Sefer HaIkkarim · Maamar II · Capítulo 6

O existente necessário e suas quatro raízes

מַאֲמָר ב, פֶּרֶק ו
Rabi Yosef Albo (séc. XV) · hebraico de domínio público (Sefaria) · tradução fiel PT-BR

O que todo crente deve crer neste princípio: que há no mundo um existente necessário por si mesmo, sem causa e sem semelhante, causa de todos os existentes. "Existente", dito d'Ele e das criaturas, não é um gênero comum — só a Ele a existência é verdadeira. E deste princípio decorrem as quatro raízes: unidade, incorporeidade, independência do tempo, ausência de deficiências.

§ 1 · O conteúdo da crença

1 Aquilo que cabe que o creia todo adepto de uma religião neste princípio, que é a existência do Nome, conforme o que se explicou na demonstração, é que há no mundo um existente necessário de existência por si mesmo mechuyav hametziut be'atzmo tal que não tem causa nem semelhante a ele, e ele é causa de todos os existentes, e nele está a permanência da sua existência, e a permanência da sua existência não está dependente deles nem de outro; e ele é o D'us, bendito seja.

מַה שֶּׁרָאוּי שֶׁיַּאֲמִינֵהוּ כָּל בַּעַל דָּת בָּעִקָּר הַזֶּה הוּא שֶׁיֵּשׁ בָּעוֹלָם נִמְצָא מְחֻיַּב הַמְּצִיאוּת בְּעַצְמוֹ שֶׁאֵין לוֹ עִלָּה וְלֹא דּוֹמֶה לוֹ, וְהוּא עִלַּת כָּל הַנִּמְצָאִים, וְהוּא הָאֱלוֹהַּ.

§ 2–3 · "Existente" não é um gênero

2 E este assunto dá uma compreensão representativa ao que se confirmou na demonstração nos capítulos passados. E o que cabe que se compreenda deste princípio é que, assim como a definição ou o sinal descritivouma compreensão representativa daquilo que tem definição ou sinal, assim a palavra "existente" nimtza, neste lugar, é como um gênero sug que abrange todos os existentes; e o que dissemos, "necessário de existência por si mesmo", é a diferença essencial hevdel atzmi que há entre ele e os outros dentre os existentes. E as coisas que decorrem disto — que são a de que não tem causa, nem coisa semelhante a ele, e as demais coisas — não são senão a explicação da necessidade de existência por si mesmo, a fim de que se complete a compreensão representativa daquilo que é possível que se represente da sua existência, bendito seja.

3 Mas, conforme a verdade, isto não é definição nem sinal, pois ele, bendito seja, não tem definição, que a definição é composta de gênero e diferença, e a palavra "existente" não é um gênero tal que se diga sobre todos os seus sujeitos por concordância behaskamá, como é o feitio do gênero ser assim; pois não há no mundo um gênero que o abranja com outro, que não se diz "existente" sobre o D'us, bendito seja, e sobre outro por concordância — pois a existência verdadeira é dele, bendito seja, e a existência dos demais existentes é adquirida da sua existência. E, visto que "existente" não é um gênero que o abranja, bendito seja, e ao seu outro, ele não tem diferença. E por causa disto aquilo que se diz sobre ele, bendito seja, a saber que não semelhante a ele nem igual a ele, são palavras que indicam apenas a alteridade hazulatiyut — quer dizer, que ele, bendito seja, é outro que os existentes, que todos adquiriram a existência dele e não têm existência sem ele, e a sua existência não está dependente da existência deles.

מִלַּת ״נִמְצָא״ הוּא כְּסוּג שֶׁכּוֹלֵל כָּל הַנִּמְצָאִים, וְ״מְחֻיַּב הַמְּצִיאוּת בְּעַצְמוֹ״ הוּא הַהֶבְדֵּל. אֲבָל לְפִי הָאֱמֶת אֵין לוֹ גֶּדֶר, כִּי ״נִמְצָא״ אֵינוֹ סוּג שֶׁיֵּאָמֵר עַל הָאֵל וְעַל זוּלָתוֹ בְּהַסְכָּמָה, כִּי הַמְּצִיאוּת הָאֲמִתִּי הוּא אֵלָיו, וּמְצִיאוּת זוּלָתוֹ קָנוּי מִמֶּנּוּ.

