suas causas. E assim a força do crescimento e da sensação que se acham no homem não é a força do crescimento e da sensação que se acham no animal vivente e no vegetal; mas da alma do homem decorrem aquelas ações, como decorrem da alma do jumento e da alma da águia, conquanto as suas causas sejam diferentes. E disse ainda ali que não há um assunto que as reúna senão a homonímia do nome shituf hashem apenas; e disse ainda no fim das suas palavras: "E compreende este assunto, que é muito maravilhoso, no qual tropeçam muitos dos que filosofam, e decorrem dele conclusões afastadas e opiniões não verdadeiras"; até aqui as suas palavras ali.
וְזֶה בֵּאֵר הָרַמְבַּ״ם בִּפְתִיחַת פֵּרוּשׁ אָבוֹת, וְהֵבִיא מָשָׁל מִשְּׁלֹשָׁה מְקוֹמוֹת אֲפֵלִים: בְּאֶחָד הֻדְלַק הַנֵּר, וּבְאֶחָד זָרַח אוֹר הַיָּרֵחַ, וּבְאֶחָד זָרַח הַשֶּׁמֶשׁ. וְאָמַר שֶׁאֵין עִנְיָן יְקַבְּצֵם אֶלָּא שִׁתּוּף הַשֵּׁם בִּלְבַד.
5 E vê-se das suas palavras que já é possível que se ache um único existente do qual decorram dele muitas ações diferentes, algumas naturais e algumas voluntárias; e quem não compreende o assunto da alma humana que há no homem pensará que as muitas ações só decorrem de muitas forças diferentes; e quem medita o assunto da força falante e entende que, conquanto sendo una e simples e não havendo multiplicidade nela, dizemos sobre o homem que ele construiu tal casa e tal cidade e a destruiu, e conquistou tal cidade, e inventou tal ciência, e tudo isto não obriga multiplicidade na essência da força falante de modo algum — compreenderá como decorrem de um único agente muitas ações diferentes. E, se isto se acha nos agentes sensíveis fracos que estão junto a nós, com muito mais razão se acha isto no respeito do Agente Primeiro, que é a causa de todas as ações naturais e voluntárias; e por isso dizemos que, ainda que alcancemos que decorrem dele, bendito seja, muitas ações diferentes, isto não é do que obrigue multiplicidade nele, bendito seja.
וְנִרְאֶה שֶׁאֶפְשָׁר שֶׁיִּמָּצֵא נִמְצָא אֶחָד יִמָּשְׁכוּ מִמֶּנּוּ פְּעֻלּוֹת רַבּוֹת מִתְחַלְּפוֹת. וְאִם נִמְצָא זֶה בַּפּוֹעֲלִים הַחֲלוּשִׁים, כָּל שֶׁכֵּן בְּחֹק הַפּוֹעֵל הָרִאשׁוֹן. וְאֵין זֶה מְחַיֵּב רִבּוּי בּוֹ יִתְבָּרַךְ.
6 E por isso o que é mais correto junto aos que meditam é descrever o Nome por estes atributos diferentes do lado das ações diferentes — seja em receptores diferentes, como a força do crescimento no vegetal e a força da vida no animal vivente, seja num único receptor, como ser Ele clemente e misericordioso numa vez e vingador e rancoroso noutra vez a um mesmo homem ou a um mesmo povo —, e coisas como estes atributos que indicam as ações que decorrem dele. E por causa disto dizemos que, ainda que o descrevamos em si mesmo com algum atributo do lado da ação que vimos decorrer dele, isto não é do que obrigue multiplicidade nele. Pois, quando o descrevemos como sendo vivo chai no exame da ação que decorre dele — que é a vida a todos os viventes —, isto não obriga multiplicidade na sua essência, bendito seja, pois a intenção é dizer que, porque vemos a vida decorrer dele, julgamos que com ele está a fonte da vida a fim de fazer decorrer a vida a todos os viventes, e por isso o descrevemos como sendo vivo, conforme as palavras da Escritura "pois contigo está a fonte da vida" (Salmos 36:10).