§ 4–5 · A unidade decorre do princípio

4 E deste princípio se ramificam as quatro raízes que contamos no Maamar I, tais que todo o que nega uma delas é como quem nega o princípio; e são a unidade, e o afastamento da corporeidade, e que não tem dependência do tempo, e que ele, bendito seja, é removido das deficiências.

5 Quanto à unidade achdut, é claro do seu assunto que é necessária ao princípio da existência do Nome e se ramifica dele, do modo que explicamos nas demonstrações; pois, se não fosse um, mas dois ou mais, haveria em cada um deles por força dois assuntos — o assunto da necessidade de existência e o assunto pelo qual se distingue do outro —, e seria, então, composto, e a sua composição seria causa da sua existência, e não seria, então, necessário de existência por si mesmo.

וּמִן הָעִקָּר הַזֶּה יִסְתָּעֲפוּ הַד׳ שָׁרָשִׁים. הָאַחְדוּת מְבֹאָר שֶׁאִם לֹא הָיָה אֶחָד אֶלָּא שְׁנַיִם, הָיָה בְּכָל אֶחָד שְׁנֵי עִנְיָנִים, וְיִהְיֶה מֻרְכָּב, וְלֹא יִהְיֶה מְחֻיַּב הַמְּצִיאוּת בְּעַצְמוֹ.

§ 6 · A incorporeidade

6 E quanto a que não é corpo nem força num corpo, é claro também ser necessário ao princípio da existência do Nome e ramificar-se dele deste modo também. E isto é assim porque todo corpo é composto de matéria e forma, e em todo composto a sua composição é causa da sua existência, e a questão volta à demonstração da unidade. E, ainda que digamos que nem todo corpo, do lado de ser corpo, é composto de matéria e forma por força — mas que o corpo, do lado de ser corpo, não tem nele composição alguma e é um na definição, e a verdade é como era a opinião dos antigos nisto, e também Ibn Rushd Averróis escreveu no tratado 11 da Metafísica que esta é a opinião de Aristóteles, e que a composição não é necessária em todos os corpos, e diz que o corpo celeste é um de todo modo sem nenhuma composição, e disse ali também que a composição que sentimos nos corpos não é senão do lado da forma específica tzurá minit que reside no corpo; e conforme isto seria possível dizer que o D'us fosse corpo, conquanto sendo um —, mesmo assim, se fosse corpo, decorreria que fosse finito baal tachlit por força, e teria semelhante, pois seria semelhante nisto aos demais corpos, e a sua força seria finita; e ele, bendito seja, não tem semelhante, como dissemos. E ainda, porque o corpo não move um corpo senão movendo-se ele também quando o move; e, se é movido, precisa de outro motor fora dele tal que não seja corpo, e esse motor seria o necessário de existência, e não o corpo.

וְשֶׁאֵינוֹ גּוּף, כִּי כָּל גֶּשֶׁם מֻרְכָּב מֵחֹמֶר וְצוּרָה. וְאַף אִם נֹאמַר כְּדַעַת אֲרִיסְטוֹ שֶׁאֵין הַהַרְכָּבָה הֶכְרֵחִית בְּכָל הַגְּשָׁמִים, מִכָּל מָקוֹם אִם הָיָה גּוּף יִתְחַיֵּב שֶׁיִּהְיֶה בַּעַל תַּכְלִית וְיִהְיֶה לוֹ דּוֹמֶה, וְהוּא אֵין לוֹ דּוֹמֶה. וְעוֹד שֶׁהַגּוּף לֹא יָנִיעַ אֶלָּא בְּשֶׁיִּתְנוֹעֵעַ הוּא גַם כֵּן.