7 E assim também julgamos que a luz or está com ele, do lado em que vemos que "na sua luz vemos a luz" (Salmos 36:10), pois ele é o que dá a força para ver a luz e é o que faz sair a visão do potencial ao ato; e assim em todas as perfeições, julgamos que estão junto a ele do lado de serem elas decorrentes dele — à maneira do que disse o salmista "aquele que planta o ouvido, porventura não ouvirá? Aquele que forma o olho, porventura não enxergará?" (Salmos 94:9).
וּכְשֶׁתֵּאַרְנוּ אוֹתוֹ בְּשֶׁהוּא חַי, הַכַּוָּנָה כִּי לְפִי שֶׁאָנוּ רוֹאִים הַחַיִּים נִמְשָׁכִים מִמֶּנּוּ, נִשְׁפֹּט שֶׁעִמּוֹ מְקוֹר חַיִּים, ״כִּי עִמְּךָ מְקוֹר חַיִּים״. וְכֵן ״בְּאוֹרְךָ נִרְאֶה אוֹר״. ״הֲנֹטַע אֹזֶן הֲלֹא יִשְׁמָע אִם יֹצֵר עַיִן הֲלֹא יַבִּיט״.
8 E por este caminho já o descrevemos como sendo sábio chacham no exame das ações que vemos decorrerem dele com uma sabedoria maravilhosa e uma grande ordenação, o que indica o achar-se junto a ele a sabedoria. E conforme isto já se descreve com atributos diferentes do lado de todas as ações diferentes que vemos decorrerem dele, sem que isto obrigue multiplicidade na sua essência. E assim já se descreve com atributos diferentes do lado de relações diferentes yechasim e adições diferentes — como dizemos que o Nome está perto do homem ou longe dele; disse a Escritura "perto está o Senhor dos quebrantados de coração" (Salmos 34:19), "longe está o Senhor dos ímpios" (Provérbios 15:29), já que a proximidade e o afastamento não são senão do lado do homem, que se aproxima do Nome ou se afasta dele — como disseram os nossos mestres, de abençoada memória, "'o Senhor, o Senhor' (Êxodo 34:6): eu sou ele antes de o homem pecar, e eu sou ele depois de o homem pecar", quer dizer, que a mudança não está nele, bendito seja, senão no homem; pois antes de pecar tem uma relação para com o Nome, e depois de pecar tem outra relação, já que se afasta dele — como a árvore, que está perto de Rúben numa vez e longe dele noutra, e a leste de Rúben numa vez e a oeste dele noutra, e a mudança não está na árvore, senão em Rúben. Ou que digamos que o Nome, bendito seja, é Formador, e Agente, e Rei, e Senhor e coisas como estes, pois isto é do que não obriga multiplicidade nem mudança na sua essência — assim como não obriga multiplicidade em Rúben o dizermos sobre ele que é filho de Jacó, e irmão de Simeão, e pai de Enoque, e sócio de Naftali, e dono do boi, e dono da cova: pois todos estes, sem dúvida, são atributos que não obrigam multiplicidade em Rúben — já que a multiplicidade não está na própria essência de Rúben, mas são atributos do lado das coisas a que se atribui ou a que se relaciona.
וְכֵן יְתֹאַר בִּתְאָרִים מִתְחַלְּפִים מִצַּד יְחָסִים מִתְחַלְּפִים, ״קָרוֹב ה׳ לְנִשְׁבְּרֵי לֵב, רָחוֹק ה׳ מֵרְשָׁעִים״, שֶׁאֵין הַשִּׁנּוּי בּוֹ אֶלָּא בָּאָדָם. כְּמוֹ הָאִילָן הַקָּרוֹב לִרְאוּבֵן פַּעַם וְרָחוֹק מִמֶּנּוּ פַּעַם, וְאֵין הַשִּׁנּוּי בָּאִילָן אֶלָּא בִּרְאוּבֵן.
9 E assim se descreve com atributos diferentes por considerações diferentes bechinot — como o nosso dizer sobre D'us, bendito seja, que é querente, ou sábio, ou capaz: a saber que a intenção não é dizer que há nele um atributo pelo qual pode criar, e outro atributo pelo qual quis, e outro atributo pelo qual criou, e outro atributo pelo qual conheceu o que criou — assim como não dizemos que há nele um atributo pelo qual criou os elementos, e outro atributo pelo qual criou as esferas, e um atributo pelo qual criou os anjos, e outro atributo pelo qual criou os homens, já que todas estas são ações diferentes que decorrem de um único agente, como dissemos. Mas, porque todo agente perfeito é impossível que aja alguma ação se não puder agir, e não souber agir, e não quiser agir, dizemos que ele é querente e capaz e sabedor; e estas são considerações diferentes no agente que não obrigam multiplicidade nele.
10 E por estes caminhos é que o Nome se descreve com atributos diferentes — seja do lado das ações diferentes do lado dos receptores, seja do lado das ações diferentes em si mesmas, ou do lado das relações e das adições a que se relaciona, ou do lado das considerações diferentes; pois todos estes não obrigam multiplicidade nele, bendito seja, e todos são permitidos no seu respeito. E é este o caminho da Torá e dos Profetas nos atributos que se lhe atribuem, bendito seja. Mas, se é possível que se descreva o Nome com atributos diferentes do lado de si mesmo mitzad atzmo, eis que isto é do que investigaremos, com a ajuda do Nome, bendito seja.
וְכֵן יְתֹאַר בִּבְחִינוֹת מִתְחַלְּפוֹת, כִּי כָּל פּוֹעֵל שָׁלֵם אִי אֶפְשָׁר שֶׁיִּפְעַל אִם לֹא יוּכַל וְיֵדַע וְיִרְצֶה, וְאֵלּוּ בְּחִינוֹת שֶׁלֹּא יְחַיְּבוּ רִבּוּי. וְזֶהוּ דֶּרֶךְ הַתּוֹרָה וְהַנְּבִיאִים בַּתְּאָרִים. אֲבָל אִם אֶפְשָׁר שֶׁיְּתֹאַר מִצַּד עַצְמוֹ, זֶה נַחְקֹר עָלָיו.
Eis o coração da teologia filosófica medieval. Se D'us é absolutamente um (cap. 6–7), como a Torá pode chamá-lo sábio, vivo, poderoso, misericordioso, vingador? Cada atributo parece acrescentar algo à essência, quebrando a unidade. A solução de Albo — herdada de Maimônides — distingue atributos que descrevem a essência (problemáticos) dos que descrevem a ação (inofensivos): "um atributo pela ação não obriga multiplicidade no agente".
As duas analogias são luminosas. O fogo, por uma única força (o calor), derrete e coagula, enegrece e embranquece — efeitos opostos! Quem não conhece sua natureza imagina seis forças distintas; quem a conhece vê que a diversidade vem dos receptores, não do fogo. A alma humana, una e simples, nutre, sente, raciocína, constrói cidades e inventa ciências — e ninguém a chama composta. Maimônides (intro a Avot) ilustra com três quartos escuros iluminados por vela, lua e sol: a "luz" é a mesma palavra, mas as causas diferem — só a homonímia (shituf hashem) os une.
O argumento é a fortiori: se até agentes fracos e sensíveis produzem multiplicidade de efeitos sem multiplicidade interna, quanto mais o Agente Primeiro, causa de toda ação. Chamá-lo "vivo" significa apenas que d'Ele flui a vida ("contigo está a fonte da vida"); "sábio", que d'Ele flui a ordem maravilhosa do mundo; "que vê", porque "quem forma o olho não enxergaria?". Os atributos descrevem o que emana de D'us, não partes d'Ele.
Albo sistematiza em quatro os modos pelos quais a Escritura atribui sem comprometer a unidade: (1) ações diversas pela diversidade dos receptores (crescimento no vegetal, vida no animal); (2) ações diversas em si a um mesmo objeto (clemente e vingador ao mesmo povo); (3) relações — "perto dos quebrantados, longe dos ímpios": a mudança está no homem que se aproxima ou afasta, como a árvore "perto" ou "longe" de Rúben (belíssima a leitura de "Eu sou o mesmo antes e depois de o homem pecar"); e como "Rúben" é filho, irmão, pai, sócio, dono — muitos títulos, um só Rúben; (4) considerações — querente, capaz, sabedor são aspectos sob os quais vemos um único ato. Estes quatro são "o caminho da Torá e dos Profetas". Fica em aberto, para os capítulos seguintes, a pergunta mais difícil: e os atributos que descrevem D'us em si mesmo?