§ 7–8 · Independência do tempo e ausência de deficiências

7 E quanto a que não tem dependência do tempo, é claro também que é necessário ao princípio da existência do Nome e se ramifica dele. E isto é assim porque, se caísse sob o tempo, não seria, então, causa de todos os existentes, pois o tempo seria anterior a ele, e seria um existente depois de não ter sido, e precisaria de quem o fizesse sair, e não seria, então, causa de tudo. E, se fosse existente com o tempo sempre, eis que não seria necessário de existência por si mesmo, mas por outro, que é o tempo — a não ser que o tempo seja a duração não-medida hemshech bilti meshu'ar tal que é impossível sem ela a eternidade. E assim, se não fosse eterno, haveria nele possibilidade de inexistência, e o que é possível de inexistência não é necessário de existência. E, em geral, se tivesse dependência do tempo, a sua existência estaria dependente da existência do tempo e não seria necessário de existência por si mesmo.

8 E explica-se também facilmente que o ser ele, bendito seja, removido das deficiências é necessário ao princípio da existência do Nome, porque, se fosse deficiente, precisaria de outro, e não seria, então, necessário de existência por si mesmo, mas por outro.

וְשֶׁאֵין לוֹ הִתְלוּת בַּזְּמָן, שֶׁאִם נָפַל תַּחַת הַזְּמָן לֹא יִהְיֶה עִלַּת הַכֹּל, כִּי הַזְּמָן הָיָה קוֹדֵם לוֹ. וּמְבֹאָר גַּם כֵּן שֶׁהוּא מְסֻלָּק מִן הַחֶסְרוֹנוֹת, שֶׁאִם הָיָה חָסֵר הָיָה מִצְטָרֵךְ אֶל זוּלָתוֹ, וְלֹא יִהְיֶה מְחֻיַּב הַמְּצִיאוּת בְּעַצְמוֹ.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

Do argumento à crença formulável

Tendo demonstrado a existência de D'us (caps. 4–5), Albo agora destila o resultado numa fórmula de fé acessível: D'us é "o existente necessário por si mesmo, sem causa e sem semelhante, causa de todos os existentes". Esta frase dá uma "compreensão representativa" — não a essência (inacessível), mas uma descrição que o crente pode segurar.

Por que "existente" não é um gênero comum

O ponto mais sutil e filosoficamente profundo: parece que poderíamos definir D'us dizendo que o "gênero" é existente e a "diferença" é necessário por si. Mas Albo corrige — D'us não tem definição alguma, pois a palavra "existente" não é um gênero verdadeiro. Um gênero aplica-se a seus membros "por concordância" (no mesmo sentido); mas "existente" não se diz de D'us e das criaturas no mesmo sentido: só a D'us a existência é verdadeira e própria; as criaturas têm existência adquirida dele. É a doutrina da analogia do ser. Consequência: quando dizemos "não há semelhante a Ele", isso não é uma diferença dentro de um gênero — é pura alteridade, a afirmação de que Ele é radicalmente Outro, fonte de todo existir.

As quatro raízes como teoremas

A segunda metade demonstra que as quatro raízes do primeiro princípio não são acréscimos, mas corolários da necessidade de existência. Unidade: dois necessários teriam de diferir em algo, logo seriam compostos, logo não necessários. Incorporeidade: corpo é composto (e mesmo concedendo, com Averróis, que nem todo corpo seja composto, um corpo seria finito, teria semelhante, e — movendo — teria de ser movido por outro). Independência do tempo: estar no tempo é depender dele, ou ter começado, ou poder não-existir — tudo incompatível com a necessidade. Ausência de deficiências: o deficiente precisa de outro para se completar. Tudo flui da mesma fonte: ser necessário por si exclui qualquer dependência, composição ou limite. O capítulo demonstra a coerência interna de todo o sistema — o primeiro princípio e suas raízes formam um único bloco lógico inquebrantável